Viagens de Gulliver/Parte I/VII

Wikisource, a biblioteca livre
< Viagens de Gulliver
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte I - Capítulo VII


ele me pediu para que eu o ouvisse com paciência...
ilustração de Thomas M. Balliet

[O autor, sendo informado a respeito de um plano para acusá-lo de alta traição, foge para Blefuscu. Sua recepção nesse país.]

Antes de começar a fazer um relato sobre a minha saída do reino de Lilipute, seria apropriado informar o leitor a respeito de uma intriga particular que durante dois meses fora criada em detrimento de minha pessoa.

Até então, toda a minha vida, eu fora um estranho à vida na corte, segundo a qual eu não tinha qualificações em razão da insignificância de minha condição. Na verdade eu havia me informado o bastante sobre as disposições dos grandes príncipes e ministros, mas jamais poderia esperar resultados tão funestos em relação a eles, em um país tão remoto, governado, como pensava, por regras muitos diferentes daquelas da Europa.

Quando simplesmente estava me preparando para render homenagens ao imperador de Blefuscu, uma pessoa de renome na corte (a quem havia prestado alguns serviços, numa época em que essa pessoa caíra no desagrado de sua majestade imperial), veio até minha casa de modo muito particular em uma noite, e secretamente, sem sequer dar-se a conhecer, pediu que fosse recebida. Os carregadores foram dispensados; coloquei a cadeira, com sua alteza sentada nela, no bolso do meu casaco: e, dando ordens para meu criado de confiança, para que ele entendesse que eu estava indisposto e queria dormir, fechei a porta da minha casa, coloquei a cadeira em cima da mesa, como era de costume, e me sentei próximo a ela. Depois de feitas as saudações habituais, observando a figura preocupada do senhorio, e perguntando o motivo de sua vinda, ele me pediu que eu o ouvisse com paciência num assunto que segundo ele tinha tudo a ver com a minha honra e a minha vida. A sua fala teve o efeito que segue, pois tomei notas de tudo assim que ele partiu:

Você será informado, disse ele, que diversas comissões do conselho foram convocadas nos últimos dias, da maneira mais secreta, por causa de vossa senhoria, e não faz mais que dois dias que sua majestade chegou a uma conclusão definitiva.

Bem sabeis que Skyresh Bolgolam, (Galbet ou o supremo almirante), tem sido vosso mortal inimigo, desde quase a vossa chegada. Desconheço as razões que deram origem a esse sentimento, mas o ódio dele aumentou depois do vosso grande sucesso contra o país de Blefuscu, com o qual sua glória como almirante foi bastante obscurecida. Este senhor, mancomunado com Flimnap, o tesoureiro-mor, cuja inimizade em relação à sua pessoa é notória, por causa dos acontecimentos que envolveram sua esposa, Limotoc, o general, Lalcon, o camareiro, e Balmull, o grande administrador da justiça, redigiram artigos de condenação contra vossa pessoa, por motivo de traição e de outros crimes capitais.

Seu discurso de apresentação me deixou tão impaciente, estando consciente de meus méritos e de minha inocência, que ao tentar interrompê-lo, ele insistiu para que permanecesse em silêncio, e continuou:

Em razão dos favores que você me prestou, procurei informar-me a respeito de todo o processo, e de uma cópia com os artigos, e por meio deles arrisquei minha cabeça a seu serviço.

Artigos de acusação contra QUINBUS FLESTRIN, (o Homem-Montanha).

e isso seria suficiente para que você enxergasse através dos olhos dos ministros, de vez que os grandes príncipes não faziam mais isso.
ilustração de Thomas M. Balliet

ARTIGO I.

Que, por meio de um estatuto criado no reino de sua majestade imperial, Calin Deffar Plune, foi decretado que, quem urinar nos arredores do palácio real, será passível de penas e castigos por alta traição; não obstante, o dito Quinbus Flestrin, numa declarada violação à citada lei, com vistas à extinção do incêndio que irrompeu no apartamento da mais querida consorte imperial de sua majestade, deslealmente, traiçoeiramente e diabolicamente, com a descarga de sua urina, derramada sobre o mencionado incêndio no supracitado apartamento, situado e estando dentro dos limites do aludido palácio real, contra o estatuto criado para esta situação, etc., e em detrimento do dever, etc.

ARTIGO II.

Que o mencionado Quinbus Flestrin, tendo trazido a frota imperial de Blefuscu para dentro dos domínios do porto real, e sendo posteriormente ordenado por sua majestade imperial para assenhorear-se de todos os outros navios do aludido império, e para que reduzisse esse império a uma província, para ser governado por um vicerrei a partir daquela data, e para que destruísse e mandasse matar, não apenas os exilados da Extremidade Maior, mas igualmente a todos os povos daquele império que não renunciassem imediatamente à heresia dos que apoiavam os simpatizantes da Extremidade Maior, ele, o mencionado Flestrin, na qualidade de falso traidor em detrimento de sua mais generosa, serena e imperial majestade, solicitou para que fosse declinado do mencionado serviço, pretextando falta de disposição para forçar as consciências, ou destruir as liberdades e vidas de um povo inocente.

ARTIGO III.

Que, embora certos embaixadores chegados da Corte de Blefuscu, em busca de paz junto à corte de sua majestade, ele, o aludido Flestrin, como falso traidor, ajudou, encorajou, animou e divertiu os mencionados embaixadores, embora soubesse ele que não passavam de servidores de um príncipe que nos últimos tempos se tratava de um inimigo declarado de sua majestade imperial, e numa guerra franca contra a sua mencionada majestade.

ARTIGO IV.

Que o mencionado Quinbus Flestrin, contrário ao dever de um súdito leal, prepara-se no momento para fazer uma viagem à corte e ao império de Blefuscu, para o qual tem ele recebido somente licença verbal de sua majestade imperial; e sob os autos da pretensa permissão, pretende ele de modo falso e traiçoeiro empreender semelhante viagem, e portanto ajudar, animar e encorajar o imperador de Blefuscu, um inimigo tardio, numa guerra declarada contra a sua majestade imperial mencionada anteriormente.

Existem ainda alguns outros artigos; mas, estes são os mais importantes, dos quais fiz para vocês, leitores, um resumo.

Nos inúmeros debates que seguiram a esta acusação, devo confessar que sua majestade deu diversas demonstrações de sua generosidade, muitas vezes enaltecendo os serviços que você prestou a ele, e esforçando-se para atenuar os seus crimes. O tesoureiro e o almirante insistiram para que lhe fosse infligida a morte mais cruel e ignominiosa, lançando fogo em sua casa durante a noite, devendo o general aguardá-lo com vinte mil homens, armados com flechas venenosas, para atirar em seu rosto e mãos. Alguns dos teus servidores receberam ordens particulares para derramarem um suco venenoso em suas camisas e lençóis, que haveriam de rasgar em pouco tempo sua própria carne, fazendo-o morrer em excruciante tortura. O general chegou à mesma opinião, de modo que durante muito tempo houve uma grande maioria que pedia sua condenação, mas sua majestade, decidindo, se possível, poupar a sua vida, teve o sufrágio favorável do camareiro.

Deitei-me no chão para beijar as mãos de sua majestade e da imperatriz.
ilustração de Thomas M. Balliet

Diante deste incidente, Reldresal, secretário principal para assuntos privados, que sempre se mostrou ser seu amigo verdadeiro, foi induzido pelo imperador a emitir sua opinião, o que fez de bom grado, e desse modo se justificam os bons conceitos que tendes a respeito de sua pessoa. Ele concordou que seus crimes tinham relevância, mas que ainda havia algum espaço para a misericórdia, a virtude mais louvável para um príncipe, e pelo qual a sua majestade era celebrada tão justamente. Disse ele, que a amizade que havia entre você e ele, era tão amplamente conhecida por todos, que talvez o comitê mais honorável pudesse considerá-lo parcial, entretanto, em obediência às ordens que recebera, demonstraria com liberdade os sentimentos que guardava.

E que sua majestade, em consideração aos serviços que você prestou a ele, e nos termos de sua inclinação misericordiosa, ficaria feliz em poupar a sua vida, e daria ordens para que somente os seus olhos fossem arrancados, sugeriu ele humildemente, julgando ele que este expediente da justiça poderia ser satisfeito de alguma maneira, e o mundo todo aplaudiria a misericórdia do imperador, bem como os justos e generosos procedimentos daqueles que tiveram a honra de serem seus conselheiros. E que a perda de seus olhos não seria impedimento algum para a força do seu corpo, com o qual poderia ele ainda ser útil à sua majestade, e que a cegueira servia para aumentar a sua coragem, ocultando-nos os perigos, e que o medo que você demonstrou por causa dos olhos, foi a maior dificuldade para a tomada da frota inimiga, e isso seria suficiente para que você enxergasse através dos olhos dos ministros, de vez que os grandes príncipes não faziam mais isso.

Esta proposta foi recebida com desaprovação geral de todo o conselho. Bolgolam, o almirante, não conseguia conter seu ânimo, porém, levantando-se com fúria, disse, que não podia acreditar como um secretário ousava pensar em dar sua opinião para a conservação da vida de um traidor, e que os serviços que você prestou foram, com todas as razões do estado, os maiores agravantes dos teus crimes, e que você, que foi capaz de extinguir o fogo com um jato de urina no apartamento de sua majestade, fato esse que ele mencionava com horror, poderia, em outra oportunidade, provocar uma inundação pelos mesmos meios, e afogar todo o palácio, e a mesma força que possibilitara a você vencer a frota inimiga, poderia servir, num primeiro descontentamento, reverter a situação, e que ele tinha bons motivos para pensar que você era de coração, um partidário dos que quebram o ovo pela extremidade maior, e como a traição começa no coração, antes de se transformar em atos públicos, de modo que você foi acusado como traidor por esse motivo, e portanto, insistia ele que você deveria morrer.

O tesoureiro tinha a mesma opinião: demonstrando ele a que extremos a receita de sua majestade fora reduzida, para poder sustentá-lo, e que em breve você ficaria tão grande, que o expediente do secretário em arrancar-lhe os olhos, estava muito aquém de ser um remédio contra este mau, e que isto provavelmente iria crescer tanto, como podemos constatar nas práticas comuns de cegar alguns tipos de aves, fazendo com que elas se alimentem com maior rapidez, e fiquem gordas rapidamente, e que sua santa majestade e o conselho, que são os seus juízes, estavam, em suas próprias consciências, amplamente convencidos da culpa que vos impingiram, o que já era um argumento suficiente para condená-lo à morte, sem as provas formais exigidas pelas austeras letras da lei.

Mas sua majestade imperial, totalmente contrária à pena capital, teve grande felicidade em afirmar, que ainda que o conselho acreditasse que a perda dos seus olhos fosse uma pena muito leve, alguma outra saída poderia haver futuramente. E o seu amigo, o secretário, humildemente desejando ser novamente ouvido, em resposta às objeções do tesoureiro, relativas aos custos imensos impostos a sua majestade por causa da sua manutenção, disse, que a sua excelência, cuja única atribuição era a receita do imperador, poderia facilmente resolver essa situação, diminuindo gradativamente os custos de manutenção, pelos quais, você ficaria fraco e debilitado, em razão de serem insuficientes, e você perderia o apetite, e consequentemente em alguns meses você se degeneraria e se esgotaria, e assim que você morresse cinco ou seis mil dos súditos de sua majestade poderiam, em dois ou três dias, separar a carne dos seus ossos, removê-la com carroças, e sepultá-la em locais distantes, para impedir o aparecimento de doenças, deixando o esqueleto como um monumento de admiração para a posteridade.

Desse modo, devido à grande amizade do secretário, todo o assunto foi resolvido. Foi rigorosamente aceitado, que o plano de matá-lo de fome gradualmente deveria ser mantido como segredo, mas o decreto de arrancar-lhe os olhos foi sepultado nos autos do processo; ninguém discordou, com exceção de Bolgolam, o almirante, que, sendo um protegido da imperatriz, era constantemente estimulado pela sua majestade, a rainha, a pedir a sua morte, tendo ela profundo rancor em relação a vossa pessoa, por conta do método ilegal e inglório usado por vossa pessoa para extinguir o fogo do apartamento dela.

Num prazo de três dias o seu amigo, o secretário, será instado a comparecer em vossa casa, e ler diante de vossa pessoa os autos da acusação, e então mostrar a grande misericórdia e generosidade de sua majestade, o rei, e do conselho, por meio do qual você será condenado à perda dos seus olhos, ato este que sua majestade não duvida que você irá se submeter reconhecida e humildemente, e vinte cirurgiões de sua majestade estarão presentes, de maneira que a operação seja bem realizada, disparando flechas bastante pontiagudas nas bolas dos seus olhos, quando você estiver deitado no chão.

Deixo à tua liberdade as medidas que você deverá tomar, e para evitar suspeitas, devo retornar imediatamente de modo tão secreto como cheguei.

Sua excelência assim o fez, e eu fiquei sozinho, dominado por dúvidas e perplexidades do pensamento.

Era costume, introduzido por este príncipe e pelo seu ministério (muito diferente, como tenho afirmado, da prática dos tempos anteriores), que depois que a corte tivesse decretado alguma execução cruel, ou para agradar o ressentimento do monarca, ou a maldade de um favorito, o imperador sempre fazia um discurso para todo o conselho, expressando a sua grande clemência e ternura, como qualidades conhecidas e confessadas por todo o mundo. Este discurso era imediatamente publicado para todo o reino, não havia nada que não assustasse mais as pessoas do que esses encômios à misericórdia de sua majestade; porque observavam eles, que quanto mais ênfase e destaque fossem dados a estes louvores, tanto mais desumano era o castigo, e mais inocente seria a vítima.

Todavia, com relação à minha pessoa, devo confessar, jamais ter desejado ser um cortesão, tanto por nascimento como por educação, eu tinha um conceito tão ruim a respeito desses assuntos, que não conseguia perceber a clemência e a generosidade desta sentença, mas imaginava-a (talvez erroneamente) tanto mais rigorosa do que gentil. Eu algumas vezes pensava em defender-me perante o tribunal, pois, embora não pudesse negar os fatos alegados nos diversos artigos, todavia eu confiava que pudesse haver algum atenuante. Mas, tendo eu examinado durante a minha vida muitos processos de estado, os quais observei que terminavam sempre segundo as decisões tomadas pelos juízes, ousei não confiar em decisão tão perigosa, em uma conjuntura tão crítica, e em detrimento de inimigos tão poderosos. Certa vez estava fortemente inclinado a resistir, pois, enquanto me achava em liberdade toda a força daquele império dificilmente poderia me dominar, e eu poderia facilmente com pedras reduzir a metrópole em pedaços; mas logo com horror me desfiz desse projeto, lembrando-me do juramento que fizera ao imperador, dos favores que dele recebera, e do título honorífico de NARDAC que ele me conferiu. Nem tivera eu sido informado sobre a gratidão dos cortesãos, para me convencer, de que os rigores atuais de sua majestade me desobrigavam das dívidas passadas.

Finalmente, tomei uma decisão, para a qual talvez eu possa estar sujeito a alguma censura, e não injustamente, pois confesso que precisava preservar os meus olhos, e consequentemente a minha liberdade, devido a minha grande precipitação e falta de experiência, porque, se tivesse eu conhecimento a respeito da natureza dos príncipes e dos ministros, que eu observara desde muitas outras cortes, e seus métodos de tratarem criminosos, menos perigosos que eu, espontânea e prontamente me submeteria a castigo tão suave.

Mas, instado pela precipitação da mocidade, e tendo a permissão de sua majestade imperial para render minhas homenagens ao imperador de Blefuscu, eu aproveitei esta oportunidade, antes que se passassem os três dias, para enviar uma carta ao meu amigo, o secretário, informando-o de minha decisão de partir naquela manhã para Blefuscu, de acordo com a licença que eu havia recebido, e sem esperar por uma resposta, fui para aquele lado da ilha onde ficava a nossa frota. Apossei-me de um grande navio de guerra, amarrei um cabo à proa, e levantando as âncoras, despi-me, coloquei minhas roupas (junto com a manta que trazia nos braços) dentro do barco, que arrastei, e ora andando, ora nadando, cheguei ao porto real de Blefuscu, onde as pessoas de há muito me esperavam: eles me forneceram dois guias para que me dirigissem para a capital da cidade, que tem o mesmo nome.

Segurei-os nas mãos, até que me aproximei a duzentos metros do portão, e disse a eles para que avisassem sobre a minha chegada a um dos secretários, e o informassem, eu lá aguardei as ordens de sua majestade. Cerca de uma hora depois tive uma resposta, de que a sua majestade, acompanhado da família real, e dos grandes oficiais da corte, estava saindo para me receber. Avancei cem metros. O imperador e sua comitiva desmontaram de seus cavalos, a imperatriz e as damas de companhias desceram de suas carruagens, e eu não percebi se eles estavam assustados ou preocupados. Deitei-me no chão para beijar as mãos de sua majestade e da imperatriz.

Disse à sua majestade, que viera conforme prometera, e com permissão do imperador, meu amo, para ter a honra de ver um monarca tão poderoso, e oferecer a ele algum serviço ao meu alcance, coerente com o dever que devia ao príncipe; sem mencionar nenhuma palavra sobre o meu infortúnio, porque não tivera até então, nenhuma informação regular a respeito, e poderia me considerar totalmente alheio a qualquer plano, nem poderia eu acreditar sensatamente que o imperador pudesse descobrir o segredo, enquanto estivesse fora de seu poder, fato este, todavia, que mostrou estar eu enganado.

Não vou incomodar o leitor com o relato particular da minha recepção nesta corte, a qual foi adequada à generosidade de um príncipe tão generoso, nem com as dificuldades que passei com falta de uma casa ou de uma cama, sendo forçado a deitar no chão, embrulhado na minha manta.

← Capítulo anterior Título do capítulo Capítulo seguinte →
Parte I, Capítulo VI Parte I, Capítulo VII Parte I - Capítulo VIII