Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A cara de boi

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
1. A cara de boi


1. A CARA DE BOI

Era um rei, que tinha trez filhos. Um dia disse:

— Pois, filhos, vão correr o mundo, e aquelle que trouxer a mulher mais formosa é que hade ficar com o reino.

Partiram todos; os dois mais velhos acharam logo duas raparigas muito formosas, com quem se casaram. Uma era filha de uma padeira e a outra de um ferreiro. O mais novo andou por muitas terras, sem encontrar mulher que lhe agradasse.

Indo um dia por um escampado, cheio de fadiga, desceu do cavallo e deitou-se a uma sombra. Deu-lhe então na vista uma casa muito alta sem porta nenhuma, e só lá bem alto é que tinha uma janella. Esteve ali muito tempo, até que viu vir uma velha, que chegou ao muro da casa, bateu na parede e disse:

Arcello, arcello,

Deita o teu cabello

Cá abaixo de repente,

Quero subir immediatamente.


Foi então que elle viu apparecer á janella uma trança de cabello tão comprida, que ficou espantado com a sua belleza. A velha pegou-se a ella como se fosse uma corda e subiu para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha tornou a sahir, e o cavalleiro tendo desejo de vêr de quem seria a trança, chegou-se á parede, bateu, e repetiu as palavras:


Arcello, arcello,

Deita o teu cabello

Cá abaixo de repente,

Quero subir immediatamente.


A trança desceu pela janella abaixo, e o rapaz subiu. Ficou pasmado quando viu diante de si a cara mais linda do mundo. A menina deu um grande ai de afflicção:

— Vá-se embora, senhor, que póde vir minha mãe, e tem artes de lhe causar todos os males que ha.

— Não vou, sem a menina vir commigo, porque eu assim ganho o reino de meu pae. E se não quizer vir, boto-me d’esta janella abaixo.

Desceram ambos pela parede, e fugiram a toda a pressa no cavallo que estava folgado á sombra. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Pára, pára, filha cruel, não me deixes só no mundo.

E como a filha fosse sempre fugindo com o principe, a velha disse-lhe:

— Olha para traz ao menos, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou para traz, ella disse-lhe:

— Eu te fado, que essa cara linda que tens se torne em uma cara de boi.

Coitadinha, ficou logo com cara de boi.

Assim que o principe chegou á côrte pozeram-se todos a rir d’aquella figura horrenda, sem saber como elle se tinha apaixonado por cousa tão feia, que fazia fugir. O principe contou a sua desventura aos irmãos, mas quem é que se fiava? Estava quasi a chegar o dia em que os tres irmãos haviam de apresentar as suas mulheres diante de toda a côrte, para se assentar qual era a mais linda, e qual d’elles é que havia de ficar com o reino.

A rainha velha tinha muita pena do filho, e lembrou-se de fazer demorar a cerimonia, para vêr se a velha com o tempo perdoava á menina e lhe restituia a sua formosura.

Disse a rainha, que queria que antes da cerimonia da côrte cada uma das suas tres noras lhe bordasse um lenço. A filha da padeira e a do ferreiro não sabiam bordar, e trataram de enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados; a que tinha cara de boi pôz-se a chorar, e tanto chorou que lhe appareceu a velha, e disse:

— Não te rales mais; no dia em que tiveres de entregar o lenço á rainha eu cá t’o virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veiu entregar-lhe uma noz muito pequenina. A cara de boi foi leval-a á rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flôres e ramos e aves.

Chegou o dia de irem á côrte para serem apresentadas as tres noras do rei; a cara de boi pôz-se a chorar, a chorar, até que lhe appareceu a velha que era mãe d’ella:

— Não chores mais; trago-te aqui um vestido para a festa. – Desdobrou-o; era todo bordado de ouro e pedrarias; a filha vestiu-o, mas quando o vestido era lindo, tanto ella ficava mais horrenda. E pôz-se a chorar, a chorar cada vez mais.

Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ella; a velha disse-lhe:

— Vae agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por vêr-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palacio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para traz. – E assim que a filha virou a cara, continuou: – Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de metteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ella entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A côrte toda confessou que ella é que era a mais linda, e d’ali foram todos para a mesa do banquete. Emquanto estiveram jantando a menina não fazia senão metter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquillo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao vêr o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquella porcaria. As damas disseram que o viram fazer á princeza herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flôres; as outras envergonhadas botaram-se pelas janellas fóra, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a corôa ao filho.

(Algarve — Faro.)

Notas[editar]

1. A cara de boi. — A donzella é evidentemente o mytho da Aurora, como se comprova pelo estribilho Arcello, Arcello, em um romance popular do Algarve, intitulado D. Carlos de Montalvor, colligido pelo nosso amigo Reis Damaso, lê-se o verso: «Não permitta Deus d’Arcello» por Deus del celo. (Encyclopedia republicana, p. 204, Lisboa, 1882.) A velha, que torna feia a menina é a Noite, e o joven amante que a arrebata é o Sol. Consiglieri Pedroso diz-nos que tambem encontrou uma versão d’este conto. No Catalogo de Barrera y Leyrado, cita-se um Auto perdido de Gil Vicente, intitulado A Donzella da Torre, por ventura baseado sobre este thema mythico commum aos outros povos romanicos. Nos XII Conti pamiglianesi, illustrati da Vittorio Imbrianni, Napoli, 1877, acha-se este conto desenvolvido sob o titulo de Persilette, no qual a donzella fechada na torre, a madeixa que serve de escada e a fuga com o namorado são simples episodios. A tradição portugueza está mais pura na sua simplicidade, em quanto que o conto de Pomigliano é formado pela confusão de difierentes contos, como o da Filha do rei Mouro (n.º 6). O thema do filho de um rei que vae procurar uma mulher formosa, condição essencial para succeder no reino do pae, acha-se na novella monferrina La bella d'l'isoule Fourtiunà, publicada por Stanislao Prato (Como, 1882) com notas de abundantissimos paradigmas. Nas Quattro novelline populari Livornese, do mesmo escriptor, a terceira Il ré é sú tre figlioli, ha tambem este mesmo thema, em que a encantada é uma rã que depois apparece n'uma mulher bonita. Pertence a um vastissimo cyclo novellesco commum a toda a Europa, o que coincide com o seu evidente sentido mythico. Da importante nota de Stanisláo Prato a este conto (p. 136 a 144), transcreveremos a indicação das principaes collecções em que ella se encontra: Imbriani, La Novellaja fiorentina, n.º 20, I tre fratelli; Pitré, Fiabe e Novelle popolare siciliane, n.º 46, La limuruta: Corazzini, Componimenti, n.º 18: A ranaottola; Comparetti, Novelline popolare, n.º 4 e 48, La moglie trovata colla frombola, e Le scimmie; Visentini, Fiabe montovane, n.º 48, La rana; Gianandrea, Novelline e fiabe popolari Marchigiani, n.º 4, El fijo del re, che sposa 'na ranocchia. Em Hespanha, no Rondallayre ou quentos populars catalans de Mapons y Labros: La princesa encantada. Em França, nos Contes de Fées, de M.me d'Aulnoy, La chatte blanche; e na revista Melusina, t. I, p. 64, Les trois fils du roi, ou le bossu et ses deux frères. Nos povos germanicos, slavos e scandinavos, este cyclo novellesco é extensissimo, como se infere dos estudos comparativos do Dr. Reinhold Köhler, o que mais profundamente tem investigado estes assumptos; elle encontrou paradigmas fundamentaes nas collecções de contos de Busching, Hylten-Cavallius, Grimm, Beauvois, Jonson, Kattan, Asbjörnsen, Töppen, Schwartz, Ey, Stephanovic, Radloff, Colshorn, Hahn, Zingerle, Benfey, Chavannes, Affanasieff, Böhmer, Peter e outros.

Nos Portuguese folk-Tales, collecção, de Consiglieri Pedroso, e traducção de Ralston, vem com o titulo A filha da Feiticeira, n.º IV, muito desenvolvido, e contendo no seu syncretismo, os n.os 1, 6, 17 e 32, que colligimos separadamente e em differentes logares. Ralston compara esta versão com o conto The story of Sringabhuja and the Daughter of the Rákshasa, que vem no VII livro do Kathá Sarit Ságara (vol. I, p. 355-367), traducção de Tawney. Na versão do Algarve cita-se uma noz dentro da qual cabe o lenço bordado para a rainha; Gubernatis, diz: «A noz que esconde a fazenda de que se faz o vestido do noivado para a esposa do principe solar, a Aurora, parece ser propriamente a lua. Por influencia d'ella a donzella perseguida escapa ao poder magico da mãe-bruxa e apresenta-se vestida com vestes esplendidas na festa do principe. O vestido luminoso, imagem do céo, é tão tenue, tão subtil, que pode desdobrar-se sem fim.» (Myth. des Plantes, t. I, p. 145.)