Viagens de Gulliver/Parte II/V

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte II - Capítulo V


chacoalhou diretamente sobre minha cabeça,
fazendo com que doze maçãs, caíssem ...
ilustração de Thomas M. Balliet

[Várias aventuras que aconteceram ao autor. A execução de um criminoso. O autor mostra suas habilidades em navegação.]

Eu deveria ter tido uma vida muito feliz naquele país, caso o fato de ser pequeno não tivesse me exposto a vários acidentes ridículos e perturbadores; alguns dos quais ousarei relatar. Glumdalclitch frequentemente me levava para os jardins da corte numa caixa menor, e algumas vezes me deixava sair de dentro dela, e me segurava pela mão, ou me colocava no chão para caminhar. Me lembro, antes do anão ser despedido pela rainha, que ele nos seguiu um dia até aqueles jardins, e a minha babá, tendo me colocado no chão, ele e eu estávamos próximos um do outro, perto de algumas macieiras anãs, e eu, no intuito de mostrar minha inteligência, com uma tola alusão entre ele e as árvores, cujas denominações se assemelham no idioma deles como no nosso.

Nisto, o maldoso trapaceiro, vendo a sua oportunidade, quando eu estava passando por debaixo de uma delas, chacoalhou diretamente sobre minha cabeça, fazendo com que doze maçãs, cada uma delas tão grande quanto um barril desses que temos em Bristol, caíssem sobre minhas orelhas, uma delas me acertou nas costas quando eu por acaso estava abaixado, e me atingiu bem na cara, mas eu não me machuquei, e o anão foi perdoado a pedido meu, porque eu havia feito a provocação.

Outro dia, Glumdalclitch me colocara sobre um gramado macio para me divertir, enquanto ela passeava com sua tutora a alguma distância. Nesse momento, caiu subitamente uma violenta chuva de granizo, onde eu, devido à força do temporal, imediatamente fui atirado ao chão: e quando estava no chão, as pedras de granizo caíam com tremendo impacto por todo o meu corpo, como se fosse golpeado por bolas de tênis; entretanto, eu conseguí me arrastar gatinhando, e me protegí, deitando de bruços, no costa do sotavento de um canteiro com limão-tomilho, mas fiquei tão inteiramente machucado dos pés à cabeça, que eu não conseguí sair pra fora durante dez dias.

E nem é isso que mais me causou assombro, porque a natureza, nesse país, observadas as mesmas proporções em todas as situações, uma pedra de granizo é quase mil e oitocentas vezes maior que na Europa, e isso eu posso afirmar por experiência, tendo sido tão curioso em pesar e medí-las.

Mas um acidente mais perigoso aconteceu comigo no mesmo jardim, quando a minha pequena babá, acreditando que ela havia me colocado num lugar seguro (o que sempre a incentivei a fazer isso, para que eu pudesse desfrutar de meus próprios pensamentos), e tendo esquecido a minha caixa em casa, para evitar o trabalho de carregá-la, foi para uma outra parte do jardim com a sua tutora e algumas damas de sua amizade.

Enquanto ela estava ausente, e longe o bastante para ser ouvida, um cachorro branco da raça spaniel que pertencia a um dos jardineiros chefes, tendo penetrado acidentalmente no jardim, chegou sem querer perto do lugar em que me encontrava: o cão, seguido pelo faro, veio direto e me pegou na boca, correu em direção ao seu amo abanando a cauda, e suavemente me colocou no chão.

Por sorte ele fora tão bem treinado, que eu fui carregado entre seus dentes sem o menor arranhão, ou mesmo sem rasgar minhas roupas. Mas o pobre jardineiro, que me conhecia bem, e era muito gentil para comigo, ficou muito assustado: ele gentilmente me pegou com as duas mãos, e me perguntou como eu estava? Mas eu estava tão amedrontado e sem fôlego, que eu não conseguí dizer nem uma palavra.

Em alguns minutos eu voltei a mim, e ele me levou em segurança para a minha pequena babá, que, nesse momento, havia retornado ao lugar onde ela me deixara, e estava desesperada por causa do meu desaparecimento, e a falta de respostas quando ela chamava. Ela repreendeu severamente o jardineiro por causa do seu cachorro. Mas o assunto foi abafado, e a corte nunca veio a saber do fato, pois a garota tinha medo que a rainha ficasse brava; e em verdade, com relação a mim mesmo, achei que não seria bom para a minha reputação, que tal história se alastrasse.

Este acidente determinou absolutamente que Glumdalclitch nunca confiasse em me deixar fora do alcance de sua visão nas próximas vezes que saímos. Durante muito tempo fiquei com receio desta decisão, e portanto, escondí dela algumas aventuras infelizes, que me aconteceram naqueles momentos que eu ficara sozinho. Uma vez, um gatinho, que rondava pelo jardim, inclinou-se para cima de mim, e se eu não tivesse decididamente sacado o meu cutelo, e corrido para debaixo de um espesso monte de ripas, ele certamente teria me levado para longe com suas patas.

Numa outra ocasião, caminhando para o topo de um pequeno montículo, caí até o pescoço num buraco, que o animal havia retirado a terra, e tive de inventar uma mentira, que não vale a pena lembrar, como desculpa por ter danificado as minhas roupas. Eu também quebrei a minha canela da perna direita na casca de um caracol, que tropecei por acaso, enquanto andava sozinho e pensava na minha pobre Inglaterra.

Não sei o que era maior se o meu prazer ou o meu terror em observar, naqueles passeios solitários, que os pássaros menores pareciam não ter nenhum medo de mim, mas saltitavam perto de mim a uma distância de um metro, procurando vermes e outros alimentos, com tanta indiferença e segurança como se não houvesse nenhuma criatura perto deles. Lembro-me quando um tordo teve a confiança de arrancar de minha mão, com seu bico, um pedaço de bolo que Glumdalclitch tinha me dado para meu café da manhã.

Quando eu tentava pegar um destes pássaros, eles atrevidamente se voltavam contra mim, tentando bicar meus dedos, o que eu não ousava colocar-me dentro do alcance deles, e então eles saltavam de volta despreocupados, caçando vermes ou caracóis, como faziam antes. Mas um dia, peguei um grosso cacetete e atirei, com todas as minhas forças e em cheio, em um pintarroxo, que o derrubei, e pegando-o pelo pescoço com minhas duas mãos, corrí com ele triunfante em direção à minha babá.

Contudo, o pássaro, que estava apenas atordoado, recuperou-se e me deu tantos tapas na orelha com suas asas, nos dois lados da minha cabeça e no corpo, embora eu tentasse mantê-lo a um braço de distância, e ficasse fora do alcance de suas garras, que eu por vinte vezes pensei em deixá-lo fugir. Mas logo um dos nossos criados veio em meu auxílio, e torceu o pescoço do pássaro, e nós o comemos no jantar do dia seguinte por ordem da rainha. Este pintarroxo, pelo que posso me lembrar, parecia um pouco maior que um cisne inglês.

As damas de honra convidavam sempre Glumdalclitch para visitá-las em seus apartamentos, e queriam que ela me levassse junto, com o propósito de se divertirem em me ver e tocar. Normalmente elas me deixavam nu da cabeça aos pés, e me deitavam horizontalmente em seus peitos; o que me desagradava muito porque, para dizer a verdade, um cheiro muito forte saía de suas peles, o qual não vou mencionar, nem pretendo, em detrimento daquelas formidáveis senhoras, por quem tenho todo respeito; mas eu compreendo que o meu sentido era mais aguçado devido ao meu pequeno tamanho, e que aquelas ilustres pessoas não eram desagradáveis para seus amantes, ou uns para os outros, do que são conosco as pessoas com as mesmas características na Inglaterra.

E afinal de contas, eu achava o cheiro natural delas mais suportável, do que quando elas usavam perfumes, e por causa disso desmaiei imediatamente. Lembro-me ainda hoje, que uma amiga íntima de Lilipute, tomou a liberdade em um dia quente, depois de um dia de bastante treinamento físico, de se queixar de um desagradável odor que saía de mim, embora estivesse tão mal cheiroso daquele jeito, assim como todas as partes sexuais: mas eu suponho que sua capacidade de sentir cheiro era tão boa em relação a mim, como a minha em relação à aquele povo. E nesse aspecto, en não posso deixar de fazer justiça à rainha, minha ama, e Glumdalclitch, minha babá, cujas pessoas eram tão agradáveis como qualquer uma das damas da Inglaterra.

O que me causou maior desconforto entre aquelas damas de honra (quando a minha babá me levou para visitá-las) foi, vê-las me usarem sem qualquer formalidade, como uma criatura que não tivesse nenhuma consequência: pois elas ficavam totalmente sem roupa, e vestiam suas blusas na minha presença, enquanto permanecia no toucador delas, de frente para seus corpos nus, o que devo considerar era uma visão longe de ser tentadora, ou de me causar qualquer outra emoção, além de horror e repugnância: a pele delas parecia ser tão áspera e irregular, com uma gama de cores tão diversificada, quando eu as via de perto, com uma verruga aqui e ali tão grande quanto um boné, e cabelos saindo delas tão grossos quanto barbantes, para não dizer mais nada sobre o resto de suas pessoas.

Nem tinham eles escrúpulo, quando eu estava por perto, em despejar tudo que haviam bebido, na quantidade de um ou dois tonéis, em um recipiente que cabia mais de três tonéis. A mais linda daquelas damas de honra, uma garota de dezesseis anos, agradável e divertida, algumas vezes me punha sentado em um de seus mamilos, com muitos outros objetos, que o leitor irá me desculpar por não entrar nesses detalhes. Mas isso me desagradava tanto, que eu insisti a Glumdalclitch para inventar alguma desculpa para não ver aquela garota nunca mais.

Um dia, um jovem cavalheiro, que era sobrinho da tutora da minha babá, veio e insistiu para que as duas assistissem a uma execução. Tratava-se de um homem, que havia assassinado um dos amigos íntimos daquele cavalheiro. Glumdalclitch aproveitou a companhia, muito embora contra sua própria índole, pois ela tinha naturalmente um bom coração: e, quanto a mim, embora detestasse esse tipo de espetáculos, a minha curiosidade me tentava ver algo que eu achasse que fosse extraordinário. O malfeitor foi colocado num patíbulo levantado para aquele fim, e sua cabeça foi cortada num só golpe, com uma espada de doze metros de comprimento.

As veias e artérias jorravam em uma quantidade de sangue tão assustadora, e tão alto para cima, que o grande Fontanário de Versalhes[1] não lhe podia ser comparado pelo tempo que ele durou: e a cabeça, quando ela caiu sobre o piso do patíbulo, deu um salto tão alto e me assustou, embora estivesse no mínimo a quase meia milha inglesa de distância.

A rainha, que sempre me ouvia falar de minhas aventura marítimas, e fazia uso de todos os recursos para me divertir quando eu estava triste, me perguntava se eu sabia como manejar uma vela ou um remo, e se um pouco de exercício com remos não seria apropriado para a minha saúde? Respondi, que conhecia muito bem todos os dois: pois embora minha função correta fosse atuar como cirurgião ou médico no navio, sempre e durante algum tempo eu fui forçado a trabalhar como marinheiro comum. Mas eu não conseguia entender como isso poderia ter sido feito nesse país, onde a menor balsa era equivalente a um navio de guerra de primeira linha dos nossos, e um barco com o tamanho que eu pudesse dominar jamais poderia percorrer qualquer um de seus rios.

Sua majestade, a rainha, disse, que se eu desenhasse o modelo de um barco, o seu carpinteiro poderia fabricá-lo, e ela arranjaria um lugar para eu navegar. O cara era um habilidoso marceneiro, e seguindo minhas instruções, em dez dias, ele terminou um barco de passeio com todos os acessórios, amplo o bastante para conter oito europeus.

Quando foi terminado, a rainha ficou tão feliz, que ela correu para mostrar ao rei, o qual mandou que fosse colocado numa cisterna cheia de água, portando eu dentro dele, à titulo de experimentação, onde eu não conseguia manejar minhas duas catraias, ou pequenos remos, por falta de espaço. Mas a rainha tinha antes pensado num outro projeto. Ela mandou que o carpinteiro fizesse uma cuba de madeira com mais de noventa metros de comprimento, quinze de largura, e quase dois metros e meio de profundidade, o qual, era revestido de piche, para evitar vazamentos, e foi colocado no chão, ao longo da parede, numa sala externa do palácio.

Possuía uma torneira no fundo para saída da água, quando começasse a juntar bolor, e dois servidores podiam rapidamente enchê-la em meia hora. Nela eu costumava remar para minha própria diversão, bem como diversão da rainha e de suas damas, que se achavam entretidas com minha habilidade e minha agilidade. Algumas vezes eu levantava a vela, e assim eu ficava somente dirigindo, enquanto as damas criavam tempestades com seus leques, e quando elas ficavam cansadas, algumas de suas acompanhantes sopravam a vela para que o barco velejasse para a frente, enquanto eu mostrava minha arte dirigindo ora a estibordo[2], ora a bombordo[3], como preferisse. Quando me cansava, Glumdalclitch sempre me levava de volta o meu barco para o seu gabinete, e me pendurava num prego para secar.

Neste exercício eu sofri um acidente certa vez, o qual poderia ter me custado a vida, pois depois de uma das damas de companhia ter colocado o meu barco no cocho, a tutora que acompanhava Glumdalclitch me levantou muito oficiosamente, para me posicionar dentro do barco: mas infelizmente eu escorreguei por entre seus dedos, e teria sem dúvida caído de uma altura de doze metros do chão, se, pela maior sorte do mundo, eu não tivesse sido aparado por um alfinete grudado no corpete de uma bondosa dama, a cabeça do alfinete passou entre a minha camisa e o cós do meu traseiro, e assim eu fiquei preso pendurado no ar, até que Glumdalclitch correu para me acudir.

os pássaros menores pareciam não ter nenhum medo de mim.
ilustração de Thomas M. Balliet

Numa outra ocasião, uma das empregadas, cuja função era encher a minha cuba a cada três dias com água fresca, foi tão descuidada a ponto de permitir que uma rã (sem perceber) saltasse de dentro do balde. A rã ficou escondida até que eu fosse colocado dentro do meu barco, mas depois, encontrando um lugar de descanso, subiu até lá, e fez com que ele ficasse muito inclinado de um lado, e aí eu fui obrigado a equilibrá-lo usando o meu peso do outro lado, para impedir que ele virasse.

Quando a rã entrou, ela saltou de uma só vez metade do comprimento do barco, e depois sobre a minha cabeça, para a frente e para trás, sujando a minha cara e minha roupa com seu repugnante lodo. O tamanho gigantesco de suas feições faziam-na parecer o animal mais deformado que se pode imaginar. No entanto, pedi a Glumdalclitch para que me deixasse me virar sozinho com ela. Golpeei-a durante algum tempo com um dos meus remos, forçando-a finalmente a saltar para fora do barco.

Mas o maior perigo que passei naquele reino, foi quando um macaco, que pertencia a um dos funcionários que trabalhavam na cozinha. Glumdalclitch havia me trancado em seu gabinete, enquanto ela saiu para tratar de algum negócio, ou fazer uma visita. Como o tempo estava muito quente, a janela do gabinete foi deixada aberta, bem como as janelas e a porta da minha caixa maior, na qual normalmente eu ficava, porque era mais larga e mais confortável.

Assim que me sentei tranquilamente em minha mesa, ouvi que alguma coisa saltava próximo à janela do gabinete, e ficava pulando de um lado para outro: embora eu tivesse me assustado, me atrevi a dar uma olhada, mas sem sair do meu banco, e então vislumbrei este divertido animal dando cambalhotas e pulando pra cima e pra baixo, até que finalmente chegou perto de minha caixa, a qual ele pareceu ver com grande alegria e curiosidade, soltando gritos na porta e em todas as janelas.

Retirei-me para o canto mais afastado da minha sala, ou caixa, mas o macaco olhando para todos os lados, me assustou de tal modo, que me faltou presença de espírito para me esconder debaixo da cama, como eu certamente teria feito. Depois de algum tempo soltando gritos, brincando e fazendo caretas, ele finalmente me espiou, e esticando uma de sua patas para dentro da porta, como faz um gato quando brinca com um camundongo, embora eu mudasse de lugar para evitá-lo, ele finalmente prendeu a dobra do meu casaco (que sendo feito de seda daquele país, era muito grossa e resistente), e me arrastou para fora.

Ele me pegou com sua pata dianteira direita e me segurou como uma babá faz com uma criança quando ela lhe dá de mamar, do mesmo modo como tinha presenciado algumas criaturas fazerem com um gatinho na Europa, e quando oferecí resistência ele me chacoalhou tão forte, que eu achei mais sensato me submeter.

Tenho fortes razões para acreditar que ele me pegou como se eu fosse uma das crias de sua espécie, porque ele costumava tocar gentilmente o meu rosto com sua outra pata. Estava ele se divertindo quando foi interrompido por um ruído na porta do gabinete, como se alguém a estivesse abrindo: então ele rapidamente saltou em direção à janela por onde havia entrado, e então seguindo por trilhas e sarjetas, caminhando sobre três patas, e me segurando com a quarta, até que ele subiu um telhado que estava próximo de nós.

Ouvi quando Glumdalclitch soltou um grito estridente no momento que ele estava me levando. A coitadinha estava praticamente distraída: aquela parte do palácio era só confusão, os servidores corriam pelas escadas, o macaco foi visto por centenas de pessoas da corte, sentado no alto de um edifício, me segurando como um garoto em uma das patas dianteiras, e me alimentando com a outra, empanturrando a minha boca com alguns alimentos que ele tinha retirado da sacola de um dos indivíduos do seu bando, e me dando palmadinhas quando eu não queria comer; o que fazia com que muitos da plebe que estavam em baixo não pudessem deixar de rir, nem, acredito eu, devam eles serem censurados por isso, sem motivo, a situação era ridícula o bastante para todo mundo menos para mim. Algumas pessoas atiravam pedras, esperando fazer com que o macaco descesse, mas isso foi terminantemente proibido ou caso contrário, muito provavelmente, meus miolos seriam atingidos.

mas o macaco olhando para todos os lados, me assustou de tal modo...
ilustração de Thomas M. Balliet

Escadas foram dispostas, e montadas por vários homens, e tendo observado o macaco, e achando-se quase alcançado, incapaz de correr muito com suas três patas, me soltou na calha de uma telha, e fugiu. Alí fiquei sentado durante algum tempo, a quinhentos metros do chão, esperando que a qualquer momento fosse atirado para baixo pelo vento, ou caído por entontecimento, e vir rolando pelas canaletas até o beiral, mas um bom sujeito, um dos cavaleiros da minha babá, subiu, e me colocou dentro de um de seus bolsos traseiros, e me desceu com segurança.

Eu havia quase me afogado com aquela coisa nojenta que o macaco havia enfiado na minha garganta: mas a minha querida e pequena babá a arrancou da minha boca com uma pequena agulha, e então eu comecei vomitar, o que me causou grande alívio. Mas eu estava tão fraco e machucado de lado com os chacoalhões feitos pelo odioso animal, que eu fui obrigado a ficar de cama durante quinze dias. O rei, a rainha e toda a corte, mandavam todos os dias perguntar sobre a minha saúde; e sua majestade me fez várias visitas durante o período de convalescença. O macaco foi morto, e uma ordem foi publicada, para que animal algum fosse permitido em torno do palácio.

enquanto as damas criavam tempestades com seus leques.
ilustração de Thomas M. Balliet

Quando estive diante do rei depois que me recuperei, para retribuir-lhe os agradecimentos pelos seus favores, ele ficou muito feliz em se juntar a mim nesta aventura. Ele me perguntou, “quais foram meus pensamentos e preocupações, enquanto eu era refém das patas do macaco; se eu havia gostado do alimento que ele me oferecera, seu modo de alimentar, e se o ar fresco sobre o telhado teriam afetado meu estômago. Ele queria saber, o que eu teria feito numa situação como esta em meu próprio país.” Eu disse à sua majestade, “que na Europa nós não tínhamos macacos, exceto se eram trazidos como curiosidades de outros países, e tão pequenos, que eu poderia lidar com uma dúzia deles juntos, caso eles quisessem me atacar.”

“E com relação à aquele monstruoso animal com o qual havia me envolvido ultimamente (ele era de fato tão grande quanto um elefante), caso os meus temores tivessem me permitido em pensar em algo como usar o meu cutelo,” (olhando orgulhosamente e gesticulando como se segurasse um punhal enquanto falava) “quando ele colocou sua pata dentro da caixa onde estava, talvez eu devesse tê-lo machucado tanto, a ponto de expulsá-lo mais rapidamente do que quando havia colocado a pata dentro.” E isso eu dizia num tom firme, como uma pessoa que estivesse com ciúmes, receoso de que sua coragem fosse colocada em prova.

Contudo, as minhas palavras não tiveram nenhum efeito, exceto um riso ensurdecedor, que com todo o respeito que devia à sua majestade e a todos aqueles que estavam por perto, não consegui fazê-los conter o riso. Isto me fez refletir, como é inútil a tentativa para um homem tentar ser respeitado em meio aqueles que estão fora do seu meio de igualdade ou de comparação com ele. No entanto, pude observar muito frequentemente a virtude do meu comportamento na Inglaterra quando de meu retorno; onde um pequeno malandro desprezível, sem qualquer título de nascimento, pessoal, de talento ou de bom senso, presumivelmente será olhado com alguma importância, e se colocará em pé de igualdade com as maiores pessoas do reino.

E todos os dias eu oferecia à corte alguma história engraçada: e Glumdalclitch, embora ela me amasse com excessos, era esperta o bastante para informar a rainha, sempre que eu cometia alguma travessura que ela acreditava que fosse divertida para a sua majestade. A garota, que estava um pouco entediada, foi levada pela sua tutora para tomar ar a quase uma hora distância, ou a trinta milhas da cidade. Elas desceram da carruagem perto de uma pequena trilha no campo, e Glumdalclitch desatrelou a minha caixa de viagem, para que eu saísse e fizesse um passeio.

No caminho encontramos um monte com esterco de vaca, e eu sentindo a necessidade de colocar a prova a minha agilidade, tentei saltar sobre ele. Tomei distância, mas infelizmente o meu salto foi curto e caí bem de joelhos. Caminhei com alguma dificuldade, e um dos cavaleiros me limpou o melhor que pode com seu lenço, mas eu estava todo enlameado, e a minha babá me prendeu dentro da caixa, até retornarmos para casa; onde a rainha foi imediatamente informada do acontecido, e os cavaleiros espalharam a notícia para toda a corte: de modo que durante alguns dias toda a alegria foi por minha causa.

Notas do Tradutor[editar]

  1. Jet d'eau de Versailles.
  2. Estibordo: direita do navio para quem olha da popa para a proa.
  3. Bombordo: lado esquerdo do navio olhando este da proa a popa.
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