Uma Lágrima de Mulher/III/I

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo I


Nas terra pequenas, onde as ambições e egoísmo são relativos ao tamanho do lugar, são entretanto os corações extraordinariamente maiores que nas grandes capitais.

Penso que esse órgão diminui na razão inversa do engrandecimento de uma cidade; quanto maior for a terra, mais ridículo e corrupto é o coração de seus filhos. Ele é como o barômetro da civilização, que o sufoca e amesquinha.

Cada vez acreditamos mais que a inocência anda de par com a ignorância, como a lealdade e a franqueza com a inexperiência, como o progresso com a desconfiança, como a glória com o egoísmo, como a ambição com a desvergonha e finalmente como a riqueza com a miséria.

Os milhões e as misérias degradantes são o patrimônio das cortes, como a mediocridade de haveres e a ausência de absoluta miséria são o das pequenas cidades - acumulam-se de um lado os bens para faltar do outro - acumulam-se mais, mais ainda, exageradamente mais, e mina pelo outro lado a miséria degradante, inconcebível, sem nome.

Esse desequilíbrio da fortuna produz o equilíbrio da balança social, o equilíbrio das classes. Do contraste das circunstâncias, nasce a indústria e o comércio; estes são o progresso e a civilização.

E o que fazem o progresso e a civilização ao contemplar a paz dos campos, a felicidade serena do lar, a fortuna dos obscuros e ignorados filhos da província?

Riem-se grosseira e estupidamente.

A ingênua hospitalidade da província, a espontaneidade no obsequiar, a facilidade de amar, os desinteresse no servir, o desejo de agradar, o compadecer dos infelizes, o consolar os desesperados, a obrigação de proteger os fracos, o interesse pelo semelhante, e mil outras virtudes dos pequenos lugares, passam ridicularizadas se não desconhecidas nas grandes capitais, onde um dinheiro forma um centro de gravidade, em torno do qual, como formidável mundo planetário, gravitam, sujeitos e dominados pela força centrípeta, a moda, a aristocracia, a elegância, a vaidade, o orgulho, o egoísmo, a ambição, o desamor, a indiferença, a baixeza, o roubo, a mentira, a torpeza, a desonra e mil outros vícios brilhantes, cuja centelha são todas as vergonhas, todas as misérias, todas as corrupções sociais!

A hipocrisia é moeda corrente nos grandes meios e há como um comércio de ódios surdos entre os correligionários mais íntimos e comunicados desse círculo, dourado na superfície e podre no fundo.

Tudo ofusca! tudo luz! porém nada conforta porque nada tem valor sincero e real.

Na província, os sentimentos são mais nus e verdadeiros e as almas mais humanas e firmes. Aqui o coração é coração, o bom é bom e o mau é mau; aqui as mães são verdadeiramente mães, ali muito raras vezes o são; aqui a mulher quer ser mãe para ser feliz, ali não que ser mãe para não afeiar; aqui o amor e o casamento são coisas puras, fáceis e naturais, ali são jogos de especulação e de interesse individual. Nas terras pequenas, o casamento é, em geral, uma conseqüência do amor; nas grandes, quando ele no casamento exista, o que rarissimamente sucede, é uma conseqüência do casamento, isto é, da convivência e do hábito.

Daí imensos crimes e torpezas mesquinhas; daí os filhos raquíticos e desatinados, as mães doentias, céticas, aborrecidas e sem amor.

Na província, enfim, cada um tem o seu coração, por ele vive e pratica, por ele ama e só por ele delibera; na capital, há somente um coração para todos, podemos dizer um coração oficial, uma víscera da nação, uma aparelho mecânico e econômico - tem a mesma pulsação e o mesmo calor para todos; é quase que um coração artificial; é mais um objeto de luxo, que um órgão necessário; é uma tetéia dourada, é um boneco de papelão, é um trapo, é lama!

Pode haver um bom povo numa grande capital, convimos, mas urge compreender que um bom povo não diz o mesmo que uma boa gente. Assim como uma atmosfera, aliás boa e salubre, se compõe de moléculas boas e más, cuja combinação produz magníficos resultados; assim como também o povo de uma grande capital, como a de Paris, por exemplo, ou de Madri, pode ser no todo e ruim em partes.

Junto, unido, fundido em massa, ligado compactamente pelo entusiasmo, pelos brios políticos será bom, porque é brilhante e é grandioso, porém como as montanhas, só produz efeito visto de longe, donde com um olhar se abranja o todo e não as partes. Será belo, através dos prismas encantados da história e dos séculos, será transparente e azul, depois de uma refração, como nos parece o éter através a luz do sol e dos gases atmosféricos, porém de perto é grosseiro e informe como a montanha, pedras bruscas e ruins, vegetações enfezadas, barrancos perigosos, onde se escondem reptis malvados e traiçoeiros.

Assim é o povo de uma capital civilizada, pode ser bom no conjunto, mas em geral os homens que o formam são entre si maus e viciosos.