Viagens de Gulliver/Parte I/VI

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte I - Capítulo VI
pudessem ter a felicidade, ... de jantar comigo.
ilustração de Thomas M. Balliet

[Sobre os habitantes de Lilipute; sua educação, leis e costumes; a maneira de educar seus filhos. O modo de vida do autor nesse país. Sua defesa de uma grande mulher.]

Ainda que eu pretenda postergar a descrição deste império para um tratado em particular, nesse meio tempo ficaria contente em atender ao curioso leitor com alguns conceitos gerais. Embora a altura em geral dos nativos fosse um pouco maior que quinze centímetros, havia portanto uma proporção exata em relação aos outros animais, e também com as plantas e árvores: por exemplo, os cavalos e os bois mais altos possuiam entre dez e doze centímetros de altura, os carneiros aproximadamente quatro centímetros, os patos eram quase do tamanho de um pardal, e assim eram as diversas variações para baixo até chegarmos aos menores, os quais à minha vista eram quase invisíveis; mas a natureza adaptou os olhos dos liliputianos a todos os objetos em relação à visão: eles veem com grande exatidão, mas não a grande distância.

E, para dar um exemplo da acuidade visual em relação aos objetos próximos, fiquei imensamente feliz ao observar um cozinheiro depenando uma cotovia, que não era tão grande quanto uma mosca, e uma jovem enfiando um fio de seda invisível numa agulha também invisível. As árvores mais altas possuiam cerca de dois metros de altura: estou falando daquelas do grande parque real, os topos das quais eu podia alcançar com meus punhos cerrados. Os outros vegetais tinham a mesma proporção, mas isto eu vou deixar para a imaginação do leitor.

Agora, vou falar somente um pouquinho sobre a educação deles, que, durante muitos anos, floresceu em todas as suas ramificações: mas o jeito de escrever deles era muito peculiar, sendo nem da esquerda para a direita, como os europeus, nem da direita para a esquerda, como os árabes, nem de cima para baixo, como os chineses, mas inclinada, de um canto do papel ao outro, como fazem as damas da Inglaterra.

Eles sepultavam os seus mortos diretamente de cabeça para baixo, porque acreditavam eles, que no prazo de onze mil luas, eles iriam ressuscitar novamente, em cujo período a terra (que eles acreditam ser plana) irá virar de ponta cabeça, e desse modo, na ressurreição, serão encontrados de pé. Os sábios que vivem lá admitem o absurdo desta doutrina, mas a prática ainda permanece, de acordo com os conhecimentos populares.

Existem algumas leis e costumes neste império que são muito particulares; e se não fosse tão diretamente contrárias às leis e costumes do meu querido país, ficaria tentado a justificá-las um pouco. Deseja-se apenas que elas sejam bem executadas. A primeira que eu vou mencionar, diz respeito aos delatores.

Todos os crimes contra o estado são punidos aqui com a maior severidade; mas, se o acusado provar completamente sua inocência durante o julgamento, o acusador é imediatamente condenado a uma morte ignominiosa, e a pessoa inocentada é quadruplamente recompensada com seus bens ou terras em razão da perda de tempo, por causa dos riscos que ele correu, pela dureza de sua permanência na prisão, e por causa de todas as acusações a que foi submetido durante a sua defesa, ou, se a compensação não for suficiente, a vítima será amplamente suprida pela coroa. O imperador também confere a ele algum prêmio por sua generosidade, e uma proclamação de sua inocência é espalhada por toda a cidade.

Eles consideram a fraude como crime mais hediondo do que o roubo, e portanto, ela era sempre punida com a morte; pois alegam eles, que o cuidado e a vigilância, dentro de um entendimento muito comum, podem preservar os bens de um homem dos ladrões, mas a honestidade não tem defesa contra a astúcia superior, e uma vez que seja necessário a existência de uma relação perpétua entre comprar e vender, e nas negociações a crédito, onde se permite e se é conivente com a fraude, ou não existe uma lei para sua punição, ou o negociante honesto é sempre prejudicado, e o desonesto tira vantagem.

Eu me lembro, uma vez, quando intercedia junto ao imperador em favor de um criminoso que havia enganado seu mestre em relação a uma grande soma em dinheiro, que ele recebeu ordens para pegar e fugiu, e por acaso, dizendo isto a sua majestade, como forma de atenuação do caso, que isso fora apenas uma invasão de confiança, o imperador considerou a minha atitude desrespeitosa em apresentar a maior gravidade do crime como defesa, e na verdade, tive pouco a dizer como resposta, além da réplica comum de que nações diferentes possuem diferentes costumes, pois, confesso, fiquei muito envergonhado.

Embora eu normalmente considerasse a recompensa e o castigo como as duas engrenagens a qual estão subordinados os governos, nunca pude observar esta máxima sendo colocada em prática por qualquer nação exceto em Lilipute. Aquele que consegue trazer prova suficiente, de que tenha sido rigoroso observador das leis de seu país durante setenta e três luas, pode se tornar detentor de certos privilégios, de acordo com seus méritos ou condição de vida, com um valor em espécie proporcional de um fundo apropriado para esse fim: ao mesmo tempo em que conquistava o título de SNILPALL, que significa legítimo, e que é adicionado ao seu nome, mas cujo direito não é passado para seus herdeiros.

E esses povos acham que é um enorme defeito de nossa política, quando eu lhes disse que as nossas leis eram reforçadas com punições, sem qualquer menção de recompensa. É por esse motivo que a imagem da Justiça, em seus tribunais de causa, era formada por seis olhos, dois na frente, dois atrás, e um de cada lado, para significar a circunspecção, com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e empunhando uma espada na esquerda, para mostrar que ela está mais disposta a recompensar do que punir.

Na seleção de pessoas para desempenho de todas as funções, eles levam em consideração mais os bens morais do que as grandes habilidades; considerando que o governo é necessário para a humanidade, creem eles que o conceito comum de entendimento humano é ajustado a uma situação ou outra, e que a Providência jamais pretendeu tornar mistério o gerenciamento dos negócios públicos, para ser compreendido somente por algumas pessoas de gênio sublime, dos quais raramente encontramos três numa geração: mas, julgam eles que a verdade, a justiça, a moderação, e sentimentos semelhantes, existam dentro de todas as pessoas, e que a prática dessas virtudes, auxiliada pela experiência e pelas boas intenções, poderia qualificar qualquer homem para o serviço de seu país, exceto se um curso de formação for necessário.

Pois acreditavam eles que a falta de virtudes morais estava tão longe de ser atendida pelos talentos superiores da mente, que os cargos públicos jamais deveriam ser colocados em mãos perigosas como a de pessoas que fossem assim qualificadas, e, pelo menos, os equívocos cometidos pela ignorância, dentro de um disposição virtuosa, jamais poderia ter uma consequência fatal para o bem estar público, como as práticas de um homem, cujas inclinações o induzissem à corrupção, e que tivesse grandes habilidades para administrar, multiplicar e defender suas ilegitimidades.

Trezentos alfaiates foram empregados da mesma maneira
para me fazerem roupas.
ilustração de Thomas M. Balliet

Da mesma maneira, a falta de fé numa Providência Divina inabilita um homem de ocupar qualquer cargo público, pois, os reis proclamam a si mesmos como sendo substitutos da Providência, os liliputianos acreditavam que nada pode ser mais absurdo do que um príncipe utilizar essas pessoas que negam a autoridade a qual estão subordinados.

Com relação a estas e as leis seguintes, gostaria de que vocês entendessem que falo apenas das instituições originais, e não das corrupções mais escandalosas, dentro das quais estas pessoas estão inseridas, por causa da natureza degenerativa do homem. Pois, com relação a esta prática inglória de conquistar importantes cargos públicos dançando sobre cordas, distintivos de favores e importância pulando varetas e rastejando-se debaixo delas, o leitor vai perceber, que esses costumes foram introduzidos pela primeira vez pelo avô do atual imperador, e adquiriu a dimensão atual pelo aumento gradativo do partido e das facções.

A ingratidão é para eles um crime imperdoável, como soubemos ter sido também em alguns outros países: pela seguinte razão, que todo aquele que retribuir com o mau ao seu benfeitor, deve ser considerado inimigo do resto da humanidade, de quem jamais recebeu qualquer encargo, e portanto, tal homem não merece viver.

Seus conceitos com relação aos deveres entre pais e filhos diferem extremamente do nossos. Pois, considerando que a conjunção de macho e fêmea é fundamentada na grande lei da natureza, de modo a propagação e continuação da espécie, os liliputianos acreditam, que homens e mulheres se juntaram, como outros animais, por motivos de concupiscência, e que a afeição que dedicam a seus filhos tem origem no mesmo princípio da lei natural: para cuja razão, eles jamais permitirão que uma criança permaneça sob o encargo de seu pai para ser criado, ou de sua mãe para ser educado, pois, considerando as misérias da vida humana, isso não é um benefício propriamente dito, nem pretensão dos seus pais, cujos pensamentos, em seus encontros amorosos, foram empregados de maneira diversa.

Devido a estes e a outros raciocínios, a opinião deles é que, os pais são os últimos a serem encarregados com a educação de seus próprios filhos, e portanto, eles possuem escolas infantis públicas em todas as cidades, onde todos os pais, excetos os camponeses e os trabalhadores, são obrigados a enviarem seus filhos de ambos os sexos para serem criados e educados, quando atingirem a idade de vinte luas, em cujo tempo supõe-se que possuam alguns conceitos básicos de docilidade.

Estas escolas são de diversos tipos, adequadas para diferentes qualidades, e para ambos os sexos. Elas possuem determinados professores suficientemente habilitados na preparação de crianças para essa condição de vida, de acordo com a classificação de seus pais, e de suas habilidades, bem como inclinações. Vou falar primeiro a respeito das escolas infantis para meninos, e depois das escolas para meninas.

As escolas infantis masculinas para filhos de nobres e de pessoas de renome, possuem professores sérios e sábios e seus diversos substitutos. As roupas e a alimentação das crianças eram naturais e simples. Eles são educados nos princípios da honra, justiça, modéstia, clemência, religião, e do amor ao seu país, eles sempre eram empregados em alguma atividade, exceto nos momentos de comer e dormir, os quais são muito curtos, e duas horas para diversões que consiste em exercícios físicos.

São vestidos pelos homens até a idade de quatro anos, e então eram obrigados a se vestirem, embora a formação deles tenha sido a das melhores, e as atendentes, que tem idade proporcional à nossa de cinquenta anos, realizam apenas serviços de baixo nível. Nunca lhes era permitido conversar com os criados, e sempre na presença de um professor, ou um de seus substitutos, e com isso evitam essas impressões de vícios e tolices, às quais nossas crianças estão sujeitas.

A seus pais se permite que sejam visitados somente duas vezes por ano, a visita deve durar somente uma hora, às crianças são permitidas que sejam beijadas ao chegar e ao partir, mas um professor, que sempre se faz acompanhar nessas ocasiões, não permite que falem em segredo, ou utilizem expressões carinhosas, ou tragam presentes tais como brinquedos, doces ou similares.

A cobrança de pagamento de cada família para educação e entretenimento da criança em caso de inadimplência do resgate devido, era feita pelos oficiais do imperador. As escolas maternais para filhos de cavalheiros, mercadores, negociantes e artesãos comuns são administradas proporcionalmente de modo parecido, somente aqueles educados para o comércio eram colocados como aprendizes aos onze anos de idade, ao passo que as pessoas nobres continuavam sua educação até os quinze anos, o que equivale aos vinte e um entre nós: mas o confinamento é gradualmente diminuído durante os últimos três anos.

Nos colégios para o sexo feminino, as meninas nobres são educadas da mesma forma que os garotos, exceto que são vestidas por criadas bem arrumadas de seu próprio sexo, mas sempre na presença de uma professora ou uma substituta, até que aprendam a se vestirem sozinhas, o que acontece quando chegam aos cinco anos de idade. E quando se descobre que estes educadores entretém as garotas com histórias tolas ou assustadoras, ou com as tolices praticadas pelas camareiras como ocorre entre nós, elas são açoitadas três vezes em público por toda a cidade, aprisionadas durante um ano, e banidas pelo resto da vida para a região mais desolada do país.

Assim as jovens senhoras tinham igualmente vergonha de serem covardes e tolas como os homens, e desprezavam todos os adornos pessoais, exceto a decência e a higiene: nem percebi qualquer diferença na educação delas feita em razão da diferença de sexo, somente que os exercícios femininos não eram no conjunto tão violentos; e que algumas regras foram dadas a elas em relação à vida doméstica, e um menor limite de aprendizado foi proposto a elas: pois a máxima deles era que entre povos nobres, uma esposa deve sempre ser uma companheira sensível e agradável, mas nem sempre ela poderá ser jovem.

Quando as garotas chegavam aos doze anos de idade, que para eles é a idade de se casar, seus pais ou tutores os levam para casa, com grandes demonstraçoes de gratidão aos professores, e raramente sem lágrimas da atendente e de seus acompanhantes. Nas escolas femininas mais inferiores, as crianças eram instruídas com todos os tipos de trabalhos adequados à sua sexualidade, e as suas diversas modalidades: aqueles que pretendiam ser aprendizes terminavam seus estudos aos sete anos de idade, os outros eram mantidos até os onze.

As famílias modestas que possuem crianças nestes colégios, são obrigadas, além de sua pensão anual, a qual é a mais reduzida possível, a entregar mensalmente ao administrador do colégio uma pequena parcela do que recebem, como sendo um pequeno patrimônio para a criança, e portanto todos os pais são controlados por lei com relação aos gastos.

Pois os liliputianos acreditam que nada pode ser tão injusto para as pessoas, no que concerne à satisfação de seus apetites, do que trazer filhos ao mundo e deixar a responsabilidade de criá-los aos órgãos públicos. Quanto às pessoas nobres, eles concedem a segurança de reservar uma certa quantia para cada criança, adequada à sua condição, e estes fundos são sempre gerenciados por uma boa administração e a mais rigorosa justiça.

Os aldeões e os lavradores mantém seus filhos em casa, sendo a função deles somente lavrar e cultivar a terra, de forma que a educação deles tem pouco valor para o público: mas os velhos e os doentes eram socorridos pelos hospitais, pois a mendicância é um negócio desconhecido neste império.

E neste momento, talvez, possa parecer divertido ao curioso leitor, oferecer algum relato a respeito de minha vida doméstica, e da minha maneira de viver neste país, durante uma permanência de nove meses e treze dias. Sempre inclinado para as artes mecânicas, e sendo igualmente forçado por causa da necessidade, construí para uso próprio uma mesa e uma cadeira confortáveis o bastante, com madeira retirada das imensas árvores do parque real. Duzentas costureiras foram empregadas para fazerem para mim camisas, e lençóis e toalhas para minha cama e para a mesa, todos de qualidade mais forte e rústica que conseguiram, os quais, todavia, tinham que ser dobrados várias vezes, pois o mais grosso deles era um pouco mais fino do que o tecido de algodão.

O tecido de algodão deles normalmente tinha sete centímetros de largura, e um metro para formar uma peça. As costureiras tiraram as minhas medidas comigo deitado no chão, uma ficava de pé junto ao meu pescoço, e uma outra na metade da minha perna, com uma corda forte estendida, e cada uma presa em uma ponta, enquanto uma terceira media o comprimento da corda com uma régua que tinha dois centímetros e meio de comprimento. Depois elas mediram meu polegar direito, e não precisaram de mais nada, pois devido a um cálculo matemático, segundo o qual duas vezes a circunferência do polegar equivale a uma vez a circunferência da minha munheca, e assim fizeram com relação ao pescoço e a cintura, e com a ajuda da minha camisa velha, que estendi no chão para demonstrar a eles, e elas me serviam perfeitamente.

Trezentos alfaiates foram empregados da mesma maneira para me fazerem roupas; mas eles utilizaram uma outra técnica para me tirarem as medidas. Me ajoelhei, e eles colocaram uma escada desde o chão até o meu pescoço, um deles subiu nesta escada, e soltou um prumo do meu pescoço até o chão, o que simplesmente equivalia ao tamanho do meu casaco: mas a minha cintura e meus braços eu mesmo tirei as medidas. Quando minhas roupas estavam prontas, as quais foram feitas em minha casa, pois a maior casa deles não conseguiria contê-las, elas se pareciam como colchas de retalhos feitas pelas senhoras da Inglaterra, com a diferença de que as minhas tinham apenas um cor só.

Trezentos cozinheiros estavam disponíveis para prepararem meus víveres, em pequenas e confortáveis cabanas construídas em torno de minha casa, onde eles viviam com seus familiares, e me preparavam dois pratos cada um. Eu pegava em minhas mãos vinte garçons, e os colocava em cima da mesa: outros cem me serviam embaixo no chão, alguns com pratos de carne, e alguns com tonéis de vinho e outros com licores carregados ao ombro, todos os quais eram trazidos para cima pelos garçons, como eu queria, de uma maneira bastante engenhosa, por meio de algumas cordas, da mesma forma como retirávamos água do poço na Europa.

Uma prato de carnes era apenas um bocado, e um tonel de licor era apenas um gole de tamanho razoável. A carne de carneiro era parecida com a nossa, mas a carne de vaca deles era excelente. Uma vez eu comi um pedaço de lombo tão grande, que eu tive que dar três mordidas nele, mas isto é raro. Meus criados ficavam atônitos ao me verem comer, com ossos e tudo, como fazemos em nosso país com a perna de cotovia. Os gansos e o patos normalmente eu comia num único bocado, e confesso que são mais gostosos que os nossos. De suas aves menores eu poderia pegar vinte ou trinta na ponta da minha faca.

Um dia a sua majestade imperial, sendo informada a respeito da minha forma de vida, desejou que ele mesmo e sua real consorte, assim como os jovens príncipes consanguíneos de ambos os sexos, pudessem ter a felicidade, como era de seu agrado dizer, de jantar comigo. Vieram conforme combinamos, e eu os coloquei em poltronas oficiais, sobre a minha mesa, bem de frente para mim, com seus seguranças ao redor. Flimnap, o tesoureiro-mor, estava presente bem como seu bastão branco, e eu observei que ele frequentemente olhava para mim com aspecto desagradável, que eu fingia não perceber, mas comí mais do que o habitual, em homenagem ao meu querido país, bem como para causar alguma admiração por parte da corte.

Eu tinha algumas razões particulares para acreditar, que a visita de sua majestade deu a Flimnap a oportunidade de me colocar em maus lençóis diante do seu amo. Esse ministro tinha sempre sido meu inimigo secreto, embora ele exteriormente me tivesse sido mais afetivo do que o usual devido à sua natureza antissocial. Apresentou ao imperador a triste situação do seu tesouro; e que era forçado a negociar empréstimos com grandes descontos; e que os título do tesouro não podiam circular abaixo de nove por cento abaixo do equivalente; e que eu havia custado a sua majestade acima de um milhão e meio de SPRUGS, que era a maior moeda de ouro deles, aproximadamente do mesmo tamanho que uma lentejoula, e, resumindo, que seria aconselhável ao imperador desfazer-se de mim na primeira oportunidade favorável.

Sou aqui obrigado a justificar a reputação de uma excelente senhora, que sofreu inocentemente por minha causa. O tesoureiro começou a ter ciúmes de sua esposa, por causa da maldade de algumas línguas ferinas, que lhe informaram que a bondosa mulher havia se tomado de afeição pela minha pessoa, e o escândalo durante algum tempo correu pela corte, que ela uma vez em particular havia penetrado em meus alojamentos. Declaro solenemente que isto foi uma invenção infame, sem nenhum fundamento, exceto que a bondosa mulher tinha maior alegria em me tratar com todas as inocentes formas de demonstração de liberdade e amizade.

Admito que ela frequentemente vinha à minha casa, mas sempre publicamente, e sempre acompanhada na carruagem por três ou mais pessoas, que normalmente eram sua irmã e uma filha ainda jovem, e alguma amizade em particular; mas isso era muito comum a muitas das mulheres da corte. E ouso apelar aos meus criados que estavam por perto, se eles viram em algum momento uma carruagem em minha porta, sem saber que pessoas estavam dentro dela. Nessas ocasiões, quando uma criada me dava a informação, eu tinha o hábito de imediatamente sair à porta, e depois de apresentar os meus respeitos, pegava em minha mão a carruagem e os dois cavalos com muito cuidado (pois, se haviam seis cavalos, o postilhão quase sempre soltava quatro), e os colocava em cima da mesa, onde eu havia fixado uma guarnição móvel em formato de círculo, com doze centímetros de altura, para evitar acidentes.

Com frequência quatro carruagens com cavalos eram colocados de uma só vez em cima da minha mesa, cheia de visitantes, enquanto eu me sentava em minha cadeira, inclinando meu rosto em direção a eles, e enquanto me dedicava a um grupo, o cocheiro gentilmente passeava com os outros ao redor da mesa. Passei muitas tardes bastante agradáveis nessas conversações. Mas eu desafio o tesoureiro, ou seus dois delatores (vou dizer o nome deles e que façam melhor uso disso) Clustril e Drunlo, para que provem a visita de qualquer pessoa de maneira particular, com exceção do secretário Reldresal, que foi enviado por ordem expressa de sua majestade imperial, como relatei anteriormente.

Não deveria me deter tanto tempo em razão deste particular, se não tivesse sido a causa onde a reputação de uma grande senhora estivesse intimamente relacionada, para não dizer nada de mim mesmo, embora em tenha tido a honra de ser um NARDAC, título esse que o próprio tesoureiro não possui, pois, tudo o que o mundo sabe, é que ele é apenas um GLUMGLUM, título inferior em uma graduação, como o título de marquês está em relação ao título de duque na Inglaterra, ainda que reconheça que ele tenha maior valor que eu por causa da sua posição.

Estas informações falsas, que depois chegou ao meu conhecimento por acaso e que não é adequado mencionar, fizeram com que o tesoureiro ficasse de cara feia com a sua esposa durante algum tempo, e comigo ainda pior, e embora ele tenha finalmente esclarecido e se reconciliado com ela, eu perdi todo crédito que depositava nele, e vi que meu interesse pelo próprio imperador também diminuía muito rapidamente, o qual era, de fato, por demais influenciado por aquele favorito.

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