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Anexo:Imprimir/Suspiros poéticos e saudades (1865)

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Índice

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LEDE.
 

Péde o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um portico ao edificio; e como este deve indicar por sua construcção á que Divindade se consagra o templo, assim deve aquelle designar o caracter da obra. Sancto uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem em alguns espiritos apoucados.

É um Livro de Poesias escriptas segundo as impressões dos logares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos imperios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gothica cathedral, admirando a grandeza de Deos, e os prodigios do Christianismo; ora entre os cyprestes que espalham sua sombra sobre tumulos; ora emfim reflectindo sobre a sorte da Patria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as scenas da Natureza, diversas como as phases da vida, mas que se harmonisam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anneis de uma cadeia; poesias d’alma, e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silencio da noite, cançado de fadiga, elevou até a Deos uma alma piedosa, e vertêo lagrimas amargas pela injustiça, e miserias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na historia da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas acções; esse achará um echo de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonise com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, tres cousas releva notar: o fim, o genero, e a fórma.

O fim deste Livro, ao menos aquelle a que nos propozemos, que ignoramos si o attingimos, é o de elevar a Poesia á sublime fonte donde ella emana, como o effluvio d’agua, que da rocha se precipíta, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da intelligencia deve sanctificar as virtudes, e amaldiçoar os vicios. O poeta, empunhando a lyra da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Sancto, do Justo, e do Bello.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos lyricos, tão cheio de saber, e que podéra ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou desta idéa. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traducções; e quando elle é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferencia ao homem civilisado, como si aquelle a este superasse, como si a civilisação não fosse obra de Deos, á que era o homem chamado pela força da intelligencia, com que a Providencia dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de fallar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decencia!

Seja qual for o logar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bella, embalado pelos prazeres; no carcere, como no palacio; na paz, como sobre o campo da batalha; si elle é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas azas da harmonia até ás idéas archetypas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ahi procuram aplacar a sêde.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquella que nos ensinou o Filho de Deos, aquella que civilisou o mundo moderno, aquella que illumina a Europa, e a America: e só este balsamo sagrado devem verter os canticos dos poetas brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o genero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o enthusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração si a Mythologia podia, ou não, influir sobre nós. Comtanto que dicessem que as Musas do Helicon os inspiravam, que Phebo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras taes e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como si podesse parecer bello quem achasse algum velho manto grego, e com elle se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguem honram.

Quanto á fórma, isto é, a construcção, por assim dizer, material das estrophes, e de cada cantico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéas como ellas se apresentaram, para não destruir o accento da inspiração; alêm de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rhymas, e a symetria das estancias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orchestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem propria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.

Quando em outro tempo publicámos um volume das Poesias da nossa infancia, não tinhamos ainda assás reflectido sobre estes pontos, e em quasi todas estas faltas incorrêmos; hoje porêm cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, si não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste Livro que nos Diccionarios Portuguezes se não encontram; mas as linguas vivas se enriquecem com o progresso da civilisação, e das sciencias, e uma nova idéa péde um novo termo.

Eis as necessarias explicações para aquelles que lêm de boa fé, e se aprazem de colher uma perola no meio das ondas; para aquelles, porêm, que com olhos de prisma tudo decompoem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o nectar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?… Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escarneo.

Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; si elle merecer o publico acolhimento, cobraremos animo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aquelles que fazer poderemos com o tempo.

É um novo tributo que pagamos á Patria, emquanto lhe não offerecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a attenção descança, fatigada pela seriedade da sciencia.

Tu vais, oh Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Patria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, excepto o egoismo: tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do hinverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Patria, de enthusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deos, e no futuro.

Adeos!

Pariz, julho de 1836.


I.
 
INVOCAÇÃO
 
AO ANJO DA POESIA.
 

 
A VOZ DE MINHA ALMA.
 
Quando da noite o véo caliginoso  Do mundo me separa,E da terra os limites encobrindo,Vagar deixa minha alma no infinito,Como um subtil vapor no aéreo espaço;Uma angelica voz mysteriosa  Em torno de mim sôa,Como o som de uma flauta harmoniosa,Que em sagradas abóbadas rebôa.
Donde vem esta voz? — Não é de virgem,Que ao prazo dado o bem amado aguarda,E mavioso canto aos céos envia:Esta voz tem mais grata melodia!
Donde vem esta voz? — Não é dos Anjos,   Que leves no ar adejam,E com hymnos alegres se festejam,   Quando uma alma innocenteDeixa do barro a habitação escura,   E na siderea altura,   Como um astro fulgentePenetra de Adonai o aposento;A voz que escuto tem mais triste accento.
Como d’ara thurícrema se exalçaNuvem de grato aroma que a circunda,   E lenta vai subindo   Em faxas ondeantes,   Nos ares espargindo   Particulas fragrantes,E sóbe, e sóbe, até no céo perder-se,Tal de mim esta voz parece erguer-se.
Sim, esta voz do peito meu se exhala!Esta voz é minha alma que se espraia,É minha alma que geme, e que murmura,Como um orgam no templo solitario;Minha alma, que o infinito só procura,E em suspiros de amor a seu Deos se ala.
   Como surdo até hoje Fui eu á tão angélica harmonia?Porventura minha alma muda esteve?Ou foram porventura meus ouvidos   Até hoje rebeldes?Perdoa-me, oh meu Deos, eu não sabía!Eram Anjos do céo que lhe inspiravam,E outras vozes meus labios modulavam.
   Castas Virgens da Grecia,Que os sacros bosques habitais do Pindo!   Oh Numes tão fagueiros,   Que o berço me embalastes   Com risos lisonjeiros,Assás a infancia minha fascinastes.   Guardai os louros vossos, Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.   Adeos, ficções de Homero!   Deixai, deixai minha almaEm seus novos delirios engolfar-se,Sonhar co’as terras do seu pátrio Río.Só de suspiros coroar-me quero,De saudades, de ramos de cypreste;Só quero suspirar, gemer só quero,E um cantico formar co’os meus suspiros;Assim pela aura matinal vibradoO Anemocordio, ao ramo pendurado,   Em cada corda geme,E a selva peja de harmonia estreme.
    Já nova Musa    Meu canto inspira;    Não mais empunho    Profana lyra.
    Minha alma, imita    A Natureza;    Quem vencer póde    Sua belleza?
    De dia, e noite    Louva o Senhor;    Canta os prodigios    Do Criador.
    Tu não escutas    Essa harmonia,    Que ao throno excelso    A terra envia?
    Tu não reparas    Como o mar geme,    Como entre as folhas    O vento freme?
    Como a ave chóra,    A ovelha muge,    O trovão brama,    O leão ruge?
    Cada qual canta    Ao seu theor;    Mas louvam todos    O seu auctor.
    Da grande orchestra    Augmente o brilho    O canto humano,    Da razão filho.
    Minha alma, aprende,    Louva a teu Deos;    Os teus suspiros    Envia aos céos.
Oh como é bello o céo azul sem nódoa!Que puro amor nos corações ateia;Como a pupilla de engraçada virgem,Que serena nos olha, e nos enleia.
Mas que imagem sublime a mim se antolha,Com largas azas brancas como o cysne,E roçagante toga, que se ondeiaComo flocos de neve alabastrina!Uma harpa de ouro em suas mãos sustenta!Oh que voz suavissima e divina!Oh que voz, que as paixões n’alma adormenta!
   Vem, oh Genio do céo filho!   Vem, oh Anjo d’harmonia!   Cuja voz é mais suave,   Mais fragrante que a ambrosia!
   Teu rosto vence em belleza   Ao sol no zenith luzente;   Teu largo manto é mais puro   Do que a lua alvinitente.
   As azas, que te suspendem,   São mais ligeiras que o vento;   São mais terríveis que os raios,   Que gyram no firmamento.
   Tua fronte não se adorna   Com flores que o prado gera;   Sobre teus cabellos de ouro   Brilha de fogo uma esphera.
   Teus pés a terra não tocam,   A teus pés a terra é dura;   Sobre aromas te equilibras   Recendentes de frescura.
   O sol, a lua, as estrellas   São fanaes que te illuminam,   São corpos a quem dás vida,   E ante teus passos se inclinam.
   Os acordos de tua harpa   Todos os astros echôam;   Reanima-se o Universo,   Quando as suas cordas sôam.
   Vem, oh Anjo, ungir meus labios;   Traze-me uma harpa dos céos;   Ao som d’ella subir quero   Meus suspiros até Deos!
Quando no Oriente roxear a Aurora,Como um purpureo, auribordado manto,Que ao Rei da luz o pavilhão decora,E as saltitantes aves pelos ramosDa madrugada o hymno gorgearem,Tua voz, oh minha alma, une a seu canto,E as graças do Senhor cantando exora.
Quando a noite envolver a NaturezaEm tenebroso crepe; e sobre a terraAs azas desdobrar morno silencio;Nessas placidas horas de repouso,Em que tudo descança, excepto o Oceano,Que arqueja, e espuma em solitaria praia,Vizinhos ermos com seus ais pejando,Como um preso que geme, e que debaldeDa prisão contra os muros se arremessa;Tu tambem, como a lua, vigilanteNessas propicias horas, oh minha alma,Tua voz gemebunda exhala, e uneÁ voz do Oceano, á voz d’ave nocturna.
   Enquanto estás sobre a terra,   Como no exilio o proscripto,   Canta como elle, que o canto   Refrigera o peito afflicto.
   Canta, que os Anjos se alegram,   E os Anjos á terra descem,   A escutar esses hymnos,   Que para Deos almas tecem.
   Canta a todos os momentos,   Canta co’ a noite, e co’ o dia;   E o teu derradeiro expiro   Seja ainda uma harmonia.
 
 
II.
 
O VATE.
 
Porque cantas, oh Vate? porque cantas?Qual é tua missão? O que és tu mesmo?Para ti nada é morto, nada é mudo!Co’ o sol, e o céo, e a terra, e a noite fallas.Tudo te escuta; e para responder-te,Do passado o cadaver se remove,E do tumulo seu a fronte eleva;O presente te atende; e no futuroEternos vão soar os teus accentos!
Quando o vento em furor açouta as comasDos brasilicos bosques, voz tremendaIgual a do trovão ao longe atrôa;E uma nuvem de flores se levanta,Que o ar com seus effluvios embalsama;Assim, quando te agita o enthusiasmo,Das labios teus emana alma torrente,Troante e recendente de perfumes.
De magico poder depositario,Qual um Genio entre os homens te apresentas.Ante ti não ha rei, nem ha vassallo.Tu nos homens só vês virtude, ou vicio.Como um despota, ufano em teus delirios,Uns cercas de immortal auréola tua,Outros condemnas ao opprobrio, e á morte.
Umas vezes suberbo, impetuoso,Qual aguia que sublime o céo devassa,E do céo sobre a terra os olhos desce,Teu igneo, alado genio, no ar suspenso:Não, oh mortaes, não vos pertenço, (exclama) Eu sou orgam de um Deos; um Deos me inspira;Seu interprete sou; oh terra! ouvi-me.
Outras vezes, nas selvas meditando,Sobre um tronco assentado, juncto a um río,Que embalança da lua a argentea cópia;Como entre as folhas susurrante ventoGemer parece, e de algum mal carpir-se,Tu gemes, e co’ o verme te comparas,Que arrasta pelo chão a inutil vida;E vês nas aguas, que a teus pés deslizam,A imagem de teus dias fugitivos.
Fogem os dias como as aguas fogem;Mas da lua o clarão, que a agua reflecte,Sem do logar fugir, brilhando fica;Tal sobre a terra, onde escoára a vida,Resta do Vate a rutilante gloria!
Quando ouve o sabiá troar nas varzeasDo fero caçador a mortal arma,Suffoca o sabiá seu canto, e foge:Assim tu emmudeces, quando estruge Da civil guerra, e da discordia o grito.Mas quando á Patria o inimigo insulta,Armando o braço, e reforçando o peito,No meio dos combates te arremessas,Como o raio que estronda, aclara, e fere,E após teus cantos a victoria marcha.
Vate, o que és tu? Es tu mortal ou nume?Que Deos te abala o peito, e te enfurece,Quando, como um vulcão que estoura em lavasQue accesas rolam, tua voz desatas?
Oh, como é grande o Vate, que arrojadoDa terra se ergue como a labareda,E vagando no céo como um metéoro,Dos labios sólta a voz, e a vibra em raios,Que o vicio e o crime ferem, pulverizam!
Canta, oh Vate! sagrados são teus cantos!Canta, que o céo te inspira, o céo te inflammaCanta, que apesar seu, te escuta o mundo,E o vicio de te ouvir treme de medo.
Não, não és um mortal quando tu cantas;És o Archanjo da justiça eterna!Lamina accesa, fulminante empunhas,Com que prostras por terra a fronte ao crime,Com outra mão elevas o homem justo.
Ou tu cantes a guerra, ou amor cantes,Ou louves do Senhor as maravilhas;Ou do céo as angelicas bellezas,Ou do inferno os horrores nos retrates;Ou sobre o esquife de um amigo chores,Ou enfeites a campa da innocencia;Sempre teus versos, qual nectareo rócio,De ineffavel prazer a alma me embeblem!
Ah, não profanes o teu genio, oh Vate!O incenso só no altar queimar-se deve!Em lago impuro não se banha o cysne,Que manchar teme a candida plumagem.Imita o cysne; e como sempre as flammamSobem ao céo, ao céo teus hymnos subam.
As riquezas que a terra ó avaro off’rece,Mais valor para ti que o céo não tenham; As riquezas da terra ao Vate servemPara imagem da mystica linguagem,Como ao bello ideal dão vida as cores.
No dia em que da lyra sons forçadosVenderes ao tyranno em trôco de ouro,Nesse dia o céo deixa de inspirar-te;Quebra essa lyra, e cessa de ser Vate.
Quando a virgem do sol seu voto infringe,Vedado lhe é tocar no sacro fogo;D’alva c’rôa de flores a despojam,Adornos de vestal, e o nome perde;Assim quando uma vez, oh Vate, atende,Venaes hymnos os labios teus verterem,Deixarás de ser Vate; arranca a c’rôa,E co’ o sello do opprobrio entra no mundo.
Opprobrio ao Vate que profana a lyra!Opprobrio, infamia a quem insulta o Vate.
 
 
III.
 
A POESIA.
 
Um Deos existe, a Natureza o attesta:A voz do tempo sua gloria entôa,De seus prodigios se accumula o espaço;E esse Deos, que criou milhões de mundos,   Mal queira, n’um minuto,Póde ainda criar mil mundos novos.
Os que nos leves ares esvoaçam,Os que do vasto mar no fundo habitam, Os que se arrastam sobre a dura terra,E o homem que para o céo olhos eleva,Todos humildes seu Auctor adoram.
Todos te adoram, sim, meu Deos, mas como?Este no sol te vê, na lua aquelle,Qual um touro te crê, qual um tyranno;E entre sí disputando a preferencia,Todos ufanos conhecer-te julgam.
No céo rutíla o sol, e sobre a terraCaiem seus raios como chuva de ouro;Mas cada flor, um raio recebendo,De um esmalte diverso se colóra.
Oh tu, qu’eu amo como casta virgem!Sim, tu és como Deos, diva Poesia!Sim, tu és como o sol!.. Por toda parteCultos te rendem de uma zona á outra;   Cada mortal te off’receUm culto igual á força de sua alma;Qual te julga uma virgem do Permessо,   Só de ficções amiga;    Qual da verdade o Anjo,Que tudo vê com olhos luminosos.Tua voz similhante a uma torrenteTudo abala, e comsigo arrasta tudo.
Oh Poesia, oh vida da Natura!   Oh suave perfume   D’alma humana exhalado!Oh vital harmonia do Universo!Tu não és um phantasma da belleza,Fallaz sonho de mente delirante,   E da mentira a deosa;Tu não habitas só da Grecia os montes,Nem só de Phebo a luz te inspira o canto!
De alvo manto coberta, roçagante,La no meio da noite, quando a luaSó para os mortos alvejar parece,Como a lanterna funebre do claustro,Tu, encostada á Cruz do cemiterio,   Como o Anjo da morte,Ao som de uma harpa suspirando exhalasDe quando em quando teus sagrados psalmos. Quando tu pausas, gemebundo o ventoVai tambem entre os lugubres cyprestesTeus ultimos accentos murmurando.
Nas cavas sepulcraes som luctuoso   De tua voz rebôa.Dirías que animados por teu canto,Os myrrados cadaveres se elevam   Do fundo dos jazigos,   E sobre as lousas curvos,Cantam n’um côro o mystico estribilho.
Sobre o bronco alcantil de alpestre fraga,Pelos tufões batida, e pelas ondas,   Que incessantes se entonam,   Tu, sentenda, qual virgem   Do naufragio escapada,O mar contemplas, do infinito imagem;E depois para Deos erguendo os olhos,Teus olhos como dous fanaes accesos,Que dos céos co’as estrellas rivalisam,E ao viajante ao longe o escolho indicam;Ao compasso das vagas gemebundas, Tua angelica voz, como um effluvio,Do mais intimo d’alma a Deos exalças.
Sobre montes de ruínas dos Imperios,Entre reliquias de abatido templo,Ao qual somente o céo de tecto serve,E de lampada a lua, tu vagueas,E te aprazes co’os serios pensamentos,   Que os destroços inspiram.
No campo da batalha, o chão juncadoDe ossos que alvejam, de quebradas armas,Que sublimes lições aos homens dictas!
   Tu és tudo, oh Poesia!   Tu stás na paz, e na guerra,   Nos céos, nos astros, na terra,   No mar, na noite, no dia!
     Oh magico Nume,     Que minha alma adora,     Do céo sacro lume,     Que abrasa, e vigora     O meu coração!
     Tu és o perfume,     E o esmalte das flores,     Dos soes os fulgores,     Dos céos a harmonia,     Do raio o clarão!
     Tu és a alegria     De uma alma piedosa,     E a voz luctuosa,     A voz d’agonia,     Que escapa do peito,     De quem vai do leito     Á terra baixar.     Tu és dos desertos     O som lamentoso,     E o echo choroso     Das vagas do mar.
     Tu és a innocencia,     E o riso da infancia,     Do velho a prudencia,     Do moço o vigor,     Do heróe a clemencia,      Do amor a constancia,     Da bella o pudor.
Tu, que cantaste o hymno da innocencia.Quando immovel ainda repousavaNo berço do Oriente a Humanidade;Tu, que cantando sempre a acompanhasteNos seus dias de dôr, ou de triumpho;Acaso morrerás tambem com ella?Ou sem ti, como um astro em seu eclipse,Se arrastará sem vida a Humanidade,Até toda no tumulo sumir-se?
   Quando o sol, que é tua imagem,   No seu zenith apagar-se,   E tudo outra vez do nada   No escuro golfo abysmar-se:
   Tu, que és a imagem do Eterno,   Terás fim nesse momento?   Ou terás nova existencia   Do Senhor no pensamento?
   Sim; quando tudo extinguir-se,   Guardará Deos na lembrança   De tudo o que agora existe   Uma viva similhança.
   Essa image’ a Deos presente   Serás tu, oh Poesia!   Tu és do Eterno um suspiro,   Que enche o espaço de harmonia.

Veneza, maio de 1835.

 
 
IV.
 
DEOS, E O HOMEM.
 

Nos Alpes, 14 de outubro 1834.

Quando se arrouba o pensamento humano,E todo no infinito se concentra,De milhões de prodigios povoadо;Quando sobre o fastigio de alto monte,Como um colibre sobre altivo robre,Na vastidão sidérea a vista espraia;E vê o sol, que no Oriente assoma,Como n’um lago em propria luz nadando,E a noite, que se abysma no occidente,Arrastando seu manto tenebroso, De pallidas estrellas semeado;Quando dos gelos, que alcantis corôam,Vê a enchente rolar em cataractas,Por cem partes abrindo largo leito,Fragas, e pinheiraes desmoronando;Quando vê as cidades enterradasA seus pés na planice, e negros pontosAqui, e alli, moverem-se sem ordem,Como abelhas em torno da colmeia;O homem então se abate; um suor frio,Qual o suor que o moribundo côa,Rega-lhe o corpo extatico; sua alma,Como um subtil vapor, que o lirio exhala,Ferido pelo raio matutino,Da terra se levanta; e o corpo algenteQual um combro de pó morto parece…Ella está no infinito! — Então lhe trôaUma voz, como o echo das cavernas,Quando os ventos nos ares se debatem;Como um ronco do Oceano repellidoPor estavel penedo; como um gritoDas entranhas da terra, quando accesasDe sua profundez lavas borbotam; Como o rouco bramido das tormentas;É a voz do Universo! — voz terrivel,Porêm harmoniosa, que proclamaA existencia de um Ser, que de sí mesmo,De sua omnisciencia, e eterna força,Tudo tirou, quanto o Universo encerra.
Os céos, os mundos, o Oceano, a terraÉ um vasto hieroglyphico, é a fórmaSymbolica do Ser aos olhos do homem.O movimento harmonico dos orbesÉ o hymno eterno e mystico, que narraAltamente de um Deos a omnipotencia.Tudo revela Deos, — e Deos é tudo.
De tal grandeza sotoposto ao peso,Como si o esmagasse ingente mole,O homem se aniquila, e desparece,Qual no profundo pégo um grão de areia.
É aqui, oh meu Deos, calcando nuvens,Parecendo tocar o céo co’ a fronte,Que eu reconheço a immensidade tua. Existe este Universo, existe o homem,Porque de todo o Ser tu és a origem.
Aqui, para louvar teu sancto Nome,É fraco o peito humano, é fraca a lingua,É fraca a voz, que titubante hesitaTão alto remontar, e no ar perder-se,Antes que de astro em astro repetida,De um céo a outro céo, de um Anjo a outro,Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,Como discorde som de rota lyra.
Alva nuvem, que toucas este monte,Desce um pouco, e recebe-me em teu dorço;Asinha ala-me ao céo; na etherea plaga,Vendo o sol de mais perto, talvez possa,Com sua luz benefica animado,Altísono entoar um hymno excelso,Digno de Jehová, que eterno escutaDos angelicos córos a harmonia.Abre-te, oh céo azul, que a mortaes olhosA mansão do Senhor zeloso occultas!Abre-te, oh céo azul; deixa minha alma Saciar-se co’ a luz da Sião sancta.Sóbe, meu pensamento, vôa, rompeOs turbilhões dos Cherubins, e Thronos,Mais bellos que mil soes, mais coruscantes,Que em vortice perenne estão ladeandoDo Eterno Padre o luminoso solio.
Oh arrojado pensamento humano,Por mais que em teu soccorro os astros chames,Por mais que sua luz o sol te empreste,Seu ouro a terra, o céo a immensidade,Os ríos a corrente, os campos flores,Suas azas a raio, os sons a lyra,E a noite seu mysterio, alfim si tudoInvocado por ti, a ti se unisse,Não poderás ainda em teus transportesOs louvores tecer do Omnipotente!
Mas, oh Deos, que missão tens confiadoA este fraco ser, que sobre a terraEntre os mais seres como um rei se ostenta,E unico para ti erguendo os olhos,Parece teu rival?… Missão augusta É sem dúvida a sua; e o seu destinoNão é o d’alimaria!… A NaturezaObedece a seu mando, como si elleEntre Deos e a terra collocado,Orgam fosse das leis da Providencia.
Quem a elle se oppõe? — Embalde o OceanoCom cem braços separa os continentes.O homem desthrona os robres, e os pinheirosDas fragas da montanha, ousado os lançaSobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,E assoberbando as vagas furibundas,Que ante seu genio quebram-se gemendo,Domina, e calca o tumido elemento,E atravessa de um pólo a outro pólo,Como atravessa os ares veloz aguia.Aqui bramando, um río se devolve,Qual serpente feroz medo incutindo;Co’ uma arcada de pedra o homem cobre-o;Elle a derruba? — Nova arcada o doma.
Como gigantes firmes, alinhados,Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem Enormes Alpes, açoutando as nuvensCo’ a corôa de gelo, e co’ os pennachosDe branca carambina, e verdes selvas;Não retrograda o homem, não desmaia!Quando sobre a cimeira o sol se encosta,E a vista estende á profundez do valle,O sol já no arduo afan vencendo o enxerga.Quando transmonta o sol, o homem dá tregoas,E descança na já vencida estrada!De dia em dia assim prosegue ovante;Ora esbrôa um cabeço mais supino,E co’ as ruinas desse outro nivela;Ora sóbe, ora desce, ora torneia,Ora penetra a rigidez do monte,Como a setta do Indio os ares rompe,E a noite das abóbadas varando,D’ outro lado vai ver o céo, e o dia!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Tu convertes os bosques em cidades;Marcas do sol o gyro, e o dos cometas;Do povo alado as regiões exploras;Nem no mar a baleia está segura, Nem nas espessas selvas o elephante!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Toda a terra está cheia com teu nome;Um seculo transmitte a outro seculoDos teus feitos a historia portentosa;Tu só marchas, tu só te desenvolves,E inda não recuaste de fadiga!Com que signal sellou a tua fronteA mão do Criador? — Donde descendes?Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Não, não és para mim mais um enigma!Conheço a origem tua, e o teu destino,Tua missão conheço sobre a terra.A Natureza toda te respeitaPorque és do Criador a obra prima,Porque transluz em ti o seu transumpto.
Não é á força tua que se curvaA terra, que si á força se curvasse,Seria o elephante o rei da terra.É á tua sublime intelligencia, E a Deos, só a Deos, que tu reflectes,Como do sol a luz reflecte a lua.
Nas barreiras da morte tudo esbarra;Menos o homem, que atravessa airoso,Ahi o mortal corpo abandonando,Para no seio entrar da Eternidade;Assim o viajor o pó sacode,E deixa o companheiro da viagem,Manto todo coberto de poeira,Quando á cidade desejada chega.A alma não morre, porque Deos não morre.
Assás, oh Deos, o homem sobre a terraRevela teu poder, tua grandeza.A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,Com que prendaste o homem, não, não pódeDominar a Razão, que te proclama!Si muda para mim fosse a Natura,Na Razão que me aclara, e não é minha,Senhor, tua existencia eu descobriria.
Eu te venero, oh Deos da Humanidade!Meu amor o que tem para offertar-te? Digno de ti só tem minha alma um hymno,E esse hymno, oh meu Senhor, é o teu Nome!
Que póde o homem dar a quem dá tudo?Só em meu coração suspiros tenho,Suspiros para todos os momentos.De ti, Senhor, minha alma necessita,Como de luz meus olhos, de ar meu peito.E si me é dado a ti subir meus votos,Si é dado pela mãe pedir um filho,Vôem meus votos sobre as igneas azasDo sol, e tu, Senhor, propicio atende;Nada por mim, por minha Patria tudo;Fados brilhantes ao Brasil concede.
 
 
V.
 
A PHANTASIA.
 
Para dourar a existenciaDeos nos dêo a phantasia;Quadro vivo, que nos falla,D’ alma profunda harmonia.
Como um suave perfume,Que com tudo se mistura;Como o sol que flores cria,E enche de vida a natura.
Como a lampada do temploNas trevas sozinha véla,Mas si volta a luz do diaNão se apaga, e sempre é bella.
Dos pais, do amigo na ausencia,Ella conserva a lembrança;Aviva passados gozos,E em nós desperta a esperança.
Por ella sonho acordado,Subo ao céo, mil mundos géro;Por ella ás vezes dormindoMais feliz me considero.
Por ella, meu caro Lima,Vivirás sempre commigo;Por ella sempre a teu ladoEstará o teu amigo.
 
 
V.
 
O CHRISTIANISMO.
 

 
NA CATHEDRAL DE MILÃO.
 
Mal que á Natura se abre a intelligencia,E o primo pensamento a alma desperta,Logo a idéa de Deos d’ella se apossa,E a origem sua, e o seu destino aclara.
Subito um fogo, mais que o sol brilhanteQue as gerações dos tropicos abrasa,Mais vehemente que os vulcões da terra,N’ alma se ateia, fogo inexhaurivel, Casto fogo de amor, que interno a lavra,E a Deos a sóbe em espontaneo culto.
Não, o medo não foi quem sobre a terraOs joelhos dobrou do homem primeiro,E as mãos aos céos erguêo-lhe! Não, o medoNão foi o criador da Divindade!Foi o espanto, o amor, a consciencia,E a sublime effusão d’ alma, e sentidos!Vio o homem seu Deos por toda parte,E sua alma exaltou-se de alegria.
Mas no amoroso extasis não pára,A interna adoração só lhe não basta,Não se farta de amor, que amor sagradoÉ invencivel, poderosa força,Que o espirito levanta ao infinito,Como a attracção os orbes equilibraNa immensidade, á que escapar não podem.Deve o espaço conter a sacra imagemDe sua adoração, devem os filhos,Os netos devem nas futuras éras,Vendo essa imagem, adorar o Eterno.
Mas, oh homem, que ousado intento é esse?Erguer um templo a Deos!… Que! porventuraTemplo o espaço não é digno do Eterno?As montanhas, o mar, os céos, os astrosAssás não ornam do Senhor o templo?Ou temes que em tão vasto sanctuario,Nesse profundo abysmo do infinito,Vel-o teus olhos míopes não possam?Como possivel é que espaço estreitoAbranja o Criador, que enche o Universo?Mas pagas um tributo; — Elle to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha,Sem descanço trabalha dia, e noite;Que teu Deos não repousa um só instante,Para a ordem manter de tantos mundos.Ah, si elle um só minuto repousasse,Que seria de ti, deste Universo?
Alfim teu templo ergueste; reunisteTudo o que ha de mais bello sobre a terra,E sec’los no trabalho se passaram!Tudo aqui falla, tudo aqui revela A força occulta que sustenta o homem,E o destino immortal na Eternidade.
A rigidez do marmor, e a brancura,Duração, e pureza symbolisam;A larga base, a altura, a esbelta fórma,A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,E parece querer fugir do espaço;A aurea Virgem, que brilha em seu fastigio,E este povo de estatuas, que a rodeiam,Todas de branco marmore polido,Que a gloria do Senhor perenne cantam;Tudo, emfim tudo sem cessar proclama,Que o pensamento que tão alto vôa,Que o pensamento que taes obras cria,Que o pensamento que só Deos concebe,Tem no tempo a existencia, e não se curvaÁ lei que rege o habitador do espaço.Tão simples como Deos, donde elle emana,Não se aniquila como bruta mole;Mas em louvor sem fim, a Deos unido,Vive eternal em toda a Eternidade.
Assim é que o espirito celeste,Que a massa humana anima, e n’ella impera,De seu Deos concebendo a idéa pura,Da terra se desprende, se sublima,E do sagrado amor nas igneas azasSóbe ao seio do Eterno, que o gerára.
Assim é que das lampadas do temploPyramides de fogo se levantam,E se perdem nos ares, qual se perdeO pensamento humano no infinito.
Sancta Religião, sublime, augusta,Tu a idéa de Deos esclareceste,Idéa que, nas trevas que involviamA alma humana, brilhou como um relampo.Divina inspiração, tu só podiasO espirito subir ao seu Principio,A despeito do mundo, e dos sentidosNem sempre verdadeiros. Tu revelasSacras verdades aos humanos uteis,Que fóra de teu gremio embalde o homemOrgulhoso procura; ao desgraçado Occulta mão estendes caridosa:Sempre consoladora, affavel sempre,Que mal ha-hi, que em ti cura não ache?
Ao som de tua voz mysteriosaOs errantes selvagens suspenderamAs mãos de sangue tintas, e prostradosSobre a terra, até-li inculta e brava,A insólita voz tua repetiramEm espontaneo arroubo. — A NaturezaRio-se então, quando vio pela vez primaUm homem abraçar o outro homem,E em soccorro commum viver jurarem.
Quiz o homem tecer os teus louvores,E a primeira palavra foi um hymno,O primeiro discurso poesia.E o homem, que até-li solto vagava,Fraco, impotente entre animaes ferozes,Pelo mystico cantico attrahido,A bronca penedía abandonando,A viver começou em sociedade.
O genio então nascêo! — Qual para o mundoEntre os astros o sol mais claro brilha,E aos outros astros sua luz envia,Deos o genio accendêo entre mil almas,Para ser o fanal da Humanidade.
Sancta Religião, amor divino,Que beneficios sobre a terra espalhas!Quanto é mysterioso o Ser que inflammas!De quanto elle é capaz!… Vejo donzellas,Roboradas por ti, vencer a morte!Vejo feros tyrannos desthronados,Vejo Nações erguidas, e cidades,Seus louros a teus pés heróes depôrem,As Sciencias, e as Artes florecentes,Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,E a Humanidade inteira que te abraça,E te proclama como Mãe de tudo.
Oh das Religiões a mais perfeita,Oh unica de Deos, e do homem digna!Religião plantada no Calvario,E co’ o sangue de Christo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!Tu, que civilisaste a Europa toda,E primeira na America lançasteO germen da grandeza, á que ella aspira;Tu, que marcas de Deos a majestade,Os direitos do homem sobre a terra,E o seu porvir sublime alêm da morte;Tu, que aclaras os povos, e co’ os povosDe progresso em progresso ovante marchas,Como a mãe que acompanha o caro filho,Sem que a tua divina essencia percas;Teus ineffaveis dons benigna espalhaSobre os filhos dos homens, sempre… sempre.
Religião, inflamma, e purificaMeus pensamentos, e conforto prestaAo infeliz peregrino que te invoca,E que só em teu gremio paz encontra.

Milão, 17 de oitubro 1834.

 
 
VII.
 
A INFANCIA.
 
Oh minha infancia! Oh estação de flores!De innocente illusão alva saudosa!   Inda hoje te apresentasAnte mim, como a imagem deleitosaDe um sonho que encantou-me a phantasia,Ou como a aurora de um formoso dia.
Oh da infancia attractivos lisonjeiros!   Mentirosos affectos!Com que prazer amigos passageiros,Innumeros, na infancia contrahimos! E quão faceis após os repellimos,De ligeiras palavras agastados.
    Oh, como é lindo    O tenro arbusto    Na primavera!    Como parece    Que se está rindo,    Quando o balança    Zephiro brando;    Quando descança    Sobre seus ramos    O passarinho,    E modulando    Doces reclamos,    Vai o ar vizinho    Harmonisando!
Como é bello esmaltado de flores,Exhalando balsamico aroma;D’elle em torno voltejam amores,E se escondem debaixo da coma.
    Mas eis que o adusto    Vento do norte,    Soprando forte,    Já o abala;    O tenro arbusto    Nesse tormento    Todo se dobra;    A verde gala    Amarellece;    E o duro vento,    Que em furia cresce,    Vai arrancando    Folha por folha,    E sobre a terra    Seccas lançando,    Té que despido    O deixa emfim.    O tempo assim    Nos vai roubando    Gratos prazeres    Da tenra idade,    Quantos amigos    A infancia tem;     Até que vem    A puberdade    Com seus perigos;    E desta sorte    Chega a velhice,    Tronco gelado,    Desamparado;    Até que a morte,    Como um tufão,    Lança-o no chão!
Oh, quão perto a velhice está da infancia!E quão perto da infancia a morte adeja!

Genebra, oitubro 1834.

 
 
VIII.
 
PRECES DA INFANCIA.
 
Vós me vedes, Deos Eterno,Como eu sou tão pequenina;Minha alma é inda innocente,Tão pura como a bonina.
Debeis como minhas vozesSão inda meus pensamentos;Do mundo nada conheço,Nem prazeres, nem tormentos.
Qual tenro botão de rosaQue á sombra da rosa cresce,Sem temer o vento, e a chuva,De um frouxo raio se aquece;
Mas pouco a pouco crescendo,Desabrocha, e cheiro exhala,Orna o prado que a sustenta,E da roseira é a gala.
Assim eu filhinha tenra,A meus pais devo esta vida;A seu lado elles me educam,Por elles serei querida.
Hoje innocente me chamam!Oh, como é bella a innocencia!É a virtude dos Anjos,É das virgens a sciencia.
Vós, oh Deos, que podeis tudo,Concedei-me por piedadeQue este aroma da innocenciaMe acompanhe em toda idade.
Oh meu Deos, dai á minha almaPuro e sancto pensamento,Como o perfume do templo,Que sóbe ao vosso aposento.
Dai a meus pais longa vida,E áquelles que á minha infanciaPrestam soccorros continuosCom tanto amor e constancia.
Que felizes, que ditososPor vós, oh Deos, protegidos,Passem seus dias, seus annosComo astros, sem ser sentidos.
Vigorai minha fraquezaCo’ a vossa sabedoria.Oh Deos, ouvi minhas preces,Escutai-me neste dia.
 
 
IX.
 
A MOCIDADE.
 
Gigante do porvir, oh Mocidade!     Erguei a fronte altivaEntre as brancas cabeças da velhice;Como ao sopro vital da primaveraO pimpolho gentil se desabrochaEntre os já seccos e curvados troncos.
Subi em sacro arroubo a mente vossa,     Como uma labareda;     Contemplai o passado;Em silencio o futuro vos aguarda,E o presente se curva ao vosso mando.
Deos em vós ateou do genio o fogo,     Que a Humanidade guia,Como a estrella polar o navegante,Ou como a chammejante, ignea columna,Que o povo de Moysés guiou nos bosques;Sagrado fogo que jamais se extingue.
Em vosso coração palpita a vida;O brío, e a força os membros vos circulam;Flammeas azas vos dá o enthusiasmo;     É vulcanea vossa alma,     E d’ aguia os olhos tendes,Com que medis o espaço, o céo, e o globo.
A terra vos pertence, oh Mocidade!Por vós renasce o mundo a todo o instante;Por vós resplende juventude a terra;Não envelhece o céo, nem as estrellas,Nem se encanece o sol no longo gyro.Em vós só se resume a Humanidade,Que a passos graves, ao través dos evos,Ovante marcha sempre fresca e joven.
Para vós o passado é muda estatua,     Que o grande livro aponta,Onde a verdade, e o erro se confundem,Bem como o ouro, e o esmeril no antro da terra.Os seculos sellaram esse livro,Quando n’elle seus fastos transcreveram.     Eis a pagina branca,     Que aguarda os feitos vossos;Meditai, meditai, antes de enchel-a!
Quando já fatigados do caminho,Sobre a pedra da tumba repousardes,Avante marcharão os filhos vossos;E esse livro tomando-vos, um diaIrão saber o que seus pais fizeram.
Qual é vossa missão? Qual vossa idéa?Oh Mocidade, um só caminho existe,     Um só trilhar vos cumpre,Si vos apraz o bem, si o bem vos chama.É longa a estrada, asperrima e difficil!Mas um Astro em seu fim claro rutila,Permanente pharol que a côr não muda; Olhai, — vêde-o ao través do nevoeiro,     Que ante vós remuínha,Como elle immovel sua luz esparge!Esse Astro é Deos! — Oh Mocidade, a Elle!Ah, não retrogradeis, — a Elle, a Elle.
Vêdes vós como se ergue encapelladoAnte a convulsa prôa o mar em montes?Vêdes a nuvem que no céo negreja?O sol que empallidece? — Ouvis os roncosDe horridos ventos que nos ares trôam?O raio crepitante que espedaçaVélas, e mastro? a náo, que soluçando,Qual nas vascas da morte o moribundo,Nos vaivens sóbe, desce, e se debate,Perde o rumo, sem tino á esmo vaga,Roça no escolho a quilha, alli recûa,Ao capricho dos ventos, e das vagas,Té que sanctelmo lhe illumine o tope,     E do naufragio a salve?Tal é da Humanidade o fido emblema!Tal sua marcha foi; tal é ainda,Por mil contrarios ventos combatida! Porêm máo-grado a furia, e a tempestade,A Humanidade marcha; — e Deos a guia.
     Forceja a humana industriaPara domar o mar, pôr freio aos ares;Talvez um dia os ares assoberbe,     Até-qui indomaveis;     E ás suas leis submissos,Tambem os ares, desdobrando as azas,No espaço o Genio vencedor transportem.
E porque não será melhor um diaDo que até hoje foi a Humanidade?Si Deos mil vezes a salvou da morte,Somente agora a deixará sozinha,Antes de realisar a augusta idéa,Que é sua vida, e pela qual só lucta?
     Qual é a grande idéa,Que nem mesmo nos mais crueis revezesJamais abandonou a Humanidade?A perfeição, o bem! — Ah, não me illudo!Vossa idéa será vosso destino: Innata idéa só do Eterno herdastes,Deos em vós a gravou; verace é ella.
    Erguei os olhos vossos,E cravai-os no céo, oh Mocidade!     Vêde o astro da ecliptica,Que gyrando no centro do Universo,     A terra vivifica,A terra que vos nutre, opaca moleQue por elle de luz se adorna, e esmalta?Em torno ao sol em perennal cadenciaOutros astros satellites gravitam,Sem deslizar das orbitas traçadas     Pelo compasso eterno!     Eis o physico mundo,Emblema de outro, mais sublime ainda,Cujo Sol sempiterno enche o Universo.Vossa alma é um satellite desse Astro,E sem a sua luz ella não fulge;Similhante ao planeta que vos nutre,Que na ausencia do sol morto negreja.Mas desse Astro, que excede á mortal vista,    Sabeis acaso o Nome? Perguntai ás estrellas que alcatifam     Os degráos de seu solio;Perguntai ao trovão, ao raio, ás ondas,A terra perguntai, á aguia celeste,     E ao verme que rasteja:Jehová, Adonai, Deos, Harmonia,     Eis o Sol de vossa alma.
Por elle só viveis. Ah! si um instanteEm centrifugo vortice deixardes     O sulco de seu dedo,Desgarrada, e sem lei, como um metéoro,     Vos perdereis no espaço!
Gigante do porvir, oh Mocidade,Aprendei a entoar de Deos o Nome;Cantai, cantai da Juventude o hymno,Marchai, louvando do Senhor a gloria,Como nos bosques de Israel os filhos.Ante vós fugirão espavoridos     Tyrannos inimigos!O mar recuará as ondas suas,E os montes vos darão doces torrentes.
Olhai, ah, vêde a promettida terra!  Eil-a! Marchai ovante;Cantai, magnificai de Deos o Nome.
   Entôa, oh minha alma,   Um hymno ao Senhor,   Um hymno de gloria   Ao teu Criador.
   A luz que te aclara,   É d’Elle emanada,   E a tua linguagem   Por Elle inspirada.
   Embalde procuras   O bem sobre a terra;   O bem que desejas,   Só n’ Elle se encerra.
   No meio das ondas   O nauta mais forte   Pergunta ás estrellas   Qual é o seu norte.
   Si o vento enfurece,   Si o mar se exaspera,   Invoca seu Nome,   E salvar-se espera.
   Si tu sempre attenta   Seu mando escutares,   E por seus dictames   Fiel te guiares:
   Que haverá que possa   Roubar-te a victoria?   O bem terás certo,   Terás certa a gloria.
   Então, oh minha alma,   Um hymno ao Senhor,   Um hymno de gloria   Ao teu Criador.


E vós da Patria minha, oh Mocidade,De quem os feitos celebrar desejo… Mas porque um suspiro inopinado     O canto me interrompe?…Porque se apagam de meu genio as azas,Que expandidas nos ares flammejavam,E esmorecidas caiem, qual ferida     Pela setta do IndioSuberba arára, no celeste vôo,Em vortices gemendo baixa á terra?
Oh Mocidade, ouvi, não meus accentos,     Mas a voz da verdade,     Que em minha alma troveja,E me abala dos ossos a medulla.Vós sois como uma flor não bafejadaPelo sopro vital da primavera,Que mal nascida, languida se inclina.As lagrimas do misero captivoCahiram sobre vós, quando embalaram     Vosso berço seus braços;Sangue do captiveiro alimentou-vos;     O vicio d’elle herdastes,Senhores vos julgais, e sois escravos.Entre feras nutrido, é fera o homem;      Doctrinado entre servos,Afeito ao mando, a liberdade odeia,     E o peito se endurece.     E vós cuidais ser livres!…Por vós, por vós só fallo, oh Mocidade!Ah, não me detesteis; máo-grado vossoO mal herdastes; — mas o mal tem cura.
     Ah, quando bons costumes,Pura Moral, amor nobre e celeste     Vos tomarão no berço?Ah, quando, ah, quando a san Philosophia,Sobre vós seus fulgores espargindo,Desthronará a tumida indolencia,     Que o vosso clima infesta,E as portas á Sciencia, e ás Artes fecha?O egoismo, que só para sí olha,     Tudo em sí concentrando,E os laços quebra que os humanos ligam     Em fraternal amplexo,Quando, de vós fugindo, aos vossos olhosDeixará que paixões que alma ennobrecem,     Sublimes resplendeçam?
     Alerta, oh Mocidade!     A Patria por vós chama.     Mostrai que da verdade     Sancto amor vos inflamma.
     Alerta! erguei a fronte,     Medi vosso terreno;     E o valle, e o prado, e o monte     Se dobre ao vosso aceno.
     Não diga o estrangeiro,     Que vê tantas bellezas,     Que o povo Brasileiro     É pobre entre riquezas.
     Bani tanta vaidade;     Sciencia, Industria, e Artes     São só da Liberdade     Os firmes baluartes.
     Erguei-vos, e sem susto     Luctai com o erro futil;     Amai tudo o que é justo,     Sancto, sublime, e util.
     Alerta, oh Mocidade!     A Patria por vós chama.     Mostrai que da verdade     Sancto amor vos inflamma.
Paris, Dezembro de 1835.
 
 
X.
 
A VELHICE.
 
   Longa foi a viagem;Assás luctastes; descançai agora.
Depois de haver vingado alpestre monteDesde o albor da manhã, o peregrino   Afadigado desce,E envolto em trevas vai pousar no valle.
Por vós assás auroras madrugaram;Por vós luas assás alvas luziram;Assás de flores esmaltou-se a terra,E de fructos as arvores copadas.   Sim, sim, assás gozastes;Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.
Basta! — A hora soou; abre-se a campa,   E o sopro do seu antro,Como o vapor da canica cavernaNas margens do sombrio Aniâno lago1,Da vida vos apaga a tenue flamma.
   Para vós basta, oh Velhice!   Inda o sol tem resplendores,   Inda a noite tem estrellas,   Inda a lua alvos fulgores.
   Inda os prados reverdecem,   E de florzinhas se arreiam;   Inda, suspensos nos ramos,   Os passarinhos gorgeiam.
   Inda o zephiro sereno,   Cheio de aroma e doçura,   Fruindo o nectar das flores,   Na madrugada murmura.
   Inda a cascata ruidosa   Entre seixos se despenha;   Inda o som da sua quéda   Resôa ao longe na brenha.
   Inda os regatos deslizam,   As feras nos bosques rugem,   E lambendo a branca areia,   Nas praias as ondas mugem.
   Tudo vida inda respira;   A terra não stá mudada;   Vós só marchais, oh Velhice.   Triste, debil e curvada.
   Vossos olhos se fecharam   Ao quadro da Natureza;   Em torno de vós só gyram   A morte, o horror, e a tristeza.
   Tudo em seu morno silencio   Agora vos annuncia   Que a noite só vos pertence,   Que para vós vai-se o dia.
A noite eterna vos estende os braços,Ah! preparai-vos para o somno eterno.
   Basta! — É hora das preces.Funéreo som no templo os bronzes vibram,E o echo seu parece dizer — morte!
Sob o peso da fronte encanecida,Já se curva e vacilla o vosso porte,Qual co’ os flocos de neve a fragil hastea;Entoastes o cantico da vida,Entoai vosso cantico de morte   Como o candido cysne,Que indo descer á escuridão do lago,Cantando diz-lhe adeos na fatal hora,Para nunca mais ver raiar a aurora.
Basta! — É hora das preces, oh Velhice!   Para o mundo acabastes.Vossa alma resgatai do barro impuro;O céo, que alma vos dêo, péde vossa alma,E a terra vosso corpo está pedindo;Ah! dai á terra o que vos dêo a terra!
   Mas ah, não choreis!   E porque chorais?   Si vós não sabeis   Nem o que ganhais,   Nem o que perdeis.Perdeis a terra, é certo; mas que importa,Si celeste esperança vos conforta!
   Viver é sonhar,   Sonhar é dormir;   Deveis acordar,   Para ao céo subir,   E no céo velar.Acordai; socegai o afflicto peito,Que ides deixar o amargurado leito.
   O pranto enxugai,   Bani o temor;   O Nome entoai   Do Eterno Senhor;   E a Elle voai.Vossa bençam lançai á Mocidade,Que vai na lucta entrar da Humanidade.
Pariz, Janeiro de 1836.
 

A VELHICE.
Nota. Pag. 84.

Como o vapor da cánica caverna,
Nas margens do sombrio Aniâno lago.

Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.

 
XI.
 
A BELLEZA.
 
Oh Belleza! Oh potencia invencivel,Que na terra despotica imperas;    Si vibras teus olhos    Quaes duas espheras,Quem resiste a seu fogo terrivel?
Oh Belleza! Oh celeste harmonia,Doce aroma, que as almas fascina;    Si exhalas suave    Tua voz divina,Tudo, tudo a teus pés se extasia.
A velhice, do mundo cançada,A teu mando resiste somente;    Porêm que te importa    A voz impotente,Que se perde, sem ser escutada?
Diga embora que o teu juramentoNão merece a menor confiança;    Que a tua firmeza    Stá só na mudança,Que os teus votos são folhas ao vento.
Tudo sei; mas si tu te mostraresAnte mim como um astro radiante,    De tudo esquecido,    Nesse mesmo instante,Farei tudo o que tu me ordenares.
Si até hoje remisso não ardeEm teu fogo amoroso meu peito,    De estoica dureza    Não é isto effeito;Teu vassallo serei cedo ou tarde.
Infeliz tenho sido até-gora,Que a meus olhos te mostras severa;    Nem gózo a ventura,    Que góza uma fera;Entretanto ninguem mais te adora.
Eu te adoro como o Anjo celeste,Que da vida os tormentos acalma;    Oh vida da vida,    Oh alma desta alma,Um teu riso sequer me não déste!
Minha lyra que triste resôa,Minha lyra por ti desprezada,    Assim mesmo triste,    Assim malfadada,Teu poder, teus encantos pregôa.
Oh belleza, meus dias bafeja,Em teu fogo minha alma devora;    Verás de que modo    Meu peito te adora,E que incenso offertar-te deseja.
Pariz, Março de 1836.
 
XII.
 
O MYSTERIO.
 
O sol empallidece, o céo se enlucta,O raio despedaça o véo do Templo,   Soltos trovões rebramam;De espanto, e horror a Natureza geme,Chora Jerusalem, tremem seus muros,   E estupefacto o povoEntre o riso e o terror sem tino vaga.
Que sublime mysterio o Eterno Padre   Revolve em sua mente? Que grande sacrificio o céo consumma?Quem é Esse que expira no Calvario   Entre dous criminosos,Nos braços de uma Cruz, com rosto brando,Como si o fel da morte não provasse?
O monte que supporta o peso ingenteSuspira a cada gota desse sangue,Que o rega, e cai-lhe dos feridos membros   Da victima sublime.Quem é Esse, de quem o céo, e os astros   A morte estão carpindo?Não, não é um mortal! — Razão altiva,Em vão procuras occultar seu nome!É o Filho de Deos, que sobre a terraEspalhou a Moral pura e celeste,   Aos homens ensinandoA verdade, o amor, e o soffrimento.Só o Filho de Deos na Cruz podiaSoffrer por nosso amor esse tormento.
   Homens degeneradosSem pejo aos pés de deoses se prostravam    Tão infames como elles:Corria humano sangue sobre as arasEm sacrificio á vil hypocrisia   De oraculo fingido;E as impias mãos de um impostor sagrado,Nas palpitantes visceras pousando,Iam depois queimar o incenso impuroAnte o altar do crime endeosado.
Tudo do engano as trevas encobriam;   Só despotas raivosos   A seu grado reinavam;E nas publicas praças, e nos circosSó escravos em ocio pão pediam.
Como de vaga em vaga repellidos   Os restos do naufragio,Vão na areia encalhar, tal pareciaQue a Humanidade ao fim tocado havia.
No meio desse horror eis que apparece,Como um iris de paz, do Eterno o Filho.   O erro confundido, Procura em vão luctar. Embalde se erguemFogueiras aos Christãos. EspavoridoVê o sedento algoz imbelles virgensCom os olhos no céo vencer a morte;E das tremulas mãos por terra caiem   A sangrentas bipennes;Os falsos deoses dos altares sáiem:E sobre o Capitolio a Cruz se eleva,Como o signal da redempção do mundo.   Victoria, os céos entoam,   Victoria á Humanidade!O Christo do Senhor descêo á terra,E aos homens ensinou a san verdade.
Roma, 17 de Abril 1835.
 
 
XIII.
 
UM PASSEIO AS TUILERIAS.
 
Eis-me no mundo!… Aqui presente o tenhoTodo, tal como elle é, em breve quadro!Aqui os homens o prazer procuram,E mil vezes aqui a dôr encontram.
   Nestas ruas de flores,Confundidos os sexos, as idades,E o vicio confundido co’a virtude,   Se encontram, se abalroam.Debaixo destas arvores em renques,Qu’inda ha pouco de gala se cobriam, E já empallidecem só co’o soproLonge do hinverno, como reis de um dia,   O fido amante espera   A retardía amada.Meditabundo aqui passeia o sabio,   E inspirações recebe;Aqui o velho ao sol as cans aquece,E vê correr o infante após seu arco,   Inquieto e afanado.Como após a Fortuna corre o adulto.
Aqui sobre esta pedra solitarioO candido Filinto repousava,Chorando a Patria, que lhe fôra ingrata,E, máo-grado a injustiça, amando-a sempre.Co’os Martyres nas mãos, n’alma a poesia,   Aqui ao Luzo idiomaImmortal monumento erguêo glorioso,Que ao lado dos Lusiadas sublimes,Parelhas correrá co’a eternidade.
Que immenso é o Universo! que infinito!E tu, Senhor, tu só n’um volver de olhos    Tudo vês, tudo alcanças!Como é este logar tão limitado!Entretando o que o seu recinto abrange   Meus olhos não distinguem.
Esta columna d’agua impetuosa,Que compellida esguicha, e no ar se curva,   Pelo vento açoutada,De um lado e de outro lado vacillante.Como um branco pennacho aos ares sôlto,   E de poeira em fórmaCái, e tranquilla jaz no largo tanque;Representa, oh mortal, a historia tua!   Assim humilde nasces,Da terra assim te elevas arrojado,Assim te agita das paixões a furia,Assim pendes, e em pó no commum fossoDescanças, té que sôe a voz terrivelDo Archanjo do Senhor, no eterno dia.
Desde que no horizonte o sol fulgura,Té que a noite, e o silencio se annunciam,Ondas de homens sobre ondas incessantes    Este recinto invadem.De quatro lados sete portas francas;E um só não vejo em vestes que o trabalho,E a indigencia assignalem.
Tentais embalde entrar: — ide-vos, pobres,Ide-vos, homens ao trabalho afeitos.Ergueram vossas mãos estas muralhas,Vossas mãos estas portas fabricaram,   Que hoje ante vós se fecham;Com o vosso suor foi amassadaA terra, que estas arvores sustenta,Mas gozar não podeis da sombra d’ellas;Vós deveis sementar; outros que fruam.Aqui vós não entrais: — ide-vos, pobres.
Como reproba assim por toda parteCom desprezo se expulsa a indigencia,   Feio crime entre os homens!Aquelle hontem beijava o pó da terra,Hoje á custa de usura, e latrocinio,Envernizado com pomposo nome,   Grande, nobre se ostenta!Tal a serpente em torcicollos chega Arrastando-se ao cume de alto monte,Que o brioso animal vingar nem tenta.O mundo é sempre assim, é sempre o mesmo;Os esforços, os bens da sociedadeSão sempre para quem menos carece.
Entre estes arvoredos lá diviso   Do Gigante da terraA Columna immortal, e a estatua egregia,Qu’inda parece ameaçar o mundo.Alli vejo domado, e curvo o orgulho   Dos despotas dos povos.   Alli a LiberdadeSentada está no carro da victoria,De louros coroada, mas sombria.Alli vejo de Deos a omnipotencia,Que ergue, quando lhe apraz, do pó um homem,Para calcar dos Reis o sceptro, e o orgulho.Alli vejo o valor, vejo a justiça;Grecia, e Roma alli vejo n’um só Genio!Seu corpo tem por tumulo um rochedo,Onde continuamente o Oceano chora;Seu grande nome a terra toda o sabe.
O palacio aqui está, de um Rei morada.Quantas recordações m’elle desperta!Co’a mesma rapidez com que n’um sonho   As sombras se succedem,Tal os fastos da historia se me antolhamScena por scena em quadros animados.
Aqui Paraguassû, filha dos bosques,Do esposo ao lado entrou extasiada,Vendo a grandeza da européa côrte.Um Rei lhe dêo a mão; e uma rainhaDa bocca sua ouvio as maravilhasDo seu caro Brasil, então deserto.Ah, saiamos daqui; que horriveis quadrosMe veem ora turbar a phantasia.
   Marmoreos simulachrosDos divinos heroes da Grecia, e Roma,Descerrai vossos labios: pois que o genioDe bruta mole em homens convertêo-vos,Fallai, por Deos fallai; eu vos conjuro;Dizei-me si melhores do que os de hojeOs mortaes foram das passadas éras.Mas vós não respondeis; ficai, sois pedra
   Esta escada subamos;Como silencioso se deslizaO outr’ora ovante Sena! Nem murmura!Como humilde atravessa estas arcadas!Não sois assim, da minha Patria oh ríos!Oh Paraná, oh tumido Amasonas!   Eu já te vi, oh Sena,Altivo assoberbar estas muralhas;Hoje mesquinho nem banhal-as podes:Hoje o ousado menino a ti se lança.De um desthronado Rei és triste imagem;Sem pompa assim caminha desprezadoDos proprios seus, que os respeitaram, servos:   Tudo assim é na terra!
No meio estou da capital do Mundo!Alli vejo dos sabios a morada[1],   Aqui das leis o templo[2],Entre suas columnas vagueandoCom talhe ameaçador se me afiguraDo rival de Demosthenes o espectro. Deste lado o obelisco majestoso,Que á terra estranha os homens transplantaram,Como um filho grosseiro dos desertosEntre um povo que os seculos poliram.
Sabes tu que logar marcar vieste?Sabes tu essa côr o que nos mostra?Esta terra que ocupas foi outr’oraLogar do cadafalso! foi banhadaCo’ o sangue de Luiz, de um Rei co’ o sangue.
   Mas o sol se retira,E já se enlucta o céo, e a Natureza.Porque todos alli vão reunir-se?Melodicos accentos de harmonia   Meus ouvidos adoçam!   Oh musica divina!És tu que attráis os homens, que dispersos   Sem ordem vagueavam.Do céo foi inspirado quem primeiroUm som com outro som cadenciando,Poude dar o transumpto harmoniosoDe Deos, da Sociedade, e do Universo.
Já não vêdes, meus olhos; novas trevasEnvolvem do Senhor as maravilhas.De dia em dia assim, de noite em noite,Horas, annos, e seculos se abysmamNo seio da perpetua Eternidade.   O homem nasce, e morre;   Tu só, meu Deos, és grande.
 
 
  1. O Instituto de França.
  2. O Palacio do Camara dos Deputados.
 
XIV.
 
A TRISTEZA.
 
Triste sou como o salgueiroSolitario juncto ao lago,Que depois da tempestadeMostra dos raios o estrago.
De dia e noite sozinhoCausa horror ao caminhante,Que nem mesmo á sombra suaQuer pousar um só instante.
Fatal lei da naturezaSeccou minha alma e meu rosto;Profundo abysmo é meu peitoDe amargura e de desgosto.
Á ventura tão sonhada,Com que outr’ora me illudia,Adeos dice, o derradeiro,Té seu nome me angustía.
Do mundo já nada espero,Nem sei porque inda vivo!Só a esperança da morteMe causa algum lenitivo.
 
 
XV.
 
A AFFLICÇÃO.
 
Não, não é sangue; é fel envenenado,   Que em minhas veias gyra.Não, não é vida; são espinhos hirtos,São hervados acúleos, que incessantes   O coração me pungem.Não, não é ar; é o halito da morte,   Que o peito me comprime.Não são do mundo as scenas que me envolvem;   São as scenas do Inferno. É possivel, meu Deos, que tanto soffraUm misero mortal, e qu’inda viva?   Queres ver do teu servoA alma, de padecer já calejada,Sem murmurar, sem blasphemar, té onde   A paciencia leve?Em mim acaso novo Job preparas?Ou o meu coração não é de humano,Ou a dôr já o tem empedernido   Co’ o reiterado embate.
Oh meu Senhor, pequeno é o meu peito,Para conter um coração repletoDe tantas afflicções, de angústias tantas.   Tira-me a própria vida,   Tira-me o sentimento,Ou com triplice lamina de ferroFórra meu peito, e meus ouvidos cobre.
   Oh dever de homem probo!Hei de eu como uma incude duros golpesSuportar insensivel, sem queixar-meDe quem martyrios taes sem dó me causa? Sem dó?.. e talvez mais; sem um remorso!   Tu Zeno, assim me ensinas;   Philosophia austera,Eu sigo a tua lei, por ti me guio.   Oh, que esforço é precisoNa idade do prazer, e do interesse!
Eu chorei, e meus olhos se seccaram;Nem mais em nova dôr lagrimas novasTerei para chorar; as dôres todasMe fizeram tragar seus amargores;Não ha mais dôr que apresentar-me possaNova taça de acético veneno.
   O triste solitario,Que em aspero deserto transviado,De improviso se vê acommettidoDe crueis serpes, que o pescoço lhe atam,   E lhe cravam no peitoAgudas presas de peçonha cheias,   É a horrivel imagemDo estado meu, do meu duro martyrio.   Mas quem poderá crer-me? Quem póde avaliar minhas angustias?Mimosos do prazer, eia, deixai-me;De vossa compaixão não necessito;   Vosso riso me offende.
Estala, coração, estala, acaba!   Não tens uma só fibra,Que ao golpe de uma dôr não retinisse.Porque não deixas o meu corpo, oh alma?Que fogo de esperança inda te anima?Oh esperança, quasi que me foges!Não ha consolação para o infelice,Que longe de seus pais, da Patria longe,   Definha entre pezares.
Que, oh mundo, com dôres só misturasAs lições que nos dás? A experiencia   Só com dôres se colhe,Como uma flor de espinhos guarnecida?São inuteis os livros, e os conselhos?   É tudo a experiencia?A experiencia é só quem nos ensinaA sciencia da vida?
   Oh infantil vaidade!Vós, oh jovens, cuidais que sabeis tudo,As paginas de um livro apenas lendo.Dos velhos desprezais os sãos conselhos,E orgulhosos dizeis: — Hoje a velhiceLições deve tomar da juventude;Hoje de nossos pais á cima estamos.Moço sou, como vós sabio julguei-me;   Como vós illudi-me.
Hontem fagueira a sorte se mostrava,   Ria-se a Natureza,E em sacros laços de amizade estreita   Os homens se apertavam.Hoje terrivel tempestade brama,Os homens se repellem, se debatem,Como rábidas féras nas florestas.
   Mysterioso enigma,Inexplicavel Ser, capaz de tudo,Fonte de vicios, de virtudes fonte,Que edificas, que assolas, e que sempreDe ruína em ruína ovante marchas,    Como um Genio de morte,   Dize, o que és tu, oh homem!
Cala-se a Natureza, e só resôa   Um grito doloroso   Dos tumulos erguido;Como um gemido de agoureiro Mocho,Quando sobre destroços esvoaça.
   No peito a dextra applico;Palpita o coração fraco e pausado;Attento escuto, as pulsações calcúlo;   Não me agita o remorso,Nem espectros a noite me apresenta;E minha alma tranquilla na tormenta   Como um firme penedo,Nem a sombra de um crime a entenebrece.Doce consolação de um peito afflicto!
Oh unico juiz incorruptivel,Oh meu Deos, ante quem brilha a verdadeMais clara do que o sol; a cujos olhosO mais pequeno verme iguala ao homem, E a Natura descobre os seus arcanos;Tu, que o meu coração penetrar podes,Julga tu só, e vê si são meus erros   Iguaes ás minhas dôres.
Enganar-te, meu Deos, não póde o homem!Si feia iniquidade n’elle habita,Si mereço o que sofro, ah deixa, deixaQue os inimigos meus de mim se vinguem.Não me attendas, Senhor; meus áis despreza.   Deixa expiar meus errosNa terra onde este pó ao mal me prende,Antes que eu suba ao tribunal eterno.Mas si falla a innocencia em meu soccorro,Mostra a verdade, salva-me, e absolve   Aquelles que me infamam;Que eu os pérdôo, oh Deos; por ti o juro;Sou Christão; — e o Christão soffre, e perdôa.
 
 
XVI.
 
A CONSOLAÇÃO.
 
Que tens? De que te queixas, desgraçado?É da Patria a saudade que te afflige?São os erros dos homens? São teus erros,Que pesam sobre ti? És criminoso?Aborreces a vida? A morte queres?
O qu’ hei de eu responder? Não, oh meus labios,Não reveleis arcanos de minha alma,   Não crimineis os homens;Queixas inuteis são; labios, calai-vos.A quem não sente o mal, que importa o alheio?
Não; não sou desgraçado. Estas profundasDôres que me aguilhoam d’ alma os seios,São os signaes de uma lição do mundo.Sinto a dôr, mas sou grato á Providencia,Que dest’arte me instrue, como mãe terna,Que só para ensinar o filho pune.
No mais íntimo d’ alma o virtuosoAcha quem o console na desgraça.Desgraçado és tu só, tu miseravel,Tu, que não do assassino o punhal temes,Mas o punhal da propria consciencia.
Lei é da Humanidade, e não do acaso;Soffrer, sempre soffrer é seu destino.A Natureza o homem bruto cria,   O mundo o aperfeiçôa   Com dôres e trabalhos.Como se brunem com o attrito os seixos,   No revolver das ondas,Ou como no crisol, á chamma exposta,   Se purifica a prata,Dest’ arte, entregue á dôr, doma-se o homem.
O templo da verdade o erro o escolta,Armado de punhaes, e de flagicios;E antes que a Humanidade entrever possaUm claro lume do seu divo rosto,   Ah, quantos são primeiro   Tristes victimas do erro,Servindo de degráos da luz ao ingresso!
Nossos olhos lancemos ao passado,E co’ o fanal da historia descubramosQuantos martyrios nossos pais soffreram.Tudo o que vemos nada é mais que a lucta   Da verdade, e do erro.A verdade, que herdada hoje gozamos,Assás regada foi com sangue humano.Por nós dezoito seculos luctaram,E nós pelo porvir luctamos hoje.
   Não é fóra do mundo,Engolfado em prazeres que embriagam,Em brando leito languido estendido,Rodeado de escrayas, que o incensam,Como um Rei do Oriente; nem na mesaDe esplendido banquete, qual Lucullo, Que se colhem lições da experiencia.Não; engana-se aquelle, que EpicuroMal interpreta, e diz: — Eia, gozemos;A vida no prazer cifra-se toda.
É nos carceres só, é nos perigos,Quando ao exilio marcha o justo Arístides,Quando Homero um chorado pão esmola,Quando no carcer Galileo medita,Quando do throno avito um Rei baqueia:A experiencia então a voz levanta;Solon, Solon, Solon, bem m’o dizias!
Do passado a lembrança é morta idéa;A experiencia só, a experiencia,   Dura, severa mestra,Por caminhos de dôres, entre espinhos,   Guia o incerto passoDo mortal que viaja sobre a terra.A dôr é da verdade companheira;Quem busca a experiencia, a dôr encontra.
Porque pois lamentar si a dôr é util?Si ella é nuncia de um mal, de que nos cumpre Fugir, ou evitar assaltos novos?O fogo que ao infante o dedo queima,A reflectir o ensina, emquanto os mimosDa terna mãe mil vezes o corrompem.
   Oh, desgraçado aquelleQue jamais supportou uma só mágoa,E que de gôzo em gôzo vê seus dias   Correr tranquillamente;   Como a flor nasce, e morre,Mas como a flor tambem nada conhece;   Existe, mas não vive,Que é, sem dôr, o prazer uma chimera.Para vermos a luz, que ancias, que dôresNão soffrem nossas mães? Mas nesse instanteAs dôres maternaes, nascendo, herdamos.Gloria, fama, saber dôres nos custam;Até o ultimo expiro a dôr nos segue;E quem sabe si á dôr põe termo a morte?
Como é feliz aquelle que levantaSeu espirito a Deos, e com fé pura,   No meio da tormenta,Que o mundo sem cessar contra nós arma,    Do céo auxilio espera,Emquanto sem conforto, entregue á raiva,Blasphema o impio contra Deos, e os homens.
Feliz quem assoberba a iniqua sorte,E, para o consolar, acha a virtude,   Que benefica brilha,Como em negra soidão plácido lumeAlma esperança gera, promettendoAsylo ao peregrino afadigado.
Feliz, feliz mil vezes, quem tranquilloNão ouve o apuridar da consciencia,   E um só crime exprobrar-lhe!E no leito da paz, ou na masmorra,Não vê punhaes em sonhos, nem phantasmas.Mesmo quando os ruíns dôres lhe causem,Como Guatemosino atado, e postoSobre estendidas, chammejantes brasas,Com os olhos no céo, sereno exclama:   N’um leito estou de rosas!
Entre afiadas rodas, açoutado   Com laminas de ferro; Na cadeia, no circo, e na fogueira,   Ou alvo da calumnia,O justo não stá só, Deos é com elle.Cadeias, circo, infamia, fogo, e morte,   Tudo supera o justo.
Como as nuvens pejadas de vapores   Exhalados da terraDo coruscante sol a face cobrem,E por um pouco a Natureza enluctam;Mas depois da tremenda tempestade,De mais bello sétim o céo se arreia,E o sol raios dardeja mais brilhantes,Assim depois da angustia, e da calumniaA innocencia triumpha acrisolada.
   Ah! não nos lamentemos;Que quanto mais se soffre mais se alcança.A dôr só para o iniquo é um tormento.   De Zeno as leis seguindo,Como si a não sentissimos, vivamos;Deos existe, e nos vê; Deos só nos julga.
Pariz, 5 de Septembro de 1834.
 
 
XVII.
 
A VIDA DA INNOCENCIA.
 
A vida é placida e bellaPara quem a não conhece,E na candida innocenciaQual puro jasmim florece.
É uma aurora rosada,Um sonho delicioso,Para quem o arcano ignoraDeste mundo cavilloso.
É um mel suave a gratoPara quem no lar paterno,Co’ a bençam dos seus maiores,Recebe a bençam do Eterno.
É um celeste thesouroPara a tenra criatura,Que vive como tu vives,Vida dos Anjos tão pura.
Só vive assim a innocenciaDe Deos amada e querida!Oh innocencia! oh perfume!Oh doce orvalho da vida!
Filha de pais virtuosos,Luminosa é tua estrella!Vive para ornar o mundo,Feliz, innocente e bella.
 
 
XVIII.
 
A SEPULTURA DE FILINTO ELYSIO,
NO CEMITERIO DO PÈRE LA CHAISE.
 
   Eis-me fóra do mundo,   Nas solidões dos mortos,No imperio do silencio, e da tristeza,De campas, e cyprestes rodeado!
Scenas aqui não ha que aprazer possamAos sentidos daquelles, que embebidosNas illusões do mundo, a morte temem, Como o completo termo da existencia;Cegos, que a luz não viram do infinito!
Á sombra destas arvores chorosas,   Encostado a um sepulchro,Ocio não pasta o rico em sésta amena;Nem quem o vero bem no engano cifra   Deste valle de angustias.
Á dôr esta mansão é consagrada,E á saudade, e ás lagrimas dos vivos,Que a Deos, e á Eternidade a mente sobem.
Aqui, sim, oh minha alma, aqui te exalta;Sólta as prisões do barro que te opprime,E vaga sem horror na immensidade.
Estas ruas de tumulos suberbos,   Que cidade figuram,Só corruptos cadaveres habitam,Poeira, nomes, e ossos descarnados.
Os mortos que nos marmores repousam, Não te encham de terror; nem os gemidosDe alguma triste esposa, ou mãe saudosa;   Nem do vento o murmûrio,Que merencorio sôa entre os cyprestes.   Nada temas, minha alma;Preconceitos da infancia te não gelem;   Não; sem susto vagueia;   Mal não fazem os mortos;Só entre os vivos o temor é justo.
   Oh Filinto! oh Filinto!   Onde estás?… Escutemos…Aqui nem mesmo os echos me respondem.Oh meu Filinto, é esta a vez terceira,   Que incansavel te busco,Dé um em um tenho lido os epitaphios   Destas funebres lousas;   Só o teu não encontro.
Onde é que a ingratidão da injusta Patria,   Dessa Patria que honraste   Co’ os teus divinos carmes,Cavou-te a humilde sepultura? — Onde? D’ella ausente, proscripto, na miseria,   Como Camões viveste;Saudoso, e só por ella suspirando,Monumentos ergueste á gloria sua;E surda sempre foi aos teus gemidos;Como Camões morreste na indigencia!Mas elle ao menos expirou na Patria!Terra da Patria recebêo seus ossos;E tu? — Nem ella sabe onde repousas!
   Oh desgraçada Lisia!Ingrata mãe de heróes, de egregios vates,Assim deleixas teus preclaros filhos,   Que em fadigas se afanamPor cingir-te de brilho immarcescivel?Teu vate, teu cantor já te exprobrára,Quando com rouca voz assim dizia,E não do longo canto afadigado,Mas de cantar á gente endurecida:„O calor, com que mais se accende o engenho,„Não o dá a Patria, não; que está mettida„No gosto da cubiça, e na rudeza„De uma austera, apagada e vil tristeza.“
No Universo estas vozes resoaram;Linguas cem estas vozes repetiram;   E o que fizeste, oh Lisia?Chamaram-te madrasta, e mãe tyranna;   E hoje? — ainda és a mesma!
Oh Patria minha, oh meu Brasil, não sejasComo Lisia cruel para teu filhos.Ligado á sorte sua, supportasteSec’los tres os grilhões do captiveiro;Ma já que sacudiste a espessa treva,   Que os olhos te vendavaDa tua antiga Irmã vê as miserias,   E de imital-a teme.
Vejamos. — Estes myrtos tão viçososOrnar devem de um vate a sepultura.Oh, será elle? — Não; aqui descança   O coração de um filho.
Não afrouxemos, vamos; que assim marcha   A Humanidade inteira,Sem nunca repousar, sobre reliquias   Das gerações extinctas. Cada casa é um tumulo, e de sangue,   Logar não ha na terra,   Que manchado não fôsse.Um dia chegará a HumanidadeAo limite que Deos lhe prescrevêra.
   Não descancemos; vamos,Emquanto a sepultura não acharmosDe Filinto, que ha tanto procuramos.
Luiza e Abeilard inda no marmor,Junctos, da morte o eterno somno dormem,Neste gothico tumulo; mil c’rôasSuas estatuas cobrem, que os amantes   A seus pés depositam.Qu’eu não possa pagar igual tributo!   Amor, tu me desdenhas;Nunca um osculo teu rosciou meus labios;Nunca de virgem olhos conduídosSobre mim almas chammas espargiram;   Ah, nunca fui amado!Nascido para a dôr, jamais minha almaEm delicias de amor sonhou ao menos!
Que illustres nomes estas lousas mostram!Estatuas, bustos, inscripções só vejoDe prestantes varões, de egregios vates.Ao lado deste tumulo pomposo,Onde d’Arte o primor offusca o nomeDaquelle que mimoso foi da sorte,Como a meu coração falla sublimeEsta Cruz negra á sombra de um cypreste!
O sol desmaia; e precursor da noiteCinéreo véo nos ares desenrola-se.Já fraqueio, e suor transsuda a fronte.Deixarei estes sacros aposentos,Sem que te encontre, oh candido Filinto?Serei tão malfadado, que esta c’rôaDepositar não possa em tua campa,E sobre ella chorar, gravar meu nome?
   Ah, não desesperemos;Mais um esforço. — Emfim, é ella, é ella!Nem sequer um cypreste, um myrto a cobre!Já lisa a pedra pelo pé do tempoMal indica que teve um epitaphio.    Ingrata Patria! Ingrata!O tempo ao menos, carcomendo a lagea,Tua vergonha occulta ao estrangeiro.
Oh meu Deos! aqui jaz desconhecidoQuem cantou dos teus Martyres a gloriaEm altísono metro harmonioso!
Reverente ante a tua sepultura,Oh Filinto, tu vês um triste filho,Que choroso, da Patria ausente vive.Joven, talvez hardido, ousei na lyraOs dedos applicar, seguir teus vôos:Sons, que desfiro rusticos, consagroEm holocausto a Deos, e á Patria minha.Da celeste Sião, onde tua alma   Fulgurante resplende,Um raio de estro á minha mente vibra.   Recebe esta corôa,   Estas folhas recebe,Que viçosas colhi na sepulturaDo immortal La Fontaine, a quem honraste[1]. Quiçá prima homenagem sejam ellasQue aos manes teus humana mão tribute.Possa o tempo guardar estes, que escrevo,Tristes versos, até que um Luso os leia:
Uma lagrima dai, oh Portuguezes,Uma lagrima ao menos a Filinto,   Ao desgraçado velho.   Assás honrou á Patria;Em premio exilio teve. — Adeos, Filinto.
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„Que exemplos a futuros escriptores!“
Pariz, 28 de Septembro de 1834.
 
 
  1. Com a traducção que fez das suas fabulas.
 
XIX.
 
UMA MANHÃ NO MONTE JURA.
 
Deixemos este lugubre aposento,Estas estreitas, tortuosas ruas[1],E subamos, Amigo, este fraguedo.
Ingreme, escabrosissimo, impossivel   Parece que o vinguemos;Mas si á forte vontade a acção se aduna, O que ha na terra que resista ao homem?   Eia, Amigo, subamos.
Já as flores da noite alvinitentes,   Que o firmamento esmaltam,A desmaiar começam, só co’a vista   Dos arreboes d’aurora.Da terra alvos vapores se levantamCondensados, e no ar se desnovellam,Montes bosquejam, mares, e cidades,E nos campos se perdem do infinito,Como agora se perde o pensamentoNa vastidão de idéas, em que vaga.
Subamos do rochedo até ao cume;Lá, respirando um ar puro e suave,Recebendo do sol os primos raios,Louvores ao Altissimo entoemos.
Subamos. — Que vastissima paizagem!Que cadeias de montes abraçados,E como torreões, grimpas, espectros,   Ás nuvens se levantam! Que tapetes de vinhas se desdobram,E as varzeas, e as encostas alcatifam!Que escuros tectos de mesquinhas villas,Salpicadas aqui, e alli, quaes combrosDe terra, que formigas amontoam!
De tantas sensações extasiada,Minha alma se sublima, e se converte   N’um hymno harmonioso,Em louvor do Senhor da Natureza.
A lucifera estrella alli fulgura;Lá se ergue o Sol n’um Oceano de ouro,   De rubins ondeado!Tu, que illuminas mil milhões de povos,Que outros tantos baixar tens visto ao nada,E outros tantos subir ao gráo daquelles;Cem, e cem vezes eu te ví radianteAtravessar contente e vagaroso   De minha Patria os campos,   Os sêrros, e as cidades,Como si, lei não sendo o movimento,Eterno no Brasil brilhar quizesses. Oh Sol, ind’ hontem viste essa ditosaPatria, por quem suspiro aqui saudoso;Patria, por quem me afano; mas si embalde,Longe d’ella acabar prefiro ao opprobrio   De vel-a, e ser-lhe inutil.
Não, oh Patria, não stou de ti distante;Commigo estás, é teu meu pensamento.Um desejo violento, irresistivel,Como a enchente que de alto se desaba,Todo me occupa, e o coração me abala:Desejo de te ver no orbe cantadaComo a primeira das Nações da terra.
   Descancemos, Amigo,Descancemos um pouco, que é difficilPor não trilhadas, perigosas sendas,Sem fadiga vencer tal penedía.Olha, vês tu aquelle que pasmadoDebaixo nos contempla, e se confunde,   Envolto na poeira,Co’ as pequenas ovelhas que apascenta?Quiçá de nós dizendo esteja agora: Eis dos homens té onde o arrojo chega!Porque a plana estrada desprezaram,Onde sem risco todos nós marchamos,Para perigos affrontar ousados?Cahirão, cahirão; serão punidos…
Assim mesquinhos entes invejosos,   Tristes aves de agouro,Que no charco commum patinham, grasnam,Quando vêm remontar altivos genios   Ás sublimes espheras,Esses, cuja missão é o progresso.E das mãos arrancar da Natureza   Novas, uteis verdades,Clamam, praguejam, mas no charco morrem;Emquanto que de céo em céo voando,De Nação em Nação, de povo em povo,Da Humanidade os astros bemfeitores,Em torno a Deos, na Eternidade pairam,   De propria luz radiantes.
Trabalhemos, Amigo, pela Patria,   Só por amor da Patria, E entreguemos a Deos nosso destino.Si á região dos astros não subirmos,Pyrilampos seremos nos desertos,E aos nossos reunidos, luz daremos,Que nas trevas talvez ao desgarrado   Viajor encaminhe.Trabalhemos, Amigo, pela Patria,   Só por amor da Patria,E entreguemos a Deos nosso destino.
   Ah, subamos ainda,E cheguemos ao tope da montanha.
Esta pedra que cai, bate, e reflecte,E assim de curva em curva saltitante,Vai rolando, e batendo, até que chega   Desfeita em mil pedaços,É a imagem dos seres subalternos,Que só grandes parecem pela altura,Em que a cega ignorancia os collocára;Mas quando se despenham, desparecem,Sem que se abale o mundo; nem arrastam   Satellites comsigo,    A não ser a poeira   Que só os rodeava.Assim muitos colossos se abysmaram,   Colossos de vaidade:Assim se enterrarão no eterno olvidoMuitos que a Patria nossa inda hoje opprimem   Co’ o peso da ignorancia.
Nossa Patria tão bella! — Nossa PatriaTão digna de um porvir grande e sublime!Eil-a, como um cadaver de gigante,Roída por milhões de vis insectos,   Que ella mesma alimenta!
Olha, Amigo, esta pallida saudade,Que nesta penedía a custo vive!Aqui não é que vegetar devia   Flor tão cara á minha alma.Vês tu como ella pende a roxa fronteMal que a colho, e a colloco no meu peito?Como ella o coração, soffrendo a mágoa   Que o nome d’ella explica,Longe da Patria, em que meus pais habitam,    De languidez se encolhe.Irás commigo, oh flor, terna saudade,Inda que murcha e secca; — irás commigo,   E acabaremos juntos.
Poligny, 7 de Outubro de 1834.
 
 
  1. De Poligny, cidade de França, situada nas abas do monte Jura.
 
XX.
 
A VISTA DE ROMA.
 
É Roma! é Roma! é a cidade eterna! Lá sobre a cathedral do christão mundo De Buonarotti[1] o genio se levanta, Prodigio d’ arte, maravilha humana,    Consagrada a Deos vivo.
Entre suas ruínas, majestosa    Inda Roma se ostenta. Inda seu nome impõe respeito ao mundo,    E enthusiasmo gera. Mas Roma entre ruínas se me antolha Como essa arrependida penitente, Que a van pompa do mundo desprezando, A cruz do Redemptor humilde abraça. Em vez de capacete, esparsa a côma; Em vez de sceptro, cruz; o marcio riso    Não mai lhe habita os labios, Nem lampejantes olhos mais incutem    Terror, vingança, e morte. Religiosa dôr hoje a sublima, E a veste de candura, e de belleza.
Rainha das Nações, eu te saúdo! Mãe illustre de heroes do mundo espanto! Eu te vejo, e minha alma inda duvída! E não sentida commoção me abala.
Esta vermelha terra, árida e sêcca, Qu’ inda exhala mortiferos vapores; Este inculto deserto, abandonado    Dos homens, e das feras, Onde uma flor sequer não ri-se ao menos; Esta desolação, esta tristeza, Este horror sepulchral, que em torno gyra    Da senhora do mundo, Tudo alfim aqui falla, e ós olhos mostra As sangrentas tragedias, que juncaram    Estes campos outr’ora. De tanto sangue humano que a ensopára, De tanto ferro gasto que a cobríra, Conserva ainda a côr a terra esteril!
Porque nuvens de córvos esvoaçam Nestes ares pejados de vapores? Porque arrancam gemidos dolorosos, Que as carnes, e os cabellos arrepiam, Como si elles um mal tambem carpissem?    Odor carnificino Ainda exhalarão de Roma os campos? É que não acham mais sangue que bebam!    Cadaveres que os cevem!
Que Romano saído do sepulchro Reconhecer-te, oh Roma, poderia? Que viajor, entrando em tuas portas, Não dirá: Onde estou? onde está Roma? Si uma voz respondesse: Eis aqui Roma! Como não exclamar cheio de assombro: Que maldição do céo cahio sobre ella?!
Tambem teem as Nações suas idades!    Joven já foste, oh Roma! Já guerreiro vigor armou-te o braço; Já tremeram de ti milhões de povos. Fatigada de gloria, e já curvada    Entre tuas ruínas, Hoje tu tremes, como uma Rainha    Annosa sobre o throno, Que em annos juvenis calcára ufana. Hoje só em teu Deos arrimo encontras; Só a Religião te ampara a fronte, Que co’ o peso dos seculos já pende.
Sem este novo Deos morta já fôras. Teus velhos deoses á paixões sujeitos, Teus senhores, teus Neros, e teus filhos,    Degenerada raça Dos Brutos, e Catões, raça maldita, Nos mais nefandos crimes só nutrida, Tudo alfim te arrastava ao horror, e á morte, E te ía despenhar na sepultura. Mas um Deos novo te salvou do abysmo; Novas virtudes dêo-te, graças novas, E tu por elle só inda hoje vives.
Da guerra o Genio que nas pugnas véla, E o pacifico Genio que aos destinos    Dos Imperios preside, Entorpecidos de fadigas tantas, Entre a poeira das ruínas tuas, Cobertos de laureis, prostrados jazem.
Co’ a espada o antigo mundo amedrontavas, Co’ a Sciencia, e a Razão guiaste o novo; Sim; a gloria perdeste dos combates, Mas alcançaste da Sciencia a gloria.
Ignora o mundo o teu porvir augusto, Que ao mundo occulta Deos seu pensamento; Mas tu despertarás á voz de um Genio,    Do somno em que te abysmas. Dorme, dorme, que o Tempo não perece; Dorme, que um dia te erguerás mais bella; Dorme, até que a trombeta do teu Anjo No mausoléo resôe de Adriano[2]. Os designios de Deos serão cumpridos: Não, tu não morrerás, cidade eterna.
Roma, Dezembro de 1834.
 
 
  1. Michel-Angelo Buonarotti, architecto da magnifica cupula de S. Pedro, em Roma.
  2. Hoje Castello de S. Angelo.

 
XXI.
 
O DIA DE ANNO BOM DE 1835.
 
Vai-te, vai-te… Sepulta-te; não surjas    Do abysmo do passado, Anno, que para mim seculo foste    De contínuos tormentos.
Vai-te, vai-te… Nem mais lembrança tua A mente atribulada me ennegreça; Desapparece, passa como a nuvem, Que o funebre pallor da lua augmenta    Em socegada noite; Como um sonho, que agita a phantasia    De adormecido enfermo; Ou como um pensamento mal formado    No delirio da febre.
Mas como te olvidar, si a consciencia Ao grito da vontade se rebella? E acintosa a memoria inda conserva    Tua lembrança triste? E sem cessar traidora phantasia Máo-grado meu me está representando    Mil desgostosas scenas?
Eterna ficará tua lembrança    Á minha alma presente, Para da amarga vida despertar-me    Os passados revezes, Como ao lado do altar pendente voto O naufragio recorda, e o salvamento.
Como depois de borrascosa noite,    Rutila alva serena; Do seio do futuro inexhaurivel, Novo anno, sai, assoma mais fagueiro,    E as lagrimas estanca, Que pela dôr mil vezes arrancadas, Do coração aos olhos me subiam.
Faze que esta illusão que a alma consola, Esta esperança, ultimo refugio Que na desgraça o malfadado encontra, Nuncio me seja de um melhor futuro. Sê meu Iris de paz, e o meu sanctelmo. Assás desditas minhas jus me outorgam De merecer-te ao menos um sorriso; Assás para um favor soffrido tenho.
Esta que ora desfructo paz serena, Este descanço que piedosa dextra Concede a meu espirito agitado;    Este celeste sopro De alma ventura que respiro agora:    Esta luz que me aclara. Já me deixa entrever porvir brilhante. E o horizonte da Patria me apresenta, Da longe Patria, tão por mim chorada.
Vem, anno novo, vem; traze-me alegres Noticias de meus pais, da Patria minha.    Traze-me este consolo, Este consolo ao menos, que me afague    Na distancia em que vivo. Outra ambição não tenho, outra… E o que póde Minha alma cubiçar de mór valia? Coração como o meu, ermo de inveja, Exempto de vaidade, a pouco aspira: Só de nobres desejos se alimenta.
E tornarei a ver-te, oh Patria cara? Teus montes saudarei? tuas florestas? Teus ríos? e o teu céo azul sem nódoa? Ainda abraçarei os pais annosos? Mas em que dia? Quando?.. Como tarda!
Vem, anno novo; vem, minha esperança!    Por ti eu suspirava, Qual um amante pelo bem amado. Vem, oh nuncio de paz; vem consolar-me. Oxalá que não toques ao teu termo Antes qu’ eu volte ao paternal albergue.
Roma, 1º de Janeiro de 1835.
 
 
XXII.
 
AS RUINAS DE ROMA,
AO CLARÃO DA LUA.
 
Oh, que espectaculo funebre e sublime!Aqui foi Roma! — Aqui erguêo-se altiva   A Senhora do Mundo!E de tanta grandeza eis o que resta!
Quantas trombetas no Universo soam,E os fastos marciaes da augusta Roma     Sonorosas proclamam!Quantas vozes de Roma o nome entoam!Mas uma vista só destas reliquias,Estas columnas, qu’inda se sustentamMeias fóra das covas, meias dentro,Como espectros alçados dos sepulchros;Este mesmo silencio, tudo falla,Sem turbar os sentidos assombrados!Oh grandezas, quão perto estais do nada!
Eu saudei-vos, ruínas, quando o diaSobre vós seus fulgores entornava,Vosso florido manto realçando;    Quão longe então estaveisDesta mystica, horrivel majestade!Oh, que não é o sol o astro dos mortos!Nem se cóbre de purpura o cadaver!
Tu és, oh lua, o astro das ruínas!No páramo celeste solitariaPlacida alvejas, de pallor tingindo    Estes negros destroços.Qual a tremula lampada suspensa    No asylo dos finados,Que só das trevas o horror aclara,Para mais realçar o horror da morte.
Como uma ave de agouro em clima estranho,De tão longiquas plagas transportado,Plagas á culta Europa ainda ignotasQuando já isto tudo eram ruínas,Eis-me aqui sobre o monte Palatino!E amanhã? — Onde irei? só Deos o sabe.
Oh pó erguido! oh pedras! oh ruínas!Que sublimes lições estais dictandoNessa muda linguagem dos sepulchros!Oh, desgraçado o povo que as não ouve!Desgraçado quem não as comprehende!   Vós sois mais eloquentesQue os vossos oradores, cujas vozesVezes mil n’outros tempos echoastes:Vossa vóz só nos seios d’alma sôa,Como a terrivel voz da consciencia,Ou como o gelo, que entorpece o corpo,E a vida toda ao coração concentra.
O que ha-hi mais sublime que esse Mario,Genio de morte, um homem curvo á morte,Sentado nas ruínas de um Imperio?Seu rosto baço… seu olhar sombrio…Que idéa o pensamento lhe revolve?Quem não dirá que em torno d’elle gyram,   Dos destroços erguidos,Milhões de espectros, cujas negras sombrasEm seu feroz semblante se desenham?   Quem não dirá que elle ouve   Carpidores gemidos,   Magoados queixumesDe angustiadas mães, de tristes órfans,Que lhe pedem seu pão, e o amaldiçoam?
Da Humanidade inteira és symb’lo, oh Mario!Do pó tirada pela mão do Eterno,Desde o berço do sol té seu sepulchro,Quantas soffrido tem vicissitudes?Quantas phases tem tido? E marcha ainda!Quantas vezes na marcha tortuosa,Qual no mar o baixel, que o vento busca,Longas calmas soffrêo, longas tormentas?
E qual o fim será da Humanidade?Que porto lhe destina a Providencia?Mas quem póde do seio do futuro   Arrancar este arcano?Confia, Humanidade, em teu PilotoConfia; a Providencia é quem te guia.
Oh Deos, Mario tambem serás um dia!A vista espraiarás pelo Universo,   E só verás ruínas!…E todos esses luminosos Mundos,Do sanctuario teu fanaes brilhantes,   Ter-se-hão extinguido!E a quem dirás então? — Eis-me sozinhoSentado sobre o exicio do Universo,Concentrado em mim mesmo, no infinito;Dei fim á Humanidade: eil-a em poeira;Um sopro de meus labios sumio tudo!
Quem te ouvirá, oh Deos? — A Eternidade!Oh futuro, oh futuro inaccessivelAos mortaes olhos, só a Deos presente?
Oh pó erguido! oh pedras! oh ruínas!Ah! quantas gerações aqui passaram.Cujos rastos impressos na poeiraO vento os dissipou, como seus nomesPela esponja do tempo extinctos foram!De quantas scenas testemunhas fostes!Que infamias vistes, que crueis delictos   Inda aos homens occultos!   Que batalhas! que horrores!
Que milhões de cadaveres cahiram.Entre estes sete montes, como pedrasDespegado se teem destes fragmentos!   Tudo isto era um só monte,Era um vasto redil de armentio gado. 1
Que accesa lava em borbotões fervendo   Engulio estes Templos?Que estragador, ardente meteóro,Despejado do Inferno, talou tudo?Oh Guiscard! oh Guiscard! estas muralhasEscapadas do incendio, e enfumaçadas,Inda te chamam fero, inda te accusam! 2
   Lá stá o Capitolio!Quantos captivos Reis, ao carro atadosDo seu triumphador, alli subiram!Alli Manlio morou; dalli a um passo[1]Foi as aguas mortaes beber do Tibre 3.Aquelles muros Catilina viram,E aos accentos de Cicero tremeram.Alli se decretava a liberdade,A escravidão dos Reis, e dos Imperios.Alli entre punhaes expirou Cesar,Só por querer cingir a calva fronteCo’ o diadema real, depondo os louros;Mas o que ao grande Cesar foi negado,Tiberios, e Caligulas tiveram!Tanto dos homens a injustiça póde,Ou tanto a corrupção que o brío extingue.
Ah! saiámos daqui, que profanadoFoi este monte, habitação dos Gracchos,E do immortal philosopho de Tusculo [2],    Pelo mais ruím tyranno.   Eis seu palacio de ouro.Nero aqui se entregava aos seus delirios.Lá pallideja ao longe aquella torre 4Como um phantasma ao clarear da lua!   Alli ria-se NeroCom satanicos olhos scintillantes,Nos quaes de Roma a imagem se pintavaEnvolta em crepitantes labaredas,E o povo que expirava emmaranhadoEntre as ondas de fogo, e de fumaça.Cantor do inferno, o monstro, o parricidaTanto horror celebrava ao som da Lyra!   O que não mancha um monstro?…Oh! que o seu coração era de ferro!   Os horridos gemidos,   Os gritos d’agoniaDas moribundas víctimas das chammas,Aos ouvidos de Nero acordos eram!
Triste Jerusalem, co’ os teus despojosErguêo-se este arco a Tito triumphante.   Este outro a Constantino, Vencedor de Maxencio, e de Licinio,Heroe que a Cruz alçou no Capitolio,Aras pagans a Christo consagrando.
Mas silencio… Silencio… Ouço gemidos,Que se escapam dalli, entre as arcadas   Do Flavio amphitheatro![3]   Quem a esta hora geme?Estas pedras serão? espectadorasOutr’ora de crueis, sangrentas scenas,Que doídas talvez inda hoje chorem,Quando homens, que as pizavam, applaudiam   O espectaculo infame?
Não, não; são os christãos, são penitentes,Que abraçados co’ a Cruz, prostrados jazem,E choram sobre o chão de pó, e sangue,As palavras ouvindo do Eremita, 5Que n’ alma lhes embebe a Eternidade.Orai, christãos, orai; pedí ao Eterno,Por vós, por vossos pais, por vossos filhos.
Que sons funéreos de sagrados bronzes   Longos vão reboandoNestas immensas, lugubres arcadas?Oh meu Deos, que terrivel pensamentoEstes sons repetidos me despertam!Aquella vasta cupula, que o genioNos ares collocou em gloria tua,E ás egypcias pyramides supera;Aquella torre, d’onde agora partemOs sons que estas abóbadas retumbam;Todo aquelle suberbo monumento,Rico de mil prodigios espantosos,Tudo isso cahirá!… serão ruínas!Futuras gerações sobre seus combrosDe mausoléos, de estatuas, de columnas.Subirão, oh meu Deos, e a essas pedrasPerguntarão: Que mãos vos elevaram?   Que mãos vos destruíram?
Ind’ hoje eu vi o sol, n’um lago de ouro,Entre montanhas de rubins accesos,Atrás daquella cupula occultar-se.Pois bem, oh sol, tu passarás um dia Nesse mesmo logar onde declinas;Não ouvirás os sons religiosos   Dos orgãos que hoje escutas;Descoberto verás o sanctuario,Prostradas as columnas em pedaços,   Quebrados os altares,Aberto, e destruído o Vaticano;Ahi se aninharão nocturnas aves,Reptis passearão na relva e musgo,E apenas ouvirás seus tristes guinchos!E o que dirás, oh sol, de tanto estrago?..Dirás, sem suspender a marcha tua:   „Mais que as obras dos homens,   De Deos duram as obras.Tudo o que é dos mortaes a morte o sella.Jamais minguei de luz, tanta luz dandoDesde que Jehová do cáhos tirou-me.   Porque cahíste, oh Templo?Tu, que espanto do mundo outr’ora foste?   Tu, que outr’ora suberboMeu luminoso oceano dividias,Erguendo tua sombra até meu rosto?“
Quantas vezes o filho piza a terraQue o cadaver do pai, ou mãe encobre,Inda enfeitado co’ as herdadas joias?Assim da prisca Roma a filha, herdeiraDa pompa sua, majestosa se ergueSobre o immenso esqueleto mutilado   Da augusta soberana.Filha de Roma, cahirás como ella?
Estes desenterrados obeliscos,Que agora entre teus muros se levantam,Arrancados do Egypto, quantas quédasDe cidades teem visto, e terão indaNovos leitos no pó de Imperios novos!Filha de Roma, cahirás como ella!
As obras dos mortaes como elles morrem;Nem duram as cidades mais que os cedros,Que espontanea produz a Natureza;Nova planta da extincta se alimenta;   Phenix é o Universo,Que, morrendo, renasce a cada instante;Tudo o que o homem vê morte respira; E si tu, oh meu Deos, não és eterno,O que é eterno então? o que? o Nada?Transitorio será tudo no Mundo?E o dever, e a justiça em que se firmam?Oh Razão, o que és tu? — Impios, calai-vos.   Loucos sois delirantes!   Não, oh sabio Spinosa,Tu não eras atheo, não te entenderam; 6Um Deos ha sempiterno, — o Ser dos seres.
Filha de Roma, cahirás como ella;Outra herdará teu nome, e teus thesouros,E com tuas riquezas adornada,Seu estrado fará do teu sepulchro.Mas quando este Universo se aniquile,Na memoria de Deos serás eterna.
Roma, 25 de Janeiro de 1835.
 
 
  1. A rocha Tarpeia.
  2. Cicero.
  3. Mais conhecido com o nome de Coliseo.

AS RUINAS DE ROMA.
Nota 1. Pag. 156, v. 14.

Era um vasto redil de armentio gado.

Depois da destruição do Foro Romano, pelo fero Rober Guiscard, em 1084, toda esta parte da antiga Roma, desde S. João Laterano até o Capitolio, tão entulhada ficou, que a terra, pedras, e immundicias cobriram as ruínas, que ainda hoje se desencavam; ahi apascentavam rebanhos de vacas, e d’ahi veio o nome de Campo Vaccino, com que ainda hoje é conhecido.

 

 
Nota 2. Pag. 156, v. 21.

Inda te chamam fero, inda te accusam.

A destruição de Roma é devida, como vimos na antecedente nota, ao cavalleiro Rober Guiscard de Hauteville, filho de Tancrède, que, capitaneando os Normandos, entrára á testa de um formidavel exercito em Roma em 1804, fazendo recuar Henrique diante de sí, e pondo fogo na cidade, desde S. João de Laterano até o Colisêo. Depois do saque dos Normandos ficou a antiga Roma deserta, e a população transportou-se toda inteira alêm do Capitolio, que em outro tempo fôra o campo de Marte. (Vej. Hist. das Repub. Ital., por Sismondi, T. I, pag. 128, da Edic. Belga.)

 

 
Nota 3. Pag. 157, v. 5.

Foi as aguas mortaes beber do Tibre.

Chamo mortaes as aguas do Tibre, não que ellas venenosas sejam, mas porque ahi morriam afogados os condemnados de Estado, que da rocha Tarpeia se precipitavam, como Manlio, e outros, de que falla a Historia.

 

 
Nota 4. Pag. 158, v. 4.

Lá pallideja ao longe aquella torre.

Mostra-se ainda em Roma uma torre quadrada, que no meio da cidade se eleva, na qual, diz-se, Nero se abrigára, para gozar da horrivel scena do incendio de Roma. Ahi tangia elle a lyra, emquanto as chammas devoravam a cidade. O verbo pallidejar, de que me sirvo, creio que não vem nos Diccionarios, nem me lembra tel-o encontrado em nenhum auctor; si sou o primeiro que o introduzo na lingua, poderei allegar em seu favor, que tendo nós branquejar, negrejar, amarellejar, e outros de igual desinencia, nenhuma dúvida poderá este encontrar da parte de acanhados puristas; demais elle explica perfeitamente o effeito da torre em questão, esclarecida pelo clarão da lua. Aproveitando-me da natureza desta nota, direi que a Philosophia espiritualistica, que tantos progressos tem feito entre Allemães, e Francezes, tem adoptado novos termos, e dado a velhas palavras novas terminações, como por exemplo, idealidade, religiosidade, progressibilidade, etc. Estas palavras representam novas idéas, e d’ellas nos podemos servir sem escrupulo; de outra maneira condemnemos as Sciencias, e a lingua á immobilidade.

 

 
Nota 5. Pag. 159, v. 16.

As palavras ouvindo do Eremita.

Ha no recinto do amphitheatro Flavio (Colisêo) 14 altares, representando os martyrios de Jesus Christo, no meio uma Cruz; servem esses altares para as estações penitenciaes; ahi vimos na Quaresma quantidade de povo prostrado, escutando as pregações dos Missionarios.

 

 
Nota 6. Pag. 163, v. 7.

......... sabio Spinosa,
Tu nao eras atheo

Spinosa é considerado vulgarmente como atheo; philosophos modernos fazem-lhe justiça. Seu systema da mais alta Metaphysica não tem sido interpretado como devia, que mais pende elle para o pantheismo, que para o atheismo. De sua doctrina claramente se collige que elle concebia um Ser necessario, substancial e perfeito, que é Deos, e o resto só tem uma existencia phenomenal, e contingente. Póde dizer-se, rigorosamente fallando, que não ha atheos; pois que aquelles mesmos que parecem professar taes principios, ou dão existencia a uma substancia primaria, seja o nome qual for, ou se contradizem a cada passo.

 
XXIII.
 
O RISO DA FORTUNA.
 
Não te rias, oh fortuna!Teu riso me é suspeitoso;Contra a desgraça não clamo;Não quero ser venturoso.
   Vai-te, oh fortuna,   Não me atormentes;   Já te não creio;   Em tudo mentes.
Emquanto te procuravaAndei errados caminhos;E das rosas que murcharamSó me restam os espinhos.  Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
Por cousa tão transitoriaÉ loucura amofinar-nos;Os bens que hoje nos outorgas,Amanhã pódes tirar-nos.  Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
Com bem pouco me contento;Conformei-me co’a desgraça;Já me tenho por ditoso,Já regeito a tua graça.   Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
Não sei o que é a ventura,Nem sei si sou desgraçado.Por bens que podem ser males,Eu não troco o meu estado.  Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
Rapidos passam os dias,E a cada passo que damos,Á morte, que é sempre certa,Ligeiramente marchamos.  Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
É só ditoso na terraQuem vive em paz com sua alma;Quem das penas que aqui soffre,Só do céo espera a palma.  Vai-te, oh fortuna,  Não me atormentes;  Já te não creio;  Em tudo mentes.
Albano, Março, de 1835.
 

Roma, no Coliseu

Já que do coração rompeste os seios,
Onde terna saudade te gerara,
E quando mais minha alma nas da Pátria
Idéias se engolfava,
Da clausura do peito te escapaste,
Onde mais não cabias,
Fugitivo roçando inertes lábios,

Triste suspiro meu!... Já que teu eco
O silêncio quebrou misterioso
Do sepulcral horror deste recinto;
Sai, oh suspiro! sai... Não mais ressoes,
Inútil não te percas,
Nestas longas abóbadas quebradas,
Murmurando tu só de estância em estância,
Como um lúgubre som de ave noturna,
A quem prazem as trevas, e os destroços.

Teu doloroso som repercutido
Na oposta parte, tal pavor inspira,
Que um gemido parece das entranhas
Desta imensa ruína;
Eu mesmo que exalei-te, eu mesmo tremo,
E mortos tremeriam se te ouvissem;
Que farão os viventes!

Hirtos na fronte tenho inda os cabelos,
Frio, trêmulo o corpo,
Como um tronco de gelo ao vento exposto;
E o triste coração onde habitaste,
Recobrando de novo o movimento,

Com desusada força ora palpita,
E monótono soa,
Como soa o martelo sobre a incude.

Temem os olhos de se abrir às trevas,
E de ver coroado o anfiteatro
De alvas sombras de mortos, e de espectros,
Que para mais terror me pinta a mente.

Voa, suspiro meu, voa, não tardes;
Núncio vai ser do estado em que me deixas.
O caminho te indico; aos ares sobe;
Deixa de Roma os solitários campos,
Esta terra de sangue, e de cadáveres,
E às praias chega da querida Pátria,
Tão longes praias! — Quem me dera eu vê-las!

Mas no longo trajeto
Vai por mim os lugares visitando,
Por onde eu já passei triste e saudoso.
Oh! quão gratas me são reminiscências!
Delas compõe-se a vida,
Os prazeres são elas da velhice.

Do afadigado albor de um curto dia
Eis tudo o que nos fica!

Toma a Flamínia estrada;
Passa o lúrido Tibre, outrora rubro,
Quando o campo cedeu a Constantino
O bárbaro Maxêncio;
Verás Assis no cimo da colina
As cinzas adorar do santo filho. [1]

Do Trasimeno às margens [2]
A poeira verás de ossos romanos,
E um sussurro ouvirás, que diz: Aníbal!

Chega aos campos que o Arno fertiliza;
Entra em Florença, e em Santa Cruz visita [3]
De Dante a sepultura.
Sentado está com merencório gesto;

Dir-se-á qu'inda do Inferno hórridas cenas
Se lhe antolham; e o mísero Ugolino
Mirrado entre cadáveres corruptos
Dos inocentes filhos, miserandos,
Como esfaimado tigre ossos roendo.
Pousa na destra o rosto, e co'a sinistra
Sustenta o imortal livro;
Chora de um lado a Poesia, e do outro
Itália veneranda está dizendo:
— ONORATE L'ALTISSIMO POETA. [4]

Buonarotti, Alfieri, Machiavelli,
Verás aí também; tudo saúda.
Nem a Toscana deixes sem que vejas
Essa Pisa, onde as Artes renasceram.
Contempla de Bosqueto a maravilha, [5]
O campo santo, a torre que pendente
Ameaça cair como um gigante.
Vai ouvir o sussurro do teu vôo
Nesse museu de mortos de Bolonha.


Ligeiro passa por Modena, e Parma;
Passa de Lódi a celebrada ponte,
Essa que o peso suportou ingente
Do Gênio das vitórias.

Passa o Apenino, e o Pó, e a Milão chega;
E em sua Catedral misteriosa,
Que prostrado me viu venerabundo,
Ao som do órgão sagrado, que reboa
Nas góticas abóbadas, respira
Religioso acento.

Mensageiro de dor, ah! não visites
Outros lugares, que o prazer inspirem.
Cansa o prazer ao homem quando é longo,
Mas tu, melancolia, jamais cansas
Aquém d'alma os arroubos saboreia.

Pela margem do lago, [6] que tranqüilo,
Azul-celeste e puro,
A vida da inocência simboliza,

Os Alpes busca, por heróis trilhado;
Os Alpes, como braços da Natura,
Que erguidos para o céu a Deus adoram.

Sobe o Simplão; penetra as galerias;
Se o nome do Brasil na pedra achares,
Minha mão o gravou, beija esse nome.
Noutra pedra verás meu nome escrito,
Se os gelos o não cobrem;
Sentado aí subi meu pensamento
Té ao trono de Deus, e pela Pátria
Dirigi-lhe meus votos.

Desce, verás de Brigg argênteos cumes, [7]
Que ígneos raios refletem, simulando
Claros elmos de exército em parada.
Continua teu vôo; Sion passa,
Chega à bela Genebra, que se espelha
No lago cor do céu, e no seu Ródano,
Que o remanso do lago veloz deixa,

Para ir levar fertilidade aos campos,
Como, mal que desperta, ao leito foge,
E asinha o lavrador busca o trabalho.

Da infância de Rousseau deixando o berço,
Pobres vilas da França irás passando,
Ricas cidades vendo.
A Poligny chegando, a rocha [8] vinga,
E na gótica estância, que talhada
Foi aí pela mão da Natureza,
Brasil, lerás nas rústicas pilastras.
Numa aba da montanha, junto à estrada,
Onde oculto desliza manso arroio,
Acharás uma imagem veneranda
Da Rainha dos céus, três vezes pura,
Dos cristãos caminhantes protetora.
Inda a seus pés verás murchas saudades,
Por minhas mãos colhidas na montanha.

De cidade em cidade irás vagando;
Entra em Paris, Rainha das cidades.

Mas ah! triste suspiro,
Se esses ares alegres te abrandarem,
Se o seu bulício perturbar teu vôo,
Dos mortos no jardim vai açoutar-te, [9]
E entre jazigos tua dor recobra.
Como me apraz dos mortos o remanso!
Como dos mirtos sepulcrais o aroma
Faz o prazer libar da Eternidade!
Oh grata habitação! Oh paz suave!
Quando às minhas fadigas porei termo?
Oh meu suspiro, se acabar pudesses
Entre outros mil suspiros confundido
Nessa triste mansão! — Mas não, tens inda
De dar tua mensagem.

Passa a sombria pátria de Corneille [10]
Onde se ergue o honroso monumento
Da magnânima Virgem
Pelo céu inspirada,
Que a fereza dos homens queimou viva. [11]


Pelas margens do Sena aos mares voa;
Atravessa o Oceano, tão profundo
Como a dor de minha alma.
Passa o Oceano, imagem do infinito.
Entrarás num imenso ancoradouro,
De altíssimas montanhas torneado,
Onde repousa perenal verdura,
Que as espáduas dos montes engrinalda.
Oh sem-par maravilha!
Resupino, grandíssimo gigante
Ao longe assoma, e do Janeiro a barra
Ao viajor cansado patenteia?
Igual outro não há; errar não podes.
Aí é que te eu mando;
Essa é a Pátria minha, a Pátria amada,
Que a vida deu a quem me deu a vida!
Aí respira ainda a mãe anosa,
O encanecido pai, e irmãos queridos!
Verás se para amá-la razão tenho!
Mas não me capta amor grandeza sua.
Pobre fosse ela, pequenina aldeia,
Por ela meu amor igual seria;
Que este nome de Pátria é tão suave

Como o nome de mãe, de pai, de amigo;
E a mãe, e o pai, e o amigo inda que pobres
A um nobre coração gratos são sempre.

Venturoso suspiro,
Antes que em doce riso te convertas,
Nesse mágico céu da Pátria minha,
À paternal mansão ligeiro adeja
Como o meu pensamento;
Beija dos caros pais as mãos rugosas,
E soluçando diz-lhes,
Que o filho humilde a Deus rogando fica
Por eles, pela Pátria;
Sobre os restos de Roma, pensativo,
Um suspiro exalou, que à Pátria envia.

Roma, 20 de fevereiro de1835

Notas do autor

[editar]
  1. San Francisco de Assis, cujas cinzas estão no convento de sua patria.
  2. Hoje lago de Perugia.
  3. Igreja de Santa Cruce, chamada o Pantheon Florentino, onde estão os tumulos de alguns homens celebres da Italia.
  4. A estatua alegórica representando a Italia aponta para este lettreiro, que está gravado aos pés da estatua de Dante Alighieri.
  5. A cathedral de Pisa é obra do arquiteto Bosqueto.
  6. Lago Maggiore.
  7. As torres, e os zimborios de Brigg são todos coroados de bolas de ferro branco, e com os raios do sol luzem como si de prata fossem.
  8. O monte Jura. Veja-se p. 132, Uma Manhã no monte Jura.
  9. O cemiterio do Père La Chaise.
  10. Corneille nasceo em Ruão em 1606.
  11. Jeanne d’Arc (Pucelle d’Orléans), queimada em Ruão em 1431.

Ao meu ilustre mestre e amigo O Reverendíssimo Senhor Fr. Francisco de Monte-Alverne

Eis-me em Roma! Da Pátria tão distante!
Inda de vós conservo tal lembrança,
Que às vezes se me antolha a imagem vossa;
A ela me dirijo, falo, escuto,
E cuido que ela me ouve, e me responde.
Como de um tão bom mestre, tão amigo
Poderá o discípulo esquecer-se?

Quantas vezes aqui, nos sacros templos,
Ouço santas palavras destes padres;
Cuido ver-vos no púlpito elevado;
Mas desconheço as vozes, e nem sinto
Bater-me o coração dilacerado
Da grave dor cristã; nem em transportes
Subir minha alma ao céu como um eflúvio
Da flor erguido; então saudoso exclamo:
Quem me dera inda ouvir o grande Alverne!

Roma é bela, é sublime, é um tesouro
De milhões de riquezas; toda a Itália
É um vasto museu de maravilhas.
Eis o qu'eu dizer posso; esta é a Pátria
Do pintor, do filósofo, e do vate.

Embalde Roma invoco, e a musa empenho,
Para um quadro traçar destes prodígios;
Sem cessar uma voz me fala n'alma:
Da louca pretensão que te alucina,
Desiste, oh fantasia! não te é dado
Achar uma linguagem tão facunda,
Tão sublimes imagens com que pintes
Dignamente esta imensa maravilha.


Como é possível descrever ao vivo
Todo o horror da montanha que vomita
Fogo, lavas, e fumo do ancho seio?
Quem pode retratar a majestade
Do vasto Coliseu, quando o argenteia
Do noctículo globo o incerto lume,

Seus raios pelas fendas enfiando?
As projetadas sombras como espectros;
Rotos muros, longuíssimas abóbadas;
Um gemido escapado de repente
Do pobre, que ante a Cruz seus males chora;
Um fúnebre arquejar de ave sinistra;
Uma voz, que além soa murmurando?
Quem narrar pode os pensamentos todos,
Que d'alma em torno em turbilhões volteiam,
Inda mais pavorosos que as ruínas?

Quem, penetrando as negras catacumbas,
Escondidas da terra nas entranhas,
Dos mártires cristãos leitos de morte,
Onde não entra o sol, nem entra a lua,
E só pequena luz, na mão do guia,
Trêmula, moribunda bruxuleia,

Como pálida estrela, ou como um olho
Do gênio habitador daquelas trevas;
Quem não se enche de horror? Quem falar pode?
Só ver, e emudecer; a língua é fraca;
As grandes comoções não se descrevem.

Como é tão eloqüente a lisa pedra
Que só diz: — Aqui jaz Torquato Tasso!
Quando todos os mármores ligados,
Inda assim receber não poderiam
Seus versos imortais por epitáfio!

Assim eu, receando dizer pouco,
Não podendo pintar tanta grandeza,
Eloqüente serei nada dizendo.


Roma, abril de 1835

Ao Ilmo e Exmo Sr. José Joaquim da Rocha, [1]

Dignatário da Imperial Ordem do Cruzeiro, deputado da ex-Assembléia Constituinte do Brasil, ex-ministro Plenipotenciário nas cortes de Paris e de Roma etc.

Os serviços que prestastes à Pátria; o amor, e o respeito que vos consagram os brasileiros residentes em Paris; o título de Pai com que eles vos honram; o seu legítimo pesar, e as lágrimas que vistes correr de seus olhos, no momento em que deles vos separastes, que bem previam eles que um vácuo tinha de ficar em seus corações; são os jus­tos motivos que me inspiraram estes mesquinhos versos, que hoje vos ofereço. Possam eles ser tão gratos à vossa alma, como a todos nos será grata a vossa lembrança.

Roma, abril de 1835

XXVI.


Folga minha alma, quando se me antolha
A cândida virtude,
E Varões dignos de louvor me indica.
Eu prostro-me a seus pés venerabundo;
Que a mente minha, de louvar ansiosa,
Encômios jamais nega à heroicidade.

Apareça quem já colheu aromas,
Que impura a minha destra
Nas aras da lisonja profanara.
Descerra os lábios, rígida virtude,
Diz se ouvidos teus já se irritaram,
Se coraste de pejo ao ouvir meus cantos?


Não, não, tu me respondes; fiel sempre
Aos sacros meus ditames,
Hinos teceste à Pátria, à Liberdade,
E a Varões beneméritos, que eu prezo.
Canta, canta; que é esse o único prêmio
De quem sem egoísmo à Pátria serve.

Orgão é da verdade a consciência;
E da virtude é órgão
O coração que fala, e nunca mente.
Firme Varão, imóvel nas tormentas
Que vezes o Brasil amedrontaram,
Rocha, quem no Brasil teu nome ignora?

Tu foste um dos primeiros que firmaram
A Independência nossa.
De tua alma o vigor, e o entusiasmo,
Os povos animavam, que te ouviam;
E unindo-se em prol da augusta causa,
Para ser seu apoio te escolheram.


Quando a injustiça e a ingratidão armadas
Os raios da vingança
Contra os Varões da Pátria fulminaram,
Salvo não foste, não; a Pátria viu-te,
Inda no seu desmaio, com teus filhos
Inocentes, marchar ao injusto exílio.

Quem não sabe que a morte te aguardava,
Dura, afrontosa morte,
Nessa terra, onde algemas se forjavam
Para o Brasil escravizar de novo?
Quem perfídia tão negra não conhece,
E os intentos da cega tirania?

Da sorte das Nações só Deus decide.
Quando elas o invocam,
E credoras se fazem do que aspiram,
Deus um Anjo velar sobre elas manda;
Esse Anjo tutelar não mais as deixa,
Esse Anjo é quem contrários planos burla.


Por milagre desse Anjo salvo foste;
Por milagre desse Anjo
Cem, e cem vezes o Brasil foi salvo
Das cruas garras de cruéis abutres;
Só por milagre dele em breve espero
Ver o Brasil subir à mor altura.

Oh! que doce é no meio dos perigos
De horrenda tempestade,
Já lânguido de fome, e de fadiga,
Ver aberta numa onda a sepultura,
E armada contra si dura companha [2]
Exclamar: — Tudo sofro pela Pátria!

Outro tanto dizer muitos não podem.
Digno tu és de inveja!
Ah! se invejosos tens, eu os desculpo.
Sempre a inveja assim foi; sempre ela investe
A quem mais por virtudes se distingue;
Sempre vilões Aristides tiveram.


Mas quando a imparcial posteridade,
Que só a láurea outorga
A quem por ações nobres merecera,
Teus títulos julgar, ela gostosa
Tecerá teus encômios; e o meu hino
Á memória dos homens será grato.

Quem deu fulgor ao sol, deu alma ao homem,
Também cobriu os campos
Co'o brilhante matiz de lindas flores;
Nem porque de mil sóis mantém a ordem,
Desleixa as pequeninas criaturas
Ao acaso, sem lei, sem um instinto.

Assim o homem digno de tal nome,
Que memorandos feitos
Em prol da Humanidade praticara,
Não despreza as domésticas virtudes;
Aquelas de imortal glória o revestem,
Estas o resplendor da glória esmaltam.


Quantos o Mundo viu Coriolanos,
Que o esclarecido nome
Infamaram depois com ações negras?
Tu porém sempre firme, sempre o mesmo,
És à Pátria fiel, e a vida tua
Sempre tem sido de virtude exemplo.

Abril de 1835

Notas do autor

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  1. Já não existe: mas seu nome caro a todos os que o conheceram, vivirá na nossa historia.
  2. Não ficção poética, mas realidade encerram estes versos: que na viagem para o lugar do exílio, depois de horrível tempestade, e já perto de Vigo, elevou-se a tripulação contra o commandante e os passageiros.

A meu amigo Francisco de Sales Torres Homem

É sublime o espetáculo, que ofrecem
Da prisca Roma os pálidos destroços,
Quando da noite a plácida lanterna
Branquejando na abóbada cinzenta,
Seu fúnebre clarão, como alvas flores,
Entre eles vagamente enfia, estende.
Tudo é confuso então, tudo é mistério,
Tudo infunde pavor, melancolia!

Dos sonhos na mansão julga-se a mente,
De escarpados rochedos rodeado,
De sombras, de fantasmas, que vagueiam,
Que num arco se escondem, noutro surgem.

Os fanais que no campo amarelejam,
Circulados de auréolas moribundas,
A lembrança despertam desses fogos,
Que às vezes os cadáveres exalam
De noite, das recém-abertas campas.

Que profundos, terríveis pensamentos
A uma alma pensativa não inspiram
Estas relíquias da grandeza antiga
Da augusta mãe de heróis, que agora vemos
Como num cemitério esparsos ossos
Ao tempo branqueando. Aqui o homem
Estrangeiro não é; ele conhece
Estas ruínas, e com elas fala
Uma mística língua, que alma entende.
Mas ah! inda esta terra hoje é manchada
Com sangue humano! Ind'hoje estas colunas

Dos derrocados templos de ímpios deuses,
De ímpios Romanos os punhais ocultam.
Nem no reino da morte há segurança!
Por toda parte o crime o homem segue!

Não passeiam aqui brancos fantasmas
Entre os sombrios arcos nem as grutas
Do palácio dos Césares somente
Ao mocho gemedor asilo prestam.
Não, não; são assassinos que profanam
Deste precinto o lúgubre silêncio,
Tão propício aos filósofos, e aos vates.

À sombra das ruínas solitárias
Oh! que nefandos crimes vis sicários,
Da Humanidade opróbrio, não perpetram,
Sem temor do seu Deus, e da justiça!
Como que calejada a consciência,
Cansada de gritar, os abandona.

Como de nós tão perto a morte vimos,
Neste mesmo lugar, onde sentados
Ouvimos soluçar ave agoureira,

Que no templo de Vênus acoutada,
Sufocados gemidos arrancava
Do íntimo do peito; como um homem,
Que nas vascas da morte, em vão lutando,
Sem esperança já, socorro implora.

Oh severa ciência, tu condenas
Estes, da nossa infância, preconceitos.
Mas quem pode negar que ruins desditas
Pressagiadas são milhões de vezes?
Se a negra borboleta que esvoaça
Em torno do casal, e nele pousa;
Se o tétrico carpir de ave noturna;
Se d'alma o repentino abatimento
Certas palpitações inopinadas;
Os sonhos, as visões, nada anunciam;
Se é falsa crença de alma alucinada,
Que à infância, e à velhice o medo incute,
Ao menos na do homem própria essência,
Misteriosa essência, apoio encontra;
Que a Razão, do céu filha, não tão fácil
Se eclipsa pela opaca sombra do erro.
Não se opõe à Razão a crença nossa,

Que nem sempre à Razão o céu concede
A mina profundar inescrutável,
Onde de efeitos mil se oculta a causa.
Que mistério é maior que o gérmen do homem?
Que mistério é maior que a vida sua?
Que mistério é maior que a sua morte?
Oh mistérios sublimes! — Donde, oh homem,
A evidência te veio, que este mundo,
Que fora de ti vês, real exista?
Na terra para mim tudo é mistério,
Eu, o que sei, e tudo quanto ignoro.

Dia aziago foi todo este dia,
Desde o surgir do sol, té seu ocaso
O coração pejado de tristeza
Procura a solidão, ama o mistério.

Bela era a noite, mais que o dia bela!
Alvinitente a lua rutilava,
Como um rosto de virgem pudibunda,
Que em seu jardim passeia solitária.
Ao Capitólio fui, e foi comigo
O Amigo fiel; juntos passamos

De Tito o arco, e ao pé do Palatino
De um mocho ouvimos hórridos gemidos,
Que os ares magoavam, ressoando
Do Coliseu nos longos corredores.
Um pouco repousamos sobre o muro
Do cesáreo palácio esboroado.
O mocho carpidor gemeu três vezes;
Os nossos corações se apavoraram,
E ambos involuntários suspiramos.
Tristes versos, que a mente ali ditou-nos,
Com lutuosas vozes repetimos.
Depois de meditar sobre os presságios,
Marchamos para o Flávio anfiteatro.

Co'um archote na mão, de estância em estância,
Cobertos de compridas, brancas vestes,
Como fantasmas gravemente andando,
Mais e mais o horror destes recessos
Destarte nossos vultos aumentavam.
Oh! quem pode narrar cenas tão fúnebres?
Do archote a luz o teto avermelhava,
Co'a fria luz da lua contrastando;
Cinéreo fumo, deslizando em ondas,

Fugitivos duendes simulando;
E para mais pavor, do fundo peito,
Deixávamos sair longos suspiros,
Que em toda a galeria reboavam.

Cansados de gozar de mil maneiras
Essas cenas sublimes, regressamos
Para o nosso aposento, atrás deixando
O arco triunfal de Constantino.
Tudo estava em silêncio, imóvel tudo;
Só ressoava o som dos nossos passos,
E ante nós nossa sombra caminhava.

Eis que chegando ao sítio onde sentados
Ave sinistra soluçar ouvimos,
Três, de punhais armados, negros vultos,
Como da terra erguidos, nos investem
Qual nosso susto foi! Nos feros rostos,
Nos cintilantes olhos desses monstros
De suas almas vis o intento lemos.
Nas lâminas luzentes co'os reflexos
Do claro astro da noite, e que apontadas
Sobre os peitos estavam, nossa morte

Com cor sanguínea víamos pintada.
Só pelo Amigo cada qual temia.
E qual foi, oh minha alma, nesse ensejo
O pensamento teu?... A Pátria! A Pátria!
Não mais vê-la: — Morrer tão longe dela;
Sem por ela ter feito um sacrifício!
Distante de meus pais... Oh Providência!
Ouviste o coração que te invoca,
E tu salvaste o Amigo, e me salvaste
Das cruas garras dos sedentos tigres.
Mais que o áureo metal é cara a vida;
Para louvar a Deus vivos estamos.

Roma, 11 de abril de1835

Do céu as estrelas
Acaso no brilho
São todas iguais?
São umas mais belas,
E outras parecem
Funéreos fanais.
Assim são os fados
Dos tristes mortais.


Cada qual tem sua sorte;
Um foi para a dor gerado,
E outro pela ventura
Ao nascer foi embalado.

Quanto mais penso, mais creio
Neste mistério profundo;
E a mim mesmo então pergunto:
Para que vim eu ao mundo?

Como resposta esperando,
Escuto silencioso;
No coração, que palpita,
Murmura um som lutuoso.

Soa essa voz em meu peito
Como em caverna profunda,
Como um suspiro exalado
Pela vaga gemebunda.

Para a dor, me diz, nasceste;
Para a dor, para o tormento;
Teus males só terão termo
Co'o teu último momento.


Sofrer, tal é meu fado! — Eu me resigno.
E que hei de fazer? Curta é a vida...
E quem me tolhe qu'eu de todo a encurte?
Não serei livre de lançar por terra
Um fardo que me acurva, um fardo inútil?
É a vida para uns néctar suave,
Tóxico é para mim;... devo tragá-lo?
Acaso Deus me disse
A ti toca sofrer por mil que gozam.

Mas eu blasfemo, oh céus! Que voz me grita:
"Mortal, olha o que fazes! Contra a vida
Não ouses atentar. Quem vida deu-te
Só quando lhe aprouver tirar-ta pode."

Oh meu Deus! compaixão; minha alma humilde
Graça implora da sua insana idéia.

Rir, ou chorar, eis só o que o homem sabe;
Se não canta, blasfema!

A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.


Qual a esponja de líquido embebida,
De perpétua, letal melancolia
Pejado tenho o peito;
Minha alma amortecida,
E como que em seu túmulo encerrada,
Só pela dor à vida é revocada.

Oh minha alma, tu és como a lanterna
Do cemitério,
Que ante o altar, sobre um esquife solta
Palor funéreo.

A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.

Oh prazer! Oh doçura da existência!
Meta tão desejada
De todos os mortais, para quem inda
Brilha no céu a estrela da esperança.
Oh benigno sol, que a vida aqueces,
Para mim te eclipsaste!

E se às vezes fosfórico lampejas,
Quando eu, afeito à dor, não te desejo,
É para exacerbar meu sofrimento.
Ah! nem me afaga da esperança o riso,
Nem me consola amor; tudo me foge.

A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.

Bolonha, maio de1835


Em Ferrara

Que vim eu aqui ver? — Uma masmorra
Úmida, estreita, onde respiro apenas!
Se a fronte elevo, o negro teto roço;
Se estendo os braços, a largura abranjo;
Dous passos bastam a medir seu fundo.

Que vim eu aqui ver? — Nomes escritos
De um lado e de outro de centenas de homens,
Que como eu curiosos peregrinos
Vieram visitar este recinto.

Vós, meus olhos, nada vedes;
Mas minha alma no passado
Um vate vê encerrado
Nesta lúgubre prisão.
Aqui chorou longos dias,
Longas noites, longos anos,
Quem por olhos soberanos
Enlouqueceu de paixão.

Tasso aqui como um escravo
Amargurou a existência;
De um senhor a inclemência
A morte aqui lhe quis dar.
Triste ele a ausência carpia
De sua cara princesa.
Seu amor, sua beleza
Causaram só seu penar.

Livre, qual Deus o criara,
Entre ramos adejando,
Melodias exalando,
Passa a vida o rouxinol.
Saúda o sol quando nasce,
Redobra o canto co'o dia,
Enche os ares de harmonia,
Geme ao deitar-se do sol.

Mas se preso na gaiola
Mão tirana o encadeia,
Inda assim ele gorjeia,
Para dar alívio à dor.
Assim, oh grande Torquato,
Neste cárcere horroroso
Gemer te viram saudoso
A Liberdade, e o Amor.

Fado! Fado do vate!... A Itália toda
As doçuras gostava de teus versos;
Gofredo ao céu da glória remontava
Sobre as sonoras asas de teu gênio;
E tu, oh Tasso, aqui nesta masmorra
Como um vil criminoso definhavas!
Fado do vate! rigoroso fado!
Mas Tasso ousou amar de um duque a filha!
Oh Ferrara! cem duques teus cingidos
De áureas c'roas, de púrpura cobertos,
Um só Tasso não valem.
Um vate é mais que um rei. Reis faz o povo,
E a seu grado os desfaz, como do mármore
Tira o escultor um Nume, e quando apraz-lhe
Em simples animal converte-o, ou quebra-o.
Mas tu, sagrado fogo d'harmonia,
Quem te acende nas almas dos poetas?
O mágico poder com que convertes
Aquiles num herói, Páris num fraco,
Acaso dos mortais herdaste, oh vate?
Ou foi prenda do céu a lira tua,
A lira, que imortais sons desferindo,
Vive no tempo, e impõe silêncio à inveja?

Muros desta prisão! muros, que outrora
Um tesouro encerrastes,
Vós, que insensíveis testemunhas fostes
Dos suspiros de Tasso,
Dizei, muros, se acaso vós pudestes
Tolher do engenho as asas?
Ou se o tirano a glória nodoou-lhe?
Vingou a Humanidade a afronta sua,
Como um astro no céu Tasso rutila,
E o nome do tirano negrejando,
Aumenta-lhe o fulgor, que o ilumina.

Mas oh da Providência altos arcanos!
Que mais sofra na vida, quem co'a morte
Nova vida imortal viver começa!
Assim homens ingratos,
Enquanto vivo o mérito premiam!
Ah! consola-te, oh Tasso,
Que o único não foste, que da sorte
Sorveu tragos amargos.
Quase é do vate estrela o infortúnio!
Como os mártires são, que só morrendo
A apoteose recebem.
Aquele a quem a Grécia ergueu altares,
Homero, mendigou de porta em porta!
Tu, oh Ravena, o fugitivo Dante
Viste iracundo praguejar seu fado.
Camões, rival de Tasso, o pão esmola
Ante os olhos de Lísia. E tu, oh Silva,[1]
Da minha Pátria filho,
A fogueira subiste com pé firme,
Que a inocência teus passos vigorava;
E entre as chamas, por mãos ímpias acesas,
Teu último suspiro ao céu subiste.
Ante esse bruto povo,
Que outrora te aplaudira.
Tu Cláudio octogenário,[2] na masmorra
Para a afronta evitar te deste a morte.
Lá de horrenda prisão correm ferrolhos,
A dura porta se abre,
Lá sai Dirceu[3] saudoso, suspirando
Pela cara Marília,
Lá vai morrer proscrito
Nas inóspitas plagas Africanas.
Fado do vate! rigoroso fado!

Porém dos vates
Por que lamento
A triste sorte?
Pode o tormento,
Ou pode a morte,
Inda que seja
Dura, afrontosa,
Fazer que a história
Não perpetue
Sua memória?
Raivosa a inveja
Arme- se embora,
E os acometa.
Do vate a glória,
É qual planeta,
Que no céu mora,
No céu lampeja,
Para honra dos humanos,
E opróbrio dos tiranos.

Ferrara, 3 de maio de 1835

Notas

[editar]

</references>

Bem quisera, oh, bela virgem,
Hoje extrair de meu peito
Algum suave perfume,
Em sinal do meu respeito.

Quisera na minha lira
Cadenciar algum hino,
Com que louvasse os encantos
Desse teu rosto divino.


Mas temo, temo que o peito,
De gemer já fatigado,
Em vez de cantar, exale
Um suspiro magoado.

Ah! temo, temo, acredita,
Que a minha fúnebre lira,
Em vez de entoar um hino,
Só triste nênia desfira.

Ah! tu cuidas, bela virgem,
Que é feliz todo o vivente?
Inda estás no albor da vida,
Tens uma alma inda inocente.

Não; tu me vês peregrino,
Errando de terra em terra:
Mas, oh, virgem, tu não sabes
Que dor o meu peito encerra.


Veneza, maio, 1835

Como é bela a Natura!
Pode o parto de um gênio em febre intensa
Rivalizar tais cenas?
Ver das águas a queda ruidosa
Deslizar entre seixos, formando
De cristal mil festões, que se esmaltam
Da palheta do íris, pintando
Retab'los, onde o toque da mão mestra

Em matiz variado delineia
Sucessivas belezas, como a idéia,
Que outra idéia desperta, vinculando
Das sensações o quadro reanimado;
Onde terna saudade em ledo arroubo,
Volteia esperançosa
Sobre as asas divinas da memória,
Que em seu grêmio renova eras passadas;
Misteriosa fênix de nossa alma!
Propércio e Cíntia,
Catulo, Horácio,
Mecenas, tudo
Do antigo Lácio
Patente sobre as ruínas vejo errarem,
Como nuvens de fósforo cerúleo,
Ou vapores num lago, matutinos,
Ou nas selvas noturnos pirilampos.

E tu, oh linda Zenóbia,
Que com teu pranto nutriste
Estas águas sempiternas,
E solitária carpiste
Tua coroa, teu cetro,

Armadas, marmóreos paços,
Vastos templos de Palmira,
Que Roma fez em pedaços.
Já foste Paládio, e ídolo
Do teu povo soberano;
Mas quebrou-te o templo, as aras,
O iconoclasta Romano.
Vem, princesa desgraçada,
Vem solitária comigo,
Vem chorar a antiga glória,
Que eu também choro um amigo.

Se ora invoco teus manes neste ensejo,
Não turbo as régias cinzas, que humilhadas
No exílio findaram sem momento.
Como tu, solitário a vida gemo,
E a passada ventura, que gozara,
Entre amicais amplexos, venturoso.

Mas que voz na soidão remonta aos ares?
Celeste Querubim baixa do céu,
E na flauta divina exalta o hino,
Que a terra a Jeová diurna envia.

Mas não; alto prodígio se levanta;
Providente Natura
Companheiro me envia; alado vate,
Homero da floresta,
Em melódico metro, o estro exalça,
Meus suspiros conforta, adoça as mágoas.

Salve, oh vate Rouxinol,
Salve, à luz misteriosa
Deste archote, que de noite
Faz a terra duvidosa.
Salve, oh Lua alvinitente,
Mãe de amor, do vate amante,
Do silêncio grata esposa,
Salve, salve neste instante!

Mas quem turba teu manto de silêncio,
E a voz levanta em prolongado ronco?
São as do Anio
Tartáreas águas,
Que sempre vivem
Quais minhas mágoas.
Da história imagem,

Das estações
Vivo retrato
Seus borbotões;
Qual vida, e morte,
De vaga em vaga,
Se esconde, e surge,
Se acende, e apaga.
Assim batem as águas rugidoras,
Que os átomos confundem, dilatando
A contínua torrente, que retrata
Do infinito a imagem!

Onde está o infinito, oh Deus Eterno?
Esse marco onde esbarra a mente humana,
Que sem tino volteia titubante,
E no abismo do peito se aprofunda,
Face a face encontrando a consciência?
Oh consciência, ao teu clarão se rasga
O véu das ilusões! Ele nos mostra
Das paixões o troféu dentro do túmulo,
E ao pé quadro da vida, que demonstra
O nada da vaidade, e o desengano
Majestoso sentado

Na cadeira da escola da verdade,
Donde colhe a virtude os seus ditames!

Pálida Lua, teus suaves raios,
Que plácidos se esbatem nas campinas,
E as fugitivas ondas argenteiam,
Da consciência nossa a imagem pintam,
Que fala ao coração com tal potência,
Sem nos lábios volver um som de frase.

Misterioso acento, alta harmonia
Desenvolve a Natura em seus concertos.
Enquanto a voz uníssona do Anio,
Que em equóreos cilindros vai rolando,
E entre seixos ribomba,
De medonho fragor o ar pejando;
Canoro rouxinol prelúdio exalta,
E sublime se acorda ao som horrível,
Que as águas tangem em contínuos vórtices
Entre o limo, e as areias das cavernas,
Variando as estrofes; lá prolonga
Suavíssimo gorjeio, que se perde
Em ventrílocos ecos; quais soluços

De enamorada virgem, que receia
Do coração trair ternos afetos.

Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.

Mais sublime retoma o retornelo,
Em agudos sibilos elevando-se;
Quebra a voz; vem morrendo suspiroso;
Doce, e doce remonta, enche o espaço;
Majestoso se espraia, floreando;
Qual rojão que remonta além das nuvens,
E no ar arrebenta um firmamento
De efêmeras estrelas luminosas.

Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.

Melancólico entoa em nova escala
Amorosa canção, que invejam dúlias:

Té que alfim tiritando se arrebata,
Entrecorta o trinado, e pouco a pouco
Em fluente florido se evapora.

Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.

Mesclado efeito de sublimes notas,
Ora forte, ora lento vai soltando;
Finge o pranto, sorri-se, e desenvolve
Insólita harmonia, que assimilha
Batalhões com clarins, rufos, e tímbalos;
Emaranha um confuso regorjeio,
Que se perde num som prolongadíssimo.

Triunfante cala a cítara,
Desaparece qual relampo.;
Ronca a onda sempre a mesma,
E o silêncio toma o campo.

Oh Rossini das aves, tu que buscas
A soidão, o silêncio,

Pra teu canto esmaltar sem o marulho
Da vigília do dia; e como um gênio,
Que no leito desdobra mil prodígios
Ao cansado mortal em grato sonho,
Nesta hora me recordas
Ao coração lanhado imagens ternas,
Tão tristes, que ante mim se desenrolam
Qual penacho de fumo
De apagado brandão junto ao esquife,
Que um cadáver de virge'avaro oculta.

Oh Rossini das aves, que linguagem
Teu discurso soltou? Não é da terra.
Ah! cantas porventura
Os fastosos anais, a decadência,
Os triunfos, e a queda dos Romanos?
A saudade, as delícias da amizade,
Ou a história amorosa de uma vítima?

Marmóreos átrios, áureos peristilos,
Conquistas dessa indústria, que assoberba
A terra, o mar, os montes, e os abismos,
Tudo o tempo desfez co'a mão dos séculos.

Sibilinas paráfrases
De místicos oráculos,
Que o futuro previam, não previram
Essa mãe de desastres
Cimitarra de Totila,
Que a Palestra, o Ninfeu, a Academia,
E mais d'arte primores derrocara
Nesse mundo do belo, que Adriano
Colocara engenhoso sobre a encosta
Das ridentes colinas, que te adornam,
Oh decantada Tibur!
Qual túmulo sagrado, o viajante
Vem teu solo beijar, e espavorido
Desses restos augustos que te cobrem,
Vai na pátria narrar tais maravilhas,
Maldizendo a ignorância, e Caracala.

Esta, outrora soberba, áurea cidade
Minha imagem retrata em quadro icônico!
Onde está teu Liceu, onde o teu Foro?
Os teus templos, e muros formidáveis?
Que sepulcro encerrou os Paladinos?


Eleva, eleva moles gigantescas,
Pelo gênio das artes inventadas,
Oh vaidoso mortal! marca os teus fastos
Com marmóreos padrões; que o dia chega
Em que, a um leve aceno do destino,
Com teus paços irás dormir na terra.
Novos combros de areia gera um vento,
Que outro vento derruba, nivelando-os.

Muros reticulares
De calcinada argila,
Que arrendadas abóbadas sustentam,
De grinaldas de amoras adornados,
Em vão querem mostrar primeva pompa.
Onde outrora tangeu Horácio a lira,
E Tibulo chorou ternos amores,
Mortais serpes se enroscam,
Aguardando findar pastor incauto,
Que a fadiga do sol chama ao repouso.

Sobre o alto das colinas,
Que em torno ao Anio vecejam,
Vis choupanas, restos sacros,
Inda glória mal lampejam.


Teus acantos de Corinto,
E o teu luxo oriental,
Jazem na terra, e aos insetos
Servem hoje de pousal.

Mas, oh Deus, se a vista volvo
Ao Catilo, e suas águas,
Lá no templo da Sibila
Vão findar as minhas mágoas.

Supina Tibur, espraia
No horizonte larga vista,
Vê como geme na terra
A Rainha da conquista.

Como tu, mudei de aspecto;
Já me viste rico, ufano,
Quando junto ao meu amigo
Te saudei lá do Lucano.

Onde vás, Peregrino estudioso?
Em que albergue feliz pedes pousada?
Acaso sobre um túmulo deserto

Entre rotos sofitos,
Na cítara brasília merencório
Teus suspiros a Deus grato sublimas?
E baixando ao amigo, também sentes
No ádito do peito,
Como ele, trespassar-te agra saudade,
Que fere o coração, e ilude a mente?
Se a mansão de Petrarca,
Nas Colinas Euganeas, visitares,
No marmóreo portal grava estas linhas:
"Se junto, ou longe
"Da Laura diva
"A lira altiva
"Tangeste sempre:
"Qual tu, o amigo
"Saudoso agora,
"De mim se lembra,
"E por mim chora."

Tivoli, maio de 1835

ARAUJO PORTO-ALEGRE.

Não era noite, nem o sol brilhava;
Mas do céu as estrelas rutilantes
Com branda luz os ares perfumavam;
E nas águas azuis, dormentes águas,
Que Veneza circulam com cem braços,
Os celestes fanais, e a casta lua
Suas belas imagens balançavam.
Outro céu esse lago parecia.

Eram dous céus! Veneza em meio estava,
Como um astro que parca luz emana.
O leão de São Marcos inda eu via;
A torre esbelta, o gótico palácio,
E a ponte dos suspiros.

Mas tudo, tudo
Deixar devia,
Antes que o dia
Amanhecesse,
E desfizesse
Quadro tão belo.
A mão do escravo
Obediente
Maquinalmente
Já martelava
O fatal bronze;
Pancadas onze
O ar vibrava.
Triste e choroso [4]

Teus versos lia,
E de saudade
Me enternecia.
Teus versos lendo,
Fantasiava
Que te escutava;
E que assentado
Inda a meu lado
Te estava vendo.

Já para responder-te preparado
A amizade invocara,
E cravados no céu os olhos tinha.
Mas a hora fatal gelou-me o arroubo!
Alerta o gondoleiro me esperava;
Partir... deixar Veneza era forçoso.

Co'os teus versos nas mãos, tu em minha alma,
Na gôndola pus pé; saudei Veneza;
E co'os olhos em lágrimas nadando:
Adeus, Veneza, eu disse,
Adeus, adeus, marítima cidade;
Decaída Rainha do Adriático.



Eu suspirava ainda;
A gôndola do cais se ia afastando,
E do grande canal sulcando as águas,
Quando vozes ouvi: era o barqueiro,
Que ao compasso do remo recitava,
Com monótona voz, porém saudosa,
Do vate de Sorrento os doces carmes.

Tudo então repousava;
Veneza ao longe iluminada eu via,
Como um céu estrelado.
O esquife brandamente deslizava,
As sonolentas águas despertando,
Qual negro mergulhão de argênteo rostro,
Ou qual cisne de luto revestido.
Por que tão curta foi noite tão bela?
Ah! quem nunca deixou pátrias devesas,
Quem de um amigo não chorou a ausência,
Nem de uma amante a perda,
Gozar não pode em solitária noite
Esta doce impressão, que alma sufoca.

Tomei terra em Fusina;
Arqua deixei, onde habitou Petrarca;

Ábano, que por ser de Lívio pátria,
Ainda hoje se ufana;
E na crastina aurora saudei Pádua,
Ao som da melodia encantadora,
Que ao sol nascente o rouxinol tributa.
Pela segunda vez vi seus palácios,
Seu templo semi-árabe, que outrora
De Antônio repetiu sacros acentos.

Visitei de Vicenza os monumentos.
Em Montebelo recordei prodígios
Do armipotente Lannes.
Eis-me em Verona alfim, oh caro amigo!
Já vi seus mausoléos,e o anfiteatro,
Que Roma, e o Coliseu me está lembrando;
O Coliseu, que juntos vezes tantas
Ao triste albor da lua visitamos!

Tudo a memória,
Doce tormento,
Neste momento,
Me está narrando,
Sem omissão;

E a cada folha
Da nossa história,
Que vai passando,
Pungente espinho
Me vai varando
O coração.

Sempre a teu lado
Vivi contente;
A ti ligado,
Uma vontade
Só nos unia;
Vera amizade
Nos apertava.
Se triste estava,
Tu me alegravas;
Em ti vivia,
Contigo ria.
Se me dizias:
Sou teu amigo,
Eu como um eco
Te repetia.
Era um exemplo

Nossa união.
Mas quis a sorte,
Sempre inimiga,
Atormentar-nos,
E separar-nos
Por algum tempo;
Desde esse instante
A dor pintou-se
No meu semblante;
Mas só a morte
Dará um corte
Ao laço santo,
Que nos prendeu;
Se poder tanto
O justo céu
Lhe concedeu.

Vai, meu suspiro,
Vai ver o amigo,
Que te deseja
No seu retiro.
À Roma adeja,
Deixa-a, e te inclina

À Palestrina;
Chega ao abrigo
Onde ele pousa;
Aí repousa,
Suspiro meu.

Verona, 12 de maio de 1835

Notas do autor

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  1. Antônio José da Silva, natural do Rio de Janeiro, poeta cômico, foi queimado vivo num auto-de-fé, em Lisboa, em 1739, porque, dizia-se, era judeu.
  2. Cláudio Manuel da Costa, conhecido com o nome de Glauceste Saturnino, distinto poeta, de quem correm algumas poesias impressas, sendo acusado, já avançado em anos, e preso com outros ilustres poetas, deu-se a morte na prisão.
  3. Tomás Antônio Gonzaga, tão conhecido com o nome de Dirceu, imortal nas suas liras. Nós lhe consagramos esta nota, porque, de quantos têm lido suas liras e nem todos sabem que reais foram as suas desgraças; comprometido com Cláudio Manuel da Costa, e Alvarenga, foi condenado ao desterro para Moçambique, onde expirou. Como Petrarca, imortalizou-se com suas poesias eróticas, e o nome de sua Marília será tão célebre como o de Laura, quando os brasileiros prezarem mais os seus literatos.
  4. Há em Veneza, na praça de S. Marcus, uma torre chamada do Relógio; em cima um sino, e duas estatuas de bronze com martelos nas mãos, marcando com eles as horas.

Ah! não queiras saber por que suspiro;
Por que geme minha alma, como a rola,
Que outro canto não tem senão queixumes,
Com que magoa os ares.

Ah! não me inquiras... Se chegar tu podes,
Ao través de meus olhos, à minha alma,

Verás que o rosto meu assaz explica
O que nela se passa.

Dirás, talvez, que injusto me lastimo;
Qu'inda possuo um pai, qu'inda mãe tenho,
Qu'inda um amigo aperta-me em seus braços,
E proscrito não erro.

Mas que importa tesouros tais possua,
Se gozá-los não posso? Se na ausência,
Da saudade o farpão continuamente
O peito me trespassa?

De gota em gota o matutino rócio
Enche, e pende do lírio o débil cálix,
Que oprimido co'o peso se lacera,
Desbota, e alfim falece.

Uma gota após outra um lago forma,
Novas gotas de chuva o lago aumentam,
Transborda enfim, e dá a um rio origem,
Que nas planícies rola.


Eis de meu coração a fida imagem.
Repetidos pesares pouco a pouco,
Males amontoados desde a infância
A existência me azedam.

Procuro embalde no festim da vida
Um lugar para mim. Se uno meu canto
Ao hino de alegria, a voz me falta,
E o coração suspira.

Oh Ancião de Téos, feliz foste;
Por amores contavas os teus dias!
Dias ditosos! Eu os meus numero
Só pelos meus pesares.

Mal vibravas da lira os fios de ouro,
Para de heróis cantar preclaros feitos,
Em vez de ressoar de Atride o nome,
Amor, dizia a lira.

E eu, oh destino! se de Amor intento
Terno o nome entoar, rebelde a lira

Só suspiros exala, e as cordas gemem
Ao toque de meu dedo.

Suspirar, suspirar... Tal é meu fado!
Por que o céu fez-me assim? Ao céu pergunta,
Por que deu ele ao sol ígneos fulgores,
E palidez à lua?

Enquanto o sabiá doce gorjeia,
Gemem na praia as merencórias ondas;
E ave sinistra, negra esvoaçando,
Agoureira soluça.

Ao lado do cipreste verde-negro,
Desabrocha a corola purpurina
A perfumada rosa; e junto dela
Pende a roxa saudade.

Eleva-se a palmeira suntuosa,
E desdobra nos ares verdes leques,
E perto da raiz, à sombra sua,
Definha humilde arbusto.


Eis da Natura o quadro! Isto harmonia,
Isto beleza, e perfeição se chama!
Eu completo a harmonia da Natura
Co'os meus tristes suspiros.

Vê agora se à lei posso eximir-me
Que a suspirar me obriga?... Oh alma minha,
Arpeja a que possuis, única fibra,
Exala teus suspiros.


Turim, 15 de maio de 1835

XXXIV.


A FLOR SUSPIRO.

Eu amo as flores
Que mudamente
Paixões explicam
Que o peito sente.
Amo a saudade;
O amor-perfeito;
Mas o suspiro
Trago no peito.

A fórma esbelta
Termina em ponta,
Como uma lança
Que ao céo remonta.
Assim, minha alma.
Suspiros geras,
Que ferir podem
As mesmas feras.

É sempre triste,
Ensanguentado,
Quer secco morra,
Quer brilhe em prado.
Taes meus suspiros...
Mas não prosigas;
Ninguem se move.
Por mais que digas.

Experiência! Médico tardio,
Tua voz útil fora, se mais cedo
Em nossa alma soasse!

De tropeço em tropeço vai-se a vida,
Como o rio entre seixos se despenha;
Nada o curso lhe tolhe.

Das paixões o marulho estrepitoso,
Como o som da cascata caudalosa,
Cobre, abafa teu eco.


Em jogo pueril, vendando os olhos,
O infante, na planice, embalde ensaia
Da estrada andar em meio.

Ângulos forma; alfim se esbarra a um tronco;
Assim andamos nós olhivendados
Pela estrada da vida!

Cai-nos a venda do barranco às bordas,
Quando nas suas lúbricas crateras
Já nossos pés deslizam.

Vem a velhice, que melhor te escuta,
Refletimos então; porém que importa!
O tempo é já passado!

Do que serve ao cadáver o remédio?
Um mestre ao moribundo? um guia àquele,
Que marcha ao cemitério?

Donde vêm estes suspiros?
Donde vêm tão magoados?
Que a mim chegam tão quebrados!
Que peito os pôde conter?

Que distância eles venceram?
Que longos mares passaram?
Que ventos atravessaram,
Para aqui virem morrer?


Estes tão tristes suspiros
Aqui não foram nascidos;
Não; suspiros tão doídos
Quem podia aqui gerar?

Só uma mãe malfadada,
Que vê seus filhos lutando,
Nos céus os olhos fitando,
Assim pode suspirar.

Numa praia solitária
Bate a vaga moribunda
Menos triste e gemebunda,
Pejando o ar de seus ais.

Vós, gemidos dos desertos,
Entre as folhas vagueando,
Nas cavernas ululando,
Tanto horror vós não causais.

Suspiros, donde vindes? — Mal vos ouço,
Em meu peito murmura o eco vosso

Surdo, funéreo, como a voz que soa
Longe no ermo, da enchente que se arroja
De alpestre rocha, em borbotões fervendo,
E se esconde da terra nas entranhas;
E minha alma estremece apavorada,
Como de uma harpa a corda magoada.

Suspiros, donde vindes? — Sois da Pátria?
Ah! sois da Pátria... Sim, eu vos conheço

Por esse acento de aflição, de angústia,
Por esta dor, que me causais, tão agra.

Tu suspiras, oh Pátria!
Co'os teus os meus suspiros se misturam.
E que al fazer eu posso?
Se é surda a Providência às preces tuas,
Que pode a frágil mão de um filho inútil?

Os teus suspiros
A mim chegaram,
E me abalaram
O coração.

Socorro dar-te
Embalde intento,
E só aumento
Minha aflição.

Qual naufragante
Que uma onda impele,
Outra o expele
Ao alto-mar;
E de onda em onda
Sendo rolado
Já lacerado,
Vai encalhar.

Mas na praia não achando
Um asilo protetor,
O alento último exala,
E a alma envia ao Criador.

Assim morreis, suspiros, em minha alma,
Depois de haver o Oceano magoado.

Mas, oh Pátria, quem causa mágoas tuas?
Ah! não fales, não digas... sofre... espera.

Eu conheço teu mal. Ah! não são estes,
Qu'inda os pulsos têm lívidos dos ferros,
Recém-livres, costumes têm de escravos,
Estes não são, que ao teu porvir brilhante
As portas abrirão; são os seus filhos.
Espera, espera, que o porvir é grande;
E a vontade do Eterno, que os teus montes,
O teu céu, os teus rios nos revelam,
Será cumprida um dia: espera, espera.
Ainda ontem te ergueste de teu berço;
Mal um passo ensaiaste,
E não é crível que amanhã já morras.

Como em torno do sol os astros giram
Em círculo perpétuo,
Em torno do seu Deus as Nações marcham,
E de tal Astro à luz jamais se eclipsam;
Crê em Deus; que ele só salvar-te pode.

E vós, que a fronte ergueis de nós à cima,
Vós, que empunhais da governança o leme,
Vós, que velar deveis, até quando
Fareis da Pátria o patrimônio vosso,

E tolhereis seus passos?
Corai, corai de pejo, envergonhai-vos
De encher o excelso assento de poeira,
De poeira que sois, que um leve sopro
Dispersa, e acaba, e nem vestígios deixa
Para o crástino dia.
Nulidades, que humanas formas cobrem,
Empolas, que se geram num minuto,
E que noutro minuto se desfazem,
Como bolhas de espuma, que brincando,
De tênue tubo o infante cair deixa,
E no meio da queda desaparecem;
Que fizestes, que em vossa glória fale?
Nada!... Passastes como secas folhas,
Que os ventos remoinham.

Basta, enfim basta de ilusão, de engano.
Mira a Pátria a grandeza;
Vós a empeceis; deixai o campo livre
À Juventude, do progresso amiga.

Eu vos saúdo, Geração futura!
Só em vós eu confio.

Crescei, mimosa planta,
Sobre a terra da Pátria só regada
Com lágrimas e sangue.
Crescei, crescei da liberdade, oh filhos,
Para a Pátria salvar, que vos aguarda.

Tudo está profanado!
As vestes da virtude o vício adornam;
Da lisonja nas aras arde o incenso
Que só devera embalsamar o templo!
Murchas flores, que a fronte ao vício ornaram,
Atiram-se em despeito ao altar do Eterno.

Tudo está profanado!
Levanta a estupidez a hirsuta coma

Coberta de poeira,
E a sacode no rosto da Ciência,
Ou no alcáçar da lei se assenta ufana;
A Moral a seus pés serve de sólio,
De cúpula o capricho.

Tudo está profanado!
A cívica coroa
Dá-se à ambição, que sobe intumescida
Como a onda do mar, e tudo alaga.
Exauriram-se os nomes das virtudes,
E um só não há que ao crime se não desse.
Os lugares são prêmios da baixeza,
Da feia adulação, da vil intriga!
O hino cantam da vitória; e a Pátria
Geme aflita co'o peso da ignorância
Dos homens, cuja estrela é o egoísmo;
E até a lira, para mor opróbrio,
Vendidos sons só verte!

Tudo está profanado!
Como posso louvar-te, ilustre Veiga,

Santuário da honra foragida?
Que nome te darei? que flor? que incenso?
Como o bronze que soa em torre excelsa,
Chamando a Deus os homens,
Tu bradaste, pregaste o amor da Pátria;
A teus brados os homens surdos foram,
E tu enrouqueceste.

Apóstolo da ordem,
Caíste, enfim caíste! — Mas com glória!
Caíste, mas sem nódoa! Sim, caíste!
Mas Sócrates também sofreu a morte!

Qual se vê nas cidades arrasadas,
O templo solitário, esparsos bustos,
Rotas colunas, capitéis dispersos,
Combros de terra, montes de ruínas;
E no meio, inda envolta de poeira,
Uma estátua, que o tempo respeitara,
E que os olhos atrai do peregrino;
Assim te eu vejo em pé! e assim um dia
A geração futura, pesquisando
No meio das relíquias desta idade

Alguma cousa inteira, pura e bela,
Sacudirá o pó, que hoje te lançam,
E dirá: Eis aqui um Homem probo.

Mas que digo? — Ainda vives!
Envenena-se a flor, se a serpe a morde,
E a virtude definha, conculcada!

Mas tu amas a Pátria, como eu amo;
Amas com amor puro,
Sem mescla de interesse, como se ama
Uma mãe terna, que não tem tesouros,
Mas só lágrimas tem para legar-nos.
Ah! praza ao céu que a estrada em que brilhaste,
Seja aquela em que morras. [1]

Notas do autor

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  1. E assim foi.

É qual estreito vaso o peito humano,
Que trasborda, ou se quebra, se fermenta
O veneno que encerra.

De gota em gota o fel da desventura
N'alma a tristeza vai-nos embebendo,
Té que o corpo converte-se em masmorra,
De que a alma fugir busca.

Oh! quem vê uma flor que em prado brilha,
Parecendo exalar vida, e doçura,
E rir-se em cada pétala viçosa,
Acaso dizer pode
Se ela foi pela serpe inficionada?
Se em vez de vida, a morte só lhe lavra
O delicado estame?


Quem pode ver o formigueiro oculto,
Que o humano coração rói, e lacera?
Se eu sofro, ou não, só eu, só Deus o sabe.
Mas feliz quem nos seios de sua alma
Acha uma grande idéia que o consola,
Como uma taça de suave néctar,
Que lhe acalma as entranhas sequiosas.

Quem se resigna à dor não sofre tanto.
Que veneno aí há que um bem não faça?
Ou que remédio que não cause um dano,
Segundo o caso, e leve circunstância,
Que à vista perspicaz escapa às vezes?
Não, não és tu, Filosofia humana,
Quem me robora o peito!
Sábias lições de sofrimento ditas;
Mas o valor acaso dar tu podes?
Quantas vezes o mal frustra a ciência!
Pura fonte conheço, inexaurível,
Onde sempre o infeliz adoça as dores.

Livro sagrado,
Vem consolar-me,
Vem saciar-me

Na minha dor.
Meu peito ansiado
De ti carece,
Sem ti falece
O meu vigor.

A ti recorro
Triste e sedento,
Que este tormento
Me faz gemer.

Dá-me socorro
No mal extremo,
Vem, senão temo
À dor ceder.

Cada palavra,
Que me vás dando,
É qual um brando,
Suave mel.
Já em mim lavra
A paz do empíreo;
Do meu martírio
Se adoça o fel.

Julho de 1836

AO CORONEL ANTÔNIO DE SOUSA LIMA DE ITAPARICA

Oferece o autor o Cântico de Waterloo

Quem melhor que um herói sopesar pode
As cinzas de outro herói? Quem melhor que ele
Pode dar o valor aos grandes feitos?
Tu vás a Waterloo; tu vás sentar-te
Aos pés desse leão, que as mãos dos homens
Sobre vasta pirâmide elevaram,
Para narrar às gerações futuras
Raros prodígios da potência humana.


Intrépido soldado peregrino,
Que depois de salvar Itaparica,
Guardaste na bainha a espada ufana,
E as ciências cultivas incansável;
A teus olhos, de ver insaciáveis,
Já vai a terra parecendo estreita!
Se te é grato escutar os sons da lira;
Se tu, que viste de Virgílio o túmulo,
De Horácio a casa, e a casa de Mecenas,
Podes com gosto murmurar meus versos,
Este cântico aceita, que te ofreço
Em sinal de respeito, e de amizade.


Tout n'a manqué que quand tout avait
réussi.

Napoleão em S. Helena (Memorial)

Eis aqui o lugar, onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zênite haviam ambos;

Ambos iguais no brilho, ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sanguíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que co'a ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais ordens ditava!

O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam,
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — A águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo,
Assombrando as Nações co'as largas asas,
Por que se nivelou aqui co'os homens?


Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo.
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez co' a espada em punho
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio.
Mas invencível mão lhe toca o peito!

E' a mão do Senhor! barreira ingente
Basta, guerreiro! Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.

Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos

Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos, que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em Jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos.
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!

Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte.

Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.

Que grande idéia o ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!


Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármore,
Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade ele era o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.


18 de junho de 1836

[1]

Nascido em virgem plaga Americana,
Onde da independência o livre sopro
Os homens vivifica;
Onde de azul cetim num céu sem nódoa
Lúcido gira o disco coruscante,
Que ao vate o gênio inflama;
Sem que do medo a destra me agrilhoe,

Porém venerabundo, a mente exalço
Ao herói de dous Mundos.
Tu, da glória no céu, não dado a muitos,
Rutilas fulgurante a par de Washington,
Co'a luz que a liberdade
De seu divino rosto escapar deixa,
Qual cometa fatal à tirania.
Oh grande Lafaiete!
Oh portentoso nome! honra da França!
Nome, que no orbe cresce, como em bosques,
Altos, frondosos cedros
Nos alcantis do Líbano se elevam,
E as tormentas, e os raios assoberbam
Contra eles fulminados.
De nós aprenderão os filhos nossos
A repetir teu nome, ainda no berço,
Com inocentes lábios;
Nossos filhos aos seus, estes aos netos
Irão passando intacta esta lembrança;
Como através dos evos
As colossais pirâmides, que emblemas
São da grandeza, e da existência eterna,
Ovantes têm passado.

Mas é grande ardimento! Ave sem canto,
Longe de seu vergel peregrinando,
Em remontado vôo
Querer modular sons, cantar teu nome!
Simpática afeição, mágico impulso
A ti porém me arrasta;
E de prazer o coração no peito
Expande-se a teu nome, qual se expande,
Em perfumado eflúvio,
O doce aroma do ananás gostoso.
E tu, qual prazer sentes, quando tomas
Esse infante em teus braços?
Esse infante gentil, de heróis progênie,
Filho de Zenowiez, hoje sem Pátria
Que um Déspota roubou-lha?
Qual te anima alegria esperançosa,
Quando de Kosciuszko vês o sangue
Girar em suas veias,
E as estranhas nutrir-lhe ainda tenras?
Oh! como é grato levantar nos braços
O filho de um guerreiro,
Que malfadado sim, mas virtuoso,
Sobranceiro se mostra à sorte adversa!

Ah, praza a Deus clemente
Que por ti embalado esse menino,
Por ti n'água lavado do batismo,
Raro exemplo seguindo
De seus nobres maiores, seja um dia
O que foi Kosciuszko, e o que tens sido.
Oh! se o porvir contemplo,
Quem sabe se ainda um dia!... Mas não podem
Humanas mãos romper o véu de trevas,
Com que a Providência
Esconde a mortais olhos o futuro.
Em sibilino arrojo não pretendo
Interpretar mistérios.
Cresça o jovem Emílio sempre ao lado
Do imortal Lafaiete, e aprenda, e saiba
Amar a liberdade.

Paris, janeiro de1834

Notas do autor

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  1. Por ocasião de batisado do filho do Conde de Zenowiez, sendo padrinho o dito general.

Nas veias o sangue já não me galopa,
Nem sacros furores nos lábios me fervem;
A lira canora do cisne Beócio
Deixei sobre a trípode.

Os risos fagueiros do Gênio da Pátria
Agora me inspiram idéias suaves.
Os vossos encantos, oh belas patrícias,
Eu canto dulcíssono.


Império das graças, oh sexo mimoso,
Vós sois o princípio da nossa existência;
Dos nossos prazeres orige' inefável;
Sem vós que seríamos?

A lua que brilha num céu azulado,
E os raios argênteos no rio reflete,
É quadro bem lindo! porém vossas faces
Têm graças mais nítidas.

Os dias que alegres convosco passamos,
São horas bem curtas, são breves instantes;
E os breves instantes da ausência saudosa
São noites bem tétricas.

O canto das aves, que soa nos bosques,
É grato aos ouvidos do homem selvagem;
Porém vossas vozes têm mais melodia
Que as vozes dos pássaros.

A rosa tem cheiro que o ar embalsama,
A rosa tem cores que esmaltam os prados;
Porém para imagem da vossa beleza
A rosa é inválida.


As águas têm perlas, o céu tem estrelas,
Os campos têm flores, a terra tem ouro;
Mas vós venceis tudo; vós sois da Natura
A obra protótipa.

Por vós afinaram mil vates as liras;
Por vós mil guerreiros à glória voaram;
E até nações cultas por vós sacudiram
Seu jugo tirânico.

Oh Anjos da terra, da Pátria ornamento,
Donzelas, esposas, e mães carinhosas,
Na luta, que temos co'o vil despotismo,
Mostrai-vos magnânimas.

Os vossos encantos de prêmio só sirvam
A quem ama a Pátria, ao sábio, e ao justo.
Deixai que ociosos, e os nossos imigos
No lodo revolvam-se.

1831

Quando o sol era o meu astro,
E a minha mente inspirava,
No enlevo do estro inflamado
Alegre a lira eu vibrava.

Co'a Grécia, e Roma sonhando,
Colhendo flores da história,
À minha Pátria querida
Hinos tecia de glória.


No fogo da mocidade,
Nessa estação da alegria,
Cantava gratas mentiras,
Amores qu'eu não sentia.

Às vezes também chorava;
E tu, oh lira pressaga,
Já teu destino previas,
E o pranto que ora te alaga.

Qual na rosa que emurchece
Seca o orvalho que a aljofrava,
Assim secou-se em meus lábios
O riso que os enfeitava.

Minha voz enrouqueceu-se,
Meu coração enlutou-se,
E o astro que me aclarava
Em densa treva nublou-se.

Antes que o sopro do tempo
Murchasse a flor de meu rosto,
A palidez já o tinge,
Causada pelo desgosto.


A folha na primavera,
Se pelo inseto é roída,
Assim perde o verde esmalte,
Assim murcha, e cai sem vida.

Deixei a prezada Pátria,
Deixei a mãe carinhosa;
Perdeu então minha lira
Sua voz harmoniosa.

Ao som das vagas do Oceano
Foi minha lira aprendendo
A suspirar quando choro,
A ir comigo gemendo.

Companheira de meu fado,
Pelo mundo vagueando,
Juntos os Alpes subimos,
Estranhas terras pisando.

Nos Alpes, como num trono
Que me alçava além do mundo,
A glória do Onipotente
Entoei venerabundo.


Entre góticas pilastras,
Arroubado no infinito,
Cantei a vida futura,
Consolo de um peito aflito.

Sentado sobre ruínas,
Achei um eco na lira;
E sobre o nada da vida,
Deu-me sons qu'eu nunca ouvira.

Entre campas, e cipestres,
Sozinho num cemitério,
Chorando a sorte de um vate,
Na lira achei refrigério.

Solitário entre os viventes,
Do mundo desconhecido,
Como a planta errante d'água
Apenas tenho vivido.

A glória, esperança vária,
Sonho falaz do acordado,
Febre que os Gênios inspira,
Só me não tem inspirado.


Amiga melancolia,
Consumidora saudade,
Vós envolveis os meus dias
Desta triste suavidade.

Em cada estação ostenta
Diverso aspecto a Natura;
Ora de cristais se adorna,
Ora de fresca verdura.

As aves também renovam
Seu canto co'a Natureza;
Tudo muda, só minha alma
Conserva sua tristeza.

Único bem qu'eu possuo,
Oh minha estimada lira,
Companheira de infortúnios.
Comigo chora, e suspira.

1836

Meus versos são suspiros de minha alma,
Sem outra lei que o interno sentimento;
E como o fumo que do fogo se ergue,
Sobem ao céu, e perdem-se nos ares.

Como o aceso turíbulo balança
Ante o altar, de incenso alimentado,
Suavíssimos perfumes exalando,
Assim minha alma oscila
Das ilusões do mundo afadigada;

E suspirando então pelo infinito,
Humilde a Deus seu pensamento exalça.

Cada pensamento meu,
Como uma baga de incenso,
Do turíbulo de minha alma
Sobe ao alcáçar do Imenso.

Eis por que ainda no da vida exílio,
Entre o véu de tristeza que me enluta
Alguns assomos de prazer ressumbram,
Como do pirilampo
Na escuridão da selva a luz lampeja;
Eis por que minha lira
Inopinados sons desliza às vezes;
Eis por que ainda para mim um riso
A Natureza enfeita;
Eis por que a noite presta-me seu bálsamo,
E na aurora que surge encantos acho.

Eco para meus suspiros
Eu acho na Natureza;
E para a voz de minha alma
Um acento de tristeza.


Ah! porventura a lira abandonada,
Que rota e muda jaz de pó coberta,
Porventura ainda vive?
A lira morre, quando mais não soa,
Morre, quando, estalando a última corda,
Evapora o seu último soluço.

Assim sou eu sobre a terra;
É minha alma como a lira,
Que morre, quando não geme;
Que vive, quando suspira.

Como vive o proscrito em riba estranha?
No pensamento apenas,
Nos quadros de sua alma, tristes quadros,
Como a noite sem lua, e sem estrelas;
Quadros nublosos, pela mão traçados
Da pálida Saudade.
Oh mundo, oh mundo, exílio de minha alma!
Vida, cruel tirano que me prendes!

O que é a vida? Um contínuo
Passar das trevas à aurora;

Cadeia que nos arrasta,
Turbilhão que nos devora.

Eis a vida!... E depois?... Mistério horrível!
Infinito, onde o espírito se perde,
Como um átomo no espaço;
Deserto, onde vagueia a fantasia,
Repouso, e asilo incerta procurando,
Como nos areais da ardente Arábia
O peregrino afadigado busca,
Para a sede aplacar, mesquinha fonte,
E um ramo que lhe abrigue os lassos membros.

Talvez que amanhã se ultime
A sentença do proscrito,
E que livre das cadeias,
Vagueie nesse infinito.

E quem sabe se a voz da Eternidade
Agora me revela,
Que este manto, que enoita a Natureza,
Como do esquife o mortuário pano,
Para sempre a meus olhos cobre a terra?

Quem sabe se ao raiar da aurora crástina,
A seu hino de vida
Um eco faltará de minha lira,
De minha alma um gemido?

Cada minuto da vida
Pode ser o derradeiro;
Da vida ao nada há um ponto,
E o homem passa-o ligeiro.
O Cisne que desliza à flor do lago,
Perlas formando co'o bater das asas,
Mudo a garganta alonga,
E só da morte a voz nela ressoa;
Como uma flauta que do tronco pende
Por amoroso voto,
Pelo vento agitada,
Embalança, e suaves harmonias
Exala de seu tubo:
Assim a voz do cisne se desata,
Pela morte inspirado;
Assim se melodia,
Para doce entoar o hino extremo.


Mas acaso sabe o Cisne,
Terno canto desferindo,
Que em cada acento que solta,
A vida lhe vai fugindo?

Companheiro do Cisne, o tenro arbusto
Que uma só vez floresce,
E quando assim se adorna, murcha, e morre,
Como no dia nupcial a esposa,
Sabe ele porventura que essas flores
São as galas da morte?
A lâmpada que expira, e um clarão solta,
Acaso sabe se lhe míngua o óleo?
O rio que no prado se resvala,
Acaso dizer pode:
Amanhã terá fim minha corrente?
E o zéfiro que brinca saltitando
Sobre as frescas corolas, sabe acaso,
Se ainda existirá no sol seguinte?

Nós acaso conhecemos
Melhor que eles nossa sorte?
Podemos dizer: este hino
É nosso hino de morte?


Eu canto como o Cisne, sem que saiba
Se é meu último canto;
Como o arbusto que brota mortais flores,
Minha alma se dilata, e aromas verte;
Como a luz que falece, e se afogueia,
Em sacro amor meu coração se inflama;
Como o rio que manso se desliza,
Como o ligeiro zéfiro que adeja,
Devolvem-se meus dias,
Como vagas do mar, um após outro,
E não sei qual será o derradeiro.

Inda um suspiro, minha alma,
Como o Cisne hoje exalemos.
Se amanhã virmos a aurora,
Novos hinos entoemos.
Cantemos, cantemos
Co'a noite, e co'o dia,
Seja nossa vida
Contínua harmonia.

Tu, que n'alma te embebes magoada,
Melancólica dor, e gota a gota
Vertes no coração tóxico acerbo,
Que entorpece a existência, e a vida rala!
Tu, tirana da ausência, que retratas
Em fugitiva sombra, em negro quadro
A imagem do passado;
Que ao filho sempre a mãe anosa antolhas,
A pátria ao peregrino, o amigo ao amigo,

O esposo à esposa; e ao malfadado escravo,
Que sem futuro pelo mundo vaga,
Mostras a liberdade, e o lar paterno;
E a cada simulacro que apresentas,
Com farpado aguilhão rasgas o peito
Do triste que te sofre;
E nos olhos sanguíneos, encovados,
Não lágrimas destilas,
Mas fel, só atro fel, bárbara, espremes.

Oh saudade! Oh martírio de alma nobre!
Malgrado o teu pungir, como és suave!
Como a rosa de espinhos guarnecida
Aguilhoa, e apraz co'o doce aroma,
Tu feres, e mitigas com lembranças.
Mas ah! o teu espinho ainda é mais duro;
E essas tuas lembranças são falaces,
Flores são que o punhal de Harmódios cobrem.

Para agora oprimir-me tudo se ergue;
Tudo agora de encantos se reveste,
Para mais agravar minha saudade.
Sítios qu'eu desdenhei, sítios que amava,

Templos que orar me viram respeitoso,
Estes céus de safira, estas montanhas
Cobertas de cocares de palmeiras,
Pais, amigos, irmãos, ah! tudo, tudo
Me está representando a fantasia,
Como que pouco a pouco quer matar-me.

Que cena há aí que mais encantos tenha,
Que ver lânguida virgem, pudibunda,
Pálida a fronte, as faces desbotadas,
Baixos os olhos, revoando a coma,
E uma terna expressão de oculta angústia
Que lavra-lhe as entranhas?
Que cena há aí que mais encantos tenha,
Que vê-la num baixel, segura ao mastro,
Suspiros exalar, longos suspiros,
Que voam murmurando, e se misturam
Co'os ventos que sibilam nas enxárcias?
De vez em quando olhar, e só ver nuvens,
Nuvens que o céu encobrem, retratando
Fugitivas imagens, que recordam
Terras da pátria; quem, meu Deus, quem pode
Resistir a tal cena?


Tu matas, oh saudade!... Às crespas ondas,
Delirante Moema,[1] e quase insana,
Por ti ferida, se arremessa... e morre...
Que não pode a mesquinha
Longe viver do fugitivo amante,
Que tanto amor pagara com desprezo.
Lindóia,[2] entregue à dor, desesperada
N'ausência de Cacambo, mal lhe soa
Do caro esposo o último suspiro,
Também suspira, odeia a vida... e morre...
E tu, Clara infeliz,[3] filha dos bosques,
Gerada entre palmeiras,
Nada pode aprazer-te, nada pode
Extinguir-te a lembrança
Da rústica cabana, onde embalada
Em berço foste de tecidas varas.
De diurnas, domésticas fadigas
Descansada, lá quando alveja a lua
Em fundo azul, mil vezes te enxergaram

Num tronco de coqueiro reclinada,
Cantar da infância tuas árias saudosas,
Árias bebidas nos maternos lábios.
Ai... minha mãe, dizias,
Ai... minha mãe... quem sabe se ainda vives!
Aldeia onde nasci, pobre cabana,
Rede que me embalavas, eu vos choro!

Oh terra do Brasil, terra querida,
Quantas vezes do mísero Africano
Te regaram as lágrimas saudosas?
Quantas vezes teus bosques repetiram
Magoados acentos
Do cântico do escravo,
Ao som dos duros golpes do machado?

Oh bárbara ambição, que sem piedade,
Cega e surda de Cristo a lei postergas,
E assoberbando mares, e perigos,
Vais infame roubar, não vãs riquezas,
Mas homens, que escravizas!
Mil vezes o Senhor, para punir-te,
Opôs ao teu baixel ondas, e ventos;

Mil vezes, mas embalde,
Nas cavernas do mar caiu gemendo.
Á voz do Eterno obediente a terra
Se mostra austera e parca,
Que a lágrima do escravo esteriliza
O terreno que orvalha.
A Natureza preza a Liberdade,
E só franqueia aos livres seus tesouros.

Oh suspirada, oh cara Liberdade,
Descende asinha do Africano à choça,
Seu pranto enxuga, quebra-lhe as cadeias,
E adoça-lhe da pátria a dor saudosa.

Oh palavras! oh língua! quão sois fracas,
Para d'alma narrar os sentimentos!
Oh saudade, aflição dura e suave!
Oh saudade, que o rosto me descoras,
Saudade, que me apertas, que nos lábios
Decas-me o almo riso,
E o pensamento meu absorves todo,
Como uma esponja o líquido, e o repartes
Co'o passado, o presente, e co'o futuro.

Oh saudade! Oh saudade!
Minhas endechas mal carpidas colhe;
Dá-me um lúgubre som, como o das vagas
Que nas praias se quebram
Sem ordem, como os meus chorados cantos;
Uma voz sepulcral, como a da rola
Que em solitária selva se lamenta;
Um acento funéreo, um eco lúgubre,
Como o eco das grotas, quando a chuva
Goteja reboando.

Ah! corram minhas lágrimas, ah! corram
A quantos meus gemidos escutarem.

Oh saudade! Oh saudade!
Pois que em minha alma habitas,
E sem cessar me lembras pais, e Pátria,
Minhas tristes endechas serão tuas,
Saudade, serei teu... Saudade, és minha.

Notas do autor

[editar]
  1. Veja-se o Episodio de Moêma, canto VI, p. 172, do poema Caramurù de S. Rita Durão.
  2. Episodio do Uruguay, poema de José Basilio da Gama, canto III.
  3. Este caso é original.

Adeus, oh Pátria amada,
Terra saudosa, onde eu abri meus olhos
Pela vez prima ao sol americano;
Onde nos braços maternais suspenso,
O teu amor co'a vida
No albor dos anos meus fruí gostoso.

Oh margens do Janeiro,
Eu me ausento de vós com mágoa e pranto!

Adeus, brilhante céu da terra minha!
Adeus, oh serras que vinguei difícil!
Adeus, sombrias várzeas,
Que vezes passeei meditabundo.

Adeus, augustas torres
Do templo, onde lavei-me do pecado!
O som funéreo dos sagrados bronzes
Ainda vem magoar os meus ouvidos,
E n'alma despertar-me
Tristíssimas, cruéis reminiscências.

Eis ali a montanha
Cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.
Quantas vezes ali triste, sentado,
Minha alma no infinito se espraiava,
Os olhos vagueando
Sobre este mar, que deve hoje levar-me!

Sim, eu te deixo, oh Pátria;
E deixo-te lutando co'as procelas,
Que no teu horizonte se abalroam.
Ah! quanta dor o coração me punge,

Por ver alguns teus filhos,
Baldos de pundonor, como te olvidam.

Teus filhos... Ah! cubramos,
Se algum há, com desprezo o seu opróbrio.
Feras serpentes qu'entre mansas aves
Se aqueceram nos ovos, e mal nascem
Dilaceram os filhos,
E as próprias aves que lhes deram vida.

Malévolos sicários,
Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,
Já traidores alfanges afiando,
O ensejo só aguardam favorável
De ensopá-los no sangue
Daqueles a quem bens, e honra devem.

Não é pavor, nem susto
De aos pés calcado ser de intrusos Neros,
Nem de rojo levado ao cadafalso,
Que hoje arrancar-me de teu grêmio pode;
Nem a ambição me acena
Qu'eu vá mercadejar por longes terras.


Não, eu não temo a morte,
Nem dos tiranos temo a catadura;
sei firme assoberbar adversos fados;
Que o varão, que o dever toma por norte,
Sempre a Pátria antolhando,
Morte honrosa prefere à vida escrava.

Amor da sapiência,
Desejo de colher lições do mundo
Leva-me às margens do soberbo Sena,
Para, se me não for avessa a sorte,
Ante o altar da Pátria
Meus serviços prestar vir respeitoso.

A ti me voto inteiro,
Tu és o meu amor, minha alma é tua.
Só para te ofertar flores cultivo
Nos mágicos jardins da Poesia;
Se te apraz seu aroma,
Ah! como fico de prazer ufano!

Ah! praza a Deus que a nuvem,
Que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,

A cólera do Eterno não desabe
Sobre as tristes cabeças de teus filhos!
Ah! praza a Deus que nunca
Teu Anjo tutelar fuja a teus lares!

Oh Senhor, tu protejes
O povo que se vota à Liberdade;
A Liberdade é dom que nem tu mesmo
Aos homens tiras; como um mortal ousa,
Erguido pó da terra,
Eclipsar os teus dons, manchar teu nome?

Cara Pátria, sem susto
Tua fronte levanta majestosa,
Como tuas montanhas, e teus bosques!
Não sejas só no mundo conhecida
Por teus ricos tesouros,
Pelos prodígios da sem-par Natura.

Oh Pátria, ovante marcha;
Já em teu seio encerras Varões dignos
De renome imortal; não te envergonhes
De cingir-lhes as frontes, de apontá-los.

São eles que te escoram,
E que te hão de elevar à Eternidade.

As solitárias ondas
Que hoje sonoras tuas: praias beijam,
Já outrora, não pedras, não espuma,
Mas cadáveres, e sangue arremessaram,
Cadáveres, e sangue
Dos nascidos nos teus sagrados bosques.

Se inimigos ousarem,
Armados contra ti, em frágeis lenhos,
Expelir o trovão, o raio, e a morte,
Abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;
Seus lívidos cadáveres
Tuas areias juncarão de novo.

O coração pressago
Veemente palpita, e voz suave
Em meu peito ressoa, e me anuncia
Que o céu destes horrores te preserva;
O coração não mente;
A paz firmou-se em ti; seja ela eterna.


Como a enchente do Nilo
Que estendendo-se sobre a terra Egípcia,
Deixa após si fertilidade aos campos,
Assim, propicia paz, tu vivificas
O povo que te hospeda,
E por ti bafejada a indústria medra.

Como serei ditoso
Se dado ainda me for correr teus campos,
Beijar de anosos pais as mãos rugosas,
Abraçar os amigos, e arroubado
Nesse celeste instante
Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.

Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

Choram por mim... Por mim a mãe querida
Em soluços — adeus — nem dizer pode...
Debalde balbucia; os lábios tremem,
E a dor a voz lhe embarga...
Banhado tem o rosto
De cristalino pranto, e cor de sangue
Os olhos já cansados.

Lá vejo o caro pai sisudo e grave,
A quem anos as faces enrugaram,

E a fronte encaneceram;
A mão ao filho estende, e a bênção lança:
Boa viagem, diz, boa viagem;
Deus te guie, e te traga
Na sua santa guarda,
Sempre digno de mim, da Pátria digno.

Memorandas palavras!
Palavras de meu pai... n'alma do filho
Ausente, eternas ficarão gravadas.

Ternos irmãos — adeus — me estão dizendo
Com tão fúnebre acento,
Como se eu condenado à morte fosse.
Um por um os abraço, e adeus lhes digo.
Quero partir... forcejo; os olhos cerro...
Porém a dor que o coração me preme,
Forças me tira, e me fraqueia os passos;
Em borbotões rebentam
Lágrimas, que enxugar em vão pretendo.

Que mão gelada é esta, que me embebe
Duro alfange no íntimo do peito?
Que mão desapiedada me retalha

O coração magoado?
Mão da saudade, és tu, eu te conheço.

Oh momento de ausência, como és agro!
Mais agro não me foi aquele dia
Em que co'a morte ao lado,
Quase caí do leito à sepultura.

Já brilhava a meus olhos moribundos
A luz de bento círio,
Que ante um sagrado Crucifixo ardia.
Chorava minha mãe, e seus cabelos
Sobre meu frio peito debruçavam-se.
Colocado entre o mundo e a Eternidade,
Meu ser se dividia, e ingente peso
O aflito coração me comprimia,
Como se férreos braços me cerrassem.
Ah! porque inteiro conservou-se o estame
Em luta tão cruel? E' qu'eu devia
Sofrer mais este golpe, e da existência
Não estava inda o círculo completo;
Assaz não tinha o Mundo conhecido,
Conhecê-lo devia.


Neste instante que a dor absorve todo,
Não me vigoram de um porvir brilhante
Lisonjeiras lembranças,
Sonhos falaces, esperanças loucas,
Que embriagam a mente do acordado.

Quisera aqui morrer, quisera nunca
Estranhas terras visitar, que outrora
Eu tanto cobiçara,
Antes que os pais deixar, irmãos e Pátria.

Mas uma estrela guia
A seu destino o homem.
Quem de Deus penetrar pode os arcanos?
Quem do Eterno à vontade opor-se pode?
Cumpra-se a minha estrela... E nós choremos,
Que num vale de lágrimas estamos.
Chorando nossas mães vida nos deram,
Chorando à luz nascemos, e mil vezes
Esta vida choramos, e na morte
Uma lágrima ainda se desliza
Dos revirados olhos:

Das lágrimas a fonte só se estanca,
Quando da vida apaga-se a centelha.

Pais, irmãos me rodeiam.
Onde estão os amigos? Um ao menos
Não me vem abraçar neste momento?
Um só não terei eu, que me acompanhe
Até à triste praia,
E o ósculo da amizade aí me imprima
Na hora da partida?
Eu vos conheço, amigos!
Convosco fique a paz, fique a alegria,
Venha o pesar comigo.

Caro pai, boa mãe, irmãos queridos,
Meu último suspiro vosso seja...
Adeus... adeus; eu parto.

Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

Desaparece o sol, o céu negreja,
O rígido aquilão em fúrias brama,
E em cada vaga a morte armada se ergue.

Hei de eu morrer, oh Pátria,
Sem que um suspiro teu sequer mereça?
Sem que minha existência útil te fosse?
E este mar cavará o meu sepulcro?
Meu corpo rolará entregue às ondas,
Té que os marinhos tigres o devorem?

Não terei uma campa, um epitáfio,
Onde no dia aos mortos consagrado
As lágrimas de amigo se deslizem?

Eu estava tranqüilo...
Como um brando regato serpenteia
Entre florida, perfumada relva,
Ou como a lua plácida fulgura
Na abóbada celeste,
Recamada de nítidas estrelas,
Assim os dias meus se devolviam
Em suaves vigílias, brandos sonos.

Tinha um pai, uma mãe, irmãos, amigos;
Debaixo de meus passos se movia,
Sem qu'eu sentisse, a terra;
Ora de humana voz ternas cadências
As passageiras mágoas me adoçavam,
Ora coberto com dosséis de folhas,
Que em chuveiros de flores me cobriam,
Terno cantava ao som da frauta agreste
Que o sabiá simula.

Se no cume da serra a tempestade
Caliginosos braços estendia;
Se nas torres dos templos se esbarravam
Lampejantes coriscos;
Na paterna mansão, ermo de susto,
Escutava o trovão, e o hino excelso
Que entoavam meus pais venerabundos.
Oh! com que rapidez tudo se muda!
O homem nem prevê próximos males!

Aqui, neste Oceano,
Sem que sequer um só prazer desfrute,
Tudo é horror, e um vasto cemitério.
De cada lado gigantescas vagas,
Irritadas elevam-se, curvando
Sobre o navio que sem tino vaga.
Negras nuvens do sol a face enlutam;
Soltos trovões se embatem, troam, bramam;
Rijo sibila o vento nas enxárcias;
Ante a proa em montanhas espumosas
Pulveriza-se o mar, roncando horríssono;
Gemendo as vergas beijam
A onda que se empola, ou já se afunda,

Quais débeis canas que o tufão acurva.
Que horror, oh céus! Que sorte nos aguarda!

Se é nossa estrela que morramos todos,
Quero ser o primeiro
Em quem, oh ondas, sacieis a fúria.

Procuro embalde, cintilar não vejo
Santelmo de esperança;
Só vejo a morte abrir a foz medonha
Em cada vaga, que engolir promete
O lenho, surdo à voz do palinuro.

As velas ferram desmaiados nautas,
Rouqueja o capitão, soa a buzina,
Mulheres tremem, criancinhas choram,
E sobre a bomba passageiros curvos
Arquejando se afanam.

Fitas de fogo ardentes, inflamadas,
Entre rotos listões de negras nuvens,
No horizonte se estendem;

Vasto lago de sangue o mar parece;
Relâmpagos mil chovem, mil se apagam;
Raios dardeja o céu enfurecido,
E os vermelhos coriscos no ar se cruzam,
Como cipós que os bosques emaranham,
Ou qual num rio amontoadas serpes,
Curvilíneas se enlaçam, sobem, descem.

Oh meu Deus! Oh meu Deus, teus olhos volve
Sobre os filhos dos homens.
É verdade, Senhor, eles ingratos
No tempo da bonança se esqueciam
Da tua onipotência;
Ousamos, ímpios, profanar teu nome;
Mas piedade, Senhor, hoje invocamos.

Como filhos rebeldes,
Que os sãos conselhos paternais desprezam,
Zombam mesmo dos pais, e de delírio
Em delírio à desgraça se encaminham;
E quando já no poço da miséria
Lhes brada a consciência,
Então os pais invocam;

E se os pais os não salvam, ali morrem.
Tu és pai, oh meu Deus! Misericórdia!

Um sopro de teus lábios foi bastante
Para armar contra nós a tempestade;
Um sopro de teus lábios
Basta para acalmá-la.

À tua voz, Senhor, tudo se humilha,
O mar, a terra, o céu, o vento, o raio;
Fala, seremos salvos.

Amaina o vento, o mar se tranqüiliza!...
Maravilha de Deus!... As nuvens subam
A teus pés os meus hinos,
Hinos acesos nos transportes d'alma;
Voem de mundo em mundo, de astro em astro,
De Anjo em Anjo, até qu'eles se harmonizem,
E dignos sejam, oh Senhor, que os ouças.

Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!
Desaparece a morte,
Raia o sol, ri-se o céu, o mar se aplana!

Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!
Afaga-me a esperança,
Que renasce no fundo de minha alma,
Como a fênix das cinzas.
Oh Pátria, serei teu; minha existência
Ao louvor do meu Deus, a teus louvores
De ora avante a consagro.

Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?


Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.

Oh fantasia, reproduz se podes
O enérgico quadro, que meus olhos
Outrora extasiara;
As cenas reproduz de entusiasmo,
Que o coração abrasa
Como o sol quando a pino os homens fere;
Memória, hoje recorda aquelas vozes
Dos brasilenses peitos escapadas,
Como do Chimboraço ardentes lavas,
E no templo de Deus gratas soavam.
Recita aqueles hinos,
Que angélicas donzelas, varões probos
Alternos entoavam neste Dia,
Da Liberdade em honra.


Mas em vão, que nos ares embruscados
O mimoso colibri não adeja,
Nem longe do seu ninho o canto exala
O sabiá canoro.
Ah! se ao menos a dor que me alma punge,
E a existência me azeda,
Um pouco se aplacasse, e doce riso,
Filho do coração, subisse aos lábios,
Quiçá na ausência da querida Pátria
Pudesse, inda que rouco,
Mais um hino ajuntar aos outros hinos,
Com que de meu amor lhe fiz ofrenda,
Quando no grêmio seu prazer gozava.

Lá, no teu seio, a vida respirando
Tranqüilo e sossegado,
Ou no mar agitado, à morte exposto,
Ou aqui nesta plaga tão remota,
Fiel te sou, oh Pátria; não te olvido
Pelas grandezas que me ofrece a Europa.
Estes eternos monumentos d'arte,
Estas colunas, maravilhas mortas,
Estas estátuas colossais de bronze,

Estes jardins soberbos, estes templos
São belos; mas não são de minha Pátria.
Tuas virgens florestas, e teus templos
Mais me aprazem que tudo que aqui vejo.

Ah! quem me dera agora, em grato sonho
Iludido, cuidar que me revolvo
Ignorado entre os meus, entre o tumulto
Do povo que no rosto traz impressa
A glória deste Dia!
Quem me dera que os meus rústicos hinos
Por ele ouvidos fossem,
E por ele aplaudidos
No delírio do sacro amor da Pátria!

Oh! como é doce memorar os tempos
Da passada alegria!
Como é doce escutar ternas cadências
De branda voz de pudibunda virgem,
Quando fora da terra a alma vagueia
No celeste infinito!
Mais doce é celebrar os claros feitos
Dos seus concidadãos, e unido a eles,

Beber na mesma taça o entusiasmo,
E no divino arroubo
Os céus congratular, render-lhes graças!

Aqui da Liberdade repetido
Não soa o mago acento em meus ouvidos;
Nem o auriverde pavilhão tremula,
Imagem das riquezas
Da terra minha, fértil, abundante;

Nem o canhão ribomba, que assinale
Que este Dia ao Brasil é consagrado.
Só o estridor ressoa
De turbulento povo, indiferente
Da Pátria minha à glória.

Dia da Liberdade!
Tu só dissipas hoje esta tristeza
Que a vida me angustia.
Tu só me acordas hoje do letargo
Em que esta alma se abisma,
De resistir cansada a tantas dores.
Ah! talvez que de ti poucos se lembrem
Neste estranho país, onde tu passas

Sem culto, sem fulgor, como em deserto
Caminha o viajor silencioso.

Mas rápidos os dias se devolvem;
E tu, oh sol, que pálido me aclaras
Nestas longínquas plagas,
Brilhante ainda raiarás na Pátria,
E ouvirás meus hinos
Em honra deste Dia, não magoados
Co'os fúnebres acentos da saudade.


Não posso duvidar, nem tu duvides;
Há uma estrela que ao porvir nos guia,
Malgrado as ondas do inconstante mundo.
Os destinos dos homens são patentes
Da Providência aos olhos,
Pois que aos olhos de Deus não há futuro;
Duvide embora o ímpio.

Com insolúvel nó a ti me liga
Sagrada, oculta força.
Fitos na Pátria os olhos, sempre avante,
Araújo, marchemos.

Amamo-nos; que importa Grécia, e Roma
Vás ver sem mim?[1] Assim 'stá destinado.
Na Pátria de Platão, e de Lionides,
De Rafael na Pátria
Não, não te esquecerás do teu amigo.

Vai; sapiência colhe em solo estranho;
Depois conosco pródigo reparte.
Assim de flor em flor errante abelha
O néctar frui, que em mel ofrece aos homens;
Assim de gotas pluviais se embebe
O ancho seio do monte,
Que em límpidas correntes depois mana.

Vai; ao Parnaso sobe; aí meu nome
Entoa para o céu, e atento escuta;
Se os ecos responderem,
Junto do nome teu meu nome grava
No mármore que achares.
Ah! lembra-te de mim quando de Tasso
Visitares o cárcer.

Quando do longo meditar cansado
Estiveres de Roma nas ruínas;
Quando só passeando n'Ápia estrada,
Ou da morte os segredos contemplando
Dos Mártires Cristãos nas catacumbas;
Quando ouvires soar de amigo o nome,
De mim te lembrarás, dirás contigo:
Quem sabe se por força da amizade,
Em mim pensa ele agora, como eu nele?

Vai; teu gênio alimenta.
Breves os dias são, os anos breves,
E dos filhos dos homens breve corre
A vida afadigada,
Como nos ares rápido meteoro.
Ah! quanto a missão custa
Cumprir na terra, onde atalaias somos!

Na começada empresa
Somente ao fraco arrepiar é dado;
Não se releva ao campeão donoso,
Que desde o albor da idade
N'alma ferveu-lhe em turbilhões o engenho,
Que lhe inspirara a Pátria.

Enganados num dia os mortais podem
Às mãos de um néscio confiar o mando,
Com que depois os curva;
Podem coroas repartir, e cetros,
E púrpuras reais, e tit'los nobres;
Podem rolar seus ídolos dos tronos,
Tomar os louros que iludidos deram;
Mas tu, raro no mundo, dom sublime,
Gênio, quem te reparte?

Deus só, Deus só te envia a seus diletos.
Gênio, filho de Deus, fogo celeste
Baixado à terra em prol da Humanidade!
Aquele em cuja fronte resplendeces,
Cujos lábios inflamas,
Um Homero será, Platão, ou Fídias,
Radiantes padrões, astros de glória,
De estrelas escoltados,
Que como o sol, do oriente ao ocidente,
Giro farão eterno.

Sinal em tua fronte tens do Gênio;
Não pertences a ti, tu és da Pátria.
Com teus pincéis divinos
Deves seus feitos esmaltar, preclaros;
Eu a teu lado cantar-lhe-hei a glória.
Unidos, sempre amigos, sempre à mesma
Vontade obedecendo,
Que doce nos será então a vida!
Tempo, tempo, não voes; Pátria, aguarda;
Araújo, marchemos.

Notas

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  1. Mal sabia eu, escrevendo estes versos e preparando-me para dar o abraço da despedida ao meu amigo, que as circunstâncias tão repentinamente se mudassem, e que deixaria Paris, para acompanhá-lo na viagem à Itália. Como ignora o homem o que tem de fazer no dia seguinte! É esta uma das fases de minha vida que eterna ficará na minha lembrança; e estes versos me despertarão sempre essa triste recordação; triste pelas circunstâncias que motivaram a viagem.

Amigo, eu parto, e deixo-te saudoso.
Pois que sempre tua alma bem formada
Minhas vozes ouviu, vozes sinceras;
Pois que sempre os conselhos da experiência
Com prazer escutaste,
Inda que às vezes duros;
No momento do adeus recebe, atende
Esta, de amor, não lisonjeira prova.

É qual sereno rio a mocidade,
Que as imagens retrata, e não conhece

O bem, e o mal, e as ilusões do mundo:
É como verde, flácida vergôntea,
Que a forma toma que o cultor lhe imprime,
E boa, ou má, não mais depois se muda.

Quem, como tu, da Pátria longe vive,
Longe dos paternais, úteis ditames,
Assaz tem que lutar, se à glória aspira.
Filósofos não faltam que te instruam;
Mas da vida, nas páginas de um livro,
Não se aprende a ciência.

Estuda, sim estuda, mas pratica
Dignas ações de ti; e eu te asseguro,
Pois que a Natura te protege, e inspira,
Qu'inda um dia serás brilhante estrela
Entre os astros que a Pátria nossa adornam.
A Deus praza que a Pátria não iludas,
E os votos de teus pais, e dos amigos.

A todo o instante que este livro abrires,
Lendo estes versos, dize: hei um amigo.

Sim, a custo te deixo, augusto alcáçar
Do progresso, da luz, da liberdade.
Vivífico remanso, onde perene
Bebe o estrangeiro quanto apraz à mente,
Do néctar das ciências sequiosa.

Sim, com justa razão te ornas de orgulho,
Pátria de heróis, refúgio de infelizes,

Vítimas do erro, que ainda a Europa preme
Com cem braços de ferro; fugitivos,
Em teu grêmio cabal abrigo encontram.
Mãe desvelada não mais pronta acode
Com bondadoso peito ao tenro infante.

Qual da torrente que de alpestre fraga
Jorrando em catadupas marulhosas
Se ala equóreo vapor que o campo orvalha,
E em rios dividindo-se, e em regatos
A longes terras nutrimento envia;
Assim os sábios, que em teu seio abundam,
Manam nome, e saber aos outros povos.

Para teatro de espantosas cenas
Teu solo assinalou a Providência.
Aqui rompeu esse vulcão terrível,
Que o mundo inteiro alumiou co'as lavas,
E à fileira dos reis alçou os homens;
Aqui o rei dos reis, terror da Europa,
No trono colossal, firme no povo,
Honras, louros, e cetros repartia.

O jugo antigo, que a razão curvava,

Quebrou, em ti nascido, esse Descartes, [1]
Que por novo teor, método novo,
Sublime estrada abriu à Inteligência.
Malebranche o seguiu, também teu filho.

As boas Artes, do progresso amigas,
Filhas da Liberdade, irmãs da glória,
Foragidas da Itália, atravessaram
Alpes, e Reno, em ti seu templo ergueram.

Paris, citar teu nome é pôr remate
Aos elogios teus; eu te venero.
Lições em ti frui; como eu mil outros
Brasileiros, que a Pátria hoje adereçam,
Em ti juvenis passos amestraram.
Da sapiência o brilho ofusca o do ouro;
Só de alma estreme a gratidão é paga;
Grato te sou no tributar encômios
Não lisonjeiros, que a verdade os sela.

Arando o crespo Oceano, à Pátria minha
As ciências passaram triunfantes

Do santuário teu, nas mãos levando
O archote da razão; ali brilhante
Luz difundindo, as trevas sacudiram,
Que em nossos horizontes negrejavam.

No facundo clarim soa a Verdade;
Então do avaro Lusitano as peias,
E as erguidas barreiras rotas caem,
Quando Montesquieu, Rousseau troando,
As cidades, e os campos repercutem.
Assim de Jericó outrora os muros,
Das Hebréias trombetas sons ouvindo,
Caem aos pés de Josué submissos.

Então pautando os seus pelos teus passos,
Mais e mais o Brasil terreno avança
Na escala das Nações, que no orbe avultam.

Como da lira consoante vibra
Uma corda, quando outra foi ferida,
O Brasil teus triunfos aplaudindo,
Co'as tuas explosões harmonizando,
Assim empeços vence, e igual triunfa.

Oh Brasil, porventura lisonjeiro
Serei no meu dizer? Donde te veio
A Ciência das Leis, a Medicina,
A Moral, os costumes que hoje ostentas?
Quem te ensinou a perscrutar teus campos,
A pesquisar segredos, que a Natura
Em cada verme, em cada flor oculta?
Quem teu gênio subiu ao firmamento,
E os mistérios dos astros revelou-te?
Quem a tela, de cores matizando,
Mostrou-te retratada a Natureza,
Teus heróis, tua história, teus costumes?
Responda a gratidão. — Avulta, oh França!
Marcha, prospera; e tu, Brasil, prospera;
Estes meus votos são, outros não tenho.

Um povo sempre é filho de outro povo;
Um homem sem cultura não avança;
Sem ensino os espíritos não brilham.

Quem, Paris, sem amar-te pode ver-te?
E quem pode deixar-te sem saudade?
Ah! não beberei mais as eloqüentes
Lições, que me apraziam, de teus mestres!

Não verei mais teu Louvre apinhado
De maravilhas tantas! Teus colégios,
Onde vozes troavam sapientes!
Ainda a mente me pinta os de Sorbonne
Vastos anfiteatros coroados
De atenta juventude! — Tudo deixo...

Ah! deixo ainda mais, deixo um amigo,
Que raros são, e que tão poucos tenho!
Sabes com que pesar te deixo, oh Sales! [2]
Companheiro da infância; às portas, juntos,
Da Ciência batemos; ela ouviu-te,
Abriu-te, e franqueou-te os seus tesouros.
Ainda jovem, da Pátria és já um astro,
Que no seu horizonte alto rutila;
Eu mísero, fosfórico meteoro
Sem nome vago. — E morrerei sem nome?

E tu, pintor dos brasilenses bosques,
Tu, que em quadros multíplices ao mundo
Nossos costumes eloqüente mostras; [3]

Venerando Ancião, amigo, e mestre,
Por quem já uma vez chorei saudoso,
E tu também choraste; hoje de novo
Se reproduz tal cena; mas ao menos
Tu ficas no teu lar, co'os teus, e eu parto,
Parto, não para o meu. Debret, teu nome
Comigo eterno irá, como ele eterno
Passará de uma idade à outra idade.

Adeus, Paris; adeus do mundo empório.
Adeus, Sales, Debret, adeus... Amigo,
Que ao teu o meu destino unir quiseste,
Hoje a minha saudade igual te punge;
Não agravemos mais nossos pesares;
Vamos, meu Araújo; é tempo, vamos.

Notas do autor

[editar]
  1. Sei que Descartes não nasceu em Paris, mas eu falo de toda a França.
  2. O meu ilustre amigo Francisco de Sales Torres-Homem.
  3. Publicava então M. Debret sua Viagem Pitoresca ao Brasil, obra de um grande mérito.

Tal como o caçador afadigado,
Depois de em vão correr ingratos montes,
Se alfim vê belo pássaro que pousa
Sobre um tronco do bosque,
Alegre e duvidoso a arma prepara;
E quando cuida já que é presa sua,
Manso o vê que se escapa, e que desliza
Nos leves ares co'as talhantes plumas,
Triste, desesperado à casa volta:
Ou como terno amante, que de longe
O bem-amado avista, passeando

No jardim de seus pais; contente investe,
Já em doces idéias engolfado;
E quando perto chega,
E cuida ir desfrutar gratos momentos,
Ela modesta e temerosa, os olhos
Brandamente volvendo, se retira,
E o malfadado deixa
Entregue à dor, carpindo-se saudoso;
Assim eu, oh belíssima Suíça,
Vi teus montes, teus bosques de pinheiros,
Teus campos férteis co'o suor dos homens;
Vi teu lago tranqüilo, onde se espelha
De cima desse trono de alabastro, [1]
O sol, mal que amanhece faiscante.
Assim jovem guerreiro de ouro armado,
No polido pavês atento se olha,
E contempla seu garbo, antes que saia
A discorrer os campos, coruscante.
Vi a tua cidade de Genebra,
Tão linda como o lírio junto d'água,
Tão graciosa como pura virgem,
Que a roca empunha, e que meneia o fuso.

Vi-te, e meu coração portas abria
Ao prazer fugitivo,
Que mais ligeiro corre que o teu Ródano.
Alma alegria a mente me orvalhava,
Tão seca de pesares;
E a saudade da Pátria que me punge,
Como que adormecida, menos dura,
A farpa descansava.
Esquecido de mim, do meu destino,
Começava a gozar-te; — e já me foges!
Mas se tu de meus olhos disapareces,
Desenhada na mente a imagem tua,
Jamais consentirei que se esvaeça.

Oh Suíça, oh Genebra, oh país livre!
Culta Cítia da Europa, solo honrado
Pelos Euler, Rousseau, Haller, e Géssner,
Recebe inda este adeus de um estrangeiro;
E praza ao céu que o último não seja,
Que a ti volte, e te veja uma, e mais vezes.

Genebra, 11 de outubro de 1834

Notas do autor

[editar]
  1. O Monte Branco.


À Senhora Catalani

Sim, é certo; a Natura não se esgota;
Mas providente de seu seio tira
Um a um esses Gênios, que benigna
Co'os séculos reparte;
Assim, sem fatigar, encômios cobra,
E co'a força do mágico artifício
Os homens doma, os encadeia, e guia.

Dos Gênios a importância se conhece
Quando, enchendo a missão, desaparecem.
Se os rios as campinas fertilizam,
Os lavradores folgam;
Mas extintas as fontes d'alma veia,
Atenuam-se os campos,
E a Natureza em torno empalidece;
Aos pedregosos, descobertos leitos,
O homem chega, e d'água uma só gota,
Para a sede aplacar, não acha, e chora;
Mas lágrimas a sede não saciam!
Então do bem se lembra que gozara,
Do bem que já não goza.

Quem não respeita o Gênio? Quem não sente
Bater-lhe o coração inopinado,
Quando escuta os angélicos acentos
Do ser misterioso,
Que a Natureza inspira?

Na culta Grécia, na guerreira Roma
Endeusada a Harmonia cultos teve;
Entre bárbaros povos, Galos, Francos,
Celtas, Bretões a música divina
Os cruentos costumes adoçava.
Nos Brasílios sertões, duros Tamoios,
Intrépidos Caités ao som se curvam
Da harmonia selvagem;
Como divinos, de Tupã mimosos,
Seus músicos respeitam.
A iluminada Europa
Não desdenha entoar sagrados salmos
No Templo do Senhor; atado ao remo
O pescador ao som das vagas canta,
Canta o proscrito sobre estranhas plagas,
E o peregrino em solitárias selvas.
O canto maternal o infante acalma,
E a cólera dos homens se desarma,
Quando escuta suave melodia.

Eis em campo o guerreiro;
Como brioso marcha, quando troa
A bélica trombeta!
Patrióticos hinos entoando,
Sente para o valor estreito o peito.
Entre selvas de lanças, e de espadas,
Coberto co'uma abóbada de fumo,
Através de pelouros sibilantes,
Assoberbando a morte,
Vai nos braços da glória
Arvorar os pendões vitoriosos!
Na guerra hinos guerreiros,
Na paz canções de amores!
Tanto, oh música, podes sobre os homens,

Que em toda parte imperas!
Sim, que os Anjos, os céus, o sol, os mares,
Os vales, as montanhas, as florestas,
Aves, brutos, e homens,
E essas centenas de milhões de mundos,
Que cadentes vagueiam no infinito,
É um sistema harmônico, perpétuo,
Em glória do Supremo Ser dos seres!

Rara mulher, tu viste humildes servos
Deporem a teus pés dons preciosos,
Que os Reis, e os Potentados te enviavam.
Tu viste os próprios Reis, e seus validos,
E deles homenagem recebeste.
Viste os povos da Europa arrebatados
Aqui e ali ao som de teus acordos,
Que embebiam nos seios d'alma o encanto.
Viste, sim viste inúmeras coroas
Lançadas a teus pés; e prosseguias
Ufana a deslizar as sibilinas
Dulcíssonas cadências.
Eis do Gênio o triunfo!
Glória ao Gênio se dê, perene, eterna!

Sobre um leito de rosas, e de louros,
Hoje repousas, não no esquecimento,
Mas no arroubo da glória:
Como o guerreiro que na paz desfruta,
Vendo os despojos dos vencidos povos,
Grata consolação que a alma embriaga.

Tudo o que te rodeia manifesta
Teu imortal renome.
Altares te ergueria a prisca Grécia,
Se a prisca Grécia te embalasse o berço.
Da própria filha tua a voz canora,
Voz que tão alto sobe, e já promete
Outro novo milagre de harmonia,
Também te louva, e exalta;
Que se o nome dos pais herdam os filhos,
A glória filial os pais sublima.

Ah! não desdenhes receber louvores
Do peregrino incógnito, que passa
Por estrangeiras plagas
Sem arruído, como o mudo sopro
Das matutinas, solitárias auras.

Mil vezes proferir ouvi teu nome
No novo, e velho mundo, e jamais pude
Augurar-me a ventura
De te ver, de te ouvir, e mais ainda,
De receber de ti sinais de estima.

Longe da Pátria o viajor saudoso
Bem raras vezes o prazer encontra.
De cidade em cidade andado tenho,
Reinos atravessei, cantões, e vilas,
Vinguei gelados Alpes, e Apeninos,
Vales desci sombrios, subi torres,
Sempre co'a Pátria minha na lembrança;
Como a andorinha que de teto em teto
Salta, sem que se esqueça de seu ninho.
Tudo da Pátria a idéia me revive,
Mas nada me consola;
Em parte alguma não achei ainda
Um coração de pai, de mãe, de amigo,
Que vendo-me partir, pesar sentisse,
E ao menos me dissesse: — Deus te guie.

Sublime Catalani, tu me honraste!
Talvez única sejas, que te lembres
Do peregrino errante,
Quando ele, já na Pátria rodeado
Dos velhos pais, de irmãos, e dos amigos,
Refrescando a memória das viagens,
Entre, os que viu, prodígios,
Cheio de comoção, citar teu nome,
E dizer: eu a vi; falei com ela!

Pago ao Gênio um tributo merecido,
Que a gratidão me inspira;
Fraco tributo, mas nascido d'alma.

Florença, 20 de novembro de 1834


Um mundo oculto, mais real, mais belo
Que o mundo exterior, nossa alma encerra.
Aí a fantasia, hábil pintora,
Ora mil quadros reproduz da terra,
Ora de outros mil quadros criadora,
Quadros de alma doçura,
Instantes nos outorga de ventura.

Oh fantasia, oh único refúgio
Do mísero proscrito!
Tu, para consolar o peito aflito,
Os passados prazeres nos retratas;
As pandas asas das prisões desatas,
E pelos pátrios ares deslizando,
Que sublimes visões nos vais pintando!

Oh! se é belo, sentado à sombra amiga
Do pátrio cajueiro
De frutos esmaltado,
Onde o saudoso sabiá se abriga,
Onde pousa o colibri, e o gaturamo;
Se é doce ouvir terníssimo reclamo
Do lindo coro alado,
Da aurora pregoeiro,
Que à celeste mansão nossa alma eleva
Quanto é mais belo, ausente,
À parca sombra do álamo estrangeiro,
Ouvindo o rouxinol cantar amores,
Da Pátria então lembrar-se,
Lembrar-se de um parente,
De um amigo da infância, de um remanso,
Onde, fruindo o aroma de mil flores,
Ao som estrepitoso da corrente,
Tantas vezes achamos o descanso
Às infantis fadigas!

Oh! como é doce então a alma engolfar-se
Nas cenas do passado!
Tudo vem ante nós apresentar-se
Nesse querido instante!
Nossa alma, entre mil cenas delirante,
Ouve a voz da saudade que murmura;
A saudade, a saudade,
Esse triste prazer que não se explica,
Agro prazer de um coração magoado,
Prazer que se mistura
Com dor, com aflição, saudosa angústia
Que nos punge, nos rói, nos vivifica.
Assim nestas estranhas, longes plagas
Se nos antolha a Pátria!

E por ela em cada inverno
De contínuo suspiramos,
E mesmo na primavera
Inda dela nos lembramos.

Cada quadro nos desperta
A cadeia interrompida
De gratas reminiscências
Da nossa passada vida.

Assim, assim um dia,
Já sob o céu Brasílio,
Como um sonho, da Europa a bela imagem
Ressurgindo na nossa fantasia,
Despertará saudades deste exílio.

Então entre mil cenas divagando,
Do passado as idéias refrescando,
Ante nós se erguerá também Bruxelas,
Seus parques, seus jardins, e as torres belas
Dos seus templos, e góticos palácios.

Então, talvez então, vendo este livro,
Que quadros vos recorda tão diversos,
Vos lembrareis do errante, jovem vate,
Que estes versos traçou, saudosos versos.

Os gratos dias,
Que aqui gozei,
Ante minha alma
Sempre os terei.

Os inocentes,
Gratos penhores,
Anjos da terra
Encantadores,
Que tantas vezes
Eu afagava,
E em grato enlevo,
Os abraçava;
Esta harmonia
Do par ditoso;
Em vós beleza,
Amor no esposo;
Candura em todos,
Terna bondade,
Dotes sublimes
Da Divindade
Jamais minha alma
Olvidará,
E de vós sempre
Se lembrará.

Bruxelas, 21 de junho de 1836

Adeus, oh terras da Europa!
Adeus, França, adeus, Paris!
Volto a ver terras da Pátria,
Vou morrer no meu país.

Qual ave errante, sem ninho,
Oculto peregrinando,
Visitei vossas cidades,
Sempre na Pátria pensando.

De saudade consumido,
Dos velhos pais tão distante,
Gotas de fel azedavam
O meu mais suave instante.

As cordas de minha lira
Longo tempo suspiraram,
Mas alfim frouxas, cansadas
De suspirar, se quebraram.

Oh lira do meu exílio,
Da Europa as plagas deixemos;
Eu te darei novas cordas,
Novos hinos cantaremos.

Adeus, oh terras da Europa!
Adeus, França, adeus, Paris!
Volto a ver terras da Pátria,
Vou morrer no meu país.

Paris, agosto de 1836