Vão as serenas ágoas

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(Vão as serenas ágoas)
por Luís Vaz de Camões
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras completas de Luis de Camões (1843, v. II)

Vão as serenas ágoas
Do Mondego descendo,
E mansamente até o mar não parão;
Por onde as minhas mágoas
Pouco a pouco crescendo,
Para nunca acabar se começárão.
Alli se me mostrárão
Neste lugar ameno,
Em qu'inda agora mouro,

Testa de neve e d'ouro;
Riso brando e suave; olhar sereno;
Hum gesto delicado,
Que sempre n'alma m'estará pintado.

Nesta florída terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente para mi vivia;
Em paz com minha guerra,
Glorioso co'a pena
Que de tão bellos olhos procedia.
D'hum dia em outro dia,
O esperar m'enganava:
Tempo longo passei;
Com a vida folguei,
Só porqu'em bem tamanho s'empregava.
Mas que me presta ja,
Que tão formosos olhos não os ha?

Oh quem me alli dissera
Que d'Amor tão profundo
O fim pudesse ver eu algum'hora!
E quem cuidar pudera
Que houvesse ahi no mundo
Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
Para que desde agora,
Ja perdida a esperança,
Visse o vão pensamento
Desfeito em hum momento,
Sem me poder ficar mais que a lembrança;
Que sempre estará firme
Até no derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria

Que daqui levar posso,
E com que defender-me triste espero,
He que nunca sentia
No tempo que fui vosso,
Quererdes-me vós quanto vos eu quero.
Porque o tormento fero
De vosso apartamento,
Não vos dará tal pena
Como a que me condena;
Que mais sentirei vosso sentimento,
Que o que a minh'alma sente.
Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.

Tu, Canção, estarás
Agora acompanhando
Por estes campos estas claras ágoas;
E por mi ficarás
Com chôro suspirando;
Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas,
Como huma larga historia
Minhas lagrimas fiquem por memoria.