Anexo:Imprimir/Echos de Pariz

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Eça de Queiroz

 
ECHOS DE PARIZ
 
Decus in Labore - Livraria Lello.png
 
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1905

ECHOS DE PARIZ

Monumento a Eça de Queirós (Teixeira Lopes, 1903).jpg
 
Monumento erigido a Eça de Queiroz

Obra do eminente esculptor

Teixeira Lopes


Eça de Queiroz

 
ECHOS DE PARIZ
 
Decus in Labore - Livraria Lello.png
 
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1905

I

Pariz e Londres — O anniversario da Communa — Flaubert

 

Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco regato que vae cantando por entre as relvas altas.

Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta opinião do romanesco auctor de Tancredo e da Guerra do Afganistan: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as creações da Arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés — e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se d’ella, onde ella é mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais episodica, — em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d’arte, trajos e architecturas...

...Em Roma contempla os ornamentos do passado — o Colyseu e o Papa; em Madrid interessam-n’o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que palpita ao centro.

Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma paizagem accessoria — a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d’uma grandeza exuberante; — mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n’um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias sensações.

O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n’um rumor de fim de dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o melhor espectaculo para o homem — será sempre o proprio homem.

Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o valle — a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d’um peito, d’um coração vivo.

Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.

O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza — é-lhe indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, algum panorama — a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois d’elle, o que estraga a belleza de Lisboa é a presença do lisboeta — como a mim o que me estraga a Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade — a de Pariz e de Londres.

Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os regulamentos de policia até á vitrine dos joalheiros, dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de Jerusalem foi o can-can de Bella Helena, e sahiu da habitação de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba sagrada.

O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do Times. O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.

Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para lá — dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas de um portico.

É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em Londres, desde as revoluções até ás toilettes, desde os poemas até aos escandalos.

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em Pariz.

Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.

E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e Londres ensinam tudo.

Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico — creio que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e patria genuina de Mr. Prudhomme...


✻ ✻ ✻

O acontecimento saliente e commentado d’estes ultimos dias é a manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n’essa data, na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de Versailles, invadindo Pariz, n’uma demencia de represalias, fizeram uma exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr de batalha na face.

Trinta e cinco mil pessoas fôram aniquiladas n’esta S. Barthelemy conservadora, n’esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e flammejante Moloch.

Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.

Os annos passaram, e os vencidos d’então são hoje cidadãos formidaveis, armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições.

No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n’uma vasta procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre valla onde apodrecem os seus mortos.

O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou promettendo concessões ao velho mundo communard a troco da desistencia d’esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto sangrento — conseguiu que n’esse dia a massa communista ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d’agua, assim de toda aquella população que devia descer dos faubourgs apenas se viram pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram vermelhas.

Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a sua corôa sobre a herva verde, um sergent de ville precipitava-se, verificava de sobr’olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um governo forte e contundente...

Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam a religião e os seus ceremoniaes?

O mais illustre jornal do partido, o Mot d’Ordre, descrevia ha dias uma festa no Sacré Cœur n’estes termos phantasticos: «Hontem havia no Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um anniversario de morte — da morte que não deve ser para elles mais que uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta de symbolos saudosos...

Mas, mais estranho que tudo é a influencia do vermelho no animo da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.

Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre corôa de perpetuas tingidas de vermelho?

Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia d’aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria generosamente permittido a manifestação saudosa...

Logicamente, pois, uma rapariga que passe no boulevard com duas rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á constituição.

Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o bom Deus!

Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!

Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em meeting com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d’Hyde-Park; e, finda a hora do meeting, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n’um receio que a forte republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!

Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...


✻ ✻ ✻

Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama Gustavo Flaubert e é o auctor da Madame Bovary e da Educação Sentimental — quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso artista, um dos maiores d’este seculo, nos é estupidamente arrebatado no espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.

Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n’uma forma mais viva, mais pura e mais forte.

As suas creações — Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos rendez-vous.

Madame Bovary é hoje uma obra classica — e de certo o seu melhor livro. Quem a não conhece e a não relê — essa historia profunda e dolorosa d’uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d’aspirações de prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n’um carcere social, correndo a esgotar d’um sorvo todas as sensações e voltando d’ellas mais triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por alguma cousa de melhor, e arrastando uma existencia minada d’esta enfermidade incuravel — o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si mesma!

Na Educação Sentimental, concebe esta ideia de genio: pintar n’uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta d’um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a difficuldade de governar a democracia...

Salammbô é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na Tentação de Santo Antão, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d’asceta, e attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.

Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade de admirar sinceramente; era d’estes a quem um bello verso, uma figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo burguez.

Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, o seu centro, a sua regra. Vivia n’ellas como n’uma cella, alheio aos rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu á luz dos ceus.


II

Os Duellos — A amnistia — Gambetta — Rochefort — Os Jesuitas

 

Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.

Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam sobre a questão da Polonia, ou divergiam á cerca de Jesus Christo — um considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem importancia — corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de Bolonha.

Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d’onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletot.

Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e dandies é abundantemente deteriorada.

Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do Voltaire, com o conde de Dion; duello de Fronsac, do Gil Blas, com o principe de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do Mot d’Ordre; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e o cotovello!

Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».

Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, as phrases celebres do mestre: — Deus é o mal! A propriedade é o roubo! Queremos a liquidação social!

A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes n’uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, revolta e côr d’estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho perfido, contendo esta abominavel sextilha:

A loira e dôce Maria
Que a ninguem d’amores maltrata,
Foi avisada outro dia
Que Paulo a vem visitar,
E eil-a que rompe a gritar:
— Depressa! fechem a prata!

Só Homero que disse os furores d’Ajax, poderia pintar a cólera do snr. Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d’olho obliquo, exhalando um cheiro adocicado de sachristia — que saboreava tambem os seus grogs no café e dirigia um jornal jesuita, A Palavra. A sextilha tomava, assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.

D’aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de pistola alta. Fogo! A bala do homem da Palavra vae cravar-se na anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d’um dos padrinhos do devoto. Este sujeito franziu consideravelmente o sobr’olho.

Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:

— Então, o duello? Houve morte de homem?

— Não, — respondeu alguem d’uma mesa ao fundo. — Houve morte de jumento.

— O que! Morreu Paulo?

E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de juba eriçada e a injuria no labio... E d’ahi outro duello á pistola tambem.

Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr. Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho — do mesmo, precisamente o mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu atravessado e franzira tanto o sobr’olho.

— Comprehendo! — rosnou este individuo, livido. E á noite, no café, dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um modo desleal e infame»!

— Pois atreve-se?... — ruge o snr. Paulo.

— Sei o que digo; infame e desleal!

— Insolente!

— Garoto!

Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se alojar.

Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.

Os conflictos de honra que têm este final de vaudeville são, por fim, os mais acceitaveis.

Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da familia: Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu! nem o codigo, nem o bom senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem, publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra! »

Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue — tendo em redor as acclamações d’um circo.

No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.

O que convém, pois, á sociedade e que, n’estes conflictos impostos pela exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.

No fim, a moralidade dos duellos está toda n’um dito de Rochefort.

— Tem sido feliz em seus desafios? — perguntava-lhe alguem.

— Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com a consciencia serena e uma ferida séria...

Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se deixou um homem a agonisar n’uma pôça de sangue; mas é triste tambem que para se poder gosar, com a alma tranquilla, a omellette do almoço, se deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.

De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra a serio por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.

Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são egualmente heroes nas gazetas!


✻ ✻ ✻

Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os fuzilados d’então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a questão da amnistia, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d’esquecimento. Viva a França!

Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não houvesse o direito de perdoar.

O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por compaixão — não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.

Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se dizia nas operas comicas da minha infancia, ha um mysterio. Qual é, pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo poderoso, esse Deus d’Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto dono de França — que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a confiança para os darem a Clemenceau.

Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na força do proletariado que se quer apoiar — e, portanto, resolveu, como um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe fallar.

No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d’um homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.

Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.

Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: Gambetta fallou! Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d’entre a sua sarça ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de França e Patria e Republica, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a maioria de pé, n’uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n’um extasi vibrante — tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.

Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego triumphante do pronome pessoal eu.

«Eu consultei o paiz! Eu disse á Europa! Eu quero! » E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d’estas fracções, como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.

Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só França!

Rhetorica! A questão da amnistia era, decerto, nas mãos da esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.

Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do Rappel e do Mot d’Ordre, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do Gambettismo.

Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d’estes ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo do Rappel, da Justice e do Mot d’Ordre.

E outras reclamações virão — todas necessariamente satisfeitas — e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica... A questão está collocada entre o proletario e o burgues. É Clemenceau contra Gambetta. E isto, que é o socialista Clemenceau, matará fatalmente aquillo, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde aquillo, que é o philosopho Clemenceau.

Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das Gallias — que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.

Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, o gaiato sublime como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio — vae ser curioso vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da Lanterna, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado presidente Gambetta.

O jornal que vae fundar chama-se o Intransigente. Já é bom! E vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a Lanterna e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, vamos rir.


✻ ✻ ✻

Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato que esta expulsão.

Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n’elles me é antipathico — a sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua abominavel summa theologica, a sua sciencia secca e hieratica, o seu frio estylo d’architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria, a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta influencia na sociedade franceza — então é necessario expulsar o clero inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo.

Quem governa a egreja não é Leão XIII, o Papa Branco, é o Papa Negro, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia — o clero regular acceita-a, reveste-se d’ella como d’uma insignia, e considera-se ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas, recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical, semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar tres ou quatro estabelecimentos da companhia — se fica todo um clero compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como inimigos da democracia?

Além d’isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em logar da roupeta, vestirão a quinzena — e nem por isso o seu ensino será mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola — lá ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.

É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres conventos de jesuitas!

Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma roupeta que se reprime um ideal.

E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia, pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.

Ha n’isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.

Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico, comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro d’exilio — que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e o seu nacionalismo prouddhomesco.

Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos; as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação mesma do crucificado.

Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias forte — mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso abuso da força.

Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora n’um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia; — que a amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!

Ainda n’esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d’ella. Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n’esse brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n’estes ocios que lhe faz a suprema liberdade na suprema força.


III

O imperador Guilherme

 

«Lui, toujours lui!... — Elle, sempre elle!...» — Assim, no tempo das Vozes interiores, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia: «Lui, toujours lui!... Elle, sempre elle!» — perante esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu — e occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise capitalista! Talvez mais — porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!

Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e lances — como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra pittoresca de Guilherme II — o ter convertido — o throno dos Hohenzollerns n’um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da Vida de Jesus lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto acto, á solução d’este imperador problematico! Pois que, por ora, n’este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só tem revelado que existem n’elle, como outr’ora em Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual d’elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n’este rei, quantas encarnações da realeza!

Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o sic volo, sic jubeo, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos os que n’ella não creem com devoção. O mundo pasma, — e, de repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os officiaes que melhor valsam nos cotillons, e querendo volver Berlim n’um Versailles d’onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O mundo sorri — e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de caturra o Passado, expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...

Depois, por vezes, desce do seu palco — quero dizer, do seu throno — e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna Imperator Rex) pinta, n’uma fórma carregada de romantismo e côr, o azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, nos mares scandinavos, entre os austeros fjords da Noruega, ao rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e os sandwichs de foie-gras, collocados no seu wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D’Orsay!... — E subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? No es nada, como se canta, no Pan e Toros. É apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco — quero dizer, ao seu throno.

O mundo perplexo murmura: — «Quem é este homem tão vario e multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d’aquella cabeça regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d’esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo, — e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no que diriam os Athenienses) e que, mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas toilettes. Outros sustentam que ha n’elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh’os cohiba e lh’os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos d’esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...

Talvez cada uma d’estas theorias, como succede felizmente com todas as theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o imperador Guilherme é simplesmente um dilettante da acção — quero dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação. Os dillettante são-n’o geralmente de idéas ou de emoções — porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito dillettante de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca: — mas se tentasse ser um dillettante da Acção, nas suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel dilettantismo da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou de sulcar os mares n’uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha idéa» — e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.

Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, e que quando o seu imperador lhe ordena que marche — emmudece e marcha.

E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com elle, o inspira e sancciona o seu poder.


✻ ✻ ✻

E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador da Allemanha: — é que, com elle, nós temos hoje n’este philosophico seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que conferencia com Deus na sarça ardente do Schloss de Berlim, e que por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, esta affirmação pontificial de que Deus está junto d’elle, quasi visivel na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o servir com a força d’esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito d’esta sobrenatural alliança vae n’elle crescendo tanto que de cada vez allude a Deus em termos de maior igualdade — como alludiria a Francisco d’Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr’ora ainda o denominava, com reverencia, o Amo que está nos céus, o Muito alto que tudo manda. Ultimamente porém, arengando com champagne aos seus vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus — o meu velho alliado! E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre: — e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo crêmos, — Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n’este instante chalra no meu telhado!

Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito triumphal de cada emprehendimento — eis o que me parece explicar a conducta d’este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e submissos como soldados — Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque falta ainda ao seu dilettantismo experimentar a fórma da Acção mais seductora para um rei — a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam — só porque na alma do grande dilettante o fogoso appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo: — «Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida — pois que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a Landwehr allemã, como outr’ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da phalange grega.

Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que essa certeza era apenas a chimera d’uma desordenada fatuidade. Então verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo que se proclamava ortr’ora o Eleito de Deus — mas apenas se provou que Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava desdenhosamente — foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que se estampa sobre a moeda falsa.

Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão repartidas pelos corpos de Estado — e só elle julga, só elle executa porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.

Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n’uma planicie da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.

E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra o destino esses terriveis dados de ferro, a que alludia outr’ora o esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua infallibilidade.

E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia politica na Prussia era — Deus salve o Rei? Onde estão esses louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado: — e o throno, sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do abysmo...

Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno, o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr. E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em Sadowa e em Sedan — é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova ferula, que vencerá em Berlim.

O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo, n’este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II. Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu Schloss de Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.


IV

O Grand-Prix — A estatuomania — Os cocheiros —Victor Hugo — O campo em Pariz

 

Na semana passada o Grand Prix — que é a solemnidade official do sport, do jogo e das toilettes. Todos estes elementos estiveram magnificamente representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma quarta parte do focinho. As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia toilettes portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de crysanthemos brancos.

A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d’Aosta, cunhada do rei de Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)

O calor era horrifico. Á noite, no Jardim de Paris, houve, sob as arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava brilhantemente borracha, sicut licet. A unica innovação foi a troca geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas, com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.

Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana). Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de Grand Prix, os cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de toga arregaçada: — e o austero Catão apparecia no senado com um grande nariz postiço.


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N’esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava — uma estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus benemeritos.

Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada mez, — que digo eu? cada semana! — se desvenda algures uma estatua d’alguem, entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d’este fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava recentemente Julio Simon. Digo um certo Guerin, porque eu não lhe conhecia a existencia antes d’essa allusão de Julio Simon, que foi o inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto, talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças, sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin? Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial, sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes, menos por causa de D’Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac, como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.

Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais duro de atravessar é a grève dos cocheiros. Pariz está sem tipoias — o que é, sobretudo n’este momento, como o deserto sem camelos. Se n’esta super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil, exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos — e seria mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz, são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no céu do que n’um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta, segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo, contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d’elle — por aquelle meio natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega — senão quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare d’Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para o Arc de L’Étoile. Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma, que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam noivos — ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que conservam a freguesia aos omnibus.

Uma das causas, ou antes a causa da grève é que os cocheiros querem ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades innumeraveis. É peior que a administração chineza — e menos pittoresca. Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar licenças successivas a vinte auctoridades successivas — entre as quaes o ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d’esses trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n’um dia de dezembro, uma familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia — e o digno funccionario, com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento, respondendo com superioridade: Indeferido, por causa da distancia e do mau tempo!


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Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.

Victor Hugo publicou este mez mais um volume — Toute la Lyre. Como o Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito d’este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as Contemplations, a Légende des Siècles e os Châtiments. Mas augmentam o nosso conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento novo sobre o poeta — sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os papeis intimos — até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para Lamartine, para Balzac, etc.

Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d’um grande homem de guerra, que tem iguaes — é bem justificado que se publiquem os versos, todos os versos, ainda os menos interessantes, d’um poeta que, sem contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.


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A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução sapientissima. Pariz, d’ora em deante, fica sendo considerado, durante os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro, etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo. Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra — e que os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca apertada e do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permittir a tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e deve, portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em julho, só pede a propria pelle — sem mais nada, além de uma folha de vinha. Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão radical — e foi só até á palha e á alpaca.

Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio, segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40 graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com um chapéo alto de cere monia, é necessariamente um povo constrangido, cheio de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico. Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves — e elle respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no Estado.


V

O 14 de julho — Festas officiaes — O Sião

 

Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito, um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais descontente: — accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela enthusiasmada rouquejava a Marselheza. As filas de fiacres dormiam pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro civico.

Nem um Vive Carnot! Nem uma palma ao velho Saussier, governador militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz não applaude os pennachos — é que Pariz está realmente macambuzio.

Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma commissão para desorganisar a festa e promover uma melancolia de protesto: — mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas: — e onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez d’isso, a aristocracia, n’essa data illustre, volta a face com tedio, cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro grossas torres onde pudesse ser sepultada pro vita ao bel-prazer d’El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com o dia que a libertou — porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?


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Além d’isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta Constitucional.

Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza simplista, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d’esses santos, as suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus attributos, tudo lhe é familiar — e elles são como verdadeiras pessoas de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a cidade; — e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão: — «S. João é um amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o preço de uma lamparina.»

É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.

Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos protestariam com furor e haveria sangue.

Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.


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Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.

A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo terrivelmente, uma para a outra, o sobr’olho e fallando com azedume de casus belli. Este latim, que significava outr’ora caso de guerra, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos se zangam, se tratam de pulhas e malcreados, se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.

Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma architectura phantasista de magica — e estão armadas de canhões Krupp. Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n’esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir o animal pensante — e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes occidentaes — e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és barbaro — logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e Abel.

Em virtude, porém, d’um respeito innato pelas exterioridades (que data da folha de vinha) os homens crearam ao lado d’este descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se d’outra com a simplicidade com que n’uma estrada uma creança colhe um fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido.

Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de fronteira n’uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram hu! hu! Tudo isto é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da França. Se não foram elles — foram seus paes, como disse o lobo ao cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á Luiz XV!


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Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle bello bocado do Oriente — e é a França, a nação entre todas rival, que apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes berraram hu! hu! É sobre a bandeira da França, não sobre a d’ella, que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a França emfim que está na deliciosa posse d’estas affrontas, que saboreia a preciosa felicidade de ser insultada — e que portanto tem o rendoso direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada — e a Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu parlamento: — «Uma vez que n’esta occasião Sião não pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n’um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.

E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios deante de um velho osso.

O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.


VI

A França e o Sião

 

A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um ultimatum em que era intimado a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que por amor d’ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr’ora, quando os costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d’uma feliz reputação de lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.

Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da Cochinchina.

Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, quando o povo se desinteressa d’uma questão, os politicos e os jornalistas têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem se apoiar n’um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d’uma manhã.

Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.

Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n’um salão, considerava como a cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a França e Inglaterra se batessem por causa de bichos tão feios como os siameses — estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm dilacerado todos os povos desde o diluvio — não ha receio que jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.

De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, n’estes ociosos dias de verão, roncar d’alto, com o sobr’olho franzido, e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma tinta — sem medo que se venha a gastar sangue.


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Em todo o caso, n’estas rivalidades coloniaes entre a França e a Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. Quando ella se apodera d’um d’esses desgraçados reinos d’Oriente (como a Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua conquista.

Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d’isto — nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.

A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d’esse enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para que quer aquelle velho aquella moça?»

E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer esta França este Sião?»


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Eu tenho um amigo que esteve n’esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no palacio, e conta detalhes bem pittorescos.

Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das fronteiras.

É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e rei é esta: «Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr».

O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta invocal-o com o nome todo.

Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da corte é pronunciar o nome d’el-rei.

Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.

E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!

O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.


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Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão d’este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que Goethe descreveu — «um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça uma nação, o governo préviamente faz d’ella uma colonia.

Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as acquisições coloniaes feitas n’este seculo, já o francez, quando se lhe perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr’ora não podia) responder com um saber exacto e forte:

— Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!


VII

A questão Buloz — A «Revista dos Dous Mundos» — Pariz no verão

 

Por fim o Sião cedeu: — e, muito avisadamente, para evitar a immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um oriental d’habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que ella reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a humanidade, como o caso do snr. Buloz.

Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem depender d’ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n’esses dous mundos que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, por meio da sua illustre e famosa Revista. Porque é d’elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da Revista dos Dous Mundos!

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror — porque elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa Revista dos Dous Mundos nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.

E escrever na Revista, pertencer á Revista era para nós uma maneira especial de ser fossil.

Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa Revista! Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n’um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d’um frasco de laudano, um numero da Revista dos Dous Mundos: — e ao chegar ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno eterno. Ainda me lembro d’uma definição da Revista, dada por um de nós: — «Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»

Tudo isto era excessivo e injusto. A Revista, de facto, tinha leitores por todo o mundo: — e, como se sabe, e já tem sido dito, Todo-o-Mundo é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda remexedora de ideias e de factos: — e não houvera de resto nenhum grande francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto, para nós tão vergonhoso: «escrever na Revista». Todos tinham escripto — mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d’essa geração — Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de Beaudelaire, tirados das Flores do Mal, apresentou-os ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerarios) — e esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações intellectuaes com a Revista. Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no inferno!»

Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não vejo a Revista dos Dous Mundos sem um sentimento vago e inexplicavel de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados, faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do Quarter Latin. É talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.

Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o snr. Buloz e, com elle, a pudibunda Revista dos Dous Mundos se achavam envolvidos n’um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a Revista, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n’uma aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão severa policia dentro da sua Revista, que esquadrinhava todos os romances com terror de que lá estalasse n’algum canto algum beijo mais voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.

Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a excellente Revista. Porque não havia aqui realmente um romance d’esses que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos» — mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a Revista de que elle é a encarnação viva — por dous d’esses horriveis personagens a que Balzac chamava impropriamente os tubarões de Pariz. Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.

Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella, quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.

O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando se tem vivido, durante vinte annos, dentro da Revista dos Dous Mundos, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel. Teve n’uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!) uma d’aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos Remusat, evita ou vence.

Buloz cedeu — ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora pretende, em confidencias que fez a um reporter do Gaulois, que «foi uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda a mourama. Pagou, naturalissimamente, as toilettes da menina e da familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade, deu um dote e um marido á menina.

Educado no idealismo incorrigivel dos romances da Revista, imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á Revista dos Dous Mundos, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia uma cidade conquistada.

Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio — e Buloz pagava pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria reunir rapidamente uma fortuna — e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E pagava — para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi arruinado — e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma — e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra promissoria de perto de setecentos mil francos.

Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!

Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam contra as queixas de Buloz — influencias pagas talvez com o dinheiro sacado a Buloz. Alliança de «tubarões» — como diria Balzac. O facto é que a policia se conservou n’uma magistral indifferença. Então, estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua Revista. Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu marido, e a Revista dos Dous Mundos se separou do seu director. E o grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz.

Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a Revista dos Dous Mundos? Era esta, durante semanas, a interrogação anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou — e cruel.

Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da Revista pronunciou egualmente divorcio entre a casta Revista dos Dous Mundos e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado, durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de nomes sagrados. Tal é Pariz.

Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios. Mas a resolução dos accionistas da Revista parece-me excessivamente austera e illogica.

Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções exactas sobre as realidades da vida — e o seu peculio de conhecimentos sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois, mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista, sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam d’essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro de criterio, além de uma falta de misericordia.

Em todo o caso, assim acaba na Revista dos Dous Mundos a grande dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da Revista por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A mais austera, solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas d’amor houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas illegitimas! Habent sua fata Revistœ.


✻ ✻ ✻

Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra) em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n’um verdadeiro exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil hebreus, e d’aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por dedicação civica.

Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na Camara dos Communs, em mangas de camisa.


VIII

As eleições — A Italia e a França

 

As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n’estes vinte annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa affirmação.

N’essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças de Augias: — e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos, com um enthusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito comesinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres inspiradores da oratoria. Basta de lyra! gritavam em 1848 os operarios famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia! Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor do seu progresso.

Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe, para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes, capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para o util serviço d’esta França nova, que é simultaneamente um banco, um armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou — e viu que a sua obra era boa.

Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia) foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio outr’ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das papoulas mais altas.

Na camara não haverá senão espiritos medios e planos — e toda ella será realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa d’onde vôem aves.

Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta, foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os costumes financeiros d’uma democracia industrial, com o regular e fecundo funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d’estes homens, desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus, a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas disciplina com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão, ignominiosamente expulsos da Republica.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim, e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar n’um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. Amen.

Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um conflicto entre operarios francezes e italianos, n’um departamento do sul (em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.

Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França, como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d’uma raça mais sobria, ou d’uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões, — porque o capital é cosmopolita. D’aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no seu pão — e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham refugiado n’uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados como lobos, e dizimados a tiro, um a um.

Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova, em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de Morra o francez! acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de Viva a Allemanha!

Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu sangue, berre: Abaixo a França! Ha ahi apenas, para elles, esquecimento e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: Viva a Allemanha! Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a Italia — a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, n’estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um outro e supremo ultraje.

O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa?

Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d’isso, a sua presença não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n’uma provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se o acceitar um convite para essa região é offender a França, o recusar o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de pecunia.

Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n’um perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França tem o condão de enervar a Italia — de a enervar até ao desespero. É um facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n’uma das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente cita, lembra e celebra o beneficio da libertação — não é tedio então, é intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o libertou. É bem natural — porque o fraco não póde esquecer que o apoio trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr’ora veiu salvar, com grande alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.

Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram horrendamente caras, além de algumas d’ellas lhe serem desoladoramente inuteis.

A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d’isso a França tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. N’estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua magnanimidade.


✻ ✻ ✻

Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem sido ajudada: — mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua imagem. Ella é e permanecerá a Italia-mater, a mãe veneravel das nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente, ella nos deu a musica.


IX

Alliança Franco-Russa

 

N’este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo Brazil: — e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a elle tão tumultuosamente o perturba.

Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove com o que se passa dentro da linha dos boulevards — quando muito, dentro do recinto das fortificações.

Além d’isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate, se não impede totalmente a emoção.

Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema polidez das nações. De sorte que, n’esta duvida e n’esta reserva, tudo quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.


✻ ✻ ✻

De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza, que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da guerra. Por toda a parte grèves, e sangrentas; por toda a parte ruinas causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite, envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por ser uma republica (não parece haver salubridade segura n’esse regimen) mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas pacata e hygienica de dona de hospedaria.

Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte: — e aqui temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente, uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome, procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d’uma nova éra historica.

Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa. Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n’uma d’essas situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão particularmente penosas a uma nação altiva.

Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza (outr’ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito, encarregava d’elle os francos — gesta Dei per Francos), a França estava, na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados, politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava d’esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel e invencivel, a da litteratura e da arte.

Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga, uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas. E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz, como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente, mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia, vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr. Carnot fôsse um Rei de Direito Divino — mas ao mesmo tempo a França, como França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.

Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild. Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e, ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes de Hamburgo. D’ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild! E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo uma parte do poder.

A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer, como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.

A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a vehemencia do abraço: — e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n’um fulgor de apotheose!

Mas a França é uma franceza — com todas as suas graças de sensibilidade e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III.

Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo, escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção. Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo, o Theseu salvador? Tudo n’elle parece bello, a sua estatura, a formidavel rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas festas vão ter não sei que de nupcial.

O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja. E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar Te-Deums louvando o Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.

Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario: liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande «despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d’elle, mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi brutalmente demittido!

Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa) e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular. E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as gares estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos clamores de Viva o Czar!

Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo, acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas fórmas de sentir, o francez e o russo divergem; — e quasi se póde dizer que um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado, as duas nações discordam — porque uma é ainda primitiva, governada por crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo de revoluções.

Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a confraternisação. A França, repito, é uma franceza — e, como tal, extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.

Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta élite.

Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição) — e vão buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d’isso tambem quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam les petites dames. Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já outr’ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d’armas e d’amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa ou champagne.

Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado da França, d’esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»

É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.


X

As festas russas — A «toillette» d’um presidente de Republica — Noticias do Brazil

 

Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo desceram, como se se tratasse de sêres chegados das brancas espheras celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita de sobrenatural, e o snr. Hervé, director do Soleil, um academico, um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um caracter miraculoso. Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente. E Pariz está em delirio; — mas um delirio cheio de bonhomia, e mesmo cheio de diplomacia.

Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando a prudencia de um diplomata encanecido na carreira — e os proprios garotos se comportam como Metternichs.

Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo, todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem, e todo este champagne estala, tanto pela Russia como contra a Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais fundos recantos d’alma — e o que transborda é apenas o clamor do enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o russo — e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n’um amavel santuario de paz.

Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte a cerveja e o vinho transbordam, como n’umas colossaes bodas de Gamacho. E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve ainda um grito, uma pilheria n’um café, uma allusão, que desmanchasse a harmonia pacifica do soberbo festival.

Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e prompta — isto é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, penetre tão claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é facil, extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n’um grande momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos legitimos; — mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que os inglezes chamam os roughs, os «asperos»? Para esses não ha interesse publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e brutalisado pelos allemães, que se privariam, n’uma festa egual, de desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de viva a Russia! brados ainda mais altos de morra a Allemanha! Ainda ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a França e a Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes de commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que bailado, a bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca ebulição do forte sangue saxonio. O bailado continuou — e cada um recomeçou serenamente a rir e a emborcar bocks.

No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold, o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo uma generalisação excessiva, que provinha d’esse delicado espirito se ter nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza do seculo XVIII. Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á populaça. Em França, nem a essa faltam.


✻ ✻ ✻

N’estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata, um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco pançudo que quasi estoura — são frouxas imagens materiaes para exprimir esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e lentidão d’um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d’esses dias de cesarismo. Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d’um templo.

Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de paz.

Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se communica aos animaes.

Na Avenida da Opera um grande mail-coach, tirado por quatro puros cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles, terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita — e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d’ouro e apotheose.

Por vezes, entre couraceiros que cercam um landeau, alvejam ao longe os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de viva o Czar, viva a Russia! Toda a massiça multidão arremette n’uma anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão d’amor. De novo o decoro, a compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave, polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d’estes, no meio de dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse — não cessei de louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a conquista das Gallias.

Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres — sobretudo as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio decorativo — nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão — ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete monotona mente, infinitamente: o Luis XV e Henrique II. Em todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.

A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção buddhista.

As festas, além d’isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os russos; — e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro lunchs, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E como n’estas agapes de alliança o acto importante eram os toasts, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave considerar que a cada um d’esses marinheiros fortes, coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.

Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz valia uma missa, não ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma dyspepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca e gravata branca como os escudeiros que servem o punch. Este inconveniente, tão consideravel n’um paiz habituado ha oito seculos ao esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou tão patente, como agora n’estas festas, que eram sobretudo militares. Em meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, das amas ricas — alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d’esta pelintrice official. E jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se estabeleça para o presidente da Republica, para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê prestigio — esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado — um revestido de uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot negro, com um chapéo côco — o respeito instinctivo da multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres — e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos — e para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia — e de que elle proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.

E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos do mundo.

Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil tivesse desapparecido — ou antes tivesse entrado n’aquella era de felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se encontra n’algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr’ora tão agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...

Un silence parfait régne dans cette histoire — como diz Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some — e aqui ficamos na Europa boquiabertos, deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos? Não ha nada — não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.

De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em Pariz d’essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o Brazil — tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa pacificamente a vender café.


XI

A Hespanha — O heroismo hespanhol — A questão das Carolinas — Os acontecimentos de Marrocos

 

O «Theatro dos Acontecimentos» (como outr’ora se dizia) que é de certo um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus — e é agora de Hespanha que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante que elles devem ser interessantes — porque de Hespanha nada póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.

A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica; — pelo menos é a ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses, e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem d’accordo sobre o que é um heroe).

Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n’uma praça de Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente, e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no ar: — No és nada, no és nada!! O seu cavallo jazia despedaçado n’uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a encolher os hombros, a gritar: — Pero si no és nada, hombre, si no és nada!

Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho: — Fui eu! Fui eu! Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está ancioso por que todos saibam que foi elle, só elle! Não vá outro ser preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: Fui eu! Fui eu! E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que fôra elle, só elle!

Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que no és nada, que no és nada!

O quadro é admiravelmente hespanhol — e só póde ser hespanhol.


✻ ✻ ✻

O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece o sublime D. Quixote.

E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento — como superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder — marcha jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria.

Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria. Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos copos d’agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra — e todo esse povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada, mas o gesto.

O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente e ovante como elle pronuncia mi terra! Para elle a Hespanha é a maior das nações — pela força e pelo genio.

Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além d’este habito de se sentir grande, natural de resto n’uma raça que chegou a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes: — mas não tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro clima doce, a sua cosinha, os seus sports, os seus jornaes, as suas distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d’um ar luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e carnal. Esse amor cria n’elle naturalmente a illusão: — e o manchego e o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo), declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e interesse, e brilho, no valia Merida! De resto, quem não tem ouvido hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim publicado n’um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo? A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a candida illusão de um patriotismo transcendente.

Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade, como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n’um crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.

Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão plantára n’umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas, nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha fôra offendida: — e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d’este delirio, ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era Jerusalem...

Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas, appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação heroica de um sentimento justo.

Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra implacavel!

A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.

Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios, com o odio de raça e com o odio de religião: — e os hespanhoes estão alli portanto n’um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n’um certo ponto mais aberto, um forte.

Ora, justamente n’esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco. Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.

Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle forte, n’aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio — e constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis, porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o alarme através dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.

O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para castigar as tribus, uma sortida temeraria — que resultou numa tremenda derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram) e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira — que os hespanhoes retomaram.

Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha toda rompeu n’uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou a gritar: Vamos todos a matar los moros! Foi um delirio. E a Hespanha, enthusiasmada, lá vae para a guerra!

E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia, migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina — porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha — é necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia, que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus perigos, a antiga e classica questão do Oriente.

Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a ser quebrada, seria de certo por causa d’esse terrivel Marrocos. E a Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela, uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas finanças, e arrisca uma medonha guerra européa. Mas que lhe importa? Fôram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha — e ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.

Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser interessantes...

E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação de matar los moros.


XII

O Snr. Barthou — A «Antigone» de Sophocles — «Les Rois» de Jules Lemaitre

 

Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica feição d’esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de repente, e por motivo d’ella, um homem de Plutarcho.

Este homem é o snr. Barthou.

É necessario reter este nome — Barthou — porque elle representa um justo. A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas parlamentares.

Quem é o snr. Barthou?

Um politico, e portanto um ambicioso. Além d’isso um intelligente e um ardente.

E que fez o snr. Barthou?

O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia constitucional: — convidado, n’esta nova organisação de ministerio, para secretario de Estado das colonias, recusou.

E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque (segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, nem pela experiencia, a tomar conta d’essas funcções». Conhecem alguma resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um ambicioso que se nega a entrar n’um ministerio por não se considerar competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo da administração — é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente suppôr que existisse algures, n’esta Europa politica e parlamentar, um bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do seu gabinete, fumando a cigarette do poder, as colonias do seu paiz!

No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n’esses tempos deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua incompetencia. El-Rei porém mandava — e o cabelleireiro, com as mãos ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da Grande Armada, que partia a conquistar a Inglaterra — o pobre duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr’olho e ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado — e todos sabem a boa conta que elle deu da Grande Armada. Para evitar esta deploravel confusão das profissões — se fez a revolução de 89. E d’ella surgiu então essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava n’essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o ministerio da guerra a reorganisar os exercitos. Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves — estava prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e commercio.

Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos certos de que, tocado de uma luz divina, da lingua de fogo, como os apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir, sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou commandar frotas.

A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo! como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao contrario d’este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?

Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga suspeita entre nós outros, os governados.

Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do universal saber — é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção: — «Diabo! será este maganão um Barthou — que se calou?»


✻ ✻ ✻

Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece, interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d’este Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os Persas nas margens do Eurymedon: — e ahi o temos ainda, depois d’estes vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças, quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu pae, que era um simples fabricante d’armas, desenrolava verso a verso, nas taboinhas enceradas, á sombra d’alguma oliveira, os queixumes d’Œdipo, Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d’essa vetusta matta, convertida ella, por seu turno, n’uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: Bravo, Sophocles! e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia — e que quando já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.

Esta Antigone, que agora se representa no Theatro Francez, foi para Sophocles a peça mais rendosa — porque valeu ao poeta ser nomeado general ou stratege, como os gregos diziam, n’uma expedição a Samos. Singulares direitos d’auctor! E singular povo que recompensava a belleza de uma tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a Athenas uma batalha, era, n’esses tempos de civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas humanas; — e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo.

Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação occidental.

E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina — mas como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós, homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas!

Pois a Antigone continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de Athenas continue a enriquecer os outros.

Deixemos porém a Antigone e Sophocles — porque, das peças representadas em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é Os Reis (Les Rois) de Jules Lamaitre.

Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma historia da revolução do Brazil — da outra, da antiga, da que derrubou o Imperio.

Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia absoluta, com 38 milhões de vassalos: — mas esta sala não apresenta mais luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias estão em deploravel decadencia: — mas dentro em breve se descobre que as colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as toilettes de Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.

Pela porta nobre d’esta sala desguarnecida entram dous senhores, de casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania, Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil, — que aqui na peça e na Alfania tem o nome de Republica das Cordilheiras. O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em Pariz) as suas attribulações diplomaticas.

Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da Cordilheira expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal.

E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana mais repassada de bons sentimentos monarchicos!

O povo da Cordilheira não detestava, antes amava o seu imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio — e constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo. Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó — e o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas. Além d’isso, aquelle imperio da Cordilheira desmanchava a harmonia republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da republica — e só a Cordilheira sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte! Era discordante.

De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito, toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor (um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera n’esta separação.

Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas — o imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez, tão amavel — e no fundo tão monarchica!

Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos Reis, esta risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou muito pela felicidade d’este funccionario. Mas apenas elle terminara a historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz — entra toda a côrte de Alfania.

É que estamos n’um consideravel momento historico. O velho rei d’Alfania vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d’aquella corôa secular. É que já não comprehende o seu povo — e receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente o pastor muito solicito d’um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de governar homens, e não carneiros, elle, rei d’outras eras, não a possuia. Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é novo pelos annos — mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino, foi todavia educado n’outros tempos, por outros livros — e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico, e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.

Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes — emquanto o chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios. E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação democratica:

— Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!

Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei d’Alfania. O pobre Christiano suspira — e Alvarez parece bem contente.

Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.

O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento e uma carta constitucional.

O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel. Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte alegremente a manifestação — porque (como elle diz) se o suffragio universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o superfluo dos ricos: — mas como essa liquidação social não é possivel immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa.

No palacio reina o terror.

Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam — tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo. E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos — e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas — por onde penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.

Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio, socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?

Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus — são tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann, supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n’uma agonia, gritando sómente: — «Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!»

Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general! Hermann, n’uma voz de moribundo, murmura:

— O seu dever de soldado!

E cae n’uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É o primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita: — «Não! Não!» — É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo clamor dos gritos. São os que morrem!

Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta por entre lagrimas:

— Mulheres mortas?

O official murmura:

— Muitas.

Creancinhas?

— Tambem...

Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos cravados no tapete. É que está vendo n’elle, cobertos de sangue, os pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o seu povo — o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era um rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.

A scena é verdadeiramente bella — e pela apparição da Fatalidade, esse grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n’um desastre d’amor, que é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a ver Alvarez.

Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se dedicasse a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo exemplo Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das theorias, um regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar a nação n’um caminho incerto e escuro onde ella vae cambaleando atravez do descredito, da desordem, da ruina e da guerra.

Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.


XIII

Os Anarchistas — Vaillant

 

Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.

Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já classica e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal da bomba hespanhola do theatro de Barcelona.

A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d’um socialista neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente a miseria — o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N’uma republica parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione mais do que o regicidio, porque n’uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do parricidio.

De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito. No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de uma caixa de lata, que bale n’uma columna, estala no ar antes de cahir. Densa fumarada, gritos, terror, tumulto — e immediamente, tambem, entre os deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham — e as salas das commissões são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um d’esses impulsos de vaidade bem franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por gritar:

— Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora não me massem mais, que quero dormir.

Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte — por um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem humano.


✻ ✻ ✻

A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um principio pela violencia — são tambem dous actos absolutamente inuteis.

N’um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia. Ha depois o appetite morbido da celebridade — como o prova o facto de Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n’uma attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos proletarios, decretou a destruição d’essa sociedade. Só este lado sectario do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).

Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba — e supponhamos que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido, nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos. Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.

O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da classe já desagradavel dos martyres da liberdade, a classe, ainda mais desagradavel, dos martyres da auctoridade. De sorte que estas bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade d’essa sociedade, de actos impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma muralha.

A isto replicam os anarchistas: — «Assim é, mas nós não pretendemos destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n’este caso, aterrar? Significa provar, pela experiencia d’uma pequena destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d’ellas pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.

O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão lamentavel desperdicio de energia heroica.

Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade burgueza — a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção formidavel de um para mil; e emquanto que a primeira bomba foi lançada contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está organisado em seita.

E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n’uma religião (ou, se quizerem, n’uma heresia) em que o odio de certo é ainda um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita fica desorganisada, desconjuntada: — mas para immediatamente se reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de martyr, sobretudo quando cahe n’um solo tão preparado para que ella fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d’esses milhares de operarios de coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N’uma tal reunião, onde cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d’alli a fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol — a Ravachole. E cada coração anarchista lhe é um altar.

As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando a sociedade mata os anarchistas — é a sociedade que fabrica as bombas.

A violencia não cura — e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma exacerbação morbida do socialismo.

O germen e os desenvolvimentos d’esta doença não são difficeis de precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de felicidade, não já n’esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena, mas a outra vida, para além da campa, como lh’o recommendava a Egreja, sua mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que reservava para os pobres o reino do céo.

N’este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n’este mundo, e sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media, bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios — e expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos politicos (liberdade d’isto, liberdade d’aquillo) continuava, como no antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o direito de voto não o aquecia — e á hora de jantar, a liberdade de imprensa não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade a ser servo — e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d’esse poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu engrandecimento politico!

A decepção foi tremenda — e tremendos o odio e desejo de vingança contra o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova, mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo, realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos, attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o socialismo.

Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi pueril, porque não attinge o mal! Associações, trade unions, barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc., etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são tigellas d’agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de Estado.

O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito, ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente impregnada d’esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella conterá sempre em si o virus horrivel: — o principio do direito, do Estado, da auctoridade!

A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma classe mais especial e odiosamente criminosa — a classe dos ricos, que foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se priva de apanhar uma flôr n’um jardim publico é já uma cumplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir tudo, — e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel.

Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.

Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os symptomas d’uma allucinação morbida. Não ha n’ella proposição que não seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as miserias, é iniqua.

Partindo do facto d’esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, logo que d’elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a organisação da sociedade — mas que depois, ou impaciente d’esse lento caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d’uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e cabriolando através d’uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente em praticas d’uma ferocidade selvagem.

Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação morbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos anarchistas.

Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem dous motivos: — um extremamente nobre e honroso, que é a nossa philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro, extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem secretamente e sinceramente sympathisamos: — um é o desgraçado, que padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d’estes dous homens nos interessamos mais — se por aquelle que sensibilisa o nosso coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual nos emociona mais — o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.

Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes estados d’espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era em extase:

— Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello!

«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração, esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do gesto de Vaillant — a belleza d’aquelle braço magro que se ergue lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N’uma sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d’arte, uma revolta social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica, a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que elle é tambem estheticamente bello.

Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal disfarçada benevolencia, são unanimes n’um ponto: — em os cercar da mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.

Se é anarchista, se lançou a bomba — é d’elle a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os genios.

Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o que disse, o sobr’olho que franziu — tudo foi miudamente e clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que escrever a Lenda dos Seculos.

Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios; declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela imprensa — como não ha-de o anarchismo alastrar n’essa proporção temerosa de um para mil?

Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo se desinteressasse d’elle como de um banal partido politico; e que a imprensa o envolvesse em um silencio regelador.

Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que elle se separa em um momento de delirio.

Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação definitiva do trabalhador. Além d’isso os anarchistas que até agora têm lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é n’elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer d’elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo pavor — é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.

Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, isolal-a — não crear em torno d’ella, por curiosidade depravada d’um mal original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d’admiração litteraria, de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do seu arrepio.

Toda esta larga aragem de favor é um crime — porque animando indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.

Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos, as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem) sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d’aquellas que aqui estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos affirmar sinceramente é que — cá e lá más bombas ha.


XIV

Outra bomba anarchista — O snr. Brunetière e a Imprensa

 

As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada no café Terminus e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais desordenado quanto por traz d’essa rebellião de elementos elles viam a colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada, dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber technico da administração urbana e rural.

Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se commova ou trema pela sua estabilidade.

É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o medo phantasmagorico d’uma catastrophe social immediatamente findou: o habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro d’uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do grisou no fundo das minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres, e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.

É n’este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão systematica de todos os anarchistas.

Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios. Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios, a lista secca dos nomes. Alguns d’estes homens têm mulher, têm filhos, a quem o pão vae faltar. Mas d’esses detalhes minimos, n’este momento de sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste, livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os, estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.

Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados. Indubitavelmente é uma dura lei; — mas vem de uma dura necessidade. Era realmente intoleravel que, n’uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem não pudesse entrar n’um café, ou n’um theatro, com a mulher e o filho, sem correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.

Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada, ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario perdido.

Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado, não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.


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Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas lettras francezas um grande personagem — quasi devia dizer, dada a qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando o velho Buloz foi exilado da Revista dos Dous Mundos, por ter amado fóra da Revista, e com uma especie de amor que a Revista não permitte, a assembléa de accionistas d’essa veneravel publicação nomeou para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d’isso, o snr. Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual, das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons espiritos. Como consequencia d’estes dous nobres empregos, o de director da Revista e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr. Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a Revista) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr’ora queimava o throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo, forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou enthusiasmos.

Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima, tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está creando um proverbio parallelo — «Só a grande professor, grande berreiro». Quando o professor é chato ou oco, em torno d’elle ou do seu ensino ha indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.

Ora, d’um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière, todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e outros males.

Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de profissão. Se n’esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os auctores — quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação classica? Eu, na minha mocidade, folheei os Sermões e as Orações Funebres; mas não cheguei a penetrar, como devia, no Discurso sobre a Historia Universal. E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos, das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi inteiramente o seu apologista.

Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não sinta — e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades indefinidas, n’esse não sei que que lhe habita as fórmas e que faz com que deante d’ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades que revelou n’esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de momento historico que concorreram para o desenvolvimento d’essas qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito — e só lhe faltará o sentir, pelo gosto, esse não sei que de intimo que constitue a belleza ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que sinta palpitar o coração quando lê as Noites e a Carta a Lamartine, ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e arrumadores de generos, que Carlisle chamava os resequidos.

Além d’isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel, todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer e lubrificar, d’aquelle leite da humana bondade de que falla outro inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr. Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d’um modo bem imperfeito, uma especie de jornalista.


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O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel somma de defeitos.

Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos, está n’um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o mundo — e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente monstruosidade!

A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado, nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições funccionaes. O Times e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias, desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da vida intima, — os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam indiscretamente da reportagem miuda.

Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os tempos solidos d’Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico, com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais methodicos, ou d’alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condemnar — a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplendida facilidade declaramos, ou se trate d’um estadista, ou se trate d’um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou: «É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.

N’estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d’alto uma opinião cathedratica.

E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n’um relance, ante os nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d’aquelle inglez funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por homens côxos» — illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas opiniões.

E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma crise do Estado, ou sobre o merito de um vaudeville. Como exemplo picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos bocados de telegrammas truncados — senão receiasse entrar em um caminho escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos collegas do Paiz e do Tempo, armados da sua ferula.

Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado no Figaro de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa, e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as soldadas pelos seus lacaios!» Estes herdeiros das grandes casas de Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber o salario — fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça é o Figaro, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de Pariz — e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra, e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o Figaro descrevia as occupações da nobreza de Portugal.

Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E quando se tem como usual alimento do espirito o Figaro e consortes (e é d’estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados) facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum, comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière — um juizo ligeiro, nascido de impressões fugidias.


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A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.

Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica, sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a personalidade do auctor de Germinal, e, através d’ella, explicar a obra. Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d’esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce, não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as cocottes até aos jockeys, e desde os dandies até aos assassinos, succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o desenvolvimento da vaidade.

O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana. Em todos os tempos houve vaidosos — e não querem de certo que eu estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado cão, para que se falle d’elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano. Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso, o grande, o principal motor das acções e da conducta. N’estes estados de alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.

E d’essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém através do jornal.

«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal — eis hoje, para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração e recompensa supremas.

Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas, os homens praticam todas as acções — mesmo as boas. Não é mesmo necessario que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a personalidade em evidencia, n’uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho mais desejado que o antigo nimbo d’ouro. E não ha classe que não esteja devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano, no homem de prazer, na mulher de luxo, como n’aquelles que parecem preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n’estas semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin, e interviews nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com o habito do grande S. Domingos, exposto entre jockeys illustres e as cancanistas do Moulin-Rouge. É esta esperança do «artigo do jornal», que, como outr’ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias — e para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente, quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta: — Ah!

Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo — e estou mesmo prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito, tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres, para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!

Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière contra a imprensa — a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista, confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro impenitentemente.

Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu mea culpa e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d’isso, queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae copiosamente larga — e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus jornaes com delicia.


XV

As «interviews» — O Rei Humberto e o «Figaro» — A monarchia italiana — O que póde dizer um soberano a um jornalista — A sinceridade e o optimismo official.

 

Apesar d’esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue interviewar um rei.

(Este vocabulo interviewar é horrendo, e tem uma physionomia tão grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que exprime. O verbo entrevistar, forjado com o nosso substantivo entrevista, seria mais toleravel, d’um tom mais suave e polido. Entrevista, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso, ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente, portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e berrantes. Mas entrevistar tem um não sei que de surrateiro que desagrada — e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia impôr. Interviewar, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar resignadamente este feio americanismo — já que os nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes. Fabricae um que substitua o interviewar e sereis bemditos).

E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente, apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d’esse transcendente typo são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis, porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos, só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os reporters, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.

O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei constitucional que diz sempre — «o meu povo... o meu exercito... a minha armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação, sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e d’algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios, ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «meu povo», de «meu exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia: — para nós elle apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da unidade italiana.

Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n’uma litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo historico.

Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação, tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual — a Italia todavia nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de martyrologios.

O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima molecula social. As cidades vivem isoladas, n’um violento ciume mutuo, travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente pelos papas, que se serviam d’elles para esmagar em qualquer dos Estados a menor tendencia á hegemonia, e através d’ella á formação de uma Italia unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um soberano temporal; — e para man ter a sua independencia fomentava a desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada, retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas, jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como ré galantuomo. Victor Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico, ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d’esta prerogativa de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga, não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia (se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario irresponsavel. Humberto não — e, para elle, reinar ainda ha-de ser governar. E quando elle falle do seu povo, do seu exercito, a Europa não lhe contestará a legitimidade d’essas expressões autocraticas.

Além d’isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d’entre as sete collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d’esta supremacia que lhe é inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que politico.

Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»

Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem, em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A difficuldade unica estaria na operação da sondagem — porque, apesar de se ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o Figaro, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos, realisou esta bella façanha — e interviewou o rei Humberto. E quando elle annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de Italia, porém, é apenas o mandatario d’um povo, e d’um povo illustre nos fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O Figaro, barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então ainda não cessaram, em tomo d’ellas, controversias que me espantam, e devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.

Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas, officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços tenderão energicamente a manter a ordem, favorecer a moralidade, e promover a economia? Não ha possibilidade de que um governo se apresente gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare que vae fomentar a desordem, animar o desperdicio, e proteger a immoralidade! Os cidadãos não acreditariam: — e esse governo, talvez veridico, seria escandalosamente expulso como farçante.

Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto, de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os experientes sorriem, mas murmuram — «muito bem, muito bem!» E não tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que se preparava a fazer escandalos e prepotencias — como não permittiriam que elle n’essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae exclamando, radiante: — «Emfim, temos um governo, temos um homem que quer implantar a moralidade, garantir a ordem, promover a economia, etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre o programma e o analysam, o dissecam, tiram d’elle, por entre as linhas, esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas.

Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem, só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era humanamente verosimil que elle franzisse o sobr’olho, e exhalasse, em vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra... Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir, mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez, vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a guerra, — como que apparecesse em mangas de camisa.

E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos, com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do Destino. Uns, d’aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê provas!...» Outros, d’além Rheno, clamam: «Haverá n’estas palavras de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o Times, ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!...

A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas, ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz — ou se pende para a guerra e mortandade dos povos?


✻ ✻ ✻

De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n’uma mercearia a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou n’um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve, percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com tradicional e humana ingenuidade:

— É bom este Chablis?

O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:

— É uma peste.

O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle homem veridico. Depois repercorreu a lista.

— Bem, traga-me então d’este Medoc... É bom, o Medoc?

O criado, muito serio, replicou:

— É horrivel.

Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n’uma desconfiança vaga e escura que o invadia:

— Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?

O criado volveu, convencido e digno:

— Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!

O meu amigo tremia já, n’um positivo terror. Mas ainda balbuciou:

— Que hei-de eu então beber?

— Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente detestavel.

Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para uma tipoia e fugiu.

Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de si, n’aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, da ficção, da convenção — é bem humano.


XVI

O «Salon»

 

O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.

Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o Salão, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos social, n’esta abertura do Salão, mesmo aquellas que no resto do anno vivem tão indifferentes e separadas das cousas d’arte como das cousas da theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva, todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n’um remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia, mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa, mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n’um sentimento commum.

Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N’esse dia os artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas: — e contemplar um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para vêr Platão. No Salão, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat, repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional, vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita uma insaciavel curiosidade — como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito.

Mas no Salão ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes — a das toilettes. Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão, e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza, da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera, as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras d’arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.

D’estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar um relêvo picante e divertido á toilette e aos accessorios da ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa, recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes, com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão, calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama, tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia entre a multidão — e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a passar.

A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante, construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o pó d’arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n’uma tunica diaphana, d’um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do campo de Portugal chamadas botões de ouro, e feita certamente d’aquelle antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz e vento.

Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda, de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh’a enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello. Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que mais me impressionaram n’estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.


✻ ✻ ✻

Emquanto ás outras obras expostas no Salão, os quadros e as estatuas, a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via d’ellas (mirabile dicta! ) mais uma vez reconheci quanto é facil governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da estructura publica.

Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica, que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse ou por convicção, a que só ella prevaleça.

A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas, apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.

Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que, apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma d’essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d’uma orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva, tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um erro — e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao Salão, no dia da sua abertura, quando em materia d’Arte cada cabeça, depois de ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto, por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio, a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a humanidade é gado — e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.

Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, no Salão, a curiosidade e a admiração do publico.

Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico, ou antes o Guia Critico, do Salão, publicado pelo Jornal, lhes indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes deviam parar, e fazer ah! e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela, recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina mental.

Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista, symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses, e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.

Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias innatas». A memoria d’essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do pensamento.

É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, a quem ainda não é permittido raciocinar d’um modo differente do que raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do Figaro, ou se trate d’um vaudeville e o Ulema seja Sarcey, do Temps.

D’onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra redonda, algures, n’uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero, intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois livres!» — e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem pensar mais e sem mais querer, porque a palavra essencial foi dita, elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer e para pensar por elles.

De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser louvavel. N’esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia outr’ora a Voltaire: — «É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda: — e que, se já era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d’arte, é necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo — porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação artistica: — e n’uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d’um quadro de Velasquez e d’um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra tempo para ter bom gosto!»

Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive n’um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte, já não é permittido ao habitante d’uma capital: e os tempos vão longe em que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar, pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinellos e sem gravata. Tudo n’este nosso seculo é toilette, dizia o velho Carlyle.

O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?

N’uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como é todos os annos a abertura do Salão, cada bom burguez (para usar o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas d’arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões, como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D’ahi a um momento, dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um senhor.

Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando n’elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d’arte era Diderot e ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como um cartucho — e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.

E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d’um portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo, á entrada do Salão, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do Cavalleiro das Flores, de Rochegrosse, ou do Papa e o Imperador, de Laurens, ou da Brunehilde, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de prosa desbotada e fugaz.

Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d’arte a tres mil leguas, através d’um mero fio de rhetorica. A pintura é, segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto eu só vos poderia offerecer a descripção d’uma imitação da Natureza. Mas como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil, pelo que d’elles li n’uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E como desconfio, além d’isso, que o estudo d’esta revista era já compilado sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. O que seria petulante.


XVII

Carnot

 

O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.

Com effeito! Que rara inverosimilhança!

O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como Henrique IV ou como Marat!

Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a municipalidade de Lyão para assistir, no Grand-Theâtre, a uma representação de gala.

O seu landeau, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem, trazendo n’uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á maneira d’um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o rebordo do landeau, tocou no peito do presidente com as flôres ou com o papel. O maire de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o maire de Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n’um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o presidente para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião de Honra! E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d’esses homens que se não suppõe que possam ser accommettidos — senão para serem roubados.

Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios — porque não representava um partido e muito menos um principio. A Constituição reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias — mas eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr. Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou a reputação phantasista de ser de pau. A sua vontade immovel ou immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição. Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse mais tarde estudada n’estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa.

Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao anarchismo; — porque só os anarchistas, hoje, n’esta nossa civilisação raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns empregados do commercio sentados n’um café a beber bocks. Os seus crimes nem sómente são inuteis — são ainda contraproducentes, porque vão formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser secretamente assalariado pelo despotismo.

O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de naturalidade e residencia, n’uma rude algaravia incomprehensivel, que não é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida. Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista — porque só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita, poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr, pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d’este vez o anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende ser a expressão suprema e perfeita; — e a sua arma não era mais do que uma nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da burguezia capitalista.

Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo n’um carcere de Lyão, fez, senão uma d’aquellas «victimas de eleição» de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem lamentar com magoa pura e sem mescla d’outro sentimento. Carnot foi por excellencia o magistrado integro.

Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o mais popular talvez de todos os chefes d’Estado n’stes ultimos cincoenta annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que soube presidir com perfeita dignidade e tacto: — a suppressão do boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações que n’elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque, se não teve em politica externa d’essas ideias seguidas, novas ou fortes, que outr’ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado», mostrou na sua conducta de chefe d’Estado, exposto á observação das chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n’uma França tão digna, tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza, como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda a Europa.

Particularmente, era o mais excellente dos homens — affavel, caritativo, leal, clemente, cultivado.

A multidão que o via sempre tão teso, mettido n’uma casaca que parecia de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.

A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um sentimental.

Ha assim d’estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.

Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o Temps, resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era un brave homme. A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que tem um feitio tão simples, de brave homme. Na sua vida, na sua alta magistratura, foi sempre um brave homme.

E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor condição — porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e nunca vem senão bem de uma bondade honesta e grave.


XVIII

A morte e o funeral de Carnot

 

Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar, limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das emoções por que passou n’esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a cidade, exclamava ou balbuciava: — «O snr. Carnot foi assassinado em Lyão!» Depois d’isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar. Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.

Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma compostura calma, semelhante á de um publico n’um theatro, que, enquanto os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras, em torno d’elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia, improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e luto.

O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d’esses interesses que são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma arranhadura, quando o seu chefe morre d’uma punhalada. Outr’ora, a suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando Henrique IV é assassinado na rua de la Ferronnerie, como Carnot, toda a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento; todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama das allianças, tao habilmente urdida, n’um instante está desfeita — e ahi temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava comsigo para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas, como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os cabellos!

Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum cidadão (superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez de arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem, com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes.

Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario! O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas, embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França — apenas um bom francez de menos.

Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França, com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos. Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do chefe — e que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo ser bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que elle rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e que o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia politica — para se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no povo não póde interessar mais que a imaginação.

O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as guerras, as quedas de imperios, eram outr’ora narradas pelos jornaes no seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n’elle alvorotos violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d’um templo, põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde d’esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a Cocarde, appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga como uma pagina da Gazeta, estas duas linhas unicas, n’um typo despropositado, sem precedentes, que se avistava a uma milha: — «O embaixador de França foi assassinado em Roma!» — Vi mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos este tremendo berro typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam os vendedores, agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como sob um grande vento de medo e colera!

Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa imaginação.

De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n’elle uma tal profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação — mas a rua illuminada de uma cidade em festas, n’uma noite de gala. Todas essas flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu landeau, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa sinceridade provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da Legião de Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da França, grita — «Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade da França cáe para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, livida! Foi um qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os sapatos rotos, uma velha jaqueta de panno côr de mel, que, n’um relance, lhe enterrou um punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o braço não é mais do que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e que vem debaixo, de longe, de muito longe, das camadas escuras do proletariado esfaimado... E o landeau lá vae, lá foge a galope, entre o ancioso tropear da escolta, levando o chefe de Estado que se escoa em sangue. O Estado, recentemente para o proteger, gastára mais um milhão de francos em reforçar a policia!

Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do landeau da côrte tornado bruscamente carro d’hospital! Já para dentro saltára um cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados pelos lacaios. E assim galopa um quarto d’hora furiosamente, sob as bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão seria logo transportado, e em braços, ao pateo d’uma casa, ao balcão d’uma botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia em sangue, porque, mesmo n’uma Republica, é severa a regra do Protocollo! Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os couraceiros o landeau d’Estado, onde vagamente se agitam e brilham plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot! Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha, terrivel, quasi burlesca — o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz, a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre ovações — ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes. Passa, desapparece, n’um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco arrepiador d’aquella fralda branca e sangrenta!

Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous reporters, sofregos de se envolverem n’um acontecimento historico, se apoderam do corpo do presidente e o arrancam do landeau, um agarrando uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida ainda, estreiado n’esses dias de gala.

Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só devia recolher tarde, depois da representação de gala no Grand Theâtre; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as festas, para os fogos da Exposição: — e as luzes estavam apagadas, todos os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido, desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.

Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está passando alguma cousa de irreparavel.

Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam, se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...

Assim morria, n’esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado.

Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo, n’uma suprema decencia: — e em torno d’elle não havia senão os brancos marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.

Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as suas insignias — e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas. Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as suas luvas novas. Estas luvas d’além da campa, muita gente as acha estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um pagem.

Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.

Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro perfeito e lhe chamou, sorrindo, seu filho. Assim, através das edades, a tradição liga Carnot a Roldão.

Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade, um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor, deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e coberto de crepes. D’uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot, vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n’um carro sem solemnidade civil e religiosa; e á pressa, n’um trote fugidio, através das ruas mais desertas, onde clareava a madrugada, levam-n’o para o Elyseu. O morto como que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d’elle, pelas ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um fiacre, com vadios e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho remate de uma noitada estroina — seguir n’um fiacre o cadaver d’um chefe de Estado!

Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz, n’uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas ao presidente que passa para o Pantheon.

Funeraes magnificos, de certo — mas de uma magnificencia muito cerceada pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto: — e o severo gosto, em França, não permitte n’estas pompas outro luxo, além do luxo das flôres. Tudo o que outr’ora na antiguidade, e depois na Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres — a sumptuosidade dos trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas, os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas purpuras, as suas casulas de ouro — toda essa magnificencia esthetica aqui falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia, prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos. As flores que lhe offertou, foram incontaveis, custaram mais de tres milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz. E toda a França organisada, desde os corpos d’estado até aos clubs gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria reconhecida reserva aos Grandes Homens.

Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos, e em breve murchos.

E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas d’um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam, n’uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia. Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão á impressão dormente d’um mudo e lutuoso perpassar de fato preto.

E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar mais a emoção artistica d’esta pompa, a memoria de outras pompas, a de Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em longas milhas, calças pretas, casacas pretas.

Uma novidade, porém, e singular, impressionava n’estes funeraes de Carnot: — e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor, se entreviam n’um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes, appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de Lyon.

Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope, n’uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario. Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes, livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia, abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!

Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de Pariz o radicalismo compungido — e é para os altares que o vae levando.

Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d’um cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n’uma evidente mostra de humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n’este cortejo derradeiro de Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as unhas, horrendamente humilhado.

Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte, espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n’este fim do seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n’este mesmo dia dos funeraes, e pela voz d’um dos seus melhores espiritos, o declarou, com aviltante desdem — um producto de exportação!

Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em Pariz — producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. Sic transit gloria diaboli.

 
FIM