Recordações Gaúchas/III

Wikisource, a biblioteca livre
< Recordações Gaúchas
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Recordações Gaúchas por Luís Araújo Filho
Capítulo III


A comitiva dos nossos andantes estava acomodada em um galpão aberto, quase ao relento, mas a noite favorecia; estava quente e serena.

Fora declinava o movimento daquela povoação improvisada, somente de quando em quando transporta a aragem o eco amortecido de alguma canção campônia, que àquela hora entoam bardos gaúchos, dedilhando a viola.

Hálito perfumado rescende das colinas; de todos os pontos pressentem os ouvidos esses ruídos vagos, que se podem chamar a noite que suspira, e por cima de tudo o céu limpo, céu azul, céu estrelado, em cujo centro campeia a lua em seu crescente, a pálida Diana, com todo o seu divino acompanhamento da nossa cosmografia camponesa: de lado a lado o caminho Santiago ostenta sua difusa luz esbranquiçada; ao norte as Cabritas; e semeadas pelo firmamento as três-marias, o A, a rabiça, os três reis e todo o celeste armento da abóbada infinita.

A estrela d'alva, amada e popular, há muito descambara no horizonte.

- Meia-noite, - disse o compadre Giloca, - o cruzeiro já deu meia-volta; daqui a pouco começam os galos a cantar; - e, sempre caminhando tiraram o rumo do galpão.

Quando passaram defronte de um grupo de ramadas formando uma espécie de núcleo à parte, ouviram os sons de uma voz que cantava ao som da viola.

Aproximaram-se.

O auditório formava um círculo de, pouco mais ou menos, duas braças de frente ao fundo; no centro um fogão bem aceso iluminava a área, e, um lado do fogo, dois campeões ocupavam a cena. Um deles foi logo reconhecido pelo compadre Giloca.

Era Chico Pedro.

O outro, rapaz de cerca de 30 anos, empunhava com um certo ar indolente o instrumento, inclinando molemente a cabeça e conchegando-lhe o ouvido, como para ouvir melhor o que ele mesmo tocava. Havia mais de uma hora que estavam descontando ao desafio. Tocava-lhe a vez de dirigir o verso ao contendor, e ia fazê-lo em forma de pergunta, procurando meio de atrapalhá-lo.

Depois de um floreado, tirou três ou quatro rajadas fortes e cantou.

Já sei que tinhas no peito
assunto pra agrumentar,
mas para apanhar um coxo,
o melhor é vê-lo andar.

Por isso vais já dizer-me
qual é a flor pretendida,
que se dá de amor em graça
porém que nunca é vendida.

Não acabava ainda a derradeira nota do antagonista e Chico Pedro, deitando fora o cigarro, compôs o peito, e seguiu a mesma toada, de modo que parecia o prolongamento da mesma voz:

Mais devagar pelas pedras,
não se apure, que é lançante;
quem anda fora dos pagos
não deve ser arrogante.

Mas, mesmo assim, eu te afirmo,
cá na minha opinião,
- todas as flores se vendem,
só os suspiros se dão.

O rapaz querendo ainda confundir o adversário, improvisou os seguintes versos, julgando acachapá-lo.

Ah! velho, se és tão ladino
e te julgas bom cantor,
respondendo a esta pergunta
te declaro vencedor.

Quero que me digas de pronto,
ligeiro, sem titubear,
se sabes quantas estrelas
estão no céu a brilhar.

Chico Pedro respondeu:

Niguém abuse dos outros
por mais que seja pimpão,
pois sucede ver-se um cuera
a pé, de freio na mão.

E pois te digo, as estrelas
no céu imenso espalhadas,
são a metade e outro tanto
das mesmas por Deus criadas.

E se imaginas que eu minto
na quantidade que dei,
te desafio a contá-las
para ver que não errei.

Neste momento ouviu-se uma voz forte que disse:

- Vamos compadre, é hora de dormir, os galos já estão amiudando.

Chico Pedro, conhecendo a voz do patrão, dispôs-se a segui-lo; largou a viola, deu boas-noites e retirou-se.