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Arras por Foro de Espanha
por Alexandre Herculano


Índice[editar]

Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo I: A arraia-miúda

O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o paço d’apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia que vem após a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado, quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima dos paços do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal ainda impubere, como pagem d’armas do famoso almirante Lançarote Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi, em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse; mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente a colera popular.

Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje, colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d’entre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se revelava nos seus coromens de panno d’Arrás, nos cinctos escuros, nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados, que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d’uma boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento, e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo, que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens d’armas, principalmente bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o pôr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello, elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

“Ouvide! Ouvide!”—­bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador principiou:

“Arraya-miuda! [1] tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados contra este maldicto e descommunal casamento d’el-rei com a mulher de João Lourenço da Cunha?”

“Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques: —­respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios d’uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares.—­Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d’elrei, do que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?”

“Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:—­bradou unisona a chusma.

“Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!—­replicou Fernão Vasques, socegado o tumulto.—­Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado, mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n’uma aduela de pipa?”

“Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha da bésta, me não estourar:—­ exclamou um bésteiro de conto, cambaleando e erguendo-se debaixo d’um bofete, para onde o haviam derribado certas perturbações d’enthusiasmo politico.

“Amendico Vobis!—­gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

“Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres vir nesse bordo por nossa esteira:—­bradou um petintal d’Alfama, que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores, barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente povoado de semelhante gente.

“Digo por linguagem”—­acudiu o beguino—­“que ninguém como mestre Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles, do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons servos da igreja.”

Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um delles se assentava.

Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de odio que nascêra n’um dia, e n’um dia lançára profundas raizes nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando um pouco mais alto.

O amor cego d’el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias, a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della; e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes, e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade, quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D. Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado, fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

Aquelles d’entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella, cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D. Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco [2] eram, segundo parece, os cabeças da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D. Ignez.

O casamento d’elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos crescia á medida que os amores d’elrei se tornavam mais publicos. D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou com isso.

Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas, semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como fiadores da successão da corôa.

A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que precedeu a noite em que começa esta historia.

Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente ás portas do paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou em termos violentos as intenções d’elrei, liberalisando a D. Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d’apar S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão, elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo, a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr. Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d’Alfama, contrabidos como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d’isso, a tanta popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente inclinada para o peito, n’uma postura entre de resignação e de bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

Fez-se de novo silencio.

“Seja, pois, como quereis:—­disse o alfaiate—­mas vede o grão risco a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d’alva no alpendre de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas ascumas! Os trons e engenhos do castello—­accrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitando—­não vos apoquentarão, ainda que elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar, amigos!”

—­“Alcacer, alcacer!—­respondeu a turbamulta.

“Morra a comborça!”—­gritou Ayras Gil com voz de trovão.—­“Morra a comborça!”—­repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens d’arrás e cinctos pretos, que assistiam áquelle conclave.

“Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor tem ouvido subtil:”—­disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso diabólico.

“Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!”—­replicou o petintal.—­“Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcacer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella e de feitiços!”

O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcaceres; entre risadas e pragas; entre ameaças vans e insultos inuteis, aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes deitadas juncto ás raízes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.

Com os braços cruzados o alfaiate contemplava aquella multidão, que diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel ao gemido do tufão, que passa de noite pelas sarças da campina. Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto indelineavel chamado povo, e já ninguem ahi estava, salvo os dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirára sobre um dos bofetes, e já roncava e assobiava como em somno profundo.

Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem não pungia nas faces: o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros á moda de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser já bem larga a historia da sua peregrinação na terra.

O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para elle, e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa, mas perceptivel.

Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava em pé, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:

“Senhor infante, que vossa mercê me perdôe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! Á fé que, no meio d’este arruído, quasi me esquecêra de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que ámanhan não faltarão em S. Domingos?”

“Na verdade—­respondeu o mancebo—­que tu governas mais nelle que meu irmão com ser rei! Veremos se ámanhan te obedecem como te obedeceram hoje.”

“És um notavel capitão:—­accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no hombro do alfaiate.—­Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens d’armas merecerias a alcaidaria de um castello.”

“Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, áquelle que de mim tivesse preito e menagem.”

“Bem dicto!—­interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que começára.—­Se t’a negarem não será por errares as palavras do preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernão Vasques; muito longe! Assim eu a tivera, de que não me será preciso cozer á ponta de punhal a bôca de quem ousar dizer que o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do gonovez Folco Taca.”

Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saíram dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais rapidos e tremulos.

“Quem é aquelle ichacorvos?—­proseguiu Diogo Lopes, apontando para Fr. Roy com um gesto de desconfiança.

“É um dos nossos:—­respondeu o alfaiate—­um dos que mais têem encarniçado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paços d’el-rei. Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe cozer a bôca á ponta de vosso punhal.”

“Responde por ti, honrado capitão da arraya-miuda—­replicou o velho cortezão.—­Quem me responde por elle é o seu dormir profundo: quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto ámanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troço d’arraya-miuda e bésteiros ha-de commetter o paço, e ou do terreiro, ou rompendo pelos aposentos interiores, é necessario que uma pedra perdida, um tiro de bésta disparado por engano, uma ascuma brandida em algum corredor escuro, nos assegure que elrei não póde deixar de attender ás supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadãos de Lisboa.”

“Morta!—­exclamou o infante com um gesto de horror.—­Não, não, Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como ...”

“Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:—­atalhou Pacheco—­dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d’isso, porque eu posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue! Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe! Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa.”

D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada; mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem lá comsigo não se deixar cahir no fojo.

“Far-se-ha como apontaes:—­disse elle falando com Diogo Lopes—­mas se os homens d’armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem do castello...”

“Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no meio da revolta?—­Podes estar socegado, que não te certifiquei d’isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d’ámanhan.”

Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna, e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do ferro, e repetindo em voz baixa:—­“Não me precipitarei no fojo!”

Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára, chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da cathedral.


  1. Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P. 1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos populares no principio da revolta a favor do Mestre d’Aviz, para os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado para si o povo miudo já d’antes e com muita seriedade. Em um documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol. 42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.
  2. Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera por embaixador d’elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr. Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d’um titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371 (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo II: O beguino

Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo, miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo a grandes crimes, [1] ainda vê na extermidade delle umas ruinas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta janella são tudo o que resta dos antigos paços d’apar S. Martinho, igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente pelos nomes de paços d’elrei, paços dos infantes, paços da moeda, paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se, transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos, nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida! Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque jazem ahi!

Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no capítulo antecedente, essa janella dos paços d’elrei era a unica aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído. De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através dos corredores e aposentos do paço.

Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas.

Por fim o reposteiro ondeou d’alto a baixo e franziu-se no meio: mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto, d’onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo d’uma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada.

“Aproxima-te, beguino!”—­disse com voz trémula elrei; porque era elrei D. Fernando o homem que se assentára.

Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

“Que ha de novo?”—­perguntou elrei.

“O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu trago!”

“Fala, fala, beguino!—­acudiu elrei, estendendo a mão convulsa para o ichacorvos.

“É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paço será accommettido. Pretendem matar...”

“Mentes, beguino!—­gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes da Ásia.—­Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me! Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles.”

“Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida:—­replicou o ichacorvos com ar contrito.—­Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá tres credos, na taberna de Folco Taca.”

“Miseraveis!—­bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco da sua amante restituira por um momento a energia.—­Miseraveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão. Quem ousa ordenar tal cousa?”

“Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz estava tambem com elles:”—­respondeu Fr. Roy.

O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

“Velho assassino!—­exclamou D. Fernando—­cubriste de luto eterno o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!”

O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

“Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados.”

“Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!—­gritou D. Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos joelhos, com um chôro convulso.—­Que te fiz eu para me tractares tão cruelmente?”

“D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede; deixa-o reinar.”

“Tens razão, Leonor!—­disse D. Fernando, enxugando as lagrymas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. —­ Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae. Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d’armas e bésteiros do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada.”

D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy estava immovel diante delle.

“João Lourenço Bubal—­disse o espia sem se alterar—­é dos revoltosos. Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte dos homens d’armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam....”

“Cal-te, beguino!”—­gritou elrei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a bôca.

O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

“... A adultera:—­proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio.

“Beguino!—­atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva—­melhor fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido.”

“Mas que faremos!?—­murmurou elrei com gesto d’indizivel agonia.

“Havia ainda ha pouco tres expedientes,—­respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade—­combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!... Porque não o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!”

“Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:—­rei de Portugal, obedece á força?—­Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d’armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:—­desamae!—­Elle ousa já dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim!”

“Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?—­disse D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida ás faces afogueadas de D. Fernando, que n’uma especie de delirio olhava espantado para ella.

“Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subirás a elle.”

Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

“Então resta o fugir.”

“Fugir!”—­exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n’um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d’alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr’olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d’uma vibora.

“Seja, pois, assim! Fujamos:”—­murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão ao algoz.

D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu.

“Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva.”

O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram o vigor natural.

Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer palavra.

Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito, e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por onde entrára.

Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas. A janella estava aberta, e o escabello d’elrei ficava proximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles, encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d’onde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia. Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo, cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga, abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas. No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços, exclamou:

“Fernando!”

Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do tigre.

Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Telles.

“Ámanhan—­disse elle com voz affogada,—­o rei mais deshonrado da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor! serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses.”

Um beijo da adultera cortou as lastimas d’elrei. A formosura desta mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando, embriagado d’amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

“Fernando!”—­proseguiu D. Leonor—­“jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua.”

Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

“Juro-t’o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até hoje fui. Juro-t’o pelo ceu que nos cobre. Juro-t’o pelos ossos de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-t’o por mais que tudo isso: juro-t’o pelo meu amor!”

“Bem está, rei de Portugal!—­atalhou D. Leonor.—­Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça.”

“Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres.”

“Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo, segundo foro de Hespanha.”

“Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa dar-t’a-hei eu. O casteilo d’Obidos é forte e roqueiro: são numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d’Obidos será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d’aguas vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora.”

“Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t’as peço em dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia.”

“De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires.”

D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

“É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real.”

Elrei lançou um rapido volver d’olhos para onde Leonor Telles tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

“Leonor, Leonor!—­disse elrei com um som de voz cavo e debil—­porque vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d’amor? Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?”

“Rei de Portugal!—­respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha com um brado de furor—­ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto pensamentos de sangue a pensamentos d’amor? É porque esses de quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d’affronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces? É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse preço a neta de D. Ordonho de Leão [2] nunca será mulher de D. Fernando de Portugal.”

E com um braço estendido para o logar sem nome [3] do supplicio, e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.

“Tens razão, Leonor:—­disse por fim D. Fernando, depois de largo silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel mudaram gradualmente.—­Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injuria.”

A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em um sorrir de inexplicavel doçura.

“Oh, como te hei-de amar sempre!”—­murmurou ella. E estas palavras cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa.

Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, assellou este pacto de odio e d’exterminio.


  1. Isto era escrípto em 1844.
  2. A familia de Leonor Telles suppunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leão.
  3. Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a pôr-lh’o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir. Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros no chão d’Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o lado oriental da sé. Além d’isso Aljami parece derivar-se do arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço e as mãos.
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Capítulo III: Um bulhão e uma agulha de alfaiate

O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas d’Almafalla, [1] outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do almirante, [2] outros da banda da alcaçova, outros, emfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta e celebre rua-nova. [3] Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante, informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d’armas quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello. Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, d’onde, confundindo-se e irradiandose de novo, se espalhavam pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos, fòra accommettido d’uma das suas raras insomnias, e vivia essa possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.

Era a manhan immediata á noite em que occorreram os successos narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta moral com o seu rei, mas não se descuidára de vir prestes para uma lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada—­não quero!—­O elemento democratico erguia-se para influir activamente na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam os animos á revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia.

A hora aprazada para a vinda d’elrei ainda não havia batido; mas o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera, embevecido na idéa de que obrigaria elrei a quebrar os laços adulterinos que o uniam a Leonor Telles, não media o tempo pelo curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se espalhára a voz de que D. Fernando chegára, e duas vezes o povo corrêra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de lodão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimíra o esculptor, escarnecerem da colera popular, que, lenta como os éstos do oceano, começava a crescer e a trasbordar. Apenas lá dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do orgão e do cantochão monotono dos frades, que offereciam a Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saíam de mil bôcas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de resignação e de confiança em Deus.

O povo, porém, era como os homens robustos do Genesis: era impio, porque era robusto.

O dia crescia, e crescia com elle a desconfiança. As noticias corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedêra aos desejos dos seus vassallos e dos peões, e que viria annuncíar ao povo a sua separação de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava que elle era firme em sustentar a resolução contraria. Havia até quem asseverasse que na alcaçova e no terreiro de S. Martínho se começavam a ajunctar homens d’armas e bésteiros. A colera popular crescia, porque a atiçava já o temor.

No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente: eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino.

“Que não vira, vos digo eu:—­gritava Ayras Gil.—­Disse-m’o Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova, aos açougues, defronte das taracenas d’elrei.”

“Mentiu pela gorja como um perro judeu:—­ replicou Fr. Roy—­Não era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraya-miuda elegido por seu propoedor.”

“Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados, e faze-los dormir até deshoras—­retrucou o petintal.

“Que fazem falar as dobras do paço, sei eu:—­tornou o beguino com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passára:—­medo sabeis vós que faz fugir: inveja sabemos nós todos que faz imaginar...”

“Descaro e gargantoice que faz mendigar:—­interrompeu Ayras Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para o ichacorvos, como galé que vae afferrar outra em combate naval.

“Excommunicabo vos”—­murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal.

E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.

N’isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dous campeadores voltaram-se: era o alfaiate.

Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado, estendeu o braço e o index para o logar onde passava Fernão Vasques. Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal o seguia de longe, lento e cabisbaixo.

O alfaiate, cercado de outros cabeças da revolta da vespera, encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma sáia [4] de valencina reforçada, calças de bifa, çapatos de pelle de gamo, chapeirão de ingres com fita de momperle, e cincta de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. D’alli, em pé, com os braços cruzados, correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silencio. Depois, tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um tribuno.

“Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!...”

Esta exclamação d’um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre, foi repetido em grìta confusa por milhares de bôcas.

De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que pareciam correr á redea solta: todos os olhos se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram.

Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.—­“São homens d’armas d’elrei!”—­Aquelle oceano de cabeças humanas redemoinhou a estas palavras, e começou a dividir-se como o mar vermelho diante de Moysés. N’um momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abríra desde a rua de Gileanes até S. Domingos. As paredes desta adelgaçavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descórou; mas ficou immovel.

Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído: os bésteiros do concelho, postados ao longo dos paços do almirante, eram talvez os unicos em quem o terror não fizera profunda impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço da bésta os virotes hervados, e revolvendo a polé faziam encurvar o arco para o tiro. Os bésteiros de garrucha tinham já o dente desta embebido na corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nús dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas d’Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro do almirante.

Mas no meio deste susto geral apparecêra um heroe. Era Fr. Roy. Ou fosse imprudente confiança no cargo occulto que lhe dera D. Leonor, ou fosse robustez d’animo, ou fosse finalmente a persuasão de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua d’onde rompía o ruído, e mirando pela aresta do angulo um breve espaço, voltou-se para o povo, e curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas.

Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do ichacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquellas risadas produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos contemplam de Napoleão, na batalha das Pyramides. Os amotinados recobraram n’um instante toda a anterior energia.

Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu claramente a causa daquelle temor que apertára por algum tempo todos os corações. Era a còrte que chegava.

Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir ao auto solemne, em que da bôca d’elrei a nação devia ouvir ou uma resolução conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como dos senhores e cavalleiros, ou a confirmação de um casamento, mal agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas côres dos trajos cortezãos negrejavam as garnachas dos letrados e clerigos do paço, e entre o reluzir dos esplendidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos alcaides-móres e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d’elrei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado, e em todos os rostos transluzia o receio ácerca de qual seria o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam representantes de todas as classes sociaes.

Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por seu porte altivo o conde de Barcellos, D. João Affonso Tello, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se dá por excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d’elrei com sua sobrinha começaram, elle fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligencias para desviar o monarcha de levar ávante seus intentos. D. Fernando persistíra, todavia, nelles, e então o conde, junctamente com a infanta D. Beatriz [5] e com D. Maria Telles, irman de D. Leonor, suscitára a idéa de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Telles, odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até á altura do throno, ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais distincto membro da fidalguia. [6]

“Velha raposa, em que te pese, não será a adultera rainha da boa terra de Portugal!—­gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé delle, mas olhando de través para o conde que passava.

“Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço?—­perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lançando tambem os olhos para D. João Affonso Tello.

“Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo?—­acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.—­Deixae-os morder uns aos outros, que é signal de Deus se amercear de nós.”

“O que elles mereciam—­interrompeu uma regaleira—­era serem alagantados [7] —­com boas tiras de couro cru.”

“E ella, tia Dordia?—­accrescentou um ferreiro.—­Conheceis vós a comborça? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas della!” [8]

“É costume, ergo direita a pena:”—­notou um procurador, que gravemente contemplava aquelle espectaculo, e que até alli guardára silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo não lhes dar attenção, empallidecia e córava successivamente, e mordia os beiços de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o anímo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva, viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a sua união com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre elles, e o povo ao vê-lo passar saudou-o com um murmurio, que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devêra a um caso analogo, a morte de D. Ignez de Castro.

Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho d’elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu após elles, e esperou que se assentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão apinhada ao redor:

“Se elrei ainda não é presente—­disse em voz intelligivel e firme—­ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do seu conselho: porventura que elles poderão dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e elle virá depois confirmar o seu dicto.”

“Senhor Fernão Vasques, sois o nosso propoedor: a vós toca o falar!”—­replicou um do povo.

“Assim o queremos! assim o queremos!”—­bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se então para os cortezãos, conselheiros e letrados do desembargo d’elrei, e disse:

“Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão junctas, de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por sua honra e serviço; e porque é direito escripto, que sendo as partes principaes presentes, o officio de procurador deve de cessar no que ellas bem souberem dizer, vós outros que sois principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a nós, devieis dizer isto, e eu não; porém, não embargando que assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vós outros em ello não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco da honra e serviço d’elrei....” [9]

“Cal-te, villão!—­bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com voz affogada de cólera, que já não podia conter—­se não queres que seja eu quem te faça resfolgar sangue, em vez de injurias, por essa bôca sandia.”

O velho Pacheco pôz-se tambem em pé, exclamando: “ Conde de Barcellos, lembrae-vos de que os burguezes têem por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de os reprehenderem. Nós somos menos que os reis.”

Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação, e havia feito um signal com a cabeça. No mesmo instante o povo abríra uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rocío ao tropear da multidão, um semi-circulo de mais de quinhentos bésteiros e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.

Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Affonso Tello, e com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe:

“Senhor conde, vós sois que doestaes os honrados burguezes desta leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz senão repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propuz, não é meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor conde, nào receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte que o do peão, e se também a sua bôca não póde golfar sangue como a de um pobre villão.”

D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mão á cincta onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cincto.

“Conde de Barcellos:—­proseguiu o alfaiate com um sorriso—­não recorraes a esse argumento; porque eu também estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhão.”

Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram ouvidas: a grita na praça era já espantosa; as injurias, as pragas, as ameaças, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande brado da fúria popular, que só tem semelhança com o ruído de tufão abysmando-se por cavernas immensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi tão irritados como os dos dous contendores.

Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que a da vespera, a qual apenas se atrevêra ao throno.

Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes preludios de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capitulo.


  1. Hoje o monte da Graça.
  2. Hoje o bairro dentro da rua larga de São Roque, Chiado, Rua do Ouro, Rocio e Calçada do Duque.
  3. Hoje Rua dos Capellistas
  4. Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs, como se póde vêr da lei de D. Affonso IV ácerca dos trajos.
  5. D. Beatriz era irman dos infantes D. João e D. Diniz e meia irman d’elrei.
  6. O titulo de conde era o de maior preeminencia entre nós, e João Affonso Tello era então o unico que em Portugal tinha semelhante titulo.
  7. Açoutados.
  8. Segundo varios quadernos legaes do nosso direito consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se ás mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O alcalde vinha a casa da criminosa punha no chão um travesseiro, pegava d’uma vara e começava a bater em cima delle, fazendo-lhe o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo por que as mulheres estavam ás varas, pena que com menos apparato se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes.
  9. Textual.—­Veja-se Fernão Lopes, Chr. de D. Fernando, cap. 61.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo IV: Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas

Mal Fernão Vasques travára do braço do conde de Barcellos, e a grita popular começára a atroar a praça, Fr. Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrára a quina que voltava para a Corredoura, [1] e seguindo seu caminho por viellas torcidas e desertas, chegára á porta do ferro, d’onde, atravessando o contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres da muralha mourisca, chegára esbaforido a S. Martinho. A porta do paço estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capella-mór, e a tribuna communicava com o palacio por um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si, e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadiço e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e pôz-se outra vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma voz esganiçada e colerica perguntou;—­Quem está ahi?”

“Eu:—­respondeu o beguino.

“Quem é eu?—­replicou a voz.

“Honrado D. Judas, é Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a elrei ou á mui excellente senhora D. Leonor, para negocio de vulto.”

“Abre, D. Judas, abre!”—­disse outra voz, que pelo metal parecia feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada escaçamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões de ferro, a qual dava para uma especie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrára na casa das arcas da corôa—­do recabedo do regno. As duas personagens que ahi estavam, afóra a que abríra a porta, eram D. Fernando e D. Leonor. Elrei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pello. [2]

D. Leonor, tambem em pé por detraz d’elrei, olhava attentamente para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mór D. Judas, grande affeiçoado de D. Leonor e valido d’elrei. O judeu apenas voltára a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recem-chegado, tornára immediatamente para ao pé da arca a que elrei estava encostado, e proseguíra a vehemente conversação, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvíra ao aproximar-se...

“Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel thesoureiro vos póde apurar neste momento, respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado, e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pogeia.”

Elrei não o escutava. Apenas Fr. Roy entrára, D. Leonor se havia encaminhado para o ichacorvos, e, lançando-lhe um olhar escrutador, lhe perguntára com visível anciedade:

“Beguino, a que voltaste aqui?”

“A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez tenha já corrido sangue no rocío de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores e fidalgos da casa e valia d’elrei.”

Fôra á palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender á voz esganiçada do thesoureiro-mór, que continuava em tom de lamentação:

“Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço, e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos d’Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d’Alemdouro, que são em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?” [3]

“Sangue, dizes tu, beguino?—­exclamou elrei—­Oh, que é muito! A quem se atreveram assim esses populares maldictos?”

“Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Fernão Vasques; mui grande numero de bésteiros, e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram os traidores atroavam a praça.”

“Que me dêem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o meu estoque francez:—­gritou D. Fernando escumando de colera.—­Eu irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou acabarei ao pé delles. Pagens! onde está o meu donzel d’armas?”

“O teu donzel d’armas, rei D. Fernando,—­interrompeu com voz pausada e firme D. Leonor—­segue com os outros pagens caminho de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui só tens a mula de teu corpo [4] para seguires jornada.”

“Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei despedaçar pelos peões desta cidade abominavel? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando ainda se não erguêra para te coroar rainha.”

“Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te delle, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão deixar entregue á sua sorte o nobre D. João Affonso e os senhores que são com elle; mas não te esqueça que se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n’uma cidade revolta? Os homens d’armas do teu castello quebraram seu preito, e tumultuam na praça: muitos de teus ricos homens estão conjurados contra ti: teu proprio irmão o está. Partir! partir! Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperança está no partir breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não podermos salvar aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expôr á furia de homens refeces e crús, para esconder nossa fuga... fuga; que é o seu nome!”

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiçados da adultera, e a afflicção e o temor comprimidos n’uma lagryma que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas que derramára na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçára, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

“Partamos. E seja feita a vontade de Deus!”

“Amen—­murmurou o ichacorvos.

“Beguino,—­interrompeu D. Leonor, voltando-se para Fr. Roy—­corre já ao rocío, e dize em voz bem alta aos populares amotinados, que me viste partir com elrei caminho de Santarem. Talvez assim o conde seja salvo, porque a furia desses vis sandeus se voltará contra mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado, o meu palafrem terá já transposto as portas da cruz. Guardae-vos, mesquinhos, que elle a torne a passar com sua dona. Ichacorvos! esse dia será aquelle em que a adultera pague todas as suas dividas!”

Fr. Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentíra na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Telles cravou nelle era diabolico, e a palavra—­adultera—­proferida por ella, soava como um dobrar de campa, e vinha como involta n’um halito de sepulchro: o beguino arrependeu-se desta vez mui seriamente de ter sido tão miudo e exacto na parte official que apresentára na vespera. Calou-se, todavia, e saíu com o seu ademan do costume, cabeça baixa e mãos cruzadas no peito.

Os tres ficaram outra vez sós.

“D. Judas, meu bom D. Judas:—­disse elrei com um gesto de afflicção—­eu não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua arithmetica. Estou certo de que não deves ao thesouro real uma unica mealha, e de que nas arcas do haver não existe senão o que tu dizes: mas de certo não queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como um romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro...”

“Ai!—­suspirou o thesoureiro-mór—­juro a vossa real senhoria que me é impossivel achar agora outra quantia maior que a de mil dobras pé-terra e trezentas barbudas.”

“Fernando—­atalhou Leonor Telles—­ordena aos moços do monte que ahi ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu affeiçoado D. Judas, que com duas palavras eu obterei o que tu não podeste obter com tantas rogativas.”

Ella sorriu alternativamente com um sorriso angelico para elrei e para o thesoureiro-mór. D. Fernando obedeceu, e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira áquella por onde entrára o beguino, desappareceu. O thesoureiro ía a falar; mas ficou com a bôca semi-aberta, o rosto pallido, e como petrificado, vendo-se a sós com D. Leonor. Era que já a conhecia havia largos tempos.

“D. Judas,—­disse esta em tom mavioso—­tu has-de fazer serviço a elrei para esta jornada. Darás os dous mil maravedis velhos.”

“Não posso!—­respondeu D. Judas com voz trémula e afogada.

“Judeu!—­replicou D. Leonor, apontando para um cofre pequeno, que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tres altos de pó—­o que está naquella arca?”

O thesoureiro-mór hesitou um momento, e depois balbuciou estas palavras:

“Nada ... ou para falar verdade... quasi nada. Bem sabeis que d’antes eu alli guardava algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia, mas ha muito que nem essas poucas mealhas me restam.”

“Vejamos, todavia:—­tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregava.

“Misericordia!—­bradou D. Judas com indizivel agonia. Mas reportando-se, por um destes arrojos que inspiram os grandes perigos, procurou disfarçar o seu susto, continuando com um riso contrafeito:

“Misericordia, digo; porque fôra mais facil achar entre os amotinados do rocío um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do logar onde terei a chave de uma arca ha tanto tempo inutil e vazia.”

“Perro infiel! eu te vou recordar quem póde dizer onde as havemos de achar.”

“Estaes hoje, mui excellente senhora, merencoria e irosa:—­replicou o thesoureiro-mór, trabalhando por dar ás suas palavras o tom da galantaria, mas visivelmente cada vez mais enfiado e trémulo,—­Assim chamaes perro infiel ao vosso leal servidor, por causa d’uma chave inutil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe della, e eu a irei procurar.”

“Generoso e leal thesoureiro!—­interrompeu D. Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava—­não te dês a esse trabalho, por tua vida. Quem póde faze-la apparecer é um velho cão descrido, que mora na communa de Santarem. Eu sei de um remedio que lhe restituirá á lingua a presteza d’uma lingua de mancebo de vinte annos. O seu nome e Issachar. Conhéce-lo?”

“Alta e poderosa senhora, vós falaes de meu pobre pae!—­respondeu o thesoureiro-mór, redobrando-lbe a pallidez.—­Mas tractemos agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras pé-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes...”

D. Leonor lançou para o judeu um olhar d’escarneo, e proseguiu:

“Do que importa é que eu tracto. Sabes tu, meu querido D. Judas, que sejam as tuas dobras mil, ou mil e quinhentas, ámanhan a estas horas eu D. Leonor Telles, a rainha de Portugal, estarei em Santarem? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres do alcacer, ha um excellente potro capaz de desconjuntar n’um instante os membros do mais robusto villão? Veiu-me agora a idéa que o velho Issachar amarrado a elle deve ser gracioso, porque tendo vivido muito, constrangido a falar, ha-de contar cousas incriveis, quanto mais dizer onde está uma chave, cujo paradouro elle não póde ignorar. Não achas tu tambem que é folgança e desporto digno de qualquer rainha o vêr como estouram os ossos carunchosos de um perro de noventa annos?”

Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacillantes se recusavam a suste-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas, o judeu tinha cahido de joelhos aos pés della.

“Por mercê, senhora,—­exclamou elle n’um trance horroroso de angustia—­mandae-me açoutar como o mais vil servo mouro: mandae-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoae a meu velho pae, que não tem culpa da pobreza de seu filho. Se eu tivera ou podéra alcançar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que offereci a meu senhor elrei...”

“Judeu!—­atalhou D. Leonor—­tu deves saber tres cousas: a primeira é que os tractos do potro são intoleraveis; a segunda é que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que se neste momento de aperto eu te podesse applicar o remedio, não o guardaria para a ossada bolorenta de um lebréu desdentado.”

“Vendido cem vezes,—­proseguiu o thesoureiro-mór lavado em lagrymas, e procurando abraça-la pelos joelhos—­eu não poderia apresentar neste momento mais que a somma já dicta de duas mil e quinhentas dobras, e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse assar vivo.”

“És um louco, D. Judas!—­interrompeu Leonor, affastando de si o judeu com um gesto de brandura.—­Por uma miseria de pouco mais de quinhentas pé-terra consentirás que Issachar, que teu pae, honrado velho! pragueje nas ancias do potro contra o Deus de Abraham, de Jacob e de Moysés?”

O thesoureiro-mór conservou-se por alguns momentos calado, e na postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos olhos, enxugou as lagrymas e ergueu-se. A resolução que tomára era a de um desesperado que vae suicidar-se.

“Aqui estarão, senhora,—­murmurou elle—­os dous mil maravedis quando os quizerdes. Procurarei obte-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem á vossa partida.”

“Adeus, meu mui honrado D. Judas:—­ disse D. Leonor sorrindo.—­Não perderás nada em ter cedido aos meus rogos.”

Dicto isto, saíu pela mesma porta por onde saíra elrei.

O judeu estendeu os braços com os punhos cerrados para o reposteiro que ainda ondeava, levou-os depois á cabeça, d’onde trouxe uma boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fóra um saquitel pesado, sellado e numerado, e os dous mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos, e como se as forças se lhe tivessem exhaurido no espantoso combate que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena arca, e abraçado com ella desatou a chorar.

“Meu pobre thesouro, juncto com tanto trabalho!—­exclamou por fim entre soluços.—­Guardei-te neste cofre com medo de te vêr roubado, e os salteadores vim encontra-los aqui! Mas que se livrem de eu tornar a receber os direitos reaes das mãos dos mordomos. Meus ricos dous mil maravedis de bom ouro, não voltareis sósinhos quando vos tornardes a ajunctar com os vossos abandonados companheiros!”

Esta idéa pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e quando elrei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que não dava uma pogeia de mais da somma que lhe fôra requerida em nome do potro da torre de Santarem. [5]

“Oh,—­exclamou elrei, lançando os olhos para cima do desalmado folio, sobre cujas paginas amarelladas estava empilhado o dinheiro —­temos os dous mil maravedis?!”

“Saiba vossa real senhoria que felizmente tinha em meu poder uma somma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da porta do mar, e de que não me lembrava: ao basculhar as arcas dei com ella: a quantia está completa, e o honrado mercador não levará por certo mais de cinco por cento ao mez, emquanto os ovençaes de vossa senhoria não vierem entregar no thesouro o producto dos direitos reaes vencidos. Então pagar-lhe-hei, até á ultima mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria não ordena o contrario.”

“Faze o que entenderes, D. Judas:—­respondeu elrei, que não o ouvira, attento a metter n’uma ampla bolça de argempel, que trazia pendente do cincto, os dous mil maravedis.—­Tudo fio de ti, honrado e Seal servidor.”

E recolhidos os maravedis, saíu. O judeu ficou só.

“No inferno ardas tu com Dathan, Coré e Abiron, maldicto nazareno!...—­murmurou elle.—­Porém não antes de eu haver colhido os dous...quero dizer, os tres mil e duzentos maravedis, que me tiraste com lanta consciencia quanta póde ter a alma tisnada de um christão.”

Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saíu pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passára Fr. Roy, até que por aquella parte do palacio tudo caíu em completo silencio.


  1. A Corredoura era uma rua, que, passando ao sopé do monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).
  2. Para não enfadarmos os leitores com um sem numero de notas declarâmos por uma vez que todos os costumes e objectos que descrevemos são exactos e da epocha, porque para taes descripções nos fundámos sempre em documentos ou monumentos.
  3. O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos, isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo maravedi, excedendo em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem pelo contrario, o valor real d’uma dobra pé-terra era inferior ao maravedi velho na razão de 20 para 32 1/2. A alteração da moeda feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas, das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham a ser iguaes ás libras novas deste rei, porque, produzindo até ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova moedagem produzindo 165, o que dada a differença do toque entre o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo maravedi d’ouro correspondente á vigesima parte de um marco de prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos, isto é, ficava para aquella moeda na razão de 20 para 32 1/2.
  4. Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente a lei de D. Afonso III sobre os que vão a cas de elrei.
  5. Aquelles que não conhecerem as opiniões, estado de civilisação, e costumes da idade média, medirão o thesoureiro-mór D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se não nos engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez de Pombal em uma lei sobre os christãos-novos, e acharão inverosimil a scena antecedente, posto que esteja bem longe d’isso. A falta de christãos habilitados para tractarem materias de fazenda publica, obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das côrtes de 1211, que os inhibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha esta raça, olhada como abominavel em consequencia das convicções politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte assentava em bons fundamentos. A idéa que se fazia de um judeu na idade média acha-se expressa na lei 23.ª daquellas côrtes, e pinta melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto podessemos aqui escrever. “Os quaes judeus (diz o legislador) assy como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus, solamente porque som homeês.” Juncte-se a isto o caracter cruel, hypocrita e cubiçoso de D. Leonor Telles, tão excellentemente pintado pelo grande poeta chronista Fernão Lopes, e poder-se-ha então avaliar devidamente a verosimilhança desta scena de imaginação no meio de outras scenas da vida real desses tempos.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo V: Mestre bartolomeu chambão

Fr. Roy, saíndo da casa das arcas, atravessára os corredores vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomára por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o atrio do paço. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar na morada real ás horas mortas, e a saír nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrára, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é facil de suppôr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rocío, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida d’elrei.

Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exercito permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abríra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito e escuro vão da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos á meia luz que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje, nesses mesmos paços, e n’um desvão igual, talvez no mesmo sitio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de carne humana, e no esperar atroz rodêa com as garras os ferros do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.

Passára obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pateo interior do edificio. D’ahi a pouco um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave, e as rédeas de uma valente mula enfiadas no braço, chegou á porta e começou a abri-la. Era um dos donzeis d’elrei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão á espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas orações em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos os moradores da casa d’elrei, que respeitavam a sua apparente sanctidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.

“A madre Sancta Maria vos guarde de máu olhado, de feitiços e de ligamentos:—­disse elle, chegando-se ao donzel, e fazendo sobresair esta ultima palavra.

“Vós aqui, Fr. Roy. por estas horas?—­replicou o donzel, voltando-se admirado.

“Que quereis!—­tornou o beguino.-Quando hontem os maldictos burguezes accommetteram os paços reaes com sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquelle desvão, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro como um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião não me consentia passar por meio de homens possuídos do espirito de colera, e inspirados por Belzebuth, nem o susto me deixava animo desaffogado para ir roçar o burel do meu santo habito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Tambem a humildade e mortificação christan se oppunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de vós outros os moradores da casa de nosso senhor elrei. Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento, alli me deixei ficar sohre as lageas humidas, sobre as duras e agudas arestas dos degráus daquella escada. Agora, que a revolta é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos, e confiado na providencia de Jesu-Christo, vou-me ao meu gyro diario para vêr se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou mil louvores ao justo juiz, que reina eternalmente nos altos céus.”

O beguino revirou beatificamente os olhos, e fez uma visagem entre afllicta e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho, como se alli sentisse uma dor agudissima.

“Veneravel Fr. Roy!—­atalhou o donzel com as lagrymas nos olhos—­se tivesseis procurado o aposento dos donzeís, nós vos dariamos ao menos um almadraque para repousar, e repartiriamos comvosco da nossa cêa. Mas o mal esta feito, e o peior é que para hoje não vos posso offerecer abrigo. Vós crêdes, sancto homem, que a revolta é finda, e nunca ella esteve mais accesa. Sua senhoria vae partir já da cidade ...”

“Sancta Maria val! Sancto nome de Jesus! Accorrei-nos, virgem bemdicta!—­interrompeu Fr. Roy.—­Pois os populares teimam em sua assuada, e elrei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos e cidadãos pacificos, entregues ao furor dos peões?”

“E que remedio, bom Fr. Roy?!—­replicou tristemente o donzel.—­Sem cavalleiros, escudeiros e bésteiros não se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada d’isto tem elrei. Agora vou eu ao rocío avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho de Santarem, sob pena de incorrerem em caso de traição se ficarem em Lisboa, por signal que elrei me recommendou procurasse avisar primeiro que ninguém sua mercê o infante D. Diniz.”

“No rocío, dizeis vós?—­tornou o beguino arregalando os olhos.—­Confesso que vos não entendo.”

Durante este dialogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta do paço, cavalgado na mula que trazia de rédea, e saído ao terreiro seguido de Fr. Roy, que coxeava, estorcia-se, e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo, e sofreando a mula, caminho da sé, o pagem narrou ao beguino todas as particularidades succedidas aquella manhan, as quaes Fr. Roy sabia melhor do que elle. Chegados defronte dos paços do concelho, o pagem tomou pelo sopé da alcaçova e Fr. Roy pela porta do ferro, não sem terem primeiro saído da bolça do donzel para a manga do beguino alguns pilartes, [1] e da bôca deste para os ouvidos daquelle alguns latinorios pios devidamente escorchados.

Apenas passára o largo da sé e transpozera a velha e soturna porta do ferro, Fr. Roy se achára perfeitamente sarado do seu tão agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no pelourinho [2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troco de bésteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente, ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambão, que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar no beguino:

“Já vo-lo disse: d’aqui ninguém bóle pé antes d’elrei nosso senhor saír para S. Domingos. Nada de bulha fóra de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao paço quando ahi fôr só a adultera. Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve saír da toca. Não digo que então não seja possivel esmagar-se-lhe a cabeça... N’um brandir de ascuma... Mas cautela, não haja sangue!... Pelo menos de innocentes... Leaes e esforçados cidadãos desta mui leal cidá... Sáfa, bruto!”

Esta peroração inesperada com que mestre Bartholomeu interrompêra o seu discurso, que se ía elevar ao ápice da eloquencia, procedêra de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do ichacorvos sobre o hombro, que lhe vergára como se houvessem descarregado em cima delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrêra uma idéa abençoada, a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe recommendára espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com elrei. O mendicante sabía que o tanoeiro era homem de bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido toda a cidade. Assim se esquivava não só a ser visto no rocío pelo donzel, de quem naquelle instante se apartára, mas tambem a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia poderia produzir, attenta a irritação dos animos. Além d’isto a lembrança do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D. Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebêra do fim da sua arenga) da commissão, que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbíra a Fernão Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D. Leonor. Estas considerações que lhe haviam passado rapidamente pelo espirito, e o vêr que mestre Bartholomeu não levava geito de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que só o sentíra quando elle lhe descarregára sobre o hombro a ponderosa mas amigavel palmada.

“Com mil e quinhentos satanazes!—­exclamou mestre Bartholomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino.—­Sabia que a mão da sancta madre igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Fr. Roy?”

“Dizer-vos que podeis mandar saír vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem elrei chegar e passar para S. Domingos.”

“Fr. Roy,—­replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera—­para interromper-me com uma de vossas bufonerias não valia a pena de me aleijardes este hombro!”

“Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com elrei.”

“Pois quê, morreu dos feitiços da adultera, ou lornou-o invisivel algum encantador seu amigo?”

“Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador (aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz...”

“Fr. Roy, olhae que estes honrados cidadãos vos escutam, e que o auto é mui grave para gastar truanices.”

“Já disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei não dormirá em Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante mula de caminbo; n’outra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzeis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar ainda lhe ouvi estas palavras:—­olhae aquelles villãos traidores como se junctavam: certamente prender-me quizeram, se lá fora [3] !—­Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a prêa: agora catae-lhe o rasto.”

“Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!—­bradou o tanoeiro sopesando o montante.—­Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burguezes?”

“Escarnidos, escarnidos!—­respondeu com grande grila o tropel.—­Mas à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!”

E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol oriental como um vasto brazido.

“Ao rocío! ao rocío!—­gritou mestre Bartholomeu.—­Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!”

E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta, e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.

Foi n’uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre, e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante D. Diniz.

Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:

“Estamos perdidos!”

Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo tom respondeu ao infante:

“O caminho de salvação que nos resta é o de Santarem. Obediencia e circumspecção!”

O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados, e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados. Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.

“Vistes a ordem d’elrei. Como um dos mais velhos entre nós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor elrei.”

“Mas,”—­atalhou o doutor Gil d’Ocem, que por mui letrado e prudente era ouvido como oraculo pelos cortezãos—­“o caso é grave: o povo se nos vir retirar enviar-se-ha a nós: se lhes dizemos o motivo da nossa partida é capaz de desconcertos maiores que os já commettidos.”

“Sua senhoria não devêra ter-nos emprasado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares.”

Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo, no que não levava vantagem á maior parte dos outros membros do conselho real.

O conde de Barcellos guardava silencio. Não podia conceber como D. Leonor o não avisára a tempo, e por isso preoccupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fôra tomada mui tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era chamar á côrte os senhores e cavalleiros de mais confiança, acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem oppôr-se de novo á vontade de seu rei e senhor. D. Fernando aceitára o conselho, que, se não era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelações do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negocio.

A reflexão de Gil d’Ocem estava em todas as cabeças, e por isso os cortezãos ficaram outra vez em silencio, como buscando um expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza, o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano, que ameaçava traga-los, encapellavam-se aos pés deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n’um circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos para não poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

“De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei—­disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso ÍV.—­Resta-nos só um arbitrio.”

“Dizei, dizei!—­clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.

“É necessário que annunciemos a nova da partida d’elrei, e que sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da alcaçova de Santarem.”

“Mas quem ha-de falar em nosso nome?—­perguntou Gil d’Ocem.

“No vosso, mestre Gil das Leis!—­interrompeu o conde de Barcellos.—­Nem o receio das affrontas do alguns milhares de sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem.”

“Viram impendere vero nemo tenetur”—­replicou Gil d’Ocem—­“ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver.”

Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.

“Mas quem ha-de falar ao povo?—­insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.

“Eu, se assim o quizerdes”—­replicou immediatamente Diogo Lopes.

O manhoso cortesão vira claramente que a partida d’elrei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculára n’um momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel, e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decahir da graça de D. Fernando.

Para os calculos de Diogo Lopes faltáro, porém, um elemento: era a delação do beguino; e era justamente, esta falta que os destruia todos. Assim é a politica.

O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvação e agradecimento. Então elle, saíndo do circulo, aproximou-se a Fernão Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.

“Falhou a traça:—­disse o velho cortezão em voz sumida ao alfaiate.—­Elrei acaba de saír da cidade.”

Fernão Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.

“O que vos digo é a verdade,—­continuou Pacheco.—­Mas não affrouxar! Elrei de Castella é por nós, e bom numero de fidalgos portuguezes o são tambem. Mais; são por nós a maior parte dos que ora aqui vêdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto de mim e ... de quem vós sabeis.”

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Diniz.

“Mas elrei tomará por mulher D. Leonor—­acudiu o alfaiate aterrado:—­voltará a Lisboa com seus cavalleiros e homens d’armas, e então coitados de nós!”

“Não temaes: o matrimonio adultero será condemnado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D. Fernando póde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal têem homens d’armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leaes burguezes, que tão ousadamente se oppozeram á deshonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles. Mandae-lhes que façam silencio.”

Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuára durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, que pouco mais ou menos terão previsto como seria. Misturando amargas reprehensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Alludiu á resistencia por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo, a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as idéas que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças aos peões de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o proprio conde de Barcellos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da colera da arraya-miuda.

Durante aquella larga arenga esta guardára silencio, interrompido a espaços por um desses borborinhos, que são como os annuncios das erupções do volcão popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos outros fidalgos; aquellas bôcas semi-abertas prestes a proromper em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos do povo ía o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio do povo apinhado, e até dois virotes de bésta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas apertando os acicates, os cavalleiros seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de affécto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto numero de cortezãos, alguns dos quaes tinham fundados motivos para receiar a irritação desses animos ferozes, exaltados pela fuga d’elrei.

A cavalgada linha desapparecido, quando um troço de bésteiros e peões desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.

Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei, lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto medonho. As affrontas, que até ahi quasi só se encaminhavam contra Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldieçòes, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam ás mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais elle entraria em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reaes. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquieta-los; nem já escutavam o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D. Fernando lhes tivesse apparecido, não teriam talvez respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.

Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencêra fugindo!

O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente perdidos.


  1. Moeda de prata de cinco soldos.
  2. As terecenas ou taracenas reaes, isto é o deposito dos aprestos das galés, de guerra, eram juncto ao sitio em que hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Açougues era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua da Praia.
  3. Nom quis alla hir e partiose da çidade com D. Lionor, ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; “Oulhaae, &c.”—­Fernão Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo VI: Uma barregã rainha

O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas, e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão, lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto, expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre, e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral, semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta, em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos, quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um amor tenaz d’independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio, até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas. [1] Na rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros, [2] como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escaceára mercês. [3] Depois em folgares e caçadas vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero, agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia de festa o seu mui canonico burgo. [4]

A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava o rio da villa pela ponte do Souto [5] e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d’elrei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra; ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos. Adiante d’elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura dos noivos. [6]

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d’elrei, mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança de opinião.

Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e agrados d’elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que, ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina; no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte, nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d’elrei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor Telles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem: após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos, as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole. [7]

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo assistir ás bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma, e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas: elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

“Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio: como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres d’entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.” [8]

O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao volver d’olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do seu capital inimigo.

Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem á que representava um papel analogo ao daquella desventurada, salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle, naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos, e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.

Só faltava D. Diniz, que continuára a ficar immovel. Houve um momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio era para todos indefinido, mas terrivel.

D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmão, enleiado, ao que parecia, em scismar profundo.

Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas, que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se não fosse o respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos e hombros os seus ricos briaes. [9]

Os labios d’elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufão. Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

“Infante D. Diniz, beijae a mão á vossa rainha!”

Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro das respirações cessára.

D. Diniz não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo escarneo:

“Onde está aqui a rainha de Portugal?”

“Infante D. Diniz!—­disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido demudára.—­Soffredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queiraes que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mão da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmão mais velho, de quem devereis haver vergonha.” [10]

“Nunca um neto do D. Affonso do Salado—­replicou o infante com apparenle tranquillidade—­beijará a mão da que elrei seu irmào e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ella descera desse throno e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu, não ella.”

“De joelhos, dom traidor!—­gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dous degraus do estrado.—­De joelhos, vil parceiro de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!”

D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos: achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se na voragem.

“Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?”

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes que se lhe vinham junctar entre os sobr’ olhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n’um só hiato, fundidos n’um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia: brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:—­para ti as penas eternas.

O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.

Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo, e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como se dissesse: aqui!

Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lagrimas:

“Senhor! que é vosso irmão!”

“É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho! Elle já não o é!”

Á palavra—­mentes!—­um relampago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:

“Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister passar por cima do cadaver de vosso segundo pae.”

Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.

Por uma reflexão instantânea a hyena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.

Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d’elrei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.

Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com voz pausada, mas trémula e presa, disse:

“Que esse malaventurado sáia d’ante mim.”

O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o animo de D. Diniz, cujo coração antes d’isso parecêra de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirára.

Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende saiu do aposento.

Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.

D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o collo formoso por mal contido suspiro.

“Coração compadecido e generoso!—­pensou lá comsigo o alferes-mór, que havia pouco a tractára pela primeira vez.

“Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!—­pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com violencia.

“Não te afllijas, Leonor:—­disse D. Fernando, apertando-a ao peito.—­Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!”

Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.

O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que era pesado e mortal, que resfriava todos os corações.

Á meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro: à pôpa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:


Mortos me sào padre e madre:
Eu tamanino fiquei.
Irmãos meus mal me quizeram:
Eu mal não lhes quererei.

Vou-me correr esse mundo:
Sabe Deus se o correrei!
A alma deixo-a cá presa;
O corpo só levarei.

De meus avós nos solares
Nasci: dous dias passei:
Meus irmãos, nada vos tenho,
Senão o nome que herdei.

Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos cavalleiros o déra.

Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois continuaram:


Se fui rico, ora sou pobre:
Choro hoje, se já folguei:
Villas troquei por desvios:
Muito fui: nada serei.

Sem padre, madre, ou irmãos,
A quem me soccorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus:
Senhor Jesus me accorrei!

Um gemido mnis angustiado, que saíu involto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompêra. O seu companheiro bradou aos barqueiros com a voz trémula e cansada de um ancião:

“Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!”

Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram lá comsigo que muito damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam tão devoto trovar.

Repararam, porém, que dos dous desconhecidos, o que suspirára e gemêra lançára os braços ao pescoço do que falára, e que este, affagando-o, lhe dizia:

“Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos creei, e á esclarecida e sancta memoria de vosso virtuoso pae.”

Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que não fossem duas almas damnadas aquellas, mas sim malaventuradas.


  1. Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. Cunha, Cat. dos Bispos do Porto, part. 1.ª pag. 15.
  2. E fezerom mui ápressa hua grande praça ante S. Domingos e a rua do Souto, que era entom todo ortas. F. Lopes, Chr. de D. João I, P. 2. c. 96.—­Isto era poucos annos depois da epocha de que vamos falando.
  3. A 25 de setembro de 1371, em Santarem, fez elrei mercê a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja e tenha em pagamento da sua quantia. Chancell d’elrei D. Fernando L. l. f. 84.
  4. Este bispo D. Affonso era ainda o mesmo a quem elrei D. Pedro, dizem, quizera açoutar por sua própria mão em consequencia de elle haver commettido adulterio com a mulher de um honrado cidadão, historia miudamente narrada por Fernão Lopes chronica daquelle rei, e que nós não sabemos dizer até que ponto seja verdadeira. D. Rodrigo da Cunha, suppõe que o bispo, corrido desta aventura, escandalosa não pelo delicto, trivialissimo no clero daquelle tempo, mas pelo ameaçado castigo, cousa inaudita antes e depois de D. Pedro, saíra do bispado e nunca mais voltára ao Porto, posto que ainda vivesse pelo menos até maio de 1732, como se vê do catalogo chronologico dos bispos portuguezes, por J. P. Ribeiro. Esta opinião, que assenta n’um argumento negativo—­a falta de noticias desse prelado nos documentos consultados por D. Rodrigo da Cunha, posteriores aos eminentes açoutes—­é desmentida pelo testemunho de Fernão Lopes, no cap. 49 da chronica de D. Fernando, que fez presente D. Affonso á renovação das pazes d’Alcoutim, juradas no Porto em 1371. É por isso que, apesar de Cunha, nos pareceu natural fazer abençoar por um bispo, que se pinta como manchado de adulterio, um casamento adultero.
  5. Sobre esta antiga topographia vejam-se as inquirições dos annos de 1268 e 1348 nas Memorias das Inquirições pag. 45 nota 2, e Dissert. Chr. e Crit. tom. 5.º pag. 292 e segg.
  6. Ácerca de semelhante usança veja-se F. Lopes. Chr. de D. João I, P. 2ª c. 96.
  7. Na supposta divisão dos bispados, attribuida ao rei Godo Wamba, dá-se ao Porto o nome de Festabole.
  8. Em grande parte extrahido quasi textualmente da Carta d’Arrhas de Leonor Telles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro de era de 1410 (1372).
  9. O brial era uma especie de camisola que os cavalleiros vestiam sobre as armas, e por cima da qual apertaram o cincto da espada. Tambem o vestiam sobre os pannos interiores quando andavam desarmados. O seu uso durou por toda a idade media, e era ainda lembrado nos fins do seculo decimo-sexto, em que o auctor, ou traductor, do Palmeirim d’Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuarias de Alfonso IV não se tracta é verdade de tal vestido; mas a razão d’isso é obvia: o brial era trajo militar, e aquellas leis versam sobre o vestuario civil. Na ordenação affonsina L. 1.°, til. 63, § 21, se manda cingir a espada ao movel sobre o brial. O diccionario de Moraes affirma que o brial era o manto dos cavalleiros: é um dos bastos destemperos daquella babel da lingua portugueza. Eis o que diz o auctor do poema do Cid, escripto no meiado do seculo decimo-segundo, falando no brial. (Sanches Pocs. Cast. ant. al siglo 15.° t. 1.° pag. 347.)


     Vistió camisu de ranzal tan blanca como el sol
     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
     Sobre ella un brial primo de ciclaton
     . . . . . . . . . . . . . .
     Sobre esto una piel bermeia . . . . . . .
     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
     . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
     De suso cubrió un manto que es de grant valor.

  10. Dizendo elrei sanhudamente coulra elle: “Que non avia vergonça nenhuuma, beijarem a mão aa Rainha sua molher o Infante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmaão, e todollos outros lidallgos do reino, e el soomente dizer que lha nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle.” Fern. Lopes, Chr. d’elrei D. Fern cap. 62.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo VII: Juramento, pagamento

Passára mais de um anno depois do casamento d’elrei. Este casamento, que explicava o repudio da infanta de Castella, não bastára em verdade para accender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando já de algum modo previsto nos capitulos addicionaes do tractado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante offensa devia gerar no animo do rei castelhano não fosse assás forte para servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitára novos motivos de sérias desavenças, que não particularisaremos aqui, por não virem a nosso intento. Baste saber que, depois de inuteis mensagens e queixas, D. Henrique de Castella, entrando subitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessára rapidamente a Beira, passára juncto aos muros de Coimbra, onde se achava D. Leonor Telles, e vindo offerecer batalha a elrei D. Fernando, que estava em Santarem, e que não acceitou o combate, se encaminhára para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Affonso III, de cujas torres e adaves viram os castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o arrabalde, sem lhes poderem pôr obstaculo. No meio deste apertado cêrco, desamparados d’el-rei, que apenas lhes enviára alguns de seus cavalleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com varia fortuna haviam resistido aos commettimentos dos castelhanos, e o que mais duro era de soffrer, á fome, á sede, e até ao receio de traições de seus naturaes. Finalmente D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu affastar dos seus muros o exercito d’elrei de Castella, que a tivera sitiada durante quasi dous mezes.

Era nos fins de maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de primavera. O ar eslava tepido e o céu limpo. Pelos campos e valles via-se verdejar a relva; a madresilva, e as rosas bravias, enredadas pelos vallados, embalsamavam a atmosphera. Mas estes eram os unicos signaes que nos arredores de Lisboa revelavam aquella estação suave no seu clima suavissimo. Tudo o mais contrastava horrivelmente com elles. Os extensos e bastos olivedos, que nessas eras a rodeavam, jaziam decepados em terra, como se por alli tivesse passado fouce gigante meneada por braço de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas resecadas antes de tempo, ou ennegrecidas pelo fogo, assimilhando-se a gandra coberta de urzes, que foi desbravada por fins d’outono. As vastas hortas, que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavallos, estavam incultas e abandonadas. Mas sobre este mal assombrado e triste chão do painel, mais melancholica e afflictiva avultava ainda a figura principal, a cidade.

O populoso bairro chamado o arrabalde, onde d’antes era contínuo o ruído discorde de tracto immeriso, achava-se convertido em um montão de ruinas. Para o lado do sul e poente não se viam desde os antigos muros (cujo perimetro pouco mais cercava do que o castello e o bairro a que hoje damos geralmente o nome d’Alfama) senão edificios queimados, ruas entulhadas, praças desfeitas, vestigios do sangue, peças de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de espadas, e aqui e acolá cadáveres fétidos, não só de cavallos, mas também de homens, cujas carnes, meias devoradas pelos cães ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos appareciam como phantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado ás chammas e ao inimigo; e juncto ás paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depennavam as barbas â roda dos rahbis, que recitavam em tom de pranto os versiculos hebraicos dos Threnos.

Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o loução dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafrens, as doudices dos donzeis, que ora correndo á rédea solta, ora soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos cortezãos letrados, os faziam vacillar e debruçar sobre os arções, o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e allãos, que atrellados forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitações derrocadas, d’onde saía de vez em quando uma exhalacâo de carniça: este rir, este folgar, este ruído do contentamento, este matiz de reflexos metallicos, de côres variegadas, passando como um turbilhão através daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar o veu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruida, e revoca-la a uma nova existencia.

Mas o povo, apesar d’isso, continuava a estar triste.

A cavalgada chegou ao terreiro da sé. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavalleiro, e depois desatou a rir.

Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.

D. Leonor Telles tinha razão para rir.

Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D. Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor e á imprudencia d’elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que cria serem-lhes affeiçoados.

Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços: “outro—­diz o chronísta [1] —­tomarom e pozerom-no na fumda d’huum engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida.”

Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.

A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d’elrei com D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes, que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida, como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D. Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora, segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa situação.

Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz, [2] assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d’elrei, o donzel querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.

Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes tinha bem differentes motivos.

A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d’elrei como um remorso cruel. Pelas suggestões de seu tio adoptivo consentíra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitára os soccorros de seus valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lança em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaçar dos pendões inimigos: elle, cavalleiro, fôra vil instrumento de vingança covarde: elle, rei de Portugal, fôra o destruidor do seu povo; elle, portuguez, recebêra o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta! [3] Estas idéas, que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes, tomavam maior vulto e força na solidão e no silencio. O pobre monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja razão de estar triste. A lua, que começava a subir, dava de chapa, através da janella oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumiára tambem as faces demudadas de afflicção. Este logar, esta luz, e esta hora eram para elle fataes!

Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous fidalgos começaram a soar na sala contigua: quem quer que era passeava também.

Dos olhos de D. Fernando saíam dous tenues reflexos; eram os raios da lua que se espelhavam em duas lagrymas.

A raínha, alevantando-se então, disse ao donzel:

“Nunalvares Pereira, vêde quem está nessa sala.”

Nunalvares abriu a porta, e alongando a cabeça voltou-se immediatamente, e disse:

“O corregedor da côrte.”

Os dous fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se, e conservaram-se immoveis.

A rainha fez signal com a mão a Nunalvares para que esperasse: o donzel ficou á porta sem pestanejar.

D. Leonor encaminhou-se então para elrei, que, embebido no seu profundo scismar, não víra nem ouvíra o que se fazia ou dizia. Curvando-se, e firmando o cotovello no braço da cadeira d’elrei encostou a cabeça sobre o hombro delle, com a face unida á sua.

“Que tens tu, Fernando?—­perguntou ella com essa inflexão de voz meiga, que só sabem labios de esposa que muito ama, mas com que tambem soubera atinar esta mulher sublime de hypocrisia.

“Nada! oh ... nada!”—­respondeu elrei, lançandolhe o braço ao redor do pescoço, e apertando a face incendiada aquelle rosto de anjo, que dissimulava um coração de demonio.

Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimára as lagrymas da compaixão e do remorso.

“Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!—­replicou a rainha.—­Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a pobre Leonor Telles.”

O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um coração de marmore.

“Enlouqueceste, Leonor?—­exclamou el-rei.—­Aborrecer-te? Sem ti este mundo fôra para mim um ermo, a corôa martyrio, a vida maldicção de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei: não me pêsa. Mil vezes que tu o queiras t’o sacrificarei de novo.”

“Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu!”

“Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo, e verás se as minhas palavras são sinceras!”

“Ha um, rei de Portugal!”—­replicou Leonor Telles, em cujos olhos scintillava o contentamento.

Dizendo isto ella se affastára d’elrei. O seu aspecto tomou subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da côrte entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor Telles, ajoelhou e entregou-lh’o.

A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se á esquerda da cadeira de D. Fernando.

“A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.” [4]

D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com o raio visual, o tremor das suas mãos se tornava mais violento, as contracções do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de ler atirou o pergaminho ao chão, e com voz terrível exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:

“Mulher, que me pedes tu?”

“Justiça, e as minhas arrhas.”

Era a primeira vez que elrei ousava resistir á vontade de Leonor Telles. Ella ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a insolencia de uma resolução incontrastavel.

“Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos. As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor d’inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar, dos patibulos já têm pendido sobejos cadaveres. [5] E ainda não satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor! tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!”

D. Leonor repellíra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando, que mal acreditava a própria audacia, com um olhar em que se misturava a indignação e o despreso. Ella ouvira as suas palavras sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para a janella d’onde batia o luar, e estendeu a mão para o céu:

“Ha dous annos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavalleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher póde ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavalleiro—­e o cavalleiro mentiu. As bôcas de homens vis vomitavam contra essa mulher, e a essa mesma hora, os nomes de adultera, de barregan, de prostituta, e pediam a sua morte. O cavalleiro sabia que taes affrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavalleiro ofereceu a sua alma aos demonios se não as lavasse com sangue—­e esse cavalleiro blasphemou e mentiu. Senhor rei, diante do céu que elle invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quaes jurou, á luz da lua que o allumiava, dir-vos-hei: aquelle cavalleiro foi perjuro, blasphemo, desleal e covarde, e eu a sua victima. É contra elle que ora vos peço justiça. Rei do Portugal, justiça!”

Esta ultima palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. Elrei, que durante o discurso de D. Leonor se erguêra pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diabolico e pelo seu olhar fulminante, cahiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu a cara com ambas as mãos, e depois de um momento de silencio murmurou:

“Mas como punir aquelles que talvez são cadaveres? A guerra e a furia popular os puniram!”

D. Leonor trinmphára.

“Nem todos:—­proseguíu a astuta e sanguinária panthera, accommettendo o ultimo entrincheiramento, em que D. Fernando já debalde procurava defender-se.—­Os seus mais vis inimigos ainda respiram, e porventura, ainda sonham vingança. Corregedor da côrte, lêde os nomes escriptos em vossa sentença.”

O corregedor da côrte levantou o pergaminho, affastando-o dos olhos, e interpondo a mão aberta entre estes e a tocha que Nunalvares segurava: tossiu duas vezes, inclinou para traz a cabeça, e com o tom cheio e solemne de um mestre em degredos, leu:

“Item: Fernào Vaasques, peom, alfayate, cabeça e propoedor dos ssusodictos rreveis.”—­Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou a sua ementa particular, e leu a seguinte cota:

“Vivo; muy malferido dhuùa ffrechada com hera [6] no ffecto do meirinho-moor, quando hos da cidade llevarom os castellãos de vencida atá mêa rrua nova.”

Lida esta observação, o corregedor continuou a ler successivamente os nomes dos réus e as respectivas cotas.

“Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, pcom, capitão dhuù corpo dos ssusodictos rreveis.”—­Dizia a ementa:—­“Morto de ssua door naturall.

“Item: Bertolameu Martijs, ourivez, peom, dizidor de pallavras de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria, e de grão ssamdice e desavergonhamento.”—­Dizia a ementa:—­“Morto dhuùa pedrada dhuù emgenho dos imiguos.”

“Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do allcayde moor que ffoy do caslello desta lyal cidade, capitão dos beesteiros que fforom a Ssam domingos.”—­Dizia a cota:—­“Foy cativo dhos castellãos: dado em rrendiçom, e a boõrrequado na pryssom Dalcaçova.”

“Item: Bertolameu Chambão, peom, tanoeiro, cabeça da beestaria do concelho, deputado, pera ffazer vilto e affronta a ssua rreal ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes, rrainha dona llyanor.”—­Resava a ementa:—­“Morto dhuùa lamçada aa porta dho fferro.”

“Item: Ayras Gil, petintal, capitão dos rreveis, gualiotes, arraizes, e pesquadores Dalfama.”—­Dizia a cota:—­“Ffogido com os castellaõs.”

“Item: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de sseu officio, bevedo, assoalhador de palavras e dictos devedados, e scuita dhos reveis.”—­Notava a ementa:—­“Enssandeçeu na pryssom ao lleer da ssemtemça.”

Pobre Fr. Roy! Vendo-se condemnado á morte, desesperado, revelára o que tinha sido na revolta—­um espia de Leonor Telles. A cota da ementa fôra tudo o que tirára das suas revelações: o corregedor, homem agudo como o melhor mestre em leis ou degredos, deduzira das suas palavras que o beguino endoudecêra. Trocava as idéas. Tinha sido espia, mas dos revoltosos.

Alevantado o cêrco da Lisboa, o corregedor da côrte fôra o primeiro presente que a nova rainha enviára á cidade. Áquelle perspicaz e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar um sarau digno della, uma sentença de morte. A prova da sua perspicacia e diligencia estava em ter já no caminho da forca os desgraçados, cuja sentença vinha trazer confirmação real. N’uma execução nocturna não havia a receiar tumultos populares, e a brevidade que a rainha lhe recommendára neste negocio, lhe fazia crer que não seria desagradavel a sua real senhoria a immediata execução dos réus.

Quando acabou a leitura, elrei tirou da bolça que trazia ao cindo o sêllo de camafeu, e sem dizer palavra entregou-o ao corregedor. Este pegou na tocha de Nunalvares, deixou cahir alguns pingos de cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento de papel que tirára da ementa, e cravou neste o sêllo. As armas d’elrei ficaram ahi estampadas. O corregedor fizera isto com a promptidào e aceio com que o mais habil algoz enforcaria o seu proximo.

Depois o honesto magistrado entregou o sêllo a elrei, cujo tremor nervoso se renovára durante a fatal ceremonia. Ao pegar-lhe, o pobre monarcha deixou-o cahir no chão. O sêllo foi rolando e parou aos pés de D. Leonor Telles. Ella empallideceu. Porquê? Talvez se lhe figurou uma cabeça humana, que rolava diante delia.

O corregedor fez uma profunda venia, e perguntou em voz sumida á rainha:

“Quando, senhora?”

No mesmo tom D. Leonor respondeu:

“Já.”

O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O já da seria mais já do que ella propria pensava.

O corregedor saíu.

A um aceno de D. Leonor, o donzel metteu a tocha no annel de ferro embebido na parede, d’onde a tinha tirado, e encaminhou-se para juncto da porta, onde ficou com os braços cruzados, olhos no chão, e immovel como uma estatua. Desde este dia o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquella que lhe cingira a espada. O generoso Nunalvares conhecêra que debaixo desse rosto suave se escondia um instincto de besta-fera.

Os dous fidalgos continuaram a passeiar de um para outro lado, conversando em voz baixa e como alheios á scena que alli se passava.

Elrei tomára a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas orbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa alienação daquella alma timida, atormentada por mil affectos oppostos.

Ouvia-se apenas o cicío dos dous que conversavam. E por largo espaço aquetle murmurio, e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o unico ruído que interrompeu o silencio do vasto aposento.

Elrei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das idéas tenebrosas que lhe offuscavam o espirito, e que protrahidas o levariam bem proximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Telles apparecia-lhe como composto monstruoso de vulto d’anjo e de olhar de demonio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror affastava-o della. Via-a como um simulachro das virgens, que, na infancia, imaginava ao ouvir ler ao bom de seu aio Ayras Gomes as lendas das martyres; mas logo cuidava ouvi-la dar risada, infernal passando por cima das ruinas de cidade deserta. O patibulo e os delirios amorosos; o cheiro do sangue e o halito dos banquetes misturavam-se-lhe no senso intimo: e o pobre monarcha, nos seus desvarios, perdêra a consciencia do logar, da hora e da situação em que se achava naquelle terrivel momento.

Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lagrymas ainda mais ardentes que a regavam foram como faisca electrica revocando-o á razão e á realidade da vida.

A commoçào indizivel e mysteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus pés: era ella quem lhe cobria a mão de beijos e lh’a regava de lagrymas.

D. Fernando affastou-a suavemente de si: ella alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era de feito a imagem de uma das martyres que elle via no seu imaginar da infância. D. Leonor ergueu as mãos supplicantes com um gesto de profunda angustia: então era mais formosa que ellas.

“Ah!”—­murmurou elrei:—­“porque é o teu coração implacavel, ou porque te amei eu tanto?!”

“Desgraçada de mim!—­acudiu D. Leonor entre soluços.—­O teu amor era como o iris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperança; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Telles desvanecer-se-ha e passará com elle!”

“É porque sabes que esse amor não póde perecer; que esse amor como um fado escripto lá em cima—­interrompeu D. Fernando—­que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer tuas crueis vinganças: é porque sabes que eu esgóto sempre o calix das ignominias quando as tuas mãos m’o apresentam, que tu me sacias de deshonra. Terás acaso algum dia piedade daquelle que fizeste teu servo, e que não póde esquivar-se a ser tua victima?”

“Oh quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces!—­exclamou Leonor Telles limpando as lagrymas.—­Foi a tua dignidade real, a tua justiça, o teu nome que eu quiz salvar da tua propria brandura. Aos mesquinhos que me offenderam perdoei de todo o coração; mas tu, que eras rei e juiz, nào o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pae ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é porque teu pae foi implacavel contra os criminosos, e aquillo em que pões a deshonra e a ignominia, é a coroa de gloria immortal que cérca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade e blasphemia, que não cabem em coração e labios de cavalleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada, dize-me só—­Leonor, já não te amo!—­e eu ficarei punida; porque nessas palavras estará escripta a minha sentença de morte! Possas tu depois perdoar-me, e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma expressão de piedade!”

As lagrymas e os soluços parecia não a deixarem proseguir. Reclinou a cabeça sobre os joelhos d’elrei, apertando-lhe a mão entre as suas com um movimento convulso.

Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre monarcha? Unindo a face áquella fronte divina, só lhe disse:—­oh Leonor, Leonor!—­e as suas lagrymas misturavam-se com as della.

Durante esta lucta da dor e da hypocrisia, em que, como sempre acontece, a ultima triumphava, o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles tinham-se encostado á janella fatal que dava para o rio, e que tambem dominava grande porção do arrabalde occidental da cidade. O espectaculo da noite era de melancholica magnificencia.

A lua caminhava nos céus limpos do nuvens, e pela face da terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas aguas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava, além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva onde espelhar-se, ou um sussurro do lesta acorde com as suas harmonias. O incendio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um cahos de ruinas, um cemiterio sem lapides. Apenas no extremo do seu, d’antes, mais rico e povoado arrabalde amarelejava pulido pelo tempo o gothico mosteiro de S. Francisco juncto de sua irman mais velha a igreja dos Martyres. No valle que ficava em meio a luz do cima embebia-se inutilmente na povoação que jazia extincta. A bella lua de maio, tão fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se á leôa, que voltando ao antro acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indifferente, e frio, não o crê, e vae, e volta muitas vezes renovando seus inuteis affagos. Lisboa era um cadaver, e a lua passava e sorria-lhe ainda!

Mas no meio daquelle; chão irregular, negro, callado, viam-se aqui e acolá luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as reliquias dos mortos, para lhes darem sepultura christan. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo, que para se esforçarem cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham com triste som bater de vez em quando nos ouvidos dos dous cavalleiros. Resavam as coplas:


D’amigos e imigos,
Que ahi são deitados,
Levemos os ossos
Ao chão dos finados.
      Ave Maria!
      Sancta Maria!

Madre gloriosa,
Dess’alta ventura
Demovei os olhos
Á nossa tristura.
      Ave Maria!
      Sancta Maria!

Ao bento Jesus,
E ao padre eternal
Pedi que perdoe
A quem morreu mal.
      Ave Maria!
      Sancta Maria!

Esta longinqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dous cavalleiros. Uma voz esganiçada dava o seguinte pregão:

“....Justiça que manda fazer elrei em Fernão Vasques, João Lobeira e Fr. Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas em vida.”

Os cavalleiros abaixaram os olhos para o logar d’onde subíra a voz: era no terreiro proximo: os três padecentes e o algoz, cercados de alguns bésteiros, aproximavam-se do cadafalso: varios vultos negros fechavam o prestito: daquella pinha partira a voz do pregoeiro.

Este pregão, dado a horas mortas e n’uma praça deserta, parecia um escarneo. Mas o corregedor da côrte era affamado jurisconsulto e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as fórmas são tudo. Assim piamente o cremos.

Duas se tinham, porém, esquecido: os desgraçados morriam, como aquelles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.

O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma especie de marco escuro que estava ao pé do patibulo. D’ahi a nada os cavalleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram successivamente dois golpes dados como em vão, seguindo-se a cada um delles um grito de terrivel angustia.

O conde de Barcellos quiz rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gonçalo Telles, recuou involuntariamente.

O grilo que restrugira, chegára aos ouvidos d’elrei.

“Que bradar de homem que matam é este?—­perguntou elle.

“A justiça de sua senhoria que se executa—­respondeu o conde, que neste momento retrocedia da janella.

“Oh desgraçados! tão breve!—­disse elrei, passando a mão pela fronte, d’onde manava o suor da afflicção e do terror. Olhando então para Leonor Telles accrescentou:

“Até a derradeira mealha estão pagas vossas arrhas, rainha de Portugal! Que mais pretendeis de mim?”

E deixou pender a cabeça sobre o peito.

D. Leonor não respondeu.

D. Gonçalo Telles aproximou-se então da cadeira de D. Fernando, e curvou um joelho em terra.

Elrei alevantou os olhos e perguntou-lhe:—­Que me quereis?”

“Senhor—­respondeu o honrado e nobre cavalleiro—­se vossa senhoria consentisse neste momento em ouvir a supplica de um dos seus mais leaes vassallos!...”

“Falae:—­replicou D. Fernando.

“João de Lobeira acaba de receber o premio de sua traição:—­proseguiu D. Gonçalo.—­O desleal escudeiro possuia avultados bens, que ficam pertencendo á corôa real. Por vossa muita piedade podeis fazer mercê delles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre moço ensandeceu ha tempos! Tresleu com livros de cavallarias, e tão varrido está que não fala em al, senão em um que anda imaginando, e a que poz o nome Amadis. Para um mesquinho parvo e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha escassa quantia mal chega ...”

“Calae-vos, calae-vos; que isso é negro e vil;—­bradou elrei, redobrando-lbo o horror que tinha pintado no rosto.—­Deixae ao menos que a sua alma chegue perante o throno de Deus!”

“Apenas cincoenta maravedis!”—­murmurou D. Gonçalo, erguendo-se, e abaixando os olhos, afflicto com a lembrança de sua extremada pobreza.

A seis de junho da era de Cesar de 1411 (1373) em um dos andares da torre do castello, o veador da chancellaria, Alvaro Pires, passeando de um para outro lado, dictava a um mancebo vestido de garnacha preta, e que tinha diante de si tinteiro, pennas, e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota:

“Item. Pera se spreuer a fl’olhas cento e vinte-oyto do llivro prymeyro da Chancelaria Delrrey noso senhor:—­Doaçom dos bees de rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor contra ho serviço de ssua rreal senhoria, ao muy nobre D. Gonçaalo Tellez, per ho muyito divedo que cõ elrrey ha, e polos muytos sserviços que del teè rreçebido e ao deante espera de rreçeber.” [7]

E o povo?... Oh, este sim! Mostrava-se agradecido e bom, no meio de tantas infamias e crimes.

Os populares, que, na manhan immediata áquella horrivel noite dos fins de maio, passavam pello terreiro maldict, onde pendiam da forca os tres cadaveres, meneavam a cabeça, e seguindo ávante diziam:

“Boa e prestes foi a justiça d’elrei nos traidores. Alcacer por sua senhoria!”


  1. Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 75.
  2. A rainha... como era ousada e muito faladora: Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 126.
  3. Ibid. Cap. 72.
  4. O selo de puridade ou do camafeu era aquelle que se estampava no proprio pergaminho, e que servia ordinariamente para o rei expedir documentos de menos importancia, na falta do chanceller-mór, que tinha o sêllo grande, curial, ou do cavallo. Veja-se a Dissertação 3ª de J. P. Ribeiro.
  5. Os tumultos contra o casamento de D. Fernando não se tinham limitado a Lisboa. Pelas doações dos bens dos treedores mortos ou decepados se conhece que houve assoadas e depois vinganças em Satarem, Leiria, Abrantes e outras partes.
  6. Neste século ainda barbaro o uso de hervarou envenenar as armas de tiro ou arremesso era vulgarissímo nos combates.
  7. a nota é imaginaria, mas esta mercê acha-se com effeito registada a f. 128 do L.º 1.º da chancellaria de D. Fernando; cumpre todavia advertir que dessa chancellaria apenas existe original o 3.º livro: o 1.º é dos reformados ou estragados por Gomes Eannes de Azurara.
Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Notas finais

D. Fernando guardou até á primavera de 73 a vingança contra os populares de Lisboa e d’outras terras, que no anno de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. Vê-se isto dos documentos registados na sua chancellaria e citados por Fr. Manuel dos Sanctos. Quem attentamente tiver estudado o caracter atroz e dissimulado de Leonor Telles, tão bem pintado por Fernão Lopes, e os factos que provam a sua influencia sem limites no animo daquelle principe, não poderá esquivar-se a vehementes suspeitas sobre os motivps, que n’um romance nós damos como reaes, porque ahi é licito faze-lo, da, aliás inexplicavel, inacção com que D. Fernando não quiz oppor-se á vinda d’elrei de Castella sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros, e que converteu a cidade, por assim dizer, em um montão de ruinas. Daquelles documentos resulta que, depois de tirada toda a força aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castella, em que se viram quasi sós e abandonados, elrei viera, sobre as ruinas da maior e melhor parte della, satisfazer os odios de D. Leonor; porque, levantado o cerco em março de 73, achâmos elrei em Lisboa (aonde não voltára desde a sua fuga em outono de 71) durante alguns dias de maio, e em Santarem e outros logares nos mezes seguintes, fazendo mercês dos bens de cidadãos mortos, decepados, ou fugidos, do que se póde concluir que então foram executados ou banidos, não sendo de crer que a cobiça cortezan tivesse esporado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos.

O casamento de Leonor Telles, e as consequencias delle são o primeiro acto do drama terrivel, da Iliada scelerun da sua vida politica. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance historico. Todo o drama daria, nessa fórma da arte, uma terrivel chronica. Desde esta conjunctura, até ser arrastada em ferros para Castella por aquelles mesmos que chamára a assolar o seu paiz, a Lucrecia Borgia portugueza é na historia daquella epocha uma espécie de phantasma diabolico, que apparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue, ou d’atrocidade.