Vida de Antônio Rodrigues Ferreira/IV

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Vida de Antônio Rodrigues Ferreira por Paulino Nogueira
Seção IV


IV

Ferreira foi sempre um espirito convencidamente ordeiro.

Ninguem em política já teve procedimento mais correcto e coherente.

Todas as concessões rasoaveis poderia fazer ás pessoas, e as fazia muitas vezes, menos quando se tractava de idéas.

Não é que já nesse tempo tivessemos na Provincia partidos politicos definidos e extremados, como depois viémos a ter; mas porque elle com uma orientação admiravel possuia o segredo de descobrir nos acontecimentos o fio da boa causa com a mesma certeza com que o azougue descobre o ouro.

Deixemos á margem factos de menor importancia para abordarmos de preferencia aquelle que primeiro accentuou, pode-se dizer, firmou as escolas politicas em que ainda hoje se acha dividido o paiz e a Provincia.

Depois da abdicação de 7 de Abril de 1831, diz o Barão Homem de Mello, o Brazil achou-se em uma dessas crises supremas, que decidem dos destinos de uma nação. Fraccionados os vencedores depois do successo, tres partidos appareceram na scena politica, disputando o governo do paiz [1].

Bernardo Pereira de Vasconcellos, o maior genio politico que o Brazil tem tido, depois de devotado á causa da democracia triumphante e encarnada no Acto Addcional, em 1834, hasteou na camara dos deputados a bandeira do regresso, proferindo um dos seos mais vigorosos discursos, justificando-se: —

« Fui liberal; dizia elle, então a liberdade era nova no

paiz, estava nas aspirações de todos, mas não nas leis,

não nas idéas praticas; o poder era tudo; fui liberal. Hoje porém é diverso o aspecto da sociedade; os principios democraticos tudo ganharam e muito comprometteram; a sociedade que então corria risco pelo poder, corre agora risco pela desorganisação e pela anarchia. Como então quiz, quero hoje servil-a, quero salval-a; e por isto sou regressista. Não sou transfuga, não abandono a causa que defendo no dia dos seos perigos, da sua fraqueza; deixo-a no dia em que tão seguro é o seo triumpho que até o excesso a compromette.

« Quem sabe si, como hoje defendo o paiz contra a desorganisação, depois de o haver defendido contra o despotismo e as commissões militares, não terei algum dia de dar outra vez a minha voz ao apoio e á defeza da liberdade? Os perigos da sociedade variam: o vento das tempestades nem sempre é o mesmo; como hade o politico, cégo e immutavel, servir o seo paiz? »[2]

Essas idéas não podião deixar de quadrar a um espirito puro, bem intencionado e essencialmente patriotico.

A democracia tem certamente dous defeitos que não podião seduzil-o: aspira apaixonadamente a dominar com exclusivismo, e é habitualmente dominada pelos instinctos e paixões do momento. A julgar pela historia do mundo, é de todos os poderes sociaes o mais exigente e imprevidente, o que menos divisões e limites admitte, assim como o que mais obedece ás fantasias presentes, sem cuidar do passado nem do futuro.[3]

Sobreleva que Alencar, para cuja eleição senatorial

elle havia concorrido,[4] agora na administração da

Provincia[5], não só por corresponder á politica democratica do seo intimo amigo Regente Feijó, como tambem ás exigencias exageradas dos co-religionarios do Ceará, torna-se severamente hostil para com aquelles que oppunham-se a seos actos.

De tal sorte que, quando Figueira de Mello, Ibiapina e Pinto de Mendonça voltam da Camara dos Deputados dispostos a realisarem a política de Vasconcellos, já encontram crêado por Albuquerque, Machado, Ferreira e outros o partido caranguejo em luta com o chimango[6], fuzão dos Alencares com os Castros, que já agora tinhão no ministerio, com a pasta da Fazenda, tambem o seu chefe Manoel do Nascimento Castelo e Silva.

Essas denominacões esdruxulas foram muitos annos depois substituidas por conservador e liberal, que ainda prevalecem.

Aquelle teve por seo orgão A Opposição Constitucional e este o Semanario da Assembléa Provincial

Até que afinal cahio a situação por um acto de acrisolado patriotismo de Feijó.

Vehementemente contrariado em suas convicções, diz o Barão Homem de Mello, desarmado perante a omnipotencia parlamentar de então e da qual o governo era como que uma commissão, inhibido de fazer appello ao paiz, comprehendeu que não era o homem da situação e que a sua continuação no poder era improficua para os bens que desejava fazer ao paiz.

Então, com essa abnegação que formava o fundo de seu caracter, tomou a nobre e elevada resolução de abdicar o mando supremo, e o entregou a seus adversarios[7].

Por Decreto de 18 de Setembro de 1837 nomêou ministro do imperio ao Dr. Pedro de Araujo Lima, depois Marquez de Olinda, que neste caracter assumio interinamente a Regencia do imperio, e chamou no dia seguinte ao poder os conservadores, nomeando o gabinete de 19 de Setembro, de que foi a alma Vasconcellos[8].

Com a pasta da justiça e interino da do imperio, o grande estadista explanou o seu programma e desenhou com franqueza os seus principios de governo. Todos os seos actos traduziam o pensamento de armar a autoridade, reconstituir a monarchia.

A’ sua grande obra dedicou todo o ardor de suas crenças. Da alta posição que occupava, facil lhe foi encaminhar a victoria das novas idéas[9].

Manoel Filizardo de Souza e Mello[10] é esolhido para inaugurar a situação na Provincia, e os caranguejos, como prova de sincera adhezão, fundaram o Dezeseis de Dezembro, da data da posse do novo administrador, afim de servir de orgão do partido e da nova ordem de cousas.

O presidente tambem, em arrhas de sua lealdade politica,

chamou para seo secretario o Dr. Miguel Fernandes
Vieira[11], principal proprietario e redactor do jornal,

que em 1840, com a elevação do actual Imperador ao throno, tomou o nome de Pedro II, com o qual ainda hoje se publica.

A 16 de Abril de 1837 Vasconcellos deixou o poder depois de ter firmado no paiz o predominio definitivo da escola conservadora [12].

No Ceará, os caranguejos firmaram tambem seo predominio definitivo, tendo á sua frente Miguel Fernandes, Albuquerque, Machado, Ferreira e outros.


  1. O Golpe de Estado, na Bibliotheca Brazileira, pag. 157.
  2. Vide Barão Homem de Mello, “Biographia de B. P. de Vasconcellos, na “Bibliotheca citada, Vol. 2, Pag. 57.
  3. Guizot, obr. cit., pag. 353.
  4. Major João Brigido, “Os Partidos políticos no Ceará, na Gazeta Litteraria da Corte,” Vol 1.º Pag. 205.
  5. O Senador José Martiniano de Alencar foi nomeado por Carta Imperial de 23 de Agosto de 1834, e tomou posse a 6 do Outubro do mesmo anno
  6. O Dr. Sylvio Romero, na “Revista Brazileira, Tom 6, Pag. 213,” diz que “chamango” é palavra tupi, nome de partido politico e “especie de rato;” mas a idéa verdadeira que tenho deste animal é que é ave omnivora, especie de caracará (milvago chimango). Vide Pedro M. Posser, “Maravilhas da Creação”, Pag. 22. Por escarneo foi este nome posto nos “liberaes” d'aquelle tempo que, em represalia, poseram tambem nos adversarios o de “caranguejo”, crustaceo de dez pernas, muito abundante nos mangues da nossa costa
  7. Biographia de Diogo Antonio Feijó, "Bibliotheca" cit Pag., 120
  8. O gabinete de 19 de Setembro compunha-se, alem de Vasconcellos, de Miguel Calmon Du Pin e Almeida (Marquez de Abrantes), Fazenda; Antonio Peregrino Maciel Monteiro (Barão de Itamaracá), Estrangeiros; Joaquim José Rodrigues Torres (Visconde de Itaborahy), Marinha; Sebastião do Rego Barros, Guerra. Ainda não havia n’esse tempo a Presidencia do Conselho, que foi creada por dec. n. 523 de 20 de Julho de 1847, nem a pasta da Agricultura, creada pelo Decreto n. 1067 de 28 de Julho de 1860 e organisada por outro n. 2748 de 16 de Fevereiro de 1861.
  9. Biographia de B. P. de Vasconcellos cit., Pag. 85.
  10. Nomeado por Carta Imperial de 16 de Outubro de 1837.
  11. Nomeado por Portaria de 10 de Fevereiro de 1838, tomou posse no mesmo dia
  12. Biographia de B. P de Vasconcellos cit., Pag. 61.