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Anexo:Imprimir/Suspiros poéticos e saudades (1865)

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Índice

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Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 9-15.

LEDE.

Péde o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um portico ao edificio; e como este deve indicar por sua construcção á que Divindade se consagra o templo, assim deve aquelle designar o caracter da obra. Sancto uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem em alguns espiritos apoucados.

É um Livro de Poesias escriptas segundo as impressões dos logares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos imperios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gothica cathedral, admirando a grandeza de Deos, e os prodigios do Christianismo; ora entre os cyprestes que espalham sua sombra sobre tumulos; ora emfim reflectindo sobre a sorte da Patria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as scenas da Natureza, diversas como as phases da vida, mas que se harmonisam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anneis de uma cadeia; poesias d’alma, e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silencio da noite, cançado de fadiga, elevou até a Deos uma alma piedosa, e vertêo lagrimas amargas pela injustiça, e miserias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na historia da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas acções; esse achará um echo de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonise com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, tres cousas releva notar: o fim, o genero, e a fórma.

O fim deste Livro, ao menos aquelle a que nos propozemos, que ignoramos si o attingimos, é o de elevar a Poesia á sublime fonte donde ella emana, como o effluvio d’agua, que da rocha se precipíta, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da intelligencia deve sanctificar as virtudes, e amaldiçoar os vicios. O poeta, empunhando a lyra da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Sancto, do Justo, e do Bello.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos lyricos, tão cheio de saber, e que podéra ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou desta idéa. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traducções; e quando elle é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferencia ao homem civilisado, como si aquelle a este superasse, como si a civilisação não fosse obra de Deos, á que era o homem chamado pela força da intelligencia, com que a Providencia dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de fallar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decencia!

Seja qual for o logar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bella, embalado pelos prazeres; no carcere, como no palacio; na paz, como sobre o campo da batalha; si elle é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas azas da harmonia até ás idéas archetypas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ahi procuram aplacar a sêde.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquella que nos ensinou o Filho de Deos, aquella que civilisou o mundo moderno, aquella que illumina a Europa, e a America: e só este balsamo sagrado devem verter os canticos dos poetas brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o genero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o enthusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração si a Mythologia podia, ou não, influir sobre nós. Comtanto que dicessem que as Musas do Helicon os inspiravam, que Phebo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras taes e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como si podesse parecer bello quem achasse algum velho manto grego, e com elle se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguem honram.

Quanto á fórma, isto é, a construcção, por assim dizer, material das estrophes, e de cada cantico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéas como ellas se apresentaram, para não destruir o accento da inspiração; alêm de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rhymas, e a symetria das estancias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orchestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem propria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.

Quando em outro tempo publicámos um volume das Poesias da nossa infancia, não tinhamos ainda assás reflectido sobre estes pontos, e em quasi todas estas faltas incorrêmos; hoje porêm cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, si não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste Livro que nos Diccionarios Portuguezes se não encontram; mas as linguas vivas se enriquecem com o progresso da civilisação, e das sciencias, e uma nova idéa péde um novo termo.

Eis as necessarias explicações para aquelles que lêm de boa fé, e se aprazem de colher uma perola no meio das ondas; para aquelles, porêm, que com olhos de prisma tudo decompoem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o nectar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?… Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escarneo.

Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; si elle merecer o publico acolhimento, cobraremos animo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aquelles que fazer poderemos com o tempo.

É um novo tributo que pagamos á Patria, emquanto lhe não offerecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a attenção descança, fatigada pela seriedade da sciencia.

Tu vais, oh Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Patria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, excepto o egoismo: tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do hinverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Patria, de enthusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deos, e no futuro.

Adeos!

Pariz, julho de 1836.


Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 19-28.

I.
INVOCAÇÃO
AO ANJO DA POESIA.

A VOZ DE MINHA ALMA.
Quando da noite o véo caliginoso  Do mundo me separa,E da terra os limites encobrindo,Vagar deixa minha alma no infinito,Como um subtil vapor no aéreo espaço;Uma angelica voz mysteriosa  Em torno de mim sôa,Como o som de uma flauta harmoniosa,Que em sagradas abóbadas rebôa.
Donde vem esta voz? — Não é de virgem,Que ao prazo dado o bem amado aguarda,E mavioso canto aos céos envia:Esta voz tem mais grata melodia!
Donde vem esta voz? — Não é dos Anjos,   Que leves no ar adejam,E com hymnos alegres se festejam,   Quando uma alma innocenteDeixa do barro a habitação escura,   E na siderea altura,   Como um astro fulgentePenetra de Adonai o aposento;A voz que escuto tem mais triste accento.
Como d’ara thurícrema se exalçaNuvem de grato aroma que a circunda,   E lenta vai subindo   Em faxas ondeantes,   Nos ares espargindo   Particulas fragrantes,E sóbe, e sóbe, até no céo perder-se,Tal de mim esta voz parece erguer-se.
Sim, esta voz do peito meu se exhala!Esta voz é minha alma que se espraia,É minha alma que geme, e que murmura,Como um orgam no templo solitario;Minha alma, que o infinito só procura,E em suspiros de amor a seu Deos se ala.
   Como surdo até hoje Fui eu á tão angélica harmonia?Porventura minha alma muda esteve?Ou foram porventura meus ouvidos   Até hoje rebeldes?Perdoa-me, oh meu Deos, eu não sabía!Eram Anjos do céo que lhe inspiravam,E outras vozes meus labios modulavam.
   Castas Virgens da Grecia,Que os sacros bosques habitais do Pindo!   Oh Numes tão fagueiros,   Que o berço me embalastes   Com risos lisonjeiros,Assás a infancia minha fascinastes.   Guardai os louros vossos, Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.   Adeos, ficções de Homero!   Deixai, deixai minha almaEm seus novos delirios engolfar-se,Sonhar co’as terras do seu pátrio Río.Só de suspiros coroar-me quero,De saudades, de ramos de cypreste;Só quero suspirar, gemer só quero,E um cantico formar co’os meus suspiros;Assim pela aura matinal vibradoO Anemocordio, ao ramo pendurado,   Em cada corda geme,E a selva peja de harmonia estreme.
    Já nova Musa    Meu canto inspira;    Não mais empunho    Profana lyra.
    Minha alma, imita    A Natureza;    Quem vencer póde    Sua belleza?
    De dia, e noite    Louva o Senhor;    Canta os prodigios    Do Criador.
    Tu não escutas    Essa harmonia,    Que ao throno excelso    A terra envia?
    Tu não reparas    Como o mar geme,    Como entre as folhas    O vento freme?
    Como a ave chóra,    A ovelha muge,    O trovão brama,    O leão ruge?
    Cada qual canta    Ao seu theor;    Mas louvam todos    O seu auctor.
    Da grande orchestra    Augmente o brilho    O canto humano,    Da razão filho.
    Minha alma, aprende,    Louva a teu Deos;    Os teus suspiros    Envia aos céos.
Oh como é bello o céo azul sem nódoa!Que puro amor nos corações ateia;Como a pupilla de engraçada virgem,Que serena nos olha, e nos enleia.
Mas que imagem sublime a mim se antolha,Com largas azas brancas como o cysne,E roçagante toga, que se ondeiaComo flocos de neve alabastrina!Uma harpa de ouro em suas mãos sustenta!Oh que voz suavissima e divina!Oh que voz, que as paixões n’alma adormenta!
   Vem, oh Genio do céo filho!   Vem, oh Anjo d’harmonia!   Cuja voz é mais suave,   Mais fragrante que a ambrosia!
   Teu rosto vence em belleza   Ao sol no zenith luzente;   Teu largo manto é mais puro   Do que a lua alvinitente.
   As azas, que te suspendem,   São mais ligeiras que o vento;   São mais terríveis que os raios,   Que gyram no firmamento.
   Tua fronte não se adorna   Com flores que o prado gera;   Sobre teus cabellos de ouro   Brilha de fogo uma esphera.
   Teus pés a terra não tocam,   A teus pés a terra é dura;   Sobre aromas te equilibras   Recendentes de frescura.
   O sol, a lua, as estrellas   São fanaes que te illuminam,   São corpos a quem dás vida,   E ante teus passos se inclinam.
   Os acordos de tua harpa   Todos os astros echôam;   Reanima-se o Universo,   Quando as suas cordas sôam.
   Vem, oh Anjo, ungir meus labios;   Traze-me uma harpa dos céos;   Ao som d’ella subir quero   Meus suspiros até Deos!
Quando no Oriente roxear a Aurora,Como um purpureo, auribordado manto,Que ao Rei da luz o pavilhão decora,E as saltitantes aves pelos ramosDa madrugada o hymno gorgearem,Tua voz, oh minha alma, une a seu canto,E as graças do Senhor cantando exora.
Quando a noite envolver a NaturezaEm tenebroso crepe; e sobre a terraAs azas desdobrar morno silencio;Nessas placidas horas de repouso,Em que tudo descança, excepto o Oceano,Que arqueja, e espuma em solitaria praia,Vizinhos ermos com seus ais pejando,Como um preso que geme, e que debaldeDa prisão contra os muros se arremessa;Tu tambem, como a lua, vigilanteNessas propicias horas, oh minha alma,Tua voz gemebunda exhala, e uneÁ voz do Oceano, á voz d’ave nocturna.
   Enquanto estás sobre a terra,   Como no exilio o proscripto,   Canta como elle, que o canto   Refrigera o peito afflicto.
   Canta, que os Anjos se alegram,   E os Anjos á terra descem,   A escutar esses hymnos,   Que para Deos almas tecem.
   Canta a todos os momentos,   Canta co’ a noite, e co’ o dia;   E o teu derradeiro expiro   Seja ainda uma harmonia.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 29-34.

II.
O VATE.
Porque cantas, oh Vate? porque cantas?Qual é tua missão? O que és tu mesmo?Para ti nada é morto, nada é mudo!Co’ o sol, e o céo, e a terra, e a noite fallas.Tudo te escuta; e para responder-te,Do passado o cadaver se remove,E do tumulo seu a fronte eleva;O presente te atende; e no futuroEternos vão soar os teus accentos!
Quando o vento em furor açouta as comasDos brasilicos bosques, voz tremendaIgual a do trovão ao longe atrôa;E uma nuvem de flores se levanta,Que o ar com seus effluvios embalsama;Assim, quando te agita o enthusiasmo,Das labios teus emana alma torrente,Troante e recendente de perfumes.
De magico poder depositario,Qual um Genio entre os homens te apresentas.Ante ti não ha rei, nem ha vassallo.Tu nos homens só vês virtude, ou vicio.Como um despota, ufano em teus delirios,Uns cercas de immortal auréola tua,Outros condemnas ao opprobrio, e á morte.
Umas vezes suberbo, impetuoso,Qual aguia que sublime o céo devassa,E do céo sobre a terra os olhos desce,Teu igneo, alado genio, no ar suspenso:Não, oh mortaes, não vos pertenço, (exclama) Eu sou orgam de um Deos; um Deos me inspira;Seu interprete sou; oh terra! ouvi-me.
Outras vezes, nas selvas meditando,Sobre um tronco assentado, juncto a um río,Que embalança da lua a argentea cópia;Como entre as folhas susurrante ventoGemer parece, e de algum mal carpir-se,Tu gemes, e co’ o verme te comparas,Que arrasta pelo chão a inutil vida;E vês nas aguas, que a teus pés deslizam,A imagem de teus dias fugitivos.
Fogem os dias como as aguas fogem;Mas da lua o clarão, que a agua reflecte,Sem do logar fugir, brilhando fica;Tal sobre a terra, onde escoára a vida,Resta do Vate a rutilante gloria!
Quando ouve o sabiá troar nas varzeasDo fero caçador a mortal arma,Suffoca o sabiá seu canto, e foge:Assim tu emmudeces, quando estruge Da civil guerra, e da discordia o grito.Mas quando á Patria o inimigo insulta,Armando o braço, e reforçando o peito,No meio dos combates te arremessas,Como o raio que estronda, aclara, e fere,E após teus cantos a victoria marcha.
Vate, o que és tu? Es tu mortal ou nume?Que Deos te abala o peito, e te enfurece,Quando, como um vulcão que estoura em lavasQue accesas rolam, tua voz desatas?
Oh, como é grande o Vate, que arrojadoDa terra se ergue como a labareda,E vagando no céo como um metéoro,Dos labios sólta a voz, e a vibra em raios,Que o vicio e o crime ferem, pulverizam!
Canta, oh Vate! sagrados são teus cantos!Canta, que o céo te inspira, o céo te inflammaCanta, que apesar seu, te escuta o mundo,E o vicio de te ouvir treme de medo.
Não, não és um mortal quando tu cantas;És o Archanjo da justiça eterna!Lamina accesa, fulminante empunhas,Com que prostras por terra a fronte ao crime,Com outra mão elevas o homem justo.
Ou tu cantes a guerra, ou amor cantes,Ou louves do Senhor as maravilhas;Ou do céo as angelicas bellezas,Ou do inferno os horrores nos retrates;Ou sobre o esquife de um amigo chores,Ou enfeites a campa da innocencia;Sempre teus versos, qual nectareo rócio,De ineffavel prazer a alma me embeblem!
Ah, não profanes o teu genio, oh Vate!O incenso só no altar queimar-se deve!Em lago impuro não se banha o cysne,Que manchar teme a candida plumagem.Imita o cysne; e como sempre as flammamSobem ao céo, ao céo teus hymnos subam.
As riquezas que a terra ó avaro off’rece,Mais valor para ti que o céo não tenham; As riquezas da terra ao Vate servemPara imagem da mystica linguagem,Como ao bello ideal dão vida as cores.
No dia em que da lyra sons forçadosVenderes ao tyranno em trôco de ouro,Nesse dia o céo deixa de inspirar-te;Quebra essa lyra, e cessa de ser Vate.
Quando a virgem do sol seu voto infringe,Vedado lhe é tocar no sacro fogo;D’alva c’rôa de flores a despojam,Adornos de vestal, e o nome perde;Assim quando uma vez, oh Vate, atende,Venaes hymnos os labios teus verterem,Deixarás de ser Vate; arranca a c’rôa,E co’ o sello do opprobrio entra no mundo.
Opprobrio ao Vate que profana a lyra!Opprobrio, infamia a quem insulta o Vate.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 35-42.

III.
A POESIA.
Um Deos existe, a Natureza o attesta:A voz do tempo sua gloria entôa,De seus prodigios se accumula o espaço;E esse Deos, que criou milhões de mundos,   Mal queira, n’um minuto,Póde ainda criar mil mundos novos.
Os que nos leves ares esvoaçam,Os que do vasto mar no fundo habitam, Os que se arrastam sobre a dura terra,E o homem que para o céo olhos eleva,Todos humildes seu Auctor adoram.
Todos te adoram, sim, meu Deos, mas como?Este no sol te vê, na lua aquelle,Qual um touro te crê, qual um tyranno;E entre sí disputando a preferencia,Todos ufanos conhecer-te julgam.
No céo rutíla o sol, e sobre a terraCaiem seus raios como chuva de ouro;Mas cada flor, um raio recebendo,De um esmalte diverso se colóra.
Oh tu, qu’eu amo como casta virgem!Sim, tu és como Deos, diva Poesia!Sim, tu és como o sol!.. Por toda parteCultos te rendem de uma zona á outra;   Cada mortal te off’receUm culto igual á força de sua alma;Qual te julga uma virgem do Permessо,   Só de ficções amiga;    Qual da verdade o Anjo,Que tudo vê com olhos luminosos.Tua voz similhante a uma torrenteTudo abala, e comsigo arrasta tudo.
Oh Poesia, oh vida da Natura!   Oh suave perfume   D’alma humana exhalado!Oh vital harmonia do Universo!Tu não és um phantasma da belleza,Fallaz sonho de mente delirante,   E da mentira a deosa;Tu não habitas só da Grecia os montes,Nem só de Phebo a luz te inspira o canto!
De alvo manto coberta, roçagante,La no meio da noite, quando a luaSó para os mortos alvejar parece,Como a lanterna funebre do claustro,Tu, encostada á Cruz do cemiterio,   Como o Anjo da morte,Ao som de uma harpa suspirando exhalasDe quando em quando teus sagrados psalmos. Quando tu pausas, gemebundo o ventoVai tambem entre os lugubres cyprestesTeus ultimos accentos murmurando.
Nas cavas sepulcraes som luctuoso   De tua voz rebôa.Dirías que animados por teu canto,Os myrrados cadaveres se elevam   Do fundo dos jazigos,   E sobre as lousas curvos,Cantam n’um côro o mystico estribilho.
Sobre o bronco alcantil de alpestre fraga,Pelos tufões batida, e pelas ondas,   Que incessantes se entonam,   Tu, sentenda, qual virgem   Do naufragio escapada,O mar contemplas, do infinito imagem;E depois para Deos erguendo os olhos,Teus olhos como dous fanaes accesos,Que dos céos co’as estrellas rivalisam,E ao viajante ao longe o escolho indicam;Ao compasso das vagas gemebundas, Tua angelica voz, como um effluvio,Do mais intimo d’alma a Deos exalças.
Sobre montes de ruínas dos Imperios,Entre reliquias de abatido templo,Ao qual somente o céo de tecto serve,E de lampada a lua, tu vagueas,E te aprazes co’os serios pensamentos,   Que os destroços inspiram.
No campo da batalha, o chão juncadoDe ossos que alvejam, de quebradas armas,Que sublimes lições aos homens dictas!
   Tu és tudo, oh Poesia!   Tu stás na paz, e na guerra,   Nos céos, nos astros, na terra,   No mar, na noite, no dia!
     Oh magico Nume,     Que minha alma adora,     Do céo sacro lume,     Que abrasa, e vigora     O meu coração!
     Tu és o perfume,     E o esmalte das flores,     Dos soes os fulgores,     Dos céos a harmonia,     Do raio o clarão!
     Tu és a alegria     De uma alma piedosa,     E a voz luctuosa,     A voz d’agonia,     Que escapa do peito,     De quem vai do leito     Á terra baixar.     Tu és dos desertos     O som lamentoso,     E o echo choroso     Das vagas do mar.
     Tu és a innocencia,     E o riso da infancia,     Do velho a prudencia,     Do moço o vigor,     Do heróe a clemencia,      Do amor a constancia,     Da bella o pudor.
Tu, que cantaste o hymno da innocencia.Quando immovel ainda repousavaNo berço do Oriente a Humanidade;Tu, que cantando sempre a acompanhasteNos seus dias de dôr, ou de triumpho;Acaso morrerás tambem com ella?Ou sem ti, como um astro em seu eclipse,Se arrastará sem vida a Humanidade,Até toda no tumulo sumir-se?
   Quando o sol, que é tua imagem,   No seu zenith apagar-se,   E tudo outra vez do nada   No escuro golfo abysmar-se:
   Tu, que és a imagem do Eterno,   Terás fim nesse momento?   Ou terás nova existencia   Do Senhor no pensamento?
   Sim; quando tudo extinguir-se,   Guardará Deos na lembrança   De tudo o que agora existe   Uma viva similhança.
   Essa image’ a Deos presente   Serás tu, oh Poesia!   Tu és do Eterno um suspiro,   Que enche o espaço de harmonia.

Veneza, maio de 1835.

Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 43-52.

IV.
DEOS, E O HOMEM.

Nos Alpes, 14 de outubro 1834.

Quando se arrouba o pensamento humano,E todo no infinito se concentra,De milhões de prodigios povoadо;Quando sobre o fastigio de alto monte,Como um colibre sobre altivo robre,Na vastidão sidérea a vista espraia;E vê o sol, que no Oriente assoma,Como n’um lago em propria luz nadando,E a noite, que se abysma no occidente,Arrastando seu manto tenebroso, De pallidas estrellas semeado;Quando dos gelos, que alcantis corôam,Vê a enchente rolar em cataractas,Por cem partes abrindo largo leito,Fragas, e pinheiraes desmoronando;Quando vê as cidades enterradasA seus pés na planice, e negros pontosAqui, e alli, moverem-se sem ordem,Como abelhas em torno da colmeia;O homem então se abate; um suor frio,Qual o suor que o moribundo côa,Rega-lhe o corpo extatico; sua alma,Como um subtil vapor, que o lirio exhala,Ferido pelo raio matutino,Da terra se levanta; e o corpo algenteQual um combro de pó morto parece…Ella está no infinito! — Então lhe trôaUma voz, como o echo das cavernas,Quando os ventos nos ares se debatem;Como um ronco do Oceano repellidoPor estavel penedo; como um gritoDas entranhas da terra, quando accesasDe sua profundez lavas borbotam; Como o rouco bramido das tormentas;É a voz do Universo! — voz terrivel,Porêm harmoniosa, que proclamaA existencia de um Ser, que de sí mesmo,De sua omnisciencia, e eterna força,Tudo tirou, quanto o Universo encerra.
Os céos, os mundos, o Oceano, a terraÉ um vasto hieroglyphico, é a fórmaSymbolica do Ser aos olhos do homem.O movimento harmonico dos orbesÉ o hymno eterno e mystico, que narraAltamente de um Deos a omnipotencia.Tudo revela Deos, — e Deos é tudo.
De tal grandeza sotoposto ao peso,Como si o esmagasse ingente mole,O homem se aniquila, e desparece,Qual no profundo pégo um grão de areia.
É aqui, oh meu Deos, calcando nuvens,Parecendo tocar o céo co’ a fronte,Que eu reconheço a immensidade tua. Existe este Universo, existe o homem,Porque de todo o Ser tu és a origem.
Aqui, para louvar teu sancto Nome,É fraco o peito humano, é fraca a lingua,É fraca a voz, que titubante hesitaTão alto remontar, e no ar perder-se,Antes que de astro em astro repetida,De um céo a outro céo, de um Anjo a outro,Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,Como discorde som de rota lyra.
Alva nuvem, que toucas este monte,Desce um pouco, e recebe-me em teu dorço;Asinha ala-me ao céo; na etherea plaga,Vendo o sol de mais perto, talvez possa,Com sua luz benefica animado,Altísono entoar um hymno excelso,Digno de Jehová, que eterno escutaDos angelicos córos a harmonia.Abre-te, oh céo azul, que a mortaes olhosA mansão do Senhor zeloso occultas!Abre-te, oh céo azul; deixa minha alma Saciar-se co’ a luz da Sião sancta.Sóbe, meu pensamento, vôa, rompeOs turbilhões dos Cherubins, e Thronos,Mais bellos que mil soes, mais coruscantes,Que em vortice perenne estão ladeandoDo Eterno Padre o luminoso solio.
Oh arrojado pensamento humano,Por mais que em teu soccorro os astros chames,Por mais que sua luz o sol te empreste,Seu ouro a terra, o céo a immensidade,Os ríos a corrente, os campos flores,Suas azas a raio, os sons a lyra,E a noite seu mysterio, alfim si tudoInvocado por ti, a ti se unisse,Não poderás ainda em teus transportesOs louvores tecer do Omnipotente!
Mas, oh Deos, que missão tens confiadoA este fraco ser, que sobre a terraEntre os mais seres como um rei se ostenta,E unico para ti erguendo os olhos,Parece teu rival?… Missão augusta É sem dúvida a sua; e o seu destinoNão é o d’alimaria!… A NaturezaObedece a seu mando, como si elleEntre Deos e a terra collocado,Orgam fosse das leis da Providencia.
Quem a elle se oppõe? — Embalde o OceanoCom cem braços separa os continentes.O homem desthrona os robres, e os pinheirosDas fragas da montanha, ousado os lançaSobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,E assoberbando as vagas furibundas,Que ante seu genio quebram-se gemendo,Domina, e calca o tumido elemento,E atravessa de um pólo a outro pólo,Como atravessa os ares veloz aguia.Aqui bramando, um río se devolve,Qual serpente feroz medo incutindo;Co’ uma arcada de pedra o homem cobre-o;Elle a derruba? — Nova arcada o doma.
Como gigantes firmes, alinhados,Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem Enormes Alpes, açoutando as nuvensCo’ a corôa de gelo, e co’ os pennachosDe branca carambina, e verdes selvas;Não retrograda o homem, não desmaia!Quando sobre a cimeira o sol se encosta,E a vista estende á profundez do valle,O sol já no arduo afan vencendo o enxerga.Quando transmonta o sol, o homem dá tregoas,E descança na já vencida estrada!De dia em dia assim prosegue ovante;Ora esbrôa um cabeço mais supino,E co’ as ruinas desse outro nivela;Ora sóbe, ora desce, ora torneia,Ora penetra a rigidez do monte,Como a setta do Indio os ares rompe,E a noite das abóbadas varando,D’ outro lado vai ver o céo, e o dia!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Tu convertes os bosques em cidades;Marcas do sol o gyro, e o dos cometas;Do povo alado as regiões exploras;Nem no mar a baleia está segura, Nem nas espessas selvas o elephante!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Toda a terra está cheia com teu nome;Um seculo transmitte a outro seculoDos teus feitos a historia portentosa;Tu só marchas, tu só te desenvolves,E inda não recuaste de fadiga!Com que signal sellou a tua fronteA mão do Criador? — Donde descendes?Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Não, não és para mim mais um enigma!Conheço a origem tua, e o teu destino,Tua missão conheço sobre a terra.A Natureza toda te respeitaPorque és do Criador a obra prima,Porque transluz em ti o seu transumpto.
Não é á força tua que se curvaA terra, que si á força se curvasse,Seria o elephante o rei da terra.É á tua sublime intelligencia, E a Deos, só a Deos, que tu reflectes,Como do sol a luz reflecte a lua.
Nas barreiras da morte tudo esbarra;Menos o homem, que atravessa airoso,Ahi o mortal corpo abandonando,Para no seio entrar da Eternidade;Assim o viajor o pó sacode,E deixa o companheiro da viagem,Manto todo coberto de poeira,Quando á cidade desejada chega.A alma não morre, porque Deos não morre.
Assás, oh Deos, o homem sobre a terraRevela teu poder, tua grandeza.A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,Com que prendaste o homem, não, não pódeDominar a Razão, que te proclama!Si muda para mim fosse a Natura,Na Razão que me aclara, e não é minha,Senhor, tua existencia eu descobriria.
Eu te venero, oh Deos da Humanidade!Meu amor o que tem para offertar-te? Digno de ti só tem minha alma um hymno,E esse hymno, oh meu Senhor, é o teu Nome!
Que póde o homem dar a quem dá tudo?Só em meu coração suspiros tenho,Suspiros para todos os momentos.De ti, Senhor, minha alma necessita,Como de luz meus olhos, de ar meu peito.E si me é dado a ti subir meus votos,Si é dado pela mãe pedir um filho,Vôem meus votos sobre as igneas azasDo sol, e tu, Senhor, propicio atende;Nada por mim, por minha Patria tudo;Fados brilhantes ao Brasil concede.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 53-54.

V.
A PHANTASIA.
Para dourar a existenciaDeos nos dêo a phantasia;Quadro vivo, que nos falla,D’ alma profunda harmonia.
Como um suave perfume,Que com tudo se mistura;Como o sol que flores cria,E enche de vida a natura.
Como a lampada do temploNas trevas sozinha véla,Mas si volta a luz do diaNão se apaga, e sempre é bella.
Dos pais, do amigo na ausencia,Ella conserva a lembrança;Aviva passados gozos,E em nós desperta a esperança.
Por ella sonho acordado,Subo ao céo, mil mundos géro;Por ella ás vezes dormindoMais feliz me considero.
Por ella, meu caro Lima,Vivirás sempre commigo;Por ella sempre a teu ladoEstará o teu amigo.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 55-62.

V.
O CHRISTIANISMO.

NA CATHEDRAL DE MILÃO.
Mal que á Natura se abre a intelligencia,E o primo pensamento a alma desperta,Logo a idéa de Deos d’ella se apossa,E a origem sua, e o seu destino aclara.
Subito um fogo, mais que o sol brilhanteQue as gerações dos tropicos abrasa,Mais vehemente que os vulcões da terra,N’ alma se ateia, fogo inexhaurivel, Casto fogo de amor, que interno a lavra,E a Deos a sóbe em espontaneo culto.
Não, o medo não foi quem sobre a terraOs joelhos dobrou do homem primeiro,E as mãos aos céos erguêo-lhe! Não, o medoNão foi o criador da Divindade!Foi o espanto, o amor, a consciencia,E a sublime effusão d’ alma, e sentidos!Vio o homem seu Deos por toda parte,E sua alma exaltou-se de alegria.
Mas no amoroso extasis não pára,A interna adoração só lhe não basta,Não se farta de amor, que amor sagradoÉ invencivel, poderosa força,Que o espirito levanta ao infinito,Como a attracção os orbes equilibraNa immensidade, á que escapar não podem.Deve o espaço conter a sacra imagemDe sua adoração, devem os filhos,Os netos devem nas futuras éras,Vendo essa imagem, adorar o Eterno.
Mas, oh homem, que ousado intento é esse?Erguer um templo a Deos!… Que! porventuraTemplo o espaço não é digno do Eterno?As montanhas, o mar, os céos, os astrosAssás não ornam do Senhor o templo?Ou temes que em tão vasto sanctuario,Nesse profundo abysmo do infinito,Vel-o teus olhos míopes não possam?Como possivel é que espaço estreitoAbranja o Criador, que enche o Universo?Mas pagas um tributo; — Elle to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha,Sem descanço trabalha dia, e noite;Que teu Deos não repousa um só instante,Para a ordem manter de tantos mundos.Ah, si elle um só minuto repousasse,Que seria de ti, deste Universo?
Alfim teu templo ergueste; reunisteTudo o que ha de mais bello sobre a terra,E sec’los no trabalho se passaram!Tudo aqui falla, tudo aqui revela A força occulta que sustenta o homem,E o destino immortal na Eternidade.
A rigidez do marmor, e a brancura,Duração, e pureza symbolisam;A larga base, a altura, a esbelta fórma,A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,E parece querer fugir do espaço;A aurea Virgem, que brilha em seu fastigio,E este povo de estatuas, que a rodeiam,Todas de branco marmore polido,Que a gloria do Senhor perenne cantam;Tudo, emfim tudo sem cessar proclama,Que o pensamento que tão alto vôa,Que o pensamento que taes obras cria,Que o pensamento que só Deos concebe,Tem no tempo a existencia, e não se curvaÁ lei que rege o habitador do espaço.Tão simples como Deos, donde elle emana,Não se aniquila como bruta mole;Mas em louvor sem fim, a Deos unido,Vive eternal em toda a Eternidade.
Assim é que o espirito celeste,Que a massa humana anima, e n’ella impera,De seu Deos concebendo a idéa pura,Da terra se desprende, se sublima,E do sagrado amor nas igneas azasSóbe ao seio do Eterno, que o gerára.
Assim é que das lampadas do temploPyramides de fogo se levantam,E se perdem nos ares, qual se perdeO pensamento humano no infinito.
Sancta Religião, sublime, augusta,Tu a idéa de Deos esclareceste,Idéa que, nas trevas que involviamA alma humana, brilhou como um relampo.Divina inspiração, tu só podiasO espirito subir ao seu Principio,A despeito do mundo, e dos sentidosNem sempre verdadeiros. Tu revelasSacras verdades aos humanos uteis,Que fóra de teu gremio embalde o homemOrgulhoso procura; ao desgraçado Occulta mão estendes caridosa:Sempre consoladora, affavel sempre,Que mal ha-hi, que em ti cura não ache?
Ao som de tua voz mysteriosaOs errantes selvagens suspenderamAs mãos de sangue tintas, e prostradosSobre a terra, até-li inculta e brava,A insólita voz tua repetiramEm espontaneo arroubo. — A NaturezaRio-se então, quando vio pela vez primaUm homem abraçar o outro homem,E em soccorro commum viver jurarem.
Quiz o homem tecer os teus louvores,E a primeira palavra foi um hymno,O primeiro discurso poesia.E o homem, que até-li solto vagava,Fraco, impotente entre animaes ferozes,Pelo mystico cantico attrahido,A bronca penedía abandonando,A viver começou em sociedade.
O genio então nascêo! — Qual para o mundoEntre os astros o sol mais claro brilha,E aos outros astros sua luz envia,Deos o genio accendêo entre mil almas,Para ser o fanal da Humanidade.
Sancta Religião, amor divino,Que beneficios sobre a terra espalhas!Quanto é mysterioso o Ser que inflammas!De quanto elle é capaz!… Vejo donzellas,Roboradas por ti, vencer a morte!Vejo feros tyrannos desthronados,Vejo Nações erguidas, e cidades,Seus louros a teus pés heróes depôrem,As Sciencias, e as Artes florecentes,Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,E a Humanidade inteira que te abraça,E te proclama como Mãe de tudo.
Oh das Religiões a mais perfeita,Oh unica de Deos, e do homem digna!Religião plantada no Calvario,E co’ o sangue de Christo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!Tu, que civilisaste a Europa toda,E primeira na America lançasteO germen da grandeza, á que ella aspira;Tu, que marcas de Deos a majestade,Os direitos do homem sobre a terra,E o seu porvir sublime alêm da morte;Tu, que aclaras os povos, e co’ os povosDe progresso em progresso ovante marchas,Como a mãe que acompanha o caro filho,Sem que a tua divina essencia percas;Teus ineffaveis dons benigna espalhaSobre os filhos dos homens, sempre… sempre.
Religião, inflamma, e purificaMeus pensamentos, e conforto prestaAo infeliz peregrino que te invoca,E que só em teu gremio paz encontra.

Milão, 17 de oitubro 1834.

Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 63-66.

VII.
A INFANCIA.
Oh minha infancia! Oh estação de flores!De innocente illusão alva saudosa!   Inda hoje te apresentasAnte mim, como a imagem deleitosaDe um sonho que encantou-me a phantasia,Ou como a aurora de um formoso dia.
Oh da infancia attractivos lisonjeiros!   Mentirosos affectos!Com que prazer amigos passageiros,Innumeros, na infancia contrahimos! E quão faceis após os repellimos,De ligeiras palavras agastados.
    Oh, como é lindo    O tenro arbusto    Na primavera!    Como parece    Que se está rindo,    Quando o balança    Zephiro brando;    Quando descança    Sobre seus ramos    O passarinho,    E modulando    Doces reclamos,    Vai o ar vizinho    Harmonisando!
Como é bello esmaltado de flores,Exhalando balsamico aroma;D’elle em torno voltejam amores,E se escondem debaixo da coma.
    Mas eis que o adusto    Vento do norte,    Soprando forte,    Já o abala;    O tenro arbusto    Nesse tormento    Todo se dobra;    A verde gala    Amarellece;    E o duro vento,    Que em furia cresce,    Vai arrancando    Folha por folha,    E sobre a terra    Seccas lançando,    Té que despido    O deixa emfim.    O tempo assim    Nos vai roubando    Gratos prazeres    Da tenra idade,    Quantos amigos    A infancia tem;     Até que vem    A puberdade    Com seus perigos;    E desta sorte    Chega a velhice,    Tronco gelado,    Desamparado;    Até que a morte,    Como um tufão,    Lança-o no chão!
Oh, quão perto a velhice está da infancia!E quão perto da infancia a morte adeja!

Genebra, oitubro 1834.

Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 67-69.

VIII.
PRECES DA INFANCIA.
Vós me vedes, Deos Eterno,Como eu sou tão pequenina;Minha alma é inda innocente,Tão pura como a bonina.
Debeis como minhas vozesSão inda meus pensamentos;Do mundo nada conheço,Nem prazeres, nem tormentos.
Qual tenro botão de rosaQue á sombra da rosa cresce,Sem temer o vento, e a chuva,De um frouxo raio se aquece;
Mas pouco a pouco crescendo,Desabrocha, e cheiro exhala,Orna o prado que a sustenta,E da roseira é a gala.
Assim eu filhinha tenra,A meus pais devo esta vida;A seu lado elles me educam,Por elles serei querida.
Hoje innocente me chamam!Oh, como é bella a innocencia!É a virtude dos Anjos,É das virgens a sciencia.
Vós, oh Deos, que podeis tudo,Concedei-me por piedadeQue este aroma da innocenciaMe acompanhe em toda idade.
Oh meu Deos, dai á minha almaPuro e sancto pensamento,Como o perfume do templo,Que sóbe ao vosso aposento.
Dai a meus pais longa vida,E áquelles que á minha infanciaPrestam soccorros continuosCom tanto amor e constancia.
Que felizes, que ditososPor vós, oh Deos, protegidos,Passem seus dias, seus annosComo astros, sem ser sentidos.
Vigorai minha fraquezaCo’ a vossa sabedoria.Oh Deos, ouvi minhas preces,Escutai-me neste dia.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 70-82.

IX.
A MOCIDADE.
Gigante do porvir, oh Mocidade!     Erguei a fronte altivaEntre as brancas cabeças da velhice;Como ao sopro vital da primaveraO pimpolho gentil se desabrochaEntre os já seccos e curvados troncos.
Subi em sacro arroubo a mente vossa,     Como uma labareda;     Contemplai o passado;Em silencio o futuro vos aguarda,E o presente se curva ao vosso mando.
Deos em vós ateou do genio o fogo,     Que a Humanidade guia,Como a estrella polar o navegante,Ou como a chammejante, ignea columna,Que o povo de Moysés guiou nos bosques;Sagrado fogo que jamais se extingue.
Em vosso coração palpita a vida;O brío, e a força os membros vos circulam;Flammeas azas vos dá o enthusiasmo;     É vulcanea vossa alma,     E d’ aguia os olhos tendes,Com que medis o espaço, o céo, e o globo.
A terra vos pertence, oh Mocidade!Por vós renasce o mundo a todo o instante;Por vós resplende juventude a terra;Não envelhece o céo, nem as estrellas,Nem se encanece o sol no longo gyro.Em vós só se resume a Humanidade,Que a passos graves, ao través dos evos,Ovante marcha sempre fresca e joven.
Para vós o passado é muda estatua,     Que o grande livro aponta,Onde a verdade, e o erro se confundem,Bem como o ouro, e o esmeril no antro da terra.Os seculos sellaram esse livro,Quando n’elle seus fastos transcreveram.     Eis a pagina branca,     Que aguarda os feitos vossos;Meditai, meditai, antes de enchel-a!
Quando já fatigados do caminho,Sobre a pedra da tumba repousardes,Avante marcharão os filhos vossos;E esse livro tomando-vos, um diaIrão saber o que seus pais fizeram.
Qual é vossa missão? Qual vossa idéa?Oh Mocidade, um só caminho existe,     Um só trilhar vos cumpre,Si vos apraz o bem, si o bem vos chama.É longa a estrada, asperrima e difficil!Mas um Astro em seu fim claro rutila,Permanente pharol que a côr não muda; Olhai, — vêde-o ao través do nevoeiro,     Que ante vós remuínha,Como elle immovel sua luz esparge!Esse Astro é Deos! — Oh Mocidade, a Elle!Ah, não retrogradeis, — a Elle, a Elle.
Vêdes vós como se ergue encapelladoAnte a convulsa prôa o mar em montes?Vêdes a nuvem que no céo negreja?O sol que empallidece? — Ouvis os roncosDe horridos ventos que nos ares trôam?O raio crepitante que espedaçaVélas, e mastro? a náo, que soluçando,Qual nas vascas da morte o moribundo,Nos vaivens sóbe, desce, e se debate,Perde o rumo, sem tino á esmo vaga,Roça no escolho a quilha, alli recûa,Ao capricho dos ventos, e das vagas,Té que sanctelmo lhe illumine o tope,     E do naufragio a salve?Tal é da Humanidade o fido emblema!Tal sua marcha foi; tal é ainda,Por mil contrarios ventos combatida! Porêm máo-grado a furia, e a tempestade,A Humanidade marcha; — e Deos a guia.
     Forceja a humana industriaPara domar o mar, pôr freio aos ares;Talvez um dia os ares assoberbe,     Até-qui indomaveis;     E ás suas leis submissos,Tambem os ares, desdobrando as azas,No espaço o Genio vencedor transportem.
E porque não será melhor um diaDo que até hoje foi a Humanidade?Si Deos mil vezes a salvou da morte,Somente agora a deixará sozinha,Antes de realisar a augusta idéa,Que é sua vida, e pela qual só lucta?
     Qual é a grande idéa,Que nem mesmo nos mais crueis revezesJamais abandonou a Humanidade?A perfeição, o bem! — Ah, não me illudo!Vossa idéa será vosso destino: Innata idéa só do Eterno herdastes,Deos em vós a gravou; verace é ella.
    Erguei os olhos vossos,E cravai-os no céo, oh Mocidade!     Vêde o astro da ecliptica,Que gyrando no centro do Universo,     A terra vivifica,A terra que vos nutre, opaca moleQue por elle de luz se adorna, e esmalta?Em torno ao sol em perennal cadenciaOutros astros satellites gravitam,Sem deslizar das orbitas traçadas     Pelo compasso eterno!     Eis o physico mundo,Emblema de outro, mais sublime ainda,Cujo Sol sempiterno enche o Universo.Vossa alma é um satellite desse Astro,E sem a sua luz ella não fulge;Similhante ao planeta que vos nutre,Que na ausencia do sol morto negreja.Mas desse Astro, que excede á mortal vista,    Sabeis acaso o Nome? Perguntai ás estrellas que alcatifam     Os degráos de seu solio;Perguntai ao trovão, ao raio, ás ondas,A terra perguntai, á aguia celeste,     E ao verme que rasteja:Jehová, Adonai, Deos, Harmonia,     Eis o Sol de vossa alma.
Por elle só viveis. Ah! si um instanteEm centrifugo vortice deixardes     O sulco de seu dedo,Desgarrada, e sem lei, como um metéoro,     Vos perdereis no espaço!
Gigante do porvir, oh Mocidade,Aprendei a entoar de Deos o Nome;Cantai, cantai da Juventude o hymno,Marchai, louvando do Senhor a gloria,Como nos bosques de Israel os filhos.Ante vós fugirão espavoridos     Tyrannos inimigos!O mar recuará as ondas suas,E os montes vos darão doces torrentes.
Olhai, ah, vêde a promettida terra!  Eil-a! Marchai ovante;Cantai, magnificai de Deos o Nome.
   Entôa, oh minha alma,   Um hymno ao Senhor,   Um hymno de gloria   Ao teu Criador.
   A luz que te aclara,   É d’Elle emanada,   E a tua linguagem   Por Elle inspirada.
   Embalde procuras   O bem sobre a terra;   O bem que desejas,   Só n’ Elle se encerra.
   No meio das ondas   O nauta mais forte   Pergunta ás estrellas   Qual é o seu norte.
   Si o vento enfurece,   Si o mar se exaspera,   Invoca seu Nome,   E salvar-se espera.
   Si tu sempre attenta   Seu mando escutares,   E por seus dictames   Fiel te guiares:
   Que haverá que possa   Roubar-te a victoria?   O bem terás certo,   Terás certa a gloria.
   Então, oh minha alma,   Um hymno ao Senhor,   Um hymno de gloria   Ao teu Criador.


E vós da Patria minha, oh Mocidade,De quem os feitos celebrar desejo… Mas porque um suspiro inopinado     O canto me interrompe?…Porque se apagam de meu genio as azas,Que expandidas nos ares flammejavam,E esmorecidas caiem, qual ferida     Pela setta do IndioSuberba arára, no celeste vôo,Em vortices gemendo baixa á terra?
Oh Mocidade, ouvi, não meus accentos,     Mas a voz da verdade,     Que em minha alma troveja,E me abala dos ossos a medulla.Vós sois como uma flor não bafejadaPelo sopro vital da primavera,Que mal nascida, languida se inclina.As lagrimas do misero captivoCahiram sobre vós, quando embalaram     Vosso berço seus braços;Sangue do captiveiro alimentou-vos;     O vicio d’elle herdastes,Senhores vos julgais, e sois escravos.Entre feras nutrido, é fera o homem;      Doctrinado entre servos,Afeito ao mando, a liberdade odeia,     E o peito se endurece.     E vós cuidais ser livres!…Por vós, por vós só fallo, oh Mocidade!Ah, não me detesteis; máo-grado vossoO mal herdastes; — mas o mal tem cura.
     Ah, quando bons costumes,Pura Moral, amor nobre e celeste     Vos tomarão no berço?Ah, quando, ah, quando a san Philosophia,Sobre vós seus fulgores espargindo,Desthronará a tumida indolencia,     Que o vosso clima infesta,E as portas á Sciencia, e ás Artes fecha?O egoismo, que só para sí olha,     Tudo em sí concentrando,E os laços quebra que os humanos ligam     Em fraternal amplexo,Quando, de vós fugindo, aos vossos olhosDeixará que paixões que alma ennobrecem,     Sublimes resplendeçam?
     Alerta, oh Mocidade!     A Patria por vós chama.     Mostrai que da verdade     Sancto amor vos inflamma.
     Alerta! erguei a fronte,     Medi vosso terreno;     E o valle, e o prado, e o monte     Se dobre ao vosso aceno.
     Não diga o estrangeiro,     Que vê tantas bellezas,     Que o povo Brasileiro     É pobre entre riquezas.
     Bani tanta vaidade;     Sciencia, Industria, e Artes     São só da Liberdade     Os firmes baluartes.
     Erguei-vos, e sem susto     Luctai com o erro futil;     Amai tudo o que é justo,     Sancto, sublime, e util.
     Alerta, oh Mocidade!     A Patria por vós chama.     Mostrai que da verdade     Sancto amor vos inflamma.
Paris, Dezembro de 1835.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 83-88.

X.
A VELHICE.
   Longa foi a viagem;Assás luctastes; descançai agora.
Depois de haver vingado alpestre monteDesde o albor da manhã, o peregrino   Afadigado desce,E envolto em trevas vai pousar no valle.
Por vós assás auroras madrugaram;Por vós luas assás alvas luziram;Assás de flores esmaltou-se a terra,E de fructos as arvores copadas.   Sim, sim, assás gozastes;Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.
Basta! — A hora soou; abre-se a campa,   E o sopro do seu antro,Como o vapor da canica cavernaNas margens do sombrio Aniâno lago1,Da vida vos apaga a tenue flamma.
   Para vós basta, oh Velhice!   Inda o sol tem resplendores,   Inda a noite tem estrellas,   Inda a lua alvos fulgores.
   Inda os prados reverdecem,   E de florzinhas se arreiam;   Inda, suspensos nos ramos,   Os passarinhos gorgeiam.
   Inda o zephiro sereno,   Cheio de aroma e doçura,   Fruindo o nectar das flores,   Na madrugada murmura.
   Inda a cascata ruidosa   Entre seixos se despenha;   Inda o som da sua quéda   Resôa ao longe na brenha.
   Inda os regatos deslizam,   As feras nos bosques rugem,   E lambendo a branca areia,   Nas praias as ondas mugem.
   Tudo vida inda respira;   A terra não stá mudada;   Vós só marchais, oh Velhice.   Triste, debil e curvada.
   Vossos olhos se fecharam   Ao quadro da Natureza;   Em torno de vós só gyram   A morte, o horror, e a tristeza.
   Tudo em seu morno silencio   Agora vos annuncia   Que a noite só vos pertence,   Que para vós vai-se o dia.
A noite eterna vos estende os braços,Ah! preparai-vos para o somno eterno.
   Basta! — É hora das preces.Funéreo som no templo os bronzes vibram,E o echo seu parece dizer — morte!
Sob o peso da fronte encanecida,Já se curva e vacilla o vosso porte,Qual co’ os flocos de neve a fragil hastea;Entoastes o cantico da vida,Entoai vosso cantico de morte   Como o candido cysne,Que indo descer á escuridão do lago,Cantando diz-lhe adeos na fatal hora,Para nunca mais ver raiar a aurora.
Basta! — É hora das preces, oh Velhice!   Para o mundo acabastes.Vossa alma resgatai do barro impuro;O céo, que alma vos dêo, péde vossa alma,E a terra vosso corpo está pedindo;Ah! dai á terra o que vos dêo a terra!
   Mas ah, não choreis!   E porque chorais?   Si vós não sabeis   Nem o que ganhais,   Nem o que perdeis.Perdeis a terra, é certo; mas que importa,Si celeste esperança vos conforta!
   Viver é sonhar,   Sonhar é dormir;   Deveis acordar,   Para ao céo subir,   E no céo velar.Acordai; socegai o afflicto peito,Que ides deixar o amargurado leito.
   O pranto enxugai,   Bani o temor;   O Nome entoai   Do Eterno Senhor;   E a Elle voai.Vossa bençam lançai á Mocidade,Que vai na lucta entrar da Humanidade.
Pariz, Janeiro de 1836.

A VELHICE.
Nota. Pag. 84.

Como o vapor da cánica caverna,
Nas margens do sombrio Aniâno lago.

Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.

Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 89-91.

XI.
A BELLEZA.
Oh Belleza! Oh potencia invencivel,Que na terra despotica imperas;    Si vibras teus olhos    Quaes duas espheras,Quem resiste a seu fogo terrivel?
Oh Belleza! Oh celeste harmonia,Doce aroma, que as almas fascina;    Si exhalas suave    Tua voz divina,Tudo, tudo a teus pés se extasia.
A velhice, do mundo cançada,A teu mando resiste somente;    Porêm que te importa    A voz impotente,Que se perde, sem ser escutada?
Diga embora que o teu juramentoNão merece a menor confiança;    Que a tua firmeza    Stá só na mudança,Que os teus votos são folhas ao vento.
Tudo sei; mas si tu te mostraresAnte mim como um astro radiante,    De tudo esquecido,    Nesse mesmo instante,Farei tudo o que tu me ordenares.
Si até hoje remisso não ardeEm teu fogo amoroso meu peito,    De estoica dureza    Não é isto effeito;Teu vassallo serei cedo ou tarde.
Infeliz tenho sido até-gora,Que a meus olhos te mostras severa;    Nem gózo a ventura,    Que góza uma fera;Entretanto ninguem mais te adora.
Eu te adoro como o Anjo celeste,Que da vida os tormentos acalma;    Oh vida da vida,    Oh alma desta alma,Um teu riso sequer me não déste!
Minha lyra que triste resôa,Minha lyra por ti desprezada,    Assim mesmo triste,    Assim malfadada,Teu poder, teus encantos pregôa.
Oh belleza, meus dias bafeja,Em teu fogo minha alma devora;    Verás de que modo    Meu peito te adora,E que incenso offertar-te deseja.
Pariz, Março de 1836.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 92-95.

XII.
O MYSTERIO.
O sol empallidece, o céo se enlucta,O raio despedaça o véo do Templo,   Soltos trovões rebramam;De espanto, e horror a Natureza geme,Chora Jerusalem, tremem seus muros,   E estupefacto o povoEntre o riso e o terror sem tino vaga.
Que sublime mysterio o Eterno Padre   Revolve em sua mente? Que grande sacrificio o céo consumma?Quem é Esse que expira no Calvario   Entre dous criminosos,Nos braços de uma Cruz, com rosto brando,Como si o fel da morte não provasse?
O monte que supporta o peso ingenteSuspira a cada gota desse sangue,Que o rega, e cai-lhe dos feridos membros   Da victima sublime.Quem é Esse, de quem o céo, e os astros   A morte estão carpindo?Não, não é um mortal! — Razão altiva,Em vão procuras occultar seu nome!É o Filho de Deos, que sobre a terraEspalhou a Moral pura e celeste,   Aos homens ensinandoA verdade, o amor, e o soffrimento.Só o Filho de Deos na Cruz podiaSoffrer por nosso amor esse tormento.
   Homens degeneradosSem pejo aos pés de deoses se prostravam    Tão infames como elles:Corria humano sangue sobre as arasEm sacrificio á vil hypocrisia   De oraculo fingido;E as impias mãos de um impostor sagrado,Nas palpitantes visceras pousando,Iam depois queimar o incenso impuroAnte o altar do crime endeosado.
Tudo do engano as trevas encobriam;   Só despotas raivosos   A seu grado reinavam;E nas publicas praças, e nos circosSó escravos em ocio pão pediam.
Como de vaga em vaga repellidos   Os restos do naufragio,Vão na areia encalhar, tal pareciaQue a Humanidade ao fim tocado havia.
No meio desse horror eis que apparece,Como um iris de paz, do Eterno o Filho.   O erro confundido, Procura em vão luctar. Embalde se erguemFogueiras aos Christãos. EspavoridoVê o sedento algoz imbelles virgensCom os olhos no céo vencer a morte;E das tremulas mãos por terra caiem   A sangrentas bipennes;Os falsos deoses dos altares sáiem:E sobre o Capitolio a Cruz se eleva,Como o signal da redempção do mundo.   Victoria, os céos entoam,   Victoria á Humanidade!O Christo do Senhor descêo á terra,E aos homens ensinou a san verdade.
Roma, 17 de Abril 1835.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 96-104.

XIII.
UM PASSEIO AS TUILERIAS.
Eis-me no mundo!… Aqui presente o tenhoTodo, tal como elle é, em breve quadro!Aqui os homens o prazer procuram,E mil vezes aqui a dôr encontram.
   Nestas ruas de flores,Confundidos os sexos, as idades,E o vicio confundido co’a virtude,   Se encontram, se abalroam.Debaixo destas arvores em renques,Qu’inda ha pouco de gala se cobriam, E já empallidecem só co’o soproLonge do hinverno, como reis de um dia,   O fido amante espera   A retardía amada.Meditabundo aqui passeia o sabio,   E inspirações recebe;Aqui o velho ao sol as cans aquece,E vê correr o infante após seu arco,   Inquieto e afanado.Como após a Fortuna corre o adulto.
Aqui sobre esta pedra solitarioO candido Filinto repousava,Chorando a Patria, que lhe fôra ingrata,E, máo-grado a injustiça, amando-a sempre.Co’os Martyres nas mãos, n’alma a poesia,   Aqui ao Luzo idiomaImmortal monumento erguêo glorioso,Que ao lado dos Lusiadas sublimes,Parelhas correrá co’a eternidade.
Que immenso é o Universo! que infinito!E tu, Senhor, tu só n’um volver de olhos    Tudo vês, tudo alcanças!Como é este logar tão limitado!Entretando o que o seu recinto abrange   Meus olhos não distinguem.
Esta columna d’agua impetuosa,Que compellida esguicha, e no ar se curva,   Pelo vento açoutada,De um lado e de outro lado vacillante.Como um branco pennacho aos ares sôlto,   E de poeira em fórmaCái, e tranquilla jaz no largo tanque;Representa, oh mortal, a historia tua!   Assim humilde nasces,Da terra assim te elevas arrojado,Assim te agita das paixões a furia,Assim pendes, e em pó no commum fossoDescanças, té que sôe a voz terrivelDo Archanjo do Senhor, no eterno dia.
Desde que no horizonte o sol fulgura,Té que a noite, e o silencio se annunciam,Ondas de homens sobre ondas incessantes    Este recinto invadem.De quatro lados sete portas francas;E um só não vejo em vestes que o trabalho,E a indigencia assignalem.
Tentais embalde entrar: — ide-vos, pobres,Ide-vos, homens ao trabalho afeitos.Ergueram vossas mãos estas muralhas,Vossas mãos estas portas fabricaram,   Que hoje ante vós se fecham;Com o vosso suor foi amassadaA terra, que estas arvores sustenta,Mas gozar não podeis da sombra d’ellas;Vós deveis sementar; outros que fruam.Aqui vós não entrais: — ide-vos, pobres.
Como reproba assim por toda parteCom desprezo se expulsa a indigencia,   Feio crime entre os homens!Aquelle hontem beijava o pó da terra,Hoje á custa de usura, e latrocinio,Envernizado com pomposo nome,   Grande, nobre se ostenta!Tal a serpente em torcicollos chega Arrastando-se ao cume de alto monte,Que o brioso animal vingar nem tenta.O mundo é sempre assim, é sempre o mesmo;Os esforços, os bens da sociedadeSão sempre para quem menos carece.
Entre estes arvoredos lá diviso   Do Gigante da terraA Columna immortal, e a estatua egregia,Qu’inda parece ameaçar o mundo.Alli vejo domado, e curvo o orgulho   Dos despotas dos povos.   Alli a LiberdadeSentada está no carro da victoria,De louros coroada, mas sombria.Alli vejo de Deos a omnipotencia,Que ergue, quando lhe apraz, do pó um homem,Para calcar dos Reis o sceptro, e o orgulho.Alli vejo o valor, vejo a justiça;Grecia, e Roma alli vejo n’um só Genio!Seu corpo tem por tumulo um rochedo,Onde continuamente o Oceano chora;Seu grande nome a terra toda o sabe.
O palacio aqui está, de um Rei morada.Quantas recordações m’elle desperta!Co’a mesma rapidez com que n’um sonho   As sombras se succedem,Tal os fastos da historia se me antolhamScena por scena em quadros animados.
Aqui Paraguassû, filha dos bosques,Do esposo ao lado entrou extasiada,Vendo a grandeza da européa côrte.Um Rei lhe dêo a mão; e uma rainhaDa bocca sua ouvio as maravilhasDo seu caro Brasil, então deserto.Ah, saiamos daqui; que horriveis quadrosMe veem ora turbar a phantasia.
   Marmoreos simulachrosDos divinos heroes da Grecia, e Roma,Descerrai vossos labios: pois que o genioDe bruta mole em homens convertêo-vos,Fallai, por Deos fallai; eu vos conjuro;Dizei-me si melhores do que os de hojeOs mortaes foram das passadas éras.Mas vós não respondeis; ficai, sois pedra
   Esta escada subamos;Como silencioso se deslizaO outr’ora ovante Sena! Nem murmura!Como humilde atravessa estas arcadas!Não sois assim, da minha Patria oh ríos!Oh Paraná, oh tumido Amasonas!   Eu já te vi, oh Sena,Altivo assoberbar estas muralhas;Hoje mesquinho nem banhal-as podes:Hoje o ousado menino a ti se lança.De um desthronado Rei és triste imagem;Sem pompa assim caminha desprezadoDos proprios seus, que os respeitaram, servos:   Tudo assim é na terra!
No meio estou da capital do Mundo!Alli vejo dos sabios a morada[1],   Aqui das leis o templo[2],Entre suas columnas vagueandoCom talhe ameaçador se me afiguraDo rival de Demosthenes o espectro. Deste lado o obelisco majestoso,Que á terra estranha os homens transplantaram,Como um filho grosseiro dos desertosEntre um povo que os seculos poliram.
Sabes tu que logar marcar vieste?Sabes tu essa côr o que nos mostra?Esta terra que ocupas foi outr’oraLogar do cadafalso! foi banhadaCo’ o sangue de Luiz, de um Rei co’ o sangue.
   Mas o sol se retira,E já se enlucta o céo, e a Natureza.Porque todos alli vão reunir-se?Melodicos accentos de harmonia   Meus ouvidos adoçam!   Oh musica divina!És tu que attráis os homens, que dispersos   Sem ordem vagueavam.Do céo foi inspirado quem primeiroUm som com outro som cadenciando,Poude dar o transumpto harmoniosoDe Deos, da Sociedade, e do Universo.
Já não vêdes, meus olhos; novas trevasEnvolvem do Senhor as maravilhas.De dia em dia assim, de noite em noite,Horas, annos, e seculos se abysmamNo seio da perpetua Eternidade.   O homem nasce, e morre;   Tu só, meu Deos, és grande.
  1. ↑ O Instituto de França.
  2. ↑ O Palacio do Camara dos Deputados.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 105-106.

XIV.
A TRISTEZA.
Triste sou como o salgueiroSolitario juncto ao lago,Que depois da tempestadeMostra dos raios o estrago.
De dia e noite sozinhoCausa horror ao caminhante,Que nem mesmo á sombra suaQuer pousar um só instante.
Fatal lei da naturezaSeccou minha alma e meu rosto;Profundo abysmo é meu peitoDe amargura e de desgosto.
Á ventura tão sonhada,Com que outr’ora me illudia,Adeos dice, o derradeiro,Té seu nome me angustía.
Do mundo já nada espero,Nem sei porque inda vivo!Só a esperança da morteMe causa algum lenitivo.
Edição de referência: 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1865. páginas 107-113.

XV.
A AFFLICÇÃO.
Não, não é sangue; é fel envenenado,   Que em minhas veias gyra.Não, não é vida; são espinhos hirtos,São hervados acúleos, que incessantes   O coração me pungem.Não, não é ar; é o halito da morte,   Que o peito me comprime.Não são do mundo as scenas que me envolvem;   São as scenas do Inferno. É possivel, meu Deos, que tanto soffraUm misero mortal, e qu’inda viva?   Queres ver do teu servoA alma, de padecer já calejada,Sem murmurar, sem blasphemar, té onde   A paciencia leve?Em mim acaso novo Job preparas?Ou o meu coração não é de humano,Ou a dôr já o tem empedernido   Co’ o reiterado embate.
Oh meu Senhor, pequeno é o meu peito,Para conter um coração repletoDe tantas afflicções, de angústias tantas.   Tira-me a própria vida,   Tira-me o sentimento,Ou com triplice lamina de ferroFórra meu peito, e meus ouvidos cobre.
   Oh dever de homem probo!Hei de eu como uma incude duros golpesSuportar insensivel, sem queixar-meDe quem martyrios taes sem dó me causa? Sem dó?.. e talvez mais; sem um remorso!   Tu Zeno, assim me ensinas;   Philosophia austera,Eu sigo a tua lei, por ti me guio.   Oh, que esforço é precisoNa idade do prazer, e do interesse!
Eu chorei, e meus olhos se seccaram;Nem mais em nova dôr lagrimas novasTerei para chorar; as dôres todasMe fizeram tragar seus amargores;Não ha mais dôr que apresentar-me possaNova taça de acético veneno.
   O triste solitario,Que em aspero deserto transviado,De improviso se vê acommettidoDe crueis serpes, que o pescoço lhe atam,   E lhe cravam no peitoAgudas presas de peçonha cheias,   É a horrivel imagemDo estado meu, do meu duro martyrio.   Mas quem poderá crer-me? Quem póde avaliar minhas angustias?Mimosos do prazer, eia, deixai-me;De vossa compaixão não necessito;   Vosso riso me offende.
Estala, coração, estala, acaba!   Não tens uma só fibra,Que ao golpe de uma dôr não retinisse.Porque não deixas o meu corpo, oh alma?Que fogo de esperança inda te anima?Oh esperança, quasi que me foges!Não ha consolação para o infelice,Que longe de seus pais, da Patria longe,   Definha entre pezares.
Que, oh mundo, com dôres só misturasAs lições que nos dás? A experiencia   Só com dôres se colhe,Como uma flor de espinhos guarnecida?São inuteis os livros, e os conselhos?   É tudo a experiencia?A experiencia é só quem nos ensinaA sciencia da vida?
   Oh infantil vaidade!Vós, oh jovens, cuidais que sabeis tudo,As paginas de um livro apenas lendo.Dos velhos desprezais os sãos conselhos,E orgulhosos dizeis: — Hoje a velhiceLições deve tomar da juventude;Hoje de nossos pais á cima estamos.Moço sou, como vós sabio julguei-me;   Como vós illudi-me.
Hontem fagueira a sorte se mostrava,   Ria-se a Natureza,E em sacros laços de amizade estreita   Os homens se apertavam.Hoje terrivel tempestade brama,Os homens se repellem, se debatem,Como rábidas féras nas florestas.
   Mysterioso enigma,Inexplicavel Ser, capaz de tudo,Fonte de vicios, de virtudes fonte,Que edificas, que assolas, e que sempreDe ruína em ruína ovante marchas,    Como um Genio de morte,   Dize, o que és tu, oh homem!
Cala-se a Natureza, e só resôa   Um grito doloroso   Dos tumulos erguido;Como um gemido de agoureiro Mocho,Quando sobre destroços esvoaça.
   No peito a dextra applico;Palpita o coração fraco e pausado;Attento escuto, as pulsações calcúlo;   Não me agita o remorso,Nem espectros a noite me apresenta;E minha alma tranquilla na tormenta   Como um firme penedo,Nem a sombra de um crime a entenebrece.Doce consolação de um peito afflicto!
Oh unico juiz incorruptivel,Oh meu Deos, ante quem brilha a verdadeMais clara do que o sol; a cujos olhosO mais pequeno verme iguala ao homem, E a Natura descobre os seus arcanos;Tu, que o meu coração penetrar podes,Julga tu só, e vê si são meus erros   Iguaes ás minhas dôres.
Enganar-te, meu Deos, não póde o homem!Si feia iniquidade n’elle habita,Si mereço o que sofro, ah deixa, deixaQue os inimigos meus de mim se vinguem.Não me attendas, Senhor; meus áis despreza.   Deixa expiar meus errosNa terra onde este pó ao mal me prende,Antes que eu suba ao tribunal eterno.Mas si falla a innocencia em meu soccorro,Mostra a verdade, salva-me, e absolve   Aquelles que me infamam;Que eu os pérdôo, oh Deos; por ti o juro;Sou Christão; — e o Christão soffre, e perdôa.

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