Uma Lágrima de Mulher/III/II

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo II


Fria e fisiologicamente esmerilhando a verdadeira causa, não é de espantar, como parece à primeira vista, que a estranha família e Lipari se houvesse tão boa, tão patriarcalmente virtuosa, tão desafetadamente ingênua, tão infantilmente generosa e protetora, para com um pobre moço que se apresentava como mestre, sem proteção, sem dinheiro, sem atestados de colégio, sem outros dotes, que o recomendassem além dos morais e intelectuais.

É que nos lugares pequenos abrem-se os corações antes de se abrirem os olhos; preferem o bom caráter e os bons costumes à grande sabedoria e à brilhante nomeada. Ninguém se diz - mostra-se; ninguém pergunta - vê.

E se procurássemos bem a causa de tudo isto, haveríamos de descobrir que, em vez do ar polvilhado das ruas estreitas das cortes, dos acepipes caprichosos dos hotéis, os vestidos apertadíssimos de baile, das encantadoras vigílias das festas, do abuso e perfumes, do uso os licores excitantes, dos sentimentos contrariados, das dores disfarçadas pelo riso e das lágrimas fingidas; em vez de tudo isso respiram os da burguesa província o ar livre dos campos, comem os frugais legumes de suas hortas, vestem-se à larga, dormem cedo, encantam-se com os perfumes das flores e delas tiram as mulheres os seus ornatos, e mostram no olhar e no sorrir as dores ou alegrias que lhe vão por dentro.

Não é de pasmar tal contraste entre os civilizados filhos das grandes capitais e os singelos habitantes dos lugares pequenos, porque os estômagos de uns são diametralmente opostos aos estômagos dos outros, e um homem é bom ou mau, conforme o estado mau ou bom de seu estômago.

Os perfumes e o álcool estragam o cérebro e desbotam a memória; as anquinhas confrangem a respiração; o pó arruina os pulmões; os hotéis encarregam-se de aguar o sangue; enfim todos esses cúmplices da morte, que constituem o deleite e encanto as grandes capitais, principiando por estragar o estômago dos cidadãos classificados, acabam por dar batalha à alma, que se enerva, se gasta, se corrompe e apodrece.

Agora, voltemos de novo à medalha. Os outros! como são felizes! como são sadios! como do que vivem todo o elemento fortifica e avigora. Como são bons e alegres, que pois têm bom o estômago e puro o sangue!

O bom estômago é a base de toda e qualquer felicidade possível.

Sem estar em perfeito estado o estômago, não pode haver alegria; sem alegria não há saúde e, sem esta, que seria a virtude? A virtude é uma conseqüência da saúde e da alegria; a tristeza depõe contra a virgindade e contra o amor. E finalmente que são a virtude, a saúde e a alegria, senão a mais completa felicidade humana - a família?

De mais - a beleza! não será ela o conjunto dessas três qualidades reunidas? não será a beleza a continuação da saúde, da alegria e da virtude?

— Certamente que sim, como certamente é esta a única possível e verdadeira fortuna.

Logo, os filhos das grandes capitais são geralmente maus e duplamente desgraçados, que além da desgraça de o ser, têm ainda a, porventura maior, de conhecer que o são.

E todavia continuam a ir-se torcendo dentro das suas jaulas de ouropel, a entulharem, com os esqueletos vivos - os hospitais, e com os mortos - os cemitérios.

Deixamo-los viver ou morrer.