Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os dois irmãos

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
159. Os dois irmãos



159. OS DOIS IRMÃOS

Um velho rico tinha dois filhos, e porque o maior que tinha carrego da administração da fazenda se casou sem licença, o lançou fóra de casa, tirando-lhe a posse e mando que n'ella tinha, e além d'isto lhe cobrou odio mortal com desejo de o empécer; e para o poder fazer ao menos na fazenda, imaginava sempre como per sua morte o deixasse desherdado e désse tudo ao outro filho menor. E achou que o faria, deixando de acabar umas casas sumptuosas que tinha começadas no melhor da cidade, as quaes estavam já galgadas as paredes para lhe lançar o primeiro sobrado; e isto porque o que avia de gastar n'ellas ficasse em dinheiro na mão do filho menor quando elle lh'o quizesse dar. E passados annos, o velho preseverando em sua contumacia, não quiz perdoar o filho nem lhe quiz mais vêr o rosto. E com este rancor morreu e deixou grande fazenda em dinheiro, ouro e prata ao segundo filho, dando-lhe na mão, porque não désse d'ali parte ao outro, ao qual elle desherdára, de todo se perdera. Coube ao maior tão pouco, que não houve bem para se vestir de dó elle e seus filhos, que, como havia dias que era casado, tinha quatro crianças, e assi ficou pobre e cercado de trabalhos e muita necessidade, que, vendo-se o mais velho em tanta miseria foi ao irmão, e com lagrimas lhe disse:

— Irmão, bem sabes e vês minha necessidade e pobreza; rogo-te que me dês estes principios de casas que meu pae deixou de acabar, porque alimpadas com meu trabalho e de minha mulher e filhos, as possa cobrir de trouxa e agasalhar-me dentro; que ellas a ti não te aproveitam, nem as estimas, e estão em esterqueira do concelho, feitas pardieiro; ellas estão galgadas de maneira que sem lhe acrescentar parede, ali as cobrirei do que puder, e n'isto me farás grande esmola.

O irmão menor vendo a necessidade de seu irmão, e como dizem, porque o sangue não se roga, entregou-lhe as casas, e fez-lhe d'ellas sua carta de doação livre e desembargada.

Passados annos o irmão menor veiu a casar, e porque a quem tem muito lhe dão mais, deram-lhe grande dote com uma mulher tão cobiçosa da fazenda, que o muito que tinha lhe parecia nada, e o pouco alheio cuidava que era muito e o queria e cobiçava para si. E d'esta maneira, indo um dia a visitar a mulher do cunhado, irmão de seu marido, viu o principio e entrada da casa e o portal de pedraria que mostrava demandar mais agua, que ser logo em cima coberta de trouxa como estava, e cobiçosa de aver aquelle assento e fazer n'elle casas para sua morada custosas e ricas, sem fazer ali muita tardança veiu ao marido e disse-lhe — que comprasse aquelle assento a seu irmão, dando-lhe por elle com que podesse aver casas pera si em outra parte. E elle lhe respondeu: — que o não faria, porque elle lh'o dera feito pardieiro, que não era razão pedir-lh'o agora que o tinha limpo, ainda que fosse por compra.

Quando ella isto ouviu, ali foi a grita, que em toda a visinhança se ouviu seu brado, dizendo: — que folgava muito de saber que elle lh'o tinha dado, porque já agora não dizia ella por dinheiro, mas sem elle lh'o avia de dar, e se não fosse em paz e por bem, seria por justiça. E dava logo esta razão:

— Se vós lh'o destes solteiro ereis menor; e se lh'o destes em casado, a dada não vale, que eu não consinto.

E isto dizia tão menencoria e pelejando, que o marido não tinha mesa nem cama sem arroido. E assi fez tanto, que por ter paz o marido citou a seu irmão, pedindo-lhe as casas que lhe dera; e processado o feito, que correndo seus termos ordinarios sahiu por sentença a doação por boa. E assi foi a propriedade julgada ao pobre; porém, a mulher do rico mal contente, fez agravar da sentença e seguir o feito até mór alçada, e assi foi á Supplicação, que então estava na cidade de Evora. E partindo de Lisboa, o rico ia a cavallo e com grande cevadeira, e o pobre a pé com dous pães e quatro cebollas no capello; e assi caminharam pera aver final sentença. Indo assi caminhando pera Evora, foram pousar huma noite na Landeyra em casa de um vendeiro, que avia dezoito annos que era casado e nunca tivera filho nem filha; e estava rico e contente, porque a este tempo tinha a mulher prenhe, quasi em dias de parir. E por ser muito conhecido do rico o agasalhou e poz grande mesa, dando-lhe de ceiar o melhor que elle pôde e tinha; assi se pozeram a ceiar com grande festa, fazendo assentar á mesa a mulher do vendeiro pera que como prenhe tornasse de cada cousa um bocado. E o pobre homem, sem dizer que era irmão do rico, se assentou derredor do lume, e poz no borralho a assar uma cebolla para sua ceia, que assada a ceou com seu pão e agua. Esta mulher prenhe ainda que estava á mesa com o marido e hospede, onde tinham bem que cear, e recebiam gosto de lhe dar o que ella pedia por que não perigasse, não lhe pareceu bem nada do que ali avia, nem lhe prestava coisa que comesse, cheirando-lhe a cebolla, que se assava, que morria por ir comer d'ella, e com vergonha do hospede não se erguia da mesa, tomou-lhe tal desmaio que cahiu no chão, e como a criança era já grande a boa mulher com grande trabalho moveu aquella noite antes de muitas horas com muito pesar e dôr do marido, o qual, inquirindo da mulher se desejára alguma cousa, tanto que ella lhe disse que da cebolla assada que aquelle homem ceiára, se foi a elle com grande ira, que o queria matar a punhadas, e sem falta o fizera, se o irmão o não escusára, dizendo:

— Eu vou com elle em demanda á côrte; se vos parece que vos tem culpa e é caso de o matar, como queres, hi commigo e accusae-o, e lá vos farão justiça.

Tanto que veiu a manhã, determinou o vendeiro ir accusal-o á côrte. E assi como o rico se poz a cavallo, partiram ambos para a cidade de Evora donde o vendeiro pretendia fazer enforcar aquelle pobre homem. E assi caminharam os dous a cavallo, e o pobre a pé; chovia, e avia chovido toda a noite passada, de maneira que o caminho tinha a logares lamas e atoleiros, porque era tempo de inverno. A esta conjuncção achou no proprio caminho um homem, que com uma azemela estava metido no olho de um grande lamarão de barro, tão pesado que não podia sahir, nem valer-se a si, nem á azemela, e ainda que bradou pelos que passavam a cavallo, nenhum quiz accudir. Até que chegou este pobre homem que caminhava a pé, e com muito mais trabalho que todos e de feito o ajudou com vontade a livrar d'aquella affronta; e fez de maneira com que, tirando o homem da pressa de sua pessoa, buscaram ambos mata que lançar aderredor da azemela para poder chegar a ella sem atollar. Trabalhou tanto o pobre homem n'isto, tirando a vezes pelos pés e mãos, e outras pelo cabresto e rabo, com a força que elle poz lhe ficaram nas mãos tantas sedas do rabo da azemela, que lhe davam grande fealdade. O dono, tanto que viu o defeito da azemela veiu a grandes brados com o pobre, dizendo que acinte lhe arrancára o rabo, e que lhe avia de pagar por justiça o defeito, e que sobre isso iria á côrte; e as si indo alcançou os outros que iam diante na primeira venda donde estavam pousados e lhe fez queixume do pobre que vinha a pé, muito triste de se vêr com tantos desastres como lhe aconteciam sem elle ter culpa; e porque não acontecessem mais, não quiz pousar n'aquella venda, mas só se poz ao caminho e chegou a Evora a tempo que já lá estavam. E considerando o pobre como avia de parecer com trez demandas diante do Regedor, assentou que era melhor matar-se elle mesmo a si, que vêr-se em poder de seus inimigos, e logo o poz por obra d'esta maneira. Subindo pela escada do muro da cidade, foi acima até chegar ás ameias da torre que está sobre a porta, e deixando-se cahir da torre abaixo para a banda de fóra. Ora, aquella manhã, depois de tanta chuva, tinha amanhecido o dia bom e muito fermoso; um velho que estava entrevado doente e morava ali perto, por gosar o sol d'este dia se fez levar ao soalheiro ao pé do muro, por ali aquecer e ter refrigerio de vêr e fallar com alguns conhecentes que passavam; e assi pouco depois d'elle assentado em uma cadeira, vêdes, vem de cima do muro pelos ares aquelle homem, que desesperado por se vêr com tanta demanda se lançou desejoso de receber a morte, o qual veiu direitamente dar sobre o desditoso velho, morreu, e o pobre homem que desejava morrer não recebeu nenhum damno da queda, que foi toda em cheio sobre o velho. Ao qual logo acudiram dois filhos que tinha, e achando-o morto lançaram mão do matador e preso o levaram ante o Regedor. Porém atravessando com elle pela praça, foi visto do irmão e dos outros dois contrarios, que o estavam aguardando; tomou o irmão a dianteira, e o vendeiro tambem queria dizer seu queixume e o da azemela o mesmo, de maneira que cada um se atravessava por fallar, nam deixando dizer ao outro. Tanta briga tiveram entre si, que o Regedor olhou n'isso e logo n'aquelle instante propoz em si, que se achasse da parte do pobre alguma coisa com que por direito o podesse favorecer, que o faria de boa vontade. E disse:

— Que as pessoas que tinham que dizer contra aquelle homem dissessem um a um, começando primeiro quem primeiro teve a differença; e assi cada um per sua ordem.

Pelo qual o irmão foi o primeiro, que lhe pediu as casas fundando-se nas razões já ditas; ao qual respondeu o pobre com a verdade do caso como passava. O Regedor disse:

— Eu mando que este fique com as casas como estão julgadas, e que vós que sabeis que lh'as pedis mal e com malicia insistis n'isso, lhe pagueis a elle duzentos mil reis.

E logo foi por elles preso, e não foi solto até pagar. Concluido este veiu o vendeiro, dizendo que lhe fizera mover a molher; ao qual respondeu o pobre com a verdade, contando como passára. E o Regedor visto o caso julgou ao pobre por sem culpa, e que o vendeiro pela affronta em que o puzera e em emenda do damno que lhe fez em sua casa dando n'elle, lhe pagasse cincoenta cruzados. E logo veiu o da azemela, pedindo que maliciosamente pegára no rabo d'aquella alimaria e lh'o arrancára; o qual era muito defeito e grande fealdade, que lhe mandasse pagar o que fosse avaliado. Ao que foi respondido pelo pobre, dizendo que o ajudára a sahir do atoleiro; ouvido pelo Regedor e vista a ingratidão foi julgado por elle que a azemela ficasse em poder do pobre tanto tempo até que lhe nascesse o rabo, e se servisse d'ella, e se o dono apellasse d'isso pagasse cincoenta cruzados. Isto concluido, os filhos do velho que estava morto, alcançaram as vozes pedindo justiça.

— Este matou; o matador morra por isso que assi é justo.

O Regedor quiz saber o caso meudamente, e ouviu ao pobre como e porque se lançára do muro abaixo. O que tudo visto mandou que aquelle homem accusado fosse assentado na cadeira em que estava o velho quando morreu, e o accusador se subisse ao muro e se lançasse d'elle abaixo como o outro fez e assi cahisse sobre elle e o matasse, que d'esta maneira o matador pagaria como peccou; e se não quizessem aceitar isto, que pagassem ao pobre pela affronta em que o puzeram cincoenta cruzados.

Os filhos do velho, visto que podia ser deitando-se do muro errar o golpe e não lhe fazer damno, e o que se lançasse corria muito risco de perigar, davam brados, e foram logo reteudos e ouveram por bem de pagar os cincoenta cruzados, antes que aventurar a vida. E assi o homem accusado ficou livre e com muito dinheiro com que se tornou para Lisboa na azemela, que lhe julgaram.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte I, conto XV.)





Notas[editar]

159. Os dois irmãos. — Ha um largo estudo comparativo sobre este conto na Revista de Ethnologia e Glottologia, onde se compara a versão de Timoneda, no Patrañuelo, e as russas, thibetanas, indianas e allemãs, colligidas por Benfey, as de Sercambi e de Busoto, comparadas por Reinhold Köhler. Vide uma fórma popular alemtejana, n.º 109.