Viagens de Gulliver/Parte I/II

Wikisource, a biblioteca livre
< Viagens de Gulliver
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte I - Capítulo II


O Naufrágio.

O Imperador de Liliput, acompanhado por diversas pessoas da nobreza, veio ver o autor em seu confinamento. Descrição da pessoa e do traje do imperador. Homens de letras são designados para ensinar o idioma do país ao autor. Alguns favores lhe são concedidos por causa de sua conduta pacífica. Seus bolsos são vasculhados e sua espada e pistolas lhe são retiradas.

Quando fiquei de pé, olhei no entorno, e devo confessar que nunca vi nada mais divertido. O campo ao redor parecia um interminável jardim, e os campos anexos, que tinham em geral doze metros quadrados, pareciam com imensos canteiros de flores. Estes campos se entrelaçavam com árvores de médio porte, e as árvores mais altas, segundo pude avaliar, pareciam ter dois metros de altura. Eu via a cidade do meu lado esquerdo, que parecia a cena de uma cidade pintada em um teatro.

Durante algumas horas fui extremamente pressionado pelas necessidades naturais, o que não era de admirar, pois já se haviam passados dois dias desde que eu havia sido desamarrado. Eu estava com enormes dificuldades entre a urgência e a vergonha. O melhor expediente que eu pude pensar foi arrastar-me para dentro de casa, o que eu fiz sem nenhum problema e fechando a porta em seguida, distanciando-me tanto quanto me permitiam as correntes, e aliviei o meu corpo daquela carga incômoda. Mas essa era a única vez que eu era o responsável por uma ação tão suja, para a qual somente posso esperar que o gentil leitor me perdoe, depois de considerar com maturidade e imparcialidade o meu caso, e a tensão na qual me encontrava.

Daí em diante a minha prática constante era, assim que me levantava, fazer essa necessidade ao ar livre, com as correntes esticadas, e um cuidado especial era tomado todas as manhãs antes que chegassem as companhias, de maneira que a matéria ofensiva fosse transportada em tonéis com rodas, por dois servidores nomeados para esse propósito.

Eu não teria vivido tanto tempo sob essas circunstâncias, que, talvez, à primeira vista, possa parecer bastante efêmera, se eu não tivesse achado isso necessário para justificar o meu caráter, com relação a limpeza, para o mundo, que, segundo me disseram, teria deixado feliz alguns dos meus difamadores, a respeito desta ou daquela situação, ao se referir sobre a questão.

Quando esta aventura terminava, eu tornava a sair da minha casa, tendo a chance de respirar ar fresco. O imperador já havia descido da torre, e avançava sobre o dorso do cavalo em minha direção, o que poderia ter-lhe custado caro, pois o animal, embora muito bem treinado, todavia desacostumado com aquilo que via, o que parecia como se uma montanha se movesse diante dele, empinou sobre suas patas traseiras: mas esse príncipe, sendo um excelente cavaleiro, permaneceu sentado, até que seus acompanhantes acorreram, e lhe seguraram a rédea, enquanto Sua Majestade ganhava tempo para desmontá-lo.

Lemuel Gulliver sendo carregado.

Quando ele desceu do cavalo, me perscrutou com grande admiração, mas manteve-se fora do alcance da minha corrente. Ele ordenou a seus cozinheiros e mordomos, que já estavam preparados, para me oferecerem alimentos e bebida, que foram empurrados para a frente em uma espécie de veículos sobre rodas, até que eu pudesse alcançá-los. Eu pegava esses recipientes e logo os esvaziava todos, vinte deles foram enchidos com comida, e dez com licor; cada um dos quais representando dois ou três bons bocados; e eu esvaziei o licor dos dez recipientes, que estava contido em frascos de barro para um único recipiente, bebendo de um só gole, e assim fazendo com o resto.

A imperatriz, as princesas e os príncipes consanguíneos, acompanhados por muitas damas, se sentaram a alguma distância em suas poltronas; mas,devido ao acidente que ocorreu com o cavalo do imperador, eles desceram e se aproximaram de sua pessoa, como vou descrever agora. Ele é mais alto que quase a largura da minha unha, do que qualquer um da sua corte, o qual sozinho é capaz de assustar aqueles que o vêem.

Suas características eram fortes e masculinas, lábio austríaco, e nariz aquilino, tez esverdeada, postura ereta, seu corpo e membros bem proporcionados, todos os seus movimentos graciosos e de comportamento majestoso. Tinha já passado a flor da sua mocidade, tendo vinte e oito anos e nove meses de idade, dos quais ele tinha reinado cerca de sete anos com grande felicidade, e geralmente vitorioso. Para contemplá-lo com melhor comodidade, me deitei de lado, de modo que o meu rosto ficasse em paralelo ao dele, permanecendo ele a três metros de distância: todavia, eu o tive tantas vezes em minha mão, e portanto não posso estar enganado com a sua descrição.

Seu traje era muito liso e simples, e o seu estilo era meio asiático, meio europeu, mas cingia-lhe a cabeça um elmo leve de ouro, enfeitado com joias, e uma pluma no capacete. Mantinha a sua espada em suas mãos para se defender, e se eu tentasse me libertar, ela tinha quase oito centímetros de comprimento; o punho e a bainha eram de ouro repletos de diamantes. A sua voz era áspera, mas muito clara e articulada, e eu podia ouví-lo distintamente quando ficava de pé. As damas e os cortesãos estavam todos magnificamente trajados, de modo que o lugar que eles ocupavam pareciam a uma saia estendida até o chão, bordada com figuras de ouro e prata. Sua Majestade imperial falava frequentemente comigo, e eu lhe dava respostas: mas nenhum de nós entendia uma única palavra.

Havia diversos sacerdotes e advogados presentes (conforme deduzi por causa de suas indumentárias), que foram obrigados a se dirigirem a mim, e eu falava com eles em muitos idiomas dos quais eu tinha um conhecimento superficial, tais como o Alto e Baixo Holandês, o Latim, o Francês, Espanhol, Italiano, e a Lingua Franca, mas todos sem qualquer resultado. Ao cabo de duas horas a corte se retirava, e eu era deixado com uma poderosa guarda, para impedir a impertinência, e provavelmente a maldade da plebe, que estavam muito impacientes em se tumultuarem em torno de mim tão perto quanto se aventuravam, e alguns deles tiveram o descaramento de me flecharem, enquanto eu estava sentado no chão perto da porta da minha casa, e um deles por pouco me fez perder o olho esquerdo.

Mas o coronel ordenou a prisão de seis dos líderes, e não julgou pena mais adequada para eles do que entregá-los às minhas mãos; o que fizeram alguns dos soldados, empurrando-os para a frente com as pontas de suas lanças até o meu alcance. Peguei todos eles com minha mão direita, e coloquei cinco deles dentro do bolso do meu casaco, quanto ao sexto, fiz de conta que iria comê-lo vivo. O pobre homem berrava terrivelmente, e o coronel e os seus oficiais se condoeram dele, principalmente quando eles me viram tirando o canivete: mas sem demora lhes fiz cessar todo o espanto, pois, parecendo tranquilo, e cortando imediatamente as cordas que lhe amarravam, coloquei-o gentilmente no chão e ele fugiu pra longe. Tratei os outros da mesma maneira, tirando um a um do meu bolso, e observei que tantos os soldados como as pessoas tinham ficado muito comovidos com aquele gesto de humanidade, o qual foi apresentado com muita vantagem diante da corte.

Quando a noite chegou tive alguma dificuldade para entrar na minha casa, onde me deitava no chão, e continuei a viver assim durante quinze dias, durante esse tempo, o imperador dava ordens para prepararem uma cama para mim. Seiscentas camas das medidas normais para eles foram trazidas em veículos, e montadas em minha casa; cento e cinquenta de suas camas, amarradas juntas, formavam a largura e o comprimento; e estas eram quatro duplas: as quais, todavia, me mantinham protegido da dureza do piso, feito de pedras macias. Segundo o mesmo cálculo, eles me forneceram lençois, cobertores, colchas e agradáveis o bastante para quem há muito tempo se adaptara às dificuldades.

A Audiência.

À medida que a notícia da minha chegada se espalhava pelo reino, isso atraiu uma grande quantidade de pessoas ricas, ociosas e curiosas para me ver, de maneira que as aldeias ficaram quase despovoadas, e completa negligência de assuntos de lavoura e familiares deve ter ocorrido, caso a sua majestade imperial não tivesse fornecido, através de inúmeras proclamações e ordens de estado, em detrimento desta calamidade. Ele decretou que aqueles que já tinham me visto deviam voltar para casa, e que não tentassem se aproximar a menos de cinquenta metros de minha casa, sem licença da corte, caso contrario os secretários de estado aplicariam taxas consideráveis.

Durante esse período o imperador convocara diversos conselhos, para deliberar as medidas que seriam tomadas em relação a mim, e fui informado posteriormente por um amigo particular, uma pessoa com grandes qualidades, que fora informado a respeito do segredo, de que a corte se achava seriamente comprometida por minha causa. Eles receavam que me soltasse, que a minha alimentação lhes causaria enormes despesas, chegando até a causar escassez de víveres. Algumas vezes deliberavam que eu devia passar fome, ou até mesmo lançarem flechas envenenadas em meu rosto e mãos, e isso acabaria logo comigo, mas voltavam a considerar, que o fedor de uma carcassa tão grande poderia produzir uma epidemia na metrópole, e se espalharia por todo o império.

No meio dessas deliberações, diversos oficiais do exército dirigiam-se à porta da grande câmara do conselho, e dois deles que tinham acabado de entrar, fizeram um relato do meu comportamento em relação aos seis criminosos que mencionamos anteriormente, o que causou uma impressão tão favorável ao espírito de sua majestade e de todo o conselho, em relação a mim, que uma comissão imperial foi enviada, para obrigar a todas as aldeias, a oitocentos metros ao redor da cidade, a fornecer todas as manhãs seis bois, quarenta carneiros, e outros víveres para minha sustentação; junto com uma quantidade proporcional de pão, e vinho, e outros licores, para cujo pagamento devido, sua majestade deveria atribuir ao tesouro:- pois este príncipe vivia principalmente de suas propriedades, e raramente, somente em ocasiões especiais, criava alguns subsídios para os seus súditos, que eram obrigados a atendê-lo nas despesas de guerra por sua própria conta.

Estabeleceu-se também que seiscentas pessoas ficariam à minha disposição, as quais recebiam uma gratificação para sua manutenção, e tendas muito confortáveis construídas para elas de cada lado da minha porta. Ficou também deliberado, que trezentos alfaiates deveriam fazer para mim algumas roupas, segundo a moda do país; que seis dos maiores eruditos de sua majestade seriam utilizados para me ensinarem o idioma deles, e por último, que os cavalos do imperador, e aqueles da nobreza e as tropas da guarda, deveriam fazer exercícios na minha presença, para que se acostumassem comigo. Todas estas ordens foram devidamente cumpridas; e três semanas depois eu já tinha feito grande progresso no aprendizado do idioma deles; e durante esse tempo o imperador frequentemente me honrava com suas visitas, e ficava feliz em auxiliar meus professores a me instruírem.

Viagens de Gulliver
ilustração de Thomas M. Balliet

Logo iniciamos algum tipo de conversação, e as primeiras palavras que aprendi, foram para expressar o meu desejo “de que ele me concedesse a liberdade”; o que todos os dias repetia de joelhos. A sua resposta, pelo que pude entender, era “de que isto seria uma questão de tempo, e que não poderia ser decidido sem ouvir a opinião do conselho, e que primeiro eu devia LUMOS KELMIN PESSO DESMAR LON EMPOSO; isto é, fazer um juramento de paz para com ele e seu reino. Todavia, que eu seria tratado com toda delicadeza possível. E ele me aconselhou a “conquistar, com minha paciência e meu bom comportamento, a sua estima e a de seus súditos.”

Ele queria que “eu não o interpretasse mal”, se ele desse ordens a determinados oficiais para que me revistassem; pois provavelmente eu trazia comigo diversas armas, que poderiam ser perigosas, caso fossem utilizadas por uma pessoa tão grande. Eu disse, “Sua Majestade deve ser atendida, pois eu estava disposto a me despir, e a colocar pra fora todos os meus bolsos diante dele.” Disse isso parte em palavras, parte em sinais. Ele respondeu. “que, segundo as leis do império, eu deveria ser revistado por dois oficiais; que ele sabia que isto não poderia ser feito sem o meu consentimento e a minha aprovação, e que ele fazia tão bom conceito de minha generosidade e justiça, que ele depositava aquelas pessoas em minhas mãos, e que qualquer coisa que eles tirassem de mim, seria devolvida ao deixar o país, ou ressarcido segundo o valor que eu estabelecesse.

Peguei os dois oficiais em minhas mãos, coloquei-os primeiro nos bolsos do meu casaco, e depois em todos os outros bolsos que havia, exceto meus dois bolsos com relógio, e um outro bolso secreto, os quais eu pensava que não deveriam ser revistados, dentro dos quais eu guardava algumas coisas necessárias que não tinham importância exceto para mim mesmo. Em um dos meus bolsos havia um relógio de prata, e no outro uma pequena quantidade de outro dentro de uma bolsa. Estes senhores, tendo lápis, tinta e papel, perto deles, fizeram um completo inventário de tudo que viram, e quando terminaram, me pediram para que os pusessem no chão, para que pudessem entregá-lo ao imperador. Este inventário foi depois traduzido por mim em Inglês, e literalmente ele diz o seguinte:

“IMPRIMIS, no bolso direito do casaco do grande homem montanha” (pois assim eu interpretei as palavras QUINBUS FLESTRIN), “após minuciosa busca, encontramos somente um pedaço grande de pano rústico, grande o bastante para servir de tapete para a sala de recepção do ministro de Sua Majestade. No bolso esquerdo encontramos um enorme cofre de prata, com uma tampa do mesmo metal, que nós, os comissários, não conseguimos levantar. Queríamos que fosse aberto, e um de nós caminhando em sua direção, viu-se numa espécie de poeira até a metade da perna, e uma parte dela atingiu os nossos rostos o que nos fez espirrar juntos por diversas vezes. Em seu bolso direito do colete encontramos um maço imenso de substâncias brancas e finas, dobradas uma sobre a outra, do tamanho de três homens, amarrado a um cabo muito forte, e marcadas com figuras negras, que nós humildemente acreditamos ser manuscritos, sendo cada letra tão grande quanto as palmas de nossas mãos.

No bolso esquerdo havia uma espécie de mecanismo, no verso do qual estendiam-se vinte varetas longas, semelhantes às paliçadas que está em frente da corte de sua majestade: objeto esse que acreditamos que o homem montanha penteia seus cabelos; pois não queríamos incomodá-lo com perguntas, porque encontramos grande dificuldade em nos fazer entender. Dentro do bolso grande, no lado direito de sua cobertura média (pois assim traduzi a palavra RANFULO, com a qual eles queriam significar meus calções,) vimos um pilar oco de ferro, aproximadamente da altura de um homem, amarrado a uma forte peça de madeira maior que o pilar, e de um lado desse pilar, havia enormes pedaços de ferro em relevo, talhada com figuras estranhas, o que não sabemos do que era feito.

No bolso esquerdo, encontramos um outro mecanismo do mesmo tipo. No bolso menor do lado direito, havia muitas rodelas de metal branco e vermelho, de diferente tamanho, algumas da peças brancas, que acreditamos ser de prata, eram tão grandes e pesadas, que meu camarada e eu tivemos certa dificuldade em levantá-las. No bolso esquerdo havia dois pilares negros com formato irregular: não conseguimos, sem uma certa dificuldade, alcançar o topo deles, uma vez que nós estávamos no fundo do seu bolso. Um deles estava coberto, e tudo parecia uma peça só: mas a extremidade superior do outro mostrava uma substância branca e circular, cerca de duas vezes o tamanho de nossas cabeças.

Dentro de cada um destes havia um enorme placa de aço, a qual, sob nosso comando, o obrigamos a nos mostrar, porque entendíamos que poderiam ser mecanismos perigosos. Ele as retirou de seus estojos, e nos disse, que em seu país ele a utilizava para fazer a barba com uma delas, e cortar alimentos com a outra. Havia dois bolsos que nós não conseguimos entrar: a estes ele dizia que eram bolsos de relógio, eram duas grandes aberturas talhadas no topo da sua ceroula, mas muito apertadas devido à pressão exercida pelo seu estômago. Fora do seu bolsinho direito havia uma enorme corrente de prata, com uma maravilhosa espécie de mecanismo no fundo.

Pedimos para que ele retirasse tudo que estivesse na extremidade dessa corrente, que nos pareceu ser um globo, metade prata, e a outra metade de um metal transparente; do lado transparente nós vimos certas figuras estranhas desenhadas de modo circular, e embora pudéssemos tocá-las, até que percebemos que os nossos dedos foram retidos por uma substância transparente. Ele pôs este mecanismo em nossos ouvidos, que fazia um ruído contínuo, como o de um moinho d’água: e pensamos que fosse de algum animal desconhecido, ou a divindade por ele adorada; mas nós tendemos mais para esta última opinião, porque ele nos garantiu, (se nós o entendemos direito, pois ele se expressava muito imperfeitamente) que ele raramente fazia alguma coisa sem consultá-lo.

Dizia que era seu oráculo, e afirmava que esse mecanismo determinava o tempo para todas as ações de sua vida. Do bolso esquerdo ele tirou uma rede grande o bastante para um pescador, porém que se abria e fechava, e lhe servia para o mesmo uso: encontramos também diversos pedaços enormes de um metal amarelo, o qual, se for realmente ouro, deve ter um valor incalculável.

Tendo portanto, em cumprimento das ordens de sua majestade, revistado cuidadosamente todos os seus bolsos, observamos um cinto em torno da sua cintura feito da pele de algum animal gigante, do qual, do lado esquerdo, havia uma espada da altura de cinco homens, e à direita, havia uma bolsa ou algibeira dividida em dois compartimentos, podendo cada compartimento conter três dos súditos de sua majestade. Em um desses compartimentos havia diversos globos, ou bolas, de uma metal muito pesado, quase do tamanho de nossas cabeças, e que exigia uma forte mão para levantá-los: o outro compartimento continha uma porção de certos grãos pretos, mas relativamente pequenos e leves, pois podíamos reter cerca de cinquenta deles na palma das mãos.

Este é o inventário exato do que encontramos no corpo do homem montanha, que nos recebeu com grande civilidade, e com o devido respeito ao conselho de sua majestade. Assinado e selado aos quatro dias da octagésima nona lua do auspicioso império de sua majestade.

  • CLEFRIN FRELOCK, MARSI FRELOCK

Assim que o inventário foi lido diante do imperador, este me ordenou, embora com maneiras muito gentis, que entregasse os diversos objetos. Primeiro pediu o meu sabre, o qual eu tirei, com bainha e tudo. Durante esse período, ele ordenou a três mil de suas melhores tropas (que imediatamente o atenderam) que me cercassem a uma certa distância, com seus arcos e flechas prontos para disparar; mas eu não percebi isso, porque os meus olhos totalmente voltados para a sua majestade. Ele então me pediu para retirar o sabre, o qual, embora estivesse um pouco enferrujado pela água do mar, estava ainda bastante brilhante em algumas partes. Fiz isso, e imediatamente todas as tropas deram um grito de terror e espanto, pois o sol brilhava forte, e o reflexo cegava-lhes os olhos, a medida que eu fazia movimentos de uma lado e de outro com o sabre.

Sua majestade, sendo um príncipe magnânimo, era menos assustado do que podia esperar: ele me ordenou que o colocasse de volta na bainha, e o jogasse no chão tão suavemente quanto possível, cerca de dois metros a partir da extremidade da minha corrente. A próxima coisa que ele exigiu foram os pilares ocos de ferro, referindo-se às minhas pistolas. Retirei-a, e a seu comando, tão bem quanto pude, expliquei a ele como usá-las; e carregando-a somente com pólvora, que devido à proximidade do meu bolso, conseguiu escapar da umidade do mar (um inconveniente que todos os marinheiros prudentes tomam a maior precaução), eu, primeiro, avisei o imperador para não se assustar, e depois disparei-o para o ar. O espanto então foi muito maior do que quando haviam visto o sabre.

Centenas deles caíram com que fulminados até a morte, e até mesmo o imperador, embora permanecesse de pé, durante algum tempo não conseguiu se refazer do susto. Entreguei as minhas duas pistolas da mesma maneira que havia feito com o meu sabre, e depois o meu bolso de pólvora e munições, alertando-os para que as balas fossem mantidas longe do fogo, pois elas poderiam se acender com a menor fagulha, explodindo o seu palácio imperial para o ar. Da mesma forma lhe entreguei o relógio, o qual o imperador teve muita curiosidade de observar, e ordenou que dois de seus maiores guardas o carregassem em uma vara sobre os seus ombros, como fazem os carregadores na Inglaterra com os barris de cerveja.

Ele ficou admirado com o ruído contínuo que ele fazia, e com o movimento do ponteiro de minuto, o qual ele conseguia discernir facilmente, pois a visão deles era muito mais acentuada que a nossa: ele pediu a opinião de seus homens de letra, as quais foram diversas e desencontradas, como o leitor facilmente poderá imaginar sem que precise dizê-lo; embora de fato não pudesse entendê-los perfeitamente bem. Dei então a eles minhas moedas de prata e de cobre, minha algibeira, com nove lascas enormes de ouro, e algumas pequenas; minha faca e meu canivete de barbear, meu pente e a caixa de prata de rapé, meu lenço e um jornal. Meu sabre, as pistolas e a algibeira com pólvora foram levados em veículos para os armazéns de sua majestade, mas o resto dos meus pertences me foram devolvidos.

Eu tinha, como observei anteriormente, um bolso à parte, que não foi revistado por eles, onde estavam meus óculos (os quais eu utilizo algumas vezes por causa da minha vista fraca), um telescópio de bolso, e algumas outras pequenas utilidades, as quais, não oferecendo nenhum risco ao imperador, não me senti na obrigação de mostrar, temendo que pudessem se perder ou estragar caso não estivessem aos meus cuidados.

← Capítulo anterior Título do capítulo Capítulo seguinte →
Parte I, Capítulo I Parte I, Capítulo II Parte I - Capítulo III