Anexo:Imprimir/Flores do Mal

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Delfim Guimarães


 
Flores do Mal
 
Interpretação em verso de poesias
de Carlos Baudelaire.
 

2.ª EDIÇÃO

 

Com un preâmbulo de ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO
e um juizo critico de HEMETERIO ARANTES

 

1924
Livraria Editôra
GUIMARÃES & C.ª
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA

Imprensa Lucas & C.ª

 
Flores do Mal
 

Delfim Guimarães


 
Flores do Mal
 
Interpretação em verso de poesias
de Carlos Baudelaire.
 

2.ª EDIÇÃO

 

Com un preâmbulo de ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO
e um juizo critico de HEMETERIO ARANTES

 

1924
Livraria Editôra
GUIMARÃES & C.ª
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA


Preâmbulo


Faz agora precisamente 56 annos que elle morreu.

31 de Agosto de 1867, 31 de Agosto de 1923. Morreu sem agonia nem sofrimento, ás 11 horas da manhã. Ao cemiterio foi pouca gente, mas essa gente é já hoje um cortejo immortal. Nadar, Champfleury, Monselet, Manet, Verlaine, Calmann Lévy, Lemerre, Armand Sylvestre. Ou, como dizia o nosso D. Francisco Manoel: Em loja de ourives, até as varreduras são de vinte e quatro quilates. Trata-se de Charles Baudelaire, o immortal, perturbante e singular autor das Flores do Mal. Em França esse livro foi amado e odiado. Hoje não tem detractores. Detractores são os invejosos e todos os seus invejosos dormem já na podridão do nada. A sua raiva mesquinha o vento a dispersou.

Se quizermos evocar o poeta, procuremos Maxime Du Camp que o conheceu de perto. Vestia, diz-nos este, sem. pre irreprehensivelmente. A fazenda dos seus fatos era propositadamente grosseira e o seu paletot pardacento com grandes botões bronzeados, era largo como um sacco. Meias azues sobre sapatos de caça, muito brilhantes da graxa. Os movimentos lentos pretenciosos. A cabeça de um joven diabo que se tivesse feito eremita. Cabello cortado muito curto, barba completamente rapada, olhos pequenos e vivos, inquietos, mais ruivos do que castanhos, nariz sensual, engrossando na ponta, labios delgados sorrindo pouco, mento quadrado, as orelhas um pouco despegadas, tudo isto lhe dava uma phisionomia desagradavel á primeira vista, phisionomia a qual o encanto da sua palavra rebus. cada dava uma certa atracção. Era forte muscularmente, no emtanto havia nelle qualquer coisa de arruinado, de abulico, de surmené. Isto é o seu retrato phisico. A sua arte está nos seus livros. Que a busquem lá os gosadores de sensa. ções perversas, os collecionadores de enormidades, do mais além do senso vulgar.

A sua Musa adeja n’aquellas páginas como una ave satanica, enchendo de espanto a alma do transeunte leitor. A sua carcassa, essa, está em Paris no cemiterio Montparnasse Dorme sob uma larga pedra em que ele se vê esculpido em vulto, enfaixado como as múmias pharaónicas. Ao alto, debruçando-se, olhos vagos, no vago infinito, o genio do Mal perscruta. E sob este uma ave fantastica de largas azas abertas, domina o rosto glabro do poeta. Perto, crescem flores. Tudo o que resta são os seus livros, algumas duzias de ossos e o monumento funebre de Charmoy. Apenas.

Baudelaire foi toda a sua vida um mystificador? Talvez Não nasceu mystificador, os outros é que o fizeram. A sua pobre alma sensitiva vingava-se d’elles com ironias, com enormidades. Fazia a loucura de caso pensado para se dar ares de ser original, como outras creaturas que encobrem o medo sob a fanfarronada da força que não tem. O seu fato e a sua arte é tudo disfarce. São disfarces as suas ironias, são disfarces as suas visões tenebrosas, as suas imagens que roçam o desequilibrio. Disfarces talvez não. Eram a defesa da sua alma, a barreira do seu espírito, a muralha com que elle delimitava o mundo.

No fundo, Baudelaire era um pobre diabo, um grande pobre diabo. Honesto, amoroso e dedicado. Visto atravez da sua obra é apenas perverso, diabolico, mau, arrepiante. Todavia elle foi sempre gentleman, correcto nas suas contas, serviçal, polidissimo. Admirou, e só as almas nobres sabem admirar. Elle admirou Sainte Beuve, admirou Gauthier, foi amigo de Du Camp e de Poulet-Malassis.

Foi amante de muita mulher, mas uma houve que o prendeu vinte annos. Foi Jeanne Duval a que elle tantas vezes se refere no seu livro. Ella fartou-se de o atraiçoar. Elle sabia-o. Pois um dia teve uma paralysia e é elle, amante fiel, quem á sua custa a interna no Hospice Dubois. Á sua custa, á custa da sua misérrima bolsa que não tinha um sou. Quando ella se cura, elle vae viver com ella.

Como se vê, Baudelaire, era assim, por dentro. Por fóra era um ironista, um troçador mephistophelico e temido, um homem satanico, capaz de tudo. Pintava os cabelos de verde, e uma vez tendo encontrado, na rua, Theodoro de Banville, propoz-lhe a queima roupa tomarem um banho juntos. Banville, surpreso, para se não dar ares de admiração retorquiu-lhe que tinha essa mesma ideia e que estava mesmo para lh’a propôr. Como se fosse uma coisa natural! Subiram a um balneario e, de dentro da sua tina, Baudelaire disse a Banville: Que cara faria V. se eu agora lhe lesse uma tragedia em cinco actos?

Mas Baudelaire era assim: elle o das pequenissimas sensibilidades, para que o não conhecessem, para que não soubessem que elle era timido, amoroso, terno, amigo e sincero. São assim quasi todos os artistas. A alma que cada um tem não é aquella que aparenta ter. Pobres grandes homens!

Nascer salmão entre sardinhas deve ser triste. Um grande homem está por cima de nós. Os grandes homens estão no cume das montanhas, mas por isso mesmo só podem ter as aguias por companheiras. Quando cá de baixo a gente ergue os olhos pensa: deve ser feliz estar lá em cima. Tem-se gloria, a consideração. Quando a gente passa, as mulheres dizem-nos o nome e os homens zumbaiam a sua me. sura. Deve estar alli a amizade profunda, o amor acrisolado. Á medida que se sobe o caminho da gloria, a cohorte rareia. Homens e mulheres que partiram em esturdia vão ficando pelo caminho. Uns afundam-se na morte, outros. derreados, ficam á beira da estrada. Os invejosos devoram-se os impotentes denigrem os que já vão longe, la acima. E o pobre homem de genio sobe, sobe sempre. Um dia, já no pincaro, olha em roda e vê-se 86, desoladamente só. Ha lá em baixo, a cercal-o uma multidão, é certo. Mas, ai, delle! a multidão, é um mar e não será nesse oceano que elle se ha de dar á irrisão de procurar uma amizade ou um amor. Ninguem compreende a sua solidão. Ora! Deve ter tanta mulher I dizem as mulheres. E como todas assim pensam, nenhuma se lhe chega. Amigos não lhe faltam. E como todos o são, nenhum o é.

Baudelaire foi assim, pobre dandy tristonho que só deixou as imagens, o nome e titulos de livros. Pobre dandy tristonho, tu és de alguma maneira o teu albatroz, a grande ave marinha dos teus versos que, abatida sobre o convez do barco está exposta á mofa da matalotagem, dos teus versos, que esse illustre homem de letras que é Delfim Guimarães, tão bem soube trasladar ao fonema portuguez:

«Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo grotesco verme...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa aguia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavaes;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossaes!»

Emquanto os outros o tomavam como elle queria, sofria elle intima e cruciantemente.

A sua vida o que é senão um poema doloroso? Viajou para se isolar e não encontrou o isolamento. Traduziu Poë para se comprazer e não encontrou satisfação, tomou al. cool, opio, haschich e não encontrou a felicidade, escreveu versos maravilhosos de ineditismo, de sensação, e viu-se como era d’antes, aborrecido, tristonho, misanthropo. Não teve mesmo consolação no amor. Essa intangivel de quem elle diz:

«Quero-te como quero à abobada nocturna
O vaso de tristeza, ó grande taciturna.

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Mulher a quem estou ligado
Como uma grilheta á cadeia
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Como um beberrão ao vinho
Como o verme á podridão.»

é a Jeanne Duval de quem falámos. Quanto à sua arte que o diga o seu volume de cartas o que ella lhe deu. A sua correspondencia faz mal ler. É sempre sem fim a agonia da falta de recursos, a grilheta da vida e das suas contigen. cias materiaes. Como é honesto, tem a preocupação das dividas. Vae á Belgica e tem uma decepção. A sua vida complica-se. Joanna é um pesadelo, mas elle queria-lhe tanto que as suas contas começavam sempre: Joanna 300 francos, minha mãe 200, eu 300, total 800 francos por mez e os seus sonhos iniciavam-se: Riqueza de Joanna. Depois a má sorte encarniçava-se. Procura nos seus Paraisos artificiaes o alcool e as drogas embriagantes, a sensação nova a sensação profunda. Como com os remedios, nas sensa. ções é preciso aumentar a dose. Isto exhauria-o. Uma sensação alcançada era uma sensação vivida; a outra pois. E a outra, a outra, a outra ainda. Irritado, inquieto, fez-se mystico, de atheu que fora. Um dia, na egreja de Saint Loup de Namour, dá-lhe uma tontura e cahe. É o principio do fim. A inteligencia obumbra-se-lhe. Champfleury e os amigos arranjam-lhe no Ministerio quinhentos francos mensaes para se tratar. Está mezes doente, o leito fere. o. Um bello dia, ha 56 annos. — sem agonia nem sofrimento, a alma do poeta deixou o corpo, voou para os espaços infinitos onde moram as almas dos poetas.

Já leram as Flores do Mal? Pois vale a pena ler esse livro bizarro a que esta prosa desataviada serve de vesti. bulo.

Paris irá levar-lhe flores. Nós damos. The uma saudade piedosa. Que demonio, não será compensador, mas é bonito dar flores depois de morto aos que em vida só lhe conheceram espinhos! Baudelaire, mago e amado poeta, espirito perturbante e singular, só tu, alma avida de sensações, poderás dizer se a Morte é afinal a ultima ou se no além ellas se prolongam. Mas, ai de nós I a Morte é um paiz tão longiquo que sempre os encarregados de nos desvendarem a carta desse paiz não voltam mais...

Delfim Guimarães publica hoje a segunda edição dos versos do poeta. Traduzidos com carinhoso ardor, elles não são só a afirmação do muito que vale o seu trabalho, são tambem o ramo fresco de rosas que a alma das letras portuguezas depõe na campa do poeta, do poeta bizarro e singular que foi ephemero na vida, mas que é eterno, querido e immortal nas almas.

 

31-8-923.

Albino Forjaz de Sampaio.


Juizo crítico


O que mais me surprehende n’este livro – além do seu valor nimiamente litterario; a que, mais adeante, algumas palavras consagrarei — é a data do seu apparecimento.

Porque, para que, em 1909, uma interpretação em versos portuguezes das poesias das Flores do Mal?

Carlos Baudelaire não está de nós tão affastado que possamos collocar o seu nome n’uma anthologia que convenha memorar como lição ou modelo a seguir, nem tão proximo que os seus versos representem uma novidade para os gulosos das boas-lettras, alheios ao que se passa e á lingua que se fala da banda de la dos Pyrineos. Bem pelo contrário quanto a este ultimo ponto! Haja vista o espectaculo a que o paiz assistiu e Lisboa representou n’estes ultimos tempos. O poeta Jean Richepin falou a um auditorio numeroso e foi grandemente applaudido, em duas conferencias, por um publico a que, com justiça ou não, se conferem os titulos de elegante e intellectual, no preciso momento em que o deputado belga Léon Fournemont, no salão d’uma collectividade democratica, recebia não menos calo. rosas marcas de sympathia e comprehensão, que lhe offereciam uma legião de trabalhadores. a quem, ao que parece, não fizeram falta, na conjunctura, os mysterios grammaticaes em que os srs, Noel et Chapsal iniciavam a geração estudiosa de que fiz parte. Um jornal, contando-nos a interessante conferencia, diz-nos, com uma seriedade cheia 2e beatifico enthusiasmo descriptivo:

«Com a palavra quente e persuasiva do deputado belga, tão cheia de colorido e vivacidade que parecia traduzir-se no caminho dos labios do orador para os ouvidos attentos de milhares de pessoas, reinava na amplidão da sala uma rajada indomavel de civilisação que em todos os peitos produziu fremitos de admiração e sympathia. O gesto, a expressão do orador, a insinuante pronuncia das palavras desconhecidas para muitos dos assistentes suppriram, em muitos casos, esse desconhecimento do idioma francez, «explodindo da parte dos operarios as mais vibrantes e in tensas acclamações.»

Como vêem é extraordinário e pittoresco; mas é assim. Até parece que a noticia foi forjada por qualquer inimigo descaroavel do Livre Pensamento e artes correlativas, porque ella nos dá a chave do enygma de muita miseria que para ahi se estadeia á luz do sol, mascarada de civismo, arreiada com a clamyde inconsutil das aspirações populares. .. A ignorancia foi, em todos os tempos, muito atrevida, mas desde que tentam debellal-a por meio de «gestos e da insinuante pronuncia das palavras desconhecidas», ninguem sabe até onde ella poderá ir.

As «Flores do Mal» não fôram inicialmente escriptas para o grande publico; as interpretacões do sr. Delfim Guimarães menos o são, porque o mercado é incommensuravelmente menor e porque o numero d’aqueiles que, em Portugal, se occupam de assumptos artisticos é em extremo reduzido.

N’estas condições, a vinda á luz 9’um trabalho similhante obedece a um dilletantismo intellectual d’uma determinada extravagancia — ou, se quizerem, de accentuada extemporaneidade — em escriptor d’uma cultura e sobretudo d’uma pujança de concepção e faculdades de trabalho tão fortes e tão notaveis.

Delfim Guimarães é um homem novo e a sua obra é, já hoje, vasta; além d’isso, tem em preparação dois estudos de tomo; um sobre Diogo Bernardes, outro sobre Camões e vae publicar uma peça de costumes minhotos «Domingo de Pascoa». O mister de traductor ou de interprete, em volume completo, de poetas extrangeiros, entre nós, se não obedece á dura necessidade de produzir trabalho remunerado, representa uma diminuição da potencial creadora como se pode observar em Filinto Elysio e em Castilho, com o reverso glorioso de serem os mais nobres e esmerados cultores da lingua.

Não é esse o caso de Delfim Guimarães: nem diminuição da veia inspiradora, nem intuitos de purismo na linguagem, embora a sua ortographia nos apresente formas novas, d’um personalismo bastante insubmisso e que mais vem baralhar as confusas ideias que tenho ou, melhor, já não tenho sobre o modo de escrever... mas, sob este ponto de vista, relego-o, com delicias, ás justiças seculares dos meus bons amigos Dr. Candido de Figueiredo, Gonçalves Vianna, Dr. José Leite de Vasconcellos – tres juizes capazes de o fritarem, se, antes d’isso, a si proprios e mutuamente se não frigirem.

São, portanto uma eclosão de dilletante litterario a feitu. ra e apparecimento d’esta versão portugueza de muitos dos versos do poeta da Charogne — versos que tiveram um echo retumbante e exerceram uma influencia maxima na mocidade que os viu apparecer e ainda nas gerações que se lhes seguiram. Desde o estudo de Gauthier, que acompanha o volume das Fleurs du Mal até aos Ensaios de psychologia contemporanea de Bourget (actualisados pela edição definitiva de 1901), não esquecendo a critica de Edmond Scherer, muitos foram os homens de lettras que se occuparam d’essa inconfundivel individualidade tão original, tão complexa, tão variada, a um tempo tão extremamente delicada e tão cortejadora de todas as brutalidades, pagã e mystica que foi Carlos Baudelaire.

E é justamente porque se trata d’uma figura primacial, por certo, tão conhecida, e tambem por me parecer que conheço a indole litteraria e philosophica do seu traductor de hoje, que me surprehende o apparecimento d’este livro, n’uma interpretação portuguêsa, que, embora aureolada pelos fulgores d’um genio, teve a sua actualidade malsaine, deleteria e que, como todas as actualidades, passou...

Todos aquelles que, acaso, passem a vista por estas linhas se estarão agora lembrando d’aquelle extraordinario e fulgurante primeiro capitulo de A Correspondencia de Fradique Mendes e das palavras que incidentalmente Eça dedica ás Flores do Mal.

Ah! como é profundamente exacto, porque eu o senti, porque o sentiram todos os da minha geração de ha quasi 30 annos, que o que os jovens de 1867 procuravam em Baudelaire era a emoção e, como em 1867, em 1882, ao clamarmos tremulos e pallidos de paixão as estrophes da Charogne, «certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez». Este «não valia, percebemol-o mais tarde, passados os enthusiasmos que uma tão capitosa novidade artistica não podia deixar de levantar mais em cerebros do que em corações de 18 annos.

Então, essa, já agora, lendaria figura que vestia uma especie de blusa ou dolman, fechada por um collar molle, essa mascara inolvidavel de cenobita escanhoado, de fronte amplissima, com a sua historia d’impeccavel asseio, surgia-nos com oum semi-deus nimbado de gloria, senhor d’um poderio immarcessivel.

Só mais tarde percebemos que a sua obra era uma expressão de decadencia d’um pessimismo, d’um nihilismo, que se distinguia do dos seus predecessores, pela evidente differença de rhetorica e de processo. Era, n’uma palavra, e a um tempo, o esplendido e doloroso producto d’uma alma superior, onde coexistiam a mais aguda e apurada lucidez espiritual e a peior das desordens sensuaes ou sentimentaes.

Seria d’uma relativa facilidade folhear ao acaso as Fleurs du Mal para provar a verdade d’este dito, mas visto que a Charogne é, por assim dizer, a fortaleza em que se entricheiram todos aquelles que, em Portugal, se propõem dar ao manifesto erudição baudelereana, da mesma forma que em França os grandes espiritos quando pretendem alardear conhecimentos da lusa historia, lançam logo mão dos nos808 Gama, Albuquerque e Camoens (e d’aqui é raro passar...) visto que a Charognet é de todos conhecida, lembremos a ultima quadra:

Alors, oh ma beauté, dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j’ai gardé la forme et l’essence divine
Des mes amours décomposés.

Agora, vejamos a interpretação de Delfim Guimarães:

Então, ó meu amor, dize á larva brutal
Que te beijar o rosto
Que eu guardei o contorno e a essencia divinal
Do teu corpo gentil antes de decomposto!

Vê-se que os tres primeiros versos não só foram inter pretados, mas traduzidos á lettra; o que, fique dito d’uma vez, succede em quasi todas as peças, com uma probidade, um conhecimento das duas linguas e uma tão nitida com. prehensão do poema original, que não encontro palavras bastante elogiosas — estando a adjectivação tão apelintrada á força de uso para celebrar-lhe o verdadeiro mere. cimento.

O ultimo verso, porém, não só não está traduzido, como não foi interpretado e, bem pelo contrario, encerra uma feliz modificação ao original. Ao sr. Delfim Guimarães repugnou, por decerto, a extravagancia da cessencia divina dos amores decompostos, esquecido momentaneamente, sem duvida, de que a phosphorescence de la pourriture attrahia Baudelaire, segundo a sua propria confissão, como um magnetismo invencivel.

Se o escopo de Delfim Guimarães ao publicar este livro foi o de nos mostrar a ductilidade das suas aptidões litterarias, conseguiu o exhuberantemente; penso, porém, que a maioria dos seus amigos e a quasi totalidade dos nossos homens de lettras hảo de lamentar que o tempo e a intelligencia despendidos o não fossem em obra sua original, ou, pelo menos, em obra que, ao contrario d’esta, nos não conduza ao anniquilamento moral, ao horror do Ser, ao gosto, ao appetite desenfreado do Nada.

No momento actual que a sociedade portugueza atravessa, um livro similhante atirado ao seio d’uma geração tão propicia a sugar-lhe o subtil veneno na estonteante dança das imagens metalicas e dos aromas embriagadores, na negação de toda a disciplina moral, na elegancia convencional dos conceitos que se synthetisam no conceito lapidar do taedium vitae, sob a forma moderna e bocejante do spleen, um livro d’estes seria um jacto de petroleo atirado para um incendio.

Do que nós, pelo contrario, precisamos é de obras sās, que encerrem ideias altas e d’ellas não sejam a negação propositada e sábia. Nós todos bem sabemos que a litteratura retrata, digamos, instinctivamente, uma epocha; as Flores do Mal e toda a obra litteraria franceza que se lhe tem seguido, salvo honrosas excepções, veem impregnadas d’aquella decadencia que vincou o 2.º imperio e em que se julgou substituir, pelo exhibicionismo da forma, a essencia, a doutrina, a inspiração.

É por isso que Victor Hugo permanece immortal!

O livro que acabo de lêr, com aquelle interesse que fa. cilmente concedemos a tudo quanto nos recorda os 18 annos, como obra benedictina de arranjos morphologicos, é perfeito. Delfim Guimarães conseguiu trasladar para ver. naculo as estrophes mais apreciadas d’esse supremo artista da forma e da extravagancia sensorial e sentimental que foi Carlos Baudelaire. Causa.nos, porém, uma funda tristeza o seu apparecimento, pois revela um estado d’alma reflexo e consocio de eguaes estados em quasi toda a intellectualidade portugueza, porque é preciso não esquecer aquellas palavras de Taine: A litteratura é uma psychologia viva.

 

24-jan.ro-910.

Hemeterio Arantes.


Prefácio
DAS
«Flores do Mal»


Como a lepra voraz no corpo d’um mendigo,
(Que se julga feliz de a agasalhar, talvez!)
A toleima, o pecado, o vício, a mesquinhez,
Habitam dentro em nós, como em fagueiro abrigo.

Conhecemos o erro, e não nos corrigimos;
Fazemo-nos pagar bem caro as contrições,
E, julgando remir com pranto as más acções,
Pela estrada do mal, ovantes, prosseguimos.

Embala Satanaz a nossa mente ardida,
Fazendo-nos sonhar com tal suavidade
Que a energia vivaz da nossa mocidade
Em breve se quebranta, a lama reduzida...

O Diabo faz de nós uns títeres de feira!
Chegamos a gostar de cousas repelentes,
E assim vamos descendo, a rir, inconscientes,
A caminho do Inferno, a lôbrega ladeira.

Entregues ao prazer, numa sede constante,
Expremémo-lo bem, como a um limão fanado,
Qual velho D. João beijando, esfomeado,
Os mamilos senis de sórdida bacante.

Num denso formigar, num turbilhão d’helmintos,
Sentimos na cabeça uma turba infernal
Um pestilento ar, deletério e mortal,
Faz uivar, faz gemer nossos pulmões famintos.

Se o veneno, o incêndio, a punhalada fria
E o estupro bestial inda não teem memória
No registo vulgar da nossa vida inglória,
É porque em nosso peito ha muita covardia.

Entre os lobos-cervaes, os tigres e panteras,
Macacos, escorpiões, abutres e condores,
Monstros negros e vis, rasteiros, rugidores,
Que vivem dentro em nós, como em jaula de feras,

Um outro monstro ha, mais torpe, mais imundo!
Que não se ouve rugir, nem uiva, nem rumina,
Mas folgára em fazer da terra uma ruína,
E engulir num bocejo a carcassa do mundo;

É o Tédio! — O seu olhar, falho de comoção,
Tem por visões gentis scenas de sangue e horror...
Tu conheces por certo esse monstro, leitor,
— Hipócrita leitor, — meu egual, — meu irmão!


I

Bençam


Quando, por uma lei da vontade suprema,
O Poeta vem á luz d’este mundo insofrido,
A desolada mãe, n’uma crise blasfema,
Pragueja contra Deus, que a escuta comovido:

«— Antes eu procreasse uma serpe infernal
«Do que ter dado vida a um disforme aleijão!
«Maldita seja a noite em que o prazer carnal
«Fecundou no meu ventre a minha expiação!

«Já que fui a mulher destinada, Senhor,
«A tornar infeliz quem a si me ligou,
«E não posso atirar ao fogo vingador
«O fatal embrião que meu sangue gerou,

«Vou fazer recair o meu odio implacavel
«No monstro que nasceu das tuas maldições,
«E saberei torcer o arbusto miseravel
«De modo que não vingue um só dos seus botões!»

E sobre Deus cuspindo a sua mágoa ingente
Ignorando a razão dos desígnios do Eterno,
A tresloucada mãe condéna, inconsciente,
A sua pobre alma ás fogueiras do Inferno.

Bafeja a luz do sol o fruto malfadado,
Vela pelo inocente um anjo peregrino;
A ágoa que ele bebe é um néctar perfumado,
O pão é um manjar saboroso, divino.

Com as nuvens a rir, brincando com a aragem,
A cantar, vae pisando o aspérrimo caminho;
Seu anjo protector segue-o n’essa romagem,
E chóra ao vê-lo assim: feliz qual passarinho.

Aqueles a quem ama, olham-no, receosos,
Ou então, conhecendo a sua mansidão,
Com um prazer feroz, com dentes venenosos,
Procuram no morder, ferir-lhe o coração!

Ao vinho como ao pão, que lhe fazem servir,
Conseguem misturar escarros, cinza, pó;
Objecto em que ele toque, é mandado partir;
Fingindo distracção, pisam-lhe os pés sem d6!

Sua própria mulher grita pela cidade:
«— Já que ele me apregoa a bela entre as mais belas,
«Vou fazer o papel das deusas de outra edade,
«E meu corpo vestir com os adornos d’élas.

«Com perfumes de mirra e incenso, hel-de, enlevada
«No ambarino licor de vinhos peregrinos,
«Erguer-me um pedestal, fazer-me venerada,
Usurpando o lugar dos sacrários divinos.

«E, quando me cansar d’essas farças impías,
«Pousarei no seu peito a minha esbelta mão,
«E meus dedos de aneis, como garras de harpias.
«Hão-de rasgar-lhe a carne até ao coração.

«Como a avezinha imbel’, que treme e chora inquieta
«Assim lhe hei de arrancar o coração surpreso,
«Que servirá de pasto á fera predilecta,
«A quem o lançarei, com todo o meu despreso!»

A demandar o Ceu, o trono resplendente,
Ergue o Poeta p’ra Deus as pálpebras doridas,
E o dúlcido clarão da sua alma de crente
Não lhe deixa avistar os povos homicidas...

«Bemdito sejaes vós, Senhor, que o sofrimento
«Concedeis como alívio á nossa perdição,
«Essencia divinal, suavissimo fermento,
«Que depura e conforta o nosso coração!

«Eu sei que não deixaes, Senhor, de reservar-me
«Um lugar junto a Vós nas santas Legiões,
«E para a grande festa haveis de convidar-me
«Dos Tronos, da Virtude e das Dominações.

«Eu sei que o sofrimento é a nobreza suprema,
«Unica distinção que tem hoje valor,
«E sei que, a merecer um místico diadema,
«Só o Universo e o Tempo é que m’o hão de impor.

«Embora disponhaes de imensa pedraria,
«Das estrelas do céu, das pérolas do mar.
«Vossa engenhosa mão, Senhor, não poderia
«A c’rôa construir que intento conquistar!

«O diadema que alvejo é puro e refulgente,
«Todo feito da luz dos tempos que lá vão,
«D’essa pristina luz perante a qual a gente
«Vê que os olhos mortaes vivem na escuridão!»


II

O Albatroz


Ás vezes, no alto mar, distrae-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas táboas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caidas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavaes;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossaes!


III

Elevação


Por cima dos paúes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das núvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para alem do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador que na ágoa sente goso,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Através das regiões da etérea imensidade.

Eleva o vôo teu longe das montureiras,
Vae-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho val de mágoas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, n’uma ascensão ideal,
Atingir as mansões ridentes, luminosas!

De quem, pela manhan, andorinha veloz,
Aos domínios do ceu o pensamento erguer,
— Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A lingoágem da flor e das cousas sem voz!


IV

Correspondências


A Natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língoa misteriosa;
Um bosque simbolista onde a arvore frondosa
Vê passar os mortaes, e segue os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe vão perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tam vasta como a noite e como a claridade,
Sons, perfumes e côr logram corresponder-se.

Ha perfumes subtis de carnes virginaes,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
— E outros, de corrução, ricos e triunfaes,

Como o ámbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideaes,
Com a larga expansão das notas d’um clarim.


V

Passado e Presente


Eu gosto de evocar as épocas distantes
Em que Febo doirava os ídolos gigantes.
O homem e a mulher, cheios de mocidade,
Gosavam sem embuste e sem ansiedade,
E, exercendo o vigor dos seus músculos de aço,
Protegia-os o Céu do tédio e do cansaço.
Cibela, que era então fértil e generosa,
Mostrava os filhos seus, contente e orgulhosa;
E o leite grosso e bom do seu colo trigueiro
Amamentou, feliz, o universo inteiro.

O homem, belo e forte, era o modelo vivo
Do rei da creação, generoso e altivo;
Frutos esculturaes, sem mancha, a apetecer
A carne rija e san beijar-lhes... e morder!



O Poeta, se hoje em dia intenta recordar
As grandezas de então, quando vê perpassar
A nudez da mulher e a miséria do homem,
Sente que o frio e a dôr a alma lhe consomem
Ante o quadro brutal que lhe magôa a vista.
Que monstros, que aleijões! Que trágica revista!
Que pobres troncos nus! Que fórmas, que feitios!
Tristes corpos sem côr, magros, gordos, esguios,
Que o deus utilitário, implacável e nobre,
A nascença, envolveu em coeiros de cobre l...
E vós outras, mulher’s, da palidez dos círios,
Corróe a podridão vossos corpos de lírios;
Sofreis a expiaçãc dos vícios maternaes,
E aos filhos transmitis as pústulas que herdaes!



É certo que mostrar podemos ao Passado
As creações gentis que temos inventado:
Cancros no coração, dôr d’alma, languidez,
E outras belezas mais deste mesmo jaez!...

Mas estas produções de líricos dementes
Não podem impedir que os povos decadentes
Prestem á mocidade a homenagem devida,
— Á mocidade san, robusta, comedida,
A fronte dominal, o olhar iluminado,
E derramando a flux, sobre este descampado,
Como o azul dos céus, como as aves e a flor,
Suas canções viris, seu perfume e calor!


VI

Os Faroes


Rubens, — rio letal, parque da indolência,
Orvalhado jardim que não convida a amar,
Mas onde a vida aflue e reflue, com veemência,
Como o éter no céu, como as ondas no mar;

Leonardo de Vinci, —— um espelho profundo
Cujo torvo cristal reproduz, fascinantes,
Angélicas visões, sorridentes, e ao fundo
Neves e pinheiraes de países distantes;

Rembrandt, — triste hospital, trágica enfermaria
Onde os uivos da dôr vibram constantemente;
A luz d’um sol mortiço apenas o alumia,
E como adorno tem um Cristo unicamente;

Miguel Anjo, — lugar indefinido onde
Hércules e Jesus se encontram irmanados,
Fantasmas colossaes que, quando a luz se esconde,
Surgem dos mausoleus, como ressuscitados;

Ânsias de lutador; faunal, lascivo sonho;
Belezas, seduções da boémia miseravel,
Puget, – imperador dos forçados, bisonho,
Ó grande coração, orgulhoso indomavel;

Watteau, — um carnaval onde peitos ilustres,
Mariposas ideaes, rebrilhantes, adejam;
Iluminam a sala as velas de cem lustres,
Ao baile transmitindo o calor que dardejam;

Goya, — um sonho mau, um vivo pandemonio,
Em que ha profanações, um sàbá infernal,
E corpos juvenis a tentar o demónio
Com a ardente nudez da carne virginal;

Delacroix, — como um lago onde ha anjos perdidos
Nas ágoas de sangue, á sombra dos pihaes;
Sob um céu de tormenta, escutam-se os gemidos
Que Weber soluçou em notas musicaes.

Estas imprecações, blasfemias e pesares,
Uivos, gritos de dor, soluços argentinos,
Num côro colossal que paira pelos ares,
São para nós, mortaes, como perdões divinos

São o éco da voz de muitas sentinelas,
Soluço atroador, gigantesco gemido;
É um farol a arder em várias cidadelas,
O grito de aflição du caçador perdido!

E, em verdade. Senhor, que prova mais frisante
Podemos exibir da humana dignidade
Do que este soluçar, sempre vivo e constante,
Que vae morrer aos pés da vossa eternidade?!


VII

A Musa Enferma


Ó minha Musa, então! que tens tu, meu amor?
Que descòrada estás! No teu olhar sombrio
Passam fulgurações de loucura e terror;
Percorre-te a epiderme em fogo um suor frio.

Esverdeado gnomo, ou duende tentador,
Em teu corpo infiltrou, acaso, um amavio?
Foi algum sonho mau, visão cheia de horror,
Que assim te magoou o teu olhar macio?

Eu quisera que tu, saudavel e contente,
Só nobres ideaes abrigasses na mente,
E que o sangue cristão, ritmado, te pulsara

Como do silabário antigo os sons variados,
Onde reinam, a par, os deuses decantados:
Febo — pae das canções, e Pan —— senhor da seara!


VIII

A Musa Venal


Musa do meu amor, ó principesca amante,
Quando o inverno chegar, com seus ventos irados,
Pelos longos serões, de frio tiritante,
Com que has de acalentar os pèsitos gelados?

Tencionas aquecer o cólo deslumbrante
Com os raios de luz pelos vidros filtrados?
Tendo a casa vasia e a bolsa agonizante,
O ouro vaes roubar aos céus iluminados?

Precisas, para obter o triste pão diário,
Fazer de sacristão e de turibulário,
Entoar um Te-Deum, sem crença nem fervor,

Ou, como um saltimbanco esfomeado, mostrar
As tuas perfeições, através d’um olhar
Onde ocultas, a rir, o natural pudor!


IX

O Monge Maldito


Os devotos paineis dos antigos conventos,
Reproduzindo a santa imagem da Verdade,
Davam certo conforto aos sóbrios monumentos,
Tornavam menos fria aquela austeridade.

Olhos fitos em Deus, nos santos mandamentos,
Mais de um monge alcançou palma de santidade,
Á Morte consagrando obras e pensamentos,
Numa vida de paz, de labor, de humildade.

Minh’alma é um coval onde, monge maldito,
Desde que existe o mundo, aborrecido, habito,
Sem ter um só painel que possa contemplar...

— Ó monge mandrião se quer’s viver, contente,
Uma vida de paz, não sejas indolente;
Calêja-me essas mãos, trabalha! vae cavar!


X

O Inimigo


A mocidade foi-me um temporal bem triste,
Onde raro brilhou a luz d’um claro dia;
Tanta chuva caiu, que quase não existe
Uma flor no jardim da minha fantasia.

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado,
Que paciente labor não preciso — ai de mim! —
Se quiser renovar o terreno encharcado,
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim!

E quem sabe se as flor’s ideaes que ora cubico
Iriam encontrar no chão alagadiço
O preciso alimento ao seu desabrochar?

Corre o tempo veloz, num galope desfeito,
E a Dôr, a ingente Dôr, que nos corróe o peito,
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar!


XI

O Azar


Com peso tal, não me ageito;
Dá-me, Sisifo, vigor!
Embora eu tenha valor,
A Arte é larga e o Tempo estreito.

Longe dos mortos lembrados,
A um obscuro cemitério,
Minh’alma, tambor funéreo,
Vae rufar trechos magoados.

— Ha muitas joias ocultas
Na terra fria, sepultas
Onde não chega o alvião;

Muita flor exala a medo
Seus perfumes no degredo
Da profunda solidão.


XII

A Vida Anterior


Longos anos vivi sob um pórtico alto
De gigânteos pilar’s, nobres, dominadores,
Que a luz, vinda do mar, esmaltava de cores,
Tornando-o semelhante ás grutas de basalto.

Chegavam até mim os ecos da harmonia
Do orfeão colossal das ondas chamejantes,
Ligando a sua voz ás tintas deslumbrantes
Da luz crepuscular que em meus olhos fulgia.

Em meio do esplendor do ceu, do mar, dos lumes,
Foi-me dado gosar, voluptuosas calmas!
Escravos semi-nus, rescendendo perfumes,

Minha fronte febril refrescavam com palmas,
E tinham por missão apenas descobrir
A misteriosa dor que eu andava a carpir.


XIII

Ciganos em Viagem


A tribo que prevê a sina dos viventes
Levantou arraiaes hoje de madrugada;
Nos carros, as mulher’s, c’o a torva filharada
Ás costas ou sugando os mamilos pendentes.

Ao lado dos carrões, na pedregosa estrada,
Vão os homens a pé, com armas reluzentes,
Erguendo para o céu uns olhos indolentes
Onde já fulgurou muita ilusão amada.

Na buraca onde está encurralado, o grilo,
Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;
Cibela, com amor, traja um verde mais puro,

Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,
Para assim receber esses p’ra quem’stá aberto
O império familiar das trevas do futuro!


XIV

O Homem e o Mar


Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre has de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Góstas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijos até, e, ás vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística lingoagem.

Vós sois, ambos os dous, discretos, tenebrosos;
Homem, ninguem sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguem conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardaes, avaros, receosos!

E ha séculos mil, séc’los inumeraveis,
Que os dous vos combateis n’uma luta selvagem,
De tal modo gostaes da morte e da carnagem,
Eternos lutador’s, ó Irmãos implacáveis!


XV

D. João nos Infernos


Quando D. João baixou ao pélago sombrio,
E pagou a Caronte o óbulo supremo,
Um mendigo soez, de olhar sereno e frio,
Com pulso rijo e forte agarrou cada remo.

Mostrando os peitos nus, as túnicas rasgadas,
Creaturas feminis, convulsas, flagelantes,
Como um longo cordão de ovelhas imoladas,
Seguiam atrás d’êle, em chôro, soluçantes.

Esganarelo, a rir, pediu lhe o seu dinheiro,
Ao passo que D. Luis, com a trémula mão,
Mostrava, a toda a grei d’aquele cativeiro,
O filho que zombou das cans do ancião

A casta e magra Elvira, a tremer no seu luto,
Junto do esposo infiel, amante d’una hora,
Par’cia-lhe pedir, — derradeiro tributo,
A evocação ideal dos sorrisos de outrora..

Governava o timão da barca celebrada
Um gigante de bélica armadura;
Mas o discreto heroe, curvado sobre a espada,
Alheio a tudo o mais, só via a singradura!


XVI

A Teodoro de Banville


Por tal modo agarraste a Deusa pela crina,
Com ar dominador, num gesto sacudido,
Que se alguem presenceia o caso acontecido
Poderia julgar-te um rufião de esquina.

Com o límpido olhar, — precoce e ardente vista,
Audaz, vaes expandido o orgulho de arquitecto
Em nobres produções, de traço tam correcto,
Que deixam futurar um prodigioso artista.

O nosso sangue, Poeta, esvae-se dia a dia!...
Acaso, do Centauro, a túnica sombria,
— Que em fúnebres caudaes as veias transformava —

Três vezes se tingiu com as babas subtis
D’aqueles infernaes, monstruosos, reptis,
Que Hércules, em creança, a rir, estrangulava?


XVII

Castigo do Orgulho


Em tempos que lá vão, quando a Teologia
Estava no apogeu da seiva e da energia,
Conta-se que um doutor, d’entre os mais eminentes
— Depois de avassalar peitos indiferentes,
Lançando a jorros luz na escuridão agreste;
Depois de enveredar, para a glória celeste,
Por caminhos por onde haviam ’té então
Apenas transitado as almas de eleição,
Como quem sobe á altura, e fica estonteado,
Orgulhoso, clamou n’um satânico brado:

— Ó mísero Jesus! levantei-te bem alto!
«Mas, se em vez de exaltar-te, assim como te exalto,
«Rebaixar te quisera, ó pobre corpo morto,
«Não serias um deus, mas sim risório aborto!»

Logo a luz da razão ao doutor se apagou,
Como radiante sol que denso veu nublou;
Fez-se um medonho cáos n’aquela inteligência,
Templo vivo que foi de método e opulência.
Onde tanto esplendor mostrara o seu clarão,
A treva e o silêncio abrigaram-se então,
Como no mausoleu d’uma raça extinguida.

Como animal vadio, arrastou-se p’la vida,
Sem ouvir, sem olhar, por atalhos sombrios,
Sem saber distinguir invernos nem estios;
Inutil, sujo, feio, em seus andrajos rotos,
Provocando a pedrada e as váias dos garotos!


XVIII

A Beleza


De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do mármor de Carrara.

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e como a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes...

Tenho, p’ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornam deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!


XVIII

O Ideal


Nunca poderá ser pálida bonequinha,
Produto sem frescor qual manequim de molas,
Pés para borzeguins, dedos p’ra castanholas,
Que ha de satisfazer almas como esta minha.

Eu deixo a Gavarni, poeta de enfermaria,
Seu rebanho gentil de belezas cloróticas,
Porque nunca encontrei n’essas plantas exóticas
A rubra flor que anhela a minha fantasia.

Meu torvo coração, na angústia que o oprime,
Sonha Lady Macbeth, alma fadada ao crime,
Pesadelo infernal que um Ésquilo creou;

E contigo tambem, ó Noite grandiosa,
Filha de Miguel-Anjo, esfinge misteriosa,
Sereia colossal que algum Titan gerou!


XX

A Giganta


No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunaes dava a terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos pés d’uma rainha!

Gostava de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terriveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensiveis;

Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E ás vezes, no verão, quando no ardente solo

Eu a visse deitar, numa quebreira estranha,
Dormir serenamente a sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!


XXI

A Máscara



Estátua alegórica no gosto da Renascença



Reparae. Que primor de graças florentinas!
Na suave ondulação do corpo musculoso,
A Força e a Elegância ostentam-se divinas.
Essa esbelta mulher, — bloco maravilhoso,
Divinamente forte, e docemente guapa,
Destinada parece a um leito sumptuoso,
A ser a distracção d’um rei ou de algum papa.

Olhae aquele rir fino e voluptuoso,
Num éxtase ideal de fátua garridice;
O escarninho olhar, lànguido e mentiroso;
O rosto peregrino, a transluzir meiguice,
Que parece dizer, vencedor e orgulhoso:
«Chama por mim o Amor; a Volupia sorri-me!...»
A este ser gentil, cheio de majestade,
Vede que seduções a gentileza imprime!
Mas vejamos melhor o vulto da beldade.

Ó surpresa fatal! blasfemia que a arte gera!
A divina mulher de rosto sedutor
Duas cabeças tem, como infernal quimera!

Mas não! É simples másc’ra, o rosto enganador,
A face que apresenta um riso triunfal.
Como vēdes, lá está, crispado horrivelmente,
O verdadeiro rosto, a cabeça real,
Que se esconde, a chorar, na máscara ridente.
— Ó misera beleza I o esplendoroso rio
Do teu pranto vem dar á foz dos meus abrolhos;
A tua falsidade embriaga.me, e eu sorrio
Com os caudaes que a Dôr faz brotar dos teus olhos!

– Mas porque ha de chorar a beleza correcta
Que a seus pés pode ver todo o homem vencido?
Que misterioso mal faz carpir essa atléta?

— Ela chora, sabel, porque já tem vivido,

E ainda viva está!... Mas o que mais deplora,
O que mais exacerba a sua mágoa atroz,
É que ainda amanhan viverá, como agora...
A’manhan, e depois, e sempre! — como nós!


XXII

Hino á Beleza


Desces do azul do ceu, ou surjes do abismo?
Beleza, o teu olhar, de fogo e de carinho,
Géra alternadamente o crime e o heroísmo,
E por isso, talvez, és comparada ao vinho.

Encerra o teu olhar a aurora e o pôr do sol,
Perfumes infernaes de noite procelosa;
Teus beijos são um filtro, e os teus lábios crisol
Que torna o heroe covarde e a creança corajosa.

Vens do fundo da treva, ou desceste dos astros?
O Diabo, com amor, persegue-te, chorando;
Fazes subir ao ceu, e caminhar de rastros;
A dominar em tudo, e nada te importando!

Nem aos mortos, sequer, tu poupas com remoques!
Entre as joias que tens, o Horror é a mais fulgente,
E o Crime, esse primor dos teus gentis berloques,
No teu ventre orgulhoso anda a valsar, contente.

O insecto, deslumbrado, a procurar-te a chama,
Vae encontrar a morte, e bemdiz teu clarão
O amante, enlanguescido, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o caixão.

Mas que venhas do ceu ou do inferno, que importa,
Beleza! monstro enorme, horroroso e travesso!
Se teus pés, teu olhar, teu riso, abrem a porta
D’um infinito ideal, que eu amo e não conheço?

De Satanaz ou Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Tu consegues tornar — ó fada de azas leves,
Alvinitente luz que a minha alma clareia! —
O universo melhor e os momentos mais breves!


XXIII

Perfume Exótico


Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paizagem deslumbrante
Na auréola de luz d’um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com planta tropicaes e frutos saborosos;
Onde ha homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher’s cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume ás paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh’alma á voz dos marinheiros.


XXIV

O Cabelo


Ó tranças em aneis afagando-te a alvura
Do colo juvenil! Ó perfume sem par!
Éxtase! Vou povoar a minha alcova escura
Com as recordações que dormem na espessura
Do teu cabelo, amor, fazendo-o destrançar!

A África abrasadora e a Ásia langorosa,
Todo um mundo distante, ausente, evocador,
Vive na solidão d’essa grenha olorosa!
Como vogam mortaes na onda harmoniosa,
Eu gosto de nadar no teu divino olor.

Quero ver as regiões tropicaes, luxuriantes;
Negras tranças, servi-me de vagas veleiras.
Transportae-me no dorso aos países distantes!
Mar de azeviche, mar de sonhos deslumbrantes,
Com corvetas reaes, com mastros e bandeiras!

O’porto sem egual onde a minh’alma inglória
Pode á larga absorver sons, perfumes e côr;
Onde as grandiosas naus, na sua trajectòria,
As velas colossaes desfraldam para a glória

D’um céu puro onde esplende o eterno calor.
Eu quero mergulhar a lânguida cabeça
Nesse soturno mar que encerra o proprio mar,
E o espírito subtil, sobre a vaga travessa,
Fará, ó meu amor, com que eu me desvaneca
Num éxtase ideal, perfumes a aspirar!

Ó cabelos azues, tranças ebanizadas,
Viva imagem do ceu azul na escuridão;
Nos lindos caracoes, nas mechas desgrenhadas,
Consigo distinguir as essências variadas
Do coco, do ananaz, do musgo e do alcatrão.

Hoje, à manhan, e sempre l ó grenha estremecida,
Com per’las, com rubins e com safiras hade
Toucar-te com amor minh’alma agradecida,
Para que sejas sempre a taça apetecida
Por onde bebo, a flux, o vinho da saudade!


XXV

Intangivel


Quero-te como quero á abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrando-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se a julgo alcançar, vejo-a mais afastada!

Pois se eu adoro até — fero monstro, acredital —
O teu frio desdem, que te faz mais bonita!


XXVI

Genio do Mal


Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernaes,
Levando a perdição ás almas dos mortaes.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar que exaure o sangue ao mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho ha que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto,
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado, —
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vae recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignominia sem par


XXVII

Sed non satiata


Ó deidade fatal, anjo das frias trevas,
Pomo de tentação, lindo corpo cigano,
Com perfuines de musgo e de tabaco havano,
Ó Fausto feminil que em teus filtros me enlevas!

Ao vinho de Constança, e ao ópio embriagante,
Eu prefiro o elixir da tua bôca terna;
E no teu ignio olhar, refrescante cisterna,
Mata a sede febril a minha dor cruciante.

Nos olhos infernaes, espelhos da tua alma,
Monstro sem coração! a chama viva acalma;
Repara que eu não sou um Estígio incansavel...

Nem me é dado, ai de mim! megera libertina,
Para quebrar-te a força e a luxúria indomavel,
No teu leito sensual tornar-me Proserpina!


XXVIII

Esterilidade


Ao vê-la caminhar em trajos vaporosos,
Parece que deslisa em voluptuosa dansa,
Como aqueles reptis da India, majestosos,
Que um fàquir faz mover em torno d’uma lança.

Como um vasto areal, ou como um ceu ardente,
Como as vagas do mar em seu fragor insano,
— Assim éla caminha, a passo, indiferente,
Insensivel á dor, ao sofrimento humano.

Seus olhos teem a luz dos cristaes rebrilhantes,
E no seu todo estranho onde, a par, se lobriga
O anjo inviolado e a muda esfinge antiga,

Onde tudo é fulgor, ouro, metaes, diamantes,
Vê-se resplandecer a fria majestade
Da mulher infecunda — essa inutilidade!


XXIX

A serpente que dansa


Gósto de ver teu corpo gracilante,
Ó lindo nenufar,
Como estrela do ceu, auriflamante,
A luzir, a brilhar!

Por sobre as vagas d’esse mar profundo
Das tuas negras cômas,
D’esse revolto oceano vagabundo
Impregnado de aromas,

Como um navio a velejar na calma
Brisa da madrugada,
Desfralda as suas velas a minh’alma
Para longa jornada...

Teus olhos, onde nunca se lobriga
Alegria ou tristeza,
São de ouro e ferro misteriosa liga,
Quase tenho a certeza.

Quando tu andas, teu corpo indolente
Como arbusto balança;
Faz lembrar os volteios da serpente
Na haste d’uma lança.

Verga teu rosto ao peso avantajado
Da preguiça constante,
Fazendo recordar, assim curvado,
Um pequeno elefante.

Teu corpo faz lembrar frágil barquinho
Nas ondas do alto mar,
Em constantes baldões, n’um torvelinho,
Sem nunca sossobrar.

Como a corrente súbito engrossada
Pelos gelos fundentes,
Quando, na bôca, a agoa represada
Te aflue á flor dos dentes,

Julgo beber um vinho inegualado,
De uma tal condição,
Que vejo abrir um ceu todo estrelado
Nas trevas em que jaz meu coração!


XXX

Cadaver em putrefacção


Recordas, meu amor, ainda horrorizada,
O animal nojento
Que um dia de verão encontramos na estrada,
Já podre e fedorento?

De pernas para o ar, como mulher viciosa
Ardente de paixões,
Deixava a descoberto a barriga asquerosa,
Prenhe de exalações..

Queimava a luz do sol aquela massa imunda,
Fazendo-a transformar
Em novos materiaes, que a Natura fecunda
Consegue aproveitar.

Fitava o claro ceu a carcassa indecente,
Como a um vergel em maio,
E o fedor era tal que eu vi-te de repente
Em risco de um desmaio.

As moscas, a zumbir, cobriam o asqueroso
Corpo em putrefacção,
E os vermes, em tropel, num líquido viscoso,
Formavam legião.

Era um longo cortejo, uma procissão rara
De vermes corrosivos;
Dir-se-ia que o animal morto ressuscitara
Em milhões de ser’s vivos.

E d’essa multidão elevava-se um brado,
Um ruído fagueiro,
Como o som que produz o trigo joeirado
Na rede d’um peneiro.

Á luz do nosso olhar, tudo se transformava
N’um sonho de tremer...
Visão cheia de horror que na mente se grava
E não torna a esquecer.

Por detrás d’um rochedo, uma cadela, inquieta,
Com uivos estridentes,
Aguardava ocasião para na carne infecta
Ir aguçar os dentes...

— Ai! ter de me lembrar que has de ser semelhante
Á horrivel infecção,
Ó luz do meu olhar, o meu sol deslumbrante,
Minha ardente paixão!

Que assim tu has de ser, ó anjo que me encantas,
Quando o teu corpo inerme
Desfeito em podridão, sob a raiz das plantas,
Alimentar o verme!

Então, ó meu amor, dize á larva brutal
Que te beijar o rosto
Que eu guardei o contorno e a essência divinal
Do teu corpo gentil antes de decomposto!


XXXI

De Profundis Clarnavi


Peço-te compaixão, ó meu unico amor,
Do fundo d’este abismo onde a minh’alma arrasto,
D’este frio paul de horisonte nefasto,
Onde pairam na treva a blasfemia e o terror;

Em seis meses, um sol mortiço anda na altura,
Que durante outros seis á noite dá lugar;
É um país mais nu do que a região polar,
Sem flor’s, nem creação, sem fontes, nem verdura!

Ora não ha no mundo um horror comparado
Ao do frio cruel d’esse astro regelado,
E a torva escuridão d’essa noite sem fim;

Chego até a invejar o animal sem dono
Que mergulha a dormir n’um estúpido sono...
Ó meu único amor, tem compaixão de mim.!


XXXII

A Vampiro


Tu, que minh’alma invadiste
Como o ferro d’um punhal;
Que em meu peito construiste
O teu reduto infernal,

Onde tens o leito armado,
E onde o teu desdem passeia,
— Mulher a quem ’stou ligado
Como um grilheta á cadeia,

Como um beberrão ao vinho,
Como o verme á podridão,
— Vampiro, monstro daninho,
Dou-te a minha maldição!

Pedi ao gládio implacavel
Me ajudasse a libertar,
E ao veneno abominavel
Tambem ousei implorar...

Mas de ambos fui repelido!
Negaram-me protecção,
Dizendo: — «É tempo perdido
«Arrancar-te á escravidão;

«Se algum de nós a matava,
«Ó imbecil I tu não vês
«Que teus beijos como a lava
«Lhe davam vida outra vez!»


XXXIII

Da Lama ao Astro


Junto d’uma judia horrível, no seu leito,
— Dois cadáver’s a par na mesma sepultura
Certa noite, pensei, ao encarar a impura,
Na soberba mulher por que anceia meu peito:

Seu corpo modelar, de majestoso aspeito,
Os seus olhos leaes a distilar doçura,
O capitoso olor da cabeleira escura,
Todas as perfeições do seu todo perfeito!

Com fervor vestiria esse corpo divino,
Desde os mimosos pés ao cabelo em aneis,
Com meus beijos febris, ó bloco marmorino,

Se uma noite, a chorar por quaesquer ninharias,
Pudesses conseguir, rainha das crueis,
Atenuar a luz d’essas pupilas frias!


XXXIV

Remorso Póstumo


Quando fôres dormir, o bela tenebrosa,
No frio mausoleu de mármor’ construido;
Quando tu só tiver’s por palácio garrido
A estreita habitação funérea, salitrosa;

Quando a pedra cobrir a tua pel’mimosa,
Esse corpo gentil, fremente, enlanguescido,
Não deixando pulsar teu coração ardido,
Pondo-te assim um termo á vida aventurosa.

O teu coval, que sabe o quanto eu hei sofrido
(Porque sempre o coval ha de entender o poeta)
Nestas noites sem fim, com o sôno perdido,

Dir-te-a: — «De que serviu, cortesan incorrecta,
«Teus ouvidos cerrar a dor, fria e ciuel?»
— E o verme, qual remorso, ha de roer-te a pel’!


XXXV

O Gato


Anda cá, meu gatinho, ao meu colo amoroso;
Encolhe as unhas fataes;
Deixa-me profundar esse olhar misterioso,
Feito de ágata e metaes.

Quando eu a minha mão passeio, meigamente,
Sobre o teu pêlo bonito,
E te afago a cabeça e o dorso reluzente
Com um prazer infinito.

Vejo minha mulher em visão. Seu olhar,
Como o teu, manso gatinho,
Corta como um punhal; tem o mesmo brilhar...

Banha-lhe o corpo moreno
Um perfume subtil, – brando como um arminho,
E mortal como um veneno!


XXXVI

Duellum


Dois guerreiros, em luta acesa, se combatem,
Os gládios a esgrimir, n’um destemido jogo,
— Torneio singular que bem denota o fogo
Dos peitos juvenis onde as paixões embatem.

Mas eis que na peleja os gládios são partidos...
Assim o nosso amor! e as unhas aceradas,
E os dentes, vão vingar as pérfidas espadas,
No indómito furor dos ódios acendidos!

Ao fundo de um covil de tigres e chacaes,
N’um abraço homicida, os dois heroes rivaes,
Mortos, sobre um sarçal, foram cair por fim.

— Esse covil é o inferno onde estão os que amamos!
Amazona cruel, a esse covil desçamos!
O ardor do no880 odio eternizando assim!


XXXVII

A Varanda


Mãe das recordações, rainha das amantes,
Ó todo o meu prazer I todos os meus cuidados
Não te lembram, saudosa, os dúlcidos instantes,
O carinhoso lar, os serões encantados,
Mãe das recordações, rainha das amantes?

A’s noites, ao calor do lume do fogão,
A’s tardes, na varanda, á brisa vaporosa,
Sentindo palpitar teu meigo coração,
Que palestras subtis! Que sonhos côr de rosa,
A’s noites, ao calor do lume do fogão!

Como é glorioso o sol nas tardes de calor!
Como o espaço é profundo e o coração potente!
Quando encostado a ti, meu peregrino amor,
Julgava respirar teu sangue redolente...
Como é glorioso o sol nas tardes de calor!

A noite, a pouco e pouco, ia cerrando o manto,
E os meus olhos, na treva, os teus descortinavam;
Do teu bafo a aspirar o venenoso encanto,
Nas minhas mãos, teus pés, a dormir, descansavam...
A noite, a pouco e pouco, ia cerrando o manto.

Sei a arte de evocar os momentos ditosos
Em que no teu regaço ia encontrar abrigo!
Pois como ressurjir os teus dons primorosos
A não ser no teu corpo e no teu peito amigo?!
Sei a arte de evocar os momentos ditosos!

Os protestos d’amor, os beijos perfumados,
Volverão outra vez das cinzas do outro mundo,
Como nascem de novo os soes avermelnados
Depois de os sepultar o negro mar profundo?
– Ó protestos d’amor, o beijos perfumados!


XXXVIII

O Endemoninhado


Cobriu um véu o Sol. Lua da minha vida,
Faze o mesmo tambem, veste um roupão de luto;
Não fales, por quem és! dorme ou fuma um charuto;
Esconde o teu sorrir, mostra-te aborrecida;

Gósto de ti assim! Mas se queres, louquinha,
Como um astro que deixa a treva acostumada,
Hoje ir resplandecer na alacre mascarada,
Bem ’stá! Lindo punhal, sae da tua bainha!

Transforma o teu olhar em brilhantes candis!
Faz’render a teus pés milhares de imbecis!
Embriaga-te a valsar, desvenda o corpo nu!...

Faças quanto fizer’s, noite negra ou aurora,
Só me darás prazer!... Todo o meu ser peróra,
No fogo da paixão: — Amo-te, Belzebu!


XXXVIII

Um Fantasma



1

AS TREVAS


Na escuridão d’esta caverna fria
Onde ha muito, ai de mim! triste, rolei,
Onde nunca penetra a luz do dia,
E onde a sós com a noite me encontrei,

Lembro um pintor que fosse condenado
Seus quadros a pintar na escuridão;
Sou como um cozinheiro esfomeado
Reduzido a guizar o coração

Ás vezes, n’um momento o meu olhar,
Nas trevas, um espectro vê raiar,
Aparição risonha e vaporosa...

E a minha razão febricitante
Distingue no sombrio visitante
A morena que amei. a luminosa!


2

O PERFUME


Já tens, leitor, por certo, respirado
O adoravel perfume que derrama
O incenso d’um turíbulo sagrado
Ou o sàché precioso d’uma dama;

Encanto sem egual, inebriante,
Viva recordação d’uma outra edade!
Assim no corpo escultural da amante
Se cólhe a flor selecta da saudade.

Na cabeleira basta, sumptuosa,
— Turíbulo da alcova misteriosa,
Um perfume selvagem, pastoril,

E nas suas roupagens peregrinas
— Sedas, veludos, rendas, musselinas —
O aroma do seu corpo juvenil!


3

A MOLDURA


Se o caixilho realça uma pintura,
Muito embora de artista celebrado,
Não sei porque prazer eu sou levado
A querer separá-la da Natura.

Móveis, joias, metaes e douradura,
Contornavam tam bem seu corpo amado,
Nada ofuscando o brilho incomparado,
As perfeições da esbelta creatural...

Se parecia até que éla julgava
Que todos a adoravarn, e banhava
Em beijos de bretanhas e setins

Seu lindo corpo nu, fosforescente,
Mostrando em seus tregeitos, indolente
Ou vivaz, a gracinha dos saguins!


4

O RETRATO


A Enfermidade e a Morte, irreverentes,
Tornaram cinza a chama luzidia
D’esses teus olhos ternos e ferventes,
D’esses teus lábios que beijei um dia!

Ai! d’esses beijos doces e veementes,
D’esses loucos transportes de alegria,
Que resta hoje? — Os traços languescentes
De um teu retrato, imagem fugidia

Que já mal se consegue divisar,
E que as asas do Tempo hão de apagar
Na sua rude, insana, trajectória...

Assassino cruel da Arte e da Vida,
Nunca me has de arrancar da mente ardida
A imagem da que foi a minha glória!


XL

Á minha Deusa


Os meus versos te dou para que se algum dia
Meu nome conquistar justa celebridade,
Despertando a atenção da triste humanidade,
— Como um barco á mercê de forte ventania,

Tua memória, egual ás fábulas famosas,
Fatigue o meu leitor como um sêco martelo,
E por um fraternal e misterioso élo
Fique como que presa ás rimas sonorosas;

Amaldiçoado ser a quem (desde o profundo
Abismo até ao ceu) só eu amo no mundo!
— Ó tu, sombra fugaz, espectro radiante,

Que pisas os mortaes, serena e deslumbrante,
E a quem os imbecis ousam chamar cruel...
Ó bronzeo serafim com olhos de Lusbel!


XLI

Semper eadem


Perguntas a razão da tristeza que anima,
Como um revolto mar, meu peito combalido!
— Quando no coração se faz uma vindima,
Vivermos é um mal! O segredo é sabido:

É uma dor vulgar, nada misteriosa,
E, como o teu sorrir, toda a gente a conhece.
Não me interrogues, pois, risonha curiosa!
Embora a tua voz seja meiga, emudece!

Cala-te, ó ignorante! alma sempre aturdida!
Linda bôca infantil!... Como hei de amar a Vida,
Quando na Morte vejo o fim dos meus abrolhos?!

Deixa meu coração viver como encantado!
N’um sonho mergulhar no teu rosto adorado,
E extinguir-se, dormindo, a sombra dos teus olhos!


XLII

Toda Inteira


Hoje, na minha mansarda,
Vi o demónio apar’cer,
E, buscando perturbar.me,
Dizer-me: — «Quero saber

«Qual é, de todas as cousas
«Que a tornam tam atraente,
«— Adornos negros e róseos
«Do seu corpo omnipotente,

«Que mais te agrada?» A minh’alma
Respondeu logo a seguir:
— «Tudo n’Ela são ditames,
«Não tenho que distinguir.

«Tudo me encanta e seduz
«Na creatura formosa,
«Como a Aurora: — deslumbrante,
«Como a Noite: — bonançosa.

«E a harmonia é tamanha,
«Tam belas as proporções,
«Que ao exame mais atento
«Só se of’recem perfeições.

«Ó metamorfose estranha
«Que todo o meu ser resume!
«Seu hálito é: — a melodia,
«E a sua voz: — o perfume!»


XLIII

Toda Inteira


Suprema Beleza
Que dirás esta noite, ó pobre alma exilada,
Que dirás, coração, outrora na agonia,
Á formosa mulher, bondosa e muito amada,
Cujo celeste olhar é o sol que te alumia?

— Havemos de cantar, em psalmos gloriosos,
A doçura que existe em seu férreo domínio,
Seu corpo escultural, seus cabelos formosos,
E a luz do seu olhar ardente e velutíneo!

Quer seja pela noite, em plena solidão,
Quer seja pela rua, em plena multidão,
Como um archote a arder, seu vulto surje e encanta.

Ás vezes fala e diz: — «Sou bela, e vós haveis
«De por amor de mim ao Belo ser fieis;
«Sou o Anjo da guarda, a Musa, a Virgem santa!»


XLIV

O Archote Vivo


Marcham na minha frente os olhos deslumbrantes
Que um anjo prodigioso imanizou co’as mãos;
Marcham esses irmãos, que são os meus irmãos,
Fulgindo o meu olhar com seus fogos brilhantes.

A livrar-me do Mal e de qualquer agravo,
Pela estrada do Bem fazem que eu siga altivo;
São os meus serviçaes, e eu d’êles sou escravo,
Todo o meu ser ’stá preso a esse archote vivo.

Lindos olhos, brilhaes com a luz que irradia
Dos funéreos brandões a arder em pleno dia,
Que o Sol faz descòrar, mas não logra extinguir...

Eles choram a Morte, e vós cantaes a Vida,
Saudaes o despertar da minh’alma dorida,
Astros que nenhum sol poderá desluzir!


XLV

Reversibilidade


¿Ó anjo do prazer, conheces a apatia,
As agruras moraes p’ra que não ha remédio;
A vergonha, o remorso, as angústias, o tédio,
Maltrindo o coração como garras de harpia?
Ó anjo do prazer, conheces a apatia?

¿Ó anjo da bondade, imaginas o ódio,
Punhos em crispações, e lágrimas de sangue,
Quando a Vingança invade a nossa alma exangue,
Apunhalando o Bem, nosso anjo custódio?
O anjo da bondade, imaginas o ódio?

¿Ó anjo da saúde, ignoras o delírio,
As febres cerebraes, a vida hospitalar,
A triste enfermaria escura e falta de ar,
A palidez que á morte imprime a luz d’um cirio?
Ó anjo da saúde, ignoras o delírio?

¿O anjo da beleza, enxergas tu as cans,
As rugas da velhice, o amargoso suplicio
De lermos o fastio, o horrível sacrifício,
No olhar que iluminou nossas quadras louçans?
Ó anjo da beleza, enxergas tu as cans?

— O meu anjo do amor, da luz e da alegria,
David, a agonizar, a saúde rogara
Ao teu corpo gentil, que não lh’a recusara;
As tuas orações, porém, eu só queria,
O meu anjo do amor, da luz e da alegria!


XLVI

Confidência


Uma vez, uma só, meiga mulher amada,
No meu, teu braço polido
Se pousou (a minh’alma ainda está lembrada
D’esse momento querido);

Era noite, e no ceu brilhava a lua cheia,
Qual medalha fulgidia,
Banhando com a luz do ciarão que semeia
A cidade que dormia.

Via a gente passar, em busca de guarida,
Os gatos furtivamente,
E um ou outro maltes, como sombra querida,
A seguir-nos lentamente.

De súbito, quebrando aquela intimidade
Que a luz do luar protegia,
De ti, o bandolim de estranha suavidade.
Ó guitarra da alegria,

De ti, clara e gazil como alegre fanfarra
A tocar uma alvorada,
Uma nota surdiu, lamentosa e bizarra,
Hesitante e acanhada,

Como um ser infeliz, como aleijão imundo
Da família despresado,
A quem, para o furtar aos olhares do mundo,
Houvessem emparedado!

Essa nota, anjo meu, dizia, a lamentar-se:
— Nada na terra é constante,
«E em tudo se traduz, sob qualquer disfarce,
«Um egoismo revoltante;

«Que triste condição é ser mulher formosa,
«E que trabalho banal!
«Como artista de circo, em dansa voluptuosa,
«Com um riso artificial;

«Alimentar paixões, é louco empreendimento,
«Porque o amor como a beldade
«Só duram... ’té que os leva um dia o Esquecimento
«Ao seio da Eternidade!»

Muitas vezes evoco a noite inegualada,
O silêncio, a solidão,
E aquela confidencia horrivel murmurada,
N’um soluço infantil, pelo teu coração.


XLVII

Aurora Espiritual


Quando sobre o festim, pela janela aberta,
Junta a aurora seus tons ao Ideal roedor,
Por uma operação d’um filtro vingador
Na besta adormecida ha um anjo que desperta.

Dos Ceus Espirituaes o inacessivel manto,
Para o pobre mortal caído em paroxismo,
Ora se abre ora cerra em atracções de abismo.
Assim, Deusa mortal, Ser luminoso e santo,

No torpor que sucede ás celas libertinas,
Tua recordação, mais bela e mais veemente,
Aos meus olhos febris surje constantemente.

O Sol amorteceu a luz das serpentinas,
Mas, sempre vencedor, teu rosto é semelhante,
O alma luminosa, ao sol mais deslumbrante!


XLVIII

Harmonia da Tarde


Está a chegar o tempo em que se esmalta o prade;
Toda a flor é um crisol essência a distilar;
Os perfumes e os sons revolteiam no ar;
Uma valsa letal, langoroso bailado!

Toda a flor é um crisol essência a distilar;
Soluça o bandolim como um peito magoado;
Uma valsa letal, langoroso bailado!
O ceu lembra de um templo iluminado altar!

Soluça o bandolim como um peito magoado,
Um terno coração que sabe recordar!
O ceu lembra de um templo iluminado altar;
O Sol agonizou n’um leito ensanguentado...

Um terno coração que sabe recordar
Relembra com carinho os sonhos do passado!
O Sol agonizou n’um leito ensanguentado...
E eu ergo-te, mulher, iluminado altar!


XLIX

O Frasco


Na perfumes que teem o condão singular
De todo e qualquer vazo ou frasco atravessar.
A’s vezes, ao abrir um cofre do Levante,
Sentindo a fechadura estrugir, lancinante,

Ou, n’um velho solar, um contador torneado,
Poeirento, carcomido, a um canto abandonado,
Logramos descobrir um frasco alvinitente,
D’onde se evola, viva, a alma d’um ausente.

Doces recordações, quaes funéreas crisálidas,
Estavam a dormir n’essas trevas esquálidas!
Ei-las a revoar n’uma nuvem radiosa,
Laminadas de azul, doiradas, cor de rosa;

Pairando pelo espaço, em turbilhões alados,
Fazendo-nos cegar os olhos deslumbrados,
E levando a nossa alma aos abismos arcanos
Onde estão a dormir os miasmas humanos;

Ali, tá-la enterrar n’um antro solitário,
E, quando ela consegue arrancar o sudário,
Encontra junto a si o cadaver ’spectral
D’um bolorento amor, radiante e sepulcral.

Assim, quando amanhan minha recordação
Dos homens se varrer, e n’um pobre caixão
Meu corpo descansar, como um frasco esquecido,
Envolto em cinza e pó, já meio carcomido,

Serei o teu sepulcro, amavel pestilência,
Testemunha fiel da tua virulência,
— Ó veneno infernal, angélica bebida
Que me vaes dando a morte, e és toda a minha vida!


L

O Veneno


Consegue dar o vinho a um antro conspurcado
Um luxo miraculoso,
Fazendo construir palácio majestoso
No vapor rubro ou doirado,
Como o sol ao expirar n’um dia nebuloso.

Faz aumentar o ópio as regiões sideraes,
Alongando a Imensidade;
Profunda o tempo, e alarga a voluptuosidade,
E de prazer’s infernaes
Atafulha a noss’alma até á saciedade.

Mas tudo isso que é, comparado ao veneno
Que esse verde olhar distila,
— Esmeraldino olhar, lago de agua tranquila,
Em cujo cristal sereno
Minh’alma se retrata, e, trémula, scintila?

Mas tudo isso que é, comparade á saliva
Da tua boca, fermento
Que mergulha a minh’alma em cego esquecimento,
Sepultando-a, semi-viva,
No tenebroso mar do Aniquilamento? !


LI

Ceu Turvo


Parece o teu olhar coberto de neblina;
A pupila (não sei se azul se esmeraldina),
Ora meiga e risonha, ora cruel e agreste,
Reproduz a indolência e a palidez celeste.

Fazes-me recordar os dias anuveados,
Em que se ouvem carpir os peitos namorados,
Quando, na ância de um mal desconhecido, enorme,
Os nervos vão bulir co’o espírito que dorme.

Ás vezes, lembras mesmo os ceus esplendorosos
Das frias estações, dos meses invernosos...
Que brilho, que fulgor! Panorama orvalhado
Aquecendo-se á luz d’um dia enevoado!

Ó clima sedutor, ó esfinge brumosa!
Posso eu acaso amar-te, ó neve côr de rosa?
Como hei de eu descobrir n’esse corpo invernal
Sensação que não seja a do gelo ou metal?


LII

O meu Gato


1


No meu cérebro passeia,
Como em país conquistado,
Um gato, forte e bonito,
Muito meigo e sossegado.

O metal da sua voz
É sempre rico e profundo,
Quer mie baixo, fagueiro,
Quer mie forte, iracundo.

E essa voz, que em mim se infiltra
E corre todo o meu peito,
É p’ra mim um amavio,
Como um soneto bem feito.

Adormece a dor mais funda,
Todos os bens sintetiza;
Para dizer grandes cousas,
De palavras não precisa.

Não existe, certamente.
Arco egual, com tanto geito
P’ra fazer vibrar as cordas
Do violino do meu peito,

Como a tua voz, meu gato
Estranho e misterioso,
Que em tudo lembras um anjo,
Subtil e harmonioso!

2


Seu lindo pelo trigueiro
Tem um olor delicado;
Uma vez, só de afagá-lo,
Fiquei logo perfumado.

É o meu amigo dilecto,
Quem inspira os versos meus,
Quem me julga e me aconselha;
Talvez fada, talvez deus!

Quando os meus olhos no gato
Se fixam, imanizados,
E olho dentro de mim mesmo
Com meus olhos magoados,

Com que surpreza diviso
A pupila refulgente,
— Fanal claro, opala viva,
Fitar-me insistentemente!


LIII

A Corveta


Eu quero descrever, preguiçosa beldade,
Os peregrinos dons da tua mocidade;
Esse dotes soberanos
Em que se alia a infância ao fulgor dos trinta anos.

Quando passas, movendo as saias, pelo asfalto,
Lembras uma corveta a singrar no mar alto,
As velas pandas ao vento,
Num rítemo suave, enlanguescido e lento.

Sobre o pescoço forte e cheio, donairosa,
A cabeça gentil meneias, radiosa;
Com majestade e bonança,
Prossegues tua marcha, imponente creança.

Eu quero descrever, preguiçosa beldade,
Os peregrinos dons da tua mocidade;
Esses dotes soberanos
Em que se alia a infância ao fulgor dos trinta anos.

Teu colo, a palpitar, soerguendo o vestido,
Teu colo triunfal lembra um movel polido
De abaulados gavetões
Como argênteos broqueis, despedindo clarões;

Provocantes broqueis com bicos côr de rosa!
Armário encantador, despensa primorosa
Com manjares escolhidos,
E vinhos de embriagar a alma e os sentidos!

Quando passas, movendo as saias, pelo asfalto,
Lembras uma corveta a singrar no mar alto,
As velas pandas ao vento
N’um rítemo suave, enlanguescido, e lento.

As tuas pernas, sob as saias que as apertam,
Castigam as paixões obscuras que despertam,
Como duas feiticeiras
Mexendo um filtro negro em fundas cafeteiras.

Teus braços, que não teem temor aos mais valentes,
Possuem o condão das gibolas luzentes;
Podem abraçar o eleito,
E, apertando-o com força, imprimi-lo ao teu peito.

Sobre o pescoço forte e cheio, donairosa,
A cabeça gentil meneias, radiosa;
Com majestade e bonança
Prossegues tua marcha, imponente creança!


LIV

Convidando á Viagem


Gentil creatura,
Pensa na doçura
De irmos viver lado a lado!
Amar sem sofrer,
Amar e morrer
N’aquele país amado
Onde a natureza,
De estranha beleza,
Tem o misterioso encanto,

O brilho e o fulgor
Dos teus olhos, flor,
Quando orvalhados de pranto.

Lá, tudo é paz e harmonia,
Luxo, beleza, magia!

Móveis sumptuosos,
Antigos, lustrosos,
Nossa alcova adornariam;
As mais belas flores
Seus meigos olores
Ao ámbar misturariam;
Cristaes e brocados,
Tectos decorados,
Um esplendor oriental,
Tudo falaria
Á alma erradia
A sua língoa natal.

Lá, tudo é paz e harmonia,
Luxo, beleza, magia!

Nas ágoas dormentes,
Não vês, indolentes,
Barcos de humor vagabundo?
Para te servir,
Prontos a partir,
Vieram do fim do mundo.

— Quando o dia finda,
Ai que luz tam linda
Banha os canaes e a cidade!
Como loira messe,
O mundo adormece
N’uma ardente claridade...

Lá, tudo é paz e harmonia,
Luxo, beleza, magia!


LV

Irreparável


1


¿Podemos nós banir o remorso implacavel,
Que em nosso peito faz ninho,
E se nutre de nós como um verme insaciavel,
Como o caruncho daninho?
Podemos nós banir o remorso implacavel?

¿Em que filtro ou licor, em que vinho ou tisana,
Afogar quem nos fatiga,

Guloso e destruidor qual frivola mundana,
Paciente como a formiga?
Em que filtro ou licor? — em que vinho ou tisana?

Ó feiticeira ideal, dize-m’o tu, oh! di-lo
Á minh’alma timorata,
Que lembra um moribundo ao ver a contundi-lo
D’um cavalo a férrea pata!
Ó feiticeira ideal, dize-m’o tu, oh! di-lo

Ao ente a agonizar que o lobo já fareja,
E a quem o corvo procura,
Ao soldado infeliz que, suspirando, almeja
Pela paz da sepultura;
Ao ente a agonizar que o lobo já fareja!

Póde alguem colorir um ceu negro e lodoso?
¿Rasgar a treva sombria,
Mais negra que o carvão, sem astro luminoso,
Sem uma luz fugidia?
Pode alguem colorir um ceu negro e lodoso?

A Esp’rança que brilhava outrora na Pousada
Extinguiu-se, morreu já!
Sem uma luz que a oriente, a alma transviada
Onde é que se albergará?
Satanaz apagou as luzes da Pousada!

Feiticeira gentil, amas os condenados
Que não logram remissão?

Conheces do Remorso os tiros disparados
Ao alvo do coração?
Feiticeira gentil, amas os condenados?

O Irreparável róe co’a dentuça maldita
Nossa alma, piedoso hospício.
E por vezes ataca, assim como a termita,
Pela base o edifício.
O Irreparável róe co’a dentuça maldita!

 

2



Algumas vezes vi, nas mágicas banaes,
Ao som de orquestras sonoras,
A fadas converter negros ceus infernaes
Em deslumbrantes auroras;
Algumas vezes vi, nas mágicas banaes,

Um pequenito ser, a espargir claridade,
Satanaz afugentar;

Mas o meu pobre peito, em negra soledade,
Cansa-se em vão a esperar
O pequenino ser a espargir claridade!


LVI

Conversação


Tu és qual lindo ceu de outono, róseo e largo!
Mas a tristeza em mim lembra revolto oceano
Que aos meus lábios imprime, em seu fragor insano.
A acidez do limão, um paladar amargo.

Retira do meu peito, o deusa, a tua mão;
Eu sei, ó minha amiga, o que buscas e queres
Mas os dentes crueis, as garras das mulheres,
Levaram-me o melhor do pobre coração!

Meu peito é como um lar p’la turba profanado
Com scenas de embriaguez e lutas carniceiras!
— Ai que perfume exala o teu colo rosado!...

Ó Beleza, ó cruel flagelo, assim ó queres!
No teu ardente olhar, n’essas vivas fogueiras,
Calcina o que escapou das garras das mulheres!


LVII

Canto de Outono


Vamos, prestes, entrar na frígida estação;
Adeus, fulgente luz dos dias estivaes!
Ouço descarregar, com notas sepulcraes,
A lenha destinada ao lume do fogão.

Torna a invadir meu ser todo o inverno: terror,
Odio, raiva, paixão, constante mal-estar;
E, como o rubro sol na fornalha polar,
Transforma-se meu peito em brasa sem calor.

Escuto, horrorizado, as madeiras caíndo;
Um cadafalso a erguer não produz som mais triste.
Como torre ou castelo, a alma não resiste
Aos botes que o ariete, audaz, vae despedindo.

Embalado p’lo som monótono, parece
Que pregam um caixão, á pressa, aqui ao lado...
O Estio vae morrer... O Outono está chegado!
O misterioso som lembra piedosa prece.




Eu amo a verde luz do teu profundo olhar,
Mas não ha nada já que minh’alma comova;
Bem mais que teu amor e tua alegre alcova
Vale hoje para mim o sol beijando o mar.

Mas não deixes de amar-me, ó alma boa e pia!
Serve de mãe ao triste, á ingrata creatura;
Amante ou minha irman, sê a efêmera doçura
D’um glorioso outono ou de um sol na agonia.

Tenho a cova a esperar l... será curta a missão.
Oh! deixa em teu regaço a fronte repousar,
E, chorando o estio ardente, saborear
A amarelida luz d’este fim de estação!


LVIII

A uma Madona


Madona, minha amante, eu quero te elevar,
No melhor do meu ser, um subterráneo altar;
Abrir no coração, recatado, escondido,
Longe dos maus, do olhar do mundo pervertido,
Um lindo nicho azul de cúpula doirada,
E ali hei de erigir-te, Imágem, deslumbrada!
Com meus Versos subtis, do mais puro metal,
N’um paciente labor, com rimas de cristal,
Formarei um Diadema enorme p’ra toucar-te;

E com meu próprio ciume hei de saber talhar-te,
Ó Madona terrestre, um Manto inegualado,
Sóbrio e farto burel de Suspeitas forrado,
Que, como uma guarita, encerre o teu encanto;
Bordá-lo-ei depois co’as perlas do meu Pranto!
Teu Vestido será meu Desejo fremente,
Que ora sobe ora desce, inquieto, impaciente,
A baloiçar no monte, a repoisar no prado,
De beijos a vestir teu corpo albi-rosado.
Farei do meu Respeito os Chapins pequeninos
Com que heide preservar-te os pèsinhos divinos,
E onde se ha de imprimir, como em cera ou em neve,
A fórma do teu pé, tam pequeno e tam leve.
Mau grado o meu esforço e toda a minha arte,
Não podendo uma Lua argêntea colocar-te
Á laia de Escabelo, hei de a teus pés depor
A Serpente infernal, o monstro roedor
Que me lacera o peito, e tu has de-a pisar,
Como um verme soez, sob o teu calcanhar.
Verás então fulgir a luz dos Sonhos meus,
Como Círios no altar da Virgem mãe de Deus,
Iluminando o fundo azul do teu abrigo,
O teu vulto a envolver n’um doce olhar amigo!
E como te estremece o que ha de bom em mim,
Tudo transformarei em Nardo e Benjoim.
E em ondas de vapor, branca Serra nevada,
Ha de elevar-se a ti, minh’Alma atormentada.

E para completar teu papel de Maria,
E para conjugar o amor co’a barbaria,

Ó negra embriaguez! dos Pecados mortaes,
Carrasco bestial, farei sete Punhaes,
Cortantes a valer, e a um por um, a eito,
A todos cravarei, ó Virgem, no teu peito,
Em pleno Coração, no teu peito anhelante,
Em teu peito a sangrar, Madona, minha amante!


LIX

Canção da Sésta


Embora no teu olhar
Não brilhe a calma das santas,
Não deixarei de te amar,
Feiticeira que me encantas,

Ó volúvel, eu te quero
Com uma ardente paixão,
Como um devoto sincero
Á sua religião.

Tua basta cabeleira
É uma selva olorosa;
A cabeça prazenteira:
Esfinge misteriosa;

Tua carne palpitante
É um turib’lo permanente;
Minha noite deslumbrante,
Ninfa tenebrosa e quente!

Tu ressuscitas um morto
Do teu olhar com a ardência;
Não ha filtro nem conforto
Que valha a tua indolência!

Teus flancos são orgulhosos
Das tuas graças trigueiras;
Os teus modos langorosos
Fascinam as travesseiras.

A’s vezes, para aplacares
A raiva que te flagela,
Dás-me, preciosos manjares,
Quanto beijo e mordedela!

Dilaceras.me, querida,
Maldosa, a rir, a brincar,
E p’ra curar a ferida
Dás-me a luz d’um meigo olhar.

Sob os teus pés pequeninos,
Sob os teus chapins risonhos,
Eu coloco os meus destinos,
O meu talento, os meus sonhos,

E a minh’alma, que salvaste
Furtando a á treva funérea!
Luz viva que despontaste
Na minha fria Sibéria!


LX

Sisina


Imaginae Diana, em trajos deslumbrantes,
Batendo na floresta as moitas de espinheiros;
Ao vento o colo nu e as tranças luxuriantes,
Soberba, a desafiar os melhor’s cavaleiros!

¿Não vistes Théroigne, ébria pela carnagem,
Excitando ao assalto a canalha brutal,
Febril, no seu papel de grande personagem,
A invadir, sabre em punho, o palácio real?

A Sisina é assim, mas a gentil trigueira
É tambem caridosa, assim como é guerreira;
Não obstante a embriaguez do campo da batalha,

Ouvindo suplicar, seréna por encanto,
E o seu peito assolado, enternecido, espalha
Sobre o ente infeliz o bálsamo do pranto.


LXI

Versos para o retrato
de Honorato Daumier


Esta é a imagem d’aquele
Alto engenho incomparado
Que a saber rir de nós mesmos,
Leitor, nos tem ensinado.

Brinca e moteja de tudo;
Mas, quando nos pinta o Mal
E o seu cortejo de horrores,
Que energia! que moral!

Seu riso não é a máscara
Que um Mefisto se afivela,
Riso que lhe queima as faces,
E que as nossas almas gela.

Um tal riso é da Alegria
Soturna caricatura;
O seu, não; é claro, é franco,
Retrata a sua alma pura!


LXII

A Tampa


Onde quer que éle vá, na terra ou no oceano,
Sob um clima de fogo ou sob um ceu gelado,
Missionário de Cristo ou D. João mundano,
Mendigo tenebroso ou rico potentado,

Cidadão, camponez, sedentário, gaudério,
Seja embora o seu cer’bro activo ou preguiçoso,
Ao homem sempre invade o terror do mistério,
E quando encara a altura é com o olhar medroso.

A altura o Céu! Caixão funéreo, grande estufa,
Tecto jorrando luz sobre uma ópera bufa
Onde cada histrião n’um tremedal se arrasta;

Terror do libertino, esp’rança do eremita,
O Céu, o Céu! a tampa enorme da marmita
Onde ferve, mesquinha, a Humanidade vasta.


LXIII

A uma senhora creoula


No oloroso país que o sol acaricia,
Sob um rubro docel de plantas trepadeiras,
Á sombra preguiçosa e amiga das palmeiras,
Encantadora creoula eu conheci um dia.

Que ardente palidez no seu rosto moreno!
Que graça juvenil no colo delicado!
Que donairoso corpo, esbelto e bem lançado!
Que tranquilo sorrir! que firme olhar sereno!

Se algum dia, Senhora, a França visitar,
O glorioso país dos rios Sena e Loire,
— Ó digna castelan dos tempos medievaes,

A luz do seu olhar, nas alfombras discretas,
Fazendo enlouquecer os corações dos poetas,
Renderá a seus pés alguns escravos mais!


LXIV

Moesta et errabunda


Diz-me, o teu coração não tem vôos, Donata?
¿Não se eleva do mar d’esta imunda cidade,
Buscando um outro oceano onde a luz se desata,
Clara, profunda e azul como é a virgindade?
Diz-me, o teu coração não tem vôos, Donata?

O mar, o vasto mar, embala a nossa dor!
¿Quem demónio dotou o mar, cantor de fama,
Que acompanha o orfeão do vento roncador,
Com o sublime «ó-ó» da nossa velha ama?
O mar, o vasto mar, embala a nossa dor!

Transporta-me, vagão! conduze-me, fragata!
Longe 1 longe d’aqui l d’esta vala de horrores!
— ¿Não te sucedeu já, minha triste Donata,
Dizer: – Longe do mal, d’este inferno de dores,
«Transporta-me, vagão I conduze-me, fragata?»

Que longe estás de nós, oásis perfumado,
Clara região azul cheia de amor e paz,
Onde tudo que existe inspira ser amado!
Onde n’um doce enlevo a alma se compraz!
Que longe estás de nós, oásis perfumado!

Mas o verde jardim dos amor’s de creança,
Os jogos, as canções, os beijos e os raminhos,
As festas ao ar livre, a turbulenta dansa,
O vinho em cangirões, discretos segredinhos...
— Mas o verde jardim dos amor’s de creança,

o éden sem egual dos prazeres furtivos,
Onde é que se sumiu?’Stá na India ou na China?
Podêmo-lo chamar com gritos aflitivos?
Porventura ouvirá nossa voz argentina
O éden sem egual dos prazeres furtivos?


LXV

Alma do outro mundo


Pela noite silenciosa,
Como um fantasma, entrarei
Na tua alcova olorosa,
E o teu leito alcançarei;

E na tua pel’ ardente
Darei beijos de metal,
E carícias de serpente,
Como um duende infernal.

Ao despontar da alvorada,
Hás de ver-te abandonada,
Regelido o meu lugar..

Como outros pela ternura,
Sobre ti, ó creatura,
Pelo terror vou reinar!


LXVI

Soneto outonal


Leio no teu olhar claro como um cristal:
«Que é que notas em mim que o teu amor excita?»
— Sê formosa, e emudece! Hoje tudo me irrita,
Excepto a candidez feminina ancestral;

Não queiras profundar meu segredo infernal,
História pavorosa a ferro e fogo escrita!
Deixa-me adormecer, sonhar, fada bemdita!
Aborreço a paixão, como aborreço o mal!

Amêmo-nos sem febre. O Amor, o deus astuto,
Tenebroso, embuscado, arma, no seu reduto,
Os pérfidos arpões, a trempe conhecida:

Crime, Loucura e Horror! — Ó meu lirio do val’,
Não serás tu, como eu, triste sol outonal,
Ó pálida, ó gentil, ó fria Margarida?


LXVII

Tristeza da Lua


Com que indolência a Lua hoje no céu divaga!
Lembra gentil mulher, em perfumado leito,
Que, antes de repousar, blandiciosa, afaga
Com a mão distraída os contornos do peito.

Sobre o fofo divan das núvens transparentes,
Expira, a contemplar, n’um goso inegualado,
As fagueiras visões, níveas, opalescentes,
Que povôam o céu azul todo estrelado.

Se ás vezes do seu pranto uma lágrima escorre
Sobre a face da noite, e á terra chega viva,
Logo um piedoso poeta a lobriga e socorre;

E com desvelo e amor trata de a agasalhar,
Abrigando no peito a lágrima furtiva,
Onde não entra o Sol, que a faca evaporar!


LXVIII

Os Gatos


Os loucos de paixão, e os sábios mais prudentes,
Teem um amor egual, quando sexagenários,
Por esses animaes de pupilas ardentes,
Á sua imitação: friorentos, sedentários.

Devotos da sciência, amigos dos mistérios,
Procuram o silêncio, a treva, a quietação;
Por certo, eram de Erébo os ginetes funéreos,
Se a orgulhosa altivez dobram á escravidão.

Sabem tomar, sonhando, os modos imponentes
De esfinges colossaes nas areias dormentes,
N’um profundo dormir, n’um sonho peregrino;

Os fecundantes rins geram chispas electricas,
E as pupilas a arder, em labaredas tetricas,
Teem brilhos de areal, fulgências de ouro fino!


LXIX

Os Mochos


Sob os teixos onde habitam,
Os mochos formam em filas;
Fulgindo as rubras pupilas,
Mudos e quietos, meditam.

E assim permanecerão
Até o Sol se ir deitar
No leito enorme do mar,
Sob um sombrio edredão.

Do seu exemplo, tirae
Proveitoso ensinamento:
— Fugí do mundo, evitae

O bulício e o movimento...
Quem atrás de sombras vae,
Só logra arrependimento!


LXX

O Cachimbo


Trigueiro, negro, enfarruscado,
Sou o cachimbo d’um autor,
Incorrigível fumador,
Que me tem já quase queimado.

Quando o persegue ingente dôr,
Eu, a fumar, sou comparado
Ao fogareiro improvizado
Para o jantar d’um lenhador.

Vae envolver-lhe a torva mente
O fumo azul e transparente
Da minha boca em erupção...

A sua dor, prestes, se acalma;
Leva-lhe o fumo a paz á alma,
Vae alegrar-lhe o coração!


LXXI

A Música


A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas e temporaes, ciclones, convulsões

Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!


LXXII

Sepultura d’um poeta maldito


Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristão, por piedade,
Te conceder sepultura
Nas ruínas d’alguma herdade,

As aranhas hão de armar
No teu’coval suas teias,
E nêle irão procrear
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
— Em constantes comoções,

Has de ouvir lobos a uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladrões.


LXXIII

Uma gravura fantástica


Om vulto singular, um fantasma faceto,
Ostenta na cabeça horrivel de esqueleto
Um diadema de lata, — unico enfeite a orná-lo.
Sem espora ou ping’lim, monta um pobre cavalo,
Um espectro tambem, rocinante esquelético,
Em baba a desfazer-se como um epilético.
Atravessando o espaço, os dois lá vão levados.
O Infinito a sulcar, como dragões alados.

O cavaleiro brande um gládio chamejante
Por sobre as multidões que pisa o rocinante.
E como um gran-senhor, que seus reinos visite,
Percorre o cemitério enorme, sem limite,
Onde jazem, no alvor d’uma luz branca e terna,
Os povos da História antiga e da moderna.


LXXIV

O Morto prazenteiro


Onde haja carações, n’um fecundo torrão,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubarão

Detesto os mausoleus, odeio os monumentos,
E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vae entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podridão!

Sem piedade, minae a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!


LXXV

O Tonel do Rancor


O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;
A Vingança, febril, grandes olhos absortos,
Procura em vão encher-lhe as trevas profundíssimas,
Constante, a despejar pranto e sangue de mortos

O Diabo faz-lhe abrir uns furos misteriosos
Por onde se estravasa o líquido em tropel;
Mil anos de labor, de esforços fatigosos,
Tudo seria vão para encher o tonel.

O Rancor é qual ébrio em sórdida taverna,
Que quanto mais bebeu inda mais sede tem,
Vendo-a multiplicar como a hidra de Lerna.

— Mas se o ébrio feliz sabe com quem se avem,
O Rancor, por seu mal, não logra conseguir,
Qual torvo beberrão, acabar por dormir.


LXXVI

O Sino rachado


Como é amargo e bom, no inverno, junto ao lar,
Sentindo consumir a madeira que fuma,
Saudosas ilusões de outrora recordar,
Ouvindo os carrilhões bimbalhando na bruma.

Como o sino é feliz! Velhinho vigoroso,
Tem notas de cristal na conservada guela,
Fazendo retinir seu timbre religioso,
Como n’uma guarita a voz da sentinela!

Quanto a mim, a minh’alma está rachada, e quando
Procura uma canção desferir, povoando
O ar frio da noite, a sua voz exangue

Sôa como o estertor d um soldado ferido,
Sob um grande montão de mortos, esquecido,
Manietado, a expirar n’um tremedal de sangue!


LXXVII

Obsessão


Os bosques para mim são como catedraes,
Com organs a ulular, incutindo pavor...
E os nossos corações, — jazidas sepulcraes,
De Profundis tambem soluçam, n’um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh’alma! O riso singular
E amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
É um riso semelhante ao do soturno mar.

Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constela,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téla,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares,
Os entes que perdi, — espectros familiares!


LXXVIII

Sedução do Nada


¿Ó espírito meu, na apatia e no luto,
Que é do fogo de outrora, aquele antigo ardor
Que a Esp’rança esporeou?... Vá, não tenhas pudor,
Estende-te a dormir, cavalo irresoluto!

Descansa, coração; dorme em paz como um bruto.

Espírito vencido e escarnecido! O amor
E a luta já não teem para ti seduções;

Adeus, cantos gazís, meigas orquestrações!
Prazeres, não tenteis meu peito sem calor!

Perdeu a Primavera o seu perfume e côr!

O Tempo, dia a dia, afunda-me consigo,
Como a neve cobrindo um corpo regelado;
Do alto, vejo a meus pés o globo arredondado,
Onde nem já procuro o mais pequeno abrigo!

Avalancha, não quer’s sepultar-me comtigo?


LXXIX

Spleen

 

Quando o cinzento ceu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D’onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;


Quando a chuva, caíndo a cântaros, parece
D’uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

— Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os ceus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funeraes deslisam tristemente
Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angustia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!


LXXX

Tédio


Tenho as recordações d’um velho milenário!

Um grande contador, um prodigioso armário,
Cheiinho, a abarrotar, de cartas, memoriaes,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigaes,
Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo.
Meu cer’bro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!

— Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,
Atacam de pref’rência os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no chão as modas despresadas,
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher
Fruem o doce olor d’um frasco de Gellé.

Nada póde egualar os dias tormentosos
Em que, sob a pressão de invernos rigorosos,
Tédio, fruto inf’liz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.

— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d’um Saarah movediço, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sôno misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!

 
FIM

Indice


FLORES DO MAL
I — 
 23
II — 
 27
III — 
 29
VI — 
 37
VII — 
 41
VIII — 
 43
IX — 
 45
X — 
 47
XI — 
 49
XII — 
 51
XIII — 
 53
XIV — 
 55
XVII — 
 61
XVIII — 
 63
XIX — 
 65
XX — 
 67
XXI — 
 69
XXII — 
 73
XXIII — 
 75
XXIV — 
 77
XXV — 
 79
XXVI — 
 81
XXVII — 
 83
XXVIII — 
 85
XXXII — 
 97
XXXIII — 
 99
XXXIV — 
 101
XXXV — 
 103
XXXVI — 
 105
XXXVII — 
 107
XXXVIII — 
 109
XXXIX — 
 
1 — As trevas 
 111
2 — O perfume 
 112
3 — A moldura 
 113
4 — O retrato 
 114
XL — 
 117
XLI — 
 119
XLII — 
 121
XLIII — 
 123
XLIV — 
 125
XLV — 
 127
XLVI — 
 129
XLVII — 
 133
XLVIII — 
 135
XLIX — 
 137
L — 
 139
LI — 
 141
LII — 
 143
LIII — 
 147
LV — 
 155
LVI — 
 159
LVII — 
 161
LVIII — 
 163
LX — 
 171
LXII — 
 175
LXVI — 
 183
LXVII — 
 185
LXVIII — 
 187
LXIX — 
 189
LXX — 
 191
LXXI — 
 193
LXXIV — 
 199
LXXV — 
 201
LXXVI — 
 203
LXXVII — 
 205
LXXVIII — 
 207
LXXIX — 
 209
LXXX — 
 211