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A Divina Comédia (Xavier Pinheiro)/grafia atualizada/Purgatório/XXVII

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Para chegar à escada que do sétimo e último compartimento leva ao cimo do monte, Dante é obrigado por um Anjo a atravessar as flamas. Pouco depois de ter começado a subir, o ar escurece e sobrevém a noite. Param e Dante, cansado, adormece. Despertado pela madrugada, os Poetas recomeçam a subir, chegando ao Paraíso Terrestre.

Como, quando os primeiros raios vibra
Lá onde Cristo sangue derramara,
Sotopondo-se o Ebro à excelsa Libra,

E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara
Stava o sol; declinando a luz já se ia:
Eis ledo o anjo de Deus se nos depara.

Fora da flama, à borda ele se erguia,
Beati mundo corde modulando.
Em tom de voz, que a humana precedia.

“Para avante passar” acrescentando
“Apurai-vos no fogo, almas piedosas!
Entrai, de além nos hinos atentando.”

Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas,
Sossobrei, como quem, perdido o alento,
Da tumba às trevas desce pavorosas.

Mãos cruzadas, quedei sem movimento;
De olhos na chama, os vivos relembrava,
Que das fogueiras vira no tormento.

A mim cada um dos Vates se voltava.
“Não temas, filho! Aqui dor se padece,
Mas não morte” Virgílio me exortava.

“Lembra! Lembra ou memória em ti falece?
Já sobre Gerião levei-te a salvo:
De Deus mais perto, em mim virtude cresce.

“Se destas chamas, crê, tu foras alvo
Em todo o espaço de um milheiro de anos,
De um só cabelo ficarias calvo.

“Se cuidas no que digo haver enganos,
Te acerca e por ti próprio experimenta,
Ao fogo expondo de tua veste os panos.

“Todo o temor do ânimo afugenta!
Vem, pois! Mostra que tens peito seguro!”
Ouvi, mas o valor meu não se aumenta.

Vendo-me ainda pertinace e duro,
Merencório me disse: “Ó filho amado,
De Beatriz a ti só este muro!”

De Tisbe ao nome, Píramo chegado
À morte, os olhos para vê-la abria,
Quando há seu sangue à amora cor mudado;

A resistência minha assim cedia.
A Virgílio volvi-me, o nome ouvindo,
Que sempre o pensamento me alumia.

Então a fronte meneou; sorrindo,
Como a infante, que um pomo há seduzido,
Disse: “Aqui ficaremos persistindo?”

Sou por ele no fogo antecedido;
Estácio, que antes sempre caminhara,
Depois de mim seguia a seu pedido.

Eu pelo fogo apenas penetrara,
Ardor tanto senti, que, pra recreio,
Em vidro derretido me lançara.

De confortar-me procurando o meio,
De Beatriz Virgílio assim falava:
“Seu gesto julgo ver de fulgor cheio.”

Voz peregrina ouvi, que ali cantava:
Fora saímos nós, dos sons guiados,
Na parte, onde a subida se mostrava.

“Vinde, ó vós de meu Pai abençoado!” -
Do seio de um luzeiro retinia,
Tal que os olhos cerram-se ofuscados.

“Transmonta o sol, a noite segue ao dia,
Não vos detende; a passo andai ligeiro,
Que o Ponente já trevas anuncia.”

A trilha no penhasco sobranceiro
Direita sobe à parte em que tolhia
A sombra minha o lume derradeiro.

Vencido apenas nosso passo havia
Alguns degraus, a sombra, que fenece,
Mostra que o sol já luz não difundia.

Antes que em todo apresentado houvesse
O imenso horizonte igual aspeito,
E a noite os seus véus todos estendesse,

Um degrau cada qual tomou por leito;
Que nos tirara da montanha a agrura,
Mais que o desejo de subir o jeito.

Como as cabras das penhas sobre a altura,
Antes de fartas, rápidas e ardentes,
Têm, ruminando, mansidão, brandura;

Pousam à sombra, enquanto o sol candentes
Lumes despede, e as guarda o pegureiro
Com seu cajado e os olhos previdentes;

E como o guardador, que no terreiro
Quedo pernoita em sentinela aos gados
Contra assaltos do lobo carniceiro:

Assim nós três estávamos pousados,
Eu como cabra, os Vates quais pastores,
Da rocha a um lado e a outro conchegados.

Escassa aberta deixa ver fulgores
De estrelas, que do céu naquela parte,
Contemplava mais lúcidas, maiores.

Nessa vista engolfei-me por tal arte,
Que o sono me prendeu, sono que à mente
Do que há de ser a provisão comparte.

Naquela hora em que Vênus do Oriente
Seus lumes sobre o monte difundia,
Parecendo de amor star sempre ardente,

Jovem formosa em sonho ver eu cria,
Dama que em veiga amena passeando,
Flores colhendo, a modular dizia:

“Quem meu nome pedir, vá me escutando:
Sou Lia e uma grinalda, cuidadosa,
Co?as minhas belas mãos a tecer ando.

“Mirar-me, hei-de no espelho mais garbosa:
De sua mana, Raquel se não separa,
Sentada o inteiro dia descuidosa.

“De ver os belos olhos seus não pára,
Como eu em me adornar sou diligente:
Ela contempla, eu trabalhar tornara!”

Já vem do dia o precursor splendente,
Que tanto alenta a esp?rança ao peregrino,
Quando o seu lar já próximo pressente.

Fugia a treva ao lume matutino
E com ela o meu sono: ergui-me ativo,
Dos mestres tendo no exemplo o ensino.

“O pomo, que é tão doce, quanto esquivo,
Que a ambição dos mortais procura ansiosa,
Hoje à fome há de dar-te o lenitivo.”

Estas palavras proferiu donosa
Do Mestre a voz: janeiras não dariam
Jamais satisfação tão graciosa.

Tão vividos anelos me pungiam
De alar-me ao cimo excelso, que julgava
Que asas o passo meu favoreciam.

Quando a comprida escada terminava
E o pé firmamos no degrau superno,
Virgílio, me encarando, assim falava:

“O fogo temporário e o fogo eterno
Tens visto, filho, e a altura hás atingido.
Além de cuja extrema não discerno:

“Te hei com engenho e arte conduzido:
Seja-te agora o teu querer o guia;
Angústias e fraguras tens vencido.

“Olha: o semblante o sol já te alumia;
Flores, ervinhas, árvores virentes
Vê que a terra espontânea brota e cria.

“Antes que os olhos venham refulgentes,
Que em teu prol me enviaram por seu pranto,
Repousa, ou pelos prados vai florentes.

“Não mais te falo, nem te aceno, entanto;
Possuis vontade livre, reta e boa,
Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,

Pois de ti és senhor, dou mitra e c?roa.