Pesquisando/VI

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Pesquisando por Salvatore D’ Onofrio
Capítulo VI: Metodologia aplicada ao estudo da literatura


Análise do Texto literário

A matéria dos capítulos até agora estudada diz respeito à elaboração de qualquer tipo de trabalho intelectual, não importando a área de conhecimento. Apontamos as normas gerais para a construção lógica de um texto científico e refletimos sobre as atividades de ensino e de pesquisa que envolvem o cotidiano de docentes e discentes de ciências exatas, biológicas ou humanas. É preciso, porém, deixar bem claro que não existe um método único, uma fórmula mágica que, uma vez aprendida e aplicada, possa dar conta da confecção de qualquer trabalho intelectual. A nosso ver, além do conhecimento dos princípios gerais, cada área de conhecimento deveria formular suas linhas metodológicas específicas e, dentro dessas, o pesquisador deveria encontrar o caminho mais apropriado para o desenvolvimento do tema escolhido. O problema metodológico implica, portanto, um processo de afunilamento: o pesquisador deve conhecer, primeiro, os conceitos e normas gerais da metodologia do trabalho científico; em segundo lugar, os vários enfoques possíveis específicos de sua área de conhecimento; e, por último, entre estes, escolher o tipo de abordagem mais apto à natureza e à finalidade do trabalho a ser realizado.

Para demonstrarmos como funciona essa proposta metodológica, após a exposição dos princípios gerais, apresentamos em seguida os vários enfoques possíveis de uma obra dentro da área de conhecimento de nossa competência, a literatura, e, no capítulo final, a parte prática, por meio do exercício da análise e interpretação de um texto literário específico. Antes, porém, convém definir o que se entende por “Literatura”. Consideramos a literatura como

“uma forma de conhecimento da realidade que se serve da ficção e tem como meio de expressão a linguagem artisticamente elaborada” (D’Onofrio, 26, p. 9).

Essa nossa definição, além de diferenciar a literatura da filosofia, das ciências e das outras artes, evidencia sua essência (o arranjo artístico do material linguístico) e sua finalidade principal (um modo peculiar de compreensão da realidade). A literatura é constituída pelo conjunto imenso de textos criados pela fantasia de poetas, romancistas, contistas e dramaturgos ao longo de séculos, em diferentes línguas e nos diversos países.

Para possibilitar o estudo de um material tão rico, os críticos, desde o filósofo grego Aristóteles, no século III a.C., apresentaram várias propostas de agrupamento das obras de arte literária em gêneros e épocas. A palavra texto deriva do latim textu (tecido), cujo radical tec originou vários vocábulos da mesma família: tecido, têxtil, textura, etc. Seu sentido etimológico de entrelaçamento de fios se ampliou para a significação genérica de elementos fortemente ligados entre si: trama ou entrecho. Com efeito, um texto literário é um conjunto de elementos linguísticos artisticamente estruturado, que visa a transmitir parcelas de significado da realidade.

Portanto, dois fatores têm que despertar o interesse do pesquisador: a estrutura artística do texto e a realidade sociocultural em que ele foi produzido. Daí a existência de dois métodos fundamentais para o estudo da literatura: a abordagem interna, estrutural, sincrônica, pela qual a obra é analisada em seus elementos constitutivos, como objeto de arte, independentemente do autor e da época; e a abordagem extrínseca e diacrônica, pela qual o texto literário é visto em seu contexto cultural, influenciado pela natureza do gênero a que pertence, em sua evolução de uma forma para outra e, pelas condições históricas, relacionado com fatores sociais e com a ideologia da época.

Essas duas modalidades metodológicas, que exporemos melhor em seguida, antes de serem contrastivas ou opositivas, são complementares, implicando-se mutuamente. A nosso ver, o procedimento de análise e interpretação de uma obra de arte literária deve passar por três etapas sucessivas: a fase do estudo do intratexto (verificação do arranjo estético de seus elementos constitutivos); do intertexto (a relação que a obra estabelece com outros textos do mesmo autor, do mesmo gênero ou da mesma época); e do extratexto (os princípios ideológicos e os padrões ético-sociais do espaço e do tempo da produção da obra).