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Os Filhos do Padre Anselmo
por António José de Albergaria


Índice[editar]

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo I: Os irmãos da mão negra


O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.

Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio.

— Aquelle anda adiantado cinco minutos — murmurou.

E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.

Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle.

— És tu, Paulo? — disse de dentro uma voz.

— Sou.

— Entra depressa, que a noite está agreste!

E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.

Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro:

— Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.

— Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

— De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.

— Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.

— Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...

— Dou. Mas se o fizesse?

— Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

— Apre! — fez o outro, sorrindo — vocês são intransigentes!

— Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.

— É justo.

— Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.

— Poderei dizer que fallei comtigo... — gracejou o outro.

— Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a gente...

— Fallemos sério! — tornou o moço que dava pelo nome de Paulo. — Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?

— Assevero-te que os irmãos da Mão-negra comprehendem e cumprem á risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.

— Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da mulher que amo?

— Decerto — volveu o outro. — Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção da Mão-negra se resume em tornar felizes e ricos os seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia.

O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.

— No emtanto — accrescentou ainda Jorge — os fins e intuitos da Associação vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...

— Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu caracter! — protestou o mancebo.

O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta quinta murada.

Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.

— Chegámos! — disse elle.

Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.

— E o cocheiro? — perguntou o mancebo. — Não receias a sua indiscreção?

— É um dos nossos irmãos — respondeu simplesmente o outro.

— Apre! — tornou o mancebo alegremente. — Eis aqui o que se chama um serviço bem montado!

Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo em silencio.

— Já estamos em casa! — disse Paulo.

— Porque? — perguntou o outro.

— Sinto-o pela differença de temperatura.

— Ainda não... Vamos entrar agora...

E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.

— Pódes tirar a venda — disse Jorge.

O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.

Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um olhar de glacial indifferença para a caveira.

— É singular! — pensou comsigo. — Entro na vida pela visão da morte!

Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa resoar na sala:

— Medita! — disse aquella voz.

O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.

Não viu pessoa alguma.

Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não descobriu a porta por onde tinha entrado.

Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o poderia fazer, por não encontrar sahida.

Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.

— Medita! — tornou a voz a repetir.

Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando fito a caveira.

N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.

Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da Mão negra, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos com animo sereno e tranquillo.

— Principiou a prova! — pensou — julgam-me uma creança assustadiça, capaz de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.

E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:

— Detem-te! O que ias fazer?

— Tocar n'esta caveira — respondeu o mancebo com voz tranquilla.

— Com que fim?

— Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.

— Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?

— Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...

— E depois?

— Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.

— Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e impuros?

— Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.

— Materialmente, disseste?

— Disse.

— Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do Nada?

— Não.

— Explica-te.

— Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.

— Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?

— De um meu irmão.

— É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será d'um plebeu?

— Ignoro.

— Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?

— Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito dos vivos.

— Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?

— Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou na humanidade emfim.

— Tens religião?

— Tenho.

— Qual?

— A do Bem.

— A que vieste?

— Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.

— Sabes o sacrificio a que isso obriga?

— A todos os sacrificios me sujeito.

— Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição para seres admittido entre nós.

— Acceito-a.

— Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, familia — tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.

— Obedecerei.

— É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?

— Sem a menor hesitação.

— Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por toda a parte. A Mão-negra, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um escravo — d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti; o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes, da nossa Associação. Terás força para tanto?

— Terei — respondeu firmemente o mancebo.

— Pareces corajoso — observou a voz mysteriosa — pareces ter em pequena conta a propria vida.

— Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.

— A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é iniquidade. Os irmãos da Mão-negra não teem o direito de discutir e apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas terás que obedecer.

— Experimentem.

— Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil, outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a vida, — vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde vieste.

— Não! — respondeu o mancebo com energia — Eu não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos.

— Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á prova! — ordenou a voz.

Paulo estendeu a mão sobre a caveira:

— Juro — disse elle — que desejo ser um dos irmãos da Mão-negra e estou prompto a submetter-me á prova que me for imposta!

Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos aguazis do Santo Officio.

Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em seguida disse:

Á prova!

Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.

— Quem sois? — perguntou de dentro uma voz, sem abrir.

— Irmão — respondeu o mysterioso guia de Paulo.

— D'onde vindes?

— Da Ala negra.

— Que trazeis?

— Um novo braço.

— Que busca elle?

— A mão.

— Quem vos guia?

— S. Miguel.

A porta abriu-se.

— Passae! — disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz.

Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma phantastica mão negra, que pendia do tecto.

Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz do habito.

Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia.

Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e immovel.

O irmão introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.

— Que quereis, irmão? — interrogou o vulto que se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da seita.

— Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que pretende entrar na ala como combatente.

— Fiaes d'elle?

— D'elle fio, senhor!

— S. Miguel vos proteja!

— O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á parede, em fila com os seus companheiros.

Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.

— Que pretendeis, mancebo? — interrogou o chefe.

— Combater.

— Que armas trazeis?

— A submissão, a energia e a lealdade — disse Paulo.

— Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que vos falta?

— A força da Mão-negra.

— A Mão-negra só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os timidos nem os cobardes.

— Não o sou.

— Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?

— Estou prompto!

— Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides emprehender.

— A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.

— É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração, o objectivo da existencia.

— Tudo sacrificarei aos meus irmãos.

— É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer antes de chegardes á Mão-negra, encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer. Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.

— Irei e hei-de chegar.

— Pois bem, vinde!

Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:

— Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que S. Miguel — que venceu o dragão — vos dê força e coragem.

O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia.

A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.

Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.

O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas, nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.

Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente, tornando mais densa a treva do corredor.

Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um lago.

A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas vinham açoitar o rosto de Paulo.

Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.

Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e com ella o ruido pavoroso da corrente.

A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.

Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.

Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a menor contusão.

Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel lhe despertou a attenção.

Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella hiante.

Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.

Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou, avançando para as féras:

— Antes morrer que recuar!

Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.

A porta abriu-se.

— Entrae! — disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo, recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.

Paulo entrou.

— Ides dar-nos a ultima prova — propoz o chefe. — Aqui tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é preciso eliminar... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.

Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou espantado, soltando um grito terrivel:

— Ella! — bradou o pobre rapaz afflictivamente.

É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da Mão negra!

— Hesitas? — perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na voz. — Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás restituido á liberdade.

No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude, todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!

E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!

Era horrivel!

— Decide-te, mancebo! — tornou o chefe — Ou cumpres corajosamente os mysteriosos designios da Mão-negra, ou recusas e vaes em paz com a tua cobardia!

Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra cobardia, o mancebo apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse, rangendo os dentes:

— Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher?

— Nada!

— Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais horrenda, — não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!

— Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?

— Cobarde nunca! — bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera terrivel — Bem vêdes que não é o meu braço que treme — é o meu coração que lucta!

— Vence-o!

— Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me mandaes anniquilar com aquella existencia!

— Está condemnada. Decide-te! — tornou a voz — Partes ou ficas?

— Pois bem, fico!... para partir com ella!

Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.

— Beatriz, perdoa-me! — murmurou elle. — Não é a ti que eu apunhál-o, é a mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!

Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou do peito da victima, que não soltou um gemido.

O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos e immoveis:

— Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo como se mata e como se morre!

E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no coração.

A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma homicida.

Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de encontro ao corpo.

— Mas o que é isto? — disse elle indignado, quasi sem comprehender. — Estamos nós representando uma farça?

— Não, meu amigo! — respondeu amavelmente o chefe — estiveste dando-nos a prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um irmão de tanto valor!

Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a amada de Paulo, continuou:

— Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.

O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia.

— Foi, pois, uma simulação de morte — proseguiu o chefe — O valor moral da acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da Mão-negra...

— E matar-me em seguida! — accrescentou o mancebo.

— É a unica porta que resta aberta aos nossos irmãos para se separarem de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam indignos de pertencerem á nossa Associação.

— Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem — disse Paulo.

— Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova. Serás um bom irmão da Mão-negra e auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a tua admissão. Queres prestar juramento?

— Sim!

— Irmão Golias! — ordenou o chefe — vendae os olhos ao neophyto!

Destacou-se da parede o irmão que já havia sido o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.

— Vendam-se-vos ainda os olhos — disse este — não porque esteja no nosso animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa Mão-negra.

Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.

— Irmão Golias! — disse o chefe.

— Eis-me, senhor!

— Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?

— Do fundo da minha alma.

— Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.

O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata coberta por um crepe.

O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena deveras surprehendente.

De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se, transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.

Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha reliquia, e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.

Ao mesmo tempo uma voz resoou:

— Está aberto o templo!

Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra um punhal.

Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do templo, abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes desembainhados.

Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o ruido dos passos.

Então o chefe, erguendo a voz, disse:

— Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da Mão negra? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação? Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os sentimentos do teu coração?

Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:

— Juro!

Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:

— Irmão David, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de Mão-negra!

Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.

— Tirae a venda, irmão — ordenou o chefe — para que toda a luz se faça aos vossos olhos!

O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava á sua vista.

Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados ao novo irmão.

Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.

O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.

O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na testa.

— Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala! — disse elle.

A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.

Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do throno, dizendo:

— Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno d'elles.

Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um abraçál-o e beijál-o na testa.

— Irmãos! — disse o chefe do alto do throno — vae reunir o sublime capitulo. Está encerrado o templo.

As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que caminho levavam.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo II: Amôr e esperança


Deixemos os mysteriosos irmãos da Mão-negra seguir o caminho que os havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.

Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em seu irmão, regressou á cidade no mesmo trem que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua proxima da de Cedofeita.

Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.

O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.

Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da perdiz.

Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina disse, tremula e quasi sumida:

— Como vens tarde, meu amigo!

— Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz.

— Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou afflicta!

— Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...

— Paulo... — gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da grade — não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!

— Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço! — supplicou o moço — Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?

Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento, occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.

— Paulo, — disse ella — meu pae... quer casar-me!

O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta pancada no peito.

— Quer casar-te! — exclamou. — E com quem?

— Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos amigos de meu pae...

— Dize-me o nome d'esse rapaz! — intimou desvairadamente o moço.

— Eugenio de Mello — soluçou Beatriz.

— Eugenio de Mello! — repetiu o mancebo. — Esse nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.

— Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de meu pae...

— Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração não repelliria um semelhante enlace.

— Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende!

— É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento em que tu nem sequer tinhas pensado?

— Sabes que meu pae — volveu Beatriz — habituou-se a contar com a minha obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina...

— Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.

— Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao de um homem que elle julga digno de mim.

— E se de facto te não repugna... obedece-lhe! — bradou o mancebo n'uma voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.

— Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas palavras! Não te mereço isso...

As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora, pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.

— Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas desculpal-o?

— Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.

— Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?

Beatriz pareceu hesitar na resposta.

— Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que devo fazer...

— Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te responda e te diga a resolução que deves tomar...

— Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...

— E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?

— Oh! não, não, Paulo!

— N'esse caso, o que receias?

— É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...

— Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...

Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito, não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações offensivas da mulher que adorava.

— Paulo! — tornou a chamar a joven. — Escuta-me! Que singular prazer tens em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua piedade!

— Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?

— Eu...

— Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...

— Oh, não! — accudiu a joven, com impeto. — Eu não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo fazer...

— O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo, porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho. Paciencia!

— Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.

E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:

— Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver e de nos relacionarmos — mudanças que eu não posso prevêr por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o nosso coração — eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que o meu amôr me dá direito...

— Beatriz! — exclamou o mancebo — quando se ama como eu te amo; quando se sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão fervoroso culto!

— Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?

— Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios... — disse o mancebo, pallido de commoção.

— É que tu não conheces meu pae!

— Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.

— Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.

— Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho amigos — continuou Paulo — amigos poderosos, contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como irmãos e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança em mim, que havemos de vencer».

O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras pareceu transmittir novo alento á joven.

— Luctarei — disse ella — e agora com mais energia, desde que nas tuas palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte cruel e adversa!

Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.

O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.

Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao lance ingenuamente sentimental.

Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.

Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e ingenua leitora das novellas de Camillo?

Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor — a emphase, o arredondado do periodo, a declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso coração de creança.

Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.

Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa saber ao leitor inimigo de divagações.

Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.

O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da Academia.

O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.

Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que o seu estudante o fosse visitar duas vezes por semana, nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.

Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha no seu coração o primeiro logar.

Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo não pôde dormir.

Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso que encobria o seu nascimento.

No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:

— Diga-me, padre: quem é meu pae?

O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos.

— Porque me fazes essa pergunta, Paulo? — disse por fim.

— Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu o mancebo com firmeza.

O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a olhal-o fixamente.

— Paulo — disse elle afinal — se dizes que és um homem, como póde influir no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino que lhe está traçado.

— Perdão, meu bom amigo! — objectou Paulo — Todo o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu pae?

— Teu pae — tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do sobresalto que lhe causára a pergunta — teu pae é ou foi um homem. D'isso não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te apresentas.

— Mas não tinha nome esse homem?

— Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.

— Nem o nome de minha mãe?

— Nem o nome de tua mãe.

— Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?

— Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te chamasses.

— Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram, porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?

— A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de seus paes.

— Mas eu não censuro, nem sequer discuto! — obtemperou Paulo — eu apenas pergunto.

— Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo, que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que por emquanto deves ignorar?

O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:

— Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir na minha estranha situação...

— Falla, meu amigo, falla! — animou o padre bondosamente — e crê que, a não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua confiança.

— Pois bem! — tornou Paulo — ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha familia», só eu não posso dizer — meu pae, minha mãe, porque são entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos, reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que póde fazer falta a outro desgraçado como eu!

— Paulo! — disse o padre Filippe, fundamente commovido — és ainda muito novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.

— É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim? — perguntou o mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.

— Não! Não! — atalhou padre Filippe. — Eu recebi de um meu superior, a quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na sociedade.

Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e doçura, impressionaram-n'o profundamente.

— Estou então condemnado — disse elle, passados instantes — a ignorar toda a vida o nome de meus paes?

— E de que te valeria o sabel-o?

— De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!

Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe:

— Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios, pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se desmoronou...

— Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra! — retorquiu o mancebo.

— Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado, Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.

O mancebo guardou silencio por alguns instantes.

— É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?

— Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a palavra esmola. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me — continuou o padre Filippe — tens ido visitar madre Paula?

— Ha mais de quinze dias que a não vejo.

— És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas de carinhoso affecto te tem dado?

— Padre — disse Paulo, ruborisado — eu não esqueço, nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella existencia para mim tão cara!

— Luctas imprevistas, incidentes inquietadores... — O que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á tua confiança... Ou não?

— Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que lhe parecerão talvez pueris...

— Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos! quem é a tua Virginia, meu Paulo? — perguntou jovialmente o sacerdote.

— A minha Virginia — disse o mancebo, com enthusiasmo — chama-se Beatriz, e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora do Dante.

— Bravo! — exclamou rindo o padre Filippe. — Temos, pois, em perspectiva uma comedia divina, para fazer confronto com a Divina Comedia...

— Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na historia dos soffrimentos humanos...

O padre encarou-o gravemente.

— Fallas serio, Paulo?

— Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a historia do meu nascimento.

— Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são curiosas por indole...

— Não, não! — atalhou Paulo. — A mulher que eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.

— Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?

— Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a alliança de um homem de origem... desconhecida.

— Foi essa menina quem t'o disse?

— Disse-m'o a minha propria razão.

— Queres um conselho, Paulo? — perguntou inopinadamente o padre Filippe.

— Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que lhe devo.

— Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do seu amor.

— Já o sou.

— Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...

O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe, que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.

— Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma coisa — continuou o sacerdote — Ora esse mais alguma coisa é que está na tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.

— Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro! — exclamou o mancebo, dando largas ao desespero que lhe ia na alma.

— O pae d'essa menina sabe que ella te ama?

— Não sabe.

— É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que para todos os paes deve ser sagrado — a ausencia absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado caminho a que o coração te propelle — accrescentou o padre — Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.

— Procural-a-hei — disse Paulo — mas creio bem que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me homem para conquistar a posse da mulher que amo!

— Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante. D'isso pódes estar certo.

— Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de vossa reverendissima — que são tambem os meus.

— E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição distincta na sociedade quem não quer.

Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo III: Pae e filha


Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o sombrio progenitor da encantadora menina.

Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos olhos.

Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a palavra — Hypothecas.

— Estas bem estão — murmura elle coçando distrahidamente com a mão direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique — Estas bem estão... O peor são as outras...

Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de mau humor.

— Aqui está! — disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os papeis — Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as propriedades pelo preço da louvação...

Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.

Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe ensombrava o barbudo rosto.

Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo contentamento e exclamou:

— Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!

— Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.

— É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o juro por pagar! — exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas que tinha diante de si.

— Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?

— Você o dirá, amigo Belchior.

— O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!

— Sim?

— Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.

— Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os?

— Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto melhor...

— Tanto melhor, como? — interrogou o sr. Custodio de Jesus, indignado. — Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!

— O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o que não sabe é nada de jurisprudencia — disse o Belchior com emphase. — É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é dos meus constituintes...

— Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha. Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra cá!

— É o que eu digo! — volveu o procurador com desdem — não sabem nada da lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!

— Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.

— É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus — respondeu o procurador, formalisado — não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais pessoas de familia.

O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.

— O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.

— Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?

— Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de Beatriz. — Porque não estudou você para doutor?

O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:

— Não me faz falta — disse. — Conheço tão bem a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.

— Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...

— E ella, o que respondeu?

— Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.

— Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?

— Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...

— Bem! Mas supponha que ella recusa...?

— Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura, capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?

— Mas supponhamos que recusa! — Insistiu ainda o procurador.

— Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade differente da minha.

— Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...

— Por que?

— Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado, não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...

— O que quer dizer com isso, amigo Belchior?

— Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o fazer que ella obedeça á sua vontade...

— Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa n'essas tolices! — protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho. — Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!

— As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas... — commentou o outro.

— As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...

— E se se desse?

— Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?

— Se se desse, é o que eu pergunto? — retorquiu o procurador com um sorriso mysterioso.

— Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á egreja casar com quem eu dissesse! — bramiu o sr. Custodio de Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em divida. — Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!

— Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas levam-se com prudencia...

— Diga, diga, homem! — insistiu o capitalista afflicto. — Sabe que a minha filha...

— Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.

— Você falla serio?

— Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.

Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.

— Você não me repita isso nem a brincar! — bramiu elle — porque eu vou-me áquella desavergonhada e racho-a!

— Mau! assim não fazemos nada! — reprehendeu o procurador — Aqui o que convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve possivel...

— Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?

— É um estudantito... um rapaselho.

— Rico? — interrogou o Custodio arregalando os olhos.

O procurador soltou uma gargalhada.

— Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro tão cedo...

O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar attenção ás palavras do procurador.

— Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar! — blasphemava elle — Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe os menores movimentos, tenha dado por isso!

— Amigo Custodio — obtemperou o procurador — não vale a pena affligir... Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa para saber como ha de proceder...

— Como hei de proceder sei eu! — rugiu colerico o pae de Beatriz — Ponho-a de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de servir, que seja criada de servir em tudo!

— Homem, eu desconheço-o! — reprehendeu severo o Belchior — Tinha-o na conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices e disparates que não lembram a ninguem!

— É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres! — explicou o Custodio — Esta filha veio para meu castigo!

— Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso; já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é melhor...

— Tem razão! — concordou por fim o Custodio — Mas olhe que é para um homem arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu! — desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento — Eu fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas gazetas...

— Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...

— Foi ha dezoito annos...

— Sim... ha de haver esse tempo, ha de...

— Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João Ignacio...

— Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um padre...

— Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos contos!

— Vamos lá! — observou sorrindo o procurador — Parece que ainda lhe não levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados.

— Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para cá — explicou o Custodio.

— Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda vez.

— Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...

— Ah! então Beatriz...

— Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me!

— Enganou-o... quem?

— A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte!

— Está feito!

— Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte — que ella vinha arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa — tive de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a minha herdeira.

— Por esse lado, tem o meu amigo razão — concordou o procurador — mas tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde levar...

— Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem quizesse! — recalcitrou o Custodio, indignado.

— As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta pequena... — philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso desdenhoso. — Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar com o Eugenio de Mello...

— Fortuna... para ella!

— E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não lhe vem a administração do casal parar ás unhas?

— Isso ainda está em vêl-o-hemos... Se o rapaz ganhar juizo...

— Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...

— Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer? — perguntou o Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.

— Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o golpe de misericordia... Percebe-me agora?

O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer os escaninhos da lei, segundo a phrase pittorêsca do procurador.

— Você — disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior — é dos de estrella e bêta e pé calçado!

— Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem fino...

— Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não me tinha deixado roubar!

— Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia farinha! — blasonou basofiento o procurador. — Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã mas vão tosquiados!

O Custodio suspirou:

— Aquelle ladrão! — exclamou n'um surdo rancôr — roubou-me por eu o não conhecer a você!

— Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...

— A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu disser!

— Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a...

— Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...

O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral e pollegar.

— Se convem! — disse elle — É uma pechincha! É um negocio de costa acima! Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!

— Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de a domesticar...

— Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor... — aconselhou o procurador.

— Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...

— E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de alferes...

— Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...

— Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á espera.

Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.

— Mas você apparece por cá? — disse o pae de Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior.

— Sim, amanhã...

E dirigiu-se para a porta.

— Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?

— Não tem duvida... Disponha você a pequena.

Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou a filha.

Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia e bondade que respirava.

Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.

— Aqui estou, meu pae — disse ella.

O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:

— Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?

— Já, meu pae... já pensei... — tartamudeou a pobre pequena, commovida.

— E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?

— Não, meu pae...

— Não?! — exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto. — E porque?

— Porque não me sinto ainda com disposição para casar...

— Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a disposição vem depois...

— Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse a menor sympathia...

— Sympathia! — bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu desespero. — Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado — e ainda que o fosse, não se perdia nada — porque é que elle não te hade ser sympathico?

— Será para outras, mulheres, não para mim... — atreveu-se a dizer Beatriz.

Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos annos contra as mulheres.

— Que pouca vergonha é essa?! — berrou elle, levantando-se e encarando a filha, rubro de colera — Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?

A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.

— Meu pae! Meu pae! — bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as mãos postas — pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso!

— Deixemo-nos de comedias! — rugiu o Custodio n'um recrudescimento de ira — Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!

Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:

— Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este casamento que o meu coração não póde acceitar!

— Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é aqui chamado!

A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.

— Minha mãe — disse ella em voz calma e firme — não me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.

Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.

— Cale-se! — não me falte ao respeito!

— Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.

Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo a historia do seu nascimento.

Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma filha obediente e submissa, como ella era.

Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara.

A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.

Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.

Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do mundo e da propria victima.

A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa.

Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no fundo do coração e que fazia objecto do seu culto: — o respeito pela memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.

O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta começa o respeito acaba.

Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o coração.

— Já disse! — volveu o descaroado pae. — Quem manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.

— Viva não me levarão á egreja! — respondeu firmemente a pequena.

— Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou seu pae?

— Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como escrava.

— Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que póde dar-lhe respeito na sociedade?

— O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.

— Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?

— A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.

O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se.

— Isso são frioleiras de romances! — gritou elle — . A menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.

— Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso recusar-me-hei.

— Veremos!

O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.

— Que tal está a bisca?! — rosnova elle, no auge da furia. — Bem se vê que não é minha filha!

Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um violento desespero.

— E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com prudencia! — regougou por fim. — A prudencia era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer basta! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia casar com quem eu quizesse...

De repente parou como ferido por ideia subita.

— E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim.

Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.

A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:

— O pae deseja alguma coisa?

— Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...

O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:

— Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito longe.

— Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?

— Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...

— Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração não póde acceitar... É isto desobediencia?

— Filha! mas tu matas-me com essa recusa! — exclamou o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme contrariedade.

— Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu pae?!

— Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença de morte contra mim!

Beatriz empallideceu.

— Não o comprehendo, meu pae — balbuciou ella.

— Eu te explico, minha filha...

E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu:

— Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz, mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha horrorosa situação...

Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe interessa.

— Ouves, Beatriz?

— Ouço, meu pae.

— Da minha horrorosa situação! — tornou o sr. Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: — Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas, ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!

Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:

— Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se afflige?

— Filha! — tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz — estou pobre... estou arruinado e só tu me pódes salvar!

— Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?

— Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo... — não o posso negar, é meu amigo!... — tem-me valido com a sua amizade, abonando-me importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.

E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:

— Então, Beatriz, o que dizes?

A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:

— Digo que é uma grande desgraça, meu pae...

— Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.

— Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...

— Não te comprehendo, Beatriz! — exclamou o sr. Custodio — O que queres dizer?

— Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria mais...

— Porque, minha filha?

— Porque eu não o amo.

— Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.

— Mas eu não necessito de coisa alguma! — protestou vivamente Beatriz.

— Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...

— Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho — acudiu corajosamente a nobre menina. — Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, viveremos remediados e livres de maiores privações...

— Tu estás doida! — berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha. — Bem se vê que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!

— O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que preço fôr...

— Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!

— Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um affecto que eu não posso sentir por elle!

— Historias! Affecto não é coisa que se coma!

E recahindo nas lamentações primitivas:

— Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a minha desgraça!

Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.

Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.

O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:

— Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!

Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:

— E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?

— Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!

— Mas haviamos de viver...

— Viver como? — interrogou o sr. Custodio impaciente.

— Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...

D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão habitual.

— Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso de teres causado a morte de teu pae!

Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.

— Mato-me! — continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero que lhe ia na alma — mato-me, porque não tenho animo para soffrer os horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa traz comsigo!

— Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir aos golpes da adversidade.

— Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!

Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, perguntou:

— O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de teu pae!...

A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar abertamente.

— Meu pae — balbuciou por fim — deixe-me ainda reflectir até amanhã.

O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar a victoria.

— Amanhã será tarde — disse elle — A resposta tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o sei!...

Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:

— Paciencia! Tinha de ser assim... seja!

E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:

— Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!

— Meu pae! — disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela commoção — Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem que eu falle primeiro com esse rapaz!

— Com quem? — interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.

— Com esse... sr. Eugenio.

— Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, filha!

— Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a declaração de que me quer por mulher.

— E casarás?

— Casarei, se não houver outro remedio.

O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.

— Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.

E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo IV: Dois patifes


O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira, conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.

Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado, mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.

Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.

Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.

— O velhote está enthusiasmado — diz o procurador — e o meu amigo apanha, além de uma linda mulher, uma bôa maquia — uma maquia de se lhe tirar o chapéo!

— Pois é o que se quer — responde o outro — o que se quer é massa. Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?

— Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve ter para mais de setenta contos.

— Menos mau! — considerou o bohemio, piscando o olho. — Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer estes dez annnos mais chegados...

— E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da mãe? — accudiu o procurador. — Esses é que lhe passam já para as unhas assim que o casamento se fizer...

— Vinte contos... que diabo! — tirando-lhe as commissões, o que é que me fica? — considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.

— Sim, que você agora tem mais! — contraveio o procurador sarcasticamente. — Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem mais querem!

— Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...

— É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?

— Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...

— Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.

— Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos. Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte contos, não é isso?

— Perfeitamente.

— Você quanto leva de commissão?

— Trinta por cento, por sermos amigos.

— Obrigado! — respondeu o bohemio zombeteiramente — trinta por cento sobre vinte contos, são seis contos de réis...

— Muito justos.

— E venho eu a ficar só com quatorze!...

— E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é dinheiro...

— Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?

O procurador fez uma carêta.

— Você está a fazer-se de manto de sêda! — disse elle descontente. — Se acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.

— O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer acreditar...

— Com os diabos! — gritou o procurador arreliado. — E os setenta contos do velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho estique o pernil? Não que o meu tempo é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!

— Bem sei — tornou o Mello — mas eu é que tambem não estou para perder a minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde pague...

— Mas você póde arranjar uma coisa.

— O que é?

— Faça uma concordata com elles antes de casar...

— Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são privilegio do commercio honrado... — considerou epigrammaticamente o estroina.

— Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem alguma coisa.

O Mello pareceu meditar.

— Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não iria muito longe...

— Menos a mim! — protestou o procurador — a mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro.

— Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para liquidar de prompto antes de casar?.

— Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá arranjarei isso da melhor maneira...

— Abona você o dinheiro?

— Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos.

— Pois bem, arranje lá isso.

— Ora agora — tornou o procurador — temos ainda uma questão a decidir...

— Diga lá.

— O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe essa caraminhola em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava a filha...

— Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...

— A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa?

— Disse e ha.

— Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...

— Para que?

— Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.

O bohemio soltou uma gargalhada.

— Você é o diabo, Belchior! — disse elle.

— E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de reis representados em letras, tambem se arranjam com acceites valiosos e de muito credito...

— Como?

— Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia. Comprehende?

— Não comprehendo muito bem...

— Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer provar que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus acceites, que você tem igualmente de me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?

— Agora, percebo!

— Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?

— Em Borba.

— Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a certidão.

— Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao Custodio?

— Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois fallaremos...

— E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do que o franganito que lhe anda a arrastar a aza? — disse o bohemio.

— Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...

— E escolhem sempre o peor...

— É a unica probabilidade que você tem a seu favor! — exclamou o procurador rindo — Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!

— Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!

Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.

— Ora agora — disse por fim o Mello — não se esqueça de que estou a precisar de dinheiro.

— Já?

— Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros terriveis!

— Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.

— E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...

— Mas você, que diabo! está hospedado no Francfort, um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer fóra...

— Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.

— Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres da noiva estão espatifados...

— Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?

— Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de defuncto...

— Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos convier...

— Você seria capaz d'isso? — interrogou o procurador com um sorriso indescriptivel de cynismo.

— Nós somos capazes de muito mais — respondeu o Mello, frisando intencionalmente a palavra nós.

— Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou sem dinheiro...

— Pois sem massas não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle Suisso teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns amigos depennados, que se encostam e que não ficam baratos...

— Mande-os trabalhar! Sucia de vadios! — aconselhou o Belchior, indignado.

— Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de povo e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a pastilha que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles...

— Você tem razão! — disse o procurador — Mas, com os diabos, gaste menos.

— Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as massas, porque eu preciso de mostrar quem sou.

— Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado! — clamou o procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.

O Mello riu com vontade.

— Você nasceu para mim, e eu nasci para você! — disse elle. — Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro.

O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com um livro na mão.

— Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro — disse.

— Quanto?

— Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?

— Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!

— É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.

— Ladrão! Roubar ao inferno! — clamou o Mello em tom de amigavel censura.

— E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu!

— Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as industrias! — retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.

— O que me anima é que o gado ruim não tem perigo — disse Belchior gracejando.

O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.

— Você ande-me com o velho! — disse elle. — Não o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.

— Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!

— Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas...

— Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!

— Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não é tamanha como parece...

Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.

— Isto é que é um mariola! — murmurava o procurador satisfeito. — Não ha dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar mal este patife!

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo V: Madre paula


Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da Irmã Dorothêa certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.

Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.

A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e constante director espiritual.

Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes a communicar-lhe.

A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da mais solida confiança.

— Sabes, minha querida amiga? — disse-lhe o padre Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces — tive hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã Dorothêa...

— Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e conta-me: como está elle?

— Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto á bóla, o rapaz tem-n'a um pouco transtornada...

— O que! que dizes tu? — perguntou madre Paula com visivel interesse — Notaste n'elle qualquer alteração?

— Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem é meu pae?!»

— Elle fez-te essa pergunta?

— E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.

— Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante coisa?

— Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o fez.

— E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa creança?

— Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi isso o que fiz.

— Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?

— Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario n'aquella alma juvenil...

— E indagaste?

— Indaguei e soube.

— O que é, pois?

— O nosso Paulo ama!

— Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!

— Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...

— Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso protegido...

— Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma d'ellas...

— Sempre optimista, sempre! — disse madre Paula com um sorriso de leve censura. — Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o segredo do seu nascimento...

— Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã — replicou o padre Filippe — Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber quem são ou quem fôram seus paes...

Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.

— Creio que fizemos mal — disse ella — em dar a esse rapaz a educação livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario de Paulo.

— Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da vida — retorquiu o padre Filippe. — A educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito, e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não é mais um homem são — bom ou mau — é um hypocrita; isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.

— Elle é filho do padre Anselmo! — disse madre Paula — e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que arrecear-se.

— É tambem filho da irmã Dorothêa — atalhou o padre Filippe — e é possível que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais tornámos a vêr!

— É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito d'essas tres creaturas! — exclamou madre Paula. — Parece incrivel que até hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!

— Como sabes, minha amiga — ponderou o padre Filippe — nas congregações jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas grandezas...

— Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!

— Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...

— Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse homem, que tão profundamente detestava agora!

— Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?

— Ella propria m'o confessou.

— Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na santa vinha do Senhor.

— Se tudo se passou como suppões — ponderou madre Paula — se realmente o padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella cruelmente engeitou...

— Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem podemos obtel-as d'ella...

— Mas é ingrata! — repetiu ainda madre Paula. — Por quanto procederia eu de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante nos meus affectos?

— Minha querida amiga — volveu risonho o padre Filippe — eu sempre fiz justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...

— Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!

— Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.

— E agora?

— Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha velhice. Bemdita sejas!

E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.

Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:

— Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me faltasses, morria!

— Se o amôr é a vida — tornou-lhe o padre Filippe — se é a grande lei universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?

— Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos abysmos da desgraça irremediavel.

— O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.

— Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.

O padre Filippe sorriu.

— Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora! — acquiesceu elle — Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.

— Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe — disse ainda madre Paula — Não posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu, talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida, immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.

— Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.

Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.

A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.

— É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo! — murmurou ella. — Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VI: Á hora da morte


Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.

O padre Filippe não se tinha ainda deitado.

Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar do frio cortante da noite.

— É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias missa aos Grillos? — perguntou ella.

— É aqui. O que deseja?

— É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar; e eu venho cá vêr se v. s.ª faz a esmola de a ouvir de confissão...

— Onde móra essa mulher?

— Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois passos, e se v. s.ª fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um instante!...

— Espere ahi, que eu desço já.

Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto, pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.

— Vamos lá! — disse elle.

Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.

— Seja pelas almas! — lamuriava ella. — Está a pobresinha a appellidar por um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem se confessar, e não havia uma alma de Christo que se arresolvesse a vir chamar v. s.ª ou oitro qualquer que lhe deitasse a assolvição!

— Não tem familia essa mulhersinha? — inquiriu o sacerdote.

— Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter quem lhe chegasse uma sêde d'auga!

— Coitada! — lamentou o padre Filippe.

— Mas que! — tornou a mulher — a gente támem sêmos probes... támem temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem nol-o vem trazer... De sorte que a probesinha tem passado muita necessidade...

— Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?

— No isprital, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe dezia: «Ó sr.ª Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a arrecolhiam no Azylio das velhas?» Mas ella: «que não, e que não», nem queria que lhe fallassem n'isso!

Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da rua escancarada.

A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares superiores, gritou:

— Ó sr.ª Izabelinha, alumeie, que vae aqui o sr. padre!

No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz d'uma candeia de petroleo.

— É vocemecê, sr.ª Barbora? — perguntou uma voz lá do alto.

— Sou eu, sou, alminha do Senhor! Alumeie, que não vá este senhor cahir...

A sr.ª Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.

E voltando-se para o padre Filippe:

— É melhor v. s.ª agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais facel do que aleijar-se...

O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava.

Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada, e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima ascenção.

Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula parou offegante e cançado.

— É cá muito em cima! — disse elle.

— E as escadas são ruins d'assobir, meu senhor! — accrescentou a velha. — Eu támem, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!

— Onde está a doente? — interrogou por fim o padre Filippe.

— Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a espedir, coitadinha! Já desde honte que não lhe foi nada á bocca, e não faz senão pedir auga... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o confessor!

— E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?

— Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.ª ha de conhecer, mas como a gente semos probes, fez á de conta que não era pressa e inda inté agora cá não appareceu...

— É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma pessoa em artigos de morte... — desculpou o padre Filippe. — Ora vamos lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...

A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de todas as miserias.

Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos, hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da civilisação do seu paiz!

Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se fazer respeitar!

Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal, percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!

E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua — e o rio Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem tanta! — e dez reis de sabão bastavam!

É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á imprensa periodica dos nossos dias.

Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por elles se guiam e norteiam, — quando se não desnorteiam — não poderiam, com um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base primaria de toda a hygiene social e moral?

Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e profundo auctor de originaes opusculos?

Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma mumia, enterrada sob um montão de farrapos.

É a sr.ª Maria do Carmo.

Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta:

— Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.ª me ouça de confissão!

O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre creatura.

— Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?

— Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de... peccados que não sei se Deus m'os perdorá! — balbuciou a enferma, com voz entrecortada e de cada vez mais debil.

— Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso — aquietou o padre Filippe — e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o divino perdão!

Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e, fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a sós com a enferma, continuou:

— Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa?

A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:

— Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha pobreza...

— Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e confiança...

— Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus amigos...

— É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...

— Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E até quando via certas beatas fingidas — Deus me perdôe! — a fazerem da casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para ellas terem vergonha!

O padre Filippe sorriu indulgente:

— E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus? Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa da reputação d'aquelles que peccaram...

— Não é d'isso que eu me accuso, meu padre! — accudiu a velha reanimada um pouco pelo prazer da confissão — Isso até os meus santos padres confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...

O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e perguntou:

— De que é então que se accusa, minha irmã?

— Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa religião...

— Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no tribunal divino com a alma limpa de macula.

Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir, quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com indizivel accento de pavôr:

— Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me! Ouça-me que eu quero... confessar-me!...

— Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura de Deus?

— Como v. s.ª ainda me não perguntou nada...

— Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome de quem eu a estou escutando...

A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:

— É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era filha... de um padre e d'uma mulher casada...

— E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?

— Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um santo...

— Só Deus sabe quem é santo! — murmurou o padre Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre Anselmo.

— E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...

— Que nome tinha essa creança? — perguntou o padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa da velha.

— Chamava-se Hilario, meu senhor...

— Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico — disse o padre Filippe.

— V. s.ª conhece-o? Sabe d'elle? Onde está? — perguntou a velha.

— Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas, na Covilhã...

— É esse mesmo! É esse mesmo! — bradou a velha — E onde está agora?

— Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa do estrangeiro...

— Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!

— Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?...

— O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...

E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:

— Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho!

E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.

— Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum attentado como suppõe — disse o padre Filippe — A morte de um sacerdote não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio todos os dias.

— Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda! — murmurou afflictivamente Maria do Carmo.

— Vive decerto — affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a doente.

— Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...

— Julgará que vocemecê já não é viva...

— Não... não! — tornou a velha — Mataram-n'o para o roubar!...

O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha beata, perguntou:

— Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...

— Foi... foi...

— Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?

— Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...

— Quem?

— O padre Anselmo!

— O padre Anselmo! — disse o padre Filippe com espanto.

— Foi em Lisboa... — continuou a velha enferma — D. Carlota, a mãe do meu Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles ao filho...

— E entregou-os?

A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.

— Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou tudo, tudo!

O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da velha.

— Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho d'elle?

— Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D. Carlota e... envenenou-a!

Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela recordação d'aquelle crime.

— Como o soube? — interrogou o padre Filippe.

— Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto... Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do marido...

— E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?

— Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...

— Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?

— Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo que elle o foi matar!...

A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:

— Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.ª D. Carlota... Acho eu que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...

— E quem era esse João Ignacio?

— Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...

— Sabe se elle ainda vive?

— Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...

— Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta da creança?

— Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre Anselmo a trouve p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse que era filho d'ella...

— E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?

— Essa carta... — fez a velha — tenho-a aqui... guardada... como ella m'a deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar...

Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.

— É por isso... — proseguiu a velha — que eu me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...

Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz estrangulada pelo esforço:

— Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.ª conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...

— Não tem filhos, vocemecê? — perguntou o padre Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.

— Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario... coitadinho!

— Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o padre Hilario talvez não precise?

— Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna! São tres centos de libras... Tres centos!

— Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida — aquietou o padre Filippe.

— Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a sua absolvição... para que Deus me perdôe!

O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.

— E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas envenenou-lhe a mãe... para o roubar!... — murmurou ainda a velha, deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia ultima.

O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.

Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.

— Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me parte, porque o enterro fica por minha conta.

— Sim, meu senhor! — disse a velha — Não seria bom dar-lhe ao menos a Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?

— É tarde — respondeu o padre Filippe — Quando cá chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria um cadaver.

— Seja pelas almas! — lamuriou a velha — Não sêmos nada n'este mundo!

— Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto! — concordou philosophicamente o sacerdote — Vocemecê faria uma obra de caridade, indo assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...

— Sim, meu senhor... eu vou — concedeu a velha.

Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:

— E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?

— Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?

E tirando da mão da outra a candeia:

— Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu alumeio ó sr. padre...

A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:

— Estes carólas do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura, põem-se logo a avoar e dizem aos oitros que se aguantem co'as massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no quente e tanto se lhe dá que a probesinha de Christo vá p'ró céo como que vá p'ró inferno!

O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas.

— V. s.ª quer que o vá acompanhar inté casa? — offereceu a mulher.

— Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre creatura. Boa noute!

— Vá v. s.ª na graça de Deus, meu senhor!

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VII: Tres miseraveis


Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo Belchior.

O agiota ia radiante de satisfação.

— Beatriz — disse elle ao procurador — está no caminho!

— No caminho de quê?

— No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.

— Sério?

— Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas depois...

— Conseguiu intimidal-a?

— Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á egreja dizer o sim!...

— É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!

— Mas consegui eu que ella voltasse...

— Como?

— Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella, porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!

— E afinal?

— Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não, poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o noivo...

— Com o Eugenio de Mello?

— Pois então com quem? Quem é o noivo?

— O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...

— Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.

— Que diabo lhe quererá ella? — commentou o procurador.

— Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor, que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa senão com o momento ditoso, et coetera... coisas que todas as raparigas gostam de ouvir aos namorados.

O Belchior pôz-se a rir.

— Vá lá a gente fiar-se em mulheres! — disse elle. — Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe cheirou a que o negocio era de cobres e que sem elles não teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades, — venha de lá o homem da massa e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres, mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...

— Pois por eu saber isso — retorquiu o Custodio — por ter a experiencia de que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora elle que lhe cante umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!

— Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?

— O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...

— Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...

— Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá remedio senão dizer que sim.

— Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo, porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o que tem de seu e anda sempre a pillar por dinheiro!

— Afinal — considerou o Custodio de Jesus — este casamento até é uma providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella, por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...

O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.

— Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico em peores lençoes...

— Porque?

— Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna...

— E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma acção bôa... que importa lá que elle grite?

— Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me metter em alhadas sem interesse, e que se elle, por fim, como é maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...

— Que negocio? — interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.

— Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será fóra de razão que a pratique bôa para mim...

— Mas o que é então que você quer dizer com isso? — tornou o Custodio desconfiado.

— Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso uma pequena commissão...

— Uma commissão! Mas que commissão quer você?

O Belchior sorriu:

— Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os outros só a espinha... Ahi uns dezitos por cento sobre a fortuna do rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...

— Dez por cento! Você está doido! — exclamou o Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel — Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!

— É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, o que é? É barro!

— Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade! — barafustou o Custodio.

O Belchior teve um sorriso desdenhoso.

— Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não casará senão com quem muito bem quizer — replicou por fim. — Mas o nosso caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo que se pague...

— Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho de graça! — prorompeu o Custodio. — Mas é preciso ter consciencia... é preciso que você não queira a melhor parte para si...

— A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?

— Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer entrar na ordem, acha você que não é nada!

— E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa nada, não?!

— Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de casa, fica-lhe barato...

— Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem m'as tira! — berrou o procurador. — Homem, é preciso que você veja que isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas... não me serve!

E n'um repellão:

— Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a pequena com quem quizer.

O Custodio amaciou um pouco.

— Ora venha cá... — disse elle. — Você sempre tem um demonio d'um genio!

— Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio! — contestou o Belchior. — Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro n'isto por ser seu amigo...

— Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é que eu esperava que você fosse mais rasoavel...

O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.

— Mais rasoavel! — exclamou elle. — Póde-se ser mais rasoavel do que isto? Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa contos de reis comprados a troco de nove?!

— Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e elle é que continua sendo senhor d'elle...

— Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para a pequena.

Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.

— Homem! — disse elle — a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica a coisa reduzida a seis por cento...

— Sete tenho eu quem me dê! — volveu o procurador. — E é porque eu não quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...

— Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.

— Ora até que, emfim, chegou-se á razão! — disse o procurador, como quem se alliviava d'um grande peso — Eu bem sabia que você não deixava fugir o bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não gosto d'abusar com os amigos...

— Vamos lá! — suspirou o Custodio. — Para amigos, você carregou um bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto com a palavra atrás.

— Sim, senhor! — tornou o Belchior. — Ora agora temos a regular a forma do contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos irem para a egreja...

— O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?! — exclamou o Custodio de Jesus muito admirado.

— Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como queria você?

— Isso não podia ser depois do casamento realisado?

— Póde, acceitando-me você letras...

— Você sabe-a toda! — fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de effectuar um bello negocio. — Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e está a conta arrumada.

— Antes dos noivos partirem para a egreja...

— Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.

— Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não faltar.

O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao Francfort a prevenir Eugenio.

N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento de interesse commum.

O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita.

O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas, — a D. Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.

Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta, detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e despesas.

Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.

Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas, preparou-se para as receber.

A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante que veio á sala.

Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso em extremo para com as damas.

Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de Portugal.

Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:

— Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.ª D. Rufininha, dê-nos um bocadinho de piano.

Rufininha era a filha mais velha do general.

— É verdade! apoiou Custodio — e a sr.ª D. Therezinha canta aquella canção

Murmura, rio, murmura!

que é tão bonita.

A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar, começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.

Mas o Belchior e o Custodio insistiram, — que cantasse, que eram desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia ser tão avara do seu thesouro.

E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.

Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção dos circumstantes.

Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este dialogo:

— Dá-me licença, sr.ª D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?

— Queira v. ex.ª dizer, sr. Eugenio de Mello — respondeu Beatriz, sem poder reprimir um movimento de terror instinctivo.

— Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo... Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu rosto?

— Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?

— Perdão, se fui indiscreto! — tornou o mancebo. — Mas, em primeiro logar, interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

— Creio que quer referir-se — disse ella — a um projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae...

— Não me atrevi a patentear a v. ex.ª o sentir intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.ª. Fiz mal?

— No logar de v. ex.ª, eu não teria procedido assim...

— Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.ª não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor dos seus dias?

— V. ex.ª esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.ª devia dirigir-se primeiro, creio eu...

— Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que eu, infeliz, morro por v. ex.ª.

— Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr. Eugenio de Mello.

— Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu coração?

— Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.ª e á minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

— Consentirá em ser minha esposa?

— É possivel.

— Pois bem; falle! Diga-me v. ex.ª o que tem a dizer, porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr!

— O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello, — respondeu friamente Beatriz — é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.ª dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.ª sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle.

— Virei então ámanhã — disse Eugenio. — Mas, por Deus, não me roube a esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

— Amanhã! — disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D. Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

— E então?

— Então... nada!

— Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão por ella?

— Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a dizer-me...

— Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até á morte...

— Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer... Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que quererá dizer-me?

— Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar da ponte abaixo — disse rindo o procurador.

— Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella quer...

— Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da sua quinta — porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!

— Não parece que seja isso — volveu Eugenio — Pelo contrario, supponho outra coisa...

— O que?

— Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente confessar-m'a antes de casar...

— Pois você suppõe?...

— Não sei... Mulheres são mulheres...

— Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!... — preveniu o procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

— Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer cá são os vinte contos...

— E que o Custodio morra breve para vir a maquia completa! — accrescentou o Belchior.

— Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o mancebo.

— Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello — disse ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira — Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

— Oh, minha senhora! — exclamou o mancebo — Amo-a tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as suas palavras como um inestimavel thesouro!

— E devem realmente valer para v. ex.ª um thesouro pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.ª, segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me tomar para sua esposa...

— De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v. ex.ª... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.ª saberá perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me moveram.

— É v. ex.ª um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara, franca e leal da minha situação...

— Dos labios de v. ex.ª está dependente a minha sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!

— Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre — disse Beatriz — Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.

— Beatriz! — disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da joven — não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz, passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar, de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

— Engana-se, sr. Eugenio de Mello! — retorquiu Beatriz — Este amor que me prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa existencia, o nosso destino...

— Todavia — observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso — essa declaração de v. ex.ª harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.ª a seu pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace...

— É justamente por isso que desejei fallar-lhe — volveu Beatriz, com altiva dignidade. — Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.ª á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com v. ex.ª. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.ª acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a outro e que unicamente, — unicamente, tome v. ex.ª nota — por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace que v. ex.ª lhe propõe?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade dos seus sentimentos.

— E v. ex.ª no meu logar o que faria? — disse elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.

— Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma união em taes circumstancias.

— N'esse caso, o que é que v. ex.ª exige de mim?

— Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.ª, guardando absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.

— Oh! isso nunca! — protestou vivamente o bohemio — Com que pretexto diria eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra de v. ex.ª. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na reputação de v. ex.ª o stygma affrontoso de um repudio aviltante?! Repare v. ex.ª que isso é exigir-me mais que a propria vida!

— Pois bem; não diga v. ex.ª que desiste inteiramente das suas pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços emprevistos, uma viagem longa, demorada...

— Quer v. ex.ª dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em que v. ex.ª vive, de frequentar os mesmos logares que v. ex.ª frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.ª respira! — exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada eloquencia — E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor sem esperança, fica um outro, um outro a quem v. ex.ª ama, na posse feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

— Peço perdão — balbuciou ella — mas propondo isto, eu parto do principio de que v. ex.ª, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre banido da sua lembrança...

— Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.ª! — exclamou cynicamente o bohemio. — Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e perfeições que fazem de v. ex.ª a creatura mais adoravel do Universo, agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu coração a amal-a doidamente! V. ex.ª está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v. ex.ª depende não só o seu futuro tranquillo e feliz, mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem póde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por uma commoção indescriptivel.

— Sr. Eugenio de Mello — disse ella com os olhos brilhantes de indignação — o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.ª, nem eu quiz com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V. ex.ª persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir em conceder-lhe a mão de esposa?

— Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.ª!

— Nunca! Nunca! — protestou Beatriz — Mulheres como eu, amam uma só vez na vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

— V. ex.ª é livre, minha senhora — replicou elle — Póde impunemente matar seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre dois sêres.

— Tenho entendido, senhor — disse ella em tom breve e secco — Preciso de meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará da minha resolução.

Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.

— Tens cabellinho na venta — disse comsigo o bohemio, descendo as escadas que conduziam ao escriptorio do Custodio — mas, se me caes nas mãos, eu te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

— Então? — perguntaram ao mesmo tempo.

— Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

— Mas o que disse ella? — insistiu o Custodio.

— Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa...

— Mas você nem nentes! — atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de tudo.

— Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...

— E ella? — interrogou o Custodio.

— Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria resposta definitiva...

— Amigo Custodio! — disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do usurario — o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

— Não tem duvida! — aquietou o Custodio — Ella ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o fraco... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a fingir que me mato... E ella ha de ir!...

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VIII: Entre irmãos


Paulo de Noronha, depois que se filiara na Mão-Negra, não obstante saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.

Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto, buscando para a filha uma alliança limpa, e o sigillo que o padre Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que não podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que, se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse homem não era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos mysterios da Mão-Negra.

— Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge? — perguntou-lhe elle.

— Como se fallasses a um irmão — replicou o outro — Desde hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como verdadeiros irmãos.

— Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal prestarás attenção ao que vou dizer-te.

— Falla.

— Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!

— Já m'o disseste.

— Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu, simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a mão da filha...

— Mas — objectou Jorge — que necessidade tens de que elle o saiba antes de haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?

— A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.

— Ah! ah! — fez Jorge — E a pequena?

— Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe inffligir...

— Não estamos em terra de selvagens — replicou Jorge sorrindo. — Como se chama esse amavel progenitor?

— Custodio de Jesus....

— Mora?

— Na rua do Principe.

— E o outro?

— Qual outro?

— O teu pretendido rival?

— Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

— Eugenio de de Mello... É do Porto?

— Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.

— Já entrado na edade, não?

— Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.

— Os homens ricos são sempre rapazes em questão de casamento... A mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...

— Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

— Muito bem! — disse elle — Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos depois o que convem fazer...

— Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...

— Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz não será maltratada pelo pae...

— Obrigado, meu amigo, meu irmão! — exclamou Paulo, cahindo-lhe nos braços. — Escuta ainda, — continuou. — Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve haver segredos...

— Falla, meu irmão!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

— Chamas-me irmão — e comtudo eu creio que não posso ser irmão de ninguem.

— Porque?

— Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!

Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a protecção e amparo.

— Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me encontro! — concluiu elle desalentado. — Ainda que me encontrasse de um momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes?

— Os irmãos da Mão-Negra — disse Jorge gravemente — são todos filhos do mesmo pae — o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma mãe — a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!

— Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas, pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da origem honesta do nosso nascimento...

— O homem — volveu Jorge — creatura de Deus, não póde ser jamais responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei, elle é sempre um homem igual aos outros e d'elles só póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.

— Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens a comprehendessem assim!

— Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos, contra a rotina — que é a famosa trincheira erguida a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.

Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.

Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...

É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.

Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.

Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.

Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa, penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das escadas até ao primeiro andar.

Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:

Licet?

— Entrae! — disse de dentro uma voz.

Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se encontrava na sua presença.

Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de estudo, sabedor e profundo.

Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.

— É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins — disse elle rindo — para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia, Mestre!

O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e respondeu grave e pausado:

— Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe no pára-raios.

Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao recem-chegado:

— Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa demora...

— Mestre — respondeu o outro — teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.

— Um caso novo! O que temos, pois?

— Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende fazer victima um dos irmãos da Mão-Negra.

— A Mão Negra tem já força e poder bastante para desviar de sobre a cabeça de seus irmãos a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito alto que elles estejam collocados. De que se trata?

— Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...

— Ah! O que lhe succede?

— Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.

— E sabe elle dos amores da filha com Paulo?

— Não o deve saber, pois que este nosso irmão, movido de honestos e nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.

— O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que precisa?

— De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.

— Está na mão d'ella. Que recuse.

— Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar.

— Pois bem. A Mão-Negra cumprirá o seu dever. Como se chama o pae d'essa menina?

— Custodio de Jesus?

— E o pretendido noivo?

— Eugenio de Mello.

— Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.

— Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.

— Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos os irmãos que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as informações, procederemos como fôr de justiça.

Jorge inclinou-se.

— Temos ainda mais — disse elle.

— O quê?

— Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu nascimento...

— Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?

— Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um abandonado... A sua infancia correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua educação scientifica.

— Conhece elle esses protectores?

— Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!

— N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus proprios paes?

— Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa o appellido Noronha...

— Madre Paula e padre Filippe, dizeis? — interrogou o homem dos oculos verdes com um leve tremôr na voz.

— Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.

O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de Mestre, cruzou os braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em profunda reflexão.

Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da voz:

— Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.

Depois accrescentou:

— Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo.

Jorge levantou-se.

— Amanhã — disse elle — deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de Eugenio de Mello.

— Se assim acontecer — replicou o homem dos oculos verdes — poderemos deliberar em capitulo o que convirá fazer.

Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.

Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.

— Madre Paula e padre Filippe! — disse elle por fim. — Porque extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da Irmã Dorothêa?

Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.

Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou folheando.

As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um pensamento negro.

Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém, que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando o papel a sua brancura immaculada.

É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.

Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle occulta no seio?

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo IX: Amores faceis


Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.

O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em que se notava decencia e bom gosto.

Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever chamar a attenção do dono ou dona da casa.

Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.

— És tu, Eugenio?

— Sou eu, minha querida!

O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a longamente nos labios.

— Demorei-me, não é verdade? — perguntou elle, lançando-lhe um braço á roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella havia surgido.

— Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!

— Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?!

— Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz quando te vê, quando te tem a seu lado!

A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e voluptuoso que o primeiro.

— Mas tu não estiveste com outra, não? — disse n'um gemido em que havia receio e esperança, supplica e perdão.

— Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...

— É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com outra para nunca mais!

Eugenio ria.

— Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras me estime senão tu?

— E tambem de ninguem mais precisas! — disse com vehemencia a dama loura. — Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!

— Decerto, decerto, minha querida amiga! — fez Eugenio, suspirando. — Eu seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...

E interrompeu-se suspirando.

— Se quê? Anda, acaba!

— Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não consentir que outro partilhasse os teus affectos...

— Mas eu não o amo! — protestou a dama loura. — Bem sabes que o não amo, Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso por elle!

— Ah! se eu fôsse rico — tornou a suspirar o bohemio — com que prazer eu o correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas, puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!

Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama.

Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:

— Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes que elle é velho... não póde durar muito... E como promette contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...

— Dias muito felizes! — repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do sofá. — Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero!

— Morrer! — exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos. — Não me falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e receias que um velho dure mais que tu?!

— Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel n'este mundo só existe na paz da sepultura!

— Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!

— O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia, que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso... o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.

— Mas o que foi? Conta-m'o, filho! — supplicou Leonor com interesse.

— Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar? Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!

— Não, não! quero saber... Anda, falla! — insistiu ella amorosamente.

Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:

— Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis!

O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes violentas uns amigos que nunca teve.

— Vamos! Não te afflijas! — aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua Leonor.

— Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro, porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.

— Generoso coração! — exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa veneração.

O bohemio continuou:

— Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena d'elle!

— Coitado! Esse rapaz era infeliz, — commentou ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.

— Era! Era muito infeliz! — suspirou o bohemio. — Como elle morreu, é claro que não pode pagar...

— Não deixou nada?

— Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o menino bonito da familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...

— Cruel pae!

— Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...

— Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!

— Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a guela ignobil!

Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.

— E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!

— Eugenio! meu Eugenio! — exclamou afflicta a loura Leonor — não penses em fazer tolices...

— Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»

— E assim lhe dirás, meu amigo! — exclamou fremente de indignação a apaixonada loura. — Não será por trezentos mil reis que esse canalha, quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos mil reis tel-os-has amanhã.

— Oh! mas eu não posso acceitar... — recusou o bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria. — Tens feito tantos sacrificios por mim... Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo consentir em que te sacrifiques mais...

— Cala-te, não sejas creança! — interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina mão na bocca para o impedir de continuar. — O meu maior prazer, a minha maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e feliz!

— Como és boa e como eu te adoro! — exclamou Eugenio, cingindo-a ardentemente nos braços com amoroso impulso.

Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que esta scena extraordinaria requer.

Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e sujos amores.

Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho commendador — o sr. commendador Garcia — encontrára um bello dia á sahida da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos, a preço de tres tostões por dia.

O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga, começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.

Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do generoso commendador.

Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura gentilissima.

O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.

Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.

Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de reis em uma das nossas praias mais concorridas.

O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até — oh supremo instincto de imitação! — o apparente despreso pelo dinheiro que os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes possuia, porque era pobre.

Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.

Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão diminuir-lh'os.

Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.

Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo, futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma prima com quem pretendiam casal-o.

Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante numero um.

Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite, depois das dez. De dia, a toda a hora.

Eugenio, porém, hospedara-se no Hotel Francfort como convinha e era prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas, não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.

Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.

— Sabes? — disse-lhe elle. — De ti recebo estas provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos dois. E de minha prima... vê tu lá! — ainda que viesse de rastos lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!

— É porque não a amas...

— É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!

— Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!

— Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?

— Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!

— Amor e uma cabana! — disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a com enthusiasmo. — Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...

E suspirando com tristeza:

— Para isso bastava só que morresse meu pae!

— Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.

— Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!

O velhaco tinha razão.

Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo, botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas immediações da travessa dos Fieis de Deus.

Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.

Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que desde criança se habituára a pensar que o não tivera.

No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.

O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se repetiam.

No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor objecção.

Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu anjo mau o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.

— Aqui tens — disse ella — paga a esse canalha, a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!

— Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora tão ardentemente os teus encantos como eu! — replicou o bohemio, radiante de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.

Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu destino.

Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.

— Olhe lá — disse elle — esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova estopada?

— Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado de tecer os pausinhos...

— O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me entra para a loja, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura regular.

— Isso, depois, é lá comsigo e com ella — respondeu rindo o procurador. — Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio não esticar o pernil...

— Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta difficuldade?

— Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.

— Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para uma ceia?

— Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?

— Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu desmancha prazeres, amigo Belchior!

— Para seu bem.

— E para seu...

— Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para mim.

O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio de Jesus.

— E então? — interrogaram os dois.

— Então, sabem o que ella me disse?

— O que foi?

— Adivinhem!

— Não somos bruxos! — replicou o procurador — Falle para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou não?

— Pois bem — não!

— Hein?! — fizeram os dois espantados.

— É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.

— E você não voltou á historia do tiro na cabeça? — observou o procurador.

— Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...

— E você o que respondeu a isso? — perguntou o Belchior.

— O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim, porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia dizer que ia dar um tiro na cabeça...

— Mas o que pensa então fazer? — interrogou Eugenio.

— Esperar, a ver o que sae d'aqui...

— D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz, e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda pôr-se a chuchar comsigo! — exclamou o Belchior furioso. — Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse modo que nós conseguiremos nada.

— Espere, homem, espere! — interrompeu o Custodio. — Eu tenho uma ideia.

— Que ideia é?

— Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao tal rapaselho que a namora...

— Você viu?

— Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...

— Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis, quanto mais uns poucos de contos.

— Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.

— Mas isso então quer-se para breve! — objectou o procurador — Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...

— Eu é porque devéras a amo! — explicou o bohemio — Sinto-me loucamente apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa. Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?

— O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento para a pequena casar.

— Ande-me assim, seu Custodio! — bradou o procurador. — Essa é de mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...

— Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter questões por causa da partilha...

Os tres desataram a rir.

— Vamos a ver o que sae d'aqui! — disse por fim o Belchior. — Tinha graça se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!

— Amigo Belchior — expôz o Custodio — parece-me que andei bem em não apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma relação dos crédores e apresental-a á rapariga...

— Qual relação de crédores! — protestou o procurador. — Você não tem senão um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle que venha entender-se comigo...

— Justamente! — apoiou Eugenio. — E assim ficaremos sabendo os recursos de que o tal menino dispõe...

— Está dito! — decidiu o Custodio. — É claro que cincoenta contos não se arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.

— Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé, a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe — opinou o procurador.

— Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim, e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento, que está para breve — concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.

— Exactamente — respondeu este. — E mandemos para cá, que eu me encarregarei de resolver a questão.

O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que sahisse.

O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.

Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de Borba; apresentou-lh'a, dizendo:

— Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o nariz!

O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional.

— Com os diabos! — disse elle — para pagar tudo isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!

— Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?

— Pois, amigo Belchior — affirmou o Custodio com resolução — ainda que saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não deixo perder.

— Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.

— Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você verá como a coisa se arranja...

Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar a conta do seu debito para apresentar á filha.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo X: Para os grandes males...


Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.

— E o que respondeu esse homem? — interrogou Paulo.

— Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

— E tu?...

— Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com que me ameaçou.

— E se não encontrares esse meio?

— Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu Paulo! — exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas palavras.

— Ouve, Beatriz — disse elle. — É possivel que sejamos victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da responsabilidade d'ellas.

— Mas, meu Paulo, o que pensas fazer? — interrogou Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.

— Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

— Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno do santo amor que te dedico! — exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha, em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o que perdera em dinheiro e não em honra — porque essa nunca elle a tivera — achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.

O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do crédor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma, exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:

— Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico da nossa salvação!

— Não fallemos n'isso, meu pae! — retorquiu mansamente Beatriz — Vamos a vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.

— Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes — observou o snr. Custodio — Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama loucamente...

— Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu consentisse em me vender a elle por dinheiro...

— Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.

— Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o repudia...

— O coração! — fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de hombros — O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago não está mal...

— Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...

— Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe relancear a vista.

— Eu verei isto — disse ella — e póde ser que Deus me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de Mello.

— Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

— Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me! — suspirou por fim.

— E foi só o pae que teve prejuizos com ellas? — perguntou Beatriz.

— Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual sente o seu mal...

— E Deus o de todos.

— Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente nada...

— Será o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

— Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer um tal desgosto...

— Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da janella gradeada com o mancebo.

— Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de ti!... — resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de contente. — Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.

Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

— Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.

— Então? — interrogou o mancebo.

— Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

— Tens bem a certeza d'isso? — perguntou.

— Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.

— Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?

— Esse procurador Belchior — disse Jorge — é tambem um refinado patife. Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem pretendem casar com a tua namorada.

— E elle quem é?

— Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

— De maneira que — observou Paulo — essa divida dos cincoenta contos...

— Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.

— Eu já tinha suspeitado isso mesmo! — redarguiu Paulo indignado — Mas o que precisamos agora é provas d'essa infamia.

— Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro d'elle — que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

— Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

— E nós cá estamos!

— Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

— Desde que a Mão-Negra protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu procedimento, se não fôr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se encontrava o sr. Custodio de Jesus.

— Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior — disse-lhe o mancebo — Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...

— Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo? — perguntou Beatriz admirada.

— Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

— Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?

— São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

— Foi o Belchior.

— Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto, qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo. Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te diz.

— É extraordinario! — disse Beatriz — Suppunha meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade paternal!

— Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de teu pae?...

— Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu recusei...

— Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições, teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.

— O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

— Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos achaes...

— No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...

— Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.

— Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

— Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar de resolução.

— Oxalá que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha, ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

— Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?

— Já, meu pae — respondeu Beatriz baixando os olhos.

— E o que resolves?

— Por emquanto, nada.

— Nada! — exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto. — Pois é possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

— Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

— O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.

— Pagar ou casar... — replicou Beatriz com amarga ironia.

— Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar a vida...

— Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.

— Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.

— Alguma coisa temos já adiantado...

— O que?

— A resolução em que estou de salvar meu pae...

— Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha filha?

— Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.

— Pois olha que não tens outro recurso, crê!

— Veremos.

— Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?

— Talvez.

— Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes fallamos em dinheiro, — emigram!

Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e serena:

— Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...

— Pois sim! — tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo — é bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para esposa...

— Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar reflectidamente sobre o caso...

— Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor, comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que é, como sabes, nosso crêdor...

— Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

— Sim, isso é justo... — tornou o Custodio com brandura — Mas quantas no teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

— Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de me decidir...

— Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade... Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

— Sim, meu pae... — respondeu Beatriz levemente ironica — Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus ha de valer-nos...

— Tens essa fé, Beatriz?

— Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

— Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente apaixonado por ti.

— É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...

— Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado casamento que sonhava para a filha.

— Naturalmente — ia dizendo comsigo — lá o tal franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!

E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XI: João lazaro


Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao Suisso tomar café, depois de jantar.

Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava, ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante — para matar tempo.

N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes, porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis nas folhas em branco.

Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:

— Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?

Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.

— És tu, João! — exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços para elle. — Como estava longe de te ver agora aqui!

Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.

— Ora o meu João Lazaro! — tornou Jorge com alegria — Com que, voltaste ao Porto!

— É verdade! — disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e tomando uma attitude de principe que regressa do exilio — O bom filho á casa torna...

— E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...

— Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.

— Quando chegaste?

— Hoje de manhã.

— Que tempo te demoras?

— Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante, e não posso calcular o tempo que isso me levará...

— Não tencionas fixar residencia no Porto?

— Não. Isto é pequeno demais para mim...

— Bravo, seu João! Você está crescido! — disse Jorge galhofeiramente.

— Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com ella...

Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do charuto caro, com affectação, e exclamou:

— Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha receber as ordens?...

Jorge bateu as palmas, chamando o criado.

— O que tomas? — perguntou ao amigo.

— Vou tomar cerveja.

— Cerveja a este senhor — disse Jorge ao criado que se aproximara.

Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de João Lazaro, e perguntou:

— Ingleza?

— Ingleza, sim! — respondeu o João Lazaro.

E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a ordem:

— Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!

— Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...

— Pelo nosso vinho e pela nossa Africa! — disse o João Lazaro com olhar torvo.

— Pela nossa! Pois o Brazil tambem tem Africa? — interrogou motejador o amigo de Paulo — Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és brazileiro...

— Mas portuguez pelo coração! — respondeu o outro com emphase.

E accrescentou:

— Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão pequeno como este?...

— Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal politico?

— Já te disse: sou portuguez pelo coração...

— E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão negro das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...

A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente:

— Ó João — preveniu o bohemio — não te compromettas para amanhã á noite, porque temos ceia de rapazes em tua honra...

— Oh, diabo! — replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor — Para amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e não sei se de dia ficarão concluidos...

— Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar de ser gentil para com as damas.

— Está bem: irei.

E voltando-so para Jorge:

— Não se conhecem?

— Não tenho essa honra — disse Jorge.

João Lazaro então apresentou:

— O meu amigo Eugenio do Mello...

E para este:

— O meu amigo Jorge de Gusmão.

Os dois cortejaram-se.

— Estimo conhecer v. ex.ª — disse um.

— Igualmente — disse o outro.

E apertaram-se as mãos.

— Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João — disse Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge — V. ex.ª, que é tambem amigo d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da noite.

— Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e inaddiaveis — respondeu Jorge.

— Creia v. ex.ª — tornou Eugenio amavelmente — que teria immenso prazer em o vêr lá...

Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.

O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:

— Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal perante a rapaziada.

Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou:

— Quem é este rapaz?

O outro sorriu desdenhosamente.

— Um aventureiro! — respondeu.

— A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...

— De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar com a gente da mais baixa especie.

— Mas este rapaz é...?

— É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não podemos fazer.

— E vive d'isso?

— Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.

— Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...

— Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa de uma loura, que é a sanguesuga deliciosa do commendador Garcia... Conheces?

— Conheço o commendador Garcia perfeitamente.

— E a loura?

— Poderei tel-a visto, mas não estou certo.

— Não sabes nada! — volveu o João Lazaro desdenhoso.

— Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo isso?

— Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas. Conta-me tudo.

— Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma rica herdeira...

— Elle!?

— Elle, sim!

— Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?

— Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva suppõe-n'o um rapaz riquissimo...

— É boa! E não me disse nada! Que grande patife!

— Pois é verdade.

— Tens bem a certeza?

— Conheço a noiva...

— Ella quem é?

— É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...

— Não conheço.

— Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves conhecer...

— De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do tempo em que vivi no Porto.

— Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...

— É bonita essa pequena?

— Creio que sim.

— Crês?

— Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella informações que a dão como uma belleza indiscutivel.

— É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um escroc... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de Mello?

— Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.

— Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da cilada em que o querem fazer cahir.

— Eu! — replicou Jorge — Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz. Póde ser que a fortuna o regenere.

— A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro levando vida do principe e bellamente relacionado...

— E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se diz, está para breve...

— Os jornaes já deram noticia?

— Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os planos...

— É curioso! — tornou o João Lazaro — Como as mulheres são estupidas nos seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para isso lá estava o outro. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!

— É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial para escolherem o peor.

— Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela materia contra o espirito!

O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos de suprema elegancia n'um salão aristocratico.

Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:

— Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...

— Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela aristocracia.

— Sacrificas o amor á politica...

— Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...

— Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado, cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso, seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.

— Não é tanto assim, meu caro — protestou o João Lazaro frouxamente.

— Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello é um especulador amorôso... Vives dos kalenderes do ideal como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.

— Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!

— Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos, porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço cabalmente.

— Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão proseguir no caminho mau em que me lancei?

— Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada, porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa...

— Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil reis!

— Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.

— Eu?

— De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem ás vezes ganham juizo...

— Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...

— E o que vens tu fazer ao Porto?

— Venho arranjar dinheiro...

— Para quem?

— Para mim.

— E suppões que t'o dêem?

— Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...

— Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?

— Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...

— Bem; anda lá!

João Lazaro levantou-se.

— E tu, sempre o mesmo?

— O mesmo sempre.

— És um homem singular!

— Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente o livro mais curioso e mais difficil de lêr.

— Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos vencem.

— Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!

João Lazaro consultou o relogio.

— Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?

— Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma hora da tarde.

— Irei dizer-te adeus.

— Pois sim.

Apertaram-se as mãos e despediram-se.

João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.

Já na rua, ia murmurando:

— Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um capitalista!

Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.

— Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento! — rosnou por entre dentes — Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em fortuna e em posição social.

João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco, minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.

A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de maio, prenhe de trovões, e como a propria parda brazileira de quem era filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.

De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de preto capoeira, tinha o quer que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.

Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de apreciar melhor em capitulos subsequentes.

Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica historia.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XII: Velhos conhecimentos


Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha, que os leitores da Irmã Dorothea já conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia, — casa nobre, como lá se diz, — mas de severo e melancholico aspecto.

Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.

É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver tornava ainda mais profunda.

Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.

Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do santo sacrificio.

O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na Irmã Dorothea vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.

Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.

Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e alli se demorava de junho a setembro.

Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos — e já contava nada menos de tres — que a vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam o ruido e a alegria.

Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo campo.

E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.

— Aurelia — dizia-lhe o irmão — se vivesses um anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.

— Não, Gustavo, não — replicava a dolorida viuva. — Aqui nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade dos que me fôram queridos.

— Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não é verdade?

— Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes que perdi.

No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital, sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo ás amarguras do seu espirito.

Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.

Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.

Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas composições mais em voga.

A noite estava bella, de luar — d'esse luar sereno e calmo das noites claras do estio.

Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro pôde ainda devassar.

Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas continuando as conversações em que estavam entretidos.

— É verdade, sabes, Gustavo? — disse D. Aurelia — vende-se outra vez o palacete que foi de Norberto de Noronha.

— Vende? — respondeu o advogado — Então o Pinho, o brazileiro para onde vae?

— Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto.

— É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.

— O Pinho — esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido ha annos — tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem economico... tem dispendido.

— Pois parece que não deveria ser assim — objectou Gustavo — Um homem, com uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!

— Pois é verdade! — tornou o doutor — Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em dez annos.

Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.

— Não póde ser! — insistiu Gustavo — Elle comprou a casa que foi de Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe attribue.

— Pois ahi é que está a desgraça! — retorquiu o medico — Soube ganhal-o e não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que chegou...

— A todo o mundo!?

— É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma contos de reis...

— Isso é verdade! — concordaram alguns do grupo.

— Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro! — contestou ainda Gustavo.

— Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda a gente e d'onde se tira e não se põe...

— Bem sei! Em todo o caso...

— Em todo o caso — concluiu o doutor — se não fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente sem nada.

— Pobre homem! Tenho pena.

— O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A ultima não lhe ficou por menos de dez contos...

— E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!

— A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para elle...

— Que miseria! — disse Gustavo enojado.

— E até foi bom para o Pinho — tornou o doutor. — Porque, se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem: um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...

— Deve ser horrivel!

— Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...

— E quanto quer elle agora pela casa?

— Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...

N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da casa de Gustavo.

— Quem nos honra? — disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.

— Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio até cá para se distrahir um pouco?

Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:

— Senhor doutor, saberá v. ex.ª que está lá em baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....

— A qual de nós? — disse rindo Gustavo. — Aqui ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho recemchegado?

— Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.

— Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?

— Não quiz dezer... É um senhor de barbas...

— Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.

E voltando-se para os hospedes:

— Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me procure... Eu volto já.

Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido visitante.

Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres claras.

Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma expansão de velha amizade, dizendo:

— Já me não conheces, não é assim, Gustavo?

— Julio! Pois és tu?

— Sou eu, meu amigo!

E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro de infancia.

— Mas o que é feito de ti? — perguntou Gustavo — Ha quantos annos não tenho tido noticias tuas!

— Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...

— Singularissima ausencia!

— Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções do imprevisto, porque precisava de esquecer...

— E esqueceste, afinal? Ainda bem!

— Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade ainda fallar d'ella!

Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente transtornadas.

Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:

— Julgas-me doido, não é verdade?

— Não, não julgo... — replicou o irmão de Aurelia de Magalhães — Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.

— Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, é porque sinceramente não a amou.

— Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?

— Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para Pariz, transferida para uma casa de irmãs Dorotheias e pedindo-me que a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...

— E como pudeste esperar tanto tempo?

— Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi, pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela irmã Dorotheia, já não existe!

— Meu pobre amigo! — disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda compaixão — que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua existencia!

— Bem pensado, não foi — volveu Julio — Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.

— Comprar a casa de Norberto de Noronha!

— Sim.

— Com que fim? O que pretendes fazer?

— Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...

— Mas vens só, não tens familia?

— Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas recordações!

— Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia emquanto me demorar por estes sitios.

— Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua interferencia n'este negocio.

— Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão... Vem!

Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com grande curiosidade.

A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos circumstantes.

Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades — Braga e Guimarães — pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres da educação.

Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.

— De modo que — disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio — eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa á casa de seus paes!

— É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um canto onde possa morrer descançado.

— Morrer! Quem falla aqui em morrer? — atalhou Gustavo alegremente — Tens ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem ter cumprido a minha missão...

— É justo — respondeu Julio — Ha um objectivo na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão a morte redemptora dos grandes desgraçados?

— Casa-te, meu amigo, casa-te! — aconselhou o commendador Seabra n'um tom de convicta auctoridade. — Olha que não ha como o casamento para fazer um homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, Gracianinha? — rematou, pondo os olhos na esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.

— É assim, meu amigo! — suspirou a D. Graciana, revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.

— Não temos tido filhos — tornou o commendador, muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso — mas não é por falta de amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!

E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o rotundo abdomen.

Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.

— Ora agora o que é preciso — propôz o juiz de direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas — é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua prolongada ausencia!

E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:

— Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, pois, uma Paschoa inter amicus, uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente o resurrexit d'este illustre cavalheiro, que eu não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!

Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as sete partidas do mundo, como o infante D. Pedro.

O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.

Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.

— Livra-me d'esta gente, meu amigo! — segredou Julio a Gustavo. — Tu, que conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me mortifica!

— Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que só aos eleitos da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!

— Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa! — murmurou Julio. — Venho a fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de tristezas!

— Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...

No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.

Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.

Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.

Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:

— Bons dias!

O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:

— Muito bons dias!

— É o proprietario d'esta casa?

— Um seu criado!

— Li que ella se vende. Posso vêl-a?.

— Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...

E chamando pelo criado:

— Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein! — ordenou.

O Manéca, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e obedecer.

Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este dialogo:

— V. s.ª vende esta propriedade, não é assim?

— Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra tornar no Brazil...

— Esta casa — disse Julio — era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto de Noronha...

— Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas informações que dão-me d'elle, hein!

— Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.ª s.ª comprou a casa?

— Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por lá...

— Norberto de Noronha — tornou Julio — tinha uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta casa?

— O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a familia de Norberto, já vejo...

— Conheci. A casa soffreu modificações?

— Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...

O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de que era uma vivenda muito bôa ella e que se conservava quasi no mesmo estado em que o fidalgo a deixára.

Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem morria.

Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.

— Isto áqui me tem sérvido para arrumações — explicou o brazileiro. — Aqui encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?

— Quanto pretende v. s.ª pela casa? — perguntou Julio.

— Com mobilia ou sem ella?

— Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...

— Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.ª me quizer comprar ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?

— Não, senhor! — acudiu Julio. — Se por doze contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.

O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.

— Quer assim? — interrogou Julio.

— Mas... — objectou honradamente o brazileiro consciencioso — eu tenho vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle ágora...

— Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em o adquirir por menos do seu justo valor.

— Mas então a casa é de v. ex.ª! — decidiu o brazileiro com uma profunda cortezia.

— V. s.ª não me conhece — disse Julio — mas eu dou como fiador á validade d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. Quando quizer, faremos a escriptura!

— O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.ª é hospede d'elle, já vejo...

— Sou. V. s.ª dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo dar-lhe de signal.

— Signal! — protestou o brazileiro — não é priciso elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?

— Como queira.

— Me dê v. ex.ª oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no tabellião fazer a escriptura, hein!

— Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.

— Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre elles... Quando v. ex.ª quizer, vamos no tabellião...

Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.

— Já comprei a casa de Noberto de Noronha — disse elle ao amigo, logo que chegou.

— O que! — exclamou Gustavo. — Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa ordem?

— Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha uma realisação legal.

— Por quanto a compraste?

— Por doze contos, tal como está.

— Podias tel-a adquirido por oito ou nove!

Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa alheia.

Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova propriedade.

Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo de Magalhães.

— Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o emocionar e lhe causar alegria — dizia o magistrado de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do espirito humano.

— Fatalmente — commentava o medico — alli ha desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos costumes...

— Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal succedidos... — aventou um dos menos theoricos e mais praticos.

— Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o spleen dos inglezes — opinou o juiz. — O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo — menos a amizade dos amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. Nas viagens — accrescentou com grande auctoridade e emphase de sabedor — perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como é o de uma esposa por seu marido?...

— Pelo menos, quando não seja isso — disse o commendador — o casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da esposa!

Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, com a D. Graciana.

— Que eu por mim — emendou logo com solicita dissimulação — com bem o diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...

— Nós tambem fazemos ideia... — atalhou o juiz sarcasticamente, na sua voz de assobio.

— Meus amigos — interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem tomar parte n'ella — não se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?

— Isso é verdade! — accudiu o commendador — eu já tive uma epocha na minha vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão simples...

— Não tanto! — replicou o juiz — Quem não tem que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue ao divertimento...

— Agora não! — tornou o commendador.

— Por falta de pisco? — perguntou o medico.

— Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros em casa.

A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.

A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os dois este dialogo:

— Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.ª já comprou a casa de Norberto de Noronha.

— A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.

— Na intenção de a habitar?

— Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da minha vida.

— É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...

— É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...

— A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.ª, snr. Julio de Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...

— E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...

— Pobre Helena! — murmurou D. Aurelia — se v. ex.ª a conhecesse n'esse tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma religiosa pontualidade!

— V. ex.ª nunca mais teve noticias d'ella?

— Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.

— Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...

— É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um sapateiro de Braga, por alcunha o Tomba, que foi testemunha no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a vida.

— O Tomba! — disse Julio — Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser até que já tenha morrido...

— Não sei, não conheci o Tomba. Ouvi fallar muito n'esse homem por aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.

— Se o Tomba esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não foi estranho o raptor de Helena...

— O padre Anselmo?

— Justamente. Como conhece v. ex.ª esse nome?

— Pois não sabe v. ex.ª que elle andou por aqui missionando e que foi com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a casa paterna?

— E v. ex.ª era sabedora das intenções de Helena?

— Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão Gustavo, julgo-a irresponsavel.

— É esse o juizo que v. ex.ª forma de Helena de Noronha?

— É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso assegurar a v. ex.ª que não havia mais nobre alma, coração mais terno e cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.

— O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...

— Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.

— E Helena amava o primo?

— Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum rapaz a quem quizesse mais...»

— Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....

— Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.

Os dois calaram-se por instantes.

— Sabe v. ex.ª — disse Julio de Montarroyo por fim — que me tem sido immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?

— É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.ª ignorava...

— Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com effeito, v. ex.ª acaba de me contar pormenores que me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!

— V. ex.ª, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!

— Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...

— Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?

— Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.

Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.

— Conclue portanto que Helena...

— Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...

— Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra vontade que não fosse a sua.

— Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua evasão.

— Seria possivel?

— Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.

— Mas não sabe v. ex.ª que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a professar?

— Sei muito bem.

— Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as exigissem?

— O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e á sociedade.

— Pobre Helena! — suspirou D. Aurelia — que negro destino foi o seu!

— Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e a desgraça comsigo.

— E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!

— V. ex.ª que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.ª D. Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce lenitivo de me fallar de Helena...

— A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer que hoje vivo, como v. ex.ª, só de tristes recordações... — replicou D. Aurelia com um fundo suspiro.

A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das festas em honra de Julio.

Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:

— Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?

— Póde ser... — replicou o commendador — A D. Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.

Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.

Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XIII: Denuncia


João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.

O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:

— Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem ao meu lado!

— Não será bem isso — replicou o outro delicadamente, para não o ferir — Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és alvo...

— Communhão de ideias! — tornou o João Lazaro desdenhoso — Que communhão de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja arroz cosido em vez de miolos?

— Talvez tenhas razão, talvez...

— Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se aproximarem de mim.

O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se que não dissesse:

— Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com franqueza?

— Dize lá.

— Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o idiota és tu!

João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:

— Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente, vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos. Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os amigos me darem de cear...

— Para que então?

— Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação publica...

— Já lhes expuzeste o teu plano?

— O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha, é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro — e batia na testa com impeto — alguma coisa de grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me rodeiam!...

— Bom! Mas, a final, o que queres tu?

— Dinheiro!

— Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente o que todos querem...

— Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um! — exclamou o João Lazaro, convicto. — Não me falta mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.

— Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...

— Quaes circumstancias?

— Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...

— Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.

— Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...

— Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é só para mim, o bem é para todos.

— Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...

— Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.

— E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer?

— Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha dinheiro! — exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.

— Eu não sei nada! — volveu-lhe o interlocutor. — Isto são apenas considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas? Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em a conseguir.

— Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?

— Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.

João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.

— E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do Deve e Haver! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita Beserra!

Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora malsinava de bacalhoeiros ignaros, visto que não lhe davam o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.

— Bem! — disse elle — tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...

E consultando o relogio:

— São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite talvez retire para Lisboa.

— O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?

— Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...

— Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...

— Não, que eu não peço! — exclamou Lazaro com enfatuada altivez — Eu proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!

Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.

— Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso? — perguntou o outro despedindo-se.

— Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido que me não merece.

— Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...

— Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas, se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses bilhostres.

Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.

— Para o Palacio! — ordenou ao cocheiro.

Pelo caminho, ia monologando:

— Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim, á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha.

E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:

— Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!

Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.

— Cuidei que não vinhas! — disse-lhe Eugenio. — Seria um grande desgosto para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te conhecer.

O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:

— Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os acompanham.

Seguiram-se as apresentações:

— Senhorita Lola...

— Senhorita Dolores...

— Senhorita Consuelo...

O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.

Abancaram á mesa e principiou o festim.

A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.

A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.

— Um moço de fretes com esta carta para a menina...

A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador, usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós com Leonor.

— Dê cá! — disse a loura, pegando na carta e examinando o sobrescripto. — Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma declaração?

— O portador não esperou reposta.

— Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que entregou a carta.

E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.

— É singular! O papel não vem perfumado — disse ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva vinha escripta.

— É de homem de dinheiro! — commentou a velha, muito pratica em negocios d'amôr. — Os cheiros são para os pelintras que só querem agradar com bugigangas e a respeito de louça... nem um pires!... Homem sério, homem de massas, não está lá com essas coisas... Confia no seu dinheiro e é bastante...

Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:

— Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!

— O que é, menina? — perguntou a velha serviçal, n'um movimento de curiosidade.

— Dizem-me aqui — tornou Leonor com voz rouca de commoção — que Eugenio vae casar.

— Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a avoar!

Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:

«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito breve.

«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado, discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento de Eugenio.

«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro, escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, suspenda pagamentos, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do commendador Garcia.

«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.

«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa Leonor, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.

«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»

Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha confidente, exclamando:

— Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!

— Crédo, menina! — bradou a velha benzendo-se — Isso são tentações do demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um ! Homens ha muitos, tão bôs e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo uma image, não achava homem que lhe désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero dizer nada, mas tenho osservado muita coisa... Só eu é que sei!

— Que e o que você tem observado, Joanna? — interrogou Leonor roida da curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.

— Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!

— E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?

— Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como isto!

E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.

— Mas será verdade? — tornava a loura passeando agitadamente na sala — Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?

— O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina...

— Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando um golpe de morte ao meu coração!

E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.

A velha apaziguava:

— Ás vezes támem se diz mais do que é,..

— Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?! — exclamou por fim, rompendo em soluços.

— Desgraçado é o diabo! — consolou a velha Joanna — Quem conta um conto sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador Gracía dar por ella e não tornar cá... Antão sim, antão é que a menina se devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se arranja nada...

— Cale-se, Joanna, cale-se! — bradou Leonor n'um impeto de desespero — Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição — o proprio amor do homem que me sustenta — ás suas necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta affronta!

No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade irritada, o odio, o ciume, emfim.

A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de prudencia ou de banal consolação.

De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz lamurienta:

— Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!

Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução.

— Joanna — disse ella — de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma palavra ao sr. Eugenio.

— Ó menina! Crédo! — protestou a velha — a minha bôcca não se abre para nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu tàmem faço de conta que nada assucedeu... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e começar-lhe por ahi com climas, que elle logo desconfia...

— Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...

— Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle se encubra. E depois de se infirmar da verdade, já fica sabendo quem tem...

— É justamente isso o que eu quero.

— Porque ás vezes — commentou a velha — támem são malquerencias... Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo támem hão muitas invejidades!...

— Pois é por isso... — tornou Leonor dominando-se — Eu vou-me deitar... Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...

— Bem sei; a menina quer-se infingir doente esta noite p'ra elle não desconfiar...

— É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?

— Ora essa! A'gora esqueço!...

— Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...

— Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa, não tem senão chamar...

Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar as horas com a rapidez de minutos.

Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto da amante.

Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes, recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.

Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer, tranquilla.

— Deitaste-te? — disse elle — Fizeste bem, minha querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!

Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:

— Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada... Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...

— Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?

— Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...

— Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu chegava, e deu-te esse resultado!

— Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...

— Mas estás melhor, não é verdade?

— Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...

— Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.

— Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto passa.

A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.

O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas feições.

Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um transporte de ternura infinita que lhe disse:

— Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me melhor...

— Não, eu venho cêdo...

— A que hora?

— Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé, filhinha...

— Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...

— N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?

— Pois sim.

Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.

Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e começou executando a walsa Leonor, conforme o seu anonymo correspondente lhe havia indicado.

Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de conhecer toda a verdade.

Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um chapéo de feltro.

A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.

Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa curiosidade.

O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e, parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e disse, inclinando-se em garboso cumprimento:

— Não esperava que fosse eu, não é verdade?

— O senhor! — disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições de João Lazaro.

— Eu mesmo, é verdade! — replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio galanteador; — julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com a ausencia.

— Mas, perdão! — tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de impaciencia — creio que não foi para insistir nos seus protestos de estima que aqui veio...

— Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem recebeu...

— Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses factos para explicar o seu procedimento...

— Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente; e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma... Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o...

— Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!

— É então certo que o ama muito? — perguntou o aventureiro com um sorriso ironico.

Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel desespêro:

— Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...

— Aliás? — interrogou João Lazaro, sorrindo.

— Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.

E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.

— É justo! — disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel galanteador. — O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?

— O que quer dizer?

— Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!

Leonor encarou-o com altiva dignidade:

— É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?

— Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia de Eugenio!

Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:

— O meu coração, por emquanto, não está livre.

— Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado recanto do seu peito, Leonor?

— Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e estima sincera.

— Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!

A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe ficava proximo.

— Assim entendidos — disse ella — queira dar-me as explicações que me prometteu.

— Perdão, minha querida! — tornou o aventureiro, sorrindo amavelmente — Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...

— O que deseja então?

— Que me prometta, que me jure duas coisas...

— Dirá.

— A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.

— Prometto.

— A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar que, n'esta casa, occupava Eugenio...

A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração de mulher ciumenta.

— E se eu recusar essa ultima condição? — perguntou.

— Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.

— Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!

— Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...

— É de mais! — bradou Leonor, colerica e impaciente. — Se veio aqui, para se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a brincadeira!

— Ora vamos, minha querida... socegue! — volveu o Lazaro com um sorriso cynico. — Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue frio, para procedermos com acerto e prudencia.

— Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me vae fazer.

— Ora muito bem! — principiou o João Lazaro. — Disse-lhe na minha carta que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a verdade.

— Como se chama essa menina?

— Beatriz.

— Onde mora?

— Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.

— Diz então que o casamento está projectado para breve?

— Digo.

— N'esse caso, essa menina ama-o?

— Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que pediu a sua mão.

— Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?

— Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o seu segredo...

— Como o soube então?

— Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!

— Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se divertir á custa alheia?

— Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me informações a seu respeito.

— O que lhe disse?

— O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.

— Mas é forçoso impedir esse casamento!

— Talvez não seja impossivel.

— Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?

— De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja d'elle?

— Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...

— Está doida! E o commendador Garcia?

— Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não case! — bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação indescriptivel.

— Venha cá, socegue! — disse João Lazaro, tomando-lhe a mão. — Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso que cumpra o que prometteu.

— Pois sim... Diga então o que devo fazer...

— Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.

— Como?

— Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...

— Merece...

— Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este mundo.

— E obtida a certeza?

— Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. Faz isto?

— Faço.

— Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.

— Não suspeitará.

— E eu voltarei a informál-a.

— Quando?

— Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.

— E até lá nada devo dizer nem fazer?

— Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do Custodio de Jesus.

— Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...

— As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.

— As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás circumstancias?

— Todas. No seu caso, todas — replicou João Lazaro com reflexiva gravidade.

E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:

— Ora venha cá! — disse elle — Deixe-me pensar pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e a attender-me...

— Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os seus torpes intentos!

— Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á senhora...

— Só a mim, diz?

— Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante para impedir o casamento?

Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:

— O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem toma a sério.

A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma indignação suprema.

— Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu! — exclamou ella — E porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?

João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava nos labios.

— Tem razão — disse elle por fim — Mas que quer, minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, que ninguem attende.

— Ha de pelo menos attendel-a elle!

João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.

— Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio pensa, em se fazer homem sério por meio de uma alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.

— Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que é! — bradou Leonor completamente dementada.

— Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está fallando.

— Mas o que devo então fazer, santo Deus! — clamou a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.

— Ter prudencia e esperar.

— Ter prudencia! Esperar... o que e como?

— Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, Leonor...

— Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?

— Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...

— A que?

— A realisar grandes emprezas que premedito...

Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.

— E que emprezas são essas?

— Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos. Posso contar com a senhora?

A loura hesitou. Por fim respondeu:

— Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.

— Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.

— Está bem! — disse a loura estendendo-lhe a mão — póde contar comigo.

João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e dispoz-se a sahir.

— Ámanhã voltarei á mesma hora — disse elle á sahida. — E o signal convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.

— Espere! — reflectiu a loura — Se ás vezes, por qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o...

— Claro está que não dá o signal.

— Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...

— Toque então a marcha da Cadiz.

— Está bem.

— Ainda mais — tornou o Lazaro — se quizer prevenir-me de que não venha no dia seguinte, substitua. a marcha da Cadiz pela Cavallaria Rusticana. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias depois.

— Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...

— Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.

— Até amanhã.

O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um beijo, e sahiu.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XIV: Miseravel!


João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge. Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o serviço domestico.

— Venho fazer-te a promettida visita — disse João Lazaro ao amigo que estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.

— Bem vindo sejas, meu caro! — volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta e indicando-lhe uma cadeira.

— Sempre a trabalhar! — disse João Lazaro com um sorriso de curiosidade. — Em que diabo te occupas agora?

— Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é a minha paixão...

— Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...

— Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...

— Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?

— Eu!

— Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade. Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?

— Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os da tua côr.

— Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!

— Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear publico... — disse Jorge rindo. — Mas não, meu caro, eu não estou resolvido a collaborar em jornaes...

— Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.

— Mas eu não pretendo amedrontar ninguem — tornou Jorge impassivel. — Não tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida, actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica. Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?

— Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...

— Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste bom acolhimento por parte dos teus amigos...

João Lazaro fez uma carêta de despeito.

— Uns pulhas, os taes meus amigos!

— O que! Acaso não estás contente com elles?

— Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és meu amigo...

— Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias que me fazes.

— Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por um partido de verdadeiros bilhostres!

— Ai, já?!

— Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas, acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas, fazia-o sem a mais leve hesitação.

— Não pódes... isso com certeza não pódes — tornou Jorge.

— Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem, e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!

— Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?

— São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada... Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome, unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...

— És modesto, João! — interrompeu Jorge rindo.

— Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias. A verdade é esta...

— Tens razão. Inter amicus non est gerigonça, dizia-se no meu tempo. Continua.

— Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?

— Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!... — disse Jorge com sarcasmo.

— É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o sangue pela patria?

— É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...

— Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria, porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!

— Mas, afinal, de que tens tu vivido?

— D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres, persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento do seu partido!

— O mundo está cheio de ingratos, meu caro!

— Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?

— Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a sangrias repetidas...

— É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças... Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...

— Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro auxiliado és tu...

— Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não teria difficuldades...

Jorge sorriu.

— Isso tambem eu creio — disse elle.

— E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...

— Queres dizer, se não continuarem a corresponder...

— Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os interesses d'elles do que os meus...

Houve um silencio de alguns minutos.

— É verdade, ainda te dás com o Avioso? — perguntou o Lazaro.

— Continuamos a ser amigos como sempre fomos.

— Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.

— É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de ser politico.

— Talvez me convenha aproximar-me d'elle...

— Quando quizeres, estou ao teu dispôr.

— Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...

— Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...

— Bem; havemos de fallar.

N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do aventureiro, e disse comsigo:

— Temos o chefe mudado em espião...

João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma fumaça:

— A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores... Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no Suisso, o Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!

— É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?

— Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio, nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.

— É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...

— Mas tu disseste-me que sim...

— Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro. Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...

— Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!

— Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.

— O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do Eugenio?

— Não sei... talvez indagasse.

— Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por força grande embrulhada.

— Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que, não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de rapaz rico...

— Á custa do commendador Garcia...

— Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...

— Não é, mas o commendador dispende muito com ella.

— Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha dissipação...

— Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.

— O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de receita, tu bem o sabes...

— Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...

— Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive, dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...

— A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o capitalista... — aventurou João Lazaro.

— Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.

— Hei de averiguar! — tornou o João Lazaro.

— Que interesse tens tu em o saber?

— O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama amigo e offerece ceias?...

— E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que ficas conhecendo...

— Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje, para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...

— Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua canalhice...

— Nada, nada, menino! — protestou João Lazaro — Quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre...

— Elle, porém, não é teu inimigo...

— Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...

— Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como procederás com aquelles a quem odeias?...

— Queres ver? Olha!

João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.

— Tenho aqui — disse elle — uma relação dos meus inimigos — a quem hei-de um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que só estão os nomes dos individuos premiados... Vê!

Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.

— Para que é isto? — perguntou Jorge.

— Para que? São crédores meus a quem tenciono pagar um dia... Ha-de ser uma liquidação completa!

E fez um gesto de quem aperta um laço.

— Serias capaz d'isso, João? — disse Jorge n'um tom sombrio.

— Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr... Hei-de dar-te o espectaculo duma illuminação como nunca viste.

— Não darás...

— Porque?

— Porque se a festa se preparar, eu já sei que, para evitar o espectaculo de uma semelhante illuminação, tenho de te procurar e metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.

— Tu!

— Eu.

— Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.

— Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar sempre prevenido...

João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.

— Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...

— E a gracejar confeccionaste esta lista...

— Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de vingança — aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...

Jorge sorriu com despreso:

— Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não tencionas realisar... — disse elle.

— Ao menos sobresalto-lhes as noites... — replicou o João Lazaro.

— Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus dias... Queres um conselho, João?

— Dize lá?...

— Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.

— Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de mera brincadeira da minha parte! — disse João Lazaro, verdadeiramente compromettido.

— É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam d'uma invenção absurda e idiota.

Fez-se um silencio constrangido entre os dois.

— A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..

Jorge encarou-o.

— Vaes então mudar de campo de acção politica? — perguntou.

— Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me entendo com semelhante canalha!

— Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a realisação do teu decantado plano, o que farás?

— Ao dinheiro? Gasto-o.

— E ao plano?

— O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique e mais elle...

Jorge riu-se.

— É então ainda uma mystificação que projectas?

— Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro que me derem...

— E se não conseguires que te dêem coisa alguma?

— Terei que pedir emprestado aos adversarios — que, mais avisados, não me recusarão o que os meus correligionarios me negam...

— Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em boas relações com o Avioso?

— Foi.

— Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.

— E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?

— Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.

— Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...

— Dize lá!

— Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires. Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo. Acceitas?

— Está combinado. Acceito.

— Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...

— Já sei. Quanto?

— Por uma vez só?

— Não. Por mez.

— Diabo! Eu não sou um espião vulgar...

— O que é bom paga-se bem. Quanto?

— Duzentos mil reis será muito?

— Não sou eu que hei-de dizel-o...

— Pois quem?

— Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...

— Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei serviço que valerá muito mais.

— Têl-os-has.

— Mas — observou João Lazaro com uma certa hesitação — ha ainda uma coisa...

— Dize.

— Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso protelar por mais tempo.

— Bem sei, precisas de um adiantamento...

— É isso.

— Quanto calculas que te seja preciso?

— N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande auxilio.

— Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...

— Comprehendo.

— Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.

— Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?

— Basta.

— Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.

— Está bem.

— Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?

— Fallo.

— Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não transpire por modo algum.

— A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que, inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.

— É precisamente isso.

— Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem guardar.

João Lazaro accendeu outro charuto.

— Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!

Jorge sorriu.

— A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...

— É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.

— E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro. A proposito: sempre partes breve para Lisboa?

— Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.

— Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?

— Estou resolvido a tratar d'isso.

— Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis, occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?

— Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta casar-se.

— Sabe? Quem lh'o disse?

— Eu. Tu não me pediste segredo.

— Nem me interessa que ella o não saiba.

— Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as minhas ordens.

— Eu já sabia isso.

João Lazaro encarou o amigo com espanto.

— Já?! — perguntou.

— Já.

— Como o soubeste?

— Eu sei tudo.

— Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares espionar.

— Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber a tua conducta.

— Ah! sim... — fez João Lazaro reflectindo. — Mas esta visita que eu fiz não tinha caracter politico — e não acho correcto que me espionem e me sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me perseguem quando eu conspiro...

— Vamos a saber — disse Jorge. — Tens interesse em que Eugenio de Mello não realise o casamento com a filha do capitalista?

João Lazaro fez uma carêta.

— Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.

— Se Eugenio casar...

— Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...

— E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser admittido ao logar vago...

— Justo!

— É curiosa essa aventura!

— É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.

— Será, mas entendo que deves proceder com cautela...

— Porque?

— Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?

— Dize.

— Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me consultares primeiro. Valeu?

— Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente precisado de dinheiro...

— Não me esqueço.

O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.

— Adeus — disse elle — Amanhã procuro-te.

— Pois sim. Adeus.

Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle transpôr a porta da sala, murmurou:

— Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XV: Conluio infame


No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.

— A coisa é esta: — dizia o procurador — com pannos quentes não se faz nada.

— Ai, já? Você já é da minha opinião? — replicou o Custodio, triumphante. — Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e agora é tarde para tomar outro caminho...

— Qual outro caminho?

— O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a façam entrar na ordem?

— Mas não é preciso nada d'isso, homem!

— Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja nada e acha que não é preciso empregar a força?

— Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae cruel...

— Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua. Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!

— Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...

— Mas que força é essa então?

— É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força das circumstancias?

— Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim consegui convencêl-a.

— Pois bem; mudemos de systema — disse o Belchior, piscando um olho.

— Mudemos do systema como? — perguntou o Custodio, sem comprehender.

— Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a largal-a a ella...

— Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a obriguem a acceitar este casamento...

— Ninguem falla em empregar esses meios violentos...

— Não?

— Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o caso é outro...

— Mas então diga lá.

O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:

— A questão é você querer...

— Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!

— O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...

— Se dá resultado, vamos a elle! — concordou o Custodio — Então como é isso?

— É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...

— Hein! O que? Rapta-se?

— É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...

— Mas... — obtemperou o Custodio indeciso — torne a dizer, que eu não percebi bem?...

— Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...

— Sim... E depois?

— Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá, agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é tarde — não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...

— O resto... Mas qual resto?

— Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio senão acceitar por marido o homem que a raptou...

— Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...

— Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...

— E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?

— Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella desacreditada, só se elle não tiver vergonha.

— Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não... isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e andar fallado nas bôccas do mundo! — recusou honestamente o marido de D. Carlota.

— Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma planta-fórma para obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada, uma vez que o raptor a receba por mulher?

O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que ruminando o plano do seu amigo Belchior.

— A coisa — disse elle por fim — talvez desse bom resultado... Mas isso era um escandalo de seiscentos diabos!

— Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que convinha...

— O que! Convinha o escandalo — interrogou o Custodio escandalisado — Então você quer que eu, como pae — porque afinal ella não tem outro — goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em escandalos?

— Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que convinha...

— Mas convinha porque? — insistiu o Custodio.

— Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem, senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora, não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da praça abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?

— Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher, senão debaixo de certas condições?

— Quaes condições?

— Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a coberto...

— O Eugenio não é capaz d'isso! — protestou o Belchior.

— Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle impuzer... Nada, isso não é bom plano.

— Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não vejo outro meio...

— Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao namoro, isso desse bom resultado.

— Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com quem se não póde tratar nada a sério...

— O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar — volveu o Custodio coçando a suissa — Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...

— Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus interesses como se fossem meus...

— Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...

— Não é outro nada... — replicou o Belchior. — Se elle se comprometter comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado, cumpre com toda a certeza.

— E se não cumprir?

— Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a justiça...

— E o que lucrava eu com isso? — perguntou o Custodio com um sorriso velhaco.

— O que lucrava?

— Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres pela maroteira feita a mim?

— Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?

— Comprehendo... isso comprehendo eu... — mascou o Custodio indeciso.

— Então, se comprehende, que mais quer?

— E você compromette-se a fazel-o cumprir?

— Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso salvar as apparencias...

— Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.

— Justissimo! É isso mesmo! — apoiou o procurador. — Offereço-me a proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja encontrado com ella.

— Justo! — disse o Custodio.

— Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que elle terá de se haver... Está bem assim?

— Está optimo! — apoiou o Custodio radiante.

— E o dito dito — tornou o Belchior — eu levo a percentagem combinada...

— Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XVI: O rapto


Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz, que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo prazer.

O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez lhe puzesse a saude em risco.

— Ora a minha desgraça! — clamava elle — Não basta ter tanta coisa que me afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!

— Mas se o papá não quer — propoz Beatriz — manda-se dizer que está doente e não vamos...

— Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...

— Mas se é um caso de força maior...

— Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...

A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam açodadamente, gritando:

— Então vamos?

— Vamos lá... estou prompto! — disse o Custodio ao Belchior — A pequena tambem já está preparada, acho eu...

A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz n'uma grande alegria:

— Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?

— Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas coisas que mandei preparar...

— O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que chega para um regimento!...

— Por demais não perde... — apoiou o procurador — Vamos embora que são horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...

Entraram no carro, um char-á-bancs enorme, e seguiram as duas familias aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.

A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.

A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.

Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo, dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro pelos dois homens.

O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para a cidade.

— Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha, amigo Custodio?

— A distancia, realmente, não é grande...

— Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres desce-se bem...

— Eu cuidei que o passeio era para mais longe — disse a mulher de Belchior.

— Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...

Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.

O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador, esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore frondosissima, começaram a cabecear com somno.

Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.

Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.

Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão horroroso.

Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas noites que não apparecia a fallar-lhe.

Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse ella, porque elle voltaria com boas novas.

— Mas o que vaes fazer? — perguntara-lhe interessada em tudo o que o mancebo intentava.

— Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu procedimento.

Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios, quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não communicasse, impressionou-a.

E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe pelo menos antipathicas.

Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.

A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio pela fresca.

— São horas de nos irmos chegando a casa... — advirtiu a mulher de Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.

— É verdade, vamos indo... — disse o procurador, travando de braço de Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava interessado.

E voltando-se para as senhoras:

— Andem lá adiante...

Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.

As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns numeros mais populares de uma revista em voga.

— Ah! que dia tão bem passado! — exclamava a cunhada do procurador — Não ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao campo!

— E a noite está linda! — accudiu a mulher do Belchior — dá mesmo gosto passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?

— Não desgosto... — volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de ignoto receio.

O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia, paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo argumentos sem tom nem som.

Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que queriam encontrar-se no momento do assalto.

— Deixe-as ir... deixe-as ir... — murmurava o Belchior — Quanto mais longe estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva á pequena.

Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.

Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do carro, que partiu em carreira desabrida.

— A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande afflicção.

Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito açodados, perguntando:

— O que é? O que aconteceu?

— Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram com ella dentro d'aquelle trem!

E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.

— E ella não gritou? — disse o procurador.

— Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a pobresinha não se tornou a ouvir!

— Talvez a amordaçassem... — aventurou o Belchior.

— Ou talvez perdesse os sentidos... — concluiu a mulher.

O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos á cabeça, não fazia senão gritar:

— Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a minha filha!

— Um rapto! — gritava o procurador — O crime foi praticado de noite, e de noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia e apresentemos-lhe a queixa...

— E quem diremos que foi o raptor? — perguntou o Custodio.

— Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?

— Sim... foi elle...

— Está visto que foi — tornou o procurador — Elle queria, ella não queria... raptou-a!

E em tom mais baixo:

— Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente, que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.

— Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto não é coisa que se faça a um pae!

— Mas que coisa! que coisa! — dizia a mulher do procurador, simulando a maior consternação. — Ainda não estou em mim!

— Ai, meu Deus! — accrescentava a cunhada — Em que perigo nós nos mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a mim!

— Á senhora?! — disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso escarninho.

— E então? — retorquiu a cunhada do Belchior, offendida — Eu sou solteira, e elles eram dois...

— Ahi está a prova! — affirmou o procurador — Vinham dois e raptaram só uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com o regedor para perseguir os fugitivos!

Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois das nove horas da noite.

Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e contaram-lhe o succedido.

— E para onde fôram elles? — perguntou o funccionario.

— Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e afinal perdemol-os de vista...

— Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?

— Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer, deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no Porto e que se chama Eugenio de Mello.

— Bem! — concluiu o regedor — Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração. Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.

E preparando-se para tomar nota n'um papel:

— Os seus nomes, fazem favor?

O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.

— Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia — disse o regedor — a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr. administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias precisas...

— Veja v. s.ª, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha roubada nas minhas barbas!... — lamuriou o Custodio.

— E demais a mais, menor! — declamou o procurador — É crime de casamento ou penitenciaria!

— Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem! — Concluiu o regedor.

— E agora — disse o Belchior muito solicito — em chegando á cidade, vamos direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...

— Está visto... — apoiou o regedor — Ninguem sabe o caminho que os fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos, póde muito bem fazel-os capturar...

— O que vale é que nós conhecemos o raptor...

— Sim, isso é meio caminho andado — disse o regedor — e se tivessem photographias, ainda melhor...

— A verdadeira photographia é o nome — accudiu o procurador — Elle é conhecido.

— Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr. administrador dará as ordens.

Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu sahir.

— E d'aqui para a policia! — bradou o Belchior já na rua.

Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.

— Tudo correu bem! — segredava o procurador ao Custodio — Agora, na policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...

— Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!

— E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro remedio senão casar com o Eugenio...

— Sim... isso é verdade.

— Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos convinha...

— Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque já hoje não vão á policia...

— Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de casar, quer queira, quer não!

Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia dos dois mascarados que a raptaram.

Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.

Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada de ternura, pegando-lhe na mão:

— Beatriz!

Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.

— Beatriz! — tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e delicada.

O mesmo silencio e a mesma immobilidade.

Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto, poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a filha do Custodio não respirava.

— Perdeu os sentidos! — disse elle visivelmente commovido.

— É natural — replicou o companheiro. — Compleição franzina e delicada, assustou-se e desmaiou.

— E agora? — perguntou o que primeiro fallara.

— Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.

E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e afflicto:

— Não te assustes — tranquillisou. — Isso passa. É um ligeiro deliquio, que até nos favorece o bom exito da empreza.

— Parece-me que não somos seguidos. — tornou o outro, inquieto.

— Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos foram os proprios que nos auxiliaram?...

— É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras adiante...

— Já esperavam o lance, os patifes!

— Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam assignalado...

— Era para Villar do Paraiso, pois não era?

— Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

— Estamos na ponte — disse o primeiro dos dois desconhecidos.

— Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um largo portão de ferro.

— Eis-nos, emfim! — disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo, seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz, ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

— Paulo! És tu? — disse ella.

— Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe na mão e beijou-lh'a com transporte.

— Paulo! — tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada — o que é isto? Como me encontro eu aqui?

— Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de um enorme perigo...

— Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu Deus! — disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra. — Mas como pudeste tu saber?

— Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o procurador Belchior — esclareceu Paulo: — Era uma cilada infame que te estava armada e em que te queriam fazer cahir...

— Com o consentimento de meu pae?! — gritou Beatriz horrorisada.

— Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

— Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram dentro do carro...

— Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr, estás ao lado do escolhido do teu coração!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.

— E esta senhora — disse ella — quem é?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á pergunta:

— É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha filha.

— É minha mãe! — accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

— Este louco — disse ella — teima em querer impôr-me um titulo que me não pertence e a que de forma alguma tenho direito...

— Não diga isso, minha mãe! — protestou Paulo — Pois quem me acalentou na infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?

— Mas, meu filho... — ia a dizer madre Paula commovida.

— Meu filho! vês? — interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz — Diz que não é minha mãe e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:

— «Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...

— Outra! — exclamou Paulo indignado — Quem quer que ella seja não a conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por ella indifferença.

— Paulo, não digas isso! — reprehendeu madre Paula — Sabes que me mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos paes?

— Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração, minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois, minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta scena:

— Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens fallado com tão viva saudade?

Beatriz corou e disse:

— Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora, nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia... inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos, gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal, este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e o meu coração ficava frio e indifferente.

Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.

— Minha filha — disse-lhe a abbadessa — eu creio bem que, apesar de não sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...

— Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os sentimentos do meu coração.

E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.

— E todavia — observou Paulo — esse homem não tem o minimo direito á obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um pae!

— Paulo! Paulo... então! — supplicou Beatriz.

Madre Paula interveio:

— O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.

E dirigindo-se a Beatriz:

— Minha menina — accrescentou — agradeça ao céo o havel-a protegido e amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?

— Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!

— Paulo virá vêl-a — continuou Madre Paula — mas fallar-lhe-ha sempre na minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois, que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a honra e a reputação dos meus queridos filhos.

Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil abbadessa.

Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal, disse para Beatriz, levantando-a nos braços:

— Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.

E dirigindo-se a Paulo:

— Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XVII: Quem semeia ventos...


O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio, esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos acontecimentos.

— Agora, amigo Custodio — disse-lhe o Belchior — como tudo correu á medida dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a fazer-se...

— Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da quinta... — respondeu o Custodio com um sorriso velhaco — o casamento vem em bôa occasião.

— Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, saber que novidade tinha havido.

— É bôa! — disse o procurador á mulher — Este maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade que houve!

— Mas — observou a esposa — quando te deixou elle esse bilhete?

— Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confiança, depois do rapto.

— Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...

— É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

— Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

— Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido... Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio entrou:

— Então? — disse-lhe o procurador. — Você já aqui, em vez de estar a convencer a pequena!

— Qual pequena? — interrogou Eugenio, sem comprehender.

— Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?

— O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...

— Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a Beatriz?

— Eu?!

— Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

— Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...

— Mau! — disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava gracejando. — Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas brincadeiras!

— Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois d'isto, fosse raptar a pequena?

— Com os diabos! — berrou o procurador, desesperado. — Mas eu vi! Você, quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira grossa:

— Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar... Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio zombeteiro, meio ameaçador:

— Você está doido, amigo Belchior?

— Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!

— O que quer você dizer com isso, Belchior?

— Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você lhe pareça o contrario!...

O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

— Homem, não se zangue e fallemos sério — disse elle, procurando serenar o Belchior. — Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a dizer...

— Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o fazer preceber... — tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que o aventureiro o queria enganar. — É preciso que se lembre de que eu estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o contrario, que eu não o acredito.

— Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui! — protestou Eugenio, verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.

— Não foi! Então quem foi?

— Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

— Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

— Certamente. Eu estava no Suisso, eram quatro horas da tarde, conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem, que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe: — «Onde está o sr. Belchior?» — «Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria você que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do bohemio.

— Sim... tudo isso está muito bem — disse elle. — Mas o peor é que a rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e ninguem podia ter sido senão você...

— Mas você não está gracejando, amigo Belchior? — interrogou por sua vez o bohemio. — Realmente Beatriz foi raptada?

— Essa agora! Então não sabe que o foi?

— Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...

— Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:

— Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

— Com seiscentos diabos! — gritou o procurador desvairado — Então já o ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli, e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

— É verdade! — replicou o rapaz com soberano despreso — E esse preto no branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!

— Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa! — berrou o procurador n'um gesto de ameaça.

— Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.

— Pulha! — regougou o Belchior, rouco de colera — Ponha-se lá fóra! ponha-se lá fóra!

O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido de medo, foi recuando até á parede.

Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa sobre o hombro, disse:

— Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se apressado a casa de Custodio.

Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos haviam combinado dar-lhe.

— É incrivel — murmurava elle — a desfaçatez com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise... Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no momento mesmo em que este se preparava para sahir.

— Ia agora mesmo a sua casa — disse-lhe o agiota.

— Sim? Então o que ha de novo? — perguntou-lhe o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

— Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que fizemos hontem ao regedor e á policia...

— Pois está claro que sim! — tornou o procurador — Agora é carregar-lhe com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo que elle não possa negar ainda que queira...

— Você julga-o capaz d'isso? — perguntou o Custodio em sobresalto.

— Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.

— Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto... — observou o Custodio desconfiado.

— Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar. Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...

— Eu estou prompto! — volveu o Custodio — Diga você como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame negocio.

— Trabalha por conta propria — pensou — e quer vêr se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

— É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci, porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de dizer comnosco... não nos póde contradizer...

— Ágora contradigo! N'essa não caio eu...

— E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...

— Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar? — insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo.

— A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...

— Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.

Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram para Villa Nova.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XVIII: Revelação


O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o estranho legado.

Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame do mysterioso manuscripto.

A confissão da velha, porém, impressionara-o.

Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo. O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe revelára nos ultimos momentos.

Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo. Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães no coração do padre Anselmo.

Todavia, madre Paula suppunha a Irmã Dorothêa vivendo em paiz estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo, deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais não quizeram saber?

Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu, reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.

Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre Paula, na casa das Sereias.

— Sabes, minha amiga — disse o padre Filippe, entrando na cella da abbadessa — que tive noticias do padre Anselmo?

— Sim? — perguntou madre Paula com curiosidade.

— É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para mim e creio que tambem para ti...

— Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É ainda vivo?

— Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não soube dizer-me se elle ainda vivia.

— Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?

— Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...

— Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.

— Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer revelações importantes.

Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de que ella o fizera depositario.

— E o manuscripto o que diz?

— O manuscripto — replicou o padre — é uma sentida e commovente narrativa feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova ainda, a ligaram ao padre Anselmo...

— É singular!

— Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de Jesus...

— Custodio de Jesus! — repetiu madre Paula, sobresaltada.

— Sim, Custodio de Jesus — tornou o padre Filippe — Porque te sobresalta esse nome?

— É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira primitivamente em Braga.

— É extraordinario! — exclamou o padre Pilippe — Dar-se-ha caso que Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?

— Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja... irmã de Paulo.

— Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor suspeita do que se trata.

Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.

— Chamava-se D. Carlota — disse — a mãe do padre Hilario?

— Chamava.

— É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no manuscripto que te veio ás mãos?

— É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica aspiração.

— De modo que — tornou ainda madre Paula — se Beatriz é filha de D. Carlota...

— Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do impedimento dirimente.

— E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?

— Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos os outros meios ao nosso alcance.

— Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão fundas raizes.

— Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente, devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos, se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.

— Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.

— O que não convem — recommendou o padre Filipe — é que Paulo tenha conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter do mais intimo segredo...

— Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.

N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.

— Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel — disse madre Paula.

— Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...

— Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...

— Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas igrejas...

— Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha muito tempo.

— Sim, minha senhora.

— Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama Beatriz, tem o nome de D. Carlota...

— Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...

Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.

— Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua! — disse lépida a cuscuvilheira.

— Então, o que soube?

— O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre hybotécas e pelos modos leva coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...

— E a familia?

— A familia é só elle e mais a filha e mais a creada — uma focinho de cão que primeiro que se lhe arrinque uma palavra do bucho é um dia de juizo!

— E a mulher? Elle não é casado?

— Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...

— E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?

— Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...

— Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.ª D. Anna?...

— É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito... E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar carregada de peccados!

— Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da segunda mulher do Custodio de Jesus?

— Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu préscurador chamado o snr. Mélchior, que é lá todo da casa do Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do namorico — Credo! Santo nome de Jesus! — que a pequena traz com um estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com oitro, que diz que é pôdre de rico.

— Está bem! — disse madre Paula.

— Veja lá a senhora as desgracias que vão por esse mundo, tudo causado pela falta de religião e temor de Deus!...

— Está bem! — repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira. — Vá na graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este serviço...

Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:

— Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...

O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:

— As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude obter...

— Ah! tambem indagaste?

— Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...

— Qual é?

— É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo menos uma idade que regula por esse tempo...

— D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?

— Morreu.

— Como o sabes?

— Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.

— De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?

— Não.

— E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem foi sua mãe?

— Decerto.

— Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie! — disse ainda horrorisada a bella abbadessa.

— O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á sua desmedida ambição...

— Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?

— Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua carreira de crimes...

— Não terias meio de indagar se ella ainda vive?

— Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada. Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.

O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade, sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de alegria.

— Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre coração! — disse ella commovida.

— Esse Custodio de Jesus — continuou o padre Filippe retomando a sua attitude grave — é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.

— Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu consentimento...

— Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...

Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz de Paulo:

— Dá licença, minha mãe?

— Ah! és tu? Entra, entra, meu filho! — exclamou a abbadessa correndo ao seu encontro.

O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:

— Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!

— Tu dirás, meu amigo, o que desejas — disse, bondoso, o padre Filippe — e se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr de nós...

Paulo principiou dizendo:

— O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no coração logar para outro affecto igual...

— Falla, falla, meu Paulo! — animou com doçura a bondosa abbadessa.

— O caso é este — continuou o mancebo — Beatriz, de quem lhes tenho fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a cumplicidade de seu proprio pae!

— O que! O que dizes tu, meu filho? — interrogou madre Paula.

— A verdade, minha mãe!

O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o com attenção.

— Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...

— Mas eu tenho a certeza! — protestou Paulo — E porque a tenho é que venho pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.

— Falla! — disse o padre Filippe.

O mancebo prosegniu:

— Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu, de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide recebel-a por esposa.

— Isso é impossivel, Paulo! — bradou madre Paula, indignada — Não ha um pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas a acceitar invenções de tal ordem!

— Não, minha mãe! — volveu Paulo — O que lhe digo é absolutamente certo e vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura foi quem o declarou diante de mim.

— É o que eu digo! gracejo de rapazes.

— Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo que as duas familias — a do Belchior e a de Beatriz — teem preparado.

— E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?

— Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.

— O que tencionas então fazer? — perguntou o padre Filippe.

— Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle preparadas, para lh'a raptar eu.

— Tu?!

— E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher, heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira impossivel de transpor — a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu logar. Falta-me apenas uma coisa.

— O que é? — interrogou madre Paula.

— A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita, antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.

O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.

Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no pensamento dos dois:

— «Não parece filho do padre Anselmo!»

— Desejas então...? — interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.

— Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella seja forçada a conservar-se occulta...

— Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais, não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?

— É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...

O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto silencio, resolveu-se afinal a intervir.

— Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem — disse elle. Paulo deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva, porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se a trouxer para aqui...

— É justamente esse o inconveniente que já apontei — interrompeu a abbadessa.

O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:

— Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse inconveniente...

— Qual?

— Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi, madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha amiga? — concluiu interrogando a abbadessa.

— As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.

Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.

— Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos olhos.

— Vamos, vamos! — replicou o padre Filippe commovido, procurando furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz — Trata de procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados — concluiu — Sou um pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.

— Oh, meu pae!

— Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que certamente esta habituada...

— Eu tenho amigos, meu pae! — affirmou Jorge.

— Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres. Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.

— Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem mais familia e onde nada falta.

— Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves acceitar.

— Já acceitei, meu pae!

O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior, por maneira tão original como inesperada.

Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e interessantes episodios se estão dando.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XIX: Um velho amigo


Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.

Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e poesias, como estava combinado muito tempo antes.

O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a glorificação, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias affectuosas.

No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem servir n'um banquete de cerimonia.

O caso, porém, não era esse.

Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.

Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza, o lucto eterno do seu coração.

Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.

Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não se offenderam.

— É um excentrico — dizia o juiz — Não ha que vêr, é um excentrico...

— É um paranoico com a tendencia romantica! — affirmava o medico. — Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã. E talvez esteja ahi a sua salvação.

— Não é nada d'isso, meus amigos — contrariava Gustavo — Este homem é um de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis. O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.

Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa entrevista.

Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a monologar as suas recordações e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido para as suas meditações ao ar livre.

De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.

Viu um pobre mendigo, um ermitão, de longas barbas brancas, vestindo um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito, pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.

— O que deseja? — interrogou Julio.

— Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor! — supplicou de baixo o pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma pergunta.

— Você é d'estes sitios?

— Não, meu senhor... Eu sou de Braga.

— De Braga?!

— Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...

— Vem então de muito longe?

— Venho, meu senhor!

— Espere ahi.

Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.

— Entre! — disse elle.

O pobre entrou.

— Você é de Braga? — tornou a perguntar Julio.

— Nascido e baptisado, meu senhor! — confirmou o pobre.

— Ha que tempo sahiu da sua terra?

— Ha muitos annos, meu senhor...

— Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado Tomba?

— Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom home, amigo do seu amigo... E eu támem era muito amigo d'elle!

— Ah! você então era amigo do Tomba?

— Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle eramos como a unha e a carne...

— E o que foi feito d'elle? Não sabe?

— Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

— Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo? — interrogou Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

— Ora espera! Vossa incellencia é o sr. Julinho de Montarroyo, pois não é?

— Sou.

— Cá me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

— Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa incellencia perdoará, mas eu estava agora bem longe de o topar aqui! Antão cumpassou? — perguntou o Tomba, lisonjeiro e carinhoso. — Vossa incellencia está féro! Está que é uma bisarria!

— Estou velho, amigo Tomba, estou velho!

— Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que, graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer minuciosamente, conduziu o Tomba através do jardim, até ao interior da habitação.

— Venha cá, Tomba, venha cá, homem, que temos que fallar...

— Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me trouve inté aqui, por sua infinita mesericordia!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e disse-lhe:

— Arrume o santo, mestre Tomba, e diga-me se tem vontade de comer...

— Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...

— Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoçar ao Tomba que, fiel ao seu costume, honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.

Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da casa.

— Já matei quem me matava! — disse elle satisfeito. — Ora agora aqui tem vossa incellencia um home p'ra tudo que fôr preciso!

— Conte-me cá, mestre Tomba, o que é feito de você? O que foi feito de D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de Noronha?

— Pois vossa incellencia não sabe? — disse o sapateiro admirado.

— Nada! Não sei nada.

— Pois já tudo isso lá vae!

— Tudo?

— Tudo ou acaijo tudo... Inté é de inorar o sr. Julinho não saber as desgracias todas que se déram logo assim que o sr. Julinho arretirou p'ra Braga.

— Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

— Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.ª D. Carlota, coitada! lá deu ao penagal em Lisboa... O padre Inxelmorais o parta! — lá teceu taes indrominas com o Custoido a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido falsa com o sr. Julinho...

— Comigo! — exclamou Julio admirado.

— Pois antão não sabia?

— Eu não sabia de nada...

— Bem digo eu! Antão já vejo que não sabe nem da missa a metade!... Pois o maroto do padre Inxelmo, emquanto nós estavamos no Porto a ver se lhe deitavamos a luva, vêo a Braga dizer ó Custoido que a sr.ª D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo... E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras, assubiu-lhe a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...

— Isso é extraordinario! — disse Julio.

— E lá em Braga toda a gente se acuarditou, porque demais a mais, como o sr. Julinho se prantou na planta-giria, todos dixeram que foi verdade, porque quem se cia alhos come...

— Mestre Tomba, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!

— Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou n'aquelle tempo...

— E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os calumniadores?

— Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que vivo, estrelicadinho com fome, porque aquellas carochas de seiscentos diabos tinham-me a jejum de pão e auga, que eu cuidei que não tornava mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam mais para os queixos do Tomba!

E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira que o guardava quasi á vista.

— Eu só queria que vossa incellencia visse, sr. Julinho... Aquillo foi uma trépa co'as correias, que inté o sengue lhe esguichou pelo sitio da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a saber novidades... A sr.ª D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr. Alvarinho — Deus lhe perdôe! — lá tinha o Perneta dado cabo d'elle... Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o enterrei!

— Ah! você foi testemunha no processo contra o Perneta, mestre?

— Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr. Alvaro tinha ido p'ra casa do Perneta, porque arrecebeu uma carta da sr.ª D. Carlota — Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra nada! — a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.ª D. Helena de Laronha estava lá mettida com vossa incellencia...

— Comigo?! — tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais espantado.

— Tal e qual como eu lhe estou a dezer, sr. Julinho! Pode-se acuarditar em mim, porque eu ouvi lêr a carta e escorda-me como se fosse hoje tudo quanto ella dezia...

— E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta, pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!

— Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes, começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá e aquelle ladrão do Perneta e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe tamanha carga de paulada que o deixaram cadable no meio da estrada! Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, atão é que eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do Perneta que deu cabo do probe rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...» Fui-me á Povoa, fallei com o sr. amenistrador, contei-lhe as coisas como foram e como não foram, e o Perneta, que inda estava preso, mas não confessava nada, assim que o acarinharam comigo, não teve mão em si, começou a entoar e dixe tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o levou seicentos diabos!

Julio ouvia espantado estas revelações do Tomba.

— Mas como é — disse elle — que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?

— Vossa incellencia quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?

— Diga lá, mestre.

— A mim ninguem me tira da pinha que a sr.ª D. Carlota não escreveu carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre Inxelmo que mandou escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz! Vossa incellencia não se escorda do sr. Alvaro dizer muitas vezes que o patife do padre Inxelmo inté uma vez escreveu uma carta muito bem escrevida, co'a letra da sr.ª D. Helena, a dizer ó pae d'ella que estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de contas vae-se a vêr e estava mas era agachada em casa do Perneta!

Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras do Tomba é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma infame mystificação.

— Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?

— Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso támem era capaz de fazer a outra...

Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?

Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a deixara.

— Mestre Tomba — disse elle — sabe o que foi feito do padre Anselmo? Tornou a ter noticias d'elle?

— O padre Inxelmo, depois que roubou o Custoido nunca mais tornou a pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!

— Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?

— Pois roubou! O Custoido, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em nada... E quem metteu o probe do home, coitado! n'essas fofas foi o patife do padre... Vae óspois a D. Carlota esticou o pernil em Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do Custoido co'as letras e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O Custoido barregava escontra o padre a dezer que foi elle que o metteu co'aquelle ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre esguipou-se que ninguem soube mais d'elle!

Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e procurava o fio mysterioso que devia explical-os.

— É singular! — disse elle — E o Custodio? Morreu?

— Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um bô casorio... Foi co'uma brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha um rôr de annos e que vêo de lá rica que não sabia o que tinha de seu... O home, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... Porfilhou-lhe a filha que ella trouve e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!

— De modo que — tornou Julio — você, mestre, não voltou mais a saber de Helena de Noronha?

— Eu, como a sr.ª D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr. Julinho támem não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da farramenta do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do diabo, que inté co'a tripeça me ficou! Vi-me desauriado! P'ra me tornar a estabelecer, eu já não tinha farramenta nem freguezia... estava desacuarditado! Peguei e fui-me inté Villaverde, á tia do sr. Julinho, contei-lhe a minha desgracia e ella teve dôr de mim e deu-me uma libra d'esmola!

— E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a Helena de Noronha?

— Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual como o meu compadre Longuinhos que támem se arranjou muito bem co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas Europias de Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...

— Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma incumbencia que eu desejo fazer-lhe?

— Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa incellencia que lhe eu não faça?!

— Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas Sereias ou no Sardão, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre Paula...

— Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este nome. — Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o Sardão que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer tijolo!

— Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o pessoas que nunca lhe fallaram?...

— Bem! eu vou — decidiu o sapateiro — mas não levo o santo, porque se a policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no Asylio da Mendecidade, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...

— Pois não leve o santo...

— Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o não estraguem, que é o meu ganha-pão...

— Vá descançado, mestre Tomba. O santo fica a meu cuidado... Ninguem cá lhe bulirá n'elle...

Atão quando quer o sr. Julinho que eu vá?

— O mais depressa que possa...

— Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o que quer que lhe diga?

— Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.

— E se lá não estiver?

— Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.

— Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas — disse o Tomba radiante.

E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XX: Alma negra


Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas mãos de João Lazaro.

O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito desconsolado, porque o seu peccado — que era assim que elle chamava á endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição insensata — havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse sangue alvoroçado, que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo, porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem posse do corpo é que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por algum tempo, sem aquelle caustico do commendador a importunal-a, a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar com aquella vida que não podia continuar assim.

— Mas o que queres tu? — perguntava-lhe lacrimoso o commendador — Falta-te alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti não podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a sua vida, senão a de ser commendador.

A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

— Ah! maganão, você é que a sabe toda!... Aquella pessoa está de cada vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com outro.

Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e constancia de Leonor — que para elle tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do seu peccado!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a. Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir, deixando-lhe o ninho, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no tapete, pôz se a mordiscar as unhas.

— O João Lazaro — murmurava ella — prometteu de vir hoje fazer-me revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me dizer?

Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e appareceu a figura de João Lazaro.

Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em que vinha embuçado.

— Tardei, não é verdade? — disse elle.

— Esperava-o com anciedade — respondeu a loura febrilmente, levantando-se para o receber — Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

— Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

— Pois sim, bem sei — disse a loura impaciente — Mas Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

João Lazaro sorriu.

— No emtanto — disse elle — a policia procura-o, porque sobre elle recahem todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu. N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se homisiar...

— Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que partiu...

— Sem lhe dizer para onde... — tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.

— Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...

— E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...

— O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar! — exclamou a loura irritada.

— Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

— A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte de Eugenio...

— Porque?

— Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão açodado em perseguição do raptor da filha.

João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

— É bem deduzido — disse elle — Ahi ha logica. É pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade...

— Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a! — exclamou Leonor com impeto — tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o que hei-de pensar!

— Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que venho fazer.

Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos n'elle:

— Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio a conhecer que eu a informára da verdade.

— Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento — objectou Leonor.

— Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias, porque eu ainda não me esqueci...

E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:

— Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém, influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe disseram as suas informações?

— É.

— Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado...

— Por Eugenio?

— Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se combinou comigo.

— Mas é isso o que Eugenio nega...

— Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que não admitte duvidas.

— Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais depressa realisaria o casamento?

— É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas enormes á conta d'este casamento...

— Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a Eugenio?...

— Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os charutos...

— Que exaggero! — disse Leonor com desgosto.

— Minha querida amiga — tornou João Lazaro com modo affavel — não é isto desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo esse dinheiro...

— Tanto, não...

— Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do rapto...

— Mas para quê! meu Deus! para quê? — exclamou a loura de cada vez mais aturdida.

— Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a augmentar o dote da filha...

— Mas isso é uma infamia!

— Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...

— Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim? — interrogou Leonor com os olhos chammejantes de colera.

— Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio Belchior.

— Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde elle se encontra...

— Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o reembolsar logo depois do casamento.

— Que sucia de miseraveis! — bradou a loura enojada.

— Verdade, verdade — observou João Lazaro, rindo — a partida foi bem pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada, emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu natural desenlance na egreja da freguezia.

— Nunca! Nunca! — protestou Leonor levantando-se enfurecida. — Antes d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia!

— O que quer fazer? — perguntou João Lazaro fleugmaticamente.

— O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.

— E depois?

— Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.

João Lazaro soltou uma gargalhada.

— A escolha está feita, minha amiga! — disse elle. — Pois ainda tem duvidas?

Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.

— Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita? — perguntou.

— Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em casar?

— Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...

— E casa-se com ella por amor.

— Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o casamento...

— Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo, pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle impuzer.

Leonor bateu o pé furiosa.

— O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á gente! — disse ella.

— Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.

Houve uns momentos de silencio.

— Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa rapariga? — perguntou por fim.

— A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em expedientes para se esquivar á perseguição da policia...

— Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?

— Que juizo fórma de mim? — perguntou João Lazaro encarando-a com desdem — Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero, julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

— Mas não foi isso o que o senhor me prometteu! — bradou Leonor indignada. — O senhor disse-me que me informaria de tudo...

— E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa, senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...

— Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente prevenida...

— Elle ainda não casou...

— Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de amor!

— Tudo isso, porém, não é casar — tornou João Lazaro com placidez.

— Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me! — gritou Leonor n'um despedaçamento do coração.

— Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de colera:

— Pois ainda não comprehendeu? — rouquejou ella — Quero vingar-me!

— Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...

— Cale-se! — intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro, que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar — Essa não é a vingança que me satisfaz, a vingança que eu sonho!

João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

— Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em cheio uma bofetada na face.

— Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar? — disse ella tremula de colera.

— Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia á vingança ruidosa contra Eugenio...

— Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á qualidade da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!

— Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do commendador Garcia?

— E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?

— Punir, disse?

— Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não! Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto de ficar viuva...

João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de uma ameaça realisavel.

— Minha querida — disse elle — socegue e veja bem que n'esse estado de excitação nada podemos fazer...

— Mas se eu já não quero fazer nada! — bradou Leonor. — O que eu quero unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...

— Venha cá, Leonor! — exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?

— Oh! sim! sim! quero! — respondeu anciosamente Leonor, n'um estremecimento nervoso.

— Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?

— A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!

— Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves responsabilidades perante a justiça — ponderou João Lazaro.

— E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me ludibriou, porque me trahiu!»

— A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo o rigor da lei...

— Embora! Mas eu ficarei vingada.

— Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e nos affectos do seu coração?

— Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

— Mas, minha amiga — tornou João Lazaro com a voz mais doce e persuasiva — não é isso tambem o que lhe estou dizendo...

— O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!

— Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia a morte de um homem, chama-se crime e é punida rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se desastre, doença, fatalidade, e a justiça não tem alçada para a punir.

— Não entendo! — disse Leonor.

— Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á justiça?

— De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no peito de uma mulher como eu, se existe o amor que salva, tambem ha o amor que mata.

— Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança que deseja?

— Como poderia eu recompensal-o?

— Amar-me-hia?

— O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz amar-me comprehende assim o amôr?

— Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada, pertencer-me-hia?

— Em espirito, não. Materialmente, sim.

— É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o corpo...

— Imponho uma condição, porém — objectou Leonor.

— Diga.

— Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia ás minhas complacentes attenções...

— Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

— É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o senhor onde está Eugenio?

— Talvez...

— Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha tranquillidade...

— Diga antes — de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...

— Seja! Onde está Eugenio?

— N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...

— Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?

— Nunca é tarde para a vingança.

— Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!

— Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

— Como o sabe?

— Disse-m'o elle.

— Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXI: Tal vida, tal fim


Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave, traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e de que tudo lá dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução, encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas, voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando com rancôr profundo:

— Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

— Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e recommendou que a não acordassem.

— Essa ordem não pode entender-se comigo — volveu Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.

— Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho atrevimento, a que não estava habituado.

— Marianna — disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel — o que se tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?

— O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo na mesma.

— Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra. Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?

— Porque ha de ser? — respondeu a criada fazendo uma careta inexpressiva. — O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!

— Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto, por dentro?

— Olhe, senhor, eu não sei! — rematou a velha. — Ella não me dá contas nem estifações do que manda fazer... Ella é que dá as ordes, é a senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.

O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

— Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?

— Quem ha de estar? Está a senhora...

— Só?

— Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. encommendador, não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais ninguem....

— Parece-lhe? Não tem a certeza...

— Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi embora, tirante de ser o sr. encommendador... Então ella, coitadinha, que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices...

— Rodilhices de quem?

— Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

— Leonor tem-se então affligido muito? — perguntou elle.

— Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda ruim que não ha quem a ature... O pobre do encommendador anda parvinho de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.

— É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes — disse elle — principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de pêtas.

— São pêtas, são pêtas — retorquiu a velha com um sorriso de incredulidade — mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá ella deitar a mão...

E depois n'um tom de reprehensão amigavel:

— O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles está perdida.

— Pois você tambem acredita, Marianna?

— Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem ouvisto inda mais — disse ella, levando alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

— O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?

— Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra amor de quem agora andam estas questães...

E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de prudencia:

— P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei... E dinheiro támem não lhe havia de faltar, que se não fosse o encommendadôr, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella querer.

— Está bem, Marianna, acabe com o sermão! — ordenou o bohemio, de mau humor. — Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.

E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.

Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.

Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um amplexo carinhoso.

A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:

— Tu por cá! Que novidade é essa?

— Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor! — exclamou o bohemio com artificial commoção.

Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse.

— O que é então que desejas? — perguntou.

— A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente — principiou dizendo o bohemio — de modo que não só me é impossivel continuar a viver no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...

— E d'ahi?

— D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o pensamento de te deixar...

A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.

— Faço ideia! — disse ella friamente.

O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante, proseguiu:

— Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti! Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!

— Foi talvez feitiçaria que te fizeram! — disse a amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo.

O bohemio encarou-a espantado.

— Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça? — lamuriou elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.

— Eu? Que lembrança! — casquinou nervosamente a loura. — Eu posso lá escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por força a mulher que por bem não quiz amal-o?!

Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e de odio mal reprimido.

Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece querido:

— Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na injustiça que me fazes...

— Injustiça?!

— Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo, que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura escandalosa dos seus amores, a que sou — juro-o! — completamente estranho!

Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, continuou:

— Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha. Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua honra e do seu bom nome...

— Como é então que o acusam ao senhor? — disse Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou.

— Tudo obra dos meus inimigos! — balbuciou o bohemio, desconcertado — Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a esta hora sabedor das nossas relações?

— Basta! — bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de salto — basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua causa, não lh'o consinto!

— Bravo! — tornou o bohemio sarcasticamente — Vejo que o commendador tem feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!

E encolhendo os hombros com desprezo.

— Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou.

Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o capote.

Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.

— Adeus! — disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.

Leonor avançou para elle:

— Foi para isso que o senhor cá veio? — rugiu indignada — Foi unicamente para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo para essas distracções...

O bohemio retrocedeu.

— Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam e atraiçôam os que dizem que amam...

— O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça favor!

— Digo — volveu o bohemio — que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas para as horas negras da desgraça.

Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.

— Venha cá! — disse ella. — A accusação que o senhor acaba de fazer é mais uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?

— Vinha despedir-me da mulher que amava e...

— E...?

— E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...

— Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio cá? Vamos! explique-se! O que desejava?

O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto, sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.

— Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?

— Talvez se engane... talvez ainda não acabasse tudo como o senhor suppõe...

Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor, tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.

— Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo? — bradou elle.

— O que desejas de mim? Dize!

— Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro, está tudo na tua mão!

— Como? O que posso eu fazer?

— Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer, emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me recusam...

Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da perfidia do amante.

João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração, arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.

Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da vingança.

— Quinhentos mil reis... — disse com voz tremula. — Não é isso o que precisas?

— Sim, é isso mesmo! — exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita — Quinhentos mil reis é quanto eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...

Leonor sorriu e disse:

— E se eu fosse comtigo?

O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.

— O que! — exclamou — querias ir comigo para Madrid?

— E porque não? — tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.

Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr das suas joias e pouco mais.

Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.

Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.

Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal passo, respondeu:

— Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e do teu bem estar o que um tal passo importa!

O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.

— Eu já esperava a resposta, miseravel! — bradou ella enfurecida — Eu bem sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me trocaste, vil!

— Leonor!

— Não tentes negar! Sei tudo, canalha!

— Leonor! Juro-te...

— Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de mulheres!...

E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á fronte direita e disparou.

O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.

Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada, a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando por soccorro em brados afflictivos.

A primeira que acudiu foi a velha Marianna.

— Meu Deus! o que foi, senhora?

— Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá depressa!

E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro lancinantissimo.

O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que iam passando.

Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, participando o caso para o commissariado.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXII: Mysterio


Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula, passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os personagens d'esta singela narrativa.

Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.

D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do rendimento de sua casa.

Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial contrahido entre os dois.

Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.

Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o marido e com o filho, prematuramente mortos.

Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o Tomba e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a irmã Dorotheia.

— Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica, — dizia elle — não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida, pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da sua passagem?

— As congregações religiosas — observou sensatamente Aurelia de Magalhães — ao que me consta, parece que teem o costume de mudar frequentemente o nome das irmãs; de modo que a que aqui se chama irmã Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não terá succedido o mesmo?

— Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse, Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações. Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.

D. Aurelia sorriu tristemente.

— E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade absolutamente conhecida?

— Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do meu segredo?

— Isto é apenas uma supposição que eu faço — apressou-se a dizer D. Aurelia. — Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr. Julio para encontrar Helena...

— Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias d'ella... Se o Tomba encontrar madre Paula, ella confirmará, estou certo, esta minha funesta previsão...

— E se, pelo contrario, Helena viver ainda?

Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.

— Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de sacrificar os ultimos dias da minha vida!

Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de Norberto de Noronha.

Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra de consolação para todas as amarguras.

Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.

D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a noticiar.

— Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora — disse elle com o seu eterno sorriso bondoso — mas não foi culpa minha...

— Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel... — disse amavelmente D. Aurelia.

— Que quer v. ex.ª, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho de Thayde contando-me um caso extraordinario...

— Sim?

— É verdade. Imagine v. ex.ª que ha oito dias que se vê todas as noites na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres do dia, some-se e ninguem mais a vê!

— Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos invencioneiros das nossas aldeias — disse D. Aurelia sorrindo — É lá crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o caminho que toma e o destino que leva?

— O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida e que já vae formando lenda.

— Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a? — disse Julio.

— Ninguem. Como v. ex.ª sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.

— Mas o que julgam elles que seja?

— As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em corpo e alma para o inferno...

— E vossa reverendissima o que diz? — interrompeu Julio.

— Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas culpas.

Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel, como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças perdidas.

— E acredita, padre Manoel — disse elle por fim — que a oração, por tal modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma alanceada de remorsos?

— Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de afflictos — respondeu o padre. — Quando nas angustias do soffrimento volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma força humana póde dar-nos.

— Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e apavora a propria creatura que os commetteu...

— Por isso eu disse a v. ex.ª — volveu o padre, com bondoso sorrir — que, a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de suas culpas...

— Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante modo.

— Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa compaixão...

Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do sacerdote.

— Ás vezes — concluiu por fim — a imaginação exagera em nós a gravidade de erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não commetteram...

— Tudo póde ser — tornou o sacerdote — Na minha opinião, toda a penitencia significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos, em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir... derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde, creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.

— O que é estranho — ponderou Julio — é que ninguem até agora se lembrasse de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse sentido?

— Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso... Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros, morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do outro mundo..

— O que me parece — opinou D. Aurelia — é que tudo isso não passa de uma grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa, aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...

— Sim, é certo — concordou o padre Manoel — e creio bem que a sr.ª D. Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita — Deus lhe perdôe! — era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...

— Devemos perdoar aos mortos — tornou D. Aurelia n'um tom de suave recriminação — pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence julgar...

— Eu tambem concordo, minha senhora — replicou o padre Manoel — que devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador, qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...

— Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro? — interrompeu Julio — O sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os peores aquelles que o povo aponta como maus...

Vox populi, vox Dei... A voz do povo é a voz de Deus — argumentou o padre Manoel, repetindo o proloquio latino.

— Mas tambem vox populi, vox diaboli... — retrucou Julio — E mais vezes é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma de castigo infligido aos mortos!

O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:

— Isto já vem assim do principio do mundo...

— E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.

— Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora do Porto! — observou D. Aurelia, espantada.

— E porque não? — respondeu Julio — Conheço o caminho e o meu cavallo é seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.

— É uma imprudencia! — reprovou o padre Manoel — V. ex.ª sabe que as nossas estradas são mal frequentadas de noite...

— Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo do Papa Assucar...

— A mysteriosa apparição — tornou o padre Manoel — póde mesmo não ser mais do que o pretexto para uma cilada.

— Uma cilada, a mim! — exclamou Julio — Não ha nada menos provavel... Quem poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse com o que se passa de noite na Senhora do Porto?

— Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.ª. Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para outros — aconselhou prudentemente o padre.

Julio sorriu desdenhoso.

— Seja como fôr — decidiu elle — irei certificar-me do que se trata. Se é um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz, uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.

E consultando o relogio d'algibeira:

— São 10 horas — disse elle — Vou partir. Se antes da meia noite não estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.

— Repare, meu amigo — tentou impedir D. Aurelia — que a noite está tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.

— A minha existencia — replicou Julio com amargura — ha muito que decorre batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para tudo.

E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXIII: Allucinação


No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o interrogarem.

O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em febre.

Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para elles, exclamando:

— É horrivel, meus amigos, é horrivel!

— Como assim! Viu alguma coisa? — interrogou o padre com espanto.

— Vi... vi!...

— E então?

— Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...

— Malfeitores por certo... — aventurou D. Aurelia — teve de bater-se com elles...

— Não... não! — contradisse o doente com vehemencia — Não se trata de malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e phantastico, impossivel de reconhecer...

Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da integridade mental do seu interlocutor.

Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma grande agitação, proseguiu:

— Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo deserto...

— Não viu, portanto, pessoa alguma? — interrogou o padre Manoel.

— Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã, para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.

— Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo! — não pôde deixar de exclamar a irmã de Gustavo. — Se não estava ninguem no local, como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe a saude?

— Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me encostava.

— Então sempre era certo! — exclamou o abbade triumphante.

— Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!

— A morte! — exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.

— A morte, sim! — confirmou Julio — Era uma voz de mulher, lamentosa e dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no degrau da egreja: — «Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti esta miseravel creatura!» —

Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...

— É singular! — disse D. Aurelia.

— E extraordinario! — accrescentou o padre Manoel.

— Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que devia ser aquella mesma: «Helena!» — bradei-lhe — «Helena!» — e desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome, a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se. Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu nome, porém tudo foi baldado!

— Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente? — aventurou-se a dizer D. Aurelia.

— Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa Senhora do Porto!

— Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a tratava era por força uma pessoa amiga? — retorquiu D. Aurelia.

— De noite todos os gatos são pardos — philosophou plebeiamente o padre Manoel — Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar. Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho — pum! pum! pum! — e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro... Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada, cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de dia, á luz do sol...

— Sr. padre Manoel — protestou Julio, agitado pela febre e deveras irritado pela incredulidade insultuosa do padre — faça-me a fineza de acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.ª o está agora e tinha o entendimento tão claro como v. s.ª o póde ter — logo de manhã, em jejum, quando vae para o altar dizer missa.

O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso e apressou-se a dizer:

— Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr. Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.ª visse e ouvisse tudo o que diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão podia dar-se...

Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.

— Tambem não affirmo que fosse ella — disse — mas tenho a convicção intima, profunda, de que não é outra.

— E agora o que tenciona fazer, sr. Julio? — perguntou D. Aurelia.

— Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.

— Mas — observou D. Aurelia — se a mysteriosa penitente, surprehendida por v. ex.ª, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.ª acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...

— Sim, é certo.. — concordou Julio — mas eu tenho de cumprir o meu dever que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto possivel para pôr termo áquelle soffrimento.

— Tenciona, pois, voltar lá esta noite?

— Tenciono.

— Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.

— Porque?

— Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe chamou pelo nome...

— O que devo fazer então?

— Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o paradeiro.

— É o que se me afigura mais prudente e mais acertado — approvou o padre Manoel. — Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.ª quer, de mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...

— Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem afugental-a d'aquelle sitio.

— A recommendação é inutil. Descance v. ex.ª que tambem eu e a sr.ª D. Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a penitente voltou ao templo.

Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente, recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a informal-o do que tivesse occorrido.

Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:

— E que lhe parece a v. ex.ª este caso extraordinario que acabamos de ouvir?

— Parece-me — respondeu a irmã de Gustavo — que o nosso pobre amigo tem razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.

— E v. ex.ª acredita que elle visse lá alguem?

— Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a confirmação dos boatos de que v. s.ª se fez echo?

— Oh, minha senhora! mas repare v. ex.ª que: eu apenas contei como extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a alma da D. Rita de Briteiros.

— Mas v. s.ª não crê nas almas do outro mundo; e certamente não recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração e á penitencia!...

— Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v. ex.ª que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre? Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais acertado parecia-me chamar o medico...

— Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito capaz de não o receber e de se offender comnosco...

— Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre homem, se já tinha falha antes d'este caso, agora, com a mania de que viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de todo...

D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve bastante força em si para responder apenas:

— Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo medico.

— O que quer então v. ex.ª que se faça?

— Que v. s.ª cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...

O padre Manoel encolheu os hombros:

— Pois v. ex.ª julga...?

— Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer quanto possivel este mysterio.

— Está bem! Se v. ex.ª assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até não restar duvida de que não apparece lá viva alma...

— Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella, para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa penitente se afaste d'estes sitios.

— Fique v. ex.ª descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará muito tempo que não saibamos tudo.

O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos que corriam entre os aldeãos de Thayde.

O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente e dizia:

— São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha qualquer propensão para visionario...

D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.

— É certo — dizia ella — que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um allucinado...

— Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v. ex.ª paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi os milagres de Santo Antonio...

— Mas acredita n'elles!...

— Acredito, que é o meu dever...

— Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam... Note v. s.ª que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...

— Minha senhora — volveu o padre Manoel fungando uma pitada — o sr. Julio de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem ter visto?

— É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...

— Póde ser — acquiesceu o padre Manoel, incredulo.

— No emtanto, e seja como fôr, v. s.ª faz-me o obsequio de continuar a mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo trabalho que lhe está incumbido.

— Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.ª que tanto faz ir como estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXIV: Estranho encontro


D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando nas palavras do sacerdote.

— Será realmente Helena de Noronha? — dizia comsigo — Julio de Montarroyo affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.

Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.

Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que facilitava a chamada.

— Batem ao portão — disse ella para a criada. — Diga ao Francisco que vá vêr quem é...

D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:

— Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a urgencia.

— Que qualidade de homem é?

— Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.

— Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?

— O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo, mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que deseja dar só uma palavrinha á senhora.

— Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum mal intencionado.

— Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para pedir abrigo por esta noite...

— Bem; vejamos o que elle quer.

Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre Tomba.

D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o logo.

— Ah! é vocemecê, mestre Tomba?

— Sou eu, minha... Vossa incelencia perdoará eu vir trupar á porta a esta hora, mas ha um causo que não póde deixar de ser...

— Diga, mestre, diga! — exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e gestos solemnes do velho sapateiro — Occorreu alguma desgraça?

— Uma grande desgracia, minha senhora! E se vossa incellencia não acode e manda alguem comigo, a probe de Christo está aqui, está a dar o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o assucedido.., Mas lá dixeram-me que elle támem estava de catrambias e atão eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta obra de caridade...

— Mas de que se trata, mestre? Falle.

— Trata-se de uma probe creatura, uma triste mulhersinha que eu topei alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!

— Uma mulher!?

— Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque támen já trazia uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo estirado ao canto da estrada um burto preto que me parecia coisa viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de cantaro que estivesse a infingir-se morto, p'ra me deitar as unhas e alimpar-me o que eu trouvesse, e vi que o dito burto não mexia com pé nem com mão... Accendi um phrophe, cheguei-lh'o á cara, e era uma mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a probe de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem grande e eu támem já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está doente...

D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que o sapateiro terminasse.

Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.

— Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!

Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos decorridos, seguia o Tomba, pela estrada, á frente do grupo, em soccorro da infeliz creatura.

Uma hora depois regressavam o Tomba e os criados de D. Aurelia, conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o sapateiro encontrára abandonada no caminho.

A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão, acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam, deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma cama preparada.

A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento, julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da propria D. Aurelia.

— Então, quem temos por cá doente? — disse elle ao encarar D. Aurelia — Já vejo que não é v. ex.ª. E antes assim.

— Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros. Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo, na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.

— Onde está ella?

— Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.

— Vamos vêl-a.

E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.

A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.

Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos rotos e sujos da terra da estrada.

Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa que está habituada á limpeza — que é o primeiro indicio de uma boa educação.

O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.

Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.

Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa similhava um cadaver.

Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o rosto triste.

D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe assimilhasse.

— Esta pobre mulher — disse ella — não deve ser d'estes sitios.

— Tambem me parece — affirmou o doutor — Pelo menos, não é d'estas aldeias proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.

— O que tem ella, doutor? — perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava de auscultar a doente.

— Frio e fome, talvez... — respondeu o homem de sciencia, fazendo uma careta — Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.ª a não amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará apenas recorrer á cosinha...

— Vou mandar-lhe já matar uma gallinha! — acudiu D. Aurelia.

— Sim — approvou o doutor. — E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a doente.

— Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...

— Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos restituir-lhe os sentidos.

D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.

Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.

O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D. Aurelia voltar no dia seguinte.

— Deixem-n'a socegar — aconselhou elle — e amanhã veremos o tratamento a que temos de submettel-a.

— Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?

— De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa noite.

— Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a minha casa...

— Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.

— Coitadita! — murmurou compungidamente a irmã de Gustavo — E pensarmos que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!

— Minha senhora — volveu o medico philosophicamente, encolhendo os hombros — o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.

E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um cache-nez enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.

— Que barbeiro! — disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de o acompanhar no trajecto até casa — Este barbeirinho é o tal das pneumonias!

No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.

A febre consummia-a. Delirava.

Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.

O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante, prohibindo que dessem de comer á enferma.

— Então, doutor? — interrogou D. Aurelia.

— Enganei-me, minha senhora — disse o medico — julguei que um caldo de gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.

— É então grave o estado d'essa infeliz?

— Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de nos vêr a contas com uma pneumonia...

— Pobre mulher!

— Se v. ex.ª quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.

— Oh! isso não! — fez D. Aurelia com vehemencia. — Acaso o doutor não terá recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?

— Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente evitar a v. ex.ª os incommodos e cuidados que taes casos sempre acarretam...

— Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.

— Faça-se a sua vontade, minha senhora.

D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.

— Que não falte nada a essa infeliz — disse a irmã de Gustavo — Não lhe façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.

Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.

— Está salva — disse o medico a D. Aurelia — Agora o que precisamos é ter muito cuidado com a alimentação.

— Tel-o-hemos.

Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que, oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.

Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.

— É escusado! — dizia o bom do parocho — aquillo foi tudo sonho do nosso Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos de dias...

— Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...

— É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o Tomba, que esteve hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.

— Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.

— O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do Tomba com elle. Um homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!

— Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...

— Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que v. ex.ª queira attribuir ao Tomba qualidades unicas e até hoje nunca vistas e apreciadas em remendão portuguez.

— Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do povo, e nada mais.

O padre fez uma carêta significativa.

— Sim, sim, minha senhora... V. ex.ª é uma santa, acha tudo muito natural porque não conhece o mundo... O Tomba é bom homem, não digo que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o acolhimento de que este se póde gabar...

— Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...

— Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem beira... Ha tantas por esse mundo!

— Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que, em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.

A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.

— Minha senhora — disse ella — a nossa doente...

— O que tem? Peorou?

— Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...

— O que lhe respondeu?

— Cumpri as ordens de v. ex.ª, disse-lhe que estava em casa de pessoas amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu disse-lh'o.

— E então?

— Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...

— Para me fallar a mim! — disse D. Aurelia — Pois bem; diga-lhe que vou já vêl-a...

E voltando-se para o padre Manoel:

— Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o seu soccorro espiritual...

— Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor — replicou o padre Manoel gracejando. — Realmente, v. ex.ª com a sua extrema caridade faz que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida quer fazer-lhe revelações intimas...

— Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.ª o costuma ser...

— Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae confiar-lhe.

— Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...

— N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v. ex.ª lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais auctorisado mestre de casos...

— O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim — replicou D. Aurelia sorrindo. — Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa. Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.

— V. ex.ª é inquestionavelmente uma santa! — affirmou o padre sahindo.

D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.

A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe permittia analysar as feições da enferma.

— Então, como está? — perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e carinhosa.

— Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor — replicou a doente com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa. Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não era estranho.

Voltou-se para a criada e disse-lhe:

— Deixe-nos sós — ordenou.

— Sim, minha senhora — replicou a criada. E sahiu.

— Disseram-me que queria fallar-me... — interrogou D. Aurelia com os olhos fitos na doente — Poderei ser-lhe util em alguma cousa?

— Queria — tornou a doente — que tivesse a bondade de abrir um pouco aquella janella e attentar no meu rosto...

D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder reconhecel-a.

— Não me conheces, Aurelia? — balbuciou a infeliz por entre lagrimas. — Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!

E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e abafado.

Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel alvoroço de espanto:

— Helena de Noronha! serás tu?!

— Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!

Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.

— Vamos! não chores, minha querida — disse por fim D. Aurelia. — Quiz Deus que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade sincera de sempre.

— Obrigada... obrigada! — murmurou Helena de Noronha — Peço-te apenas que me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar bemdito, da tua santa caridade!...

— Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão digna.

— Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te... Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...

D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu carinho.

— O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento far-se-ha breve e por completo.

Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.

— Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.

— Eras tu a penitente da Senhora do Porto? — interrogou de repente D. Aurelia.

— Era! Como soubeste que eu estava alli?

— Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que não possuia a intima certeza...

— Esse alguem era...?

— Julio de Montarroyo...

A enferma soltou um grito.

— Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma allucinação dos meus sentidos?

— Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou antes, adivinhou-te nas trevas da noite...

— Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a d'elle...

— Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.

— Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?

— Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella, mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É impossivel — disse-me elle um dia — que ella algumas vezes não pense com saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia que os separa».

Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.

D. Aurelia proseguiu:

— Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu pae, — que foi tua, — e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo lentamente, ralado de dôr e de saudade...

— Meu Deus! quantas victimas eu fiz! — bradou Helena de Noronha angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.

— Vamos, minha amiga! — tornou-lhe D. Aurelia, querendo confortal-a. — Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a encontrar-te.

— Ah! não! não! — bradou Helena de Noronha, pondo as mãos supplicante: — Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!

A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de lagrimas.

— Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto, sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de fazer?

— Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga! Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal... corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh! salva-me! salva-me!

E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem sentidos...

Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico, a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em deliquio.

O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de extrema fraqueza.

— Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo — disse elle.

Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.

A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança, matava-a.

A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.

Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?

Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a parte?

Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher, leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.

Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo. Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do criminoso.

Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse seguida da condemnação eterna para a sua alma.

As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava havia já dezeseis annos.

Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.

— Aurelia — disse-lhe ella — tu não sabes a grande desgraçada que acolhes em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a esmola da tua compaixão.

— Helena! — volveu-lhe a irmã de Gustavo — peço-te que não voltes a atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a consolação de te poder chamar minha irmã.

— Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o arrependimento de tantos crimes...

— Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que ha de ainda conceder-te dias venturosos.

— Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?

— Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.

— Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...

— Madre Paula! — replicou Aurelia — Existe, minha amiga, sei que existe.

— Como o sabes? — interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.

— Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.

— E esse homem viu-a, fallou-lhe?

— Fallou.

— Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?

— Porque não!?

Fez-se um instante de silencio.

— Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?

— Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.

— Não o digas a ninguem, por ora.

— Socega. Cumprirei a tua vontade.

Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que fechou em seguida n'um enveloppe.

— Que parta sem perda de tempo! — disse ella, entregando a carta a D. Aurelia — Desejo que a resposta me encontre viva.

O Tomba partiu n'essa mesma noite para o Porto.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXV: Pobre helena!


Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas conversas com quem quer que fosse.

Todavia, o Tomba lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula era viva e podia ser encontrada no Porto.

— Fallou-lhe, mestre Tomba?

— Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás Sereias préscural-a e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei, que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com auga benta, essa lhe juro eu! — commentou o sapateiro.

— Fallou-lhe de Helena de Noronha?

— A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia e se espantasse... Nada! Eu infingi que ia de mando da prima de vossa incellencia, a snr.ª D. Lucilinha de Villaverde...

— Ah!

— Ella ficou toda estifeita e tratou-me com muito bô agrado, mas a respeito de comer e beber... nem burro queres tu auga?! Eu támem não precisava — accrescentou — e indas que ella me offerecesse, não era o filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella tivesse um migalho de cortezia commigo...

Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do sapateiro escandalizado.

— Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem — murmurou.

— Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?

— Sim... unicamente para fallar com ella...

— Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu levo-lh'a?

— O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...

— Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...

— Não, não... É preciso ir eu...

O Tomba encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:

— O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer minga. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa incellencia lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...

— Vá, vá, mestre Tomba — despediu Julio. — Deixe-se andar por ahi, que póde ser-me preciso de um momento para o outro...

— Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás incasiões...

E sahindo dos aposentos do doente:

— Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia, está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre Inxelmo que o pôz assim!...

De repente bateu na testa, exclamando:

— Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!

Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:

— Dá licença, snr. Julinho?

— Entre, mestre Tomba — respondeu o enfermo, da cadeira em que se achava sentado.

— Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre Inxelmo, é raça de patife de que ninguem me soube dar relações...

— Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no Porto — volveu Julio com um fundo suspiro.

— Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de santidade — disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso — Que eu, se o apanhasse na rua, era home p'ra lhe rachar a corôa de meio a meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da seve de pedreiro é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.

— É natural — respondeu Julio.

O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á descoberta.

— Parece que já não se importa muito com o padre... — resmungou — Támem, n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas galhetas, não podia...

Quando o medico soube que o Tomba se demorára em conferencia com o doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse obedecido.

É que notára no enfermo um novo accesso de febre.

Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.

— Era um favor — dizia elle — deixar que a doença acabasse com isto!...

Passaram ainda uns dias, e o Tomba faroleiro e mettidiço, não podendo ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D. Aurelia, a informar-se do estado da probesinha. Quando D. Aurelia o incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.

— O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula? — perguntou.

— Porque? Vae fallar com ella?

— Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D. Aurelia, e se vossa incellencia quizesse, eu, de caminho, levava qualquer recado para Madre Paula.

Julio ficou pensativo.

— Não... não quero nada — disse por fim — Tenho immenso desejo de fallar com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me. Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um serviço a prestar-lhe...

E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a cabeça sobre o peito.

O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua natural expansibilidade, exclamou:

Ameno, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho acaijo carro e meio d'annos, e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...

E concluindo:

— E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a arresolvesse a vir por ahi arriba, assim como coisa minha?

— Como é que você havia de fazer isso, mestre Tomba? — interrompeu Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do sapateiro.

— Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de grande inducação... Eu sou p'rá aqui um probe sapateiro, fazem á de conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.

— Não, não, mestre Tomba, não pense n'isso, que é uma coisa que não pode fazer-se...

— Está bô! Vossa incellencia que o diz, lá sabe a rezão porquê...

O Tomba partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.

— Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo — pensava elle. — Entrego-lhe a carta da snr.ª D. Aurelia e logo vejo na cara os himores de que ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha está muito mal e que lhe manda pedir de bocca — porque não póde escrever — se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me enganei no caminho e passe por lá muito bem...

E contente d'esta esperteza, o Tomba achava impossivel que a sua lembrança não produzisse resultado.

— Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula, senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette em cabeça hade ficar assim em augas de bacalhau!

Chegado ao Porto, o Tomba encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.

A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares; e que não era esperada ainda por aquelles dias...

Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:

— Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.

O criado foi e voltou pouco depois.

Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande profusão de zumbaias.

— Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou? Passou bem?

— Obrigada, passei bem — respondeu madre Paula com risonho semblante.

— Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de Villaverde manda muitas bugitas á senhora madre e mais esta cartinha...

E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com grande surpresa leu:

«Minha querida Paula:

«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada irmã Dorothêa que no seculo se chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa, antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te e que só tu poderás receber.

Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da

Tua Helena

— Minha pobre Helena! — murmurou attonita madre Paula, fixando na carta os olhos turvos de lagrimas.

E voltando-se para o sapateiro:

— Onde está ella? — perguntou.

— Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli adiante da Povoa de Lanhoso... — principiou o Tomba, pondo em prática o seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio. — Ella deu-me essa carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi p'ra lá tratar de uma probe senhora que está lá a morrer... E díxe-me de bôcca: «Diga á madre Paula — e senhora na presencia — que lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo, que eu pago todas as despezas de camboio e de carro p'ra cá e p'ra lá, que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá... Mas ella dixe-me isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe dixe: — Esteje descançada, menina, não se affleija, que a snr.ª madre Paula não tem caratle de dezer que não a uma coisa d'essas...»

— Sim... sim, eu vou! — exclamou madre Paula sensibiliaada — A que horas temos comboio?

— Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui dereito a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...

— Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...

— Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que não vae nada, seja pelo que fôr! — interrompeu o Tomba horrorisado, ao lembrar-se da cilada do Sardão.

— Porque? Vocemecê jantou?

— Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não tenho... já estou desafeito...

— O que! está desafeito de comer!?

— Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma promessia que fiz de jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...

Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro recusando a refeição que se lhe offerecia.

— Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de esperar que eu me aprompte para a partida...

— Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá amor d'isso, não seja a duvida.

— Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.

Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge de Gusmão.

— Sr. Padre Filippe — pediu ella — vossa reverendissima faz-me a fineza de me conceder alguns minutos de attenção em particular?

— Pois não, minha senhora! — respondeu o padre gentilmente.

Paulo e Jorge levantaram-se.

— Dêem-me licença, meus amigos — disse-lhes a abbadessa — que lhes roube por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.

E dirigindo-se a Paulo:

— Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás desculpa da minha impertinencia...

Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe, exclamou:

— Helena de Noronha, a irmã Dorotheia, vive ainda!

— Como o sabes? — perguntou o padre Filippe surprehendido.

— Lê!

E apresentou-lhe a carta de Helena.

O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:

— É a letra d'ella!

— É, não ha duvida... Minha pobre Helena!

— E o que tencionas fazer?

— O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...

O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural, respondeu sem hesitar:

— Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres partir?

— Hoje mesmo.

— Porém, Beatriz?...

— Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é, como sabes, austera e de são conselho.

— Pois sim.

— Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto, a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como ella propria o diz...

— Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...

Madre Paula sorriu.

— E porque não ha de vir?

— É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...

— Dizes bem.

— Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXVI: Um amigo dos diabos


Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre Tomba, tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de Campo.

O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua astucia.

A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do secerdote.

— Este parece que é vinho d'outra pipa! — commentou comsigo o sapateiro — Mas támem se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o, porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe metter juizo á força na cachola...

Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito sujeito; aquelle támem não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de tudo dava relação exacta e minuciosa.

Quando chegaram a Guimarães, o Tomba perguntou se queriam descançar um pouco no hotle ou se queriam seguir logo para S. Martinho.

— É muito longe d'aqui lá? — ? perguntou o padre Filippe.

— É alli logo adiente das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos lá em tres horas.

— Então é melhor que partamos já.

O Tomba, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.

Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.

O Tomba, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.

O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala, pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas, entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:

— Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas incasiões, e o Tomba, com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no inferno! Cá está ella!

— Ella, quem? — interrogou Julio de Montarroyo.

— A madre Paula, com seiscentos livros de missa!

Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle tivesse endoidecido.

— Mas está onde, mestre? — perguntou.

— Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um padréca, mas não tem duveda... Quer que os mande entrar p'ra aqui?

— Você falla serio, mestre Tomba?

— Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa incellencia me diga a mim na minha cara! — exclamou o sapateiro escandalisado — Pois eu ando por lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer, — que suei e tornei a suar primeiro que a arresolvesse — e o snr. Julinho, chego aqui, e não me quer acuarditar?! Eu serei capaz de lhe dezer uma coisa por oitra, sr. Julinho?

— Está bem, mestre... — tornou Julio — Não vale a pena zangar. Eu vou immediatamente cumprimentar essa senhora...

— Olhe lá, ó sr. Julinho — observou o sapateiro detendo-o quando elle ia já a transpôr a porta do quarto — eu enganei-a!

— Enganou-a?

— Disse-lhe que estava cá a irmã Dorotheia, muito doente e que lhe mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...

— Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?

— Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou honte á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...

— Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.

E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e o seu companheiro.

Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com curiosidade.

— V. ex.ª certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar? — disse Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.

— Está v. ex.ª enganado, sr. Julio de Montarroyo — replicou madre Paula recobrando a serenidade — Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar aqui.

— A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.ª, não podia esperar a subida honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa excellencia sabem comprehender e praticar.

Madre Paula escutava-o sem o comprehender.

Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.

— Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias. Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.

No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta, outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.ª, a irmã Dorotheia, conhecida no seculo por Helena de Noronha.

— Helena! — bradou madre Paula — Onde está ella? Peço-lhe que me conduza sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...

Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.

— V. ex.ª não sabe onde está Helena de Noronha? — perguntou elle.

— Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde me disseram que estava.

— D'onde lhe escreveu, diz v. ex.ª?

— Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos conduziu.

E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de que o Tomba fôra portador.

— É a lettra de Helena! — exclamou Julio n'um brado de alegria extrema — Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está ella? — perguntou por sua vez tambem.

— Pois deveras Helena de Noronha não está aqui? — interrogou ainda madre Paula, tomada de estranha surpreza.

— Não, minha senhora — volveu Julio — e até eu ignoro como e de que maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.ª, compadecida do meu estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de morrer.

E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.

— Agora — concluiu — alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o meu empenho era procurar v. ex.ª e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo procural-a no mundo dos espiritos...

— O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a escreveu... — explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e surprehendida.

— Tem v. ex.ª rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle explicará...

Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu á porta da sala:

— Diga ao mestre Tomba que venha cá.

Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira responsabilidade dos seus actos.

— O sr. Julinho, chamou?

— Chamei, mestre. Venha cá...

— Prompto!

E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar firme.

— Então como é isto? — ia Julio a dizer.

Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.

— Então como hade ser? Fui eu que armei esta trempe, p'ra fazer que aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre viessem á presencia do sr. Julinho... Vossa incellencia estava todos os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e que morria sem estifazer o seu desejo... Vae eu atão disse comigo: «Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima madre que é a sr.ª D. Helenia de Laronha que está a dar a alma a Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é um ar que lhe dá... Ponto é que ella me acuardite... Vamos a vêr se as bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr. Julinho diga o que tem a dezer, e se eu fico por mentiroso, é o mesmo... Se quer ó menos, intrujei, mas foi p'ra estifazer a ultima vontade a vossa incellencia... Agora já póde morrer descançado.

— Mas venha cá, Tomba, como arranjou você a carta de Helena de Noronha?

O sapateiro arregalou os olhos:

— A carta da sr.ª D. Helenia? A carta não é d'ella!

— Como não é d'ella?

— Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a todos, se eu vi a sr.ª D. Helenia ou sequer alguem me boquejou a respeito d'ella!

— Mas esta carta — disse madre Paula — foi-me entregue por vocemecê...

— Isso é oitra coisa... — tornou o sapateiro — Mas as cartas são papeis... Essa carta não é da sr.ª D. Helenia.

— Não é! — exclamou Julio — Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como arranjou você esta carta?

— São d'ella!? — disse por sua vez o Tomba muito admirado.

— Se esta carta não é escripta por Helena — tornou Julio de Montarroyo — então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre dirá quem foi...

— E a carta o que diz, ó sr. Julinho? — interrogou o sapateiro com grande interesse.

— Pois você não o sabe, mestre?

— Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?

Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta, resolveu-se a esclarecel-o.

— Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...

— Ella diz que está doente?

— Diz que está a morrer...

O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:

— Quer vossa incellencia vêr que é ella!? — exclamou — Pois não é oitra coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!

— Ella quem? — interrogou anciosamente Julio.

— A doente que está em casa da sr.ª D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por albarda...

E depois, n'um movimento de duvida:

— Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?

— Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede a madre Paula que venha vêl-a...

— Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo que me carregue e mais a minha esperteza!

— Mas venha cá, mestre Tomba... explique-nos que doente é essa de que está fallando... Eu não sei nada!

— Pois se vossa incellencia tem estado ás portas da morte, vae hoje, vae amanhã, e todos me deziam que não lhe dissesse nada nem lhe trouvesse novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a tramoia... Antão lá vae!

O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se encontrava.

— E atão agora está tudo explicado. — concluiu — A snr.ª D. Aurelia foi que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.ª madre, mas sem me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi escrevida pela snr.ª D. Helenia, atão a coisa está bem clara: a doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!

Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.

— Ah! meu Deus! — exclamou — até que emfim a encontro!

E voltando-se para madre Paula:

— Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á casa onde ella se encontra.

Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo, acompanhados por mestre Tomba, entravam em casa de D. Aurelia.

A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:

— Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.ª...

E indicando o padre Fillipe:

— E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua amiga.

D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura ao Tomba que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que tinha feito asneira.

— É verdade — disse por fim D. Aurelia — que tenho em minha casa Helena de Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr. Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua existencia.

— Oh! — protestou Julio — pois se toda a minha doença era não ter noticias de Helena!

— Helena, cuja vida continua ainda em perigo — proseguiu D. Aurelia — pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...

— Essa, carta, minha senhora — disse madre Paula — eil-a aqui. Por ella verá v. ex.ª que Helena reclama a minha presença...

E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um gesto.

— Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra... Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.ª do melindroso estado de saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta póde matal-a...

— Mas se Helena espera a visita de madre Paula — objectou Julio.

— Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v. ex.ª... — retorquio D. Aurelia. — Era justamente essa surpreza que me parecia bem poupar-lhe por emquanto...

— Decerto! — atalhou madre Paula. — Nem eu creio que o snr. Julio de Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...

Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:

— A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!

— Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.ª não imagina o estado em que a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella fosse.

— Pobre Helena! — exclamou madre Paula.

— Parece-me, pois, tornou D. Aurelia — que seria bom dispôr a nossa doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera, convem prevenil-a com cuidado...

— Sim... sim!... — concordou madre Paula.

D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:

— Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.ª mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.

E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em silencio, proseguiu:

— Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.

Fez uma ligeira mesura e sahiu.

D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXVII: Duas amigas


No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma senhora que devia vir do Porto.

— Não sei, minha senhora — respondeu a creada que estava já prevenida — mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao portão...

— Oh! vá saber sem demora — pediu Helena — e se fôr a pessoa que eu espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais depressa possivel...

A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona da casa.

— Veio? — perguntou-lhe Helena.

— Dá-me alviçaras, minha amiga — disse D. Aurelia alegremente — porque, contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!

Helena levantou-se a meio no leito.

— Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!

Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto no aposento, dizendo:

— Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga está aqui!

— Paula! — exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço de indizivel contentamento.

Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.

D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.

Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:

— Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que attendeste o meu pedido!

— Minha pobre Helena! — respondeu madre Paula — quantas vezes me tens lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...

— Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou emprehender...

— O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra vez? — perguntou madre Paula admirada.

— Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que viesses...

— Morrer! — exclamou a abbadessa — que extranha fraqueza é essa? A vida chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos, oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.

Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na approximação do seu fim.

— Tu é que estás ainda a mesma, minha querida! — disse ella. — Não parece que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...

— Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste impunemente á acção do tempo — replicou madre Paula — mas, comquanto um pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...

D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar, interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que ordenar serviços domesticos da maior urgencia.

— Espera! — replicou Helena — deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem tu és...

— Não é preciso — accudiu D. Aurelia com meiguice — já nos conhecemos desde hontem á noite...

— Sim — confirmou madre Paula — já devo a esta senhora a mais amavel e gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu convento...

— Pois tu já cá estás desde hontem? — perguntou Helena admirada.

— Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre Filipe, de quem certamente ainda te recordas...

— Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?

— Temos tempo, minha querida — disse madre Paula — Uma das principaes virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...

Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:

— E o padre Anselmo?

— Matei-o!

— O que! — disse a religiosa empallidecendo — Mataste-o... quando?

— Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa conventual da Covilhã...

— É extraordinario! E como pudeste...?

— O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...

— E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?

— Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente condemnei á morte!

Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao jesuita que a perdera.

Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo acreditar no que ouvia.

Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de pensamentos.

— Sim... — disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que lhe dirigia a sua amiga — o padre Hilario foi, por assim dizer, o executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...

— Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?

— Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão. Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!

E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como, acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra... Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde, todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de sangue, que teve a sua acção no medonho in-pace da Covilhã.

Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse phantasiando uma vingança que não realisára.

— E o padre Hilario? — perguntou por fim.

— Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.

— Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o torturava?

— Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração o odio por mim...

A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:

— Trahiste o teu novo amante?...

— Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...

— Como?

— Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.

Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a vêr...

— De modo que...

— De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.

Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não atinava com palavras que dissesse.

Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.

— O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida Helena — disse ella, passados instantes — que me deixa muda de assombro! Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a acredital-o...

— Oh! minha boa Paula! — replicou Helena, ainda tremendo de ira — pois acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e sobre os meus?

— Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...

— O que é que te surprehende, pois?

— Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o teu plano...

— Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para junto de mim...

— Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a Companhia.

— Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo, minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, minha amiga!...

— Helena — disse madre Paula — pareceu-te assim porque não amaste... Se tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...

— Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.

— E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e que pelo teu amor se fez parricida?

— Era filho d'elle. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos... Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..

— Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...

— Fallas de...?

— De teu filho, Helena de Noronha!

— Elle vive ainda?

— Vive e é um bello e gentil rapaz...

— Padre tambem?

— Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes, longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos victimou.

— Não te conhece então?

— Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz honra aos nobres sentimentos da sua alma.

— Sabe esse rapaz quem foram seus paes?

— Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de Noronha.

— O que! pois tu... — ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.

— Sim — atalhou madre Paula — quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.

— Oh! nunca... nunca!

— Helena! — tornou madre Paula com severo aspecto — o odio que se estende ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos, jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo, esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo, reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso homem que foi teu pae.

— Meu pae! — gritou Helena de Noronha — Paulo parece-se com elle? Não tem na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?

— Queres vêl-o? — perguntou madre Paula.

— Não, não! — recusou Helena tomada de subito terror — Para que has de pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga, no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...

Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:

— E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana... Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não... não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!

— Socega, minha querida! — tornou-lhe madre Paula suavemente — O que eu te proponho não é bem isso que tu suppões...

— O que me propões então?

— Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e feliz da minha maternidade.

— E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?

— Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...

— E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...

— Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher — o sentimento do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce, tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos! não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.

Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias... Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho, Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre pae.

Helena guardou silencio.

— Pois bem — disse ella passados instantes — deixa-me recobrar alentos... e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo tencionas demorar-te aqui, minha amiga?

— Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...

Helena teve um sorriso estranho.

— Pois sim... Convalescerei breve... — disse n'um tom cuja sinistra significação não escapou a madre Paula.

A freira atalhou:

— É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que, conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte, justamente porque a vida te offereceria encantos.

— Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que, sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta, minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo, conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...

— Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava... Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para aquelle que te perdeu...

— Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse já indigna da estima de um homem de bem.

— Fallas de Julio de Montarroyo?

— Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!

— Tornaste alguma vez a ter noticias suas?

— Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de Noronha nem irmã Dorothea deviam existir jámais... Portanto, a minha nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras... Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu, minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...

Calou-se offegante e exhausta.

— Comtudo... — proseguiu passados instantes — comtudo eu poderia ter trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a trouxe...

— Uma grande riqueza, dizes?

— Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte — a noite da rigorosa justiça — elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao in-pace... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas porque o seu thesouro ninguem o descobriria...

Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de Helena...

— Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos momentos... — disse ella.

— Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli... manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o inferno confunda!

— E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do pae?

— O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida... Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso... Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de lá...

— E viverá ainda?

— Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura, mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.

— Socega, minha amiga... — observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez mais agitada. — Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.

Disse e saiu deixando a doente em repouso.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXVIII: Coração morto


Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia, foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre Tomba encontrara exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

— Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?

— Diga antes, meu amigo — volveu-lhe Helena — que não esperava tornar a vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa... Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e, levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:

— Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua procura.

— Pobre amigo! — murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos — Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me e creia — agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro gelido da morte — creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre coração de mulher...

— Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!

— Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora em rosto a minha recusa!

— Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

— Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos labios respeitosamente exclamando:

— Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para a felicidade...

— Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo... amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

— Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!

— Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em Paris? — balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar — Não tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em Paris.

— Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse noticias suas?

— Nunca lhe escrevi tal carta! — bradou Helena surprehendida.

— Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não foi realmente para Paris?

— Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me perdeu!

— A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

— Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!

— Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações, aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia, á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a minha unica aspiração n'este mundo.

Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

— Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo! — suspirou ella. — Quiz Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de mais ventura! ....................................................... .......................................................

Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

— Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:

— Meu amigo — acrescentou — uma outra patria nos espera, que não esta em que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga, comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

— Minha amiga — disse-lhe elle — é bem certo que muito temos ainda que esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.

— Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...

— O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu amigo... — balbuciou Helena, cahindo agora em profundo abatimento — Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...

— Pois bem! — exclamou Julio n'um impeto de desespero — se de todo em todo pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.

— Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou?

— Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

— Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui, deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e, extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXIX: Confidencias


Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de Paulo dava o tractamento de Mestre.

O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece ser o seu discipulo querido.

— E então — pergunta elle — como vão os negocios do nosso novel irmão?

— Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro, persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha, inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.

— De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.

— Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu indicio compromettedor.

— E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?

— Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.

— O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada com a eliminação d'aquella existencia...

— Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo, partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.

— Paulo partiu para S. Martinho de Campo? — perguntou o homem dos occulos, frazindo o sobr'olho.

— Partiu.

— É singular! — disse elle — E que genero de negocio retem madre Paula n'esse logar?

— Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos annos, e que se encontrava perigosamente enferma...

O Mestre ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma explicação para este facto.

— É extraordinario! — disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo — é extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...

— Tambem me quiz parecer isso.

— Bem! — concluiu o Mestre — o verdadeiro motivo d'esse estranho chamamento ha de saber-se...

— Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...

— Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de si madre Paula.

— É coisa facil. A Mão Negra está de tal modo ramificada, que em toda a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a prodigiosa importancia que conquistou.

O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os olhos no seu interlocutor e disse:

— Jorge, a Mão Negra póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra, e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a Mão Negra dispõe».

— É certo — confirmou Jorge — Mas que outro cerebro, senão o do Mestre, poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.

O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:

— Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é realmente grandiosa.

— Eu, Mestre — replicou Jorge — tenho os hombros extremamente debeis para tamanha empreza.

— Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes, eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo depois da minha morte.

— Pensa em morrer? Mestre! — exclamou Jorge surprehendido.

— A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia deixar de pensar em ti como meu continuador...

— Oh, Mestre! — fez Jorge commovido.

— És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és, portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da Mão Negra. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.

— Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo, essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?

O Mestre sorriu.

— Quando eu faltar — disse elle — virás a esta casa, encerrar-te-has n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha aqui — accrescentou — todos os elementos de que careces para proseguir desassombradamente o caminho que encetei.

Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a preto e com fechos de metal.

— Este livro — disse elle, abrindo-o — está em branco. Quando eu morrer, basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro, aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces. Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.

Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente commovido.

— Mestre! — exclamou elle com voz tremula e repassada de ternura — afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico Mestre.

Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns instantes.

Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que, consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar, dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e terriveis associações secretas dos nossos dias.

— Meu amigo — disse por fim o mysterioso personagem dos oculos — era indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito, assume a direcção suprema da Mão negra, e o meu espirito será comtigo.

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXX: Mãe


Madre Paula enviára o Tomba ao Porto com uma carta a chamar para junto de si o filho da Irmã Dorothea, sob pretexto de que precisava da sua companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.

No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de Helena e disse-lhe sorrindo:

— Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?

— O que queres dizer?

— Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...

— Meu filho!? — bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de terror — Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da minha deshonra?

— Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão perto de sua mãe...

— Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa angustia!

— Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...

Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma acquiescencia.

As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a doente nada tinha a oppôr-lhes.

— Comprehendes — disse ella — que nem curiosidade nem affecto podem mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...

— E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida? — tornou a religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos impertinentes e caprichosos. — Aqui, ha apenas da minha parte o interesse de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...

— Pois sim... que venha! — disse por fim Helena, com visivel esforço.

Paulo foi introduzido no quarto da doente.

O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.

— Disseram-me que v. ex.ª — principiou elle por declarar, dirigindo-se a Helena — ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque, em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados direitos... de filho.

— Não é minha vontade prejudical-o... — replicou Helena fitando-o e estudando-lhe demoradamente as feições. — Quando escrevi á minha amiga Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...

— Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas palavras — atalhou Paulo rindo. — Isto é mero gracejo da minha parte e tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.ª se me affigura em via de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.ª, embora um pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita vida... Antes assim!

— É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...

— De Noronha, minha senhora — apressou-se Paulo a dizer, notando a hesitação de Helena.

— Ah! v. ex.ª usa esse appellido? — não pôde Helena impedir-se de perguntar.

— Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem porquê...

— Naturalmente, appellido de seus paes...

— Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...

— Sua mãe! — interrompeu Helena, mal podendo dominar o sobresalto — Conhece-a?

Paulo indicou rindo madre Paula:

— Pois eu não disse ainda a v. ex.ª que minha mãe é esta santa senhora que v. ex.ª tem por amiga?

Madre Paula interveio:

— Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me mãe, não obstante saber que não é a mim que deve a existencia...

— Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e santa creatura a quem me estou dirigindo? — accudiu Paulo voltando-se para a superiora, — É bem certo — creio-o e não discuto — que devo a existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.

— Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr... — balbuciou Helena com os olhos fitos nos do filho.

— Não os odeio, minha senhora, lamento-os.

— Por natural instincto do coração talvez...

— Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram no crime ou na cobardia.

— É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde saber se elles fôram cobardes ou criminosos?

— A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me filho, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e ao cumprimento dos seus deveres.

— Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito que teem á sua ternura, repudial-os-ia — perguntou Helena com a voz de cada vez mais sumida.

— Não, minha senhora — replicou Paulo serenamente — não os repudiaria, que não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram paes adoptivos na infancia — a madre Paula e ao padre Filippe.

Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção facil de explicar.

— Tem razão — murmurou ella — No entanto, talvez que motivos ponderosos forçassem sua mãe a...

— A não ser minha mãe? — atalhou Paulo — Perfeitamente de accordo. A mim cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento conhecer. Mas v. ex.ª comprehende muito bem que, se minha mãe teve motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella. De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.

— Quem sabe? — observou madre Paula — Não admittiste ha pouco a hypothese de que possam soffrer ou arrepender-se?

— No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a mim? O facto é, minha senhora — proseguiu elle, voltando-se para Helena — que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.

— Deve muito á Providencia, visto isso! — disse Helena suspirando, — ha tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...

— É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...

— Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram? — atalhou, docemente reprehensiva, madre Paula — É muito avançar, quando nada sabes a esse respeito, Paulo!

O mancebo sorriu.

— Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica que me illucide ácerca do meu nascimento.

E voltando-se para Helena:

— Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros, nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem, tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á sua benevolente e humanitaria tutella, como um legado, no espolio de um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias, quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.ª d'esta opinião, minha senhora?

— De certo — murmurou Helena com voz tremula.

— Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem quando emprego esta palavra abandono lhe ligo o menor sentimento de revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder. D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!

Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.

Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara.

— O senhor — disse ella — possue uma alma nobilissima e um coração dotado de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para com aquelles que o offenderam ou aggravaram...

O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que se passava na alma da sua amiga.

— Paulo é um bello caracter — interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um olhar de maternal ternura — e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a sua educadora... Eu e o padre Filippe — emendou logo — porque é justo não esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo todos os extremos e disvellos de um pae.

O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de todo familiarisada com o filho.

Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a sós com Helena, perguntou-lhe:

— E então?

— Então, minha querida Paula — exclamou a enferma — é bem meu filho, é bem o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está!

— Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te rodeiam?

Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de felicidade.

— Sim... sim!... — disse ella — seria feliz ainda, se pudesse viver na companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada!

— Porque?

— Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho: «Sou tua mãe!»

Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXXI: O homem dos oculos verdes


Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na casa de D. Aurelia.

Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á infeliz victima do padre Anselmo.

A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios, sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada de dôres physicas e moraes.

Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.

Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.

O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva.

Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo, quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.

Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.

Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que, ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura.

Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da longa jornada.

D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo.

— Minha senhora — disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa suavidade — peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v. ex.ª não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir.

— Não conheço a pessoa a quem estou fallando — respondeu D. Aurelia, com simplicidade — mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir, rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.

O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:

— Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só deve ser revelado a sua prima, a sr.ª D. Helena de Noronha, actualmente n'esta casa...

D. Aurelia fitou-o perplexa.

— E como sabe v. ex.ª que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a gente ignora...

O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.

— Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos. Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.ª D. Helena permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.ª certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a sepultura um segredo que me não pertence...

— Quer v. ex.ª, pois, fallar com Helena de Noronha?

— É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.ª, e para isso ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção.

— A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente...

— Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.

— O medico recommendou que lhe evitassemos commoções violentas...

— Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não conheço a ella.

— Mas o objecto da sua visita...

— Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel — atalhou o desconhecido — porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e mais natural d'este mundo.

— Quem devo, pois, annunciar á minha amiga?

— Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se v. ex.ª tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse para ella.

D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da provincia.

Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve completamente restabelecida.

Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que elles fossem casados.

— Elle não saberá nunca que sou sua mãe — dizia ella — e eu poderei vêl-o e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae, quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado, d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito, que tanto fiz soffrer!

Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida.

— Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o futuro, relativamente feliz, será teu.

D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.

Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito, disse-lhe sorrindo:

— Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...

— Quem? — interrogou Helena.

— Um desconhecido que pretende fallar-te...

— Um desconhecido! — repetiu Helena com instinctivo sobresalto.

— Sim. Um desconhecido para mim e para ti.

— O que quer elle?

— Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...

— A mim?!

— A ti.

— Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço?

— Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te encontrasse ou tivesse noticias tuas...

— Meu primo Alvaro! — balbuciou Helena estremecendo.

— Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem.

— Como sabe esse homem que eu estou aqui?

— Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito. Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...

— Queres, pois, que o receba?

— Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...

— Pois bem; faça-se a tua vontade...

— A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és tu...

— Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer revelações!...

— A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te, encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a fortuna, quando tu menos a esperas?

Helena sorriu incredula.

— Não creio — disse ella — mas seja o que fôr, desde que se trata de um segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.

D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem dos oculos.

Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o reconheceu.

O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que D. Aurelia se retirasse.

— Fica! — pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para a sua amiga.

— Perdão! — obtemperou o desconhecido. — O que tenho a dizer a v. ex.ª é tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem.

— Não tenho segredos para a minha amiga...

— Todas as pessoas teem segredos — insistiu o homem dos oculos — e se a ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que nos não pertencem. V. ex.ª não tem o direito de tornar publico um segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua familia...

Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos tremula e confundida.

— Este cavalheiro tem razão — disse D. Aurelia — Eu aguardarei na sala proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.

E sahiu.

Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e disse-lhe em voz soturna:

— Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu cumplice!

Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato do padre Anselmo.

— Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim. Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo não será mais venturoso comtigo do que eu.

— Julio de Montarroyo! — balbuciou Helena aterrada — Quem lhe ensinou esse nome?

— Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha. Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos, rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti, quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para morrer.

— Mate-me! mate-me! — soluçou Helena, pondo as mãos.

Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:

— Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa. Vamos! aqui tens a morte.

E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.

— Pago-te assim a minha divida — disse ella — Estamos quites. Se para me ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!

— Mas se eu te amo ainda! — exclamou o padre Hilario debruçando-se no leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos! — Amo-te e morro feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do tumulo!

Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito amor:

— Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas eternas! Lá nos havemos de encontrar.

Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a alma.

Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente, como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.

Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou suspeitar-lhe a verdadeira causa.

Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da mulher que tanto amara!

Conclusão

Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe, regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram chamar Paulo de Noronha.

— Meu filho — disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de ferro quadrado — eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace.

Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.

— Oitocentos contos! — balbuciou por fim. — E d'onde vem tanto dinheiro?

— De teus paes — respondeu madre Paula.

— Meus paes! E quem eram elles? — perguntou o mancebo, na esperança de que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.

— Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome. Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e justa.

Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:

— Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.

— Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os crimes do pae! — replicou madre Paula.

No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr. Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura da Irmã Dorothea, legando uma parte dos seus haveres ao mestre Tomba e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.

E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor, que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira para Lisboa em companhia de João Lazaro.

Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da Mão Negra, nunca mais Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e poderosa de todas as suas irmãs.