Anexo:Imprimir/Suspiros poéticos e saudades (1865)
Índice
[editar]- Suspiros Poéticos e Saudades/Lede
- A voz de minha alma
- O vate
- A poesia
- Deus, e o Homem
- A fantasia
- O cristianismo
- A infância
- Preces da infância
- A mocidade
- A velhice
- A beleza
- O mistério
- Um passeio ás Tuileiras
- A tristeza
- A aflição
- A consolação
- A vida da inocência
- A sepultura de Filinto Elísio
- Uma manhã no monte Jura
- A vista de Roma
- O dia de ano-bom de 1835
- As ruínas de Roma
- O riso da fortuna
- O suspiro à pátria
- Ao meu ilustre mestre e amigo
- Ao Ilmo e Exmo Sr. José Joaquim da Rocha
- Uma noite no Coliseu
- Para que vim eu ao mundo
- O cárcere de Tasso
- No álbum de uma veneziana
- A meu amigo D. J. G. De Magalhães
- Em resposta a meu amigo M. De Araújo Porto Alegre
- Por que estou triste?
- A flor suspiro
- A experiência
- Os suspiros da pátria
- O homem Probo Evaristo Ferreira da Veiga
- A bíblia
- Napoleão em Waterloo
- Ao General Lafaiete
- Às senhoras brasileiras
- A minha lira
- O canto do cisne
- Invocação à saudade
- Adeus à pátria
- À minha família
- A tempestade (Gonçalves de Magalhães)
- O dia 7 de setembro, em Paris
- Adeus ao meu amigo M. de Araújo Porto Alegre
- No álbum de um jovem amigo
- Ao deixar Paris
- À Suíça
- O gênio e a música
- No álbum da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Joana Marques Lisboa
- Adeus à Europa
Péde o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um portico ao edificio; e como este deve indicar por sua construcção á que Divindade se consagra o templo, assim deve aquelle designar o caracter da obra. Sancto uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem em alguns espiritos apoucados.
É um Livro de Poesias escriptas segundo as impressões dos logares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos imperios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gothica cathedral, admirando a grandeza de Deos, e os prodigios do Christianismo; ora entre os cyprestes que espalham sua sombra sobre tumulos; ora emfim reflectindo sobre a sorte da Patria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as scenas da Natureza, diversas como as phases da vida, mas que se harmonisam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anneis de uma cadeia; poesias d’alma, e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.
Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silencio da noite, cançado de fadiga, elevou até a Deos uma alma piedosa, e vertêo lagrimas amargas pela injustiça, e miserias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na historia da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas acções; esse achará um echo de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonise com o seu suspiro.
Para bem se avaliar esta obra, tres cousas releva notar: o fim, o genero, e a fórma.
O fim deste Livro, ao menos aquelle a que nos propozemos, que ignoramos si o attingimos, é o de elevar a Poesia á sublime fonte donde ella emana, como o effluvio d’agua, que da rocha se precipíta, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.
A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da intelligencia deve sanctificar as virtudes, e amaldiçoar os vicios. O poeta, empunhando a lyra da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Sancto, do Justo, e do Bello.
Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos lyricos, tão cheio de saber, e que podéra ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou desta idéa. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traducções; e quando elle é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferencia ao homem civilisado, como si aquelle a este superasse, como si a civilisação não fosse obra de Deos, á que era o homem chamado pela força da intelligencia, com que a Providencia dos mais seres o distinguira!
Outros apenas curaram de fallar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decencia!
Seja qual for o logar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bella, embalado pelos prazeres; no carcere, como no palacio; na paz, como sobre o campo da batalha; si elle é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas azas da harmonia até ás idéas archetypas.
O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ahi procuram aplacar a sêde.
Ora, nossa religião, nossa moral é aquella que nos ensinou o Filho de Deos, aquella que civilisou o mundo moderno, aquella que illumina a Europa, e a America: e só este balsamo sagrado devem verter os canticos dos poetas brasileiros.
Uma vez determinado e conhecido o fim, o genero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o enthusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração si a Mythologia podia, ou não, influir sobre nós. Comtanto que dicessem que as Musas do Helicon os inspiravam, que Phebo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras taes e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como si podesse parecer bello quem achasse algum velho manto grego, e com elle se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguem honram.
Quanto á fórma, isto é, a construcção, por assim dizer, material das estrophes, e de cada cantico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéas como ellas se apresentaram, para não destruir o accento da inspiração; alêm de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rhymas, e a symetria das estancias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orchestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem propria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.
Quando em outro tempo publicámos um volume das Poesias da nossa infancia, não tinhamos ainda assás reflectido sobre estes pontos, e em quasi todas estas faltas incorrêmos; hoje porêm cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, si não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.
Algumas palavras acharão neste Livro que nos Diccionarios Portuguezes se não encontram; mas as linguas vivas se enriquecem com o progresso da civilisação, e das sciencias, e uma nova idéa péde um novo termo.
Eis as necessarias explicações para aquelles que lêm de boa fé, e se aprazem de colher uma perola no meio das ondas; para aquelles, porêm, que com olhos de prisma tudo decompoem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o nectar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?… Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escarneo.
Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; si elle merecer o publico acolhimento, cobraremos animo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aquelles que fazer poderemos com o tempo.
É um novo tributo que pagamos á Patria, emquanto lhe não offerecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a attenção descança, fatigada pela seriedade da sciencia.
Tu vais, oh Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Patria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, excepto o egoismo: tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do hinverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.
Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Patria, de enthusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deos, e no futuro.
Adeos!
- Pariz, julho de 1836.
Veneza, maio de 1835.
Nos Alpes, 14 de outubro 1834.
Milão, 17 de oitubro 1834.
Genebra, oitubro 1834.
- Paris, Dezembro de 1835.
- Pariz, Janeiro de 1836.
Como o vapor da cánica caverna,
Nas margens do sombrio Aniâno lago.
Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.
- Pariz, Março de 1836.
- Roma, 17 de Abril 1835.
- Pariz, 5 de Septembro de 1834.
- Pariz, 28 de Septembro de 1834.
- ↑ Com a traducção que fez das suas fabulas.
- Poligny, 7 de Outubro de 1834.
- ↑ De Poligny, cidade de França, situada nas abas do monte Jura.
- Roma, Dezembro de 1834.
- Roma, 1º de Janeiro de 1835.
- Roma, 25 de Janeiro de 1835.
Era um vasto redil de armentio gado.
Depois da destruição do Foro Romano, pelo fero Rober Guiscard, em 1084, toda esta parte da antiga Roma, desde S. João Laterano até o Capitolio, tão entulhada ficou, que a terra, pedras, e immundicias cobriram as ruínas, que ainda hoje se desencavam; ahi apascentavam rebanhos de vacas, e d’ahi veio o nome de Campo Vaccino, com que ainda hoje é conhecido.
Inda te chamam fero, inda te accusam.
A destruição de Roma é devida, como vimos na antecedente nota, ao cavalleiro Rober Guiscard de Hauteville, filho de Tancrède, que, capitaneando os Normandos, entrára á testa de um formidavel exercito em Roma em 1804, fazendo recuar Henrique diante de sí, e pondo fogo na cidade, desde S. João de Laterano até o Colisêo. Depois do saque dos Normandos ficou a antiga Roma deserta, e a população transportou-se toda inteira alêm do Capitolio, que em outro tempo fôra o campo de Marte. (Vej. Hist. das Repub. Ital., por Sismondi, T. I, pag. 128, da Edic. Belga.)
Foi as aguas mortaes beber do Tibre.
Chamo mortaes as aguas do Tibre, não que ellas venenosas sejam, mas porque ahi morriam afogados os condemnados de Estado, que da rocha Tarpeia se precipitavam, como Manlio, e outros, de que falla a Historia.
Lá pallideja ao longe aquella torre.
Mostra-se ainda em Roma uma torre quadrada, que no meio da cidade se eleva, na qual, diz-se, Nero se abrigára, para gozar da horrivel scena do incendio de Roma. Ahi tangia elle a lyra, emquanto as chammas devoravam a cidade. O verbo pallidejar, de que me sirvo, creio que não vem nos Diccionarios, nem me lembra tel-o encontrado em nenhum auctor; si sou o primeiro que o introduzo na lingua, poderei allegar em seu favor, que tendo nós branquejar, negrejar, amarellejar, e outros de igual desinencia, nenhuma dúvida poderá este encontrar da parte de acanhados puristas; demais elle explica perfeitamente o effeito da torre em questão, esclarecida pelo clarão da lua. Aproveitando-me da natureza desta nota, direi que a Philosophia espiritualistica, que tantos progressos tem feito entre Allemães, e Francezes, tem adoptado novos termos, e dado a velhas palavras novas terminações, como por exemplo, idealidade, religiosidade, progressibilidade, etc. Estas palavras representam novas idéas, e d’ellas nos podemos servir sem escrupulo; de outra maneira condemnemos as Sciencias, e a lingua á immobilidade.
As palavras ouvindo do Eremita.
Ha no recinto do amphitheatro Flavio (Colisêo) 14 altares, representando os martyrios de Jesus Christo, no meio uma Cruz; servem esses altares para as estações penitenciaes; ahi vimos na Quaresma quantidade de povo prostrado, escutando as pregações dos Missionarios.
......... sabio Spinosa,
Tu nao eras atheo
Spinosa é considerado vulgarmente como atheo; philosophos modernos fazem-lhe justiça. Seu systema da mais alta Metaphysica não tem sido interpretado como devia, que mais pende elle para o pantheismo, que para o atheismo. De sua doctrina claramente se collige que elle concebia um Ser necessario, substancial e perfeito, que é Deos, e o resto só tem uma existencia phenomenal, e contingente. Póde dizer-se, rigorosamente fallando, que não ha atheos; pois que aquelles mesmos que parecem professar taes principios, ou dão existencia a uma substancia primaria, seja o nome qual for, ou se contradizem a cada passo.
- Albano, Março, de 1835.
Roma, no Coliseu
Já que do coração rompeste os seios,
Onde terna saudade te gerara,
E quando mais minha alma nas da Pátria
Idéias se engolfava,
Da clausura do peito te escapaste,
Onde mais não cabias,
Fugitivo roçando inertes lábios,
Triste suspiro meu!... Já que teu eco
O silêncio quebrou misterioso
Do sepulcral horror deste recinto;
Sai, oh suspiro! sai... Não mais ressoes,
Inútil não te percas,
Nestas longas abóbadas quebradas,
Murmurando tu só de estância em estância,
Como um lúgubre som de ave noturna,
A quem prazem as trevas, e os destroços.
Teu doloroso som repercutido
Na oposta parte, tal pavor inspira,
Que um gemido parece das entranhas
Desta imensa ruína;
Eu mesmo que exalei-te, eu mesmo tremo,
E mortos tremeriam se te ouvissem;
Que farão os viventes!
Hirtos na fronte tenho inda os cabelos,
Frio, trêmulo o corpo,
Como um tronco de gelo ao vento exposto;
E o triste coração onde habitaste,
Recobrando de novo o movimento,
Com desusada força ora palpita,
E monótono soa,
Como soa o martelo sobre a incude.
Temem os olhos de se abrir às trevas,
E de ver coroado o anfiteatro
De alvas sombras de mortos, e de espectros,
Que para mais terror me pinta a mente.
Voa, suspiro meu, voa, não tardes;
Núncio vai ser do estado em que me deixas.
O caminho te indico; aos ares sobe;
Deixa de Roma os solitários campos,
Esta terra de sangue, e de cadáveres,
E às praias chega da querida Pátria,
Tão longes praias! — Quem me dera eu vê-las!
Mas no longo trajeto
Vai por mim os lugares visitando,
Por onde eu já passei triste e saudoso.
Oh! quão gratas me são reminiscências!
Delas compõe-se a vida,
Os prazeres são elas da velhice.
Do afadigado albor de um curto dia
Eis tudo o que nos fica!
Toma a Flamínia estrada;
Passa o lúrido Tibre, outrora rubro,
Quando o campo cedeu a Constantino
O bárbaro Maxêncio;
Verás Assis no cimo da colina
As cinzas adorar do santo filho. [1]
Do Trasimeno às margens [2]
A poeira verás de ossos romanos,
E um sussurro ouvirás, que diz: Aníbal!
Chega aos campos que o Arno fertiliza;
Entra em Florença, e em Santa Cruz visita [3]
De Dante a sepultura.
Sentado está com merencório gesto;
Dir-se-á qu'inda do Inferno hórridas cenas
Se lhe antolham; e o mísero Ugolino
Mirrado entre cadáveres corruptos
Dos inocentes filhos, miserandos,
Como esfaimado tigre ossos roendo.
Pousa na destra o rosto, e co'a sinistra
Sustenta o imortal livro;
Chora de um lado a Poesia, e do outro
Itália veneranda está dizendo:
— ONORATE L'ALTISSIMO POETA. [4]
Buonarotti, Alfieri, Machiavelli,
Verás aí também; tudo saúda.
Nem a Toscana deixes sem que vejas
Essa Pisa, onde as Artes renasceram.
Contempla de Bosqueto a maravilha, [5]
O campo santo, a torre que pendente
Ameaça cair como um gigante.
Vai ouvir o sussurro do teu vôo
Nesse museu de mortos de Bolonha.
Ligeiro passa por Modena, e Parma;
Passa de Lódi a celebrada ponte,
Essa que o peso suportou ingente
Do Gênio das vitórias.
Passa o Apenino, e o Pó, e a Milão chega;
E em sua Catedral misteriosa,
Que prostrado me viu venerabundo,
Ao som do órgão sagrado, que reboa
Nas góticas abóbadas, respira
Religioso acento.
Mensageiro de dor, ah! não visites
Outros lugares, que o prazer inspirem.
Cansa o prazer ao homem quando é longo,
Mas tu, melancolia, jamais cansas
Aquém d'alma os arroubos saboreia.
Pela margem do lago, [6] que tranqüilo,
Azul-celeste e puro,
A vida da inocência simboliza,
Os Alpes busca, por heróis trilhado;
Os Alpes, como braços da Natura,
Que erguidos para o céu a Deus adoram.
Sobe o Simplão; penetra as galerias;
Se o nome do Brasil na pedra achares,
Minha mão o gravou, beija esse nome.
Noutra pedra verás meu nome escrito,
Se os gelos o não cobrem;
Sentado aí subi meu pensamento
Té ao trono de Deus, e pela Pátria
Dirigi-lhe meus votos.
Desce, verás de Brigg argênteos cumes, [7]
Que ígneos raios refletem, simulando
Claros elmos de exército em parada.
Continua teu vôo; Sion passa,
Chega à bela Genebra, que se espelha
No lago cor do céu, e no seu Ródano,
Que o remanso do lago veloz deixa,
Para ir levar fertilidade aos campos,
Como, mal que desperta, ao leito foge,
E asinha o lavrador busca o trabalho.
Da infância de Rousseau deixando o berço,
Pobres vilas da França irás passando,
Ricas cidades vendo.
A Poligny chegando, a rocha [8] vinga,
E na gótica estância, que talhada
Foi aí pela mão da Natureza,
Brasil, lerás nas rústicas pilastras.
Numa aba da montanha, junto à estrada,
Onde oculto desliza manso arroio,
Acharás uma imagem veneranda
Da Rainha dos céus, três vezes pura,
Dos cristãos caminhantes protetora.
Inda a seus pés verás murchas saudades,
Por minhas mãos colhidas na montanha.
De cidade em cidade irás vagando;
Entra em Paris, Rainha das cidades.
Mas ah! triste suspiro,
Se esses ares alegres te abrandarem,
Se o seu bulício perturbar teu vôo,
Dos mortos no jardim vai açoutar-te, [9]
E entre jazigos tua dor recobra.
Como me apraz dos mortos o remanso!
Como dos mirtos sepulcrais o aroma
Faz o prazer libar da Eternidade!
Oh grata habitação! Oh paz suave!
Quando às minhas fadigas porei termo?
Oh meu suspiro, se acabar pudesses
Entre outros mil suspiros confundido
Nessa triste mansão! — Mas não, tens inda
De dar tua mensagem.
Passa a sombria pátria de Corneille [10]
Onde se ergue o honroso monumento
Da magnânima Virgem
Pelo céu inspirada,
Que a fereza dos homens queimou viva. [11]
Pelas margens do Sena aos mares voa;
Atravessa o Oceano, tão profundo
Como a dor de minha alma.
Passa o Oceano, imagem do infinito.
Entrarás num imenso ancoradouro,
De altíssimas montanhas torneado,
Onde repousa perenal verdura,
Que as espáduas dos montes engrinalda.
Oh sem-par maravilha!
Resupino, grandíssimo gigante
Ao longe assoma, e do Janeiro a barra
Ao viajor cansado patenteia?
Igual outro não há; errar não podes.
Aí é que te eu mando;
Essa é a Pátria minha, a Pátria amada,
Que a vida deu a quem me deu a vida!
Aí respira ainda a mãe anosa,
O encanecido pai, e irmãos queridos!
Verás se para amá-la razão tenho!
Mas não me capta amor grandeza sua.
Pobre fosse ela, pequenina aldeia,
Por ela meu amor igual seria;
Que este nome de Pátria é tão suave
Como o nome de mãe, de pai, de amigo;
E a mãe, e o pai, e o amigo inda que pobres
A um nobre coração gratos são sempre.
Venturoso suspiro,
Antes que em doce riso te convertas,
Nesse mágico céu da Pátria minha,
À paternal mansão ligeiro adeja
Como o meu pensamento;
Beija dos caros pais as mãos rugosas,
E soluçando diz-lhes,
Que o filho humilde a Deus rogando fica
Por eles, pela Pátria;
Sobre os restos de Roma, pensativo,
Um suspiro exalou, que à Pátria envia.
Roma, 20 de fevereiro de1835
Notas do autor
[editar]- ↑ San Francisco de Assis, cujas cinzas estão no convento de sua patria.
- ↑ Hoje lago de Perugia.
- ↑ Igreja de Santa Cruce, chamada o Pantheon Florentino, onde estão os tumulos de alguns homens celebres da Italia.
- ↑ A estatua alegórica representando a Italia aponta para este lettreiro, que está gravado aos pés da estatua de Dante Alighieri.
- ↑ A cathedral de Pisa é obra do arquiteto Bosqueto.
- ↑ Lago Maggiore.
- ↑ As torres, e os zimborios de Brigg são todos coroados de bolas de ferro branco, e com os raios do sol luzem como si de prata fossem.
- ↑ O monte Jura. Veja-se p. 132, Uma Manhã no monte Jura.
- ↑ O cemiterio do Père La Chaise.
- ↑ Corneille nasceo em Ruão em 1606.
- ↑ Jeanne d’Arc (Pucelle d’Orléans), queimada em Ruão em 1431.
Ao meu ilustre mestre e amigo O Reverendíssimo Senhor Fr. Francisco de Monte-Alverne
Eis-me em Roma! Da Pátria tão distante!
Inda de vós conservo tal lembrança,
Que às vezes se me antolha a imagem vossa;
A ela me dirijo, falo, escuto,
E cuido que ela me ouve, e me responde.
Como de um tão bom mestre, tão amigo
Poderá o discípulo esquecer-se?
Quantas vezes aqui, nos sacros templos,
Ouço santas palavras destes padres;
Cuido ver-vos no púlpito elevado;
Mas desconheço as vozes, e nem sinto
Bater-me o coração dilacerado
Da grave dor cristã; nem em transportes
Subir minha alma ao céu como um eflúvio
Da flor erguido; então saudoso exclamo:
Quem me dera inda ouvir o grande Alverne!
Roma é bela, é sublime, é um tesouro
De milhões de riquezas; toda a Itália
É um vasto museu de maravilhas.
Eis o qu'eu dizer posso; esta é a Pátria
Do pintor, do filósofo, e do vate.
Embalde Roma invoco, e a musa empenho,
Para um quadro traçar destes prodígios;
Sem cessar uma voz me fala n'alma:
Da louca pretensão que te alucina,
Desiste, oh fantasia! não te é dado
Achar uma linguagem tão facunda,
Tão sublimes imagens com que pintes
Dignamente esta imensa maravilha.
Como é possível descrever ao vivo
Todo o horror da montanha que vomita
Fogo, lavas, e fumo do ancho seio?
Quem pode retratar a majestade
Do vasto Coliseu, quando o argenteia
Do noctículo globo o incerto lume,
Seus raios pelas fendas enfiando?
As projetadas sombras como espectros;
Rotos muros, longuíssimas abóbadas;
Um gemido escapado de repente
Do pobre, que ante a Cruz seus males chora;
Um fúnebre arquejar de ave sinistra;
Uma voz, que além soa murmurando?
Quem narrar pode os pensamentos todos,
Que d'alma em torno em turbilhões volteiam,
Inda mais pavorosos que as ruínas?
Quem, penetrando as negras catacumbas,
Escondidas da terra nas entranhas,
Dos mártires cristãos leitos de morte,
Onde não entra o sol, nem entra a lua,
E só pequena luz, na mão do guia,
Trêmula, moribunda bruxuleia,
Como pálida estrela, ou como um olho
Do gênio habitador daquelas trevas;
Quem não se enche de horror? Quem falar pode?
Só ver, e emudecer; a língua é fraca;
As grandes comoções não se descrevem.
Como é tão eloqüente a lisa pedra
Que só diz: — Aqui jaz Torquato Tasso!
Quando todos os mármores ligados,
Inda assim receber não poderiam
Seus versos imortais por epitáfio!
Assim eu, receando dizer pouco,
Não podendo pintar tanta grandeza,
Eloqüente serei nada dizendo.
Roma, abril de 1835
Ao Ilmo e Exmo Sr. José Joaquim da Rocha, [1]
Dignatário da Imperial Ordem do Cruzeiro, deputado da ex-Assembléia Constituinte do Brasil, ex-ministro Plenipotenciário nas cortes de Paris e de Roma etc.
Os serviços que prestastes à Pátria; o amor, e o respeito que vos consagram os brasileiros residentes em Paris; o título de Pai com que eles vos honram; o seu legítimo pesar, e as lágrimas que vistes correr de seus olhos, no momento em que deles vos separastes, que bem previam eles que um vácuo tinha de ficar em seus corações; são os justos motivos que me inspiraram estes mesquinhos versos, que hoje vos ofereço. Possam eles ser tão gratos à vossa alma, como a todos nos será grata a vossa lembrança.
Roma, abril de 1835
- XXVI.
Folga minha alma, quando se me antolha
A cândida virtude,
E Varões dignos de louvor me indica.
Eu prostro-me a seus pés venerabundo;
Que a mente minha, de louvar ansiosa,
Encômios jamais nega à heroicidade.
Apareça quem já colheu aromas,
Que impura a minha destra
Nas aras da lisonja profanara.
Descerra os lábios, rígida virtude,
Diz se ouvidos teus já se irritaram,
Se coraste de pejo ao ouvir meus cantos?
Não, não, tu me respondes; fiel sempre
Aos sacros meus ditames,
Hinos teceste à Pátria, à Liberdade,
E a Varões beneméritos, que eu prezo.
Canta, canta; que é esse o único prêmio
De quem sem egoísmo à Pátria serve.
Orgão é da verdade a consciência;
E da virtude é órgão
O coração que fala, e nunca mente.
Firme Varão, imóvel nas tormentas
Que vezes o Brasil amedrontaram,
Rocha, quem no Brasil teu nome ignora?
Tu foste um dos primeiros que firmaram
A Independência nossa.
De tua alma o vigor, e o entusiasmo,
Os povos animavam, que te ouviam;
E unindo-se em prol da augusta causa,
Para ser seu apoio te escolheram.
Quando a injustiça e a ingratidão armadas
Os raios da vingança
Contra os Varões da Pátria fulminaram,
Salvo não foste, não; a Pátria viu-te,
Inda no seu desmaio, com teus filhos
Inocentes, marchar ao injusto exílio.
Quem não sabe que a morte te aguardava,
Dura, afrontosa morte,
Nessa terra, onde algemas se forjavam
Para o Brasil escravizar de novo?
Quem perfídia tão negra não conhece,
E os intentos da cega tirania?
Da sorte das Nações só Deus decide.
Quando elas o invocam,
E credoras se fazem do que aspiram,
Deus um Anjo velar sobre elas manda;
Esse Anjo tutelar não mais as deixa,
Esse Anjo é quem contrários planos burla.
Por milagre desse Anjo salvo foste;
Por milagre desse Anjo
Cem, e cem vezes o Brasil foi salvo
Das cruas garras de cruéis abutres;
Só por milagre dele em breve espero
Ver o Brasil subir à mor altura.
Oh! que doce é no meio dos perigos
De horrenda tempestade,
Já lânguido de fome, e de fadiga,
Ver aberta numa onda a sepultura,
E armada contra si dura companha [2]
Exclamar: — Tudo sofro pela Pátria!
Outro tanto dizer muitos não podem.
Digno tu és de inveja!
Ah! se invejosos tens, eu os desculpo.
Sempre a inveja assim foi; sempre ela investe
A quem mais por virtudes se distingue;
Sempre vilões Aristides tiveram.
Mas quando a imparcial posteridade,
Que só a láurea outorga
A quem por ações nobres merecera,
Teus títulos julgar, ela gostosa
Tecerá teus encômios; e o meu hino
Á memória dos homens será grato.
Quem deu fulgor ao sol, deu alma ao homem,
Também cobriu os campos
Co'o brilhante matiz de lindas flores;
Nem porque de mil sóis mantém a ordem,
Desleixa as pequeninas criaturas
Ao acaso, sem lei, sem um instinto.
Assim o homem digno de tal nome,
Que memorandos feitos
Em prol da Humanidade praticara,
Não despreza as domésticas virtudes;
Aquelas de imortal glória o revestem,
Estas o resplendor da glória esmaltam.
Quantos o Mundo viu Coriolanos,
Que o esclarecido nome
Infamaram depois com ações negras?
Tu porém sempre firme, sempre o mesmo,
És à Pátria fiel, e a vida tua
Sempre tem sido de virtude exemplo.
Abril de 1835
Notas do autor
[editar]
A meu amigo Francisco de Sales Torres Homem
É sublime o espetáculo, que ofrecem
Da prisca Roma os pálidos destroços,
Quando da noite a plácida lanterna
Branquejando na abóbada cinzenta,
Seu fúnebre clarão, como alvas flores,
Entre eles vagamente enfia, estende.
Tudo é confuso então, tudo é mistério,
Tudo infunde pavor, melancolia!
Dos sonhos na mansão julga-se a mente,
De escarpados rochedos rodeado,
De sombras, de fantasmas, que vagueiam,
Que num arco se escondem, noutro surgem.
Os fanais que no campo amarelejam,
Circulados de auréolas moribundas,
A lembrança despertam desses fogos,
Que às vezes os cadáveres exalam
De noite, das recém-abertas campas.
Que profundos, terríveis pensamentos
A uma alma pensativa não inspiram
Estas relíquias da grandeza antiga
Da augusta mãe de heróis, que agora vemos
Como num cemitério esparsos ossos
Ao tempo branqueando. Aqui o homem
Estrangeiro não é; ele conhece
Estas ruínas, e com elas fala
Uma mística língua, que alma entende.
Mas ah! inda esta terra hoje é manchada
Com sangue humano! Ind'hoje estas colunas
Dos derrocados templos de ímpios deuses,
De ímpios Romanos os punhais ocultam.
Nem no reino da morte há segurança!
Por toda parte o crime o homem segue!
Não passeiam aqui brancos fantasmas
Entre os sombrios arcos nem as grutas
Do palácio dos Césares somente
Ao mocho gemedor asilo prestam.
Não, não; são assassinos que profanam
Deste precinto o lúgubre silêncio,
Tão propício aos filósofos, e aos vates.
À sombra das ruínas solitárias
Oh! que nefandos crimes vis sicários,
Da Humanidade opróbrio, não perpetram,
Sem temor do seu Deus, e da justiça!
Como que calejada a consciência,
Cansada de gritar, os abandona.
Como de nós tão perto a morte vimos,
Neste mesmo lugar, onde sentados
Ouvimos soluçar ave agoureira,
Que no templo de Vênus acoutada,
Sufocados gemidos arrancava
Do íntimo do peito; como um homem,
Que nas vascas da morte, em vão lutando,
Sem esperança já, socorro implora.
Oh severa ciência, tu condenas
Estes, da nossa infância, preconceitos.
Mas quem pode negar que ruins desditas
Pressagiadas são milhões de vezes?
Se a negra borboleta que esvoaça
Em torno do casal, e nele pousa;
Se o tétrico carpir de ave noturna;
Se d'alma o repentino abatimento
Certas palpitações inopinadas;
Os sonhos, as visões, nada anunciam;
Se é falsa crença de alma alucinada,
Que à infância, e à velhice o medo incute,
Ao menos na do homem própria essência,
Misteriosa essência, apoio encontra;
Que a Razão, do céu filha, não tão fácil
Se eclipsa pela opaca sombra do erro.
Não se opõe à Razão a crença nossa,
Que nem sempre à Razão o céu concede
A mina profundar inescrutável,
Onde de efeitos mil se oculta a causa.
Que mistério é maior que o gérmen do homem?
Que mistério é maior que a vida sua?
Que mistério é maior que a sua morte?
Oh mistérios sublimes! — Donde, oh homem,
A evidência te veio, que este mundo,
Que fora de ti vês, real exista?
Na terra para mim tudo é mistério,
Eu, o que sei, e tudo quanto ignoro.
Dia aziago foi todo este dia,
Desde o surgir do sol, té seu ocaso
O coração pejado de tristeza
Procura a solidão, ama o mistério.
Bela era a noite, mais que o dia bela!
Alvinitente a lua rutilava,
Como um rosto de virgem pudibunda,
Que em seu jardim passeia solitária.
Ao Capitólio fui, e foi comigo
O Amigo fiel; juntos passamos
De Tito o arco, e ao pé do Palatino
De um mocho ouvimos hórridos gemidos,
Que os ares magoavam, ressoando
Do Coliseu nos longos corredores.
Um pouco repousamos sobre o muro
Do cesáreo palácio esboroado.
O mocho carpidor gemeu três vezes;
Os nossos corações se apavoraram,
E ambos involuntários suspiramos.
Tristes versos, que a mente ali ditou-nos,
Com lutuosas vozes repetimos.
Depois de meditar sobre os presságios,
Marchamos para o Flávio anfiteatro.
Co'um archote na mão, de estância em estância,
Cobertos de compridas, brancas vestes,
Como fantasmas gravemente andando,
Mais e mais o horror destes recessos
Destarte nossos vultos aumentavam.
Oh! quem pode narrar cenas tão fúnebres?
Do archote a luz o teto avermelhava,
Co'a fria luz da lua contrastando;
Cinéreo fumo, deslizando em ondas,
Fugitivos duendes simulando;
E para mais pavor, do fundo peito,
Deixávamos sair longos suspiros,
Que em toda a galeria reboavam.
Cansados de gozar de mil maneiras
Essas cenas sublimes, regressamos
Para o nosso aposento, atrás deixando
O arco triunfal de Constantino.
Tudo estava em silêncio, imóvel tudo;
Só ressoava o som dos nossos passos,
E ante nós nossa sombra caminhava.
Eis que chegando ao sítio onde sentados
Ave sinistra soluçar ouvimos,
Três, de punhais armados, negros vultos,
Como da terra erguidos, nos investem
Qual nosso susto foi! Nos feros rostos,
Nos cintilantes olhos desses monstros
De suas almas vis o intento lemos.
Nas lâminas luzentes co'os reflexos
Do claro astro da noite, e que apontadas
Sobre os peitos estavam, nossa morte
Com cor sanguínea víamos pintada.
Só pelo Amigo cada qual temia.
E qual foi, oh minha alma, nesse ensejo
O pensamento teu?... A Pátria! A Pátria!
Não mais vê-la: — Morrer tão longe dela;
Sem por ela ter feito um sacrifício!
Distante de meus pais... Oh Providência!
Ouviste o coração que te invoca,
E tu salvaste o Amigo, e me salvaste
Das cruas garras dos sedentos tigres.
Mais que o áureo metal é cara a vida;
Para louvar a Deus vivos estamos.
Roma, 11 de abril de1835
Do céu as estrelas
Acaso no brilho
São todas iguais?
São umas mais belas,
E outras parecem
Funéreos fanais.
Assim são os fados
Dos tristes mortais.
Cada qual tem sua sorte;
Um foi para a dor gerado,
E outro pela ventura
Ao nascer foi embalado.
Quanto mais penso, mais creio
Neste mistério profundo;
E a mim mesmo então pergunto:
Para que vim eu ao mundo?
Como resposta esperando,
Escuto silencioso;
No coração, que palpita,
Murmura um som lutuoso.
Soa essa voz em meu peito
Como em caverna profunda,
Como um suspiro exalado
Pela vaga gemebunda.
Para a dor, me diz, nasceste;
Para a dor, para o tormento;
Teus males só terão termo
Co'o teu último momento.
Sofrer, tal é meu fado! — Eu me resigno.
E que hei de fazer? Curta é a vida...
E quem me tolhe qu'eu de todo a encurte?
Não serei livre de lançar por terra
Um fardo que me acurva, um fardo inútil?
É a vida para uns néctar suave,
Tóxico é para mim;... devo tragá-lo?
Acaso Deus me disse
A ti toca sofrer por mil que gozam.
Mas eu blasfemo, oh céus! Que voz me grita:
"Mortal, olha o que fazes! Contra a vida
Não ouses atentar. Quem vida deu-te
Só quando lhe aprouver tirar-ta pode."
Oh meu Deus! compaixão; minha alma humilde
Graça implora da sua insana idéia.
Rir, ou chorar, eis só o que o homem sabe;
Se não canta, blasfema!
A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.
Qual a esponja de líquido embebida,
De perpétua, letal melancolia
Pejado tenho o peito;
Minha alma amortecida,
E como que em seu túmulo encerrada,
Só pela dor à vida é revocada.
Oh minha alma, tu és como a lanterna
Do cemitério,
Que ante o altar, sobre um esquife solta
Palor funéreo.
A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.
Oh prazer! Oh doçura da existência!
Meta tão desejada
De todos os mortais, para quem inda
Brilha no céu a estrela da esperança.
Oh benigno sol, que a vida aqueces,
Para mim te eclipsaste!
E se às vezes fosfórico lampejas,
Quando eu, afeito à dor, não te desejo,
É para exacerbar meu sofrimento.
Ah! nem me afaga da esperança o riso,
Nem me consola amor; tudo me foge.
A sorte choremos,
Que avessa nos é;
Mas não blasfememos,
Vivamos co'a Fé.
Bolonha, maio de1835
Em Ferrara
Que vim eu aqui ver? — Uma masmorra
Úmida, estreita, onde respiro apenas!
Se a fronte elevo, o negro teto roço;
Se estendo os braços, a largura abranjo;
Dous passos bastam a medir seu fundo.
Que vim eu aqui ver? — Nomes escritos
De um lado e de outro de centenas de homens,
Que como eu curiosos peregrinos
Vieram visitar este recinto.
Vós, meus olhos, nada vedes;
Mas minha alma no passado
Um vate vê encerrado
Nesta lúgubre prisão.
Aqui chorou longos dias,
Longas noites, longos anos,
Quem por olhos soberanos
Enlouqueceu de paixão.
Tasso aqui como um escravo
Amargurou a existência;
De um senhor a inclemência
A morte aqui lhe quis dar.
Triste ele a ausência carpia
De sua cara princesa.
Seu amor, sua beleza
Causaram só seu penar.
Livre, qual Deus o criara,
Entre ramos adejando,
Melodias exalando,
Passa a vida o rouxinol.
Saúda o sol quando nasce,
Redobra o canto co'o dia,
Enche os ares de harmonia,
Geme ao deitar-se do sol.
Mas se preso na gaiola
Mão tirana o encadeia,
Inda assim ele gorjeia,
Para dar alívio à dor.
Assim, oh grande Torquato,
Neste cárcere horroroso
Gemer te viram saudoso
A Liberdade, e o Amor.
Fado! Fado do vate!... A Itália toda
As doçuras gostava de teus versos;
Gofredo ao céu da glória remontava
Sobre as sonoras asas de teu gênio;
E tu, oh Tasso, aqui nesta masmorra
Como um vil criminoso definhavas!
Fado do vate! rigoroso fado!
Mas Tasso ousou amar de um duque a filha!
Oh Ferrara! cem duques teus cingidos
De áureas c'roas, de púrpura cobertos,
Um só Tasso não valem.
Um vate é mais que um rei. Reis faz o povo,
E a seu grado os desfaz, como do mármore
Tira o escultor um Nume, e quando apraz-lhe
Em simples animal converte-o, ou quebra-o.
Mas tu, sagrado fogo d'harmonia,
Quem te acende nas almas dos poetas?
O mágico poder com que convertes
Aquiles num herói, Páris num fraco,
Acaso dos mortais herdaste, oh vate?
Ou foi prenda do céu a lira tua,
A lira, que imortais sons desferindo,
Vive no tempo, e impõe silêncio à inveja?
Muros desta prisão! muros, que outrora
Um tesouro encerrastes,
Vós, que insensíveis testemunhas fostes
Dos suspiros de Tasso,
Dizei, muros, se acaso vós pudestes
Tolher do engenho as asas?
Ou se o tirano a glória nodoou-lhe?
Vingou a Humanidade a afronta sua,
Como um astro no céu Tasso rutila,
E o nome do tirano negrejando,
Aumenta-lhe o fulgor, que o ilumina.
Mas oh da Providência altos arcanos!
Que mais sofra na vida, quem co'a morte
Nova vida imortal viver começa!
Assim homens ingratos,
Enquanto vivo o mérito premiam!
Ah! consola-te, oh Tasso,
Que o único não foste, que da sorte
Sorveu tragos amargos.
Quase é do vate estrela o infortúnio!
Como os mártires são, que só morrendo
A apoteose recebem.
Aquele a quem a Grécia ergueu altares,
Homero, mendigou de porta em porta!
Tu, oh Ravena, o fugitivo Dante
Viste iracundo praguejar seu fado.
Camões, rival de Tasso, o pão esmola
Ante os olhos de Lísia. E tu, oh Silva,[1]
Da minha Pátria filho,
A fogueira subiste com pé firme,
Que a inocência teus passos vigorava;
E entre as chamas, por mãos ímpias acesas,
Teu último suspiro ao céu subiste.
Ante esse bruto povo,
Que outrora te aplaudira.
Tu Cláudio octogenário,[2] na masmorra
Para a afronta evitar te deste a morte.
Lá de horrenda prisão correm ferrolhos,
A dura porta se abre,
Lá sai Dirceu[3] saudoso, suspirando
Pela cara Marília,
Lá vai morrer proscrito
Nas inóspitas plagas Africanas.
Fado do vate! rigoroso fado!
Porém dos vates
Por que lamento
A triste sorte?
Pode o tormento,
Ou pode a morte,
Inda que seja
Dura, afrontosa,
Fazer que a história
Não perpetue
Sua memória?
Raivosa a inveja
Arme- se embora,
E os acometa.
Do vate a glória,
É qual planeta,
Que no céu mora,
No céu lampeja,
Para honra dos humanos,
E opróbrio dos tiranos.
Ferrara, 3 de maio de 1835
Notas
[editar]</references>
Bem quisera, oh, bela virgem,
Hoje extrair de meu peito
Algum suave perfume,
Em sinal do meu respeito.
Quisera na minha lira
Cadenciar algum hino,
Com que louvasse os encantos
Desse teu rosto divino.
Mas temo, temo que o peito,
De gemer já fatigado,
Em vez de cantar, exale
Um suspiro magoado.
Ah! temo, temo, acredita,
Que a minha fúnebre lira,
Em vez de entoar um hino,
Só triste nênia desfira.
Ah! tu cuidas, bela virgem,
Que é feliz todo o vivente?
Inda estás no albor da vida,
Tens uma alma inda inocente.
Não; tu me vês peregrino,
Errando de terra em terra:
Mas, oh, virgem, tu não sabes
Que dor o meu peito encerra.
Veneza, maio, 1835
Como é bela a Natura!
Pode o parto de um gênio em febre intensa
Rivalizar tais cenas?
Ver das águas a queda ruidosa
Deslizar entre seixos, formando
De cristal mil festões, que se esmaltam
Da palheta do íris, pintando
Retab'los, onde o toque da mão mestra
Em matiz variado delineia
Sucessivas belezas, como a idéia,
Que outra idéia desperta, vinculando
Das sensações o quadro reanimado;
Onde terna saudade em ledo arroubo,
Volteia esperançosa
Sobre as asas divinas da memória,
Que em seu grêmio renova eras passadas;
Misteriosa fênix de nossa alma!
Propércio e Cíntia,
Catulo, Horácio,
Mecenas, tudo
Do antigo Lácio
Patente sobre as ruínas vejo errarem,
Como nuvens de fósforo cerúleo,
Ou vapores num lago, matutinos,
Ou nas selvas noturnos pirilampos.
E tu, oh linda Zenóbia,
Que com teu pranto nutriste
Estas águas sempiternas,
E solitária carpiste
Tua coroa, teu cetro,
Armadas, marmóreos paços,
Vastos templos de Palmira,
Que Roma fez em pedaços.
Já foste Paládio, e ídolo
Do teu povo soberano;
Mas quebrou-te o templo, as aras,
O iconoclasta Romano.
Vem, princesa desgraçada,
Vem solitária comigo,
Vem chorar a antiga glória,
Que eu também choro um amigo.
Se ora invoco teus manes neste ensejo,
Não turbo as régias cinzas, que humilhadas
No exílio findaram sem momento.
Como tu, solitário a vida gemo,
E a passada ventura, que gozara,
Entre amicais amplexos, venturoso.
Mas que voz na soidão remonta aos ares?
Celeste Querubim baixa do céu,
E na flauta divina exalta o hino,
Que a terra a Jeová diurna envia.
Mas não; alto prodígio se levanta;
Providente Natura
Companheiro me envia; alado vate,
Homero da floresta,
Em melódico metro, o estro exalça,
Meus suspiros conforta, adoça as mágoas.
Salve, oh vate Rouxinol,
Salve, à luz misteriosa
Deste archote, que de noite
Faz a terra duvidosa.
Salve, oh Lua alvinitente,
Mãe de amor, do vate amante,
Do silêncio grata esposa,
Salve, salve neste instante!
Mas quem turba teu manto de silêncio,
E a voz levanta em prolongado ronco?
São as do Anio
Tartáreas águas,
Que sempre vivem
Quais minhas mágoas.
Da história imagem,
Das estações
Vivo retrato
Seus borbotões;
Qual vida, e morte,
De vaga em vaga,
Se esconde, e surge,
Se acende, e apaga.
Assim batem as águas rugidoras,
Que os átomos confundem, dilatando
A contínua torrente, que retrata
Do infinito a imagem!
Onde está o infinito, oh Deus Eterno?
Esse marco onde esbarra a mente humana,
Que sem tino volteia titubante,
E no abismo do peito se aprofunda,
Face a face encontrando a consciência?
Oh consciência, ao teu clarão se rasga
O véu das ilusões! Ele nos mostra
Das paixões o troféu dentro do túmulo,
E ao pé quadro da vida, que demonstra
O nada da vaidade, e o desengano
Majestoso sentado
Na cadeira da escola da verdade,
Donde colhe a virtude os seus ditames!
Pálida Lua, teus suaves raios,
Que plácidos se esbatem nas campinas,
E as fugitivas ondas argenteiam,
Da consciência nossa a imagem pintam,
Que fala ao coração com tal potência,
Sem nos lábios volver um som de frase.
Misterioso acento, alta harmonia
Desenvolve a Natura em seus concertos.
Enquanto a voz uníssona do Anio,
Que em equóreos cilindros vai rolando,
E entre seixos ribomba,
De medonho fragor o ar pejando;
Canoro rouxinol prelúdio exalta,
E sublime se acorda ao som horrível,
Que as águas tangem em contínuos vórtices
Entre o limo, e as areias das cavernas,
Variando as estrofes; lá prolonga
Suavíssimo gorjeio, que se perde
Em ventrílocos ecos; quais soluços
De enamorada virgem, que receia
Do coração trair ternos afetos.
Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.
Mais sublime retoma o retornelo,
Em agudos sibilos elevando-se;
Quebra a voz; vem morrendo suspiroso;
Doce, e doce remonta, enche o espaço;
Majestoso se espraia, floreando;
Qual rojão que remonta além das nuvens,
E no ar arrebenta um firmamento
De efêmeras estrelas luminosas.
Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.
Melancólico entoa em nova escala
Amorosa canção, que invejam dúlias:
Té que alfim tiritando se arrebata,
Entrecorta o trinado, e pouco a pouco
Em fluente florido se evapora.
Volve a paz, o silêncio, ronca a onda
Em perpétuo murmúrio;
Da fadiga repousa alado vate,
E inspirada canção alto redobra.
Mesclado efeito de sublimes notas,
Ora forte, ora lento vai soltando;
Finge o pranto, sorri-se, e desenvolve
Insólita harmonia, que assimilha
Batalhões com clarins, rufos, e tímbalos;
Emaranha um confuso regorjeio,
Que se perde num som prolongadíssimo.
Triunfante cala a cítara,
Desaparece qual relampo.;
Ronca a onda sempre a mesma,
E o silêncio toma o campo.
Oh Rossini das aves, tu que buscas
A soidão, o silêncio,
Pra teu canto esmaltar sem o marulho
Da vigília do dia; e como um gênio,
Que no leito desdobra mil prodígios
Ao cansado mortal em grato sonho,
Nesta hora me recordas
Ao coração lanhado imagens ternas,
Tão tristes, que ante mim se desenrolam
Qual penacho de fumo
De apagado brandão junto ao esquife,
Que um cadáver de virge'avaro oculta.
Oh Rossini das aves, que linguagem
Teu discurso soltou? Não é da terra.
Ah! cantas porventura
Os fastosos anais, a decadência,
Os triunfos, e a queda dos Romanos?
A saudade, as delícias da amizade,
Ou a história amorosa de uma vítima?
Marmóreos átrios, áureos peristilos,
Conquistas dessa indústria, que assoberba
A terra, o mar, os montes, e os abismos,
Tudo o tempo desfez co'a mão dos séculos.
Sibilinas paráfrases
De místicos oráculos,
Que o futuro previam, não previram
Essa mãe de desastres
Cimitarra de Totila,
Que a Palestra, o Ninfeu, a Academia,
E mais d'arte primores derrocara
Nesse mundo do belo, que Adriano
Colocara engenhoso sobre a encosta
Das ridentes colinas, que te adornam,
Oh decantada Tibur!
Qual túmulo sagrado, o viajante
Vem teu solo beijar, e espavorido
Desses restos augustos que te cobrem,
Vai na pátria narrar tais maravilhas,
Maldizendo a ignorância, e Caracala.
Esta, outrora soberba, áurea cidade
Minha imagem retrata em quadro icônico!
Onde está teu Liceu, onde o teu Foro?
Os teus templos, e muros formidáveis?
Que sepulcro encerrou os Paladinos?
Eleva, eleva moles gigantescas,
Pelo gênio das artes inventadas,
Oh vaidoso mortal! marca os teus fastos
Com marmóreos padrões; que o dia chega
Em que, a um leve aceno do destino,
Com teus paços irás dormir na terra.
Novos combros de areia gera um vento,
Que outro vento derruba, nivelando-os.
Muros reticulares
De calcinada argila,
Que arrendadas abóbadas sustentam,
De grinaldas de amoras adornados,
Em vão querem mostrar primeva pompa.
Onde outrora tangeu Horácio a lira,
E Tibulo chorou ternos amores,
Mortais serpes se enroscam,
Aguardando findar pastor incauto,
Que a fadiga do sol chama ao repouso.
Sobre o alto das colinas,
Que em torno ao Anio vecejam,
Vis choupanas, restos sacros,
Inda glória mal lampejam.
Teus acantos de Corinto,
E o teu luxo oriental,
Jazem na terra, e aos insetos
Servem hoje de pousal.
Mas, oh Deus, se a vista volvo
Ao Catilo, e suas águas,
Lá no templo da Sibila
Vão findar as minhas mágoas.
Supina Tibur, espraia
No horizonte larga vista,
Vê como geme na terra
A Rainha da conquista.
Como tu, mudei de aspecto;
Já me viste rico, ufano,
Quando junto ao meu amigo
Te saudei lá do Lucano.
Onde vás, Peregrino estudioso?
Em que albergue feliz pedes pousada?
Acaso sobre um túmulo deserto
Entre rotos sofitos,
Na cítara brasília merencório
Teus suspiros a Deus grato sublimas?
E baixando ao amigo, também sentes
No ádito do peito,
Como ele, trespassar-te agra saudade,
Que fere o coração, e ilude a mente?
Se a mansão de Petrarca,
Nas Colinas Euganeas, visitares,
No marmóreo portal grava estas linhas:
"Se junto, ou longe
"Da Laura diva
"A lira altiva
"Tangeste sempre:
"Qual tu, o amigo
"Saudoso agora,
"De mim se lembra,
"E por mim chora."
Tivoli, maio de 1835
ARAUJO PORTO-ALEGRE.
Não era noite, nem o sol brilhava;
Mas do céu as estrelas rutilantes
Com branda luz os ares perfumavam;
E nas águas azuis, dormentes águas,
Que Veneza circulam com cem braços,
Os celestes fanais, e a casta lua
Suas belas imagens balançavam.
Outro céu esse lago parecia.
Eram dous céus! Veneza em meio estava,
Como um astro que parca luz emana.
O leão de São Marcos inda eu via;
A torre esbelta, o gótico palácio,
E a ponte dos suspiros.
Mas tudo, tudo
Deixar devia,
Antes que o dia
Amanhecesse,
E desfizesse
Quadro tão belo.
A mão do escravo
Obediente
Maquinalmente
Já martelava
O fatal bronze;
Pancadas onze
O ar vibrava.
Triste e choroso [4]
Teus versos lia,
E de saudade
Me enternecia.
Teus versos lendo,
Fantasiava
Que te escutava;
E que assentado
Inda a meu lado
Te estava vendo.
Já para responder-te preparado
A amizade invocara,
E cravados no céu os olhos tinha.
Mas a hora fatal gelou-me o arroubo!
Alerta o gondoleiro me esperava;
Partir... deixar Veneza era forçoso.
Co'os teus versos nas mãos, tu em minha alma,
Na gôndola pus pé; saudei Veneza;
E co'os olhos em lágrimas nadando:
Adeus, Veneza, eu disse,
Adeus, adeus, marítima cidade;
Decaída Rainha do Adriático.
Eu suspirava ainda;
A gôndola do cais se ia afastando,
E do grande canal sulcando as águas,
Quando vozes ouvi: era o barqueiro,
Que ao compasso do remo recitava,
Com monótona voz, porém saudosa,
Do vate de Sorrento os doces carmes.
Tudo então repousava;
Veneza ao longe iluminada eu via,
Como um céu estrelado.
O esquife brandamente deslizava,
As sonolentas águas despertando,
Qual negro mergulhão de argênteo rostro,
Ou qual cisne de luto revestido.
Por que tão curta foi noite tão bela?
Ah! quem nunca deixou pátrias devesas,
Quem de um amigo não chorou a ausência,
Nem de uma amante a perda,
Gozar não pode em solitária noite
Esta doce impressão, que alma sufoca.
Tomei terra em Fusina;
Arqua deixei, onde habitou Petrarca;
Ábano, que por ser de Lívio pátria,
Ainda hoje se ufana;
E na crastina aurora saudei Pádua,
Ao som da melodia encantadora,
Que ao sol nascente o rouxinol tributa.
Pela segunda vez vi seus palácios,
Seu templo semi-árabe, que outrora
De Antônio repetiu sacros acentos.
Visitei de Vicenza os monumentos.
Em Montebelo recordei prodígios
Do armipotente Lannes.
Eis-me em Verona alfim, oh caro amigo!
Já vi seus mausoléos,e o anfiteatro,
Que Roma, e o Coliseu me está lembrando;
O Coliseu, que juntos vezes tantas
Ao triste albor da lua visitamos!
Tudo a memória,
Doce tormento,
Neste momento,
Me está narrando,
Sem omissão;
E a cada folha
Da nossa história,
Que vai passando,
Pungente espinho
Me vai varando
O coração.
Sempre a teu lado
Vivi contente;
A ti ligado,
Uma vontade
Só nos unia;
Vera amizade
Nos apertava.
Se triste estava,
Tu me alegravas;
Em ti vivia,
Contigo ria.
Se me dizias:
Sou teu amigo,
Eu como um eco
Te repetia.
Era um exemplo
Nossa união.
Mas quis a sorte,
Sempre inimiga,
Atormentar-nos,
E separar-nos
Por algum tempo;
Desde esse instante
A dor pintou-se
No meu semblante;
Mas só a morte
Dará um corte
Ao laço santo,
Que nos prendeu;
Se poder tanto
O justo céu
Lhe concedeu.
Vai, meu suspiro,
Vai ver o amigo,
Que te deseja
No seu retiro.
À Roma adeja,
Deixa-a, e te inclina
À Palestrina;
Chega ao abrigo
Onde ele pousa;
Aí repousa,
Suspiro meu.
Verona, 12 de maio de 1835
Notas do autor
[editar]- ↑ Antônio José da Silva, natural do Rio de Janeiro, poeta cômico, foi queimado vivo num auto-de-fé, em Lisboa, em 1739, porque, dizia-se, era judeu.
- ↑ Cláudio Manuel da Costa, conhecido com o nome de Glauceste Saturnino, distinto poeta, de quem correm algumas poesias impressas, sendo acusado, já avançado em anos, e preso com outros ilustres poetas, deu-se a morte na prisão.
- ↑ Tomás Antônio Gonzaga, tão conhecido com o nome de Dirceu, imortal nas suas liras. Nós lhe consagramos esta nota, porque, de quantos têm lido suas liras e nem todos sabem que reais foram as suas desgraças; comprometido com Cláudio Manuel da Costa, e Alvarenga, foi condenado ao desterro para Moçambique, onde expirou. Como Petrarca, imortalizou-se com suas poesias eróticas, e o nome de sua Marília será tão célebre como o de Laura, quando os brasileiros prezarem mais os seus literatos.
- ↑ Há em Veneza, na praça de S. Marcus, uma torre chamada do Relógio; em cima um sino, e duas estatuas de bronze com martelos nas mãos, marcando com eles as horas.
Ah! não queiras saber por que suspiro;
Por que geme minha alma, como a rola,
Que outro canto não tem senão queixumes,
Com que magoa os ares.
Ah! não me inquiras... Se chegar tu podes,
Ao través de meus olhos, à minha alma,
Verás que o rosto meu assaz explica
O que nela se passa.
Dirás, talvez, que injusto me lastimo;
Qu'inda possuo um pai, qu'inda mãe tenho,
Qu'inda um amigo aperta-me em seus braços,
E proscrito não erro.
Mas que importa tesouros tais possua,
Se gozá-los não posso? Se na ausência,
Da saudade o farpão continuamente
O peito me trespassa?
De gota em gota o matutino rócio
Enche, e pende do lírio o débil cálix,
Que oprimido co'o peso se lacera,
Desbota, e alfim falece.
Uma gota após outra um lago forma,
Novas gotas de chuva o lago aumentam,
Transborda enfim, e dá a um rio origem,
Que nas planícies rola.
Eis de meu coração a fida imagem.
Repetidos pesares pouco a pouco,
Males amontoados desde a infância
A existência me azedam.
Procuro embalde no festim da vida
Um lugar para mim. Se uno meu canto
Ao hino de alegria, a voz me falta,
E o coração suspira.
Oh Ancião de Téos, feliz foste;
Por amores contavas os teus dias!
Dias ditosos! Eu os meus numero
Só pelos meus pesares.
Mal vibravas da lira os fios de ouro,
Para de heróis cantar preclaros feitos,
Em vez de ressoar de Atride o nome,
Amor, dizia a lira.
E eu, oh destino! se de Amor intento
Terno o nome entoar, rebelde a lira
Só suspiros exala, e as cordas gemem
Ao toque de meu dedo.
Suspirar, suspirar... Tal é meu fado!
Por que o céu fez-me assim? Ao céu pergunta,
Por que deu ele ao sol ígneos fulgores,
E palidez à lua?
Enquanto o sabiá doce gorjeia,
Gemem na praia as merencórias ondas;
E ave sinistra, negra esvoaçando,
Agoureira soluça.
Ao lado do cipreste verde-negro,
Desabrocha a corola purpurina
A perfumada rosa; e junto dela
Pende a roxa saudade.
Eleva-se a palmeira suntuosa,
E desdobra nos ares verdes leques,
E perto da raiz, à sombra sua,
Definha humilde arbusto.
Eis da Natura o quadro! Isto harmonia,
Isto beleza, e perfeição se chama!
Eu completo a harmonia da Natura
Co'os meus tristes suspiros.
Vê agora se à lei posso eximir-me
Que a suspirar me obriga?... Oh alma minha,
Arpeja a que possuis, única fibra,
Exala teus suspiros.
Turim, 15 de maio de 1835
Eu amo as flores
Que mudamente
Paixões explicam
Que o peito sente.
Amo a saudade;
O amor-perfeito;
Mas o suspiro
Trago no peito.
A fórma esbelta
Termina em ponta,
Como uma lança
Que ao céo remonta.
Assim, minha alma.
Suspiros geras,
Que ferir podem
As mesmas feras.
É sempre triste,
Ensanguentado,
Quer secco morra,
Quer brilhe em prado.
Taes meus suspiros...
Mas não prosigas;
Ninguem se move.
Por mais que digas.
Experiência! Médico tardio,
Tua voz útil fora, se mais cedo
Em nossa alma soasse!
De tropeço em tropeço vai-se a vida,
Como o rio entre seixos se despenha;
Nada o curso lhe tolhe.
Das paixões o marulho estrepitoso,
Como o som da cascata caudalosa,
Cobre, abafa teu eco.
Em jogo pueril, vendando os olhos,
O infante, na planice, embalde ensaia
Da estrada andar em meio.
Ângulos forma; alfim se esbarra a um tronco;
Assim andamos nós olhivendados
Pela estrada da vida!
Cai-nos a venda do barranco às bordas,
Quando nas suas lúbricas crateras
Já nossos pés deslizam.
Vem a velhice, que melhor te escuta,
Refletimos então; porém que importa!
O tempo é já passado!
Do que serve ao cadáver o remédio?
Um mestre ao moribundo? um guia àquele,
Que marcha ao cemitério?
Donde vêm estes suspiros?
Donde vêm tão magoados?
Que a mim chegam tão quebrados!
Que peito os pôde conter?
Que distância eles venceram?
Que longos mares passaram?
Que ventos atravessaram,
Para aqui virem morrer?
Estes tão tristes suspiros
Aqui não foram nascidos;
Não; suspiros tão doídos
Quem podia aqui gerar?
Só uma mãe malfadada,
Que vê seus filhos lutando,
Nos céus os olhos fitando,
Assim pode suspirar.
Numa praia solitária
Bate a vaga moribunda
Menos triste e gemebunda,
Pejando o ar de seus ais.
Vós, gemidos dos desertos,
Entre as folhas vagueando,
Nas cavernas ululando,
Tanto horror vós não causais.
Suspiros, donde vindes? — Mal vos ouço,
Em meu peito murmura o eco vosso
Surdo, funéreo, como a voz que soa
Longe no ermo, da enchente que se arroja
De alpestre rocha, em borbotões fervendo,
E se esconde da terra nas entranhas;
E minha alma estremece apavorada,
Como de uma harpa a corda magoada.
Suspiros, donde vindes? — Sois da Pátria?
Ah! sois da Pátria... Sim, eu vos conheço
Por esse acento de aflição, de angústia,
Por esta dor, que me causais, tão agra.
Tu suspiras, oh Pátria!
Co'os teus os meus suspiros se misturam.
E que al fazer eu posso?
Se é surda a Providência às preces tuas,
Que pode a frágil mão de um filho inútil?
Os teus suspiros
A mim chegaram,
E me abalaram
O coração.
Socorro dar-te
Embalde intento,
E só aumento
Minha aflição.
Qual naufragante
Que uma onda impele,
Outra o expele
Ao alto-mar;
E de onda em onda
Sendo rolado
Já lacerado,
Vai encalhar.
Mas na praia não achando
Um asilo protetor,
O alento último exala,
E a alma envia ao Criador.
Assim morreis, suspiros, em minha alma,
Depois de haver o Oceano magoado.
Mas, oh Pátria, quem causa mágoas tuas?
Ah! não fales, não digas... sofre... espera.
Eu conheço teu mal. Ah! não são estes,
Qu'inda os pulsos têm lívidos dos ferros,
Recém-livres, costumes têm de escravos,
Estes não são, que ao teu porvir brilhante
As portas abrirão; são os seus filhos.
Espera, espera, que o porvir é grande;
E a vontade do Eterno, que os teus montes,
O teu céu, os teus rios nos revelam,
Será cumprida um dia: espera, espera.
Ainda ontem te ergueste de teu berço;
Mal um passo ensaiaste,
E não é crível que amanhã já morras.
Como em torno do sol os astros giram
Em círculo perpétuo,
Em torno do seu Deus as Nações marcham,
E de tal Astro à luz jamais se eclipsam;
Crê em Deus; que ele só salvar-te pode.
E vós, que a fronte ergueis de nós à cima,
Vós, que empunhais da governança o leme,
Vós, que velar deveis, até quando
Fareis da Pátria o patrimônio vosso,
E tolhereis seus passos?
Corai, corai de pejo, envergonhai-vos
De encher o excelso assento de poeira,
De poeira que sois, que um leve sopro
Dispersa, e acaba, e nem vestígios deixa
Para o crástino dia.
Nulidades, que humanas formas cobrem,
Empolas, que se geram num minuto,
E que noutro minuto se desfazem,
Como bolhas de espuma, que brincando,
De tênue tubo o infante cair deixa,
E no meio da queda desaparecem;
Que fizestes, que em vossa glória fale?
Nada!... Passastes como secas folhas,
Que os ventos remoinham.
Basta, enfim basta de ilusão, de engano.
Mira a Pátria a grandeza;
Vós a empeceis; deixai o campo livre
À Juventude, do progresso amiga.
Eu vos saúdo, Geração futura!
Só em vós eu confio.
Crescei, mimosa planta,
Sobre a terra da Pátria só regada
Com lágrimas e sangue.
Crescei, crescei da liberdade, oh filhos,
Para a Pátria salvar, que vos aguarda.
Tudo está profanado!
As vestes da virtude o vício adornam;
Da lisonja nas aras arde o incenso
Que só devera embalsamar o templo!
Murchas flores, que a fronte ao vício ornaram,
Atiram-se em despeito ao altar do Eterno.
Tudo está profanado!
Levanta a estupidez a hirsuta coma
Coberta de poeira,
E a sacode no rosto da Ciência,
Ou no alcáçar da lei se assenta ufana;
A Moral a seus pés serve de sólio,
De cúpula o capricho.
Tudo está profanado!
A cívica coroa
Dá-se à ambição, que sobe intumescida
Como a onda do mar, e tudo alaga.
Exauriram-se os nomes das virtudes,
E um só não há que ao crime se não desse.
Os lugares são prêmios da baixeza,
Da feia adulação, da vil intriga!
O hino cantam da vitória; e a Pátria
Geme aflita co'o peso da ignorância
Dos homens, cuja estrela é o egoísmo;
E até a lira, para mor opróbrio,
Vendidos sons só verte!
Tudo está profanado!
Como posso louvar-te, ilustre Veiga,
Santuário da honra foragida?
Que nome te darei? que flor? que incenso?
Como o bronze que soa em torre excelsa,
Chamando a Deus os homens,
Tu bradaste, pregaste o amor da Pátria;
A teus brados os homens surdos foram,
E tu enrouqueceste.
Apóstolo da ordem,
Caíste, enfim caíste! — Mas com glória!
Caíste, mas sem nódoa! Sim, caíste!
Mas Sócrates também sofreu a morte!
Qual se vê nas cidades arrasadas,
O templo solitário, esparsos bustos,
Rotas colunas, capitéis dispersos,
Combros de terra, montes de ruínas;
E no meio, inda envolta de poeira,
Uma estátua, que o tempo respeitara,
E que os olhos atrai do peregrino;
Assim te eu vejo em pé! e assim um dia
A geração futura, pesquisando
No meio das relíquias desta idade
Alguma cousa inteira, pura e bela,
Sacudirá o pó, que hoje te lançam,
E dirá: Eis aqui um Homem probo.
Mas que digo? — Ainda vives!
Envenena-se a flor, se a serpe a morde,
E a virtude definha, conculcada!
Mas tu amas a Pátria, como eu amo;
Amas com amor puro,
Sem mescla de interesse, como se ama
Uma mãe terna, que não tem tesouros,
Mas só lágrimas tem para legar-nos.
Ah! praza ao céu que a estrada em que brilhaste,
Seja aquela em que morras. [1]
Notas do autor
[editar]- ↑ E assim foi.
É qual estreito vaso o peito humano,
Que trasborda, ou se quebra, se fermenta
O veneno que encerra.
De gota em gota o fel da desventura
N'alma a tristeza vai-nos embebendo,
Té que o corpo converte-se em masmorra,
De que a alma fugir busca.
Oh! quem vê uma flor que em prado brilha,
Parecendo exalar vida, e doçura,
E rir-se em cada pétala viçosa,
Acaso dizer pode
Se ela foi pela serpe inficionada?
Se em vez de vida, a morte só lhe lavra
O delicado estame?
Quem pode ver o formigueiro oculto,
Que o humano coração rói, e lacera?
Se eu sofro, ou não, só eu, só Deus o sabe.
Mas feliz quem nos seios de sua alma
Acha uma grande idéia que o consola,
Como uma taça de suave néctar,
Que lhe acalma as entranhas sequiosas.
Quem se resigna à dor não sofre tanto.
Que veneno aí há que um bem não faça?
Ou que remédio que não cause um dano,
Segundo o caso, e leve circunstância,
Que à vista perspicaz escapa às vezes?
Não, não és tu, Filosofia humana,
Quem me robora o peito!
Sábias lições de sofrimento ditas;
Mas o valor acaso dar tu podes?
Quantas vezes o mal frustra a ciência!
Pura fonte conheço, inexaurível,
Onde sempre o infeliz adoça as dores.
Livro sagrado,
Vem consolar-me,
Vem saciar-me
Na minha dor.
Meu peito ansiado
De ti carece,
Sem ti falece
O meu vigor.
A ti recorro
Triste e sedento,
Que este tormento
Me faz gemer.
Dá-me socorro
No mal extremo,
Vem, senão temo
À dor ceder.
Cada palavra,
Que me vás dando,
É qual um brando,
Suave mel.
Já em mim lavra
A paz do empíreo;
Do meu martírio
Se adoça o fel.
Julho de 1836
AO CORONEL ANTÔNIO DE SOUSA LIMA DE ITAPARICA
Oferece o autor o Cântico de Waterloo
Quem melhor que um herói sopesar pode
As cinzas de outro herói? Quem melhor que ele
Pode dar o valor aos grandes feitos?
Tu vás a Waterloo; tu vás sentar-te
Aos pés desse leão, que as mãos dos homens
Sobre vasta pirâmide elevaram,
Para narrar às gerações futuras
Raros prodígios da potência humana.
Intrépido soldado peregrino,
Que depois de salvar Itaparica,
Guardaste na bainha a espada ufana,
E as ciências cultivas incansável;
A teus olhos, de ver insaciáveis,
Já vai a terra parecendo estreita!
Se te é grato escutar os sons da lira;
Se tu, que viste de Virgílio o túmulo,
De Horácio a casa, e a casa de Mecenas,
Podes com gosto murmurar meus versos,
Este cântico aceita, que te ofreço
Em sinal de respeito, e de amizade.
Tout n'a manqué que quand tout avait
réussi.
Napoleão em S. Helena (Memorial)
Eis aqui o lugar, onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zênite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho, ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!
Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.
O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sanguíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.
Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que co'a ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.
Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam,
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.
Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — A águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo,
Assombrando as Nações co'as largas asas,
Por que se nivelou aqui co'os homens?
Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo.
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.
Pela última vez co' a espada em punho
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio.
Mas invencível mão lhe toca o peito!
E' a mão do Senhor! barreira ingente
Basta, guerreiro! Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.
Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.
Eram os poucos, que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em Jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos.
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!
Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.
Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.
Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte.
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia o ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?
Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.
O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!
Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármore,
Onde o raio batia, e recuava!
Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!
Da Liberdade ele era o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.
18 de junho de 1836
Nascido em virgem plaga Americana,
Onde da independência o livre sopro
Os homens vivifica;
Onde de azul cetim num céu sem nódoa
Lúcido gira o disco coruscante,
Que ao vate o gênio inflama;
Sem que do medo a destra me agrilhoe,
Porém venerabundo, a mente exalço
Ao herói de dous Mundos.
Tu, da glória no céu, não dado a muitos,
Rutilas fulgurante a par de Washington,
Co'a luz que a liberdade
De seu divino rosto escapar deixa,
Qual cometa fatal à tirania.
Oh grande Lafaiete!
Oh portentoso nome! honra da França!
Nome, que no orbe cresce, como em bosques,
Altos, frondosos cedros
Nos alcantis do Líbano se elevam,
E as tormentas, e os raios assoberbam
Contra eles fulminados.
De nós aprenderão os filhos nossos
A repetir teu nome, ainda no berço,
Com inocentes lábios;
Nossos filhos aos seus, estes aos netos
Irão passando intacta esta lembrança;
Como através dos evos
As colossais pirâmides, que emblemas
São da grandeza, e da existência eterna,
Ovantes têm passado.
Mas é grande ardimento! Ave sem canto,
Longe de seu vergel peregrinando,
Em remontado vôo
Querer modular sons, cantar teu nome!
Simpática afeição, mágico impulso
A ti porém me arrasta;
E de prazer o coração no peito
Expande-se a teu nome, qual se expande,
Em perfumado eflúvio,
O doce aroma do ananás gostoso.
E tu, qual prazer sentes, quando tomas
Esse infante em teus braços?
Esse infante gentil, de heróis progênie,
Filho de Zenowiez, hoje sem Pátria
Que um Déspota roubou-lha?
Qual te anima alegria esperançosa,
Quando de Kosciuszko vês o sangue
Girar em suas veias,
E as estranhas nutrir-lhe ainda tenras?
Oh! como é grato levantar nos braços
O filho de um guerreiro,
Que malfadado sim, mas virtuoso,
Sobranceiro se mostra à sorte adversa!
Ah, praza a Deus clemente
Que por ti embalado esse menino,
Por ti n'água lavado do batismo,
Raro exemplo seguindo
De seus nobres maiores, seja um dia
O que foi Kosciuszko, e o que tens sido.
Oh! se o porvir contemplo,
Quem sabe se ainda um dia!... Mas não podem
Humanas mãos romper o véu de trevas,
Com que a Providência
Esconde a mortais olhos o futuro.
Em sibilino arrojo não pretendo
Interpretar mistérios.
Cresça o jovem Emílio sempre ao lado
Do imortal Lafaiete, e aprenda, e saiba
Amar a liberdade.
Paris, janeiro de1834
Notas do autor
[editar]- ↑ Por ocasião de batisado do filho do Conde de Zenowiez, sendo padrinho o dito general.
Nas veias o sangue já não me galopa,
Nem sacros furores nos lábios me fervem;
A lira canora do cisne Beócio
Deixei sobre a trípode.
Os risos fagueiros do Gênio da Pátria
Agora me inspiram idéias suaves.
Os vossos encantos, oh belas patrícias,
Eu canto dulcíssono.
Império das graças, oh sexo mimoso,
Vós sois o princípio da nossa existência;
Dos nossos prazeres orige' inefável;
Sem vós que seríamos?
A lua que brilha num céu azulado,
E os raios argênteos no rio reflete,
É quadro bem lindo! porém vossas faces
Têm graças mais nítidas.
Os dias que alegres convosco passamos,
São horas bem curtas, são breves instantes;
E os breves instantes da ausência saudosa
São noites bem tétricas.
O canto das aves, que soa nos bosques,
É grato aos ouvidos do homem selvagem;
Porém vossas vozes têm mais melodia
Que as vozes dos pássaros.
A rosa tem cheiro que o ar embalsama,
A rosa tem cores que esmaltam os prados;
Porém para imagem da vossa beleza
A rosa é inválida.
As águas têm perlas, o céu tem estrelas,
Os campos têm flores, a terra tem ouro;
Mas vós venceis tudo; vós sois da Natura
A obra protótipa.
Por vós afinaram mil vates as liras;
Por vós mil guerreiros à glória voaram;
E até nações cultas por vós sacudiram
Seu jugo tirânico.
Oh Anjos da terra, da Pátria ornamento,
Donzelas, esposas, e mães carinhosas,
Na luta, que temos co'o vil despotismo,
Mostrai-vos magnânimas.
Os vossos encantos de prêmio só sirvam
A quem ama a Pátria, ao sábio, e ao justo.
Deixai que ociosos, e os nossos imigos
No lodo revolvam-se.
1831
Quando o sol era o meu astro,
E a minha mente inspirava,
No enlevo do estro inflamado
Alegre a lira eu vibrava.
Co'a Grécia, e Roma sonhando,
Colhendo flores da história,
À minha Pátria querida
Hinos tecia de glória.
No fogo da mocidade,
Nessa estação da alegria,
Cantava gratas mentiras,
Amores qu'eu não sentia.
Às vezes também chorava;
E tu, oh lira pressaga,
Já teu destino previas,
E o pranto que ora te alaga.
Qual na rosa que emurchece
Seca o orvalho que a aljofrava,
Assim secou-se em meus lábios
O riso que os enfeitava.
Minha voz enrouqueceu-se,
Meu coração enlutou-se,
E o astro que me aclarava
Em densa treva nublou-se.
Antes que o sopro do tempo
Murchasse a flor de meu rosto,
A palidez já o tinge,
Causada pelo desgosto.
A folha na primavera,
Se pelo inseto é roída,
Assim perde o verde esmalte,
Assim murcha, e cai sem vida.
Deixei a prezada Pátria,
Deixei a mãe carinhosa;
Perdeu então minha lira
Sua voz harmoniosa.
Ao som das vagas do Oceano
Foi minha lira aprendendo
A suspirar quando choro,
A ir comigo gemendo.
Companheira de meu fado,
Pelo mundo vagueando,
Juntos os Alpes subimos,
Estranhas terras pisando.
Nos Alpes, como num trono
Que me alçava além do mundo,
A glória do Onipotente
Entoei venerabundo.
Entre góticas pilastras,
Arroubado no infinito,
Cantei a vida futura,
Consolo de um peito aflito.
Sentado sobre ruínas,
Achei um eco na lira;
E sobre o nada da vida,
Deu-me sons qu'eu nunca ouvira.
Entre campas, e cipestres,
Sozinho num cemitério,
Chorando a sorte de um vate,
Na lira achei refrigério.
Solitário entre os viventes,
Do mundo desconhecido,
Como a planta errante d'água
Apenas tenho vivido.
A glória, esperança vária,
Sonho falaz do acordado,
Febre que os Gênios inspira,
Só me não tem inspirado.
Amiga melancolia,
Consumidora saudade,
Vós envolveis os meus dias
Desta triste suavidade.
Em cada estação ostenta
Diverso aspecto a Natura;
Ora de cristais se adorna,
Ora de fresca verdura.
As aves também renovam
Seu canto co'a Natureza;
Tudo muda, só minha alma
Conserva sua tristeza.
Único bem qu'eu possuo,
Oh minha estimada lira,
Companheira de infortúnios.
Comigo chora, e suspira.
1836
Meus versos são suspiros de minha alma,
Sem outra lei que o interno sentimento;
E como o fumo que do fogo se ergue,
Sobem ao céu, e perdem-se nos ares.
Como o aceso turíbulo balança
Ante o altar, de incenso alimentado,
Suavíssimos perfumes exalando,
Assim minha alma oscila
Das ilusões do mundo afadigada;
E suspirando então pelo infinito,
Humilde a Deus seu pensamento exalça.
Cada pensamento meu,
Como uma baga de incenso,
Do turíbulo de minha alma
Sobe ao alcáçar do Imenso.
Eis por que ainda no da vida exílio,
Entre o véu de tristeza que me enluta
Alguns assomos de prazer ressumbram,
Como do pirilampo
Na escuridão da selva a luz lampeja;
Eis por que minha lira
Inopinados sons desliza às vezes;
Eis por que ainda para mim um riso
A Natureza enfeita;
Eis por que a noite presta-me seu bálsamo,
E na aurora que surge encantos acho.
Eco para meus suspiros
Eu acho na Natureza;
E para a voz de minha alma
Um acento de tristeza.
Ah! porventura a lira abandonada,
Que rota e muda jaz de pó coberta,
Porventura ainda vive?
A lira morre, quando mais não soa,
Morre, quando, estalando a última corda,
Evapora o seu último soluço.
Assim sou eu sobre a terra;
É minha alma como a lira,
Que morre, quando não geme;
Que vive, quando suspira.
Como vive o proscrito em riba estranha?
No pensamento apenas,
Nos quadros de sua alma, tristes quadros,
Como a noite sem lua, e sem estrelas;
Quadros nublosos, pela mão traçados
Da pálida Saudade.
Oh mundo, oh mundo, exílio de minha alma!
Vida, cruel tirano que me prendes!
O que é a vida? Um contínuo
Passar das trevas à aurora;
Cadeia que nos arrasta,
Turbilhão que nos devora.
Eis a vida!... E depois?... Mistério horrível!
Infinito, onde o espírito se perde,
Como um átomo no espaço;
Deserto, onde vagueia a fantasia,
Repouso, e asilo incerta procurando,
Como nos areais da ardente Arábia
O peregrino afadigado busca,
Para a sede aplacar, mesquinha fonte,
E um ramo que lhe abrigue os lassos membros.
Talvez que amanhã se ultime
A sentença do proscrito,
E que livre das cadeias,
Vagueie nesse infinito.
E quem sabe se a voz da Eternidade
Agora me revela,
Que este manto, que enoita a Natureza,
Como do esquife o mortuário pano,
Para sempre a meus olhos cobre a terra?
Quem sabe se ao raiar da aurora crástina,
A seu hino de vida
Um eco faltará de minha lira,
De minha alma um gemido?
Cada minuto da vida
Pode ser o derradeiro;
Da vida ao nada há um ponto,
E o homem passa-o ligeiro.
O Cisne que desliza à flor do lago,
Perlas formando co'o bater das asas,
Mudo a garganta alonga,
E só da morte a voz nela ressoa;
Como uma flauta que do tronco pende
Por amoroso voto,
Pelo vento agitada,
Embalança, e suaves harmonias
Exala de seu tubo:
Assim a voz do cisne se desata,
Pela morte inspirado;
Assim se melodia,
Para doce entoar o hino extremo.
Mas acaso sabe o Cisne,
Terno canto desferindo,
Que em cada acento que solta,
A vida lhe vai fugindo?
Companheiro do Cisne, o tenro arbusto
Que uma só vez floresce,
E quando assim se adorna, murcha, e morre,
Como no dia nupcial a esposa,
Sabe ele porventura que essas flores
São as galas da morte?
A lâmpada que expira, e um clarão solta,
Acaso sabe se lhe míngua o óleo?
O rio que no prado se resvala,
Acaso dizer pode:
Amanhã terá fim minha corrente?
E o zéfiro que brinca saltitando
Sobre as frescas corolas, sabe acaso,
Se ainda existirá no sol seguinte?
Nós acaso conhecemos
Melhor que eles nossa sorte?
Podemos dizer: este hino
É nosso hino de morte?
Eu canto como o Cisne, sem que saiba
Se é meu último canto;
Como o arbusto que brota mortais flores,
Minha alma se dilata, e aromas verte;
Como a luz que falece, e se afogueia,
Em sacro amor meu coração se inflama;
Como o rio que manso se desliza,
Como o ligeiro zéfiro que adeja,
Devolvem-se meus dias,
Como vagas do mar, um após outro,
E não sei qual será o derradeiro.
Inda um suspiro, minha alma,
Como o Cisne hoje exalemos.
Se amanhã virmos a aurora,
Novos hinos entoemos.
Cantemos, cantemos
Co'a noite, e co'o dia,
Seja nossa vida
Contínua harmonia.
Tu, que n'alma te embebes magoada,
Melancólica dor, e gota a gota
Vertes no coração tóxico acerbo,
Que entorpece a existência, e a vida rala!
Tu, tirana da ausência, que retratas
Em fugitiva sombra, em negro quadro
A imagem do passado;
Que ao filho sempre a mãe anosa antolhas,
A pátria ao peregrino, o amigo ao amigo,
O esposo à esposa; e ao malfadado escravo,
Que sem futuro pelo mundo vaga,
Mostras a liberdade, e o lar paterno;
E a cada simulacro que apresentas,
Com farpado aguilhão rasgas o peito
Do triste que te sofre;
E nos olhos sanguíneos, encovados,
Não lágrimas destilas,
Mas fel, só atro fel, bárbara, espremes.
Oh saudade! Oh martírio de alma nobre!
Malgrado o teu pungir, como és suave!
Como a rosa de espinhos guarnecida
Aguilhoa, e apraz co'o doce aroma,
Tu feres, e mitigas com lembranças.
Mas ah! o teu espinho ainda é mais duro;
E essas tuas lembranças são falaces,
Flores são que o punhal de Harmódios cobrem.
Para agora oprimir-me tudo se ergue;
Tudo agora de encantos se reveste,
Para mais agravar minha saudade.
Sítios qu'eu desdenhei, sítios que amava,
Templos que orar me viram respeitoso,
Estes céus de safira, estas montanhas
Cobertas de cocares de palmeiras,
Pais, amigos, irmãos, ah! tudo, tudo
Me está representando a fantasia,
Como que pouco a pouco quer matar-me.
Que cena há aí que mais encantos tenha,
Que ver lânguida virgem, pudibunda,
Pálida a fronte, as faces desbotadas,
Baixos os olhos, revoando a coma,
E uma terna expressão de oculta angústia
Que lavra-lhe as entranhas?
Que cena há aí que mais encantos tenha,
Que vê-la num baixel, segura ao mastro,
Suspiros exalar, longos suspiros,
Que voam murmurando, e se misturam
Co'os ventos que sibilam nas enxárcias?
De vez em quando olhar, e só ver nuvens,
Nuvens que o céu encobrem, retratando
Fugitivas imagens, que recordam
Terras da pátria; quem, meu Deus, quem pode
Resistir a tal cena?
Tu matas, oh saudade!... Às crespas ondas,
Delirante Moema,[1] e quase insana,
Por ti ferida, se arremessa... e morre...
Que não pode a mesquinha
Longe viver do fugitivo amante,
Que tanto amor pagara com desprezo.
Lindóia,[2] entregue à dor, desesperada
N'ausência de Cacambo, mal lhe soa
Do caro esposo o último suspiro,
Também suspira, odeia a vida... e morre...
E tu, Clara infeliz,[3] filha dos bosques,
Gerada entre palmeiras,
Nada pode aprazer-te, nada pode
Extinguir-te a lembrança
Da rústica cabana, onde embalada
Em berço foste de tecidas varas.
De diurnas, domésticas fadigas
Descansada, lá quando alveja a lua
Em fundo azul, mil vezes te enxergaram
Num tronco de coqueiro reclinada,
Cantar da infância tuas árias saudosas,
Árias bebidas nos maternos lábios.
Ai... minha mãe, dizias,
Ai... minha mãe... quem sabe se ainda vives!
Aldeia onde nasci, pobre cabana,
Rede que me embalavas, eu vos choro!
Oh terra do Brasil, terra querida,
Quantas vezes do mísero Africano
Te regaram as lágrimas saudosas?
Quantas vezes teus bosques repetiram
Magoados acentos
Do cântico do escravo,
Ao som dos duros golpes do machado?
Oh bárbara ambição, que sem piedade,
Cega e surda de Cristo a lei postergas,
E assoberbando mares, e perigos,
Vais infame roubar, não vãs riquezas,
Mas homens, que escravizas!
Mil vezes o Senhor, para punir-te,
Opôs ao teu baixel ondas, e ventos;
Mil vezes, mas embalde,
Nas cavernas do mar caiu gemendo.
Á voz do Eterno obediente a terra
Se mostra austera e parca,
Que a lágrima do escravo esteriliza
O terreno que orvalha.
A Natureza preza a Liberdade,
E só franqueia aos livres seus tesouros.
Oh suspirada, oh cara Liberdade,
Descende asinha do Africano à choça,
Seu pranto enxuga, quebra-lhe as cadeias,
E adoça-lhe da pátria a dor saudosa.
Oh palavras! oh língua! quão sois fracas,
Para d'alma narrar os sentimentos!
Oh saudade, aflição dura e suave!
Oh saudade, que o rosto me descoras,
Saudade, que me apertas, que nos lábios
Decas-me o almo riso,
E o pensamento meu absorves todo,
Como uma esponja o líquido, e o repartes
Co'o passado, o presente, e co'o futuro.
Oh saudade! Oh saudade!
Minhas endechas mal carpidas colhe;
Dá-me um lúgubre som, como o das vagas
Que nas praias se quebram
Sem ordem, como os meus chorados cantos;
Uma voz sepulcral, como a da rola
Que em solitária selva se lamenta;
Um acento funéreo, um eco lúgubre,
Como o eco das grotas, quando a chuva
Goteja reboando.
Ah! corram minhas lágrimas, ah! corram
A quantos meus gemidos escutarem.
Oh saudade! Oh saudade!
Pois que em minha alma habitas,
E sem cessar me lembras pais, e Pátria,
Minhas tristes endechas serão tuas,
Saudade, serei teu... Saudade, és minha.
Notas do autor
[editar]- ↑ Veja-se o Episodio de Moêma, canto VI, p. 172, do poema Caramurù de S. Rita Durão.
- ↑ Episodio do Uruguay, poema de José Basilio da Gama, canto III.
- ↑ Este caso é original.
Adeus, oh Pátria amada,
Terra saudosa, onde eu abri meus olhos
Pela vez prima ao sol americano;
Onde nos braços maternais suspenso,
O teu amor co'a vida
No albor dos anos meus fruí gostoso.
Oh margens do Janeiro,
Eu me ausento de vós com mágoa e pranto!
Adeus, brilhante céu da terra minha!
Adeus, oh serras que vinguei difícil!
Adeus, sombrias várzeas,
Que vezes passeei meditabundo.
Adeus, augustas torres
Do templo, onde lavei-me do pecado!
O som funéreo dos sagrados bronzes
Ainda vem magoar os meus ouvidos,
E n'alma despertar-me
Tristíssimas, cruéis reminiscências.
Eis ali a montanha
Cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.
Quantas vezes ali triste, sentado,
Minha alma no infinito se espraiava,
Os olhos vagueando
Sobre este mar, que deve hoje levar-me!
Sim, eu te deixo, oh Pátria;
E deixo-te lutando co'as procelas,
Que no teu horizonte se abalroam.
Ah! quanta dor o coração me punge,
Por ver alguns teus filhos,
Baldos de pundonor, como te olvidam.
Teus filhos... Ah! cubramos,
Se algum há, com desprezo o seu opróbrio.
Feras serpentes qu'entre mansas aves
Se aqueceram nos ovos, e mal nascem
Dilaceram os filhos,
E as próprias aves que lhes deram vida.
Malévolos sicários,
Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,
Já traidores alfanges afiando,
O ensejo só aguardam favorável
De ensopá-los no sangue
Daqueles a quem bens, e honra devem.
Não é pavor, nem susto
De aos pés calcado ser de intrusos Neros,
Nem de rojo levado ao cadafalso,
Que hoje arrancar-me de teu grêmio pode;
Nem a ambição me acena
Qu'eu vá mercadejar por longes terras.
Não, eu não temo a morte,
Nem dos tiranos temo a catadura;
sei firme assoberbar adversos fados;
Que o varão, que o dever toma por norte,
Sempre a Pátria antolhando,
Morte honrosa prefere à vida escrava.
Amor da sapiência,
Desejo de colher lições do mundo
Leva-me às margens do soberbo Sena,
Para, se me não for avessa a sorte,
Ante o altar da Pátria
Meus serviços prestar vir respeitoso.
A ti me voto inteiro,
Tu és o meu amor, minha alma é tua.
Só para te ofertar flores cultivo
Nos mágicos jardins da Poesia;
Se te apraz seu aroma,
Ah! como fico de prazer ufano!
Ah! praza a Deus que a nuvem,
Que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,
A cólera do Eterno não desabe
Sobre as tristes cabeças de teus filhos!
Ah! praza a Deus que nunca
Teu Anjo tutelar fuja a teus lares!
Oh Senhor, tu protejes
O povo que se vota à Liberdade;
A Liberdade é dom que nem tu mesmo
Aos homens tiras; como um mortal ousa,
Erguido pó da terra,
Eclipsar os teus dons, manchar teu nome?
Cara Pátria, sem susto
Tua fronte levanta majestosa,
Como tuas montanhas, e teus bosques!
Não sejas só no mundo conhecida
Por teus ricos tesouros,
Pelos prodígios da sem-par Natura.
Oh Pátria, ovante marcha;
Já em teu seio encerras Varões dignos
De renome imortal; não te envergonhes
De cingir-lhes as frontes, de apontá-los.
São eles que te escoram,
E que te hão de elevar à Eternidade.
As solitárias ondas
Que hoje sonoras tuas: praias beijam,
Já outrora, não pedras, não espuma,
Mas cadáveres, e sangue arremessaram,
Cadáveres, e sangue
Dos nascidos nos teus sagrados bosques.
Se inimigos ousarem,
Armados contra ti, em frágeis lenhos,
Expelir o trovão, o raio, e a morte,
Abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;
Seus lívidos cadáveres
Tuas areias juncarão de novo.
O coração pressago
Veemente palpita, e voz suave
Em meu peito ressoa, e me anuncia
Que o céu destes horrores te preserva;
O coração não mente;
A paz firmou-se em ti; seja ela eterna.
Como a enchente do Nilo
Que estendendo-se sobre a terra Egípcia,
Deixa após si fertilidade aos campos,
Assim, propicia paz, tu vivificas
O povo que te hospeda,
E por ti bafejada a indústria medra.
Como serei ditoso
Se dado ainda me for correr teus campos,
Beijar de anosos pais as mãos rugosas,
Abraçar os amigos, e arroubado
Nesse celeste instante
Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833
Choram por mim... Por mim a mãe querida
Em soluços — adeus — nem dizer pode...
Debalde balbucia; os lábios tremem,
E a dor a voz lhe embarga...
Banhado tem o rosto
De cristalino pranto, e cor de sangue
Os olhos já cansados.
Lá vejo o caro pai sisudo e grave,
A quem anos as faces enrugaram,
E a fronte encaneceram;
A mão ao filho estende, e a bênção lança:
Boa viagem, diz, boa viagem;
Deus te guie, e te traga
Na sua santa guarda,
Sempre digno de mim, da Pátria digno.
Memorandas palavras!
Palavras de meu pai... n'alma do filho
Ausente, eternas ficarão gravadas.
Ternos irmãos — adeus — me estão dizendo
Com tão fúnebre acento,
Como se eu condenado à morte fosse.
Um por um os abraço, e adeus lhes digo.
Quero partir... forcejo; os olhos cerro...
Porém a dor que o coração me preme,
Forças me tira, e me fraqueia os passos;
Em borbotões rebentam
Lágrimas, que enxugar em vão pretendo.
Que mão gelada é esta, que me embebe
Duro alfange no íntimo do peito?
Que mão desapiedada me retalha
O coração magoado?
Mão da saudade, és tu, eu te conheço.
Oh momento de ausência, como és agro!
Mais agro não me foi aquele dia
Em que co'a morte ao lado,
Quase caí do leito à sepultura.
Já brilhava a meus olhos moribundos
A luz de bento círio,
Que ante um sagrado Crucifixo ardia.
Chorava minha mãe, e seus cabelos
Sobre meu frio peito debruçavam-se.
Colocado entre o mundo e a Eternidade,
Meu ser se dividia, e ingente peso
O aflito coração me comprimia,
Como se férreos braços me cerrassem.
Ah! porque inteiro conservou-se o estame
Em luta tão cruel? E' qu'eu devia
Sofrer mais este golpe, e da existência
Não estava inda o círculo completo;
Assaz não tinha o Mundo conhecido,
Conhecê-lo devia.
Neste instante que a dor absorve todo,
Não me vigoram de um porvir brilhante
Lisonjeiras lembranças,
Sonhos falaces, esperanças loucas,
Que embriagam a mente do acordado.
Quisera aqui morrer, quisera nunca
Estranhas terras visitar, que outrora
Eu tanto cobiçara,
Antes que os pais deixar, irmãos e Pátria.
Mas uma estrela guia
A seu destino o homem.
Quem de Deus penetrar pode os arcanos?
Quem do Eterno à vontade opor-se pode?
Cumpra-se a minha estrela... E nós choremos,
Que num vale de lágrimas estamos.
Chorando nossas mães vida nos deram,
Chorando à luz nascemos, e mil vezes
Esta vida choramos, e na morte
Uma lágrima ainda se desliza
Dos revirados olhos:
Das lágrimas a fonte só se estanca,
Quando da vida apaga-se a centelha.
Pais, irmãos me rodeiam.
Onde estão os amigos? Um ao menos
Não me vem abraçar neste momento?
Um só não terei eu, que me acompanhe
Até à triste praia,
E o ósculo da amizade aí me imprima
Na hora da partida?
Eu vos conheço, amigos!
Convosco fique a paz, fique a alegria,
Venha o pesar comigo.
Caro pai, boa mãe, irmãos queridos,
Meu último suspiro vosso seja...
Adeus... adeus; eu parto.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833
Desaparece o sol, o céu negreja,
O rígido aquilão em fúrias brama,
E em cada vaga a morte armada se ergue.
Hei de eu morrer, oh Pátria,
Sem que um suspiro teu sequer mereça?
Sem que minha existência útil te fosse?
E este mar cavará o meu sepulcro?
Meu corpo rolará entregue às ondas,
Té que os marinhos tigres o devorem?
Não terei uma campa, um epitáfio,
Onde no dia aos mortos consagrado
As lágrimas de amigo se deslizem?
Eu estava tranqüilo...
Como um brando regato serpenteia
Entre florida, perfumada relva,
Ou como a lua plácida fulgura
Na abóbada celeste,
Recamada de nítidas estrelas,
Assim os dias meus se devolviam
Em suaves vigílias, brandos sonos.
Tinha um pai, uma mãe, irmãos, amigos;
Debaixo de meus passos se movia,
Sem qu'eu sentisse, a terra;
Ora de humana voz ternas cadências
As passageiras mágoas me adoçavam,
Ora coberto com dosséis de folhas,
Que em chuveiros de flores me cobriam,
Terno cantava ao som da frauta agreste
Que o sabiá simula.
Se no cume da serra a tempestade
Caliginosos braços estendia;
Se nas torres dos templos se esbarravam
Lampejantes coriscos;
Na paterna mansão, ermo de susto,
Escutava o trovão, e o hino excelso
Que entoavam meus pais venerabundos.
Oh! com que rapidez tudo se muda!
O homem nem prevê próximos males!
Aqui, neste Oceano,
Sem que sequer um só prazer desfrute,
Tudo é horror, e um vasto cemitério.
De cada lado gigantescas vagas,
Irritadas elevam-se, curvando
Sobre o navio que sem tino vaga.
Negras nuvens do sol a face enlutam;
Soltos trovões se embatem, troam, bramam;
Rijo sibila o vento nas enxárcias;
Ante a proa em montanhas espumosas
Pulveriza-se o mar, roncando horríssono;
Gemendo as vergas beijam
A onda que se empola, ou já se afunda,
Quais débeis canas que o tufão acurva.
Que horror, oh céus! Que sorte nos aguarda!
Se é nossa estrela que morramos todos,
Quero ser o primeiro
Em quem, oh ondas, sacieis a fúria.
Procuro embalde, cintilar não vejo
Santelmo de esperança;
Só vejo a morte abrir a foz medonha
Em cada vaga, que engolir promete
O lenho, surdo à voz do palinuro.
As velas ferram desmaiados nautas,
Rouqueja o capitão, soa a buzina,
Mulheres tremem, criancinhas choram,
E sobre a bomba passageiros curvos
Arquejando se afanam.
Fitas de fogo ardentes, inflamadas,
Entre rotos listões de negras nuvens,
No horizonte se estendem;
Vasto lago de sangue o mar parece;
Relâmpagos mil chovem, mil se apagam;
Raios dardeja o céu enfurecido,
E os vermelhos coriscos no ar se cruzam,
Como cipós que os bosques emaranham,
Ou qual num rio amontoadas serpes,
Curvilíneas se enlaçam, sobem, descem.
Oh meu Deus! Oh meu Deus, teus olhos volve
Sobre os filhos dos homens.
É verdade, Senhor, eles ingratos
No tempo da bonança se esqueciam
Da tua onipotência;
Ousamos, ímpios, profanar teu nome;
Mas piedade, Senhor, hoje invocamos.
Como filhos rebeldes,
Que os sãos conselhos paternais desprezam,
Zombam mesmo dos pais, e de delírio
Em delírio à desgraça se encaminham;
E quando já no poço da miséria
Lhes brada a consciência,
Então os pais invocam;
E se os pais os não salvam, ali morrem.
Tu és pai, oh meu Deus! Misericórdia!
Um sopro de teus lábios foi bastante
Para armar contra nós a tempestade;
Um sopro de teus lábios
Basta para acalmá-la.
À tua voz, Senhor, tudo se humilha,
O mar, a terra, o céu, o vento, o raio;
Fala, seremos salvos.
Amaina o vento, o mar se tranqüiliza!...
Maravilha de Deus!... As nuvens subam
A teus pés os meus hinos,
Hinos acesos nos transportes d'alma;
Voem de mundo em mundo, de astro em astro,
De Anjo em Anjo, até qu'eles se harmonizem,
E dignos sejam, oh Senhor, que os ouças.
Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!
Desaparece a morte,
Raia o sol, ri-se o céu, o mar se aplana!
Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!
Afaga-me a esperança,
Que renasce no fundo de minha alma,
Como a fênix das cinzas.
Oh Pátria, serei teu; minha existência
Ao louvor do meu Deus, a teus louvores
De ora avante a consagro.
Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?
Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.
Oh fantasia, reproduz se podes
O enérgico quadro, que meus olhos
Outrora extasiara;
As cenas reproduz de entusiasmo,
Que o coração abrasa
Como o sol quando a pino os homens fere;
Memória, hoje recorda aquelas vozes
Dos brasilenses peitos escapadas,
Como do Chimboraço ardentes lavas,
E no templo de Deus gratas soavam.
Recita aqueles hinos,
Que angélicas donzelas, varões probos
Alternos entoavam neste Dia,
Da Liberdade em honra.
Mas em vão, que nos ares embruscados
O mimoso colibri não adeja,
Nem longe do seu ninho o canto exala
O sabiá canoro.
Ah! se ao menos a dor que me alma punge,
E a existência me azeda,
Um pouco se aplacasse, e doce riso,
Filho do coração, subisse aos lábios,
Quiçá na ausência da querida Pátria
Pudesse, inda que rouco,
Mais um hino ajuntar aos outros hinos,
Com que de meu amor lhe fiz ofrenda,
Quando no grêmio seu prazer gozava.
Lá, no teu seio, a vida respirando
Tranqüilo e sossegado,
Ou no mar agitado, à morte exposto,
Ou aqui nesta plaga tão remota,
Fiel te sou, oh Pátria; não te olvido
Pelas grandezas que me ofrece a Europa.
Estes eternos monumentos d'arte,
Estas colunas, maravilhas mortas,
Estas estátuas colossais de bronze,
Estes jardins soberbos, estes templos
São belos; mas não são de minha Pátria.
Tuas virgens florestas, e teus templos
Mais me aprazem que tudo que aqui vejo.
Ah! quem me dera agora, em grato sonho
Iludido, cuidar que me revolvo
Ignorado entre os meus, entre o tumulto
Do povo que no rosto traz impressa
A glória deste Dia!
Quem me dera que os meus rústicos hinos
Por ele ouvidos fossem,
E por ele aplaudidos
No delírio do sacro amor da Pátria!
Oh! como é doce memorar os tempos
Da passada alegria!
Como é doce escutar ternas cadências
De branda voz de pudibunda virgem,
Quando fora da terra a alma vagueia
No celeste infinito!
Mais doce é celebrar os claros feitos
Dos seus concidadãos, e unido a eles,
Beber na mesma taça o entusiasmo,
E no divino arroubo
Os céus congratular, render-lhes graças!
Aqui da Liberdade repetido
Não soa o mago acento em meus ouvidos;
Nem o auriverde pavilhão tremula,
Imagem das riquezas
Da terra minha, fértil, abundante;
Nem o canhão ribomba, que assinale
Que este Dia ao Brasil é consagrado.
Só o estridor ressoa
De turbulento povo, indiferente
Da Pátria minha à glória.
Dia da Liberdade!
Tu só dissipas hoje esta tristeza
Que a vida me angustia.
Tu só me acordas hoje do letargo
Em que esta alma se abisma,
De resistir cansada a tantas dores.
Ah! talvez que de ti poucos se lembrem
Neste estranho país, onde tu passas
Sem culto, sem fulgor, como em deserto
Caminha o viajor silencioso.
Mas rápidos os dias se devolvem;
E tu, oh sol, que pálido me aclaras
Nestas longínquas plagas,
Brilhante ainda raiarás na Pátria,
E ouvirás meus hinos
Em honra deste Dia, não magoados
Co'os fúnebres acentos da saudade.
Não posso duvidar, nem tu duvides;
Há uma estrela que ao porvir nos guia,
Malgrado as ondas do inconstante mundo.
Os destinos dos homens são patentes
Da Providência aos olhos,
Pois que aos olhos de Deus não há futuro;
Duvide embora o ímpio.
Com insolúvel nó a ti me liga
Sagrada, oculta força.
Fitos na Pátria os olhos, sempre avante,
Araújo, marchemos.
Amamo-nos; que importa Grécia, e Roma
Vás ver sem mim?[1] Assim 'stá destinado.
Na Pátria de Platão, e de Lionides,
De Rafael na Pátria
Não, não te esquecerás do teu amigo.
Vai; sapiência colhe em solo estranho;
Depois conosco pródigo reparte.
Assim de flor em flor errante abelha
O néctar frui, que em mel ofrece aos homens;
Assim de gotas pluviais se embebe
O ancho seio do monte,
Que em límpidas correntes depois mana.
Vai; ao Parnaso sobe; aí meu nome
Entoa para o céu, e atento escuta;
Se os ecos responderem,
Junto do nome teu meu nome grava
No mármore que achares.
Ah! lembra-te de mim quando de Tasso
Visitares o cárcer.
Quando do longo meditar cansado
Estiveres de Roma nas ruínas;
Quando só passeando n'Ápia estrada,
Ou da morte os segredos contemplando
Dos Mártires Cristãos nas catacumbas;
Quando ouvires soar de amigo o nome,
De mim te lembrarás, dirás contigo:
Quem sabe se por força da amizade,
Em mim pensa ele agora, como eu nele?
Vai; teu gênio alimenta.
Breves os dias são, os anos breves,
E dos filhos dos homens breve corre
A vida afadigada,
Como nos ares rápido meteoro.
Ah! quanto a missão custa
Cumprir na terra, onde atalaias somos!
Na começada empresa
Somente ao fraco arrepiar é dado;
Não se releva ao campeão donoso,
Que desde o albor da idade
N'alma ferveu-lhe em turbilhões o engenho,
Que lhe inspirara a Pátria.
Enganados num dia os mortais podem
Às mãos de um néscio confiar o mando,
Com que depois os curva;
Podem coroas repartir, e cetros,
E púrpuras reais, e tit'los nobres;
Podem rolar seus ídolos dos tronos,
Tomar os louros que iludidos deram;
Mas tu, raro no mundo, dom sublime,
Gênio, quem te reparte?
Deus só, Deus só te envia a seus diletos.
Gênio, filho de Deus, fogo celeste
Baixado à terra em prol da Humanidade!
Aquele em cuja fronte resplendeces,
Cujos lábios inflamas,
Um Homero será, Platão, ou Fídias,
Radiantes padrões, astros de glória,
De estrelas escoltados,
Que como o sol, do oriente ao ocidente,
Giro farão eterno.
Sinal em tua fronte tens do Gênio;
Não pertences a ti, tu és da Pátria.
Com teus pincéis divinos
Deves seus feitos esmaltar, preclaros;
Eu a teu lado cantar-lhe-hei a glória.
Unidos, sempre amigos, sempre à mesma
Vontade obedecendo,
Que doce nos será então a vida!
Tempo, tempo, não voes; Pátria, aguarda;
Araújo, marchemos.
Notas
[editar]- ↑ Mal sabia eu, escrevendo estes versos e preparando-me para dar o abraço da despedida ao meu amigo, que as circunstâncias tão repentinamente se mudassem, e que deixaria Paris, para acompanhá-lo na viagem à Itália. Como ignora o homem o que tem de fazer no dia seguinte! É esta uma das fases de minha vida que eterna ficará na minha lembrança; e estes versos me despertarão sempre essa triste recordação; triste pelas circunstâncias que motivaram a viagem.
Amigo, eu parto, e deixo-te saudoso.
Pois que sempre tua alma bem formada
Minhas vozes ouviu, vozes sinceras;
Pois que sempre os conselhos da experiência
Com prazer escutaste,
Inda que às vezes duros;
No momento do adeus recebe, atende
Esta, de amor, não lisonjeira prova.
É qual sereno rio a mocidade,
Que as imagens retrata, e não conhece
O bem, e o mal, e as ilusões do mundo:
É como verde, flácida vergôntea,
Que a forma toma que o cultor lhe imprime,
E boa, ou má, não mais depois se muda.
Quem, como tu, da Pátria longe vive,
Longe dos paternais, úteis ditames,
Assaz tem que lutar, se à glória aspira.
Filósofos não faltam que te instruam;
Mas da vida, nas páginas de um livro,
Não se aprende a ciência.
Estuda, sim estuda, mas pratica
Dignas ações de ti; e eu te asseguro,
Pois que a Natura te protege, e inspira,
Qu'inda um dia serás brilhante estrela
Entre os astros que a Pátria nossa adornam.
A Deus praza que a Pátria não iludas,
E os votos de teus pais, e dos amigos.
A todo o instante que este livro abrires,
Lendo estes versos, dize: hei um amigo.
Sim, a custo te deixo, augusto alcáçar
Do progresso, da luz, da liberdade.
Vivífico remanso, onde perene
Bebe o estrangeiro quanto apraz à mente,
Do néctar das ciências sequiosa.
Sim, com justa razão te ornas de orgulho,
Pátria de heróis, refúgio de infelizes,
Vítimas do erro, que ainda a Europa preme
Com cem braços de ferro; fugitivos,
Em teu grêmio cabal abrigo encontram.
Mãe desvelada não mais pronta acode
Com bondadoso peito ao tenro infante.
Qual da torrente que de alpestre fraga
Jorrando em catadupas marulhosas
Se ala equóreo vapor que o campo orvalha,
E em rios dividindo-se, e em regatos
A longes terras nutrimento envia;
Assim os sábios, que em teu seio abundam,
Manam nome, e saber aos outros povos.
Para teatro de espantosas cenas
Teu solo assinalou a Providência.
Aqui rompeu esse vulcão terrível,
Que o mundo inteiro alumiou co'as lavas,
E à fileira dos reis alçou os homens;
Aqui o rei dos reis, terror da Europa,
No trono colossal, firme no povo,
Honras, louros, e cetros repartia.
O jugo antigo, que a razão curvava,
Quebrou, em ti nascido, esse Descartes, [1]
Que por novo teor, método novo,
Sublime estrada abriu à Inteligência.
Malebranche o seguiu, também teu filho.
As boas Artes, do progresso amigas,
Filhas da Liberdade, irmãs da glória,
Foragidas da Itália, atravessaram
Alpes, e Reno, em ti seu templo ergueram.
Paris, citar teu nome é pôr remate
Aos elogios teus; eu te venero.
Lições em ti frui; como eu mil outros
Brasileiros, que a Pátria hoje adereçam,
Em ti juvenis passos amestraram.
Da sapiência o brilho ofusca o do ouro;
Só de alma estreme a gratidão é paga;
Grato te sou no tributar encômios
Não lisonjeiros, que a verdade os sela.
Arando o crespo Oceano, à Pátria minha
As ciências passaram triunfantes
Do santuário teu, nas mãos levando
O archote da razão; ali brilhante
Luz difundindo, as trevas sacudiram,
Que em nossos horizontes negrejavam.
No facundo clarim soa a Verdade;
Então do avaro Lusitano as peias,
E as erguidas barreiras rotas caem,
Quando Montesquieu, Rousseau troando,
As cidades, e os campos repercutem.
Assim de Jericó outrora os muros,
Das Hebréias trombetas sons ouvindo,
Caem aos pés de Josué submissos.
Então pautando os seus pelos teus passos,
Mais e mais o Brasil terreno avança
Na escala das Nações, que no orbe avultam.
Como da lira consoante vibra
Uma corda, quando outra foi ferida,
O Brasil teus triunfos aplaudindo,
Co'as tuas explosões harmonizando,
Assim empeços vence, e igual triunfa.
Oh Brasil, porventura lisonjeiro
Serei no meu dizer? Donde te veio
A Ciência das Leis, a Medicina,
A Moral, os costumes que hoje ostentas?
Quem te ensinou a perscrutar teus campos,
A pesquisar segredos, que a Natura
Em cada verme, em cada flor oculta?
Quem teu gênio subiu ao firmamento,
E os mistérios dos astros revelou-te?
Quem a tela, de cores matizando,
Mostrou-te retratada a Natureza,
Teus heróis, tua história, teus costumes?
Responda a gratidão. — Avulta, oh França!
Marcha, prospera; e tu, Brasil, prospera;
Estes meus votos são, outros não tenho.
Um povo sempre é filho de outro povo;
Um homem sem cultura não avança;
Sem ensino os espíritos não brilham.
Quem, Paris, sem amar-te pode ver-te?
E quem pode deixar-te sem saudade?
Ah! não beberei mais as eloqüentes
Lições, que me apraziam, de teus mestres!
Não verei mais teu Louvre apinhado
De maravilhas tantas! Teus colégios,
Onde vozes troavam sapientes!
Ainda a mente me pinta os de Sorbonne
Vastos anfiteatros coroados
De atenta juventude! — Tudo deixo...
Ah! deixo ainda mais, deixo um amigo,
Que raros são, e que tão poucos tenho!
Sabes com que pesar te deixo, oh Sales! [2]
Companheiro da infância; às portas, juntos,
Da Ciência batemos; ela ouviu-te,
Abriu-te, e franqueou-te os seus tesouros.
Ainda jovem, da Pátria és já um astro,
Que no seu horizonte alto rutila;
Eu mísero, fosfórico meteoro
Sem nome vago. — E morrerei sem nome?
E tu, pintor dos brasilenses bosques,
Tu, que em quadros multíplices ao mundo
Nossos costumes eloqüente mostras; [3]
Venerando Ancião, amigo, e mestre,
Por quem já uma vez chorei saudoso,
E tu também choraste; hoje de novo
Se reproduz tal cena; mas ao menos
Tu ficas no teu lar, co'os teus, e eu parto,
Parto, não para o meu. Debret, teu nome
Comigo eterno irá, como ele eterno
Passará de uma idade à outra idade.
Adeus, Paris; adeus do mundo empório.
Adeus, Sales, Debret, adeus... Amigo,
Que ao teu o meu destino unir quiseste,
Hoje a minha saudade igual te punge;
Não agravemos mais nossos pesares;
Vamos, meu Araújo; é tempo, vamos.
Notas do autor
[editar]Tal como o caçador afadigado,
Depois de em vão correr ingratos montes,
Se alfim vê belo pássaro que pousa
Sobre um tronco do bosque,
Alegre e duvidoso a arma prepara;
E quando cuida já que é presa sua,
Manso o vê que se escapa, e que desliza
Nos leves ares co'as talhantes plumas,
Triste, desesperado à casa volta:
Ou como terno amante, que de longe
O bem-amado avista, passeando
No jardim de seus pais; contente investe,
Já em doces idéias engolfado;
E quando perto chega,
E cuida ir desfrutar gratos momentos,
Ela modesta e temerosa, os olhos
Brandamente volvendo, se retira,
E o malfadado deixa
Entregue à dor, carpindo-se saudoso;
Assim eu, oh belíssima Suíça,
Vi teus montes, teus bosques de pinheiros,
Teus campos férteis co'o suor dos homens;
Vi teu lago tranqüilo, onde se espelha
De cima desse trono de alabastro, [1]
O sol, mal que amanhece faiscante.
Assim jovem guerreiro de ouro armado,
No polido pavês atento se olha,
E contempla seu garbo, antes que saia
A discorrer os campos, coruscante.
Vi a tua cidade de Genebra,
Tão linda como o lírio junto d'água,
Tão graciosa como pura virgem,
Que a roca empunha, e que meneia o fuso.
Vi-te, e meu coração portas abria
Ao prazer fugitivo,
Que mais ligeiro corre que o teu Ródano.
Alma alegria a mente me orvalhava,
Tão seca de pesares;
E a saudade da Pátria que me punge,
Como que adormecida, menos dura,
A farpa descansava.
Esquecido de mim, do meu destino,
Começava a gozar-te; — e já me foges!
Mas se tu de meus olhos disapareces,
Desenhada na mente a imagem tua,
Jamais consentirei que se esvaeça.
Oh Suíça, oh Genebra, oh país livre!
Culta Cítia da Europa, solo honrado
Pelos Euler, Rousseau, Haller, e Géssner,
Recebe inda este adeus de um estrangeiro;
E praza ao céu que o último não seja,
Que a ti volte, e te veja uma, e mais vezes.
Genebra, 11 de outubro de 1834
Notas do autor
[editar]- ↑ O Monte Branco.
À Senhora Catalani
Sim, é certo; a Natura não se esgota;
Mas providente de seu seio tira
Um a um esses Gênios, que benigna
Co'os séculos reparte;
Assim, sem fatigar, encômios cobra,
E co'a força do mágico artifício
Os homens doma, os encadeia, e guia.
Dos Gênios a importância se conhece
Quando, enchendo a missão, desaparecem.
Se os rios as campinas fertilizam,
Os lavradores folgam;
Mas extintas as fontes d'alma veia,
Atenuam-se os campos,
E a Natureza em torno empalidece;
Aos pedregosos, descobertos leitos,
O homem chega, e d'água uma só gota,
Para a sede aplacar, não acha, e chora;
Mas lágrimas a sede não saciam!
Então do bem se lembra que gozara,
Do bem que já não goza.
Quem não respeita o Gênio? Quem não sente
Bater-lhe o coração inopinado,
Quando escuta os angélicos acentos
Do ser misterioso,
Que a Natureza inspira?
Na culta Grécia, na guerreira Roma
Endeusada a Harmonia cultos teve;
Entre bárbaros povos, Galos, Francos,
Celtas, Bretões a música divina
Os cruentos costumes adoçava.
Nos Brasílios sertões, duros Tamoios,
Intrépidos Caités ao som se curvam
Da harmonia selvagem;
Como divinos, de Tupã mimosos,
Seus músicos respeitam.
A iluminada Europa
Não desdenha entoar sagrados salmos
No Templo do Senhor; atado ao remo
O pescador ao som das vagas canta,
Canta o proscrito sobre estranhas plagas,
E o peregrino em solitárias selvas.
O canto maternal o infante acalma,
E a cólera dos homens se desarma,
Quando escuta suave melodia.
Eis em campo o guerreiro;
Como brioso marcha, quando troa
A bélica trombeta!
Patrióticos hinos entoando,
Sente para o valor estreito o peito.
Entre selvas de lanças, e de espadas,
Coberto co'uma abóbada de fumo,
Através de pelouros sibilantes,
Assoberbando a morte,
Vai nos braços da glória
Arvorar os pendões vitoriosos!
Na guerra hinos guerreiros,
Na paz canções de amores!
Tanto, oh música, podes sobre os homens,
Que em toda parte imperas!
Sim, que os Anjos, os céus, o sol, os mares,
Os vales, as montanhas, as florestas,
Aves, brutos, e homens,
E essas centenas de milhões de mundos,
Que cadentes vagueiam no infinito,
É um sistema harmônico, perpétuo,
Em glória do Supremo Ser dos seres!
Rara mulher, tu viste humildes servos
Deporem a teus pés dons preciosos,
Que os Reis, e os Potentados te enviavam.
Tu viste os próprios Reis, e seus validos,
E deles homenagem recebeste.
Viste os povos da Europa arrebatados
Aqui e ali ao som de teus acordos,
Que embebiam nos seios d'alma o encanto.
Viste, sim viste inúmeras coroas
Lançadas a teus pés; e prosseguias
Ufana a deslizar as sibilinas
Dulcíssonas cadências.
Eis do Gênio o triunfo!
Glória ao Gênio se dê, perene, eterna!
Sobre um leito de rosas, e de louros,
Hoje repousas, não no esquecimento,
Mas no arroubo da glória:
Como o guerreiro que na paz desfruta,
Vendo os despojos dos vencidos povos,
Grata consolação que a alma embriaga.
Tudo o que te rodeia manifesta
Teu imortal renome.
Altares te ergueria a prisca Grécia,
Se a prisca Grécia te embalasse o berço.
Da própria filha tua a voz canora,
Voz que tão alto sobe, e já promete
Outro novo milagre de harmonia,
Também te louva, e exalta;
Que se o nome dos pais herdam os filhos,
A glória filial os pais sublima.
Ah! não desdenhes receber louvores
Do peregrino incógnito, que passa
Por estrangeiras plagas
Sem arruído, como o mudo sopro
Das matutinas, solitárias auras.
Mil vezes proferir ouvi teu nome
No novo, e velho mundo, e jamais pude
Augurar-me a ventura
De te ver, de te ouvir, e mais ainda,
De receber de ti sinais de estima.
Longe da Pátria o viajor saudoso
Bem raras vezes o prazer encontra.
De cidade em cidade andado tenho,
Reinos atravessei, cantões, e vilas,
Vinguei gelados Alpes, e Apeninos,
Vales desci sombrios, subi torres,
Sempre co'a Pátria minha na lembrança;
Como a andorinha que de teto em teto
Salta, sem que se esqueça de seu ninho.
Tudo da Pátria a idéia me revive,
Mas nada me consola;
Em parte alguma não achei ainda
Um coração de pai, de mãe, de amigo,
Que vendo-me partir, pesar sentisse,
E ao menos me dissesse: — Deus te guie.
Sublime Catalani, tu me honraste!
Talvez única sejas, que te lembres
Do peregrino errante,
Quando ele, já na Pátria rodeado
Dos velhos pais, de irmãos, e dos amigos,
Refrescando a memória das viagens,
Entre, os que viu, prodígios,
Cheio de comoção, citar teu nome,
E dizer: eu a vi; falei com ela!
Pago ao Gênio um tributo merecido,
Que a gratidão me inspira;
Fraco tributo, mas nascido d'alma.
Florença, 20 de novembro de 1834
Um mundo oculto, mais real, mais belo
Que o mundo exterior, nossa alma encerra.
Aí a fantasia, hábil pintora,
Ora mil quadros reproduz da terra,
Ora de outros mil quadros criadora,
Quadros de alma doçura,
Instantes nos outorga de ventura.
Oh fantasia, oh único refúgio
Do mísero proscrito!
Tu, para consolar o peito aflito,
Os passados prazeres nos retratas;
As pandas asas das prisões desatas,
E pelos pátrios ares deslizando,
Que sublimes visões nos vais pintando!
Oh! se é belo, sentado à sombra amiga
Do pátrio cajueiro
De frutos esmaltado,
Onde o saudoso sabiá se abriga,
Onde pousa o colibri, e o gaturamo;
Se é doce ouvir terníssimo reclamo
Do lindo coro alado,
Da aurora pregoeiro,
Que à celeste mansão nossa alma eleva
Quanto é mais belo, ausente,
À parca sombra do álamo estrangeiro,
Ouvindo o rouxinol cantar amores,
Da Pátria então lembrar-se,
Lembrar-se de um parente,
De um amigo da infância, de um remanso,
Onde, fruindo o aroma de mil flores,
Ao som estrepitoso da corrente,
Tantas vezes achamos o descanso
Às infantis fadigas!
Oh! como é doce então a alma engolfar-se
Nas cenas do passado!
Tudo vem ante nós apresentar-se
Nesse querido instante!
Nossa alma, entre mil cenas delirante,
Ouve a voz da saudade que murmura;
A saudade, a saudade,
Esse triste prazer que não se explica,
Agro prazer de um coração magoado,
Prazer que se mistura
Com dor, com aflição, saudosa angústia
Que nos punge, nos rói, nos vivifica.
Assim nestas estranhas, longes plagas
Se nos antolha a Pátria!
E por ela em cada inverno
De contínuo suspiramos,
E mesmo na primavera
Inda dela nos lembramos.
Cada quadro nos desperta
A cadeia interrompida
De gratas reminiscências
Da nossa passada vida.
Assim, assim um dia,
Já sob o céu Brasílio,
Como um sonho, da Europa a bela imagem
Ressurgindo na nossa fantasia,
Despertará saudades deste exílio.
Então entre mil cenas divagando,
Do passado as idéias refrescando,
Ante nós se erguerá também Bruxelas,
Seus parques, seus jardins, e as torres belas
Dos seus templos, e góticos palácios.
Então, talvez então, vendo este livro,
Que quadros vos recorda tão diversos,
Vos lembrareis do errante, jovem vate,
Que estes versos traçou, saudosos versos.
Os gratos dias,
Que aqui gozei,
Ante minha alma
Sempre os terei.
Os inocentes,
Gratos penhores,
Anjos da terra
Encantadores,
Que tantas vezes
Eu afagava,
E em grato enlevo,
Os abraçava;
Esta harmonia
Do par ditoso;
Em vós beleza,
Amor no esposo;
Candura em todos,
Terna bondade,
Dotes sublimes
Da Divindade
Jamais minha alma
Olvidará,
E de vós sempre
Se lembrará.
Bruxelas, 21 de junho de 1836
Adeus, oh terras da Europa!
Adeus, França, adeus, Paris!
Volto a ver terras da Pátria,
Vou morrer no meu país.
Qual ave errante, sem ninho,
Oculto peregrinando,
Visitei vossas cidades,
Sempre na Pátria pensando.
De saudade consumido,
Dos velhos pais tão distante,
Gotas de fel azedavam
O meu mais suave instante.
As cordas de minha lira
Longo tempo suspiraram,
Mas alfim frouxas, cansadas
De suspirar, se quebraram.
Oh lira do meu exílio,
Da Europa as plagas deixemos;
Eu te darei novas cordas,
Novos hinos cantaremos.
Adeus, oh terras da Europa!
Adeus, França, adeus, Paris!
Volto a ver terras da Pátria,
Vou morrer no meu país.
Paris, agosto de 1836
- Obras com versão para impressão
- Suspiros Poéticos e Saudades
- Texto rubricado pelo autor em 1836
- Texto rubricado pelo autor em 1835
- Texto rubricado pelo autor em 1834
- Araújo Porto Alegre
- Poesia brasileira
- Romantismo brasileiro
- Gonçalves de Magalhães
- Texto rubricado pelo autor em 1831
- Texto rubricado pelo autor em 1833