Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O cavallinho das sete côres

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
17. O cavallinho das sete côres



17. O CAVALLINHO DAS SETE CORES

Um conde tinha ficado captivo na guerra dos mouros. Levaram-no ao rei para que fizesse d’elle o que quizesse. Tinha o rei trez filhas, todas trez muito formosas, que pediram ao pae que o deixasse ficar prisioneiro no castello até que o viessem resgatar. A menina mais velha foi ter com o conde, e disse-lhe que casaria com elle, se lhe ensinasse qualquer cousa que ella não soubesse. O captivo disse:

— Pois ensino-te a minha religião, e vens comigo para o meu reino, e casaremos.

Ella não quiz. Deu-se o mesmo com a segunda.

Veiu por sua vez a menina mais moça; quiz aprender a religião, e combinaram fugir do castello, sem que o rei soubesse de nada. Disse então ella:

— Vae á cavalhariça, e hasde lá encontrar um rico cavallinho de sete côres, que corre como o pensamento. Espera por mim no pateo, á noite, e partiremos ambos.

Assim fez. A princeza appareceu com os seus vestidos de moura, com muitas joias, e á primeira palavra que disse logo o cavallinho das sete côres se pôz nas visinhanças da cidade d’onde era natural o captivo conde.

Antes de chegar á cidade havia um grande areial; o conde apeiou-se, e disse á princeza moura que esperasse ali por elle, emquanto ia ao seu palacio buscar fatos proprios para apparecer na côrte, porque estava com roupas de captivo e ella de mourisca.

Assim que a princeza ouviu isto, rompeu em um grande chôro:

— Por tudo quanto ha não me deixes aqui, porque hasde-te esquecer de mim.

— Como é que isso póde ser?

— Porque assim que te separares de mim e alguem te abraçar logo me esqueces completamente.

O conde prometteu que se não deixaria abraçar por ninguem, e partiu; mas assim que chegou ao palacio a sua ama de leite conheceu-o, e com a alegria foi para elle e abraçou-o pelas costas. Não foi preciso mais; nunca mais elle se pôde lembrar da princeza. Ella tinha ficado no areial, e foi dar a uma cabana onde vivia uma pobre mulher, que a recolheu e tratou bem; ali foi ter a noticia que o conde estava para casar com uma formosa princeza, e na vespera do casamento a mourinha pediu ao filho da velha que levasse o cavallinho das sete côres a passeiar no adro da egreja em que se haviam de casar.

Assim foi; quando chegou o noivo com o acompanhamento, ficou pasmado de vêr um tão bello cavallinho, e quiz miral-o de mais perto. O moço que o passeiava andava a dizer:

Anda, cavallinho, anda,

Não esqueças o andar,

Como o conde esqueceu

A moura no areial.

O noivo lembrou-se logo da sorte que lhe tinha cahido, desfez o casamento com a princeza e foi buscar a mourinha com quem casou, e viveram muito felizes.

(Algarve — Lagoa.)

Notas[editar]

17. O cavallinho das sete côres. — Vide contos 1 e 6, e notas respectivas. Nos Contos populares portuguezes da traducção de Ralston, A filha da Feiticeira traz a circumstancia do esquecimento da namorada; é o n.º IV. As nossas versões não apresentam syncretismos. Vide o conto 32, agrupado tambem na versão citada. Nas Fiabe, Novelle e Racconti popolari siciliani de Pittré, o n.º XV Lu Ré di Spagna é identico ao conto portuguez a Filha da Bruxa colligido por Pedroso.