Dicionário de Cultura Básica/Existencialismo

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Existencialismo


EXISTENCIALISMO (teoria filosófica: Kierkegaard, Heidegger) → Sartre

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás,
mas só pode ser vivida olhando-se para frente.
(Kierkegaard)

A reflexão sobre a existência do mundo e do homem é bem antiga, não havendo filósofo que não se colocasse tal problemática. Isso num sentido amplo. Num sentido restrito, "existência" se opõe à "essência": o primeiro conceito, etimologicamente, significa "o que está ai" e, portanto, identifica-se com o real. Já o conceito de "essência" é algo lógico, referindo-se a qualificações genéricas de seres e objetos, aproximando-se do conceito de "sistema", conjunto de idéias abstratas para explicar a natureza profunda de objetos, seres ou comportamentos. "Existencialistas" foram chamados alguns filósofos contemporâneos que, nas pegadas de Sócrates e Pascal, deixando de lado as especulações transcendentais sobre a essência de Deus, do homem e da natureza, desenvolveram doutrinas antropocêntricas, preocupados especialmente com a problemática da existência humana, na tentativa de alcançar-se a autenticidade através da prática do conhecimento de si próprio e da rejeição das ideologias aprisionadoras. O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813–1855) é considerado o fundador do Existencialismo moderno por ter sido o primeiro a insurgir-se contra os macro-sistemas especulativos do Racionalismo francês e do Idealismo alemão, afirmando o valor irredutível da vida individual, que não pode ser compreendida dentro de um sistema filosófico abstrato. Homem profundamente religioso, Kierkegaard sente o peso da condição humana, atormentada pela sua finitude, pela solidão espiritual e pela angústia do pecado. Entre suas numerosas obras assinalamos: Ou Isso / Ou Aquilo; Um Fragmento de Vida; Sobre o conceito de ironia; O conceito de angústia; O desespero humano. Para Martin Heidegger (1889— 1976), a angústia não está relacionada com problemas religiosos, mas com a existência como tal, pois o homem está colocado face a face com o nada, sendo um ser destinado à morte. A angústia só se supera pela "inquietação": o homem é um ser em contínua busca de atualização de suas possibilidades, vivendo num tempo mediano entre o passado e o futuro. É a projeção no porvir que dá sentido à existência. Mais ainda: superando o subjetivismo de Kierkegaard, Heidegger vê o homem como um "ser-em-comum" que, pelo produto do seu trabalho e pelas relações de solicitude, estabelece uma íntima comunicação com os outros, chegando até ao amor. Na última fase da sua especulação filosófica, o pensamento heideggeriano se aproxima da poesia. Segundo ele, a liberação do homem só se pode dar pela "palavra", considerada esta como o receptáculo da verdade a que tende o homem que pretenda viver a sua totalidade existencial. Naturalmente, não se trata da palavra comum ou técnica, mas da palavra poética, que não diz mas evoca, "comemora" a realidade mais autêntica do ser. Da vasta produção filosófica, destacamos: Ser e tempo; Que é a metafísica?; Sobre a essência da verdade; Da experiência do pensar.

O interesse pelo social leva o Existencialismo de Jean-Paul Sartre até o Socialismo. Filósofo, dramaturgo e romancista, Sartre identifica a corrente existencialista com um Humanismo radical, colocando sua vida de homem e de intelectual ao serviço das causas proletárias, estudantis e da opressão das nações do Terceiro Mundo pelo capitalismo selvagem. Militante do Partido Comunista (→ Marx), critica todavia o desvirtuamento dos ideais marxistas quando o governo soviético ordena a intervenção militar na Hungria, em 1956. É que Sartre é avesso a qualquer forma de opressão, quer venha da direita quer da esquerda. Seu lema é a liberdade em todas as formas da atividade humana. Esse ideal ele defende através do diário "Libération" que ele funda em 1973. O seu pensamento filosófico, marcado profundamente pela Fenomenologia de Husserl e pelo Existencialismo de Heidegger, está condensado em quatro obras reflexivas: O ser e o nada; O Existencialismo é um Humanismo; Questão de método; Crítica da razão dialética. Contestando as metafísicas tradicionais, Sartre supera a dicotomia do "ser" e do "parecer", pois considera que não há outra realidade fora do fenômeno, o "ser-em-si". O que transcende o fenômeno é chamado de "ser-para-si", a consciência das coisas, que permite a abertura para uma projeção no futuro, possibilitando a escolha e, portanto, instaurando o princípio do livre-arbítrio. Com base nessa concepção do ser, Sartre considera o homem responsável por tudo aquilo que é ou faz, contestando a tese determinista da dependência dos fatores do ambiente e da hereditariedade.