Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As miserias da riqueza

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
135. As miserias da riqueza


135. AS MISERIAS DA RIQUESA

Hum Rey era gentil e de maaos feitos. Avia hum boo conselheyro que avia desto grande tristeza e catava hum tempo convinhavel pera o tirar do erro en que andava. Hum dia disse elrrey aaquelle seu privado:

— Vem e andemos pela cidade se per ventura veremos alguma cousa proveitosa.

E andando elles pela cidade, virom lume que luzia per hum furado. E teverom mentes per elle, e viram huma casa soterranha em que estava hum homem muy pobre vestido en huma vestidura muy vil e muy rota. E ante elle estava sua molher que lhe escantava o vinho per hum vaso de vidro. E tanto que o marido tomou o vaso de vinho na maão, começou de cantar altas vozes e ella outrossy a balhar ante elle e louvalo muyto, e tomavam ambos muyto prazer. E aquelles que iam com elrey, esteverõnos oolhando hum grande espaço, e maravilhavamse porque aquelles homees tã pobres que non aviam casa en que morasen, nem vestuduras senõ muy rotas, como faziam sua vida tan segura e com tanto prazer. Entom disse elRey ao seu conselheyro:

— Oo amigo, que maravilha he esta, que nunca a nossa vida foy tan aprazivel nem tam leda a my nem a ty porque avemos tantos meios e tantos avondamentos, como he a sua destes sandeos, ca como que ella aja vil e mesquinha e aspera, parecelhe a elles leda e blanda.

Quando esto ouvyo o privado entendeu que tinha tempo de castigar elrrey e disselhe:

— Senhor, quejanda te parece a vida destes homens?

Elrrey disse:

— Pareceme que he a mais mesquinha e a mais mal aventurada de todallas vidas que eu vy.

E disselhe o privado:

— Senhor, sabe por certo que por mais mesquinha e mais mal aventurada teem a nossa vida aquelles que contemplam e recontam a gloria perduravel e celeste que sobre poyam todo sido. Ca os vossos paaços resplandecentes como ouro e as vossas vestiduras nobres e fermosas mais fedorentas e mais feias parecem que o esterco aos olhos daquelles que contemplam as fremosuras das moradas do ceeo que nom som feitas com maão e as vestiduras feitas per deus, e as coroas que nunca seeram comrompidas, que aparelhou o senhor deus aaquelles que o amam. E assy como estes pobres homens parecem a vós sandeus, bem assy e muyto mais nós que andamos neeste mundo e pensamos que avemos grande avondança en esta falsa gloria e com estas deleytações sem proveyto, parecemos dignos e merecedores de lagrimas e choros e de tristeza e de mesquindade, ante os olhos daquelles que gostarom a dulçura de bees perduraveis, que enganõ os homens en esta vida fazendo-se creer que ham em sy blandeza e dulçura grande e verdadeyra, o que he o contragio e per esto sõ enganados os viçosos.

(Fl. 53, v.)





Notas[editar]

135. As miserias da riqueza. — O thema do rei que anda de noite pela cidade, tem uma base popular. (Vid. n.º 38 e 39.)