Dicionário de Cultura Básica/Utopia

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Utopia


UTOPIA (Eldorado, Platonismo, Comunismo, Cristianismo) → EspaçoIdade de Ouro

Os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos (Marcel Proust)

Do grego ou ("não") + topos ("lugar"), utópico significa o Espaço que não existe na realidade, o lugar da imaginação, do sonho, do desejo. Assim, utópico era o Olimpo para os deuses e o Parnaso para os poetas pagãos, como é hoje o Paraíso para cristãos e maometanos ou "Pasárgada", o espaço fantástico do grande poeta Manuel Bandeira. Espaço utópico era também o Eldorado (El + Dorado = "o homem dourado"), um rei que governava uma cidade repleta de pedras preciosa, conforme a imaginação dos índios do Equador, na época da colonização espanhola, ao redor de 1530. Neste sentido, o conceito de Utopia está relacionado com o mito da existência de uma "Idade de Ouro", que perpassa toda a humanidade na sua ânsia de busca da felicidade neste mundo. Mas é preciso distinguir a utopia como sonho do "passado", que se encontra no Oriente (a doutrina taoísta) e no Ocidente, como está descrita em Os Trabalhos e os Dias do poeta grego Hesíodo, nas Geórgicas de Virgílio e nas Metamorfoses de Ovídio, de uma utopia do "futuro". Esta está centrada na crença na possibilidade da existência de um governo ideal, justo e igualitário, que propicie ao povo, como um todo, gozar de uma vida feliz, sem violência, sem desemprego, sem nenhuma forma de opressão civil ou religiosa.

O primeiro sistema político, que pode ser considerado utópico, está registrado no diálogo República de Platão que, retomando o tema de uma obra homônima de Antístenes, o fundador do Cinismo, imagina um Estado onde o poder político estaria separado do poder econômico (esta conjunção torna a corrupção inevitável!). A república platônica seria governada por filósofos, protegida por soldados e sustentada pelos trabalhadores. Os membros das duas primeiras categorias não deveriam possuir bens, vivendo em habitações austeras, sem portas ou paredes, dedicando-se exclusivamente ao governo e à defesa da cidade. A educação das crianças seria confiada ao Estado, abolindo-se o casamento. Existiria liberdade sexual, igual para homens e mulheres, mas o governo deveria estimular as relações entre jovens sadios e inteligentes, proibindo o sexo entre seres deficientes ou medíocres. Tal regime comunista, discriminatório e "aristocrático", não deixa de ser uma forma de "eugenia" (→ Hitler).

Cristo veio pregar um socialismo fundado no amor ao próximo, às crianças, aos pobres, aos doentes e necessitados. Mas a pregação evangélica não deixa de ser, também ela, utópica, pois o egoísmo individual e de grupos é mais forte do que o sentimento da caridade. Haja visto que, passados dois milênios, a doutrina de Jesus ainda está para ser posta em prática. No Renascimento, com o questionamento dos valores medievais, voltam a aparecer doutrinas utopistas. A obra fundamental é, sem dúvida, a Utopia ou o "Tratado da melhor forma de Governo" (1516), de São Thomas Morus, humanista, jurista, chanceler da Inglaterra, canonizado, em 1935, por ter sido reconhecido mártir da Igreja Católica, pois foi cruelmente assassinado por não reconhecer a legitimidade do casamento de Henrique VIII com a concubina Ana Bolena e por não aceitar o Anglicanismo (→ Lutero), ficando fiel à Igreja de Roma. Morus, em sua obra, imagina uma ilha desconhecida, habitada por homens que vivem felizes, pois governados por um Estado democrático, com base num socialismo econômico e na tolerância religiosa. Por baixo do véu da fantasia, de uma forma alegórica, Thomas tece uma profunda crítica ao sistema social da maioria dos estados europeus, especialmente o da Inglaterra. A ficção do pensador santificado está entre as utopias críticas que visam despertar a consciência sobre as injustiças do mundo. Ele condena o mercantilismo baseado apenas no lucro, a aristocracia inoperante e os interesses espúrios das seitas religiosas. Quase um século depois, em 1602, vem à luz a irmã gêmea da Utopia de Morus, a Cidade do Sol do monge calabrês Tommaso Campanella, que sonha com o advento de uma "Monarquia Universal", sob o manto do rei da França, pela conversão de todos os povos ao Cristianismo. Campanella confessa abertamente que a fonte de sua obra é a República de Platão e a Utopia de Thomas Morus. A maior diferença está no fato de que ele acredita na possibilidade de realização do sonho de vida social comunitária. Mas também sua Cidade é totalmente fantástica, com toques de Futurismo. Colocada na ilha de "Topobrana", no oceano índico, construída por hindus que lá se refugiaram para fugirem dos ladrões, constitui um microcosmo da configuração planetária na abóbada celeste, governada pelo Grande Metafísico Hoh, assistido pelos triûnviros Pon (Potência), Sin (Sabedoria) e Mor (Amor). Ao redor desta ilha maravilhosa, os navios se deslocam sem vela nem remos e máquinas voadoras cruzam o céu. Os solarianos praticam uma religião natural, trabalham 4 horas por dia, tendo tempo para ler, dialogar e se divertir. As refeições são comunitárias, os alimentos sendo orientados por dietistas. Homens e mulheres têm direitos e deveres iguais, sendo permitida a prática livre do sexo com 19 anos e com assistência do magistrado Amor.

No Romantismo, crescem ainda mais as influências das narrativas de viagens sobre o mito da cidade igualitária, sobressaindo a figura de Jean-Jacques Rousseau, que leva ao apogeu a lenda do "bom selvagem". Quase juntamente às utopias românticas, começam a proliferar várias teorias de fundamento político-social: Saint-Simon, Robert Owen, Charles Fourier. Mas a única utopia social que conseguiu sair do papel e colocada a funcionar, foi a comunista, idealizada por Karl Marx, que estourou na Revolução Bolchevique, em 1917, quando Stalin e Lênin deram origem ao o império da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), substituindo a Rússia czarista. Mas, no Natal de 1991, após 74 anos de domínio comunista, os cidadãos de Moscou e do mundo inteiro assistiram, pela televisão, à baixada da bandeira vermelha com a foice e o martelo. A queda do Comunismo russo demonstrou que nenhuma utopia social pode perdurar e fortificar-se, quando imposta pela violência e pela opressão, e que qualquer poder ditatorial induz à corrupção, provocando sua própria ruína. Mas, citando Oscar Wilde,

"um mapa-múndi que não inclui a utopia não merece um olhar sequer,
por deixar de fora um país no qual a humanidade está sempre aportando".