Peregrinaçam/XXXVII

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. XXXVII. Do que paſſamos os tres companheyros deſpois que nos metemos pelo mato dentro.


O

S tres companheyros q̃ eſcapamos daq̃lla deſauentura, vendonos aſsi feridos, & ſem remedio nenhum, nos puſemos todos a chorar, & darmos muytas bofetadas em nòs, como homẽs deſaſsiſados, & paſmados, do que tinhamos viſto auia menos de meya hora, & deſta maneyra paſſamos aquelle triſte dia. E vendo que a terra aly era alagadiça, & cheya de muytos lagartos & cobras, ouuemos que o melhor conſelho era deixarmonos aly ficar tambem aquella noite, a qual paſſamos atolados na vaſa atê os peitos, & ao outro dia, ſendo ja menham clara nos fomos ao longo do rio atè hum eſteiro pequeno, que nos não atreuemos a paſſar, aſsi por ſer muyto fundo, como pela grande ſoma de lagartos que nelle vimos: & aly paſſamos tambem a noite com aſſaz de trabalho, no qual continuamos mais cinco dias, ſem podermos yr atras nẽ adiãte, por ſer tudo apaulado, & cheyo de grandes eruaçais, & neſte tẽpo nos falleceo hum dos companheyros, por nome Baſtião Anriquez homem muyto honrado & rico, & que na lanchara perdera orto mil cruzados. Os outros dous que ficamos ſomente, que eramos Chriſtouão Borralho & eu, nos puſemos a chorar à
borda do rio encima do morto mal enterrado, & ja neſte tempo tão fracos que nem fallar podiamos, & com determinação de acabarmos aly eſſas poucas horas que cuydauamos q̃ nos ficauão de vida. Ao outro dia que era o ſetimo de noſſa deſauẽtura, ja quaſi ſol poſto vimos vir a remo pelo rio acima hũa barcaça carregada de ſal, & perlongando de jũto de nos, pidimos de joelhos aos remeyros q̃ nos quiſeſſem tomar, elles quando nos virão, pararão hum pouco, cos olhos poſtos em nòs, como eſpantados de nos verem da maneyra que eſtauamos em joelhos, & com as mãos leuantadas, como quem fazia oração, & ſem nos reſponderem, fizeraõ moſtra de quererem ſeguir ſeu caminho, a q̃ ambos gritando em altas vozes, tornamos a pedir com muytas lagrimas que nos não deixaſſem aly morrer. Ao tom deſtes noſſos brados ſahio de debaixo do toldo hũa molher ja de dias, que no aſpeito & na grauidade de ſua peſſoa moſtraua bem ſer quem deſpois ſoubemos que era, a qual em nos vendo da maneyra que eſtauamos, como quem ſe apiadaua de nòs, & ſe condohia de noſſa deſaueutura, &das feridas que lhe moſtramos, tomando hum pao na mão, fez chegar a barcaça a terra, & por tres ou quatro vezes deu nos marinheyros com elle, porque refuſauão. E ſaltando ſeis delles em terra nos tomarão ás coſtas, & nos meterão dentro. Eſta honrada molher em nos vendo aſsi feridos, & com as camiſas & calçoẽs enuoltos em lama & em ſangue, nos mãdou logo lauar com muytos baldes de agoa, & dar a cada hum ſeu panno com que por então nos cubrimos, & fazendonos aſſentar junto de ſy, nos mandou trazer de comer, & ella meſma nolo dôs diante por ſua mão, & nos diſſe, comey vosoutros pobres eſtrangeyros, & não vos deſconſoleys por vos verdes deſſa maneyra; porque aquy eſtou eu, q̃ ſou molher & não tão velha que paſſe de cinquenta annos, & ha menos de ſeis que me vy catiua & roubada de mais de cem mil cruzados que tinha de meu, & com tres filhos mortos, & hum marido a quem queria mais q̃ aos olhos com que o via, & todos aſſi pay como filhos, & dous irmãos, & hum genro vy deſpedaçados nas trombas dos alifames del Rey de Sião, & cõ vida cauſada & triſte coey todos eſtes males & delgoſtos, & outros quaſi tamanhos, quais forão ver pela meſma maneyra tres filhas donzeſtas, & minha mãy, & meu pay, & trinta & dous parentes meus ſobrinhos & primos, metidos em fornos aceſos, dando tamanhos gritos que rompião o Ceo, paraque Deos os valeſſe naquelle tormento tão inſofriuel, mas forão meus peccados tamanhos que cerrarão as orelhas à clemencia infinita do Senhor de todos os ſenhores, paraque não ouuiſſe eſta petição que a mim parecia ſer juſta, mas na verdade o que elle ordena iſſo he o milhor. A iſto lhe reſpondemos nós que por peccados noſſos permitira Deos vermonos daquella maneyra: que ella, tambem com

muytas lagrimas, que lhe não faltauão então aſsi como a nós, diſſe, bom he ſempre em voſſas aduerſidades juſtificardes os toques da mão do Senhor, porque neſſa verdade confeſſada de boca, & crida de coracão, com conſtãcia firme & limpa, eſtà muytas vezes o premio de noſſos trabalhos. E diſcorrẽdo aſsi por ſua pratica, nos perguntou pela cauſa da noſſa deſauetura, & de que maneyra vieramos ter a aquelle miſerauel eſtado: nòs lhe contamos então tudo o como paſſara, mas que não conheceramos que gente era a que nos fizera aquillo, nẽ ſabiamos a rezão porque no lo fizera. A iſto reſponderão os ſeus, que aquelle junco grande que diziamos era de hum Mouro Guzarate por nome Coja Acem, q̃ aquella menham ſayra do rio, & que hia carregado de Braſil para a ilha de Ainaõ. A honrada dona, batendo então nos peitos, por ſinal de grande eſpãto, diſſe, que me matem, ſe aſsi não he, porque eſſe Mouro que vos outros dizeis ſe gabaua publicamente a quem o queria ouuir, que da geração deſtes homẽs de Malaca tinha mortos por algũas vezes hũa grande ſoma, & que lhe queria tamanho mal que tinha prometido ao ſeu Mafamede de matar inda outros tantos. Nós, eſpantados de hũa coufa tão noua, lhe reſpondemos, que lhe pediamos que nos diſſeſſe que homem era aquelle, ou porque dezia que nos queria tamanho mal: a que ella diſſe, que do porque não ſabia mais que dizer elle que hũ noſſo grande Capitão por nome Eitor da Sylueira, lhe matara ſeu pay, & dous irmãos, em hũa nao que lhe tomara no eſtreito de Meca, vindo de Iudaa para Dabul. E por todo o caminho nos foy cõtando outras muytas particularidades do grande odio que nos tinha aquelle Mouro, & do q̃ em noſſo vituperio contaua de nos.