Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Notas comparativas

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
Notas comparativas


NOTAS





1. A cara de boi. — A donzella é evidentemente o mytho da Aurora, como se comprova pelo estribilho Arcello, Arcello, em um romance popular do Algarve, intitulado D. Carlos de Montalvor, colligido pelo nosso amigo Reis Damaso, lê-se o verso: «Não permitta Deus d’Arcello» por Deus del celo. (Encyclopedia republicana, p. 204, Lisboa, 1882.) A velha, que torna feia a menina é a Noite, e o joven amante que a arrebata é o Sol. Consiglieri Pedroso diz-nos que tambem encontrou uma versão d’este conto. No Catalogo de Barrera y Leyrado, cita-se um Auto perdido de Gil Vicente, intitulado A Donzella da Torre, por ventura baseado sobre este thema mythico commum aos outros povos romanicos. Nos XII Conti pamiglianesi, illustrati da Vittorio Imbrianni, Napoli, 1877, acha-se este conto desenvolvido sob o titulo de Persilette, no qual a donzella fechada na torre, a madeixa que serve de escada e a fuga com o namorado são simples episodios. A tradição portugueza está mais pura na sua simplicidade, em quanto que o conto de Pomigliano é formado pela confusão de difierentes contos, como o da Filha do rei Mouro (n.º 6). O thema do filho de um rei que vae procurar uma mulher formosa, condição essencial para succeder no reino do pae, acha-se na novella monferrina La bella d'l'isoule Fourtiunà, publicada por Stanislao Prato (Como, 1882) com notas de abundantissimos paradigmas. Nas Quattro novelline populari Livornese, do mesmo escriptor, a terceira Il ré é sú tre figlioli, ha tambem este mesmo thema, em que a encantada é uma rã que depois apparece n'uma mulher bonita. Pertence a um vastissimo cyclo novellesco commum a toda a Europa, o que coincide com o seu evidente sentido mythico. Da importante nota de Stanisláo Prato a este conto (p. 136 a 144), transcreveremos a indicação das principaes collecções em que ella se encontra: Imbriani, La Novellaja fiorentina, n.º 20, I tre fratelli; Pitré, Fiabe e Novelle popolare siciliane, n.º 46, La limuruta: Corazzini, Componimenti, n.º 18: A ranaottola; Comparetti, Novelline popolare, n.º 4 e 48, La moglie trovata colla frombola, e Le scimmie; Visentini, Fiabe montovane, n.º 48, La rana; Gianandrea, Novelline e fiabe popolari Marchigiani, n.º 4, El fijo del re, che sposa 'na ranocchia. Em Hespanha, no Rondallayre ou quentos populars catalans de Mapons y Labros: La princesa encantada. Em França, nos Contes de Fées, de M.me d'Aulnoy, La chatte blanche; e na revista Melusina, t. I, p. 64, Les trois fils du roi, ou le bossu et ses deux frères. Nos povos germanicos, slavos e scandinavos, este cyclo novellesco é extensissimo, como se infere dos estudos comparativos do Dr. Reinhold Köhler, o que mais profundamente tem investigado estes assumptos; elle encontrou paradigmas fundamentaes nas collecções de contos de Busching, Hylten-Cavallius, Grimm, Beauvois, Jonson, Kattan, Asbjörnsen, Töppen, Schwartz, Ey, Stephanovic, Radloff, Colshorn, Hahn, Zingerle, Benfey, Chavannes, Affanasieff, Böhmer, Peter e outros.

Nos Portuguese folk-Tales, collecção, de Consiglieri Pedroso, e traducção de Ralston, vem com o titulo A filha da Feiticeira, n.º IV, muito desenvolvido, e contendo no seu syncretismo, os n.os 1, 6, 17 e 32, que colligimos separadamente e em differentes logares. Ralston compara esta versão com o conto The story of Sringabhuja and the Daughter of the Rákshasa, que vem no VII livro do Kathá Sarit Ságara (vol. I, p. 355-367), traducção de Tawney. Na versão do Algarve cita-se uma noz dentro da qual cabe o lenço bordado para a rainha; Gubernatis, diz: «A noz que esconde a fazenda de que se faz o vestido do noivado para a esposa do principe solar, a Aurora, parece ser propriamente a lua. Por influencia d'ella a donzella perseguida escapa ao poder magico da mãe-bruxa e apresenta-se vestida com vestes esplendidas na festa do principe. O vestido luminoso, imagem do céo, é tão tenue, tão subtil, que pode desdobrar-se sem fim.» (Myth. des Plantes, t. I, p. 145.)


2. O velho Querecas. — Áparte os episodios communs a muitos contos, é este uma das fórmas do mytho de Psyche. Gubernatis, na Mythologie zoologique (t. I, p. 437), traz uma variante d'este conto colligida em Fucecchio, na Toscana, em que o desencantamento do principe é devido á coragem da donzella. As circumstancias episodicas divergem e pertencem a outro cyclo novellesco. Um conto colligido em Cosenza, na Calabria, por Greco, traz o episodio do ruido nocturno, do pingo de cêra que acorda o mancebo, e do novello que deve guiar a menina á busca do amante. (Gubernatis, op. cit., t. II, p. 301, nota 2.) Estas uniões mysteriosas acham-se ainda com caracter mythico, no Harivansa, entre Urvasi e Pururavas, e no Mahâbahratta, entre Çantana e a nympha das aguas; na lenda grega de Psyche, Eros desapparece, quando acorda por causa do pingo de azeite que cahiu da lampada a cuja luz foi visto. Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 183, cita contos pertencentes a este cyclo na collecção sueca de Cavallius e Stephens, Svenska Folk-Sagor och Afventyr, traduzida por Thorpe, e na collecção noruegueza de Asbjörnsen e Moe, traduzida por George Webbe Dasent, apparece o episodio do pingo de cêra.

Sobre o evidente caracter mythico d'estas tradições, accrescenta Brueyre: «Em todas estas narrativas a felicidade dos amantes não é de longa duração, porque, apesar da fé jurada, a promessa é sempre violada, e aquelle dos amantes a quem o outro faltou á palavra, é forçado a desapparecer, apesar do ardente amor que o consomme. M. Cox demonstra que as lendas d'esta natureza são a representação do mytho celeste do Sol seguindo a Aurora, ou reciprocamente. Muitas vezes depois da violação da promessa e da separação dos amantes o mytho continúa.» (Op. cit., p. 184.) Em um artigo sobre a Historia do Japão, cita-se tambem a lenda analoga á de Psyche: «Uma parenta do imperador era a esposa do Deus Omonomichi. Elle jámais apparecia aos olhos da princeza, pois não se encontrava com ella senão nas trevas. Uma noite ella lhe disse: — Ainda me não foi dado olhar para a tua face; rogo-te que fiques commigo até pela manhã, para eu ter a felicidade de te contemplar.

«Tanto lhe rogou, com tal ternura e taes carinhos, que o esposo cedeu e prometeu-lhe que ficava. Por fim, as primeiras claridades da Aurora entraram no aposento da impaciente princeza, mas qual foi o seu espanto quando ella descobriu, no leito, uma serpente enroscada! Soltou um grito de pavor, e a serpente transformou-se logo n'um joven formosissimo , que lhe disse com expressão de dolorosa melancholia: — Nunca mais, agora, hei-de poder estar comtigo. E desappareceu. Abatida por tristeza incuravel a esposa solitaria a foi pouco a pouco decahindo até fallecer de paixão.» (Do viajante portuguez Mesnier, Actualidade, n.º 241, do IX anno.) O despertar por meio de um raio de luz é frequente, como na Bella Aurora (Spoleto) e La Bella Rosalinda dai capelli d'ori, e na novella dinamarqueza de Grandtovig. (Stanisláo Prato. Quattro novelline, p. 156 e 157.) Sobre as origens mythicas indo-europeias d'este Conto, vide Gubernatis, Piccola Enciclopedia indiana, p. 175, em que discute a simultaneidade da representação da Aurora e da Nuvem que desapparecem quando o Sol se mostra. Este cyclo do Amor e Psyche foi estudado por F. Liebrecht, Zur Volkskunde (Amor und Psyche). Na versão do Algarve ha o episodio do corpo que cae aos pedaços, para experimentar a coragem da menina; é commum a varios contos, e acha-se na lenda de Athenedoro (ap. Alexander ab Alexandro, lib. III, cap. 12), que o padre Manuel Consciencia traduziu na sua Academia Universal de Erudição, p. 545.


3. O surrão. — A lenda christã de S.ta Margarida, engulida por um Dragão, representa a luz solar escondida pela noite. Pertence a este cyclo, como observa Tylor, a historia do Petit Chaperon rouge, em França e Inglaterra: «Na Allemanha as velhas conservam-no com toda a sua pureza. Segundo a sua narrativa, o lobo engole a encantadora criança, vestida com o seu brilhante manto de setim vermelho, e a sua avó; mas ellas sabem incolumes da barriga do animal que um caçador abriu emquanto elle dormia. Acha-se um conto parecido na collecção de Grimm, em que se pode egualmente reconhecer o mytho do sol. Como no Petit chaperon rouge, abre-se a barriga do lobo e enche-se-lhe de pedras.» Tylor, Civilisation Primitive, t. I, p. 390. Apparece em francez nos Contes populaires lorrains de Emm. Cosquin, L'homme au pois; e em Fernan Caballero, El zurron que cantaba. Sobre o caracter mythico d'este conto, applicamos o dito de Gubernatis:

«O sacco representa um importante papel na tradição do heroe escondido ou perseguido; este sacco é a Noite, ou a nuvem (o inverno), etc.» Mythologie Zoologique, t. I, p. 255 e seg. E em outra passagem, acrescenta : «Achamos aqui não somente a heroina que foge, mas a heroina que viaja; esta heroina é a Aurora…» (p. 259.) Nos romances populares portuguezes ha donzellas mettidas em esquifes de vidro ou deitadas ao mar em cofres. Nos costumes domesticos, as crianças são intimidadas com a ameaça de um velho que vem e as leva em um sacco. O surrão é o sacco de couro das tradições indo-europêas e dos costumes juridicos da penalidade symbolica medieval.


4. A saia de esquilhas. — O vestido com escamas de ouro com que a menina escapa á ferocidade da sogra é a Aurora depois que brilha vencendo a escuridade maligna ela Noite. É um typo geral d'este cyclo novellesco. No conto hindu intitulado Sourya-Bai, da collecção Old Decan Days, de M. Frere, a menina fica com um somno lethargico por causa de um espinho, e é lançada n'um poço por outra mulher que a vê amada por um principe. Sobre o caracter mythico d'este conto pode applicar-se a consideração de Husson sobre o citado conto hindu: «Temos n'esta narrativa o novo exemplo do mytho da mulher picada por um espinho ou por uma ponta aguda, e caindo em um somno lethargico de que é tirada por um principe amoroso. Um outro mytho se lhe sobrepõe, o de uma rival ou irmã ciosa, que personifica a hostilidade da escuridão contra a luz da primavera contra o inverno; e n'esta phase de desenvolvimento novas peripecias se manifestam entre uma morte apparente e um regresso persistente á vida.» (La chaine traditionelle, p. 109.) Nos Contos populares portuguezes, Lisboa, 1879, o conto XXXV, Os Sapatinhos encantados versa sobre um somno lethargico com algumas relações no fim com o nosso.


5. As tres fadas. — No conto hindu de Sonrya-Bai, a menina tambem nasce de um fructo de manga, e tendo anteriormente sido roubada, depois que volta á sua casa desposa um principe. Sobre o rapto por uma aguia, diz Husson: «Os contos populares gregos mais ou menos conservados pelos poetas ou reproduzidos nos vasos pintados, fazem-nos conhecer muitas nymphas encantadoras, Thalia, Egina, Ganymeda, Asteria, egualmente arrebatadas por uma aguia divina.» Em uma versão popular de Abrantes, ha o estribilho:

Tesourinha, tesoureta,
Corta aquella lingueta.


6. A filha do rei mouro. — Ha uma outra versão intitulada Grisme e Guiomar, nos Contos nacionaes para crianças, n.º XV. Porto, 1883. No Violier des Histoires romaines (Gesta Romanorum), cap. V, vem esta situação sem o maravilhoso da fuga dos dois amantes. No Pentamerone, de Basile, é Petusinella, que foge lançando successivamente tres nozes, que recebem varias transformações. Nos Contos zulus, de H. Callaway, ha o de uma rapariga perseguida pelos canibaes, que vae deixando cair atraz de si grãos de sésamo. O mesmo em um conto russo em que a Boba-Yaga corre atraz de uma rapariga. O mesmo episodio apparece no Aprendiz do Mago, n.º 11. O conto n.º 17, o Cavallinho das sete côres, é uma variante notavel, pelo episodio do esquecimento produzido pelo abraço em uma pessoa de casa. As transformações dos amantes que fogem, acham-se nos contos esthonianos, citados por Gubernatis, de Kreuzenwal. (Myth. zoologique, t. I, p. 180.) Vide nota 1, in fine, acerca do syncretismo do conto da Filha da Feiticeira.


7. As fiandeiras. — Nas Fire Side Stories of Ireland, de P. Kennedy, acha-se este conto, e traduzido por Brueyre com o titulo A priguiçosa e suas tias. (Contes populaires de la Grande Bretagne, n.º XXII, p. 159.) Entre as differentes fontes, cita a versão escosseza da collecção de Chambers, Whooppity Storie (op. cit., p. 245, de Brueyre); ha uma lição franceza Histoire du Ric Din-Don de M.lle Lhéritier; ao Pentamerone de Basile, o conto italiano, e na Novelline di Santo Stephano, de Gubernatis, La Comprata. No Norske Folke eventyr, de Asbjörnen e Moe, As tres Tias; e na collecção sueca de Cavallius e Stephens, A Rapariga que não podia fiar ouro com lama e palha, e As tres corvinhas. Jacob Grimm, nos seus Kinder und Hause märchen, n.º 14, traz As tres fiandeiras, traduzido nos Contes choisies, de Fred. Baudry, p. 128. Ha alguns vestigios em Rumpelstilzchen; na collecção de Bürching, Volksagen, Märchen, und Legenden, é o das Tres Fiandeirinhas. Ha uma outra versão portugueza traduzida por G. Ralston nos Portuguese folk Tales, de Consiglieri Pedroso, n.º XIX, com o titulo As Tias. Na Mythologie des Plantes, t. II, p. 212, Gubernatis traz um conto popular da Calabria, cujo maravilhoso versa sobre o poder de fiar concedido pelas fadas a uma mulher.


8. Cravo, Rosa e Jasmim. — Apparecem outras versões d'este conto, nos Contos populares portuguezes, n.º XVI; e nos Contos populares do Brazil, colligidos pelo Dr. Sylvio Romero, com o titulo O Bicho Manjaléo. (Rev. Brazileira, tomo VI, p. 120.) Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, de Brueyre, p. 81 e 119. Nos Old Deccan Days, de Miss Frere, o conto do Punchkin versa sobre este mesmo assumpto de um Mago que encanta todos, e cuja vida estava resguardada sendo impossivel descobrir esse talisman: é uma criança que livra sua mãe e sete tios, principes.


9, 10 e 11. O Magico. O Mestre das Artes. O aprendiz do Mago. — Versões nos Contos Populares da Russia, de Afanasieff, livro VI, n.º 46; em Gubernatis, Noveline di Santo Stephano, n.º 22 e 26. (Ap. Myth. zool., I, 365.) Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, de Brueyre, p. 289. — Nas Notte piaccevoli, de Straparola, Nott. VIII, fábula 5.ª, vem este mesmo conto. O freio magico é um episodio commum a muitos outros contos mythicos, como o prova Brueyre, Op. cit., p. 253, e Gubernatis, Mythologie zoologique, t. I, p. 77.

Nos Contos populares portuguezes, n.º XV, o Criado do Estrujeitante, versão de Ourilhe, pertence a esta mesma tradição. Nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, ha uma variante sob o n.º VIII, com o titulo O passaro preto.


12. A bicha de sete cabeças. — Uma versão de Coimbra vem publicada sob o titulo de Pedro e Pedrito, nos Contos populares portuguezes, n.º LI, com o estribilho:

Quem isto ouvir e contar
Em pedra se ha-de tornar.

Nos Portuguese folk-tales, colligidos pelo nosso collega Consiglieri Pedroso e traduzidos pelo eminente mythographo Ralston, vem sob o n.º VI com o titulo Pedro and the Prince com algum desenvolvimento. Nos Contos dos irmãos Grimm, n.º 22, O fiel João, e trad. de Fred. Baudry, p. 27, pertence a este cyclo do creado ou do amigo que se sacrifica. Ralston, na introducção aos contos portuguezes, cita este paradigma, bem como o n.º 5 da collecção de Miss Frere, Old Deccan Days, intitulado Rama and Luxaran, e a situação geral em um conto indiano na traducção do Kathá Sarit Ságara por Tawney, vol. I, p. 253. Muitos contos têm evidentemente uma origem indiana; mas não é esta a unica fonte.


13. O Conde soldadinho. — Pertence ao cyclo do amigo que se sacrifica; não ha aqui a morte, mas a sua importancia provém da parte metrificada, que revela a dissolução de uma obra dramatica.

14. A sardinhinha.Gubernatis cita differentes contos russos das collecções de Afanasieff e de Erlenwein, de Ferraro, etc., do peixe que dá fortuna. (Myth. zoolog., II, 357.) Nas Notte piacevoli, III, fabula 1.ª, vem este conto, que tambem figura no Pentamerone de Basile, Jornada III, fab. 1.ª No Catapalha Brâhmana, e no Mahâbharatha, Manu socorre um peixe, de quem recebe depois a salvação do diluvio. Vichnu tambem os transforma em peixe. Husson cita um fragmento de um conto colligido por Luzel (Chaine traditionelle, p. 60.) A menina-pagem accusada pela rainha é o thema de um conto citado por Gubernatis (Myth. zoolog., t. II, p. 405), colligido em Antignano. Nos Contos populares portuguezes, n.º XIX, vem sob o titulo A afilhada de Santo Antonio, versão de Coimbra; repete-se na ilha de Sam Jorge com o nome A afilhada de Sam João. Consiglieri Pedroso cita o conto russo da collecção de Afanasiev, n.º 162, O sapatinho de ouro (Zolotoii bachmatchola) que pertence ao cyclo do peixe encantado.


15. Maria da Silva. — Ha outras versões portuguezas oraes. Nas Fiabe, Novelle e Racconti, de G. Pittré, vem a versão italiana sob o n.º 100. Na ilha de Sam Jorge é repetido com o nome de Maria das Silvinhas, como vemos pelas notas do eminente collector Dr. João Teixeira Soares. Nos Contos populares portuguezes, n.º LVIII, vem uma versão de Coimbra, com o mesmo titulo da do Algarve, e tambem com estribilhos poeticos:

Procura, procura,
Que a que chora
Ainda hade ser tua.

N'uma silva fui achada,
Por uma cabra fui criada;
Um pastor me educou,
E agora aqui estou.

16. Rosa branca na bocca. — Um povo que recebeu as tradições semitas, phenicias, hebraicas e arabes, repete sob um novo aspecto o conto de Joseph que resiste à seducção da mulher de Putiphar.


17. O cavallinho das sete côres. — Vide contos 1 e 6, e notas respectivas. Nos Contos populares portuguezes da traducção de Ralston, A filha da Feiticeira traz a circumstancia do esquecimento da namorada; é o n.º IV. As nossas versões não apresentam syncretismos. Vide o conto 32, agrupado tambem na versão citada. Nas Fiabe, Novelle e Racconti popolari siciliani de Pittré, o n.º XV Lu Ré di Spagna é identico ao conto portuguez a Filha da Bruxa colligido por Pedroso.


18. Muda, mudella. — Ha uma versão de Coimbra, intitulada O senhor das janellas verdes, nos Contos populares portuguezes, n.º XLVIII. Traz o seguinte estribilho poetico:

— Olha a muda, mudona!
Que traje! que dona!
«Olha a condessa, que inveja!
Que eu falle não deseja.

Nos Contos populares de Pomigliano, colligidos por Imbriani, é o conto de Muzella. (Rev. des Deux Mondes, Nov. 1877, p. 142.) Nos Nobiliarios portuguezes a lenda do solar dos Marinhos versa sobre a peripecia de uma mulher que não falla. Vid. n.º 129.


19. O sapatinho de setim. — Nos Contos populares portuguezes, n.os XXXI e XXXVI, ha duas versões, Pelle de cavallo, e a Engeitada. N'esta ultima, ha o estribilho poetico:

Perola fina fica na cuba,
E o saramago vae na burra.

No Romanceiro do Archipelago da Madeira do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, sob o titulo A gata borralheira, vem este conto em verso de redondilha, de p. 364 a 391. Acha-se no Pentamerone de Basile, Gatta Cenerentola; nas Recreations de Bonaventure des Periers; no conto do Pérrault, Peau d'Ane; em Rollenhagen, Fresch Maüsler (ap. Grimm); em Brueyre, Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 37, e notas eruditas a p. 46. Em Gubernatis, Mythologie zoologique, t. V, p. 110 ha mais paradigmas. No Asinarius, vel Diadema, de Gotfried de Tirlemont, acha-se este thema popular. Consiglieri Pedroso allude a uma variante por elle colligida sob o nome A Menina e o Peixe, de que apresenta o resumo: «Um dia um homem trouxe para casa um peixe que apanhou, e deu-o á mais nova das filhas, que era quem tratava da cosinha, para ella o arranjar. A menina em vez de o matar deitou-o n'um poço, e o peixe reconhecido, quando d'ahi a algum tempo ella tem de ficar em casa, em quanto as irmãs mais velhas vão a uma festa no palacio do rei, dá-lhe tudo quanto ella precisa, para se apresentar no baile, conseguindo a menina pela riqueza do seu trage attrahir a attenção de toda a côrte, vindo por fim a casar com o peixe, que era um principe encantado.» (O Positivismo, t. II, p. 446.)

A Gata borralheira fórma um vasto cyclo novellesco, estudado pelo eruditissimo Reinhold Köhler, nas notas a uma versão escosseza, na Revue celtique, t. III, p. 370, e 371. Na Biblioteca de las traditiones populares españolas, t. I, p. 114, vem uma versão do Chili com o titulo de Maria la Cenicienta, curiosa pelo syncretismo com outros contos. O episodio das tripas repete-se tambem na tradição portugueza:

Fadas, fadinhas,
Vistes por aqui as minhas tripinhas?

20. A Madrasta. — Pertence ao cyclo do antecedente. A troca das crianças pelas fadas, acha-se nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 223, trad. Brueyre.


22. Cabellos de ouro. — A versão portugueza está bastante confusa; a redacção mais completa que conhecemos é a do Chili, intitulada El Culebroncito, publicada na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 137.


23. A Carpinteirasinha. — Este titulo não tem sentido ignorando-se a significação primitiva de carpinteiro; carpenta é o carro gaulez, usado pelas antigas mulheres da Ausonia, como descreve Ovídio (Fastos, I-IV, 819.) Florus cita um carpentum de prata do rei Brituitus. A locução portugueza bicho de carpinteiro) designa a pessoa que não está quieta em um logar. Evidentemente o nome de Carpinteirasinha deriva-se da sua mobilidade com que figura no conto. A fórma seguinte é uma variante.


24. A filha do lavrador. — Pertence ao cyclo da Maria Sabida.


25. A feia que se torna bonita. — No Pentamerone de Basile, X conto, ha uma velha que se esfola para se fazer bonita. Vid. Gubernatis, Mythologie zoologique, t. II, p. 6: «No decimo conto do Pentamerone, o rei de Roccaforte casa-se com uma velha, julgando que é uma nova. Deita-a pela janella, mas ella na queda fica dependurada de uma arvore; vêm as fadas, fazem-n'a nova , dão-lhe formosura e riqueza, e cingem-lhe o cabello com uma fita de ouro. A irmã, tambem velha, da outra que ficou bonita (a Noite) foi a casa de um barbeiro, esperando obter a mesma transformação pedindo que a esfolasse, mas ficou sem pelle. No que respeita o mytho das duas irmãs, a Noite e a Aurora, a donzella negra e a que se disfarça ou tinge de negro, ou cinzento, vide tambem o Pentamerone, II, 2.» O conto baseia-se sobre um equivoco de linguagem, que vem reforçar a elaboração do mytho. Nos Contos populares portuguezes, n.º LXV, vem uma versão de Coimbra com o titulo A velha fadada.


26. O peixinho encantado. — Ha uma outra versão da Foz do Douro intitulada João Mandrião, nos Contos populares portuguezes, n.º XXX. Vide nota 14, retro. Nos Portuguese folk-tales, de Consiglieri Pedroso, apparece com o n.º XVII sob o titulo O preguiçoso filho da Padeira, diversificando no episodio da laranja. Ralston, na sua Introdução (p. VII) considera-o commum a todo o oriente da Europa, e cita os n.os 55, do volume V dos Skaski de Affanasieff, os n.os 32 do vol. VI, e 31 do volume VII; depois da vasta collecção russa, cita o conto n.º 19 dos Contos de Grimm, O pescador e sua mulher; uma variante nos Griechische Märchen, n.º 8, de Hahn, e termina dizendo que na Asia esta tradição conserva uma fórma mais rasoavel. Sobre os Peixes-Salvadores vid. n.º 14.


27. O figuinho da figueira. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XLI, vem uma versão de Coimbra sob o titulo A menina e o figo. Acha-se nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, n.º XVI, com o titulo A Madrasta. Celso de Magalhães colligiu-o na tradição do Maranhão.


28. A da varanda. — Pertence ao cyclo da Maria Sabida. Em uma variante que ouvimos no Porto ha o estribilho:

E a cabra na cama,
A fazer de madama?


29. A noiva formosa. — Vide o conto n.º 1, e a nota correspondente.

30. A noiva do corvo. — Nos Kalmükische Märchen, de Jülg, vem um conto do Passaro desposado, que se prende a este cyclo do amante tornado em porco ou em cavallo, em serpente ou em passaro. Nos Contos populares portuguezes, nº XXV e XXXIV, vem com os titulos O Carneirinho branco, e o Principe-sapo. Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, cita um conto da collecção de Campbell, em que o esposo é um corvo, e não um principe-sapo ou principe-serpente como no cyclo em geral, na Russia, Allemanha, Italia e França. (Vid. nota a pag. 58.) Estudaremos mais adiante ao annotar a redacção litteraria de Trancoso. No setimo conto mogol do Siddhi-Kûr, resumido por Gubernatis (Myth. zoologique, t. I, 140), é a gaiola que a desposada queima por conselho de uma bruxa. Nos mythos indianos o sol é um passaro, e a aurora a gaiola que arde. Nas Fiabe, Novelle e Racconti populari siciliani, de Pittré, ha o conto d'este cyclo, n.° CCLXXXI, Ré Cristallu. Consiglieri Pedroso colligiu duas versões portuguezas O Principe encantado, e o Talo de couve.


31. A paraboinha de ouro. — O episodio da bacia magica é frequente em outros contos. (Gub. Mythologie zoologique, t. II, p. 315.) Nos Contos populares portuguezes, n.º XLIV, vem uma versão de Ourilhe, O principe das palmas verdes, com o estribilho poetico:

Principe das Palmas verdes
Não te lembres de mim;
Lembra-te do teu filho
Que o tens ao pé de ti.

Na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 126, vem uma versão do Chili, com o titulo El Principe Jalma.

32. O principe que foi correr sua ventura. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XIV, ha uma variante de Coimbra com o titulo Branca-Flôr. Nos Contos populares brazileiros, n.º XXII, vem uma variante com o titulo Cova da Linda-Flôr. Este conto acha-se em quasi todos os seus detalhes com o titulo As trez pombas, nos Contos e tradições do tyrol italiano, de Schneller, n.º 27. O mesmo na collecção dos Contos populares e infantis, de Pröhle, n.º 8. Nos Rondallayres ou quentos populares catalans, de Maspons y Labros, apparece com o nome de Lo Castell del Sol. Vide Stanislao Prato, Una novellina popolare monferrina, p. 56. Sobre as donzellas-passaros, Reinhold Köhler, annotando os contos esthonianos, n.os 14 e 16, e os contos sicilianos, n.º 10, desenvolve largamente todos os paradigmas tradicionaes. Guichot y Sierra colligiu uma outra versão em Sevilha, El Marqués del Sol, publicada na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 187.


33. Maria Subtil. — Na versão do Algarve encontrámos este conto com o titulo de Dona Vintes; e na versão de Ourilhe (Celorico de Basto) vem com o de Esvintola, (Contos populares portuguezes, n.º XLII) trazendo o estribilho:


Ai Dona Esvintola,
Tão brava na vida
E tão dôce na morte.[1]


Nos Contos populares portuguezes, de Sylvio Romero, n.º XII, Dona Pinta é uma variante do nosso. Ha uma versão sevilhana, intitulada Mariquilla la ministra, colligida por Guichot y Sierra. Vid. n.º 42.

A referencia mais antiga a este conto vem nas Cartas, de D. Francisco Manoel de Mello (Centuria V, carta 7.ª):

«Eu cuido que vireis a ser aquella


…Dona atrevida,
Dôce na morte
E agra na vida.


que nos contam quando pequenos.» Na tradição popular corrente ainda tem o titulo de Maria Subida. Charles Perrault, nos seus Contos (1697), redigiu litterariamente este thema tradicional na Adroite Princesse ou Aventures de Finette, no qual o principe de Bel-à-Voir fura com a espada uma boneca de palha que tem uma bexiga cheia de sangue. João Baptista Basile, no Pentamerone, deu redacção litteraria á fórma italiana no conto da Sapia Licciardia, que tambem mette na cama uma boneca cheia de mel e cousas dôces, exactamente como na tradição portugueza. Na Inglaterra este conto apresenta um aspecto exclusivamente maravilhoso no The Made Pranks and merry Jests of Robin Good Fellow, em que o amante é um genio domestico, Robin, que deixa na cama uma figura de lã. (Brueyre, Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 235.)


34. O coelhinho branco. — Em uma versão do Algarve, inedita, vinha o estribilho poetico:

Lenço, liga, cordão e cuidado,
Quem me déra vêr aqui
A dama do meu agrado!


35. Clarinha. — Pertence aos mythos da Aurora, o que concorda singularmente com o nome da menina.

36. Bola-bola. — Liga-se com o conto das Tres Cidras do Amor. Vid. n.º 46.


37. Linda branca. — Pertence ao cyclo do Sapatinho de vidro. Vid. n.º 19.


39, 40. Rei Escuta. As cunhadas do Rei. — D'este conto publicou duas versões do Porto o sr. Leite de Vasconcellos, na Vanguarda, n.º 40 e 41. No Romanceiro do Archipelago da Madeira, vem a pag. 391 um largo conto em verso com o titulo Los incantamentos da grande fada Maria, de perto de quarenta paginas, um verdadeiro problema litterario, cuja genuinidade só se admitte pela espontanea improvisação que distingue os povos insulanos. Nos Contos populares do Brazil, do Dr. Sylvio Romero, vem sob o n.º II, com o titulo Os tres coroados. Este mesmo thema tradicional recebeu fórma litteraria nos Contos e Historias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso, Parte II, n.º 7, que reproduzimos na secção competente. É extraordinaria a somma de paradigmas que apresenta este conto na tradição hespanhola, italiana, franceza, grega moderna, allemã, hungara, slava, avárica, etc. O Dr. Reinhold Köhler, nas notas dos Awarische Texte, ao n.º 12, A bella Issensulchar, traz uma enorme somma de paradigmas, e o prof. Stanislao Prato, nas Quatro Novelline populari, Rivornesi, Spoleto, 1880, annotando o conto das Le tre Ragazze, pag. 92 a 136, desenvolve extraordinariamente a área das comparações, de modo que o processo erudito está feito, sendo facil imbair os ingenuos. Aproveitaremos com franqueza as investigações d'esses mestres, com algumas resumidas ampliações.

No Folk-lore andaluz, n.º 8, p. 305, vem este conto com o titulo El agua amarilla, colligido por J. L. Ramirez. Nos Rondallayre, de Maspons y Labros, n.º 14 e 25; e nos Cuentos y Oraciones divinas, de Fernão Caballero, nº 6, p. 31, com o titulo El pajaro de la verdad. Ha tambem uma versão basca, colhida por Webster.

As versões italianas são abundantissimas; Stanislao Prato, nas Quatro Novelle popolari, tráz sete versões importantes para a critica comparativa (pag. 16 e 29 a 39). Ha uma versão livorneza nos Italienische Märchen, n.º 1, de H. Knust; outra em Gubernatis, Novelline di Santo Stefano de Calcinaja, n.º 15; Pittré, Fiabe, Novelle e Racconti, n.º 36, e a 3.ª variante; em Imbriani, Novellaja fiorentina, no app. ao n.º 6, e n.os 7 e 8; e nos Contos de Pomigliano, sob o titulo de Viola; Comparetti, Novelline popolari italiane, n.º 6, versão de Basilicata; outra de Pisa, n.º 30; em Laura Gonzenbach, Sicilianische Märchen, n.º 5; em Schneller, Märchen und Sagen aus Wälschtirol, n.º 23, 25, 26. As tradições populares d'este cyclo penetraram na litteratura italiana, como se vê no Pecorone, de Giovani Fiorentino, jornada X, novell. 1; em J. Baptista Basile, Pentamerone, jorn. III, trat. 2; Straparole, Piaccevoli Notti, fab. V, n.º 4; Molza, Novella, Poggi Bracciolini, Gozzi deram redacção litteraria a este conto, que tambem apresenta o caracter de lenda religiosa, na Representa­zione di Santa Uliva, e no Libro dei Miracoli della Madona, cap. X. Acha-se em novas collecções: Carolina Coranedi-Berti, Novelle popolari bolognesi, n.º 5; Arietti, Novelle popolari piemontesi, trez versões; e Visentini, Fiabe mantovane, n.º 46; Bernoni, Fabulas populares venezianas, n.os 2 e 15, e Reppone, La Posilecheata, n.º 3.)

Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 224, traz este mesmo conto em uma versão popular toscana das fontes do Tibre. A aversão das duas irmãs mais velhas é comparada com o facto analogo das que figuram no conto do Lear, e da Bella e da Fera.

As versões francezas, acham-se na Litteratura e na tradição oral simultaneamente; em M.me d'Aulnoy, é La Princesse Belle-Etoile et le Prince Cheri; em Millin, Conteur breton, intitula-se L'Oiseau de Verité; em Cosquin, Contes populaires lorrains, n.º 17, com importantes notas; Revista, Melusine, t. I, p. 206 a 213: Les trois filles du Boulanger, etc. Foram tambem vulgarisadas na traducção das Mil e uma noites, As duas irmãs invejosas, e na continuação de J. Scott, na Historia do sultão do Yemen e das suas tres filhas; Bladé, Trois Contes, p. 33.

O grupo occidental completa-se com as versões gregas, em Hahn, Griechische und Albanische Märchen, n.º 5, e n.º 69 (variante 1, e 2) e n.º 112; e nos Neohellenica Analecta, I, 1, n.º 4, e n.º 8; outra em K. Ewlampios.

Variante irlandeza, em Powel and Magnusson, Irelandie Legendes, t. II, p. 427.

As versões allemãs são numerosissimas: Grimm, Kinder und Hausmärchen, n.º 96; Prohle, Kinder und Volksmärchen, n.º 3; Wolf, Deutsche Hausmärchen; p. 168; Wernaleken, Oesterreichische Kinder und Hausmärchen, n.º 34; Peter, Legendas, Novellas, usos e superstições populares da Silesia austriaca, t. II, p. 199; Meier, Deutsche Märchen und Sagen, n.º 72; Fromman, Die deutsche Mundarten, IV, 263; Bechstein, Deutsche Märchenbuch, p. 250; Haltrich, Contos populares tedescos de Saxe de Transilvania, n.º 1; Curtze, Tradições populares do principado de Waldeck, n.º 15; Zingerle, Kinder und Hausmärchen, t. II, p. 112 e p. 157; Liebrecht, versão do Tyrol allemão no Annuario de Litteratura de Hidelberg, n.º 42, p. 187.

As versões slavas alargam o dominio da ficção: Natalia Nemcova, Novellas e contos populares slavos, vol. V, p. 52; Wenzig, Thesouro de Novellas dos Slavos occidentaes, p. 148; Glinski, Bajarz Polski, t. II, p. 46; Gaal e Stier, Contos populares hungaros, p. 390; Stephanovic, Contos servios, n.º 25 e 26; Köhler, no Iagic Archiv für Slavische Philologie, fasc. II, p. 626 e 627; Afanasieff, Novellas populares russianas, liv. VI, n.º 96; Miklosich, Contos dos Ciganos de Bukowina, n.º 1; Urbovec, Contos populares croatas, n.º 25; M.me Mijatovies, Popular Tales, p. 238; Schiefner, Avarisch Texte, n.º 12; e uma versão siameza no Asiatic Researches, t. XX, p. 348 (1836). Depois d'estas largas indicações apresentadas pelo Dr. Köhler ao n.º 12 da collecção de Schiefner, ao n.º 5 da collecção de Laura Gonzenbach, e aos n.os 25 e 26 da collecção de Stephanovic, accrescentou mais estas fontes utilisadas por Sr. Prato: Jecklin, Tradições populares do Cantão dos Grisões, p. 105; W. Webster, Basque Legends, p. 176; Bladé, Trois contes populaires, p. 33; Luiz Leger, Cantos heroicos, e canções populares dos Slavos da Bohemia: O Soldado; Asbjörnsen, e Moe, Contos norueguezes, o que se intitula: O rico mercador. Com as Notas de Köhler, de Cosquin, Ive, Teza e Prato sobre este conto ficou esgotada a área das investigações, sendo possivel organisar o seu encadeamento genealogico, e por elle remontar ao seu sentido mythico.

A Edade media sympathisou com esta lenda da substituição das crianças por animaes, como se vê na Historia do Cavalleiro do Cysne, Storia della Regina Stella, no Dolopathos, no velho theatro francez, Du Roi Thierry, e nas tradições dos Lohengrin (Grimm, Veillés allemandes, t. II, p. 342 a 378.) Evidentemente, quando mais vasta é a universalidade de um conto, tão mais profunda é a sua origem tradicional e pela investigação das fórmas mais simples se chegará ao seu valor mythico.


41. As sonsas. — Ha uma versão da Beira-Baixa nos Contos populares portuguezes, n.º LXI, com o titulo As filhas dos dois validos, do grupo colligido por Consiglieri Pedroso. Traz os seguintes estribilhos:

— Ah estrangeirinha, estrangeirinha!
Que esta caixa era minha.
«Pois se a caixa era vossa
Pela virtude sereis rainha.


42. A mão do defunto. — É uma versão popular do Barba azul. Gubernatis, na Myth. zoologica, t. I, p. 182, resume o XIV conto esthoniano, de Fred. Kreuzenwald, pertencente a este mesmo cyclo. Na mesma obra, t. II, p. 36, traz outra versão italiana d'este conto com o titulo O rei dos assassinos, não colleccionada. Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, trad. de Brueyre, vem uma versão de Yorkshire, colligida por Gould nos Curious Myths, com uma nota interessante a pag. 407. Segundo Brueyre, a parte mythica do conto é a mão de gloria, que se liga ao mytho do fogo. No Folk-Lore andaluz, p. 308, ha uma versão do marido que mata as mulheres, até que a ultima vinga as irmãs. Este mesmo thema subsiste nos contos populares portuguezes no romance do Rico Franco. Na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 149, vem uma versão de Sevilha, intitulada Mariquilla la ministra, em que se confunde tambem o conto da Maria Sabida.


43. O rei de Napoles. — Nas Nuits facetiennes, de Straparola (ed. elz.), IX, fab. 1.ª, vem este conto com a mesma situação das joias e da donzella escondida pelo pae.


44. O matador de bichos. — É uma das lendas mais queridas da Edade media, do pae ou avô que conhece o filho ou neto abandonado, pela sua valentia extraordinaria. As Gestas desenvolveram este thema epico. Trogo Pompeu cita um fragmento de um poema dos Turdetanos, que é o conto do rei Abidis, neto do rei Gargoris, nascido de uma fragilidade de sua filha; tendo-o exposto a todos os perigos para que a criança morresse, sobrevive a tudo e é nomeado pelo avô successor do seu reino.


45. As nozes. — É o conto das Tres Cidras do Amor, modificado segundo os fructos predilectos de cada terra, cidras, laranjas ou nozes. Sobre os paradigmas d'este conto universal, vid. n.º 46. Don Agustin Duran, no Romancero genéral, t. I, p. 2, nota ao Romance n.º 4, resume este conto, tambem vulgar em Hespanha. Na versão italiana de Perugia, tem tambem o titulo Le tre noci fatate. (Ap. Prato, Quatro novelline, p . 28.)


46. As trez cidras do amor. — Apparece pela primeira vez citado na tradição portugueza, por Soropita, Prosas e Versos, p. 103. Este escriptor pertence ao fim do seculo XVI. Cita-se nas obras de Nicoláo Tolentino, p. 93. (Ed. J. Torres.) Publicamos uma versão popular nos Estudos da Edade Media em 1869, p. 65, quando iniciámos estas investigações. Ha outra versão nos Contos populares portuguezes, e nos Contos populares do Brazil, colligidos por Sylvio Romero, n.º XIV, vem com o titulo A moura torta, e variantes. Stanisláo Prato, no seu opusculo Quatro Novelline popolare livornesi, p. 11 e seguintes, traz bastantes versões italianas d'este conto: La bella dei sette Cedri, I tre cocomeri, Le tre melangele d'amore, Bianca como la neve e rossa como il sangue, Le tre noci fatate, Il giardino del orso, La dea Venere. Sobre esta novella apresenta em seguida um largo estudo comparativo (p. 46 a 91 in-4°) sobre as versões colligidas por Pittré, Basile, Imbriani, Berti, Comparetti, Corazzini, Gubernatis, Gradi, Gozzi, Laura Gonzenbach, Schneller, Lippi, Busk, Ive, Visentini, Deulin, Afanasieff, Makban, Buemosci, Schott, Grimm, Kennedy, Brueyre, Asbjornsen (Dasent), Köhler, Maspons y Labros, Schmidt, Eredelgi Stier, Hahn, Benfey, Stefanovic, Jawis Schiefner, Zingerle, Cavallius, etc. Todos estes nomes representam collecções de novellas populares italianas, gregas modernas, allemãs, hungaras, russas, inglezas, escocezas, hespanholas, suecas, aváricas, suissas, por onde se vê que este conto é verdadeiramente universal. Stanisláo Prato interpreta este conto como sendo o mytho do Hercules roubando os pômos de ouro do jardim das Hesperides. Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 81, tambem apresenta uma interpretação mythica.

Na collecção de Maive Stokes, Indian Fairy Tales, n.º XXI, The Bél-princess, ha uma versão oriental d'este conto. — Na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 109, vem uma versão, La Negra y la Tórtola, colligida no Chili, na povoação de Santa Joanna; traz os estribilhos:

— Hortelanito del rey,
Que hace elrey con su negra mora?
«A veces canta y a veces llora.
— Hui, hui, hui! triste de mi
Por el campo sola.


47. A bengala de dezenove quintaes. — Acha-se este conto na Foz do Douro, com o titulo O homem da espada de vinte quintaes (Contos populares portuguezes, n.º XXI.) Na Revista Occidental, vol. II, p. 329, vem uma outra redacção, de Ourilhe (Celorico de Basto) a que a narradora deu o titulo de O homem da bengala de cem quintaes, ou da bengala de ferro, não reunido na collecção citada, por não ter differenças essenciaes. Ha uma versão andaluza, colligida por Fernan Caballero, Contos populares, p. 51, ed. Leipzig.) Este conto acha-se colligido por Schiefner, nos seus Awarische Texte, n.º II. (Nas Mem. de l'Academie Imperiale des Sc. de Saint Petersburg, VII serie, t. XIX.) O Conto chama-se Orelhas de Urso e é de uma grande importancia para a determinação da origem de uma grande parte das novellas populares europêas, pelas relações entre os ávaros caucasicos com os ávaros mongolicos. A traducção d'este conto acha-se na Revista Occidental, vol. II, de p. 337 a 343. Ha versões d'este mesmo conto na Russia, como se vê pelas collecções de Erlenwein e de Afanasieff, traduzido para inglez no Russian Folk-Tales by Ralston, p. 73-80; e para francez com o titulo de O monstro Norka, por Brueyre. (Contes populaires de la Russie, p. 77.) Ha elementos episodios no Koschéi o immortal. (Ibidem, p. 105.) Nos Contos populares da Servia, de Vuk Stefanovic, vem este conto com uma fórma deturpada, e uma variante colligida pela Sociedade da joven Bosnia, ambos traduzidos para inglez pela dama Mijatovies (p. 32 e 36, e p. 123.) Na collecção de Hahn, Contos gregos e albanezes, n.º 70 do I vol., e p. 294, do vol. II. Na Italia, apparece nas collecções de Pittré, n.º 80 e 83 das Ott. Fiabe, e p. 208 do vol. II das Fiabe Novelle e Raconti popolari siciliani; e nos Contos sicilianos de Laura Gonzenbach, apparece sob os n.os 58, 59, 61, 63 e 64; nos Contos populares venezianos, de Wiedter e Wolf, n.º 4, e nas Novelline popolari ilaliane, de Domenico Comparetti, n.º 19. As notas de Reinhold Köhler alargam immensamente a área das comparações na tradição europêa; acham-se nas collecções Schiefner, de Gonzenbach, Wiedter, Hahn, Vuk Stefanovic e Bladé, d'onde se aproveitam todos os criticos com leves ampliações; pertencem a este cyclo novellesco, contos magyar, slavonico e polaco, das collecções de Gaal, Vogel e Woyciki; contos allemães das collecções de Grimm,[2], Wolf, Sommer, Colshorn, Curtze e Vernalecken; Mullenhoff, Birlinger, Haltrich; conto bohemio, na collecção de Waldau, lituanico na de Schleicher, tiroleza na de Zingerle e Schneller, dinamarqueza na de Grundtvig, e slava na de Schmaler, e em suisso, de Sutterrneister, finlandez em Bertram, e gaelico em Campbell. O estudo comparado d'este conto portuguez com os elementos tradicionaes europeus colligidos pelo erudito Köhler, acham-se na citada Revista Occidental, Lisboa, 1875, vol. II, p. 239 e 245.

Gubernatis, na sua Mythologia zoologica, t. I, p. 207, traz o resumo de um conto russo colligido por Erlenwein, e no tomo II, p. 197, traz o episodio da descida ao poço e da salvação das princezas filhas do rei de Portugal, colligido d a tradição oral da Toscana. Portugal, nos contos populares europeus, é o paiz das maravilhas, e as laranjas, como pômos dourados das Hesperides são chamadas Portogalotes; uma grande parte dos assumptos novellescos narram-se como tendo acontecido em Portugal. Por ultimo citaremos ainda uma versão catalan, colligida por Maspons y Labros, nos Rondellayres, com o titulo Jean de l'Ours, e a versão franceza colhida recentemente por Emmanuel Cosquin, nos Contes populaires lorrains, com o titulo La canne de cinq cents livres. É evidente a universaliade d'este conto, e com certeza desenvolveu-se pela obliteração do seu sentido mythico primitivo. Gubernatis determina essa interpretação pelo conto IV da collecção de Erlenwein, Narodnija Sharki sabrannija selskimi ueiteliami: «os tres irmãos apparecem sob nomes mythicos interessantes; uma mulher dá á luz tres filhos; um nasce-lhe á noite, e por essa razão lhe chamam Vecernik, ou da noite; o segundo, á meia-noite, e por isso o seu nome é Polunocnik; e o terceiro ao alvorocer, pelo que o chamam Svetazor, ou o ladino.» Segundo a universalidade da tradição este é o mais esperto, e gira com uma clava de ferro de doze puds, e vae com os irmãos libertar trez princezas encantadas, que são a princeza do castello de cobre (Aurora da Tarde), a princeza do castello de prata (a Lua argentea), e a princeza do castello de ouro (a Aurora da manhã) que casa com Svetazor (o Sol.)» Op. cit., p. 209.

Nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, ha uma variante, n.º XIX, intitulada Manoel da Bengala.


48. A torre de Babylonia. — Segundo uma nota de Consiglieri Pedroso, tambem tem o titulo da Torre da Somnolencia, o que nos explica o sentido do titulo com que o ouvimos em uma versão de Abrantes, A torre da madorna. Acha-se nos Contos populares portuguezes, n.º XIV; seguimos o texto de Leite de Vasconcellos, da Vanguarda, n.º 39. Ha uma outra versão nos Portugueze folktales, de Consiglieri Pedroso, n.º XI. Este mesmo conto é commum á tradição hespanhola com o titulo El Castillo de irás y no volverás, em Maspons y Labros, Rondellayres y quentos populares catalans, Serie I, n.º 5; acha-se tambem na collecção de Fernan Caballero, com o titulo Los cavalleros del pez. Nos Contes populaires lorrains, de Emm. Cosquin, as versões francezas tem os titulos Le fils du Pecheur e Les dons des trois animaux. Apparece uma versão italiana na Fiabe, Novelle e Raconti popolari siciliani, n.º 16, de G. Pittré. Apparece uma versão servia, intitulada Bash Chalek, na trad. ingleza de M.me Mijatovies Serbian-Folk-lore. Reinhold Köhler, nas suas notas aos Awarische Texte, de Schiefner, n.º IV, onde compara o conto dos Cunhados animaes.


49. Desanda cacheira. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XXIV, vem uma versão de Coimbra. Nos Estudos da Edade media, p. 70, publicámos pela primeira vez este conto com uma redacção artificial. Acha-se na tradição allemã: A meza, o burro e o bastão maravilhoso. (Contes choisis, de Grimm, trad. Baudry, p. 155.) Gubernatis traz uma variante italiana nas Novelline di Santo Stephano. (Rev. des deux mondes, pag. 145, Nov. de 1877.) No conto XI da collecção esthoniana, resumida por Gubernatis, a cacheira que desanda por si, é interpretada como a expressão mythica do raio. (Myth. zoologique, t. I, p. 174.) Sobre estes talismans da toalha que dá de comer, ha nos Contos dos pastores slavos, de Chodzko, O Anão e o tapete volante. Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, falla nos episodios fundamentaes d'este conto: A bolsa sempre cheia de dinheiro, é uma fórma do Asno mija-dinheiro, da Pata dos ovos de ouro, dos Cinco reis eternos do Judeu Errante. A toalha cheia de iguarias, é figurada na mythologia antiga pelo côrno de Amalthea, ou a Vacca da fertilidade dos Vedas, ou a taça de Graal da Tavola Redonda, ou o copo de Oberon no poema de Huon de Bordeaux. (p. 139.) A toalha do Põe-te meza, apparece nas collecções bretã, slava e noruegueza; em Luzel, no Corpo sem alma; em Chodzko, na Toalha que alimenta; em Asbjornsen, O homem que vae ao vento do norte, Mestre Tabaco, o Rei Valemond e o Urso branco. — Nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, acha-se com o titulo O priguiçoso. Este thema acha-se largamente desenvolvido pelo prof. Stanisláo Prato, no opusculo Una Novellina popolare monferrina, Como, 1882. Aproveitamos as suas indicações. Acha-se este thema no II conto kalmuco, da traducção de Bernhard Jülg; no conto indiano do Rei Patraka, no Kathasâritsâgara, de Somadeva Bhattra. Cita uma outra historia na collecção indiana do Bahar Danusch, e uma traducção do industanico de Garcin de Tassy. Nos Avadanas chinezes, traduzidos por Stanisláo Julien, t. II, p. 8, vem sob o titulo A disputa dos dois demonios. Ha uma variante arabe Aventuras de Mazen do Khorassan. Na collecção do Touti Nameh (vol. II, p. 28, da trad. allemã de Iken), ha outra variante; na collecção polaca de Glinski, traduzida por Chodzko, e por Prato, (op. cit., p . 21) e em outro conto (Glinski, t. III, p. 81) apparece a toalha magica. Nos contos XI e XXIII da collecção esthoniana figura a cacheira, ou o páo que bate por si mesmo. O thema do Asno faz-dinheiro acha-se nos Old Deccan Days, de Miss Frère, p. 166. O sentido mythico é evidente na toalha, que figura a nuvem, e na cacheira que é o raio. Vide Brueyre, p. 48, notas, p. 58, dos Contos da Gram Bretanha. Nas Fiabe, Novelle e Racconti popolari siciliani, n.º XXIX, vem este conto do qual Consiglieri Pedroso colligiu outra variante portugueza com o titulo A Velhinha e Sam Pedro.


50. Comida sem sal. — É uma fórma popular da lenda do Rei Lear. Nos Contos de Grimm (p. 209 da versão de Fr. Baudry) vem como episodio na Guarda-Patas. Nas Fiabe, Novelle e Raconti, de Pittré, n.º 10, vem este mesmo thema tradicional. No Pantcha Tantra (trad. Lancereau, p. 244) ha uma princeza casada com um principe serpente, a qual é expulsa de casa pelo pae. Adiante reproduziremos a fórma litteraria d'esta lenda como se lê no Nobiliario do Conde D. Pedro, do seculo XIV. Nos Contos populares do Brazil, n.º III, vem com o titulo de Rei Andrada. (Vide supra notas 19 e 20.) Ha uma versão portugueza, colligida por Pedroso, Pedro Cortiçôlo. Na collecção de Maive Stokes, Indian Fairy Tales, n.º XXIII, vem com o titulo The princesse who loved her fatter like salt.


51. As crianças abandonadas. — Ha outras versões de Guimarães e Villa Real (ap. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, p. 264 e 266); outra nos Contos populares portuguezes, e nos Portuguese Folk Tales, de Consiglieri Pedroso, traducção de Ralston, n.º XIV, apparecem duas versões com o titulo As duas crianças e a Feiticeira. Sobre este conto Ralston cita um paradigma norueguez Boots and the Troll. (Op. cit., p. VII.) As botas de sete leguas são interpretadas como uma fórma mythica do vento; acha-se nos Contos esthonianos de Frederico Kreuzenwald, n.º XI. (Ap. Gubernatis, Myth. zool., t. I, 174.) No XVI conto esthoniano tambem se marca o caminho deixando cahir cascas. (Ib., p. 178.)


52. O afilhado de Santo Antonio. — Ha versões de Guimarães e Cabeceiras de Basto, ap. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, p. 271 e 274.


53. A filha do Diabo. — Liga-se á lenda medieval do Roberto do Diabo, que anda na litteratura de cordel em Portugal. Vide o nosso estudo sobre Os Livros populares portuguezes. (Era Nova, n.º 1 e 2.)

54. As trez maçãsinhas de ouro.Gubernatis, (Myth. zoolog., t. II, p. 342) cita o conto n.º XXII do seu Novellino de Santo Stephano de Calcinaia, no qual: «dois irmãos mais velhos roubam uma penna de pavão ao seu irmão mais moço e o matam (isto é o pavão, da mesma fórma que n'um conto russo, a irmã mata o irmão mais moço o para lhe tirar as botinas vermelhas). No logar em que o irmão da penna de pavão é morto e enterrado, cresce uma arvore, de que se faz um cajado, depois um assobio, que, quando toca, conta o caso funebre da morte do irmãosinho morto por causa da pluma de pavão.»

Eis com o o illustre mythographo explica o conto: «Quando o céo luminoso ou quando o sol está occulto pelas nuvens, quando as pennas brilhantes são arrancadas, quando o pavão está enterrado, a arvore que está plantada sobre a sua sepultura (a nuvem) faz ouvir a sua voz na volta da primavera… a arvore torna-se uma cana, uma flauta magica, um kokila melodioso.»

Acha-se este conto na vasta collecção russa de Afanasieff, liv. V, n.º 17; e liv. VI, n.º 25. Alem da fórma italiana citada, Vittorio Imbriani colligiu uma outra sob o titulo de Passo griffo, nos seus Contos de Pomigliano. (Rev. des Deux Mondes, Nov. de 1877, p. 145.) Este mesmo conto foi colligido por Bladé, em gascon, com o titulo Lu Flauto, nos Contes et proverbes populaires rec. em Armagnac; já apparece n'este a laranja, ou o pômo de ouro. Por elle se vê quanto o conto portuguez já se acha deturpado.

Ha uma outra versão allemã, O osso que canta, citado por Bladé, na Hausmaerchen; X. Marmier, nos Chants populaires du Nord, p. 75, traz uma ballada parecida com este conto, na revelação do fratricidio por uma canção. Husson, na sua obra La Chaine traditionelle, interpreta o sentido mythico por esta forma : «como uma transformação de um antigo mytho relativo aos phenomenos da luz. Estes dois irmãos, correspondem aos Dioscuros e aos Açvins, isto é, aos Genios da luz no seu nascimento e occaso.» (p. 59.) Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 129, traz um conto hungaro, em que uma irmã mais nova é morta pelas duas mais velhas, e uma flauta é que revela o crime. Segundo a sua interpretação mythica as duas irmãs são as duas metades da noite. O poder da flauta apparece no conto da Çakuntala, no de Polydoro, e em um conto toscano; no Rig-Veda (X, 135) Yama toca uma flauta, á sombra da arvore que canta, com que acorda todos os antepassados mortos. (Gub., ib., t. I, p. 94).

A nossa versão foi colligida pelo sr. Leite de Vasconcellos, e publicada na Vanguarda, n.º 39, em 1881; ha outra versão nos Contos populares portuguezes, n.º XL. Vide Stanislao Prato, Quatro Novelline livornesi, p. 57, onde discute este thema nos mythos hellenicos, na Eneida e Divina Comedia.

Ha uma versão de Sevilha, intitulada La Flor de Lililá, publicada na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 196.


55. O Sargento que foi ao inferno. — Apparece este conto na versão allemã de Grimm, Os tres cabellos de ouro do Diabo. (Vid. Contes Choisis, trad. Baudry, p. 138.)


56. A princeza que adivinha. — É vulgar em Hespanha (Carmona e Arahal); acha-se com o titulo Las Trez Adivinanzas, em Demofilo, Colleccion de Enigmas, p. 310. Nos Contos populares portuguezes, n.º XXXVIII, intitula-se As trez lebres, e traz os seguintes estribilhos em verso:

Comi carne sem ser caçada;
Em palavras de Deus assada;
Bebi agua que não foi do céo cahida,
Nem tambem na terra nascida.


Quando n'este palacio entrei
Tres lebres encontrei;
Todas tres esfolei,
E as pelles d'ellas mostrarei.


No Folk Lore andaluz, p. 470, cita-se uma redacção castelhana. Nos Contes populaires lorrains, de Emm. Cosquin, acha-se esta mesma tradição com o titulo La princesse et les trois frères. Nos Contos populares do Brazil, n.º XXXV, ha uma variante com o titulo O matuto João. O sr. Leite de Vasconcellos (Rev. Scientifica, p. 210) cita uma versão do Porto, com o seguinte estribilho:


Sahi de casa
Com Pita e massa;
Massa matou Pita,
Pita matou sete;
De sete escolhi a melhor;
Atirei ao que vi,
Matei o que não vi;
Com palavras santas

Assei e comi.
Bebi agua,
Que não estava no céo nem na terra;
Se bom era o fructo
Melhor era a raiz;
Já vi um burro
Com sessenta burros em cima.


Em outra versão de Vizeu, cita tambem o estribilho:


Atirei ao que vi
Matei o que não vi.


Nas Novelle populari toscane, de G. Pittré (Archivio per lo studio delle tradizioni popolari, p. 64), no conto de Soldatino, vem o estribilho:

Tirai ai chi viddi,
Chiappai chi non viddi.
Mangiai carne creata, e non nata,
Cotta a il fumo di parole.
Striccia ammazzó Paola,
Il morvido consuma il sodo.
Enne e nè,
S’indovina cosa gli é.


57. A adivinha do rei. — O editor dos Awarische Texte, Schiefner, traz uma versão finnica d’este conto: «Um rei ordena ao filho de um aldeão de vir ter com elle á sua presença, nem de noute, nem de dia, nem pelo caminho, nem por atalho, nem a pé, nem a cavallo, nem vestido, nem nú, nem dentro, nem fóra. O intelligente moço, veste-se com uma pelle de cabra, faz-se levar á cidade, no crepusculo da manhã, deitado no fundo de um cofre, com um crivo n’um pé e uma escova no outro; depois parou no limiar da porta do rei, tendo uma perna fóra e outra dentro.» (Gubernatis, Mythologie zoologique, t. I, p. 154.) O illustre critico considera como pertencendo á classe dos enigmas astronomicos. Nos Contos de Grimm intitula-se A Bavara astuta; Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 169, not. 1, citando o enigma de Diarmaid, transcreve tambem uma pequena lenda irlandeza de Kennedy analoga á portugueza.


58. O boi cardil. — Este conto acha-se na tradição oral da Ilha da Madeira ainda em fórma poetica, com o titulo de Boi Bragado. (Romanceiro do Archipelago da Madeira, p. 273.) Nos Contos populares portuguezes n.º LVI, traz o nome de O Rabil, versão de Coimbra, com o estribilho poetico:

Senhor meu amo!
Pernas altas e cara gentil
Me fizeram matar o boi Rabil.

Esta facecia tem raizes tradicionaes muito profundas; Schmidt determina-lhe um paradigma nas Gesta Romanorum, cap. 111, no qual se vêem ainda os elementos mythicos de Io mudada em vacca, e Argus, o pastor, fazendo um discurso ao seu barrete espetado na aguilhada, da mesma fórma que Travaillin faz em um conto semilhante das Piaccecole Notte de Straparole, Noite III, Fabula V. (Les Facetieuses nuits, t. I, p. 223. Ed. Janet.) Na versão franceza das Gesta, Le Violier des Histoires romaines, cap. XCVIII, p. 265, não traz a seducção amorosa. N'esta edição indicam-se novas fontes; acha-se tambem nos Contos turcos, que Loiseleur des Longchamps juntou á sua edição das Mil e uma Noites, p. 315. Vide a Histoire du grand ecuyer Saddyk. Nos Quarenta Vizires, vem este conto com o titulo Scheikk Chehabeddin, d'onde passou para outras collecções europêas. O Dr. Schmidt, nas notas á sua versão de Straparola, cita este mesmo conto em allemão do seculo XVI, que se acha nos Volkssagen, d'Otmar (Nachtigall) Breme, 1800. O Abbade Blanchet, nos Contes et Apologues orientaux, tral-o tambem sob o titulo de Doyen de Badajoz. (Vide Loiseleur des Longchamps, Essai sur les Fables indiennes, p. 173.) No conto VIII dos Contos sicilianos de Laura Gonzenbach, é uma cabra que serve para pôr á prova a fidelidade do aldeão. (Vide Gubernatis, Myth. zoologique, t. I, p. 442, nota.) Nos Contos de Pomigliano, colligidos por Vittorio Imbriani, acha-se esta anedocta em que o heroe se chama José Verdade. (Rev. des Deux Mondes, Nov. 1877, p. 145.)


59. O camareiro do rei. — Este conto tem uma referencia historica, sendo os personagens Frederico II e Pedro de Vigues. Esta anedocta teve larga vulgarisação, porque acha-se não só nas Dames galantes de Brantome, como no Livro de Sendabar, no Mischlé sendabar, no Syntipas grego, e nos Sete Vizirs, com o titulo Rasto de Leão. Nas tradições populares italianas tambem está vigorosa, e acha-se nos Contos de Pomigliano de Vittorio Imbriani. Por esta versão, em que ha alguns estribilhos poeticos, se vê o sentido das referencias á vinha, da versão do Algarve. Tambem se repete na Sicilia e em Veneza. (Vid. Rev. des Deux Mondes, Nov. 1877, p. 144.) Eis a adivinha do conto italiano:

Diz o rei:

Una vigna no piantà.
Per travers é intrà
Chi la vigna ni ha goastà.
Han fait gran peccà
Di far ains che tant mal.

Diz a esposa:

Vigna sum, vigna sarai,
La mia vigna non fali mal.

Responde Pedro:

Se cossi è como è narrà
Plu amo la vigna che fis mai.

No conto veneziano vem as seguintes estrophes, que condizem com o dialogo rimado de Pedro de Vignes:

A esposa:

Vinha era, e vinha sou,
Fui amada, e já o não sou.
E não sei porque rasão
A vinha perdeu a estimação.

O camareiro:

Vinha eras, vinha serás,
Amada eras, e já o não serás.
Pela pata do leão
A vinha perdeu a estimacão.

O rei, comprehendendo e explicando tudo:

N'aquella vinha eu entrei
Em pampano algum toquei,
Pelo sceptro que tenho aqui
Nenhum fructo lá comi.


63. A mulher curiosa. — Acha-se nos Contos populares da Gram Bretanha, trad. de Brueyre, p. 273.


64. As favas. — O sentido phallico primitivo ligado á fava, apparece em todo o seu vigor aqui; o sentido funerario explica-se pela ameaça de morte que pesa sobre o rapaz que faltou ao respeito á rainha. (Vid. Gubernatis, Mythologie des Plantes, t. II, p. 132.) Nos costumes populares da Italia, a fava branca que apparece no bolo é a rainha e a fêmea.


65. A velha das gallinhas. — O thema d'este conto acha-se no Violier des Histoires romaines, cap. 56, p. 168. São trez gallos que revelam, segundo a interpretação da camareira, a infidelidade da senhora. Este conto acha-se, segundo Gustave Brunet, no Dialogus creaturarum moralisatus e por ventura generalisou-se na Europa a titulo de Exemplo de prégadores.


67 e 68. Março marçagão. — Publicado pela primeira vez pelo sr. Leite de Vasconcellos, na Vanguarda, n.º 75 e 76. O março é mythificado nos anexins populares portuguezes. Em uma versão que colligimos o estribilho era:

Eu sou o Março Marão,
Que curo meadas e esteiras não.


69. A alegria da viuva. — É uma fórma popular da antiga tradição da Matrona de Epheso, tão frequentemente citada nos escriptores classicos. Nas Horas de Recreyo, do padre João Baptista de Castro, vem uma redacção portugueza da Matrona de Epheso formada sobre elementos eruditos. Esta historia acha-se na collecção dos Sete sabios; Loiseleur des Longchamps, no Essai sur les Fables indiennes, p . 161, indica as fontes d'este conto mais conhecido pelo Satyricon de Petronio. Ha um estudo especial por M. Dacier, nas Mem. de l'Academie des Inscriptions, t. XLI; no Policraticus sive de Nugis Curialium, de João de Sarisberi, de 1183, vem esta lenda d'onde se vulgarisou na Edade media, e para a collecção das Cento Novelle antiche. As imitações litterarias são numerosissimas. No Novellino traz o n.º LIX.


70. A carpideira. — Pertence ao cyclo do conto antecedente, um dos mais abundantes do nosso Decameron popular.


71. Frei João Sem Cuidados. — Merece comparar-se a versão oral com a redacção litteraria de Gonçalo Fernandes Trancoso, do seculo XVI, em que figura um fidalgo Dom Simão. Ha uma fórma hespanhola tambem do seculo XVI, no Patrañuelo de Timoneda, n.º XV. (Coll. de Auctores españoles, de Ribadaneyra, p. 154.) A fórma mais antiga que conhecemos é a italiana de Franco Sacchetti, contemporaneo de Dante, nas Novellas, t. I, n.º IV. A primeira versão oral portugueza foi publicada no Almanach de Lembranças, para 1861, p. 323. (Vid. n.º 160.)


72. João Ratão (ou Grillo). — Publicado pela primeira vez na Era nova, p. 243. Em uma versão popular de Villa Real, o objecto da adivinha é um grillo, e por isso o adivinho acerta na resposta, dizendo:

Ai grillo, grillo,
Em que mão estás mettido.

No livrinho dos Contos nacionaes para crianças, p. 47, n.º XVII, vem uma outra redacção sob o titulo de O Doutor Grillo, formando um cyclo de aventuras. Diz Gubernatis: «Na Italia, quando se propõe um enigma para ser adivinhado, ajunta-se ordinariamente como conclusão as palavras — Indovinala, grillo! (adivinha grillo!) Esta expressão liga-se ao idiota fingido dos Contos populares, que acaba sempre por dar prova de tino. O sol envolvido na nuvem e na obscuridade da noite, é em geral o idiota mas o idiota que vê tudo, etc.» (Myth. zoolog., t. II, p. 50.)


75. Pedro de Malas Artes. — Na collecção dos Contos sicilianos de Pittré ha este mesmo thema. (Rev. des Deux Mondes, 1875 (Agosto, 15), p. 883. Consiglieri Pedroso encontrou-o com o titulo de Manel tolo, correspondente ao Giufa dos contos sicilianos (Fiabe, vol. III, p. 353 da collecção de Pittré), e ás Molbohistorie da Dinamarca. (Ap. Romania, t. IX, p. 138 a 140.) O Positivismo, t. II, p. 450. — Nos Relogios fallantes, D. Francisco Manuel de Mello, allude a esta tradição corrente em Portugal no seculo XVII: «que me puderam levantar estatuas como a Pedro de Malas Artes…» (Apologos Dialogaes, p. 23.) N'esta mesma obra vem o conto da mulher que nas dôres do parto mandou accender uma vela benta, tendo em seguida o cuidado de a mandar apagar para outra vez. (Ibid., p. 196.)

Crêmos que é a esta mesma tradição que se refere o typo de Pedro de Urde-Lamas, citado na Lozana andalusa, da litteratura hespanhola do seculo XVI. No Cancioneiro da Vaticana vem uma allusão a este typo: «Chegou Payo de maas Artes.» (Canç. 1132.)


76. D. Helena. — A peripecia d'este conto, o signal no peito da rainha, acha-se na Cymbelina de Shakespeare, em um conto de Boccacio, e no poema da Edade media Gerart de Nevers.

77. O guardador de porcos. — Apparece nos Contos populares da Russia, na Colleção de Afanasieff, liv. V, n.º 8. Além da traducção de alguns contos russos por G. Ralston, Gubernatis vulgarisou mais uns cem, para elemento dos estudos comparativos. Na tradição italiana do Piemonte tambem se repete esta facecia: «Um rapaz que guardava porcos, corta-lhes os rabos, lança-os n'um lameiro, e foge com elles. O patrão, vendo os rabos, cuida que os porcos se enterraram na lama. Pucha-os, mas só lhe vem na mão os rabos sem os corpos a que andavam pegados.» (Mythologie zoologique, t. I, p. 252.) O illustre critico liga este conto a outros elementos tradicionaes para a reconstrucção popular do mytho de Hercules e Caco.


78. Nascer para ser rico. — Nos Contos proveitosos, de Trancoso, Parte I, n.º XIII, O real bem ganhado versa sobre esta peripecia da pedra preciosa.


79. Dom Caio. — Este conto versa sobre o equivoco da phrase: Matar sete de um golpe. Tem analogias com o Alfaiatinho valoroso, dos Contos de Grimm. (Contes choisis, p. 253.) No Pantchatantra, a fabula do Oleiro e o Rei versa sobre este mesmo assumpto. (Trad. Lancereau, p. 289.) Na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 121, vem este conto com o titulo de Don Juan Bolondron Mata siete de um trompom, colligido no Chili, na povoação de Santa Juana.


80. Os dez anõesinhos da Tia Verde-Agua. — Nos Contos de Grimm Os anões magicos, dão realidade ao que na tradição portugueza apparece com sentido allegorico. (Contes choisis, p. 181.)


81. O compadre Diabo. — Sobre esta facecia, Gubernatis apresenta um conto russo em que o Diabo é representado pelo urso com um caracter demoniaco: «O aldeão logra duas vezes o seu companheiro urso; primeiro quando semeam juntamente nabos, e que o aldeão reserva para si o que cresce debaixo da terra, deixando ao urso o que sae e se levanta acima do chão; depois, quando elles semeam trigo, e que o urso, julgando-se agora mais esperto toma para si o que cresce debaixo da terra e cede ao aldeão o que se produz para fóra d'ella. O aldeão está a ponto de ser devorado pelo urso, quando a raposa o vem soccorrer.» (Myth. zoologique, t. II, p. 119.) D'este conto da collecção de Afanasieff, acha-se uma variante na Noruega, n.º 74, da collecção de Asbjörnsen, e na Allemanha, na collecção de Grimm, n.º 189. Em um conto caucasico, publicado no Magazin für die Litter. des Auslands, n.º 134, de 1834, figura o Diabo, que tambem é enganado. Sobre este conto Liebrecht escreveu um estudo comparativo na Academy, de 1873, n.º 74, resumido por Gubernatis, loc. cit. No Conde de Lucanor, de D. João Manuel, cap. 41: De lo que contescio al Bien y al Mal, vem este mesmo conto, em que tambem ha os nabos da partilha. (Ed. 1642, fl. 111.) Nos West Highlanders popular Tales, de Campbell, acha-se este conto em que figuram a raposa e o lobo, e a cultura é de aveia e depois de batatas. Ap. Contes populaires de la grande Bretagne, de Brueyre, p. 363, que traz mais estas fontes similares: Rabelais, Pentagruel, liv. IV, cap. 45 e 46. Lafontaine, conto de Le Diable et Papefiguiere. Na tradição oral franceza o conflicto dá-se entre S. Martinho e o Diabo. Nos Contes populaires agenais, de Bladé, figura sob o titulo de La Chèvre et le Loup. Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 31, cita este conto mostrando «como os mythos se deslocam e se multiplicam infinitamente, tendo muitas vezes o mesmo ponto de partida.»


82. Os corcundas. — Apparece tambem na tradição popular italiana, colligida pelo prof. Gubernatis, na Botanique zoologique, t. II, p. 249, extrahida do livro do medico Pedro Piperno, do sec. XVII, que se intitula De Nuce maga beneventana. A troca das corcundas é explicada por Gubernatis: «é evidentemente o jogo das sombras; a corcunda por detraz é a escuridão da noite, a corcunda por diante, é a sombra na alvorada.» Ha uma outra versão portugueza, de Coimbra, publicada na Revista de Ethnologia e Glottologia, p. 200. — A tradição tem certa universalidade. Vide tambem Brueyre, Contes de la Grande Bretagne, p. 206, tradição da Irlanda, e Emile Souvestre, Foyer Breton, Les Korils de Plauden, ou Presente dos Gnomos.

Nos Contes populaires lorrains, de Emm. Cosquin, vem com o titulo Les Fées et les deux bossous.


83. A mulher gulosa. — Esta facecia encontra-se nas tradições populares do Brazil. Sylvio Romero, colligiu-a em Pernambuco, e tral-a com o titulo A mulher dengosa, nos seus Contos populares do Brazil.


86. Dá-me o meu meio tostão. — Acha-se esta facecia nos Contos sicilianos, colligidos por G. Pittré, sob o nome de Giufa. (Rev. des Deux Mondes, de 1875, 15 de Agosto, p. 833.)


87. O soldado que foi para o céo. — Acha-se na tradição da Bretanha franceza, sob o titulo de Moustache. (Em. Souvestre, Les Derniers Bretons, t. I, p. 83.) Acha-se colligido na tradição popular italiana por G. Pittré; na fórma siciliana é um frade, o Grós-Jean analogo ao Bonhomme Misère, da França, ao Prete Ulivo, da Toscana, Accacini, de Palermo, e Gingannuin, do Castellermini. (Vid. Rev. des Deux Mondes, de 1875, 15 de Agosto, p. 843.) O soldado que recebe os trez dons, vem tambem nos contos de Grimm, o Judeu nas Silvas, trad. Baudry, p. 243.

92. A enfiada de petas. — Ha uma variante de Ourilhe, nos Contos populares portuguezes, n.º LVII.


94. Manoel Feijão. — É o celebre conto do Petit-Poucet, de Perrault; Emm. Cosquin colligiu-o da tradição oral outra vez nos seus Contes populaires lorrains; Maspons y Labros, tral-o nos seus Rondelaires, com o titulo En père Patufet. Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, trad. de Brueyre, vem na fórma de um poema Tom Thumb, e uma versão oral colligida por Campbell. Mr. Gaston Paris publicou uma outra versão popular no começo da sua monographia intitulada Petit Poucet, em que procura provar que este conto deriva do mytho da Grande Ursa. (O auctor brindou-nos com um exemplar d'este seu opusculo.) Hyacinthe Husson, na Chaine traditionelle, p. 28, discute o sentido mythico, e apresenta a indicação de uma versão russa (p. 34). Nos Contos de Grimm é o Tom Puce, trad. de Baudry, Contes Choisis, p. 145. Gubernatis, na Mythologia zoologica, t. II, p. 159 e 160, cita o conto piemontez de Piccolino, e o conto russo de Malcik-s palcik (dedo mendinho). Nos Contos populares portuguezes, n.º XXXIII, ha uma versão de Bragança intitulada O grão de milho. Ha outra versão italiana, de Pittré: Uma variante toscana della novella del Petit Poucet.


95. Cahiu-me na minha catulinha. — Acha-se tambem nos Contes populaires de la Grande Bretagne, de Brueyre, p. 377.


97. O cego e o moço. — Esta facecia popular acha-se com variantes na Hora de Recreyo, do Padre João Baptista de Castro, t. I, p. 123: O cego e o moço comendo uvas.


98. O cego e o mealheiro. — Apesar de ser uma simples facecia, tem raizes tradicionaes; acha-se no Alivio de Caminhantes, de Timoneda, n.º 49, p. 181, da ed. Ribadaneyra.


100. Os tres conselhos. — Além da versão oral, temos uma redacção litteraria nos Contos proveitosos de Trancoso, do seculo XVI. No Conde de Lucanor, cap. XLV, fl. 119, ha uma versão, indubitavelmente de origem arabe. No Violier des Histoires romaines (Gesta Romanorum), cap. 94, uma outra versão moralisada, com notas. No Patrañuelo, de Timoneda, n.º XVII, vem uma historia analoga. Vid. n.º 161.


104. A estatua que come. — Convém aproximar esta lenda do conto da Mirra, n.º 62, para se completarem os elementos da lenda de Dom João em Portugal. No n.º V do Positivismo, vol. IV, vem um estudo ácerca dos vestigios mythicos d'esta tradição.


105. As adivinhas em anexins. — Nos Adagios, do Padre Antonio Delicado, do seculo XVII, vem estes anexins a pag. 44, o que nos determina certa antiguidade da facecia. Ha uma variante nos Contos infantis.


106. A mulher teimosa. — Edelestand du Méril, na Histoire de la Fable esopique, (Ap. Poésies inedites du Moyen-Age, p. 154, not. 5) cita um manuscripto da Bibliotheca de Bruxellas, do seculo XV, no qual se acha esta mesma fabula com o titulo De homine et uxore litigiosa. Transcrevemos a peripecia final: «Illa, autem, quia jam linguam amiserat et loqui non potuit, signo quo valuit, pertinaciam ostendit, forcipi formam et officium digitis ostentans.»


107. O jogo do Pira. — Este conto acha-se no seculo XVI, em uma comedia do celebre Giordano Bruno, intitulada Candelajo; Barra, que é um freguez, para não pagar na taverna, propõe varios jogos, que são successivamente regeitados, e por fim propõe darem uma carreira, o que lhe serve de pretexto para se escapulir. No seculo XVIII este conto teve tambem uma nova fórma dramatica na comedia de cordel O gallego lorpa ou os Tolineiros. Vid. Historia do theatro portuguez, t. III.


108. O caso do tio Jorge. — Recebemos esta facecia colligida na Ilha de S. Miguel pelo nosso eminente zoologista Francisco de Arruda Furtado. Conheciamol-a em prosa. Existe um pequeno fabliau sobre esta aventura, na litteratura franceza da Edade media.


109. Os dois irmãos e a mulher morta. — Acha-se publicado no Elvense, n.os 202, 205 e 206, III anno, com uma redacção litteraria que prejudica o seu valor tradicional. Pertence ao cyclo do Frade morto, aqui substituido por uma cunhada, o que é uma circumstancia accidental. Ha cinco versões portuguezas do Frade morto; na tradição peninsular acha-se no Patrañuelo de Timoneda, n.º III; no Fabliau du Prêtre qu'on porte (Hist. litteraire de la France, t. XXIII, p. 141); na antiga tradição italiana: Cinquante Novelle de Masuccio, n.º 1; e modernamente acha-se colligido por Pittré, nos Fiabe e Racconti, n.º 165: Fra Ghinipera. Na collecção dos Contos russos, de Erlenwein, n.º 17, acha-se a tradição do frade morto. (Gubernatis, Myth. zoologique, t. II, p. 214.)


111. Para quem canta o cuco? — Acha-se esta facecia na collecção quinhentista de Timoneda, Sobremesa y Alivio de caminantes, conto 57. (Ed. Ribadaneyra, p. 181.)


112. Tudo andaremos. — É hoje uma locução portugueza, sendo o conto menos vulgar. Na collecção de Timoneda, Alivio de Caminantes, n.º 33, vem uma versão d'esta facecia. (Ed. Ribadaneyra, p. 179.)

113. A mulher que cegou o marido. — Apparece este conto no Pantchatantra, (Vid trad. franceza de Lancereau, p. 265) com o titulo O Brahmane e sua mulher.


114. O tolo e as moscas. — Pittré colligiu tambem esta facecia nos seus Contos sicilianos. (Vid. critica na Revue des Deux Mondes, 15 de Agosto de 1875, p. 857.)


115. Já que tanto teima. — No Conde de Lucanor, de D. João Manoel, n.º XXXIV, fl. 101, v., encontra-se como conto o que em Portugal se repete quasi que exclusivamente como locução.


116. Tic-taco. — Esta facecia insulana acha-se nas Notte piacevoli de Straparole (Facetieuses nuits, nuit II, fab. 5.) Um fabliau da Edade media desenvolveu este conto De la Dame qui attrapa un Prêtre. Vid. outros paradigmas na versão franceza de Straparole, p. XX.


117. As orelhas do Abbade. — Esta vulgarissima facecia já se encontra na Sobremesa y Alivio de Caminantes, conto 51, da edição Ribadaneyra, p. 181.

Acha-se no Fabliau des Perdrix (Recueil de Fabliaux, p. 159); no Passa tempo dè Curiosi, p. 22; nos Nouveaux Contes à rire, p. 266; nas Facetie, motti et burle, da Ch. Zabata, p. 36; e nos Contes du Sieur d'Ouville, t. II, p. 225.


118. Os duzentos carneiros. — É um conto typico; encontra-se no Castoiement d'un Père à son Fils; nas Cento Novelle antiche, n.º XXX; no Don Quijote e no Recueil de Fabliaux, p. 1, Paris, 1829. (Bibl. choisie.)


120. Lenda da Mãe de S. Pedro. — Acha-se em muitas terras de Portugal; Pittré encontrou-a na tradição italiana, mas em vez de ser a rama de cebola é uma folha de pereiro. A mãe de S. Pedro é uma locução proverbial em toda a Sicilia, Veneza, Toscana, Frioul, etc. (Vid. Revue des Deux Mondes, de 15 de Agosto de 1875, p. 843.)

Adiante, sob o n.º 215, reapparece o typo popular de S. Pedro em um genero de contos muito vulgares em Andalusia com o titulo de Susedios.


123. O lavrador e o Ermitão. — O sr. Leite de Vasconcellos traz na revista El Folk Lore andaluz, (ann. I, n.º 5, p. 176) uma variante d'esta lenda colhida nas Duas Egrejas, do concelho de Mirandella, servindo de paradigma a uma versão andaluza de Rodriguez Marin, publicada no Folk Lore andaluz, n.º 2, p. 31-33.


124. O thesouro enterrado. — Acha-se uma versão de Celorico de Basto publicada na Revista de Ethnologia e Glottologia, p. 170. O sr. Sylvio Romero, na sua collecção de Contos populares do Brazil, tral-o com o titulo O ouro dos Maribondos, tendo sido anteriormente publicado na Revista brazileira.


125. As vozes dos animaes. — Ha uma outra versão colligida pelo sr. Sequeira Ferraz; e uma versão franceza, intitulada: Les musiciens voyageurs (Vieux Contes, p. 17, Paris, 1830); tambem nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 306, trad. de Bruyere. Nos Contos dos irmãos Grimm, vem com o titulo Os musicos da cidade de Brême (Contes choisis, trad. Baudry, p. 313).


Pag. 224. Ditados novellescos. — Nas tradições populares são frequentes estes estribilhos iniciaes e finaes. Colhemos alguns da collecção de Leite de Vasconcellos, no Folk Lore andaluz, p. 214. Rodriguez Marin, nos Contos populares españoles, t. V, p. 46, traz as seguintes fórmulas iniciaes: Era vez y vez, Erase que se era, que nos parece analoga á fórma insulana: Era, não era, no tempo da éra. Marin cita um trecho de Quevedo (Musa VI, rom. 29):

Doncellas no sé que son,
Porque me contó una vieja,
Que ya son sólo en los cuentos
Fruta de Erase que se era.

E Cervantes tambem escreve: «Suelen los muchachos antes de comenzar un cuento ó consexa, decir:

Erase lo que era:
el mal que se vaia
y el bien que se venga;
el mal para los moros
y el bien para nos otros.

(Quijote, I, 20.)

Em Cuba repete-se um estribilho em fórma de conto, com que se arrelia ás crianças; tral-o Marin:

Este era um gallo pelado,
que tiene los pies de trapo
y la cabeza al revés;
Quieres que te lo cuente otra vez?

(El nino responde que — si.)

Yo no digo que digas si,
Si no que si quieres que te cuente
el cuento del Gallo-pelado.

(Cantos populares españoles, t. V, p. 16.)

A circumstancia de alçar o rabo e chupar o pez, acha-se em um estribilho da Extremadura hespanhola:

Era uma vez y vez
Una cabrita
Que tenia um chivito
Con los ojos de ver
Y el culito de lamer.
Quieres que te le conte otra vez?

(Folk Lore Betico Extremeño, p. 210.)

Costa Cascaes, no Panorama (t. XII, p. 115 e 118), traz intercaladas em uns versos seus, algumas fórmulas finaes. Vid. nota 118. No final de um conto de Huelva vem «unos zapatitos de manteca».


126. O rey Leir. — A tradição do rei Lear acha-se na Chronica bretã de Geoffroy de Montmouth, e no Roman de Brut, de Robert Wace. Gubernatis acha nas lendas indianas de Dirghatamas e Yayati, do Mahabaratha, «um primeiro esboço do rei Lear.» (Myth. zoolog., t. I, p. 93.) A lenda está hoje universalisada na tragedia de Shakespeare. Sob o n.º 50 vem uma versão oral.


127. A dama pé de cabra. — Na Chaine traditionelle, p. 156, Hyacinthe Husson traz uma tradição analoga das ilhas Celebes. O episodio da ida de Enheguez Guerra libertar o pae acha-se no Violier des Histoires romaines, cap. XIV, p. 37 (ed. Janet). O cavallo-fada acha-se nas Nuits facetieuses, de Straparola, III, fab. 2. Parece-nos que este mesmo fundo tradicional subsiste no romance popular da Infantina.


128. A morte sem merecimento. — Contaram-nos que este thema era objecto de um romance metrificado, que nunca encontramos na tradição popular. Sobre o mesmo assumpto existe uma tragedia de Lope de Vega.


129. A linhagem dos marinhos. — Pertence ao cyclo das lendas heraldicas; o typo da mulher muda ainda persiste nas tradições populares. Vide a Muda Mudella, n.º 18.


130. Exemplo do philosopho. — No Violier des Histoires romaines (Gesta Romanorum, cap. 137), tem o sentido allegorico. Vem como apologo na Historia de Barlaam e Josaphat, a qual tambem foi traduzida em portuguez no seculo XIV e se acha na Torre do Tombo. A extensão de este apologo na Edade media foi vastissima; Jubinal publicou uma redacção do seculo XIII no Nouveau Recueil de Fabliaux, t. II, p. 113; e em inglez ha uma redacção do seculo XII de Odo de Ceriton; acha-se na Legenda Aurea, de Voragine, e no Speculum Historiale, de Vicent de Beauvais, e na Vies des Péres. Mone, publicando um texto latino, «aproxima este apologo vindo da Asia com a tradição scandinava da arvore sagrada, o carvalho Yggdrasil, cuja cima toca no céo e cuja raiz é continuamente roida por Nidhogger, a serpente infernal.» (Violier, p. 389, nota.) Esta mesma tradição acha-se nos preliminares da traducção pehlvi de Calita et Dimna, do começo do seculo VI, nas traducções arabe, hebraica e grega, e no Directorium humanae vitae.


131. Exemplo dos tres amigos. — Acha-se no Conde de Lucanor, de D. João Manoel, cap. XXXVII, fl. 104, porém mais desenvolvido. Nas Gesta Romanorum (traducção franceza, Violier, p. 297) traz o titulo De la vraye probation d'amytié. Citam-se nas notas muitas fontes tradicionaes, entre outras o Dialogus creaturarum, cap. 56; a Disciplina clericalis, de Pedro Alfonso, cap. 2.º; e Summa Predicantium, de Bromyard, vb. Amicitia; ha uma traducção arabe de Cardone, Melanges de litterature orientale, t. I, p. 78; Apologos de Stainhoewel, fl. 88; Hans Sachs fez sobre este assumpto a comedia Der halb Freund; Granuci a novella L'Eremita; acha-se tambem na parabola dos trez amigos, da Historia de Barlaam e Josaphat.


132. Exemplo allegorico da redempção. — Parece-nos a fórma rudimentar d'onde se desenvolveu a novella de cavalleria celeste. É provavel que se encontre nas collecções medievaes.


133. A justiça de Trajano. — Esta lenda da Edade-Media, acha-se em João Diacono, em S. Thomaz, e Dante tratou-a no seu Purgatorio, canto x; apparece no De Mirabilibus urbis Romae, e foi metrificada no Dolopathos, canto quinto. (Vid. ed. Janet, p. 265.) Na collecção do Novellino, vem sob o n.º LXIX. A lenda continuou a ser conhecida em Portugal como thema de arte. Em uns panos de raz do palacio de D. João II estava pintada a lenda da justiça de Trajano, como o referem os chronistas. Tambem em uma festa palaciana, D. João II appareceu na sala «invencionado em Cavalleiro do Cirne.» Sobre esta outra lenda, conhecida em Portugal, póde vêr-se Jacob Grimm, nas Veillées allemandes, t. II, p. 342 a 370. (Ed. Paris, 1838) e a larga introducção de Reifenberg na Chronica rimada de Philippe de Mouskes.


134. A morte dos avarentos. — Nas facecias populares, o avarento apparece em uma grande variedade de episodios; é natural que os pregadores catholicos se apropriassem de um fundo tradicional conhecido. (Vid. n.º 99.)


135. As miserias da riqueza. — O thema do rei que anda de noite pela cidade, tem uma base popular. (Vid. n.º 38 e 39.)


136. O que Deus faz é por melhor. — Acha-se no Conde de Lucanor. Vid. o conto de Trancoso, sobre o mesmo thema, mas em diversa situação. (N.º 164.)


138. Os quatro ribaldos. — Este conto acha-se traduzido no Orto do Esposo, ms. da Bibliotheca de Alcobaça, do seculo XIV. A redacção mais antiga é a que vem no Pantchatantra, liv. III, n.º 4: O Brahmane e os Ladrões. (Trad. de Lancereau, p. 225, e nota resumida de Benfey, a p. 374.) Acha-se egualmente no Hitopadeça,[3] d'onde veiu para a collecção arabe do Calila e Dimna, que foi vulgar na peninsula hispanica. D'este conto diz Max Müller, que foi conhecido em Constantinopla por uma traducção grega pelo tempo das Cruzadas, sendo espalhada pela Europa pela obra latina intitulada Directorium humanæ vitæ. Quer pela corrente arabe quer pela latina entrou elle em Portugal, como se vê pelo caracter moral do exemplo com que é referido no livro ascetico supracitado. O conto acha-se levado na corrente da transmissão litteraria e reapparece na Filosofia Morale e nos Piacevoli Notte, de Straparola[4]; mas é certo que elle teve uma migração oral, porque na collecção dos contos norricos de Asbjörnsen e Moe, traduzidos para inglez por Dasent, (Popular tales from the Norse) figura com o titulo de Mestre ladrão.[5] Acha-se na collecção mais querida da Edade media as Gesta Romanorum (Violier des Histoires romaines, cap. 132); no Decameron, de Boccacio, jornada IX, novella 3.ª; nas Facecias de Pogio, nas Cento Novelle antike, nas Novelle, de Fortini, n.º 8, e nas Novellas de Compriano.


139. — A boa andança d'este mundo. — Foi este o primeiro conto que deparámos ao folhear o Orto do Esposo, antes de termos prompta para a imprensa a nossa collecção. Encontrámos uma versão oral com algumas modificações: «O amante para obter o sim da viuva, que exige que elle traga muito dinheiro, em vez de matar o mercador faz um pacto com o diabo, que lhe apparece no caminho sob esta fórma conduzindo muitas riquezas. O pacto consiste em que lhe ha-de dar a primeira pessoa que entrar em casa quando vierem do casamento. Assim se combinou. Ao sahirem da egreja já casados todos montaram a cavallo, e o noivo montou tambem um muito lindo que um criado lhe trouxe. O cavallo rompeu logo á desfilada adiante de todos, chegou a casa, entrou pela porta dentro, e n'isto ouviu-se uma voz, que disse: — Ah damnado, que te filei! A casa foi pelos ares com tudo que tinha dentro, e quando o acompanhamento do noivado chegou ao sitio só achou um lago, que ainda cheirava a enxofre.» Ha uma preciosa versão oral nos Contos populares portuguezes, n.º LXXIV.


140. Os dois caminhos. — O thema tradicional do caminho que vae dar ao céo e do que vae dar ao inferno conserva-se entre o povo. (Vid. n.º 55.)


141. A Papisa Joanna. — Acha-se uma referencia a esta lenda, no livro de Mariannus Scotus, Chron. ad annum 854, dizendo que «Leão IV teve por successor uma mulher chamada Joanna, que occupou a cadeira de Pedro durante dois annos, cinco mezes e quatro dias.» Em outro chronista do fim do seculo VIII, Sigberto (da collecção de Leibnitz), se lê: «Conta-se que este João fôra uma mulher, conhecida sómente por um dos seus familiares…» Nos Annaes de Othon, bispo de Fressingue, que chegam até 1146, diz-se que este papa João era uma mulher. O mesmo testemunho se acha nas chronicas de Gifrid Arthur, Godefroy de Viterbo (da collecção Freher), collocando a papisa Joanna entre Leão e Bento. No seculo XIII, Martim Polonus, dominicano e penitenciario dos papas João XXI e Nicolau III, diz na sua Chron. ad annum 854 (da collecção de Leibnitz): «que Joanna era filha de paes inglezes e nascida em Mayence, e que depois de ter sido papa dois annos, cinco mezes e quatro dias, morrera de parto, em uma procissão, e foi enterrada sem honra no mesmo logar em que expirára. Os soberanos pontifices nunca mais passaram por esta rua, e iam para a basilica de Latrão por outro caminho.» Um bispo da Galliza, Bernardo Guy, do seculo XIV, nas suas Flores temporum, tambem allude ao facto da papisa Joanna, seguindo-se a este outros, como João de Paris, Sifrid de Misnia, Sozomeno, Barlaam, monge da Calabria, e Amalarico d'Auger, na sua Nomenclatura chronologica dos Bispos de Roma. Petrarcha, na Vida dos Imperadores e dos Papas, e Boccacio, na obra De claris mulieribus, citam como facto historico a realidade da papisa Joanna, que mais tarde Allatio attribuiu impudentemente a fabricação dos protestantes. Basta-nos citar estas auctoridades para se conhecer por que via este facto penetrou no conhecimento dos theologos portuguezes do seculo XIV, e com que intuito o citou Frei Hermenegildo de Tancos no Orto do Esposo. Merece consultar-se a monographia de Emm. Rhoïdes, La Papesse Jeanne, p. 64 a 71.


142. O firmal de prata. — O thema da joia engulida por um peixe, persiste na tradição popular (vid. n.º 10); ou engulida por uma aguia (vid. n.º 21). Nas Cantigas de Santa Maria, de D. Alfonso el Sabio, sec. XI, n.° CCCLXIX, tambem se acha esta lenda.


144. O cavalleiro e o pacto com o diabo. — Esta tradição é ainda popular na Italia, e acha-se colligida na Sicilia por Pittré; a Edade media elaborou-a profundamente em cantos, contos e autos. Acha-se na narrativa do rei de Castella, Dom Sancho o Bravo, intercalada no El Libro de los Exemplos; e foi o assumpto de um drama do velho theatro francez Du chevallier qui donna sa femme au dyable. Du Puymaigre cita uma ballada allemã sobre este mesmo thema. (La Poesie populaire en Italie, p. 42.) Nas Cantigas de Santa Maria, por D. Alfonso el Sabio, n.º CCXVI, vem esta lenda curiosa.


145. O Diabo escudeiro. — Acha-se tambem nas Cantigas de Santa Maria, por D. Alfonso el Sabio, cap. VII, n.º LXVII.

149. Rosimunda. — Nas Lendas allemãs, de Jacob Grimm (Les Veillées allemandes, trad. de L'Heretier de l'Ain), t. II, p. 45, vem esta tradição colligida de Paulo Diacono, e de Gotfrid. Na poesia popular italiana ainda subsiste esta tradição germanica na fórma de romance, com o titulo a Dona Lombarda, segundo a interpretação de Nigra. Sabatini, fallando d'este canto, define a sua propagação na Italia do norte: «percorrendo dal norte al sud, la ritroviamo in Piemonte, nel Monferrato, nel Veneto e a Ferrara; nella Toscana poi più non vive ma v'é ancora chi ricorda averla udita. Si ritrova nelle Marche in Orvieto, a Viterbo, in Roma finalmente non s'ode cantar che da pochi, e cosi proseguendo non si rinviene più nelle terre meridionali e in Sicilia non se ne ha traccia veruna.» (Rivista di Letteratura popolare, p. 14.) A obliteração da lenda á medida que se avança para o sul indica a sua origem germanica, e portanto a fórma litteraria portugueza proveiu de uma fonte erudita.


150. A bilha de azeite. — Este conto é um dos mais persistentes na tradição universal. Max Müller tomou-o por thema comparativo para o seu estudo Sobre a migração das Fabulas, conferencia feita na Royal Institution, em 3 de Junho de 1870, começando pela fabula de Lafontaine La laitière et le pot au lait (Fab. X, do livro VII), e buscando-lhe os paradigmas no Pantchatantra, liv. V, fabula IX: O Brahmane e o pote de farinha. Aproveitando dos resultados criticos de Benfey, indicaremos a área de propagação d'esta fabula: Hitopadessa, liv. IV, p. 182; Kalila e Dimna, cap. X, p. 269; Anwâr-i Souhaili, cap. VI, p. 409; Contes et fables indiennes, cap. VI, t. III, p. 50; Del governo de' regni, exemplo V, fl. 50, v.; Directorium humanæ vitæ, cap. VII; Exemplario contra los engaños, cap. VII; Filosofie morali, trat. IV, fol. 83; Atter Esopus, de Baldo, XVI, ed. Du Méril: De viro et vase olei. Du Méril cita tambem o Dialogus creaturarum, a Sylva sermonum, e Rabelais, Gargantua , liv. I, cap. 33, como vehiculos d'esta fabula. Acha-se tambem no Eyar-i Danisch, nas Mil e uma noites, CLXXVI; no Conde de Lucanor, de D. João Manoel, n.º XXIX, fl. 97; nos Joci ac Sales, de Ottomarus Luscinus; nas Facecie, de Domenichi, liv. V; nos Contes et joyeux devis, n.º XII, de Bonaventure Des Periers; nos Sermones conviviales, de Gast; nos Apologi Phœdrii, de Regnerius, P. I, fab. XXV; no Democritus ridens, p. 150; nas Favole e Novelle, de Pignotti, fab. VIII; vid. Lancereau, Pantchatantra, nota a pag. 388. Gubernatis, na Mythologie zoologique, t. I, p. 136, cita uma versão do Tuti-Namé, II, 26, que interpreta no sentido mythico, em que o céo e a lua são representados como um pote ou taça. No XXI conto mongolico de Siddhi-Kür, ha uma variante d'este apologo (resumido por Gubernatis, op. cit., p. 146) em que o achado é uma pelle de carneiro, de que o pae de familia pretende fazer panno, e com elle comprar um burro, e com o burro irem pedir esmola com os filhos. Esta versão explica-nos a variante apresentada por Trancoso (vid. n.º 155), a qual encontrámos referida em uma locução popular do Porto, Minha mãe, calçotes! Sobre esta fabula vid. Loiseleur des Longchamps, Essai sur les Fables indiennes, p. 55. Ha uma redacção d'este conto sob o titulo A quarta de leite, na Hora de Recreyo, do Padre J. Baptista de Castro, p. 29.

O nome de Mofina Mendes, heroina do conto da Bilha de azeite, é de proveniencia popular; Jorge Ferreira de Vasconcellos, na Aulegraphia refere-se a esta tradição metrificada por Gil Vicente: «fermosura com vangloria dana mais do que aproveita, e as mais das vezes lhe corre per davante Mofina Mendes e a boa diligencia acaba o que merecimento não alcança.» (Fl. 52.) Na linguagem popular o nome de mofina emprega-se como sorte ou destino: a minha mofina. Jorge Ferreira allude a um outro conto popular, de um diabo cuja actividade era tal, que já não havia que lhe dar a fazer, a não ser uma corda de area: «Quer sempre ser a hydra e fazer cordas de areia.» (Eufrosina, p. 300.) Na tradição popular ainda se repete esta oração:

Se o diabo viesse
Para me attentar,
As areias do mar
Lhe mandaria contar.

Walter Scott traz uma lenda escoceza semelhante.


152. D'quellas sete ao dia. — Este conto apparece ainda na tradição popular do Minho; nos Contos populares portuguezes, n.º LIII, traz o titulo Os Simplorios.


154. O odio endurecido. — Este conto n.º IX da Parte I dos Contos proveitosos, de Trancoso, acha-se nas Fabulas de Aviano, n.º 42; no poema francez Les Enseignements Trebor; no fabliau Du Convoiteux et de l'Envieux, par Jean de Boves (Recueil de Fabliaux, p. 107, Bibl. choisie); na Élite des bons mots, t. II, p. 292; nos Detti et Fatti piacevoli del Guiardini, p. 99; nas Mém. de l'Academie des Inscriptions et Belles Lettres, t. XX; o Conde de Caylus publicou um extracto do fabliau do Convoiteux; Saraiva de Sousa e o Padre João Baptista de Castro deram-lhe nova redacção litteraria.


155. Minha mãe, calçotes. — Ainda ouvimos no Porto o anexim que serve de titulo a este conto. Quanto ao seu thema tradicional, vid. nota 151.


156. O real bem ganhado. — O thema tradicional da pedra preciosa conserva-se no povo. Vid. n.º 78.


157. O segredo revelado. — Acha-se este conto nas Cento Novelle antiche, n.º 100; nas Novelle, de Franco Sachetti,__PAGESEPARATOR__ n.º XVI; nas Gesta Romanorum, cap. 124 (Violier, cap. 148); nas Cent Nouvelles nouvelles, n.º LII; nas Nuits facetieuses, de Straparola, I, da 1.ª Noite (t. I, p. 15). Tambem se repete no Livre du Chevalier de la Tour, cap. 128. O episodio do falcão morto (um carneiro, para simular um homem) vem nas Horas de recreio, de Guichardin, p. 161; nas Novelle, de Granuci, n.º V; no fabliau do Prud'homme qui donna des instructions à son fils (Rec. de Fabliaux, p. 131), na collecção de Barbazan, e Ms. de Clayette. Vid. Melanges de litterature orientale, t . I, p. 78. Ha imitações d' este conto em Hans Sachs, em uma comedia; o Dr. Schmidt, na sua edição de Straparola determina bastantes paradigmas d'este conto, que ainda apparece nos Mille et un quart d'heure, de Gueullette. No Dolopathos, d'Hebers (ed. 1856, p. 225), acha-se esta narrativa; nos Haus-Mærchen, de Grimm, t. III, p. 176, ed. 1819, apontam-se outros paradigmas.


158. A prova das laranjas. — Ha uma situação analoga no Conde de Lucanor, n.º XIX; é um herdeiro do throno o escolhido.


159. Os dois irmãos. — Ha um largo estudo comparativo sobre este conto na Revista de Ethnologia e Glottologia, onde se compara a versão de Timoneda, no Patrañuelo, e as russas, thibetanas, indianas e allemãs, colligidas por Benfey, as de Sercambi e de Busoto, comparadas por Reinhold Köhler. Vide uma fórma popular alemtejana, n.º 109.


160. Dom Simão. — Vid. a versão popular com a nota respectiva ao n.º 71.


161. Os trez conselhos. — Conserva-se ainda no povo este thema tradicional, a que Trancoso deu fórma litteraria. Vide n.º 100 e nota correspondente. O thema da morte do mensageiro repete-se na tradição do Pagem da Rainha Santa Izabel. (Vid. nota 173.)


162. Quanto vale a boa sogra. — Nos romances metrificados, como de Dom Bozo e D. Pedro, a sogra é sempre crúa. A mulher que engana o marido mettendo-se com elle na cama é um thema popular de muitos contos; este, porém, já recebeu fórma litteraria na composição de Shakespeare, Tudo é bom quando acaba bem.


163. O que Deus faz é pelo melhor. — Acha-se no Conde de Lucanor, de D. João Manuel, n.º XVII (ed. 1642, fl. 81). Indubitavelmente esta redacção do seculo XIV tem uma fonte arabe. Sob o n.º 136 deixámos outra redacção portugueza do ms. do seculo XIV, Orto do Sposo.


164. A rainha virtuosa e as duas irmãs. — (Vid. a versão popular, n.º 39 e 40 e nota respectiva.)


165. Quem tudo quer, tudo perde. — Acha-se na collecção italiana Il Novellino, conto X; passou a adaptar-se aos Jesuitas, e attribue-se a differentes personagens historicos. A fórma italiana vem em Nanuci, Manual della Letteratura, t. II, p. 65.


166. O falso principe e o verdadeiro. — Sobre o thema tradicional de um principe que se dá a conhecer pela sua valentia, vide o n.º 44. Em um conto da Edade media, que vem no Novellino, e no Baculo Pastoral, o principe é ensinado por um mestre, que tem mais doze discipulos em quem bate quando o principe erra a lição.


167. Constancia de Griselia. — É notavel a relação que existe entre o texto de Trancoso e a redacção castelhana de Timoneda no seu Patrañuelo, n.º II (ed. Ribadaneyra, p. 131). Ou Timoneda traduziu a sua versão da portugueza de Trancoso, ou ambos os auctores se serviram de uma lição commum. Esta ultima supposição parece inferir-se do folheto italiano sem data La Novella di Gualtieri, anterior aos dois. O conto de Griselides acha-se no Decameron, de Boccacio, X jornada. Du Méril, investigando as fontes tradicionaes do Decameron, cita os livros em que se acha este conto: Philippo Foresti, De plurimis claris scelestisque Mulieribus, p. 145; Bouchet, Annales d'Aquitaine, liv. III, citam-na com realidade historica. A tradição recebeu a fórma poetica no Lais del Freisne, de Marie de France. (Oeuvres, t. I, p. 138.) Chaucer tratou este assumpto no The Clerkes Tale, e um anonymo no Gualterus and Grisalda; acha-se em uma ballada popular The Nut-Brown; representa-se nos theatros populares da Inglaterra; ha um mysterio francez de 1395, e Hans Sachs compoz uma comedia Die gedultig und gehorsam Marggräfin Griselda. (Vid. Du Méril, Histoire de la Poesie Scandinave, p. 359 e 360.) O conto de Griselida acha-se na tradição popular da Russia, na collecção de Afanasieff, liv. 5, n.º 29, do qual Gubern. dá um resumo.


169. O achado da bolsa. — Acha-se tambem no Patrañuelo, n.º VI, de Timoneda (Ed. Ribadaneyra); no fabliau Du Marchand qui perdit sa bourse (Recueil de Fabliaux, p. 101, da Bibliotheque choisie); nas Novellas de Geraldo Cynthio, X, e no Novellino italiano. O conto de Trancoso, n.º XV, anda como episodio no conto do Justo juizo largamente estudado por Benfey e Köhler, sobre as versões russas, thibetanas, indianas e allemães. Nos Contos nacionaes, n.º III, Porto, 1883, vem uma versão popular portugueza, que nos leva a crêr que Trancoso poucas vezes recorreu a fontes litterarias.


170. O capão tornado sapo. — Cita-se uma variante de Cesario, lib. 60, cap. 22, em que em vez de um sapo era uma serpente.

172. O thesouro escondido. — Compare-se com a tradição popular, conto n.º 88.


173. Erramos. (E Ramos?) — Encontrámol-o tambem na tradição insulana, e no Porto.


174. O pagem da Rainha. — Acha-se no Patrañuelo de Timoneda, n.º XVII. (Ed. Ribadaneyra, p. 158.) Loiseleur des Longchamps, no Essai sur les Fables indiennes, p. 134, not., cita um dos Contos dos Sete Vizires, e o fabliau D'un roi qui voulut faire brûler les fils de son sénéchal. (Legrand d'Aussy, Fab., t. v, p. 56.) Esta mesma tradição acha-se na redacção ingleza das Gesta Romanorum, cap. XCVIII; nas Cento Novelle antiche (Libro di Novelle, LXVIII); nas Novellas de Geraldo Cynthio, 2.ª cent., 8.ª dez., 6.ª novella; a lenda de Santa Isabel, em Portugal, no Baculo Pastoral, de Saraiva de Sousa, já se achava em verso por Affonso o Sabio, avô do rei D. Diniz, contada como um milagre da Virgem. A sua proveniencia oriental acha-se no Katha sarit sagara, collecção de Somadeva Bhatta, do seculo XII. (Trad. Brockaus, vol. II, p. 62.) Œsterley, na sua edição das Gesta Romanorum, cita na nota ao numero 283 os paradigmas d'esta lenda, tambem popular na Alsacia com o titulo de Fridolin, sobre que Schiller fez a Ballada Gang nach dem Eisenkammer. Vid. tambem o estudo d'Ancona, na Romania, t. III, p. 187. Repete-se ainda na tradição popular de Coimbra.


175. A ingratidão dos filhos. O caixão de pedras. — Acha-se nos fabliaux da Edade media: Le bourgeois d'Abbeville por Bernier (Recueil de Fabliaux, p. 166); o Conto do Sapo, no Doctrinal de Sapience, fl. 21, v. A herança de pedras acha-se no testamento de Fauchet, em que os logrados são os frades; ha outras versões nas Histoires plaisantes et ingenieuses, p. 146; e em Piron, Fils ingrats, comedia. Esta historia affecta outras fórmas, como é o episodio da intervenção do neto que se prepara para exercer a mesma crueldade com o pae. Nos Contos nacionaes para crianças, n.º 1, ha uma referencia a uma versão popular ainda corrente em Portugal. Nas Horas de Recreyo, do Padre João Baptista de Castro, (p. 81) vem este thema da Velha que dá o que tem á filha.


179. A venda das gallinhas. — Esta anedocta acha-se extremamente vulgarisada: nas Facetieuses journées, p. 107; nas Repues franches, de Villon; nas Facetie di Poncino, na Arcadia di Brenta, p. 152; nos Nouveaux Contes à rire, p. 262; nos Contes du sieur d'Ouville, t. II, p. 471; no Courrier facétieux, p. 355; na Histoire générale des Larrons, p. 20; na Bibliothèque de Cour, t. III, p. 23. As variantes dão-se entre o objecto da compra e a pessoa que paga. No Conto Des trois Aveugles vem esta peripecia como episodio. (Recueil de Fabliaux, p. 85.) Nas Novelle de Morlini, n.º XIII; nas Facetieuses Nuits, XIII, fab. II, e em Bebelius, liv. 11, conto 126, acha-se este mesmo conto do jesuita portuguez, e ainda conente nas facecias populares.


184. A matrona de Epheso. — Sobre esta tradição e sua fórma popular, vid. n.º 69 e nota correspondente.


189. — Uma grande parte d'estas lendas e patranhas foram colligidas pelo sr. Leite de Vasconcellos, achando-se dispersas nos seus estudos criticos sobre as tradições portuguezas.


191. A lenda das manchas da Lua. — Stanisláo Prato estudou largamente esta lenda no opusculo L'Uomo nella Luna, como complemento ao ensaio critico sobre Caino e le Spine secondo Dante e la tradizione popolare; n'ella cita versões de diversos paizes: Contes populaires de la Haute Bretagne, de Paul Sebilot, 2.ª serie, n.º 64; na Melusine, de Gaidoz e Rolland, p. 403-6, n.º 5; nos Norddeutsche Sagen, de Kuhn e Schwartz, n.º 55; nas Seize Superstitions populaires de la Gascogne, de Bladé, n.º 4, p. 10. Na tradição popular açoriana é um pescador que anda de noite ás lapas, que é arrebatado para a lua. A lenda deriva-se da crença gauleza e scythica da transmigração das almas para a lua. (Vid. Belloguet, Ethnogénie gauloise, t. III, p. 184.) A ideia de castigo affrontoso é uma reacção contra o antigo respeito da crença religiosa.


192. Outra. — Consiglieri Pedroso, nos seus Estudos sobre Tradições populares portuguezas, colligiu esta lenda como superstição sob o n.º 578: «O sol passou pela lua e atirou-lhe com uma mão cheia de terra; por isso ella ficou escura e com manchas.»


197 e 198. — Na Revista de Ethnologia e Glottologia, vem paradigmas hespanhoes, e é conhecida na França meridional, na Suissa, Inglaterra, Escossia, Italia e Sicilia; vid. p. 103 a 108. Saco Arce traz na sua Grammatica gallega este ditado:

Febreiriño corto
Cós teus dias vinteoito,
Si durarás mais quatro
Non paraba can nin gato.


208. — Na tradição popular hespanhola de Guadalcanal e Sevilha tambem se encontra esta lenda em que figura Sam Pedro, que mette o dinheiro em certo logar do Perro de las especias. (Ap. Rodriguez Marin, Cantos populares españoles, t. IV, p. 382.)


209. Lenda do sapo e da toupeira. — Vem como fórma de superstição nas Tradições populares portuguezas, de. Cons. Pedroso, n.º 577.

215. A obra de Sam Pedro. — Gubernatis, na Mythologia zoologica, t. I, p. 325, explica o sentido mythico das lendas da troca de cabeças.


216 a 227. — Na Italia e Hespanha são frequentes estas lendas, ultimo vestigio da elaboração dos Evangelhos populares a que a Egreja chama apocryphos. Pittré colligiu-as sob o titulo de Cyclo legendario evangelico. Na Andaluzia este genero de contos tem um nome popular; chama-se-lhes Susedios e Suseíos, considerando-os não como contos mas Succedidos (acontecidos). Rodriguez Marin colligiu Cinco contezuelos populares andaluzes, em que Sam Pedro é o heroe, uma especie de Sancho.


221. — Vem como superstição, sob o n.º 603, colligida por Consiglieri Pedroso.


225. — O mesmo sob n.º 605, ampliando a lenda com as seguintes: «Os pinhões tambem foram amaldiçoados por denunciarem a passagem da Senhora com barulho. Os fetos egualmente foram amaldiçoados pelo mesmo motivo; e esses então ficaram com as mãos na cabeça (as folhas voltadas para cima). Sob o n.º 614 traz a lenda da origem do Gato — nascido da baba do leão.


232. — Esta lenda repete-se na Galliza, substituindo á Virgem Sam Thiago, e localisa-se em outras lagoas, como a de Doniños e Riega; o historiador Morguia considera esta crença da submersão de Valverde como a tradição inconsciente e remota passagem das cidades lacustres para as aldeias territoriaes. A lenda da condemnação é commum a outras cidades de origem lacustre, como a Ars affundada no lago de Paradru. Diz o Dr. Anselmo de Andrade, de quem tomamos estes factos: «Na tradição portugueza encontra-se tambem mencionado este genero de peccado e de expiação. Uma cidade transmontana, que negou a hospitalidade a um santo, teria soffrido o castigo de ser sepultada nas aguas exactamente como as impias cidades hespanholas.» Sciencia pre-historica (As Habitações lacustres, p. 17, nota).


239. — Sobre a lenda do Tributo das Donzellas elaboraram-se muitas outras tradições de etymologia popular, taes como a de Peitobordelo, Figueiredo das Donas, etc.


240. — Viterbo extracta um codicilo de 1183 onde vem Benequerencia, como alatinisação do nome local, e que explica a lenda.


245. — Esta lenda tambem existe em Verona, contando-se a situação como passada entre Bartolomeo Scaligero e seu irmão, que se assassinaram em uma entrevista amorosa. (Philaréte Chasles, Etudes sur Shakespeare, p. 159.) Diz o Abbade Castro: «Muitas tradições vogam ácerca d'esta campa, que nós temos por falsas ou viciadas… referindo uns que é a sepultura dos dois irmãos, outros diversas lendas que mais se assemelham a contos de fadas ou de velhas com que embalam as crianças, do que realidades, que tenham por base algum solido fundamento.» (Panorama, t. I, da 2.ª serie, p. 359.)


246. A raposa e o lobo. — Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, trad. de Brueyre, p. 362 (vid. nota 1, p. 364 e 365). A fabula dos Highlanders versa sobre uma panella de manteiga; é popular na Noruega, como se vê pela collecção de Absjörnsen, A Raposa e o Urso.


248. A raposa e o gallo. — Nos Contos populares da Gram Bretanha, trad. de Brueyre, p. 369, vem tambem esta fabula. Acha-se em Lafontaine, Le Coq et le Renard.

fim das notas.

  1. Em uma versão ouvida em Airão (Minho) ha um episodio com esta cantiga:
    Quem leva, quem leva
    Meninos e flôres
    Para quem 'sta doente
    Por via de amores?
  2. Na traducção franceza de Fr. Baudry, vem Os seis companheiros (p. 172) e o Gigantinho (p. 274) com analogias.
  3. Trad. Lancereau, p. 192.
  4. Notte I, Fabula 3.ª: ha differença, porque o padre traz da feira um macho, que os ladrões teimam em chamar burro.
  5. Max Müller, Essais sur la Mythologie comparée, pag. 276 a 278.