Tanto de meu estado me acho incerto

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(Tanto de meu estado me acho incerto)
por Luís Vaz de Camões
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras completas de Luis de Camões (1843, v. II)

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente chóro e rio;
O mundo todo abarco, e nada apérto.

He tudo quanto sinto hum desconcêrto:
Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvarío, agora acérto.

Estando em terra, chego ao ceo voando;
N'hum'hora acho mil annos, e he de geito
Que em mil annos não posso achar hum'hora.

Se me pergunta alguem, porque assi ando,
Respondo, que não sei: porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.