Viagens de Gulliver/Parte II/III

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte II - Capítulo III


Ela pegou-me em suas próprias mãos, e me levou diante do rei.
ilustração de Thomas M. Balliet

[O autor é enviado para a corte. A rainha o adquire de seu amo, o lavrador, e o apresenta ao rei. O autor discute com os grandes sábios de sua majestade. Um apartamento na corte é preparado para o autor. A rainha o tem em alta estima. Ele defende a honra de seu país. Suas desavenças com o anão da rainha.]

Os frequentes trabalhos que empreendia durante todos os dias, durante algumas semanas, resultaram numa considerável modificação da minha saúde: quanto mais meu amo ganhava comigo, mais insaciável se tornava. Perdera completamente meu apetite, e estava quase reduzido a um esqueleto. O lavrador percebeu isso, e concluindo que eu morreria em breve, decidiu tirar o melhor proveito de mim o quanto podia. Enquanto assim raciocinava e se decidia, um SARDRAL, ou oficial-cavalheiro, veio por parte da corte, exigindo que o meu amo imediatamente me levasse para lá para diversão da rainha e de suas damas. Algumas delas já tinham me visto, e relatavam coisas estranhas a respeito de minha beleza, comportamento e bom senso.

Sua majestade, e aqueles que a serviam, estavam além da conta encantados com o meu comportamento. Caí de joelhos, e pedi a honra de beijar os pés imperiais, mas a graciosa princesa estendeu seu dedo mínimo em minha direção, depois que fui colocado em cima da mesa, tendo-o envolvido com meus braços, e colocando a ponta dele nos meus lábios com o máximo respeito. Ela me fez algumas perguntas gerais a respeito do meu país e de minhas viagens, as quais eu respondi com deferência, e com poucas palavras dentro de minhas possibilidades. Ela perguntou, “se eu estaria disposto a viver na corte?”. Eu me inclinei na borda da mesa, e humildemente respondí “que era escravo do meu amo: mas, caso me fosse possível, eu ficaria orgulhoso em dedicar a minha vida aos serviços de sua majestade.”

Ela então perguntou ao meu amo, “se ele estava disposto a me vender por um bom preço?” Ele, que achou que eu não viveria um mês, estava disposto a se desfazer de mim, e exigiu mil peças de ouro, que lhe foram pagas no local, sendo cada uma cerca do tamanho de oitocentos moidores[1], porém estabelecendo a proporção de todas as coisas entre aquele país e a Europa, e o elevado preço do ouro entre eles, o valor não chegava a uma soma tão importante quanto o valor de mil guinéus[2] na Inglaterra. Disse então à rainha, “uma vez que eu era a criatura mais humilde e vassalo de sua majestade, eu deveria pedir o favor, para que Glumdalclitch — que sempre me havia tratado com tanto cuidado e gentileza, e entendia que ela o fazia tão bem, — fosse admitida aos seus serviços, e continuasse a ser minha babá e minha professora.”

Sua majestade concordou com o meu pedido, e facilmente conseguiu a permissão do lavrador, que ficou muito contente em ter a sua filha preferida na corte, e a garotinha mesmo não conseguia esconder a sua alegria. Meu antigo amo se retirou, me desejando boa sorte, e dizendo que me deixava em um bom serviço, ao qual respondi não com palavras, mas fazendo uma ligeira reverência.

A rainha percebeu a minha frieza, e quando o lavrador havia deixado o apartamento, ela me perguntou o motivo. Ousei dizer à majestade, “que eu não devia nenhuma obrigação ao meu ex-amo, além o de não haver esmagado os miolos de uma pobre e inofensiva criatura como eu, encontrada por acaso nos seus campos: e cujas obrigações foram amplamente recompensadas, com os proventos que havia recebido ao me exibir para metade do reino, além do valor que recebera pela minha venda.

Que a vida que eu levara desde então era laboriosa o bastante para matar um animal que tivesse dez vezes a minha força. Que a minha saúde estava muito prejudicada, pela escravidão contínua em divertir as pessoas todas as horas do dia, e que, se o meu amo não acreditasse que a minha vida estivesse em perigo, a sua majestade não conseguiria me adquirir por um preço tão baixo.

Mas como agora não havia nenhum receio de ser mal tratado, sob a proteção de uma princesa tão boa e tão generosa, ornamento da natureza, a predileta do mundo, a maior alegria dos seus súditos, e a fênix da criação, de modo que eu esperava que as preocupações com o meu antigo amo não teriam mais fundamento, pois já percebia que o meu espírito se reanimava, pela presença de sua mais augusta presença.

Este foi um resumo do meu discurso, feito com enormes incorreções e alguma hesitação. A última parte em particular fora pronunciada no estilo peculiar à aquele povo, de quem aprendi algumas frases de Glumdalclitch, quando ela estava me levando para a corte.

A rainha, sendo eminentemente tolerante com minha deficiência ao me expressar, ficou, contudo, supresa com a minha inteligência e o bom senso de um animal tão pequenino. Ela pegou-me em suas próprias mãos, e me levou diante do rei, que então havia se retirado para o seu gabinete. Sua majestade, um príncipe de muita importância e de fisionomia austera, não tendo observado minhas formas à primeira vista, perguntou à rainha de maneira fria “desde quando ela se tornara apaixonada por um SPLACNUCK?” pois era assim que parecia que eu fosse para ele, assim que encostei o meu peito na mão direita de sua majestade.

eu só poderia me vingar chamando-o de irmão.
ilustração de Thomas M. Balliet

Mas esta princesa, que tinha um trato infinito de sabedoria e bom humor, me colocou suavemente de pé sobre uma escrivaninha, e ordenou para que eu fizesse para a sua majestade um relato de minha pessoa, o que fiz em poucas palavras: e Glumdalclitch, que esperava à porta do gabinete, e que não podia suportar ficar longe de mim, entrou, e confirmou tudo que tinha acontecido desde que cheguei à casa do pai dela.

O rei, embora fosse uma pessoa tão erudita quanto qualquer um de seus domínios, tinha sido educado no campo da filosofia, e particularmente da matemática, todavia, quando ele observou melhor as minhas formas, e viu que eu caminhava ereto, antes que eu começasse a falar, imaginou que eu fosse uma peça de relojoaria (que aliás naquele país chegou a uma perfeição muito grande) criada por algum artista engenhoso. Mas quando ele ouviu a minha voz, e percebeu que o que eu transmitia era regular e racional, ele não conseguiu esconder o seu assombro.

Ele não ficou de nenhum jeito satisfeito com o relato que eu fizera a ele sobre a maneira como eu chegara a este reino, mas achava que fosse uma história combinada entre Glumdalclitch e o pai dela, que haviam me ensinado uma porção de palavras para me fazerem vender por um preço melhor. Diante dessas insinuações, ele fez várias outras perguntas para mim, e ainda recebia respostas racionais: não mais incorretas do que um sotaque estrangeiro, e um imperfeito conhecimento da linguagem, com algumas frases rústicas que eu tinha aprendido na casa do lavrador, e que não se adequava ao estilo educado usado na corte.

Sua majestade mandou chamar três grandes sábios.
ilustração de Thomas M. Balliet

Sua majestade mandou chamar três grandes sábios, que estavam então em sua tarefa semanal, de acordo com o costume daquele país. Estes cavalheiros, depois de terem examinado a minha figura com a maior delicadeza, tiveram diferentes concepções a meu respeito. Todos concordaram que eu não poderia ser produzido de acordo com as leis regulares da natureza, porque eu não fora moldado com a capacidade de preservar a minha vida, ou por causa da agilidade, ou subindo em árvores, ou cavando buracos na terra.

Eles observaram através dos meus dentes, que foram examinados com grande exatidão, que eu era um animal carnívoro, todavia a maioria dos quadrúpedes eram superiores a mim, e os ratos do campo, assim como outros, que eram velozes demais, não conseguiam imaginar como eu poderia me manter, exceto se eu me alimentasse de caracóis e de outros insetos, os quais eles propunham, por meio de inúmeros argumentos eruditos, para demonstrar que eu não conseguiria fazê-lo.

Um desses virtuosos parecia acreditar que eu pudesse ser um embrião ou fruto de um aborto. Mas esta opinião foi rejeitada pelos outros dois, que observou que os meus membros eram perfeitos e bem acabados; e que eu tinha vivido muitos anos, como se poderia evidenciar pela minha barba, cujos pelos foram completamente descobertos usando uma lupa. Eles não acreditavam que eu fosse um anão, porque a minha pequenez estava aquém de todos os graus de comparação; pois o anão favorito da rainha, o menor que fora descoberto naquele império, tinha mais de nove metros de altura. Depois de muito discutirem, concluíram por unanimidade, que eu era apenas um RELPLUM SCALCATH, que literalmente pode ser interpretado como um LUSUS NATURAE, uma terminologia perfeitamente agradável à moderna filosofia da Europa, cujos professores, desdenhando o antigo subterfúgio das causas ocultas, por meio dos quais os seguidores de Aristóteles empenhavam-se inutilmente para disfarçar a sua ignorância, inventaram esta maravilhosa solução para todas as dificuldades, para o inefável avanço do conhecimento humano.

Depois desta conclusão decisiva, insisti para dizer algumas palavras. Dirigi-me ao rei, e assegurei a sua majestade “que eu era originário de um país superpovoado com vários milhões de seres de ambos os sexos, e que eram da minha altura; onde os animais, árvores e casas, eram todos proporcionais, e onde, por dedução, eu poderia ser capaz de me defender, e de encontrar subsistência, como poderia fazer aqui qualquer um dos súditos de sua majestade, o que eu entendia como uma resposta completa para os argumentos daqueles cavalheiros.”

o reino era muito infestado por moscas no verão.
ilustração de Thomas M. Balliet

Diante disto eles responderam apenas com um sorriso de satisfação, dizendo, “que o lavrador tinha me ensinado muito bem a lição.” O rei, que era mais esclarecido, despediu os seus sábios, e mandou buscar o lavrador, que por sorte ainda não havia saído da cidade. Tendo-o portanto examinado particularmente em primeiro lugar, e depois comparando-o comigo e com a jovem garota, sua majestade começou a pensar que o que disséramos poderia talvez ser verdade.

Pediu à rainha que desse ordem para que um cuidado especial me fosse dedicado, e era de opinião que Glumdalclitch deveria ainda continuar em sua missão de cuidar de mim, porque observara ele que tínhamos uma grande afeição um pelo outro. Um apartamento confortável foi providenciado para ela na corte: ela tinha uma espécie de tutora nomeada para cuidar da sua educação, uma criada para vestí-la, e dois outros servidores para trabalhos menores; mas o cuidado comigo ficaria inteiramente a cargo dela.

A rainha mandou que o seu próprio carpinteiro fizesse para ela uma caixa, que pudesse me servir de quarto, de acordo com o modelo que Glumdalclitch e eu havíamos combinado. Este homem era um artista extremamente habilidoso, e de acordo com minhas orientações, num período de três semanas, ele terminava para mim um quarto de madeira com quase cinco metros quadrados, e mais de três metros e meio de altura, com janela de correr, porta, e dois banheiros, como um quarto em Londres.

A placa, que servia de telhado, podia ser levantada e baixada por meio de duas engrenagens, para colocar uma cama pronta preparada pelo tapeceiro de sua majestade, a qual Glumdalclitch tirava todos os dias para arejar, fazendo isso com suas próprias mãos, e baixando-a durante a noite, e fechando o teto acima de mim.

Um excelente artífice, que se notabilizara por pequenas curiosidades, encarregou-se de me fazer duas cadeiras, com encostos e estruturas feitos de uma substância não diferente do marfim, e duas mesas, e um armário para guardar as minhas coisas. O ambiente era estofado por todos os lados, bem como o assoalho e o teto, para evitar qualquer acidente com o descuido daqueles que me transportavam, para amortecer a força dos sacolejos, quando eu entrava na carruagem.

Pedi uma fechadura para a minha porta, para impedir que ratos e camundongos entrassem. O ferreiro, depois de várias tentativas, fez a menor de todas já vista por eles, porque eu conheci uma maior no portão da casa de um cavalheiro, na Inglaterra. Procurei guardar a chave no meu próprio bolso, com medo que Glumdalclitch pudesse perdê-la.

A rainha mandou também que as sedas mais finas fossem trazidas, para que me fizessem roupas, não mais finas que um lençol inglês, e muito pesadas até que eu me acostumei com elas. Elas estavam em moda no reino, em parte se pareciam com as persas, e em parte com as chinesas, sendo essee um hábito muito sério e apropriado.

Lembro-me em uma manhã, quando Glumdalclitch havia me colocado numa caixa com janela.
ilustração de Thomas M. Balliet

A rainha gostava tanto da minha companhia, que ela não podia jantar sem mim. Eu tinha uma mesa colocada onde a sua majestade comia, perto do seu cotovelo esquerdo, e uma cadeira para me sentar. Glumdalclitch ficava em um banquinho no chão perto da minha mesa, para me ajudar e tomar conta de mim. Eu possuía um conjunto completo de travessas e pratos e outras coisas necessárias, que em comparação com aquelas da rainha, não eram muito maiores do que aquelas que havia visto em Londres numa loja de brinquedos de móveis para casa de bonecas: estes a minha pequena babá guardava em seu bolso dentro de uma caixa de prata, e me dava nas refeições quando eu precisava delas, sempre lavando-as ela mesma. Nenhuma pessoa jantava com a rainha, exceto as duas princesas reais, a mais velha de dezesseis anos, e a mais jovem naquela época com treze anos e um mês.

A sua majestade costumava servir um pouco de comida em um dos meus pratos, a qual eu comia sozinho, e a diversão dela era me ver comendo os pedacinhos: porque a rainha (que tinha na verdade um estômago fraco) comia, num só bocado, o equivalente ao que doze lavradores ingleses poderiam comer numa refeição, o que para mim durante algum tempo era uma visão repugnante. Ela triturava a asa de uma calhandra[3], com ossos e tudo, entre seus dentes, embora fosse nove vezes maior do que um peru adulto, e colocava um pedaço de pão na boca que era tão grande quanto dois pães de doze centavos. Ela bebia numa xícara de ouro, que era maior que um barril, em um só gole. As facas que ela usava eram duas vezes maior que uma foice, colocada adequadamente para uso. As colheres, os garfos, e outros utensílios, eram todos da mesma proporção. Eu me lembro quando Glumdalclitch me carregava, por curiosidade, para ver algumas mesas da corte, onde dez ou doze daquelas facas enormes eram levantadas juntas. Acho que nunca até aquele momento havia tido uma visão tão assustadora.

Era costume, que toda quarta-feira (que eu tinha observado que era o dia de descanso para eles) o rei e a rainha, com sua descendência de ambos os sexos, jantavam juntos no apartamento de sua majestade, de quem agora me tornara grande favorito; e nesses momentos, minha cadeira e minha mesa eram colocados do seu lado esquerdo, de frente para um dos saleiros. Este príncipe tinha prazer em conversar comigo, me perguntar sobre os modos, religião, direito, governo, e educação da Europa, e eu fazia a ele o melhor relato de que era capaz a esse respeito. Sua percepção era tão clara, e seu discernimento tão exato, que ele fazia reflexões e observações muito sábias sobre tudo que eu dizia.

Mas confesso que, depois de tinha falado um pouco além do habitual a respeito do meu amado país, do nosso comércio e das guerras em mar e em terra, dos cismas de nossa religião, e da política do estado, os preconceitos de sua educação vieram-lhe à tona, que ele não conseguiu deixar de me pegar em sua mão direita, e me acariciou gentilmente com a outra, e depois de um ataque de riso, me perguntou, “se eu era do partido político whig[4] ou conservador como um tory?[5]” Depois, virando-se para o primeiro ministro, que lhe dava assistência atrás dele com um bastão branco, quase tão alto quanto o mastro principal do Soberano Real, ele observou “como eram abjetas as grandezas humanas, pois podiam ser imitadas até por insetos minúsculos como eu, e no entanto”, disse ele,

“Apostaria que estas criaturas tem seus títulos e distinções de honra, edificam seus ninhos e tocas, as quais eles chamam de casas e cidades, se preocupam com roupas e adereços, amam, lutam, discutem, enganam e traem!” E assim — continuou ele dizendo, ao passo que eu perdia e readquiria a cor diversas vezes, — com indignação, em ver a nobreza de nosso país, senhora das artes e das armas, flagelo da França, árbitro da Europa, sede da virtude, da piedade, da honra, e da verdade, orgulho e inveja do mundo, ser tratada de forma tão desdenhosa.”

Mas eu não estava em situação de ressentir-me das ofensas, então, depois de pensar maduramente eu comecei a duvidar se eu havia sido ofendido ou não. Porque, depois de ter-me habituado com a visão e o diálogo deste povo, eu observava cada objeto sobre o qual eu lançava meus olhos como sendo de tamanho proporcional, o horror que eu sentia à princípio pelo tamanho e aspecto que tinham estava tão desgastado, que se eu tivesse visto uma comitiva de lordes e damas ingleses com seus trajes requintados e de festa, representando seus diversos papéis na maneira mais refinada de se exibir, de reverenciar e de tagarelar, para dizer a verdade, eu ficaria fortemente tentado a rir como muitos deles, como o rei e seus próceres faziam comigo. Na verdade, nem eu mesmo conseguia deixar de rir de mim mesmo, quando a rainha costumava me colocar em sua mão diante de um espelho, e pelo qual ambas as nossas imagens apareciam diante de mim em tamanho totalmente natural, e não poderia haver nada mais ridículo do que a comparação, de modo que eu comecei a me imaginar reduzido em muitas vezes o meu tamanho habitual.

Nada me irritava e me mortificava tanto como o anão da rainha, que sendo de estatura mais baixa que se vira naquele país (porque na verdade ele tinha pouco mais que nove metros de altura), ficou tão insolente ao ver uma criatura tão menor que ele, que ele sempre fingia vangloriar-se e parecer maior quando passava por mim na ante-câmara da rainha, enquanto eu ficava em cima da mesa conversando com os lordes e as damas da corte, e ele raramente deixava de soltar uma ou duas palavras sobre o meu tamanho, contra o qual eu só poderia me vingar chamando-o de irmão, desafiando-o a lutar, e outras bravatas muito comuns nas bocas dos pajens da corte. Um dia, no jantar, esse pequeno filhote de raposa estava tão aborrecido com alguma coisa que eu lhe dissera, que, subindo nos degraus da cadeira de sua majestade, ele me pegou pela cintura, quando eu estava sentado, sem pensar em qualquer maldade, e me derrubou dentro de uma enorme vasilha de prata com creme, e depois fugiu o mais rápido que pode.

Caí de ponta-cabeça, e, caso eu não fosse um bom nadador, teria sido muito difícil para mim, pois Glumdalclitch naquele momento estava por acaso na outra extremidade do local, e a rainha ficou tão assustada, que lhe faltou tranquilidade para me ajudar. Mas a minha pequena babá veio em meu socorro, e me tirou dali, depois de eu ter engolido mais de vinte e cinco por cento do creme. Fui colocado na cama: todavia, não tive nenhum outro prejuízo além da perda de algumas roupas, que foram totalmente estragadas. O anão levou uma boa surra, e como punição posterior, foi obrigado a beber a tijela de creme no qual eu havia sido atirado: nem conseguiu ele recuperar a graça da rainha, pois logo depois ela o presenteou a uma dama da nobreza, de modo que nunca mais o vi, para minha grande satisfação, pois eu não poderia prever a que extremos tão perverso diabrete teria levado este ressentimento.

Antes ele já tinha me aprontado uma arapuca, que fez a rainha rir, embora ao mesmo tempo ela sentisse muita vergonha, e o teria demitido imediatamete, se eu não tivesse sido tão generoso ao interceder. Sua majestade havia se servido de um osso de tutano no prato dela, e depois de retirar o tutano batendo no osso, o colocou novamente de pé no prato, como estava antes, o anão, aproveitando esta oportunidade, quando Glumdalclitch tinha ido ao aparador, subiu no banco que ela ficava para cuidar de mim nas refeições, me pegou com as duas mãos, e chacoalhando minhas duas pernas, me encaixou dentro do osso de tutano acima de minha cintura, onde eu fiquei colado durante algum tempo, fazendo uma figura muito ridícula. Acredito que faltou pouco para que qualquer um soubesse o que ia acontecer comigo, pois eu acreditava que eu não teria coragem de chorar. Porém, como os príncipes raramente comem suas refeições quentes, minhas pernas não foram escaldadas, apenas as minhas meias e o meu traseiro ficaram uma lástima. O anão, a meu pedido, não recebou outra punição além de uma bem merecida sova.

Eu era frequentemente animado pela rainha por causa do medo, e ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram grandes covardes como eu mesmo? A situação era esta: o reino era muito infestado por moscas no verão, e estes insetos odiosos, cada um deles tão grande quanto uma calhandra dessas que existem em Dunstable, raramente me davam qualquer descanso quando eu me sentava para jantar, porque elas zuniam e faziam ruído continuamente em meus ouvidos. Algumas vezes elas pousavam em minha comida, e botavam seu repugnante excremento ou suas ovas para trás, os quais para mim eram bastante visíveis, embora não para os nativos daquele país, cujos olhos enormes não eram tão agudos como os meus, na visualização de objetos menores.

Algumas vezes eles pousavam no meu nariz, ou na minha testa, onde me picavam rapidamente, cheirando muito ofensivamente, e eu conseguia rastrear facilmente aquela matéria viscosa, que os nossos naturalistas nos ensinavam, que permitia a essas criaturas caminhar com seus pés para cima, no teto. Eu tinha muito trabalho para me defender contra estes detestáveis animais, e não conseguia deixar de estremecer quando eles vinham em minha cara. Era hábito comum para o anão, pegar alguns desses insetos na mão, como os garotos em idade escolar fazem em nosso país, soltando-os debaixo do meu nariz, com o objetivo de me assustar, e divertir a rainha. Meu único recurso era picá-los em pedacinhos com a minha faca, a medida que eles voavam no ar, e esta minha destreza era muito admirada.

Lembro-me em uma manhã, quando Glumdalclitch havia me colocado numa caixa com janela, como ela costumava fazer naqueles belos dias para que eu tomasse ar (pois eu ousava não arriscar pendurar a caixa com prego para fora da janela, como fazemos com as gaiolas na Inglaterra), depois que eu tinha levantado uma de minhas janelas de correr, e sentado na minha mesa para comer um pedaço de bolo como café da manhã, mais de vinte marimbondos, atraídos pelo cheiro, vieram voando ao local, zunindo mais alto que zangões com muitas gaitas de fole. Alguns deles pegaram o meu bolo, e o levaram aos pedaços, outros voavam em torno de minha cabeça e do rosto, me confundindo com o ruído, e me enlouquecendo com suas picadas. Todavia, eu tive a coragem de me levantar e sacar o meu cutelo, e atacá-los no ar.

Matei quatro deles, mas o resto fugiu, e eu atualmente fecho a minha janela. Esses insetos eram tão grandes como perdizes: eu retirava os ferrões deles, que tinham quase quatro centímetros de comprimento, tão afiados quanto agulhas. Cuidadosamente os guardei todos eles, e tendo-os mostrado, com algumas outras curiosidades, em diversas partes da Europa, quando de meu retorno a Inglaterra, eu presenteei três deles à Universidade de Gresham e guardei o quarto para mim.

Notas do Tradutor[editar]

  1. Moidor: antiga moeda portuguesa.
  2. Guinéu: antiga moeda de ouro inglesa.
  3. Calhandra: ou cotovia, pássaro rabilongo da família dos Mímidas, também conhecido como sabiá-poca.
  4. Whig: membro de um partido da história inglesa favorável ao progresso e à reforma.
  5. Tory: partidário de James II, e membro do partido conservador.
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