Anexo:Imprimir/Suspiros poéticos e saudades (1865)
Índice
[editar]- Suspiros Poéticos e Saudades/Lede
- A voz de minha alma
- O vate
- A poesia
- Deus, e o Homem
- A fantasia
- O cristianismo
- A infância
- Preces da infância
- A mocidade
- A velhice
- A beleza
- O mistério
- Um passeio ás Tuileiras
- A tristeza
- A aflição
- A consolação
- A vida da inocência
- A sepultura de Filinto Elísio
- Uma manhã no monte Jura
- A vista de Roma
- O dia de ano-bom de 1835
- As ruínas de Roma
- O riso da fortuna
- O suspiro à pátria
- Ao meu ilustre mestre e amigo
- Ao Ilmo e Exmo Sr. José Joaquim da Rocha
- Uma noite no Coliseu
- Para que vim eu ao mundo
- O cárcere de Tasso
- No álbum de uma veneziana
- A meu amigo D. J. G. De Magalhães
- Em resposta a meu amigo M. De Araújo Porto Alegre
- Por que estou triste?
- A flor suspiro
- A experiência
- Os suspiros da pátria
- O homem Probo Evaristo Ferreira da Veiga
- A bíblia
- Napoleão em Waterloo
- Ao General Lafaiete
- Às senhoras brasileiras
- A minha lira
- O canto do cisne
- Invocação à saudade
- Adeus à pátria
- À minha família
- A tempestade (Gonçalves de Magalhães)
- O dia 7 de setembro, em Paris
- Adeus ao meu amigo M. de Araújo Porto Alegre
- No álbum de um jovem amigo
- Ao deixar Paris
- À Suíça
- O gênio e a música
- No álbum da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Joana Marques Lisboa
- Adeus à Europa
Péde o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um portico ao edificio; e como este deve indicar por sua construcção á que Divindade se consagra o templo, assim deve aquelle designar o caracter da obra. Sancto uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem em alguns espiritos apoucados.
É um Livro de Poesias escriptas segundo as impressões dos logares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos imperios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gothica cathedral, admirando a grandeza de Deos, e os prodigios do Christianismo; ora entre os cyprestes que espalham sua sombra sobre tumulos; ora emfim reflectindo sobre a sorte da Patria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as scenas da Natureza, diversas como as phases da vida, mas que se harmonisam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anneis de uma cadeia; poesias d’alma, e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.
Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silencio da noite, cançado de fadiga, elevou até a Deos uma alma piedosa, e vertêo lagrimas amargas pela injustiça, e miserias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na historia da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas acções; esse achará um echo de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonise com o seu suspiro.
Para bem se avaliar esta obra, tres cousas releva notar: o fim, o genero, e a fórma.
O fim deste Livro, ao menos aquelle a que nos propozemos, que ignoramos si o attingimos, é o de elevar a Poesia á sublime fonte donde ella emana, como o effluvio d’agua, que da rocha se precipíta, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.
A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da intelligencia deve sanctificar as virtudes, e amaldiçoar os vicios. O poeta, empunhando a lyra da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Sancto, do Justo, e do Bello.
Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos lyricos, tão cheio de saber, e que podéra ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou desta idéa. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traducções; e quando elle é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferencia ao homem civilisado, como si aquelle a este superasse, como si a civilisação não fosse obra de Deos, á que era o homem chamado pela força da intelligencia, com que a Providencia dos mais seres o distinguira!
Outros apenas curaram de fallar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decencia!
Seja qual for o logar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bella, embalado pelos prazeres; no carcere, como no palacio; na paz, como sobre o campo da batalha; si elle é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas azas da harmonia até ás idéas archetypas.
O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ahi procuram aplacar a sêde.
Ora, nossa religião, nossa moral é aquella que nos ensinou o Filho de Deos, aquella que civilisou o mundo moderno, aquella que illumina a Europa, e a America: e só este balsamo sagrado devem verter os canticos dos poetas brasileiros.
Uma vez determinado e conhecido o fim, o genero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o enthusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração si a Mythologia podia, ou não, influir sobre nós. Comtanto que dicessem que as Musas do Helicon os inspiravam, que Phebo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras taes e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como si podesse parecer bello quem achasse algum velho manto grego, e com elle se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguem honram.
Quanto á fórma, isto é, a construcção, por assim dizer, material das estrophes, e de cada cantico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéas como ellas se apresentaram, para não destruir o accento da inspiração; alêm de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rhymas, e a symetria das estancias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orchestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem propria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.
Quando em outro tempo publicámos um volume das Poesias da nossa infancia, não tinhamos ainda assás reflectido sobre estes pontos, e em quasi todas estas faltas incorrêmos; hoje porêm cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, si não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.
Algumas palavras acharão neste Livro que nos Diccionarios Portuguezes se não encontram; mas as linguas vivas se enriquecem com o progresso da civilisação, e das sciencias, e uma nova idéa péde um novo termo.
Eis as necessarias explicações para aquelles que lêm de boa fé, e se aprazem de colher uma perola no meio das ondas; para aquelles, porêm, que com olhos de prisma tudo decompoem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o nectar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?… Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escarneo.
Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; si elle merecer o publico acolhimento, cobraremos animo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aquelles que fazer poderemos com o tempo.
É um novo tributo que pagamos á Patria, emquanto lhe não offerecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a attenção descança, fatigada pela seriedade da sciencia.
Tu vais, oh Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Patria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, excepto o egoismo: tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do hinverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.
Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Patria, de enthusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deos, e no futuro.
Adeos!
- Pariz, julho de 1836.
Veneza, maio de 1835.
Nos Alpes, 14 de outubro 1834.
Milão, 17 de oitubro 1834.
Genebra, oitubro 1834.
- Paris, Dezembro de 1835.
- Pariz, Janeiro de 1836.
Como o vapor da cánica caverna,
Nas margens do sombrio Aniâno lago.
Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.
- Pariz, Março de 1836.
- Roma, 17 de Abril 1835.
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