Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As vozes dos animaes

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
125. As vozes dos animaes


125. AS VOZES DOS ANIMAES

A ovelha, o gallo, o porco, o gato, o pato e o perú foram fazer uma viagem, e recolheram-se de um temporal n’um casebre em que luzia o buraco. Não estava ali ninguem, e o porco foi para o cortêlho, a ovelha e o pato puzeram-se de traz da porta, o gato acocorou-se na borralheira, e o gallo com o perú pousaram-se no caibro do tecto. Lá pela noite adiante vieram os lobos, que a casa era d’elles, e um foi á borralheira a vêr se havia lume, mas o gato esgatanhou-lhe os focinhos. O lobo começou a uivar, e os outros todos iam para acudir, mas o porco ferrou na perna de um, a ovelha deu uma marrada n’outro, o gallo pega a cantar, o pato a cacarejar, e os lobos pernas para que te quero, só muito longe é que so tornaram a juntar. Disse um:

— Vamos lá ver o que é que tomou conta da nossa casa.

— Eu cá não vou, porque estava lá um cardador que me chimpou com as cardas no focinho. (Era o gato.)

— E a mim, topei lá com um ferreiro que me atirou com uma tranca de ferro ás canellas. (Era a ovelha.)

— Tambem eu não torno lá, porque o tal ferreiro agarrou-me por uma perna com umas tenazes. (Era o porco com a dentuça.)

— Eu cá, escapei da malhada, mas ouvi um que estava a bramar:

Cacarista, cacarista,
Se lá vou faço tudo em cisco.

— Tanto isso é verdade, que outro clamava: Ingulil-os, Ingulil-os. (Referia-se ao perú e ao gallo.)

— É verdade que havia lá uma coisa que dizia: Haja pazes! Haja pazes! (Era o pato.)

Mas os lobos nunca mais quizeram tornar âquella casa, porque o seguro morreu de velho.

(Carrazeda de Anciães.)




Notas[editar]

125. As vozes dos animaes. — Ha uma outra versão colligida pelo sr. Sequeira Ferraz; e uma versão franceza, intitulada: Les musiciens voyageurs (Vieux Contes, p. 17, Paris, 1830); tambem nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 306, trad. de Bruyere. Nos Contos dos irmãos Grimm, vem com o titulo Os musicos da cidade de Brême (Contes choisis, trad. Baudry, p. 313).