Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Maria Subtil

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
33. Maria Subtil



33. MARIA SUBTIL

Havia um mercador, que morava perto do palacio real, e tinha trez filhas. Maria era a mais moça e a mais formosa. O mercador era viuvo, e o rei mandou-o fazer uma viagem. Logo que o rei o mandou chamar foi, e voltou muito triste para casa, por deixar as filhas sós; mas deu-lhes tres vasos de manjaricão, e disse:

— Minhas queridas filhas! eu parto por ordem do rei, e deixo um vaso a cada uma; os vasos hãode-me dizer o que fôr succedido.

— Nada hade succeder! disseram as filhas.

Partiu o pae, e o rei no dia seguinte foi com dois amigos visitar as meninas de sentimento pela partida do pae; estavam as tres irmãs ceando, quando sentiram bater á porta. A mais velha não se importando com os reparos de Maria abriu a porta ao rei. Maria ficou tambem zangada por a irmã do meio os mandar sentar á meza, e disse:

— Vamos buscar uma gotta de vinho á adega; eu levo a chave, minha mana mais velha a luz, e a do meio o cangirão.

Disse o rei:

— Não vão, que nós não queremos vinho.

As duas irmãs mais velhas tambem lhe responderam:

— Nós não podemos ir.

Maria lhes tornou:

— Não querem ir, pois irei eu.

E foi-se. Chegou ao saguão, apagou a luz, e pôz a chave e o cangirão na escada, e foi ter a casa de uma visinha e bateu á porta. Ella veiu e perguntou:

— Quem está ahi a estas horas?

— Deixe-me entrar, que eu briguei com minha irmã mais velha, e para ella não brigar mais commigo, vim para cá dormir.

E lá dormiu aquella noite. Ficou o rei muito zangado da falsidade de Maria. Foi ella para casa no outro dia, e viu os vasos das irmãs murchos e ficou muito contente de ter o seu viçoso. Como o quarto da irmã mais velha dava para as quintas do rei, as duas irmãs desejaram de lá umas nespras. Maria desceu por uma corda; apanhou-as e tornou a subir para casa. A mais velha desejou limas; Maria foi e encontrou-se com o vinhateiro, que lhe disse:

— Que faz você por aqui, senhora marota?

E ella foi a elle e puchou-lhe pelas pernas, dizendo:

— Ainda me estás reprehendendo! Espera ahi.

E elle morreu afogado n’um espinho de limeira. Maria atrepou pela corda, e chegou a casa muito aborrecida e disse:

— Olhem as meninas que esta é a ultima vez.

No dia seguinte a irmã do meio desejou bananas, e tanto pediu, que Maria foi lá, onde se encontrou com o rei, que lhe disse:

— Sempre cá vieste, Subtil? tu agora o pagarás.

E começou a perguntar-lhe tudo; Maria nada negou, até que o rei lhe disse:

— Vem atraz de mim, que em casa tu as pagarás.

E cuidando que Maria vinha, foi andando; olhando de repente não viu nada, nem Maria, nem corda, nem por onde ella tinha saido. O rei ficou tão zangado, que adoeceu de paixão. As duas irmãs mais velhas casaram com dois amigos do rei e tiveram dois meninos. Maria pegou n’elles e metteu-os n’um açafate muito rico e enfeitou-o de flores muito finas de maneira que ninguem dizia levar duas crianças. Maria vestiu-se de rapaz e pôz o açafate á cabeça, e quando passou por casa do rei, apregoôu assim:


Quem leva estas flores

Ao rei, que tem mal de amores?


O rei que estava de cama mandou comprar o açafate; ella levou o cestinho, e quando chegou lá disse:

— Ai, que me esqueceu o outro!

E foi-se, deixando o cesto ao rei; elle ouviu guinchos dentro do cestinho, vae vêr, acha-se com duas crianças. Ficou muito raivoso, e prometteu vingar-se. Chegou o mercador, pae das meninas, e o rei mandou-lhe dizer por um pagem, que lhe fizesse uma casaca de pedra. O mercador chegou a casa muito triste, porque não podia fazer uma casaca de pedra, e porque as duas filhas mais velhas estavam casadas e porque dois vasos estavam murchos. Quando ellas lhe perguntavam o que tinha, Maria saiu de traz das irmãs e disse:

— Se o rei lhe manda fazer uma casaca de pedra não se apoquente, meu pae; leve lá este giz para elle fazer as linhas.

Assim fez; o rei respondeu que era impossivel, e o mercador respondeu tambem:

— Em vista d’isso é-me impossivel fazer a casaca.

— Pois então hasde-me entregar a tua filha Maria.

O mercador voltou ainda mais triste para casa:

— Minha querida filha, o rei quer que te vá levar ao palacio. É a nossa desgraça.

— Não se afflija, meu pae; mande fazer uma boneca egual a mim com um cordão para se puxar pela cabeça para dizer sim e não; e a boneca terá muito mel pelo pescoço.

O rei disse aos pagens:

— Quando vier aqui um senhor com uma menina, em dizendo que querem fallar commigo, mettam a ella na minha camara, e deixem-no a elle ir-se embora.

Maria Subtil entrou e metteu-se debaixo da cama, com o cordão na mão, e pôz a boneca deitada. Quando entrou o rei, olhou para a boneca e disse:

— Senhora Maria Subtil, passe muito bem.

Maria puchou pelo cordão á boneca, e ella abaixou a cabeça. O rei lhe disse:

— Vamos ajustar contas.

E começou pelo principio, desde quando foi á adega até chegar ao açafate de flôres. E Maria Subtil sempre a puchar pelo cordão. O rei continuou:

— Quem me fez tanta falsidade merece a morte.

Pegou n’um espadim e degollou a boneca; o mel respingou, e foi-lhe tocar n’um beiço; e elle disse:

— Ai Maria Subtil! tão dôce na morte e tão amarga na vida. Quem tamanho crime fez merece já morrer.

E ia para se matar, quando Maria Subtil, a verdadeira, sahiu de baixo da cama e se abraçou com elle. No dia seguinte casaram, e foram depois muito felizes.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)


Notas[editar]

33. Maria Subtil. — Na versão do Algarve encontrámos este conto com o titulo de Dona Vintes; e na versão de Ourilhe (Celorico de Basto) vem com o de Esvintola, (Contos populares portuguezes, n.º XLII) trazendo o estribilho:


Ai Dona Esvintola,
Tão brava na vida
E tão dôce na morte.[1]


Nos Contos populares portuguezes, de Sylvio Romero, n.º XII, Dona Pinta é uma variante do nosso. Ha uma versão sevilhana, intitulada Mariquilla la ministra, colligida por Guichot y Sierra. Vid. n.º 42.

A referencia mais antiga a este conto vem nas Cartas, de D. Francisco Manoel de Mello (Centuria V, carta 7.ª):

«Eu cuido que vireis a ser aquella


…Dona atrevida,
Dôce na morte
E agra na vida.


que nos contam quando pequenos.» Na tradição popular corrente ainda tem o titulo de Maria Subida. Charles Perrault, nos seus Contos (1697), redigiu litterariamente este thema tradicional na Adroite Princesse ou Aventures de Finette, no qual o principe de Bel-à-Voir fura com a espada uma boneca de palha que tem uma bexiga cheia de sangue. João Baptista Basile, no Pentamerone, deu redacção litteraria á fórma italiana no conto da Sapia Licciardia, que tambem mette na cama uma boneca cheia de mel e cousas dôces, exactamente como na tradição portugueza. Na Inglaterra este conto apresenta um aspecto exclusivamente maravilhoso no The Made Pranks and merry Jests of Robin Good Fellow, em que o amante é um genio domestico, Robin, que deixa na cama uma figura de lã. (Brueyre, Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 235.)


  1. Em uma versão ouvida em Airão (Minho) ha um episodio com esta cantiga:
    Quem leva, quem leva
    Meninos e flôres
    Para quem 'sta doente
    Por via de amores?